Chapter Text
“Muitas fe-li-ci-da-des…” Akk cantarolou acompanhado dos amigos —Watt, Kan, Thua e Namo— enquanto se aproximava de seu melhor amigo. Nas mãos, o bolo de aniversário com temática de estrelas e um par de velas que indicava ‘25’. “Muitos anos de vida!” Ele pronunciou, olhando Ayan nos olhos.
Ayan inclinou-se e soprou as velas, e os demais aplaudiram alegremente, inclusive outros clientes do restaurante que sequer os conheciam. Ayan tomou o bolo em mãos e o colocou sobre a mesa para então puxar Akk para um abraço.
“Feliz aniversário, Aye,” Akk disse baixinho, e Ayan apertou um pouco o abraço, aconchegando-se em seus braços.
Não demorou muito até que os outros quatro se juntassem aos dois em um abraço coletivo —todos embalando o aniversariante de um lado para outro até Ayan reclamar do calor da aglomeração e do movimento, que lhe causava enjoo, dispersando o grupo de volta a seus lugares na mesa do restaurante.
A decoração rústica do ambiente despendia um espaço especial, adornado com pequenas lâmpadas incandescentes, para um mural de fotos do grupo de amigos. Fotos da época da escola e, principalmente, dos bastidores do longa ‘ O Eclipse ’, o qual o grupo produziu durante o primeiro ano do Ensino Médio, e que alavancou a carreira de Watt como diretor e, posteriormente, de Akk e Ayan como atores.
“Vamos, abram espaço para a comida!” Disse Jô, tia de Kan, ao adentrar o salão com duas bandejas em mãos, e os garotos prontamente se mobilizaram para ajudar.
“Olhe só pra você, Aye! Vinte e cinco anos!” A mulher tomou o aniversariante pelas mãos e girou-o em torno de si, assentindo em satisfação quando o rapaz o fez.
“Um pouco acima do peso, não é?” Ayan inquiriu, ao que a mulher estalou a língua e rolou os olhos.
“Um tchutchuco, isso sim!”
Tia Jô era uma mulher de rosto e olhos redondos, lábios perpetuamente pintados de magenta e baixa estatura —ao menos três cabeças menor que o sobrinho. Apesar disso, aos olhos de Ayan, ela sempre aparentava ter o dobro da estatura quando Kan tirava-a do sério.
O jantar seguiu sem muita bagunça, apesar dos chiliques de Kan toda vez que Watt pedia que parassem o que estavam fazendo para posar para a câmera e da inevitável troca de farpas entre os dois. Thua comia calmamente, ignorando as peripécias de Kan, e Namo comentava animadamente sobre jogos online com Akk, que dividia sua atenção entre explicar uma nova estratégia, repreender Kan por suas infantilidades, e colocar um pouco mais de almôndegas no prato de Ayan, que em troca comia os vegetais que Akk empurrava para o canto do próprio prato enquanto conversava com Watt sobre os filmes indies da temporada.
No fim do jantar, quando todos já estavam com seus estômagos cheios e as conversas todas em dia, Kan sugeriu que o grupo jogasse algo para manter o humor em alta enquanto bebericavam suas bebidas. Um simples jogo de verdade ou desafio que no fim das contas parecia mais uma roda de fogueira, já que todos tinham trabalho no dia seguinte e preferiam responder as perguntas a tomarem uma dose de licor.
“Quem foi o primeiro beijo do Akk?” Namo perguntou para Ayan após girar a garrafa no centro da mesa. “E não vale dizer que foi você no ensino médio. Beijo de atuação não conta.”
A essa altura, o jogo tinha evoluído para uma espécie de trivia.
“P’Fah, no segundo ano de faculdade.” Ayan respondeu com convicção.
Kan franziu o cenho e virou-se para Ayan.
“P’Fah? Do curso de Sociologia?” Ele indagou, ao que Ayan assentiu enquanto tomava um gole de cerveja.
“Eles ficaram juntos por uns… Oito meses?” Ele ponderou, e Akk concordou com a cabeça, o que fez Kan colocar a mão sobre o peito e contorcer o rosto dramaticamente.
“Estou muito sentido, Akk.” Ele disse em um falso tom de mágoa. “Como assim você namorou uma das beldades do campus e não me contou?”
