Chapter Text
Era uma perfeita tarde ensolarada na cidade de Tadfield. Na pequena rua suburbana onde ambos garotos principais desta história viviam, as casas pareciam cópias umas das outras, cada uma com seus jardins impecavelmente cortados, cercas impecavelmente brancas, árvores que impecavelmente nunca pareciam mudar e decorações à se impecavelmente questionar o gosto do dono. Era o lugar perfeito para um adolescente sobreviver à escola sem chamar muita atenção, e era exatamente isso que Anthony J. Crowley e Azira A. Phale faziam.
Crowley, tinha cabelos mal pintados de vermelho cuidadosamente arrumados para parecerem com desleixo, mas para continuarem estilosos, não era do tipo de ser super sociável, mas, por algum motivo, as pessoas gritavam loucas em torno dele. Talvez fosse o carro meio velho, mas ainda assim interessante para alguns amantes da arte - um Bentley anos 60 clássico, vintage - ou talvez fosse a jaqueta de couro que sempre usa, sempre ouvindo Mötley Crüe ou alguma fita de David Bowie no volume máximo. Ele era popular, mas não daquele jeito de jogar futebol americano e comer todas as líderes de torcida. Na verdade, ele preferia ficar em seu quarto escuro de janelas blackout, assistindo "Pretty in Pink" pela milésima vez e se perguntando por que diabos tinha de ir para a escola no dia seguinte.
Já Aziraphale, na casa ao lado, era praticamente invisível. Mesmo que ele quisesse, ninguém o notava muito. Ele era do tipo que fazia as tarefas no prazo, respondia corretamente na aula, mas seu nome sempre era esquecido do cérebro das pessoas. Se houvesse um "Clube dos Esquecidos", ele seria o presidente. Sua ideia de diversão não era referente a video games, nem a garotas, nem a vídeos pornôs, — adendo importante de que ele nunca os vira nem sequer uma vez na vida — mas sim coisas antiquadas, como se perder entre as estantes de livros da biblioteca, tomar chocolate quente em dias de neve e assistir a algum filme antigo em preto e branco enquanto o resto do mundo estava obcecado com "Caça-Fantasmas" ou "De Volta Para o Futuro". Aziraphale gostava de jazz — tipo, do Louis Armstrong —, e achava que as músicas modernas estavam sempre "um pouco barulhentas demais".
Nossos dois garotos eram vizinhos desde que nasceram, mas, estranhamente, seus mundos nunca colidiram muito profundamente, coisas com um cumprimento breve de cabeça geralmente não correspondido ou esperas interminavelmente desconfortáveis pelo final da conversa de suas mães.
Crowley estava sempre de óculos escuros, ou no seu quarto trancado, ou cuidando do jardim de sua mãe, que quase nunca estava na casa, ou de carro pela rua e desaparecendo sem mais nem menos, enquanto Aziraphale ficava no jardim com seu livro, pensando em como os pássaros pareciam cantar melhor na companhia de uma boa leitura e chá. Tudo isso era confortável, tudo isso era estrategicamente planejado para não ter encontros, tudo era perfeito, até o inevitável momento em que seus destinos foram obrigados a se cruzarem.
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Foi uma manhã de segunda-feira quando a bomba caiu — não literalmente, claro.
Na sala de aula, o professor Morty (ou Morte para íntimos) anunciou o terror de qualquer estudante que queria manter sua bolha de isolamento intacta:
— Vocês dois serão parceiros neste projeto de história.
Crowley, que estava de fones de ouvido escutando "Sweet Child O' Mine" e nem prestando atenção na aula como de costume, só percebeu que algo estava errado quando viu Aziraphale, do outro lado da sala, olhá-lo com aquela expressão pálida de quem acabou de receber uma má notícia.
— Uhm... Professor, você poderia repetir? Eu tava anotando umas coisas e não prestei atenção. — Que péssima desculpa.
— Para variar um pouco não é, senhor Crowley? — Professor Morte assume cansado — Eu disse que você e Aziraphale irão fazer a atividade avaliativa deste mês juntos.
— Você tá louco? — Crowley pergunta sincero.
— Senhor Morty, posso fazer uma objeção? — Azira diz como se estivesse prestes a ser condenado à morte.
— "objeção"?! — Anthony com um olhar de julgamento fala em um tom baixo, mas alto o suficiente para Aziraphale virar irritado para ele.
