Chapter Text
Akk abriu os olhos e esquadrinhou o cômodo por um momento, desorientado, antes de finalmente sentar-se na cama.
Estranhou o ambiente.
Embora aquele fosse seu próprio quarto —sua cama, sua coberta, a mesa de cabeceira, a decoração minimalista em tons de branco, cinza e azul-marinho, o assoalho antigo de madeira, os nichos de parede contendo alguns livros e porta-retratos, a janela ampla com cortinas finas de várias camadas para filtrar o sol da manhã—, ele ainda tinha a sensação de nunca ter estado naquele cômodo antes. Uma percepção cuja lógica parecia escorregar por entre seus dedos no momento em que o pensamento mostrava sinais de nitidez, fadando-o à matroca.
Por exemplo, os livros nas prateleiras em frente à cama. Akk não era nenhum fã de leitura, mas por um momento sentiu-se convicto de que deveria haver mais livros ali. Para quê? Tampouco importava. Provavelmente não os leria, de todo modo. Porém, sentia-se incomodado.
Outro exemplo era as fotos nos porta-retratos espalhados pelo quarto, que pareciam tão...
Akk franziu o cenho levemente, sentindo sua cabeça doer, mas no momento seguinte a dor esmaeceu e todas aquelas questões se foram junto com ela.
Decidiu sair da cama e pôs os pés no chão, ignorando o leve incômodo ao sentir a superfície dura do assoalho. Ele caminhou alguns passos até a porta de seu quarto e pressionou o trinco para baixo, abrindo-a para dentro. Seu olhar novamente deslizou sobre o cômodo diante dele, mas desta vez nenhum detalhe específico pareceu ser registrado em sua percepção.
Akk cruzou a pequena sala de estar com facilidade, a passos largos, chegando à cozinha —um espaço tão desprovido de utensílios que decerto não se cozinhava ali mais que arroz e macarrão instantâneo. O único destaque de sua cozinha era, sem dúvidas, a geladeira. Não pelo porte —o qual era compacto como todo o resto do cômodo—, mas pela cor. Era um tom de verde-floresta —a cor favorita de Akk— com detalhes em creme.
Ele exalou uma respiração ligeiramente longa e serviu-se um copo d'água, da torneira mesmo. Bebericou com tanto afinco que teve a sensação de que horas haviam se passado naquele breve momento. Seus olhos fitaram o ímã na porta da geladeira, e um tinido quase imperceptível se manifestou em seus ouvidos.
O ímã tinha sido um presente de seus fãs. Um pequeno sol amarelo de, talvez, 2cm de diâmetro. Brilhava naquela superfície cor de creme reluzindo sutilmente a luz do ambiente, soberano e absoluto—e solitário.
Assim como Akk.
Não que ele não tivesse amigos —Akk tinha quatro bons amigos, na verdade. Entretanto, em todo o mundo não existia ninguém a quem Akk pudesse… O quê? Se abrir? Deixar entrar? Confidenciar?
Besteira. Kan e Wat já eram seus melhores amigos, não? De quem mais ele precisaria?
Akk virou-se abruptamente e voltou à sala de estar, em seguida contornou novamente o pequeno sofá e a mesa de centro para retornar a seu quarto, onde havia uma mesa de estudos com um computador modesto no canto do cômodo, perto da janela. Seu celular estava sobre a mesa, plugado ao carregador. Ele pegou o dispositivo e deslizou o polegar sobre a tela tão logo a imagem de bloqueio apareceu.
Eram 4:10 da manhã. Cedo demais para iniciar sua rotina, porém tarde demais para voltar a dormir, visto que tinha menos de uma hora sobrando até o horário que de fato precisava acordar.
Akk lançou um olhar comprido em direção à porta, que estava escancarada, e sentiu um arrepio percorrer seus longos braços e pernas, subindo até a nuca.
Decidiu então começar a se aprontar mais cedo mesmo. E talvez fosse melhor pedir a P’Gold, sua agente, que o levasse ao templo mais tarde para fazer méritos com Buda.
Esfregando os braços para livrar-se do arrepio repentino, o rapaz foi até o closet e pegou uma boxer limpa na primeira gaveta do nicho à esquerda. Em seguida, pegou uma toalha pendurada no cabide de parede ao lado e abriu uma porta à direita que dava acesso ao banheiro de dentro do próprio closet. Uma estrutura compacta, porém moderna e prática.
O banho foi breve, já que o tinido em seus ouvidos havia retornado e não cessou nem mesmo quando Akk fechou os olhos sob a cascata de água morna que banhava seu corpo. Resignado, ele apenas se apressou pelas etapas do xampu e do sabonete, depois secou a si mesmo e ao seu cabelo —o suficiente para que não estivesse encharcado.
De volta ao closet, o jovem pegou as primeiras peças de roupa que viu pela frente, cujas cores por acaso combinavam. Calçou um par de meias brancas e pendurou a toalha de volta ao cabide de parede, retornando ao quarto em sequência.
Novamente de posse de seu celular, Akk decidiu postar uma mensagem para seus fãs no Twitter. Era um simples “Bom dia”, com a adição de dois emojis de coração, um laranja e um branco. Instintivamente, adicionou também uma menção. Então parou e piscou por um momento, seus polegares pairando sobre a tela, prontos para digitar um ID de usuário que nem o próprio Akk fazia ideia que existia. Um nome que surgiu em sua mente aos fragmentos e esmaeceu logo em seguida.
Sentindo uma pontada aguda atravessar suas têmporas, Akk desfez a menção e clicou em publicar a postagem em movimentos rápidos, quase automáticos.
O rapaz deixou o celular de lado por um momento para estilizar o próprio cabelo com um pouco de pomada cosmética, e quando pegou o dispositivo de volta notou que havia uma mensagem não-lida no Line. Se pudesse ver a si mesmo, Akk saberia que seus olhos cintilaram brevemente.
[P'Gold]: Caiu da cama, criança?
Ler o nome do remetente, porém, fez com que o leve sorriso que tinha se formado no rosto do rapaz se desfizesse.
Afinal, quem ele esperava que fosse?