“Akk tinha um crush nela desde o ensino médio.” Watt acrescentou sem muita emoção, e Akk revirou os olhos em resposta.
“Eu não tinha um crush nela, eu apenas a achava bonita.”
“É sério que isso é o que vocês acham mais estranho nessa história toda?” Namo indagou. “Ninguém registrou o fato de que ele só beijou alguém no segundo ano da faculdade?”
Todos na mesa olharam para Namo. Kan franziu o nariz e jogou a cabeça para trás, um tanto exasperado.
“O que quer dizer? Por que isso seria estranho?” Ele questionou, passando o braço por trás dos ombros de Thua.
“É, por que isso seria estranho?” Watt também quis saber.
Namo deu de ombros, um pouco sem jeito por ter tantos pares de olhos voltados para si. Bebeu alguns goles de cerveja, como se para criar coragem —não que ele tivesse receio de falar o que pensa na presença dos amigos.
“Quando foi que você deu o seu primeiro beijo, então?” Akk perguntou, a voz desprovida de qualquer julgamento.
“No ensino médio.” O rapaz mais baixo respondeu prontamente.
“Namone?” Akk perguntou novamente, mas soava mais como se ele estivesse afirmando.
Namo assentiu e sorriu ao recontar o primeiro beijo que ele e a namorada deram em um parque temático, no topo da roda gigante. Uma cena bela e clichê de filmes e séries românticos.
Kan riu um pouco mais alto que de costume em razão do álcool.
“Você namora a garota desde o ensino médio, até entrou pro clube de monitores só para impressioná-la, falando breguices do tipo ‘ Até os nossos nomes combinam! ’, e acha que o Akk é o estranho?” Ele argumentou divertidamente.
“Não se esqueça do detalhe do horóscopo,” Watt acrescentou.
“E da diferença de altura,” Akk disse por fim.
Namo jogou alguns amendoins na direção dos amigos como forma de retaliação, mas riu junto de todo modo, ainda sentindo-se leve e contente por estar entre eles e por relembrar os dias de escola. E, verdade seja dita, ele e Namone combinavam em tudo, de fato. Era como se os dois estivessem sempre na mesma frequência.
Do outro lado da mesa, Ayan esvaziou sua garrafa e escorou-se na lateral de Akk, que voltou a atenção para ele imediatamente, afastando os cabelos de sua testa ligeiramente suada e soprando-a para aliviar um pouco do calor. A sensação foi tão reconfortante que Ayan fechou os olhos e deleitou-se como um felino. Uma cena tão comum entre os dois que ninguém naquela roda questionava ou via qualquer estranheza.
“Cansado?” Akk inquiriu baixinho, e Ayan apenas murmurou em resposta, cansado demais até mesmo para falar.
Akk sorriu e apertou o nariz do mais baixo, fazendo-o grunhir em desgosto. Então, com algum esforço, pôs Ayan de pé e os dois se despediram dos amigos e da Tia Jô.
Do lado de fora, a brisa noturna aplacou o calor da aglomeração, da comida apimentada e do álcool, e os dois suspiraram aliviados enquanto caminhavam lado a lado rua acima em direção ao condomínio de Akk.
No caminho, Ayan atendeu a ligação de seus tios Chadok e Dika, que infelizmente não puderam ir a Bangkok para a pequena comemoração, mas que o aguardavam ansiosos em casa no final de semana.
“Oh, a Tia Jô pediu mais um engradado daquela cidra de abacaxi,” Ayan lembrou de informar ao tio.
“Certo. Podemos iniciar a produção quando você vier.” Tio Chadok respondeu, e Ayan assentiu prontamente, animado. Ele gostava de produzir vinhos artesanais com o tio.
Do lado esquerdo da calçada, Akk observava Ayan enquanto caminhava. O farol dos veículos que passavam por ali iluminavam o rosto do mais baixo de tempos em tempos, permitindo que Akk pudesse discernir melhor o sorriso do outro, o modo como seus olhos se curvavam em meias-luas e cintilavam, e a maneira como Ayan mordia o lábio inferior quando o sorriso que o adornava tentava se esticar além do próprio limite, fazendo suas bochechas doerem. Não pôde deixar de tomar nota do quão atraente seu melhor amigo parecia.
Espere, o quê…?