— E você esta a chamando o professor Morty de louco. — Aziraphale fala seco, com um olhar de julgamento maior que de Crowley, como se o que o outro tivesse acabado de dizer fosse uma blasfêmia.
— Será que os dois poderiam se acalmar? Você vão fazer este trabalho, vocês querendo ou não. — Professor Morty afirma decidido — E eu estou pouco me fudendo se vocês não querem ficar juntos, eu tô nesse trabalho desde o começo doa tempos então.. — Morty diz em sussurro para si mesmo.
Aziraphale afundou ainda mais na cadeira, enquanto todos os olhares da turma se voltavam para os dois. Agora sim ele foi condenado a cadeira elétrica.Um popular discreto recebendo olhares de pena e um invisível recebendo olhares de inveja. Um verdadeiro filme dos anos 80...
"Eles só podem estar de sacanagem", pensou Crowley, mas a ironia de toda a situação era tão clichê que ele quase riu de nervoso.
Aquela seria a primeira vez que trocariam mais do que olhares casuais de vizinhos, e isso prometia ser... interessante.
No decorrer do final da aula o professor entregou a grade de avaliação com todos os tópicos necessários, nesse momento todos os alunos olharam com raiva para o professor. A avaliação mais importante do momento que iria garantir a nota final da maioria dos alunos era um teatro sobre uma época importante.
Neste momento Aziraphale sentiu um frio na barriga, mas estava feliz por saber praticamente tudo sobre história. Crowley entretanto gelou por completo, sendo bem realista ele nem sabia oq era escambo.Todos se juntaram em suas duplas e, a maioria, começou a trabalhar. Crowley encarava o papel à sua frente como se fosse um enigma de outro planeta.
— Teatro? Sério? Eu mal consigo me lembrar de como fazer uma redação, e agora isso? — Ele virou-se na cadeira, lançando um olhar desesperado para o teto da sala.
Enquanto isso, Aziraphale já estava a mil por hora. Ele rabiscava freneticamente em seu caderno, murmurando datas e referências históricas. Era claro que ele já tinha várias ideias.
— Se for sobre a Revolução Francesa, poderíamos começar com a queda da Bastilha... ou talvez algo mais dramático, Segunda Guerra... Ainda não aprendemos isso. — Aziraphale se corrige antes que Crowley possa fazer isso. Adendo importante: Ele não ia.
Crowley o observava com um misto de irritação e confusão: — O que diabos você está falando? — Ele revirou os olhos e bufou, o que não passou despercebido por Aziraphale.
— Qual é o seu problema? — Aziraphale perguntou, sem levantar os olhos do caderno. — Se você não fizer sua parte, Crowley, vamos falhar. E eu não vou permitir isso. — Amthony sorriu de lado, aquele sorriso cínico que irritou Aziraphale profundamente.
Aparentemente neste momento Aziraphale estava decidido que odiava a presença de Crowley.
— Relaxa, Phale, — Crowley respondeu, esticando os braços na parte de trás da cadeira de Aziraphale — Eu não vou deixar você fazer tudo sozinho. Você é o cérebro, e eu... Bom, eu sei improvisar.
Aziraphale, no entanto, não parecia convencido. Ele cerrou os olhos, como se já previsse a tragédia que estava por vir. Tirou o braço de Anthony de sua cadeira de forma indiscreta e sinceramente rude. "Improvisar" e "Crowley" não pareciam palavras que combinavam muito bem com a palavra "sucesso".
— Você sequer sabe quem é Adam Smith? — Aziraphale soltou, com um tom de desafio.
Crowley arqueou uma sobrancelha, fingindo estar ofendido. — Claro que sei! — Ele fez uma pausa, tentando pensar em algo convincente. — É tipo... O cara que fez os Illuminati?
Aziraphale suspirou profundamente, mas havia um leve sorriso de satisfação no canto dos lábios, saber que ele era mais inteligente do que quem estava do seu lado o deixava incrivelmente satisfeito.
— Incrível. Um gênio em nossa presença.
Crowley riu achando que estava certo. — Você deveria relaxar mais, Phale. A gente se vira. Nem tudo precisa ser um drama shakespeariano.
Aziraphale parou por um momento, levantando a cabeça e encarando Crowley diretamente. — E você deveria levar as coisas mais a sério, Anthony. Não estamos falando de um filme dos anos 70, onde tudo magicamente dá certo no final.