[Akk]: Bom dia, Phi ! Acho que estava muito empolgado e acabei acordando cedo.
[P'Gold]: 🧐
[P'Gold]: Você não está doente, né?
[P'Gold]: Tem certeza de que quer ir, Akk?
[Akk]: Não é como se eu pudesse simplesmente decidir não ir, Phi…
[P'Gold]: …Verdade.
[Akk]: Estou bem, sério. Só um pouco ansioso.
[P'Gold]: Certo. Me dê alguns minutos e logo chego aí!
De soslaio, o jovem espiou o cômodo que fazia fronteira com seu quarto e sentiu aquele arrepio de antes o acometer novamente. Esfregou um dos braços subconscientemente enquanto digitava uma resposta pelo Line.
[Akk]: Não precisa, Phi . Eu posso tirar o carro.
[P'Gold]: Tudo bem. Nos vemos na agência 😘
Akk travou o dispositivo e deslizou-o para dentro do bolso posterior direito de sua calça. Em seguida deu alguns passos em direção à porta escancarada de seu quarto, parando diante da divisória entre os cômodos.
Respirou fundo, então ergueu o pé direito e cruzou a moldura da porta, ignorando o borbulhar repentino em seu estômago. Não entendia como uma coisa tão simples podia deixá-lo naquele estado. Era só pegar a chave do carro e sair, como tinha feito tantas vezes.
Tudo bem. Eu consigo.
Seus olhos fitaram o objeto que estava logo adiante na sala de estar com determinação e seus pés desempenharam uma sequência de passos ligeiros naquela direção. Curvou-se minimamente e apanhou o molho de chaves de passagem pela pequena mesa de centro branca.
E como se tivesse lhe esturricado a pele sensível da palma da mão, o objeto fora abruptamente arremessado ao chão há não mais que meio metro de distância tão logo os dedos do rapaz registraram o toque gélido dos metais.
Akk sorveu ar para dentro de seus pulmões mas sentiu o delicado tecido adiposo queimar em resposta. Então ele exalou trêmula e lentamente, sentindo uma leve pungência em suas narinas.
Algo estava muito errado. Ele precisava deixar aquele lugar.
Akk girou nos calcanhares e seguiu para a porta da frente a passos largos e dormentes. Sempre fora alto demais para os padrões de sua nacionalidade e suas pernas longas e delgadas podiam cruzar longas distâncias muito mais rápido que a maioria das pessoas. Naquele momento, entretanto, era como se seus pés tivessem criado raízes no assoalho do apartamento, restringindo seus movimentos. A porta da frente estava logo adiante, mas de algum modo parecia demasiado longe a cada passo que dava.
Akk sentiu suas pernas estremecerem por um momento e apertou os olhos bem fechados. Era agora ou nunca. E forçando suas extremidades inferiores a tomarem impulso, ele alcançou a porta aos solavancos, meio esbarrando e meio apoiando-se na superfície de madeira tingida de um branco acinzentado.
Tratou de rapidamente calçar seu tênis favorito, cuidadosamente posto sobre o carpete marrom da entrada de casa. Na sequência, pegou sua bolsa de lona e um moletom preto que estavam pendurados no cabide de parede ao lado da porta.
Felizmente, as chaves de casa estavam na fechadura.
Girou-as duas vezes, tão rápido quanto seus dedos trêmulos permitiram, e abriu a porta com um puxão firme e abrupto. Saltou para fora do apartamento logo que a abertura fez-se suficiente para que sua figura alta e esguia pudesse esgueirar-se pela fresta e bateu a porta atrás de si com um baque estrondoso, ao qual teria evitado piamente em função do horário e das leis da boa convivência se não estivesse tentando evitar… O que quer que aquilo tudo fosse.
Akk arfou com as costas escoradas na madeira, que por fora tinha um tom amadeirado levemente saturado e lustroso, combinando com as paredes amarelo-pastel do corredor.
Ele tirou o celular do bolso, endireitou a postura e deu alguns passos na direção do elevador enquanto abria o Line para iniciar uma chamada com Kan. Não ficou tão chocado quando as portas de aço se abriram e seu reflexo o fitou de volta da superfície espelhada. Estava pálido, e seus lábios, antes róseos, estavam esbranquiçados. Seu cabelo, o qual havia cuidadosamente estilizado após o banho, grudava no suor gélido de sua testa.
Nada disso, entretanto, parecia pior que ao perceber a camisa de listras verdes e brancas que vestia. Akk teve que desviar o olhar. Por sorte, Kan ligou de volta naquele momento, distraindo o rapaz o suficiente para evitar uma nova onda de mal-estar.
Porém, quando atendeu a chamada, Akk não fazia ideia do que dizer a Kan.
‘Tive uma crise de pânico’?
‘Acho que meu AP tentou me devorar vivo’?
Não havia nada que Akk pudesse dizer que não soasse extremamente bizarro, fantasioso, ou dramático. Desde quando ele sequer sabia como era ter uma crise de pânico?
Ele sentiu novamente um frio sinistro atravessar seu corpo e fechou os olhos novamente, subitamente sensíveis demais em exposição à luz amarelada do elevador.
“Akk?” Kan chamou do outro lado da linha depois de sabe-se lá quantas tentativas.
O rapaz limpou a garganta e respondeu ao amigo com a maior naturalidade possível.
“Foi mal, eu tô no elevador,” ele justificou. “O sinal tava dando uma cortada.”
Convenientemente, como se para reforçar a desculpa esfarrapada de Akk, o painel eletrônico fez um som característico naquele momento ao abrir suas portas no andar seguinte, e Akk desejou não ter cedido ao impulso da curiosidade e olhado para fora, para um corredor medianamente iluminado que o encarava de volta sem uma única pessoa ali.
“K-Kan…” Akk sussurrou quase inaudivelmente ao ver as portas de aço se fecharem. “Eu sei que tá meio cedo, mas será que a gente pode se encontrar pessoalmente?”
“É claro. O que você precisar, meu queridíssimo!”
Akk finalizou a chamada após mais algumas trocas de palavras e, levando a mão à testa para enxugar a fina camada de suor que novamente havia se formado, ele procurou o endereço de um café que costumava frequentar perto do trabalho e o enviou para o amigo.