O pensamento se foi tão abrupto quanto veio, e Akk sentiu-se aliviado nos dias seguintes ao confirmar que tudo estava exatamente como antes e que sua percepção a respeito de Ayan não havia mudado.
Até que ele o viu na piscina pública da vizinhança.
Mais precisamente, Akk viu Ayan deixar a piscina —a luz ambiente e as gotículas d’água trabalhando em conjunto para criar uma aparência quase etérea quando pareada à beleza intrínseca de Ayan, e aquela imagem, que permaneceu queimada em suas retinas por incontáveis dias, provocou no baixo ventre de Akk uma queimação característica e inconfundível até mesmo para ele.
Naquele momento, ele soube que estava muito ferrado.
A princípio, Akk tentou agir naturalmente em esperança de que aquela ‘ sensação ruim ’ não mais voltaria. Esperança essa que logo fora soterrada e aniquilada, pois a sensação não apenas continuou a assombrá-lo como também tornou-se mais frequente e aleatória. De repente, Akk não podia mais ser tocado por Ayan ou tê-lo dentro de seu espaço pessoal por mais que um breve momento —às vezes nem mesmo isso. Era como se toda e qualquer ação de Ayan tivesse se tornado uma ameaça em potencial e Akk, mesmo sem perceber, passou a repreendê-lo com certo nível aparente de aborrecimento.
Isso os amigos notaram, é claro, e logo começaram a demonstrar preocupação —especialmente quando o humor de Akk tornou-se volátil, ora bom e ora intragável. Akk e Ayan eram inseparáveis desde o primeiro ano do ensino médio e nunca tinham se desentendido antes.
Ayan tornou-se mais comedido em suas ações —coisa que ele já costumava ser com todos, exceto com Akk—, e o mais alto detestou aquela atitude ao mesmo tempo em que dava-lhe as boas-vindas. Sentia-se culpado toda vez que Ayan hesitava antes de abraçá-lo ou mesmo ao aproximar-se, mas também sentia como se sua zona de conforto o envolvesse novamente.
A nova dinâmica apaziguou os ânimos entre os dois amigos por um tempo. Ayan não mais iniciava contato físico, mas ainda aceitava de bom grado quando Akk o fazia, embora tivesse passado a responder com menos entusiasmo. Akk sabia que aquela era uma solução temporária, mas pensou que poderia usá-la como respiro para resolver-se consigo mesmo.
Ingênuo demais. Tolo demais.
Em uma manhã qualquer, após uma sequência exaustiva de exercícios para o abdômen, Akk estava arfando quase debruçado sobre a meia parede do vestiário da academia. Estava tão ocupado em recuperar o próprio fôlego que não viu Ayan se aproximar e oferecer-lhe uma garrafa d’água. Foi pego de guarda baixa quando ergueu os olhos e viu Ayan diante de si, agindo mais em resposta condicionada ao medo de ter o amigo tão próximo que pela sensação ruim , de fato —que, por sinal, nunca veio.
“Não precisa!” Akk berrou, embora sua intenção fosse murmurar, e no impulso acabou espalmando a mão de Ayan com tanta força que sentiu a própria palma arder.
Não demorou para que Akk percebesse o que tinha acabado de fazer, logo sendo tomado por uma profunda culpa. Ele sugou o ar para dentro de seus pulmões e abriu a boca para desculpar-se imediatamente, e foi como se o tempo parasse naquele momento.
Diante de seus olhos, a expressão de espanto de Ayan, que encarava a vermelhidão de sua própria mão, contorceu-se em câmera lenta. Seu olhar confuso tingiu-se de um vermelho pálido e aquoso. Seus lábios estavam pressionados em uma linha fina e trêmula, mantendo quaisquer palavras que pretendia dizer bem presas atrás de seus dentes.
Ayan ergueu os olhos e encarou Akk por um breve momento que para o mais alto fora excruciantemente longo, então cruzou a distância que o separava da porta e saiu, e Akk viu-se enraizado no chão, incapaz de mover-se, não importa o quanto sua mente gritava para que fosse atrás de Ayan. Ele não conseguia sequer respirar adequadamente.
Depois desse incidente, Ayan fez-se escasso, subitamente ocupado com uma rotina de trabalho espartana, e passou a não mais frequentar as reuniões do grupo de amigos.
Akk não viu mais o melhor amigo pelos próximos meses.
………