Crowley deu de ombros, mas algo no tom de Aziraphale fez seu sorriso vacilar por um segundo."Eu odeio como ele sempre se acha o dono da verdade" pensou Crowley, tentando ignorar a sensação de que, de algum jeito, Aziraphale estava certo.
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Após a aula, todos os estudantes e professores saíram apressados de suas classes. Todas os alunos estavam marcando de se encontrar uns na casa dos outros para poder acabar o trabalho o mais rápido possível, entretanto Azira e Anthony decidiram marcar na biblioteca.
Acho que nesse começo eles entraram em um consenso silêncio de que não gostariam de visitar a casa do outro (por mais que fossem grudadas).
Crowley foi em direção ao seu armário que era perto da sala de matemática, ele o abre e coloca alguns cadernos velhos, a maioria deles tinha estrelas rabiscadas por toda parte ao invés de ter matéria.Espalhado pelo armário haviam algumas fitas de bandas de rock, blusas de frio reserva e pôsteres, a grande maioria deles era do Queen ou desenhos de filmes que ele gostava. Aziraphale, diferente da maioria dos alunos, não utilizava muito seu armário, o abria apenas 2 vezes ao dia: (1) No começo das aulas, para pegar todos os livros que iria usar e um grande caderno de 15 matérias que geralmente carregava nos braços, (2) No final das aulas para guardar todos os materias novamente.
Crowley e Phale se encontraram na biblioteca para discutir o projeto. Ou melhor, o loiro chegou na hora marcada e Anthony apareceu meia hora depois.
Azira não era o tipo de pessoa que acreditava em lição de casa, pelo motivo de que para ele toda e qualquer lição poderia ser muito bem feita em classe. Crowley também não acreditava em lição de casa, mas, como um clássico preguiçoso, para ele seria algo como "se eu já tenho que estudar 5 horas, por que eu tenho que levar o estudo pra casa?!".
Aziraphale já estava com os livros empilhados, prontos para começar, quando Crow chegou quase 20 depois com algumas revistinhas para criança, o loiro levantou a cabeça com olhos cansados e sarcástico comentou:
— Que bom que você decidiu ajudar. — Crowley se jogou na cadeira à sua frente e sorriu.
— Tô aqui, não tô? — Aziraphale suspirou, já percebendo que essa parceria seria mais difícil do que ele pensava.
— Vamos precisar escolher um tema. — Ele disse, já preparando os argumentos para defender suas ideias. — Eu estava pensando em fazer algo sobre a Grécia Antiga. Podemos explorar o impacto da democracia ou a filosofia de Sócrates...
Crowley, por sua vez, se esticou na cadeira e cruzou os braços. — Ou... a gente pode fazer algo mais... sei lá, interessante? Tipo, a Idade Média, cavaleiros, duelos... tem muito mais ação nisso!
— Você realmente não tem ideia do que está falando, tem? — Aziraphale lançou um olhar de julgamento.
— O que posso dizer? Gosto das espadas. — Crowley sorriu, ignorando o tom crítico.
Azira balançou a cabeça incrédulo e bufou. — Claro que gosta...
Enquanto discutiam o tema do projeto, ficou claro para ambos que essa colaboração seria um campo minado. Eles discordaram sobre tudo — desde o tema até a abordagem. Era como se não conseguissem encontrar um único ponto em comum.
Aos poucos, as pequenas irritações e discordâncias estavam se transformando em algo mais, não existiam palavras certas para descrever a imensa vontade- não, a imensa necessidade que eles tinham de... socar um ao outro!
— Mas que porcaria, Anthony! Quantas vezes eu já falei que não vamos fazer uma "câmara de gás" na escola! — O rosto de Azira estava ficando cada vez mais irritado, mais do que Anthony imaginava ser possível.
— Tá bom, sem câmaras de gás. Mas posso ser Hitler? — Crowley perguntou, se apoiando na mesa como se estivesse fechando um acordo.
— Não! — O rosto de Aziraphale contorcido em indignação era quase cômico. Se fosse um pouco mais vermelho, ele poderia explodir.
— Mas que merda! Eu não vou poder fazer nada de interessante! — o ruivo se jogou para trás na cadeira, equilibrando-se nas duas pernas, com uma mistura de frustração e puro drama.
— A culpa não é minha se o nazismo é errado! — Azira rebateu, tentando soar lógico, mas sua paciência estava se esgotando. — e outra a gente nem estudou isso.