Decidiu pegar um táxi até o local, achando que seria estranho se ele voltasse atrás e pedisse a P’Gold que fosse buscá-lo. Um dos motivos era que não queria preocupá-la ou fazê-la reajustar sua agenda pela segunda vez naquela manhã. O outro era que só de pensar em entrar no carro de sua agente já sentia um certo desconforto constringir seu peito.
De caminho traçado, Akk respirou fundo e assentiu brevemente com a cabeça, como se em concordância consigo mesmo, e, ignorando o ligeiro desconforto, olhou novamente para seu próprio reflexo na superfície espelhada do elevador. Embora lamentasse a escolha da camisa, a combinação das cores de suas listras com o tom de creme da calça e da bolsa de lona invocava um conceito vintage, que seria o tema da sessão de fotos do dia. Pelo menos estava apresentável. Ele deslizou os dedos pela franja, ajeitando-a de baixo para cima. Assentiu mais uma vez, satisfeito, e as portas de aço finalmente se abriram.
Akk saiu do elevador a passos leves e elegantes, praticamente revitalizado. O mal-estar inexplicável tinha sido devidamente movido para um plano distante de sua mente. Ele ainda teria um dia longo pela frente e uma injeção de ânimo de si para si o ajudaria a manter o ritmo. Além disso, andar cabisbaixo pelos cantos não era de seu feitio, fosse diante das câmeras ou na privacidade de seu tempo livre.
Logo chegou à entrada do prédio, onde havia uma catraca eletrônica que regulava a entrada e saída de pessoas. Sem pensar duas vezes, Akk aproximou a parte traseira de seu celular—que continha seu cartão de acesso entre o aparelho e sua capa protetora—ao leitor magnético, o qual reproduziu um bipe audível em resposta, indicando com uma luz verde no painel que a catraca agora estava liberada.
Passou por ela sem demora e seguiu pelo caminho pavimentado de pedra até a entrada do condomínio, novamente fazendo uso de seu cartão de acesso para passar por um portão ligeiramente estreito que dava acesso à rua. Andou por dois quarteirões até alcançar o ponto de táxi mais próximo e pegou um mototáxi até o estabelecimento onde havia combinado de encontrar Kan.
.........
"Obrigado pela preferência e volte sempre!" Exclamou o rapaz do caixa com um tom de voz animado ao entregar um copo de café de laranja gelado a Akk, que rapidamente uniu suas palmas e saudou o funcionário brevemente antes de receber a bebida e se retirar da fila.
Kan estava em uma das mesas, já bebericando alguma coisa enquanto esperava, e acenou para Akk logo que viu o amigo se aproximar.
“Espero que seus fãs não pensem coisas estranhas se virem nós dois juntos,” Kan murmurou enquanto o outro se acomodava do outro lado da mesa. “Não que você não seja gato, mas tenho um lar a zelar.”
“Você fala como se o Thua fosse se importar,” Akk retrucou.
Kan levou ambas as mãos ao peito dramaticamente, como se tentasse estancar a hemorragia de uma enorme e inexistente ferida. A resposta de Akk o tinha feito lembrar do fiasco que tinha sido sua tentativa de fazer ciúme ao parceiro no passado, e de como essa história ainda era mantida como anedota em seu círculo de amigos. Thuaphu nunca foi do tipo possessivo e na época Kan havia erroneamente tomado isso como falta de interesse de seu parceiro.
Akk ignorou completamente o sofrimento encenado do amigo e tomou mais um gole de seu café antes de falar.
“Já teve a sensação de estar sonhando mesmo depois de acordar? Ou que, de algum modo, o mundo mudou enquanto você dormia?”
E ao erguer os olhos na direção de Kan, Akk viu —ou pensou ter visto— a expressão impassível do amigo se contorcer mecanicamente antes dele sorrir de canto, como um dublê artificial.
Por sorte já tinha engolido o café. Talvez tivesse se engasgado com café até a morte se não tivesse.
“A noite foi boa ontem, Tchutchuco ?”
“Kan…”
“Tá bem, tá bem,” o mais velho ergueu as mãos como um pedido nada sincero de desculpas. “Seja mais específico.”
Akk mordeu o interior da bochecha.
“Eu só…” Ele começou, logo sentindo seu peito pesar e a cabeça ameaçar girar. Olhou para baixo na tentativa de aliviar o mal-estar. “Coisas estranhas têm acontecido esta manhã.”
“ Hum ,” Kan murmurou em resposta. Então olhou para Akk de modo tão penetrante que o outro pôde sentir a intensidade daquele olhar na própria alma. “Por que não volta pra casa?”
A sugestão, além de abrupta e sem nexo, tinha soado quase como uma ordem e por um momento Akk sentiu-se inclinado a obedecê-la como se houvesse algum poder absoluto nas palavras de Kan. Ele engoliu o nó que tinha se formado na própria garganta e bufou, ignorando a atmosfera e a estranheza do amigo.
“Não estamos mais na escola. Eu não posso simplesmente faltar no trabalho,” o mais novo argumentou.
Kan deu de ombros, de volta a sua atitude costumeira.
“A decisão é sua,” disse, por fim.
‘Não, não é!’ Akk quis berrar, mas conteve-se. Kan nunca tinha levado a escola a sério —e mesmo depois de abrir o próprio estabelecimento, era a Tia Jô que o mantinha na linha—, ele não entenderia. Akk se arrependeu de ter pedido a Kan que fosse encontrá-lo. Além de ansioso, agora sentia-se também frustrado. Ele conferiu as horas na tela do celular, satisfeito por ver que eram quase 7:30.
“Preciso ir. Tô no meu horário,” disse o mais novo apressadamente.
Nem sequer ficou na mesa o suficiente para ver a reação de Kan, abandonando o que ainda restava de seu café de laranja. Com uma das mãos, Akk empurrou a porta do estabelecimento e sem demora atravessou a rua. Logo chegou à entrada da agência para a qual trabalhava há mais de quatro anos —e que ficava bem em frente à cafeteria.
“Akk!” Ele ouviu aquela voz familiar chamar.
Virou-se de imediato com um sorriso largo nos lábios.
“Bom dia, Phi !” O rapaz cumprimentou Gold de volta.
A mulher era muito mais baixa que ele, com cabelos castanhos e encaracolados cuja nuance levemente acobreada complementava o dourado da pele de seu rosto arredondado. Aparentava ser muito mais jovem que Akk, a despeito de seus 32 anos de idade. Nem mesmo o terninho de saia lápis e o salto alto faziam juz à idade dela.
Gold aproximou-se de Akk e o abraçou como quem envolve uma criança nos braços. De ponta de pé, ela acariciou brevemente o cabelo do rapaz. Então interrompeu o abraço e penteou-lhe as madeixas com dedos hábeis.
“Está se sentindo bem mesmo?” Ela indagou com uma ponta de preocupação na fala. “Quer que eu encontre um lugar pra você descansar antes das fotos?”
“Não precisa, já estou bem acordado,” Akk respondeu, então sorriu quando sua agente estreitou os olhos, encarando-o.
“Por que acordou tão cedo? Conta logo,” ela insistiu. “Tem a ver com aquela conversa sobre oficializar um ship ? Aquilo não foi culpa sua, Akk. Aqueles velhotes da diretoria estão ficando caducos!” Disse, dando leves tapinhas de consolo no ombro do rapaz.
As palavras dela trouxeram de volta o desconforto do qual Akk julgou ter se livrado ao deixar Kan no café logo à frente. Ainda assim, ele riu e balançou a cabeça em negativa, bastante divertido com as palavras de sua agente.
“Eu não me importo com isso, Phi .”
Falava a verdade. Aquilo nunca tinha sido uma questão relevante para ele.
Não que ele não entendesse ou fizesse pouco caso do que um par oficial significava naquela indústria. Akk sabia muito bem o quanto ter um parceiro de trabalho agregaria a ele como artista. Seria, de fato, a maneira mais eficaz de cativar o público e aguçar-lhes o interesse nas produções das quais participava.
Porém, embora fosse ainda jovem na indústria e tivesse muito o que aprender, Akk acreditava na qualidade de seu trabalho. Dedicava-se veemente a isso, observando atentamente os colegas com quem co-atuava e tentando absorver o máximo que podia a cada troca. Por esse motivo, quando as pessoas dedicavam parte de seu tempo para assistir suas séries e shows de TV, o jovem ator sentia sua essência apreciada, como se seu próprio esforço tivesse atraído a atenção das pessoas ao invés de uma boa propaganda de marketing .
Apesar disso, por algum motivo, as palavras que tinha acabado de dizer deixaram um sabor amargo em sua boca.
“ Argh , isso só me deixa ainda mais frustrada!” A agente retorquiu, batendo os pés no chão e resgatando Akk de seus pensamentos. “Seria tão bom se você encontrasse um parceiro de atuação que te complementasse…”
Akk deu de ombros. Em resposta, Gold estreitou os olhos para ele mais uma vez. O sermão estava na ponta da língua, mas ela optou por deixar o assunto de lado. Sabia que seria equivalente a falar com uma mula —e Akk era, de fato, tão teimoso quanto.
“É melhor irmos andando. O cenário já deve estar quase pronto,” disse Gold, ao que Akk respondeu com um assentir de cabeça.
Quando se aproximaram da van, que era muito mais conveniente que um veículo convencional porque funcionava também como um camarim móvel, Akk sentiu uma súbita pontada na parte frontal de sua cabeça.
Constatou que talvez devesse marcar uma consulta com um psiquiatra no final do dia.
.........
‘Você é meu melhor amigo’
‘Eu nunca romperia a nossa amizade assim!’
‘ O que mais eu posso fazer, Akk?
Poderia me dizer? ’
‘Eu não consigo, xxx.’
‘Talvez fosse melhor se nunca
tivéssemos nos tornado amigos. ’
Os olhos de Akk se abriram abruptamente e as imagens, há pouco tão nítidas diante de seus cristalinos, se desfizeram como fumaça, esmaecendo junto ao som daquela voz que era, ao mesmo tempo, familiar e estranha. Sentiu seu coração ribombar no peito e uma pungência em seus olhos.
Um sonho? Mas quem-
A porta da van foi aberta com um arrastão para o lado e o rosto da agente Gold emergiu no campo de visão de Akk logo em seguida.
“Como está se sentindo?” Questionou enquanto adentrava o veículo, aproximando-se do rapaz e examinando-o com os olhos antes mesmo que ele respondesse.
O jovem ator endireitou-se no assento traseiro da van e piscou algumas vezes, ainda um pouco atordoado. As memórias do que tinha feito nas horas que se antecederam vieram à mente uma a uma.
Estava na sessão de fotos de seu primeiro photobook , em um antigo hotel cujo interior —desde o papel de parede floral em tons neutros e escandinavos à mobília de madeira maciça e verniz lustroso— aderia ao conceito vintage proposto pelo fotógrafo encarregado pelo ensaio. Um dos figurinos —o qual Akk ainda trajava— consistia em uma camisa xadrez de botões, uma gravata preta bem ajustada ao pescoço, uma calça reta de mesma cor com um suspensório, e sapatos fechados de couro.
Lembrou-se também, com certo pavor, de como se sentiu quando o fotógrafo começou a disparar os primeiros flashes . Da ansiedade que borbulhava em seu estômago. Da sensação de déjà vu a cada pose e a cada uma das palavras de direcionamento do fotógrafo ou de encorajamento dos demais presentes. E do mal-estar abrupto que tomou conta de seu corpo. Da angústia e da falta de ar. Do arrepio gélido que rastejava sob sua pele.
Apesar disso, Akk seguiu em frente como o bom profissional que era.
P’Gold havia, felizmente, percebido o estado anormal em que ele se encontrava. O olhar preocupado da agente encontrou e amparou o de Akk, que a primeiro momento mantinha um brilho que sinalizava sua capacidade de continuar. Após a segunda troca de figurino, entretanto, Gold percebeu um palor repentino no semblante do rapaz e pediu uma pausa breve para que ele pudesse descansar antes da próxima e última troca. Ninguém foi contra, dadas as notáveis circunstâncias.