— Aff, era só uma piada! - Crowley rolou os olhos, usando a desculpa clássica de qualquer adolescente que falou merda. — Que tal a gente vestir-
-— Nem vem com essa de armaduras, Anthony. — Aziraphale interrompeu, massageando as têmporas como se estivesse prestes a perder a cabeça.
O loiro suspira irritado, mas tenta se manter positivo, ele volta com a expressão neutra que sempre tem, ele olha para o bloco de notas com meia dúzia de idéias, sendo que metade estava riscada.
— Que tal a gente interpretar a criação da Terra? — sugeriu Aziraphale, um brilho de esperança voltando aos seus olhos. — Adão e Eva!
— Eu ACHO que eu não quero andar pelado pelo palco e ser seu marido, Phale.
— Ah, verdade. — nudez é uma ideia assustadoramente horrível, apesar de estarem interpretando algo muito conhecido, um homem e uma mulher. Mulher? —Espera, por que eu seria a mulher?!
Depois de duas horas de debates completamente inúteis, ambos chegaram à mesma conclusão inevitável:
— Nós vamos tirar um zero. — Aziraphale afirmou, exasperado.
— Senhor Jesus, me dê paciência e me salve. — Ele começou a murmurar uma prece desesperada.
— Buda, Jesus, Satanás, Axé... me ajuda a passar de ano. — Crowley, numa imitação nada sutil, juntou-se ao pedido espiritual de Aziraphale.
— Honestamente, Anthony, não sei o que é pior: você mencionar o nome de Satanás ou pronunciar o nome de Exu errado. — Phale lançou um olhar crítico, pela décima vez nos últimos cinco minutos.
— Oxi, mas você não era católico? — Crowley retrucou, sem entender a gravidade da situação.
— Sim, mas isso não significa que eu sou ignorante em relação a outras religiões. — Aziraphale piscou lentamente, como se estivesse explicando algo óbvio a uma criança.
Um silêncio pairou por alguns segundos, até que Crowley se ajeitou na cadeira, olhando Aziraphale com uma expressão que era quase... séria. — E que tal a Era Vitoriana? Revolução Industrial, drama, roubo de cadáveres, cartolas. Parece bem a nossa praia. — Ele disse com um sorriso desafiador, tentando soar mais convincente do que realmente estava.
— Roubo de cadáveres? Eu não acho que essa parte seja a minha praia, Anthony. — Aziraphale respondeu como se estivesse comentando o tempo, mas o tom carregado de julgamento.
— Não, não, sem cadáveres! Eu tô falando da parte nerd. Revolução Industrial, tecnologia, você ama esse tipo de coisa, né? E, convenhamos, você ia ficar ótimo numa roupa vitoriana com aquelas camisas bufantes...
— Agora que você falou... cartolas são legais. — Aziraphale murmurou, um sorriso pequeno escapando, como se ele não quisesse admitir, mas fosse impossível resistir. Crowley se inclinou na cadeira, balançando a cabeça em aprovação exagerada.
— Viu só? Até que você tem bom gosto pra algumas coisas, Phale. — Ele piscou com um sorriso pouxo convencido surgindo.
Aziraphale revirou os olhos, embora uma parte dele estivesse satisfeita em ter finalmente encontrado um ponto em comum, mesmo que fosse sobre cartolas e a Era Vitoriana.
Eles voltaram ao trabalho, desta vez em um silêncio um pouco menos tenso. Aziraphale rabiscava anotações sobre a Revolução Industrial, e Crowley, como sempre, fingia que estava ajudando, mexendo em seu caderno sem anotar uma única palavra.
Depois de alguns minutos, Aziraphale não resistiu e olhou de relance para Crowley, que estava apoiado na cadeira com as mãos atrás da cabeça, como se o mundo fosse seu palco e ele o protagonista relaxado de um filme adolescente. Quando olha para seu caderno consegue ver apenas alguns desenhos bobos, como Anthony vestido com roupas vitorianas fazendo gestos obscenos, ou apenas ideias de roupas que ele - e apenas ele - poderia usar ou apenas estrelas bobinhas.
Crowley não admitiria em voz alta, mas ele começava a achar engraçado o jeito como Aziraphale levava tudo tão a sério. E, por mais que não quisesse admitir, Aziraphale sentia uma estranha admiração pela forma como Crowley parecia tão à vontade consigo mesmo, mesmo sendo, ao seu ver, incrivelmente irresponsável.