Agora, percebendo que a palidez de Akk permanecia mesmo após o descanso, a agente tocou-lhe a testa gentilmente com a palma da mão a fim de testar a temperatura de Akk. A pele do jovem estava anormalmente fria.
“Tem certeza que quer continuar, Akk?” Ela perguntou, um tanto alarmada.
“Tenho, Phi . Não precisa se preocupar,” o jovem respondeu.
Um trabalho como aquele não era fácil de cancelar. O espaço não estaria magicamente disponível para que retornassem no dia seguinte, sem contar todo o equipamento que tinha sido movido para o local, a composição dos cenários, e o trabalho de toda a equipe.
Gold suspirou e deu ao rapaz mais uma olhada antes de entregar a ele uma barra de chocolate meio-amargo.
“Quatro tabletes,” ela instruiu. Já que não podia mandar o jovem artista sob sua supervisão de volta para casa, poderia pelo menos garantir que ele tivesse energia para continuar o trabalho.
Akk respondeu com um sorriso suave, então pegou a barra de chocolate e quebrou uma fileira quadriculada —exatamente quatro tabletes. O cheiro do cacau permeou suas narinas antes mesmo de sentir o sabor na língua. O amargor não era muito de seu agrado, mas seu estômago recebeu a guloseima com boas-vindas e, aos poucos, um pouco de cor retornou ao rosto do jovem.
Aliviada, a agente abriu uma enorme sacola de roupas que estava em um canto da van e tirou de lá uma outra calça preta masculina, uma regata branca e uma jaqueta de couro, em seguida pendurou as três peças em um suporte na lateral interna da van.
“Vou aguardar do lado de fora,” disse Gold, imediatamente dando privacidade ao artista.
Akk olhou para as peças de roupa enquanto removia de seus dedos os resíduos do chocolate com um lenço de papel. Sentiu suas entranhas flutuarem, como se estivesse em um elevador.
Respirou fundo e afrouxou a gravata, removendo-a de seu pescoço. Em seguida desabotoou as mangas da camisa que vestia, e os botões na fronte. Pôs abaixo as alças do suspensório e desfez os botões e o zíper da calça enquanto tirava os sapatos com os próprios pés. Em pouco tempo estava despido de seu figurino, trajando apenas sua boxer preta, uma regata branca e fina, e um par de meias de nylon escuras.
Ignorando os tremores sutis de suas mãos, Akk vestiu primeiro a nova calça, cujo modelo era um tanto mais justo nas pernas que o anterior. Trocou então as regatas antes de vestir a jaqueta de couro e, por fim, calçou novamente os sapatos lustrosos.
Com a mão na trava da porta, Akk inspirou e expirou profundamente o ar de seus pulmões.
Tudo bem. Eu consigo.
‘Você consegue, amigo.’
Uma voz ecoou em sua mente simultaneamente à sua própria.
Mecanicamente, Akk deixou a van e acompanhou sua agente ao espaço aberto em frente ao hotel onde a maior parte das fotos foram tiradas.
Era uma rua pavimentada, com prédios de arquitetura e design antigos que se estendiam por todo seu comprimento. Havia também um pátio com um belíssimo chafariz circular cuja base era a escultura de um magnífico leão. E como não podiam depender do clima para criar o ambiente perfeito, a equipe tinha contratado um caminhão-pipa para produzir uma chuva artificial.
‘Não acha isso romântico?’
Uma respiração trêmula escapou dos lábios de Akk e foi prontamente percebida pelo maquiador diante dele.
“Está tudo bem, Nong ?” O homem perguntou enquanto enxugava o suor que se acumulava nas têmporas do rapaz.
Com um esforço que não era aparente, Akk abriu um sorriso educado e assentiu com a cabeça. Torceu para que isso fosse o suficiente, pois sentia que suas forças se extinguiriam caso falasse. Felizmente, o maquiador não o questionou mais.
Outro membro da staff trouxe um guarda-chuva para Akk quando o maquiador terminou de retocar sua maquiagem e ele segurou o objeto com dificuldade.
O fotógrafo elaborou algumas instruções simples as quais Akk executou mecanicamente, mas ainda com qualidade ímpar. Ele posou ao lado do chafariz, queixo levemente erguido e olhar fixo na câmera, porém na periferia de seu cristalino registrou a presença de uma figura invisível aos olhos, mas que de algum modo sabia, mesmo sem ver, exatamente como se parecia.
Um outro rapaz, cerca de uma cabeça mais baixo que ele. Também tinha nas mãos um guarda-chuva e posava do lado oposto do chafariz. Seu olhar fitava a câmera assim como o de Akk, mas também observava-o em segredo. As sobrancelhas enviavam sinais sutis de que ele reconhecia a presença de Akk como Akk reconhecia a dele.
Caminharam lado a lado pelo pavimento olhando um para o outro. E jogaram seus guarda-chuvas para o alto, abandonando-os pelo caminho. E correram em meio à chuva artificial, rindo.
'Levei esse gatinho pra
brincar na chuva.'
E então, Akk entendeu que precisava voltar para casa .
.........
Os pés de Akk rebocaram seu corpo esdrúxulo para fora do elevador. O jovem caminhava pendendo um pouco para a frente com uma mão sobre o peito enquanto a outra segurava a alça de sua bolsa com tanta força que os nós de seus dedos perderam a cor.
Forçou-se a endireitar sua postura a despeito do desconforto.
No corredor, esbarrou em alguém que vinha de encontro a si e prontamente juntou as mãos para se desculpar, mas, ao ver o rosto da pessoa em questão, Akk pausou o wai abruptamente.
Era Wasuwat, seu vizinho e amigo de longa data que raramente parava em casa devido às viagens que sua profissão demandava.
Não foi, entretanto, a inesperada presença do amigo que causou a estupefação de Akk, mas a expressão com a qual Wasuwat o encarava. Olhos parados e sem brilho, como se estivesse em transe, porém era notável que o rapaz estava consciente e que reconhecia a presença de Akk. Fitava-o em silêncio, imóvel como uma estátua de sal.
O olhar de Wasuwat parecia penetrar a mente de Akk tal qual o de Gold, agente do rapaz, há não mais que uma hora atrás. O mesmo olhar do maquiador que se dedicou a Akk na sessão de fotos. Da figurinista. Do fotógrafo. Dos assistentes. Das pessoas na rua, que encaravam-no enquanto ele corria até uma via mais movimentada para apanhar um táxi com mais facilidade. Do motorista de táxi que o trouxe de volta para casa.
…Casa.
A palavra soava estranha no contexto no qual se encontrava, pois, embora fosse o destino ao qual Akk estava determinado a chegar desde o momento em que tomou a decisão de jogar tudo para o alto —seja lá o que “tudo” significasse—, havia uma certeza interna de que aquele apartamento não era para onde Akk estava tentando voltar. Era apenas o caminho.
E assim, ignorando a inércia bizarra de seu amigo e vizinho, Akk contornou Wasuwat —que girou em torno de si e acompanhou os movimentos do mais alto como uma câmera de segurança— e cruzou o corredor até aquela porta que era, ao mesmo tempo, familiar e estranha a ele.
Pousou a mão sobre o trinco e tomou alguns goles de ar.
Um tremor percorreu todo o corpo de Akk dos pés à cabeça e ele viu em seu periférico Wasuwat —ainda sustentando aquele mesmo olhar— andar alguns passos em sua direção.
Akk fechou os olhos por um momento e apertou o trinco de metal em sua mão.
E como se entendesse a intenção de Akk, os passos de Wasuwat cessaram em algum lugar ao seu redor.
Akk não hesitava por medo ou porque sua determinação não era suficiente. Ele apenas não queria abrir aquela porta e encarar o que estava por trás dela —ou o que não estava.
Respirou fundo mais uma vez e pescou as chaves que estavam no bolso dianteiro de sua calça. Ao abrir os olhos, não perdeu tempo e deslizou a chave na fechadura, girando-a duas vezes em sentido anti-horário e logo em seguida pressionando o trinco para baixo. Ele virou-se de soslaio e olhou para Wasuwat, que ainda estava de pé na mesma posição, olhando-o sem mover um músculo.
E então, com um empurrão curto, Akk abriu a porta de seu apartamento.
O local estava exatamente como ele havia deixado… E ao mesmo tempo não estava.
Havia vultos por toda parte —silhuetas translúcidas como aquela que vira na sessão de fotos. De algum modo, tinha ciência de que aquelas aparições o levariam de volta para casa . E, de algum modo, sabia exatamente o que fazer.
Toda a hesitação que ele tinha ficou para trás quando fechou a porta atrás de si e cruzou a modesta sala de estar em direção à cozinha, onde encontrou uma silhueta humanóide próxima à minúscula bancada de madeira ao lado da pia.
O olhar de Akk deslizou um pouco para baixo, sobre a bancada, onde seu pequeno fogão elétrico de apenas um queimador aquecia uma panela translúcida, tal qual a dita silhueta e alguns dos utensílios de cozinha sobre a bancada. Logo um aroma doce e picante invadiu as narinas de Akk e ele fechou os olhos em apreciação, sentindo-se aquecido.
‘A louça vai ficar por sua conta, Pé Grande.’
Uma emoção inexplicável tomou conta de seu âmago e ele abriu os olhos abruptamente a tempo de ver a tal silhueta assumir uma forma mais material em seus contornos, como uma fotografia embebida em líquido revelador.
Akk estendeu a mão a fim de tocar o braço da visão humanóide, mas a silhueta se dissipou e desapareceu, levando consigo o delicioso aroma de sopa Tom Yum recém preparada. Deixou em seu lugar um vazio —um rombo. Uma ausência tangível.
Um tremor percorreu o corpo de Akk e, junto a ele, o interior do apartamento também pareceu estremecer. Seu coração o socou de dentro do peito, fazendo-o se debruçar sobre a bancada em busca de apoio. O ar que entrava em seus pulmões parecia serragem.
Suor frio acumulou-se em suas têmporas, mas Akk engoliu o nó que havia se formado em sua garganta e com ambas as mãos sobre a superfície de madeira ele impulsionou seu corpo de volta à posição vertical, decidido a continuar.
Inalou um pouco de ar vagarosamente e deu alguns passos dentro de sua cozinha minúscula, então virou-se de frente para a geladeira, mas seus olhos não olhavam para o belíssimo eletrodoméstico. Estavam fixos na aparição que se encontrava de pé, diante da geladeira. Seu braço —cujo contorno agora era mais visível— estava erguido. As pontas dos dedos da aparição tocavam um ímã redondo igualmente translúcido, similar ao sol que cintilava quando a luz batia sobre sua superfície. Era uma lua —Akk sabia em seu íntimo, embora não pudesse ver com clareza.
Ele ergueu uma mão trêmula em direção ao ímã e sentiu seu estômago dar piruetas em seu ventre. Algo dentro de si ansiava pelo que estava por vir. E assim, ele tocou o ímã translúcido e fechou novamente os olhos.
………
Era uma manhã de domingo e Akk suspirou pela terceira vez em um intervalo de alguns minutos.
“Isso não vai funcionar,” disse, recolhendo com certa irritação o enorme rolo de papel adesivo verde-floresta que estava no chão. Entretanto, seus movimentos foram detidos por uma mão firme e um tanto áspera, mas cujo toque gentil e de baixa temperatura foi capaz de aplacar seu furor imediatamente.
“Vai dar tudo certo,” o dono daquela mão disse a Akk. “Essas cores são uma combinação perfeita, e o material parece durável. Tenho certeza de que vai ficar ótimo. Você vai ver.”
Akk suspirou pela quarta vez.
“Como pode ter tanta certeza?”
“Porque são suas cores favoritas, então elas combinam com você —e com sua cozinha—, e porque você pesquisou durante muitos dias antes de comprar tudo.” Foi a resposta do outro, que, apesar de lógica, soava bastante como um encorajamento.
Seu semblante tornou-se terno ao sorrir não apenas com os lábios e dentes à mostra, mas também com os olhos, ainda que, para Akk, o rosto do rapaz não fosse mais que um borrão difuso sem cor e sem forma, e com um mínimo de matéria.
“Mas, principalmente, porque eu sou muito bom em artes.” O garoto acrescentou com um tom convencido, fazendo Akk rolar os olhos em resposta.
Ainda assim, Akk sorriu.
Toda a irritação que estava sentindo foi inexplicavelmente substituída por uma empolgação crescente e o que ele julgou ter sido uma ideia estúpida de repente pareceu-lhe uma atividade promissora. Tudo mérito daquele que lhe fazia companhia —Akk não tinha dúvidas disso. A voz alheia tinha o poder de evocar em Akk a mais profunda confiança e de preencher suas incertezas com determinação. As palavras daquele rapaz entalhavam na mente de Akk a certeza de que jamais estaria só, independente do que fizesse.
Sentiu-se tomado por uma emoção doce e distinta, e da vontade de expressá-la imediatamente.
“Ai’xxx…” Akk ouviu a si mesmo chamar em mudo.
O outro estava ocupado acoplando discos à lixadeira elétrica que eles usariam para preparar a superfície da geladeira de Akk para que o adesivo aderisse melhor e o envelopamento fosse mais durável. Parecia bastante concentrado, mas ao ouvir a voz de Akk ele pausou seus movimentos imediatamente e voltou sua atenção —olhos e ouvidos— inteiramente ao mais alto.
“Hum?”
Akk o encarou por um breve momento, então partiu seus lábios e enunciou em claro e bom som: “Obrigado.”
Os olhos alheios o encararam de volta. Havia um entendimento tácito naquele olhar, como se ele soubesse que Akk não estava agradecendo apenas pelo favor de ter dirigido até sua casa às sete da manhã, apesar de abominar acordar cedo, para uma atividade que o próprio Akk considerava idiota até alguns minutos atrás.
Aquele sorriso cálido retornou ao semblante do mais baixo e Akk soube que as palavras que estavam prestes a deixar os lábios do outro também representariam muito mais que a superfície transpareceria.
“De nada, amigo .”
………
‘Pressione o adesivo com cuidado
pra não criar bolhas.’
‘Sim, isso aí.’
‘Até que você é bom nisso, Pé Grande~’
O riso alheio se dissipou lentamente conforme Akk abriu os olhos. Seu olhar fixou-se à aparição a seu lado, que virou-se para Akk lentamente com um sorriso nos lábios —agora nítidos o suficiente para que o tom róseo da pele sensível fosse perceptível— e um par de íris castanhas a olhá-lo de volta.
‘Eu disse que ficaria incrível,’ proferiu a aparição.
Akk respirou fundo, então deixou que as palavras de dèjá vu rolassem para fora de seus lábios partidos.
“Onde você conseguiu esses ímãs?”
‘Oh, são presentes dos nossos fãs!’ A aparição riu, alargando seu sorriso enquanto passava a língua entre os dentes e mordia-a, encolhendo os ombros por conta da agitação que sentia. ‘Isso ainda é tão estranho —ter fãs. ’ Comentou, e Akk sorriu tremulamente de volta e assentiu com a cabeça em concordância. ‘Você é o sol e eu sou a lua.’
Akk suspirou, sentindo-se amargo e contente ao mesmo tempo. Tentou controlar as lágrimas que ameaçavam rolar de seus olhos enquanto pressionava a língua ao palato para sufocar qualquer ganido indesejado. Em seguida partiu os lábios novamente.
“E por que você está colocando o seu ímã na minha geladeira?” Indagou, seguindo com a leitura de texto daquela cena que, sabia muito bem, já havia acontecido antes.
A aparição deu de ombros e voltou os olhos novamente aos ímãs em questão enquanto ainda mantinha nos lábios a sombra de um sorriso.
‘Não faz sentido separarmos a lua e o sol,’ disse —e Akk ouviu-se dizer junto ao outro. Então a aparição virou-se e seus orbes castanhos encontraram os de Akk enquanto desapareciam lentamente.
Akk foi tomado por uma profunda sensação de culpa. Sabia que, de algum modo, havia errado. Que era o culpado por tudo de estranho que estava acontecendo.
Frustração e desgosto se misturaram em seu âmago e o rapaz mordeu o lábio com força, sufocando todo e qualquer sinal de protesto que poderia escapar de sua boca. A passos apressados, interagiu com uma aparição após a outra, e a cada vez sentiu-se estremecer por dentro e por fora, como se seus ossos, músculos e entranhas fossem puxados pelo agarrão de uma mão invisível, prestes a serem lacerados e expostos.
‘Acho que plantas ornamentais dariam um ótimo toque.’
‘Isso fica fofo em você, Akk.’
‘Oh, são as fotos da nossa viagem!’
‘Posso pegar aquele seu hoodie emprestado?’
‘Feliz aniversário, Pé Grande.’
‘Esse ano você coloca a estrela na árvore.’
‘Eu quero ser seu amigo.’
‘Akk?’
‘Aqui, Akk!’
A dor e a angústia aumentavam a cada dèjá vu , mas também a perseverança de Akk.
Embora estivesse sem fôlego, praticamente rastejando no chão, tinha feito um voto consigo mesmo de que não desistiria. Ele queria saber mais —lembrar mais. Queria ouvir com seus ouvidos, ver com os próprios olhos, e tocar com as pontas dos dedos. Ele queria um rosto. Um nome.
O rapaz arfou enquanto arrastava seu corpo ao redor da pequena sala de estar.
Akk estava banhado em suor frio. Seus lábios estavam rubros —a fina pele que os cobria há muito tinha sido rompida por seus dentes. Podia sentir o sabor metálico e pungente na língua. Ainda assim, seu olhar alongou-se na direção do molho de chaves que jazia no chão exatamente onde ele o havia abandonado naquela manhã.
Inclinou-se e praticamente desabou sobre o chão ao apanhar o objeto. Seus dedos envolveram o metal frio que parecia queimar sua pele e ossos. O fluxo de imagens que o acometeu fez sua vista escurecer antes mesmo de fechar os olhos e seus ouvidos zumbiram ao passo em que vozes distantes adentravam seus tímpanos.
………
O som era muito mais nítido agora. Havia uma música a tocar no rádio e uma pessoa a cantarolar ao lado de Akk, no assento do passageiro em seu carro —presença esta que fez Akk sorrir ligeiramente enquanto dirigia na via expressa de Bangkok.
Embora o interior do veículo estivesse escuro, ele ainda notou de soslaio que seu companheiro de viagem tinha o celular apontado para si. Deduziu que o rapaz estava com a câmera ligada. Estava a transmitir uma live , provavelmente.
“Quer que eu acenda a luz?” Akk perguntou.
“Não precisa,” o outro respondeu com um sorriso e voz ternos. “Estamos indo para o local das próximas filmagens,” disse para a câmera, rindo. “Ele está com a mão machucada, mas ainda tá revezando comigo na direção.”
“Apesar de ter tomado o caminho errado e feito a gente se perder,” Akk acrescentou com um leve tom de lamúria.
“Verdade, a gente se perdeu, mas…” O mais baixo pausou, e Akk sentiu o olhar do outro em si. “Não deixa de ser bom. Akk merece um prêmio de melhor amigo.”
“Você ainda vai dirigir na volta, não importa o quanto me bajule,” Akk riu, girando o volante quando o GPS sugeriu que fizesse uma curva à direita.
“ Áo ! Tão insensível! Eu estava falando sério…”
“ Ok, ok ,” Akk aquiesceu. “Eu deixo você dormir agora na ida, se quiser. Não precisa me fazer companhia.”
O outro abriu um sorriso largo que se estendia até seus olhos, então disse algumas últimas palavras para a câmera e se despediu daqueles que acompanharam sua breve transmissão ao vivo. Em seguida reajustou a inclinação do encosto de seu assento e acomodou-se mais confortavelmente, puxando a manta que já tinha sobre suas pernas um pouco mais para cima, cobrindo seus ombros.
“Boa noite, Pé Grande.”
“Boa noite, Aye .”
………
Akk segurou o choro em sua garganta. Suas costas estavam pressionadas contra o chão frio da sala de estar e diante dele estava seu sofá azul-marinho de dois assentos, onde o último “fantasma” de Ayan —agora não mais uma mera silhueta translúcida— repousava confortavelmente sobre o acolchoado de tecido macio.
Com muito esforço, Akk conseguiu erguer o torso e debruçou-se sobre a superfície mogno de sua mesa de centro, usando-a como apoio para então rastejar sobre o tapete escuro em direção a Ayan.
Este tinha os olhos fechados sob uma fina cortina de cabelos negros. Seu semblante era sereno, tal qual o subir e descer sutil de sua respiração. O livro em suas mãos, sobre o peito, denunciava que Ayan tinha adormecido enquanto lia. Estava provavelmente muito cansado.
Akk estendeu a mão e seus dedos pairaram sobre as feições do outro, traçando-as sem de fato tocá-las, observando-o um pouco mais antes de finalmente pressionar a mão sobre as de Ayan e afagá-las suavemente, assim como tinha feito em sua memória.
“...Aye,” ele sussurrou.
O outro franziu o cenho antes de erguer suas pálpebras cansadas, mal revelando o castanho de suas íris. Então sorriu para Akk tão logo registrou a identidade do mais alto e esticou as pernas, até então dobradas para que coubesse naquele espaço compacto.
“Que horas são?” Perguntou, sonolento.
Akk mordeu o lábio e inalou profundamente pelas narinas, sentindo seus olhos queimarem.
“Já passa das nove…” Disse baixinho, relembrando sua fala de anos atrás. “Está tarde. Acho que você deveria ficar.”
O outro assentiu e fechou novamente seus olhos, mas Akk não deixou que voltasse a dormir e sacudiu-o levemente mais uma vez.
“Vai ficar com o corpo dolorido se dormir aqui”, repreendeu com um suspiro, novamente tomado pela preocupação que sentiu naquela época.
“Mais dez minutos, ok ?” Ayan pediu com o cenho franzido e os lábios prensados levemente em um bico.
Ayan realmente parecia muito cansado —e como Akk gostaria de ter mais dez minutos para dar-lhe! Não havia mais tempo, porém. Não poderia adiar o fim de tudo aquilo, pois ele mesmo não suportaria ficar ali mais um momento.
Akk sentiu seu queixo estremecer e as lágrimas que pareciam espetar alfinetes em seus olhos finalmente rolaram sobre suas bochechas. Piscou em uma tentativa vã de fazê-las cessar, então, não mais capaz de falar devido ao nó que havia se formado em sua garganta, ele assentiu com um grunhido em resposta ao pedido de Ayan, agarrando-se às mãos do outro em uma súplica silenciosa e desesperada para que não o deixasse, mas vendo-o desaparecer de sua vista e de seu toque aos poucos, como grãos de areia se esvaindo por entre os dedos.
A dor em seu coração o apunhalou de súbito e Akk espalmou sobre seu peito, agarrando o tecido da própria camisa entre os dedos com tanta força que os nós das falanges perderam a cor. Seus lábios, agora em carne viva sob o aperto impossivelmente doloroso de seus dentes, se partiram, e o choro que Akk havia tão veemente estrangulado em sua garganta se libertou, reverberando nas paredes daquele apartamento vazio que parecia diminuir de tamanho conforme a sensação de asfixia tomava conta de seu interior.
Sentiu-se tombar no chão, sendo prontamente abraçado pelo nada que tinha se aberto abaixo dele. As paredes do apartamento estremeceram em sintonia com os espasmos do corpo de Akk, rachando e fragmentando-se, desmoronando no vazio junto a ele.
O medo se alastrou, mas Akk estava de decisão tomada —ele não voltaria atrás. De punhos cerrados e o coração quase explodindo dentro do peito, Akk manteve seus olhos abertos e assistiu ao colapsar daquele mundo até que nada mais restasse e a escuridão o envolvesse por completo.
Curiosamente, porém, sentiu-se aquecido.
………
