Chapter Text
Se havia uma coisa que Aaron tinha certeza no mundo todinho, era de que ele odiava farmacologia.
Odiava a matéria, odiava as provas, odiava os trabalhos em grupo, odiava o professor irritante, odiava a sala de aula, odiava simplesmente tudo que tivesse a ver com farmacologia.
E sim, ele estava ciente de que farmacologia é importante se você quiser seguir na área da saúde, e sim ele estava ciente de que ele precisa dominar a matéria se quiser ser um bom médico, e isso ele quer muito, mas não quer dizer que ele não pode odiar ela. A coisa é: farmacologia parece um grande ciclo de Krebs vindo com tudo para atordoar ele novamente, todas essas interações e reações estão deixando ele louco.
Bioquímica já é algo extremamente complicado e que requer muita atenção na hora de estudar, agora jogue um comprimido de qualquer droga que seja e você mexe com toda a bioquímica do organismo e Aaron precisa saber exatamente como.
É de se esperar que no curso de bioquímica você perca alguns de seus parafusos, e já que não se pode ir direto para a faculdade de medicina nos Estados Unidos após o ensino médio ele terá que perder o dobre deles e sofrer com farmacologia duas vezes — e para o resto da vida dele, mas ele prefere não pensar nisso no momento.
Aaron está a duas questões de terminar o estudo dirigido para a primeira aula de segunda-feira e prestes a entrar em combustão por causa das outras dezoito questões quando seu telefone começa a vibrar sobre a mesa. Ele sabe que não é Katelyn pois ela havia contado para ele que hoje a noite iria em um encontro com Emily da aula de química orgânica III e também sabe que não deve ser Nicky, já que ele como Katelyn saiu em um encontro que Aaron chuta estar sendo mais sexual do que romântico.
Pode ser Matt, seu cérebro perturbado pelas interações medicamentosas dos benzodiazepínicos oferece. Ele saiu para o dormitório das meninas a cerca de uma hora e havia avisado que dormiria por lá hoje, mas já aconteceu de ele ligar pedindo para Aaron levar algo para ele ou checar se ele havia deixado seu carregador na tomada sem estar conectado no celular.
No terceiro toque ele pega o telefone e lê o visor antes de atender e colocar na orelha. Kevin.
O que diabos Kevin iria querer com ele no horário do treino noturno?
Não é raro Kevin ligar para ele, pelo menos não mais. Desde que aquela praga mal vestida chegou nas raposas, Andrew aos poucos começou a passar mais tempo com ele e por consequência Kevin eventualmente acabava sozinho no dormitório. Kevin geralmente se ocupava assistindo reprises de partidas dos times adversários ou dos Troianos, uma vez que outra Aaron encontrou ele preso à um livro de história.
Geralmente ele não ligava muito para o que Kevin fazia, nem olhava muito na direção dele, principalmente não quando ele aparecia só de calça de moletom na cozinha tarde da noite ou com a toalha nos quadris quando saía do banho, mas teve um dia que algo mudou.
Aaron ainda dividia o dormitório com seu irmão, Nicky e Kevin, quando ele encontrou o último agarrado em um livro de história médica. Kevin olhava para as palavras impressas naquelas páginas com tanto fascínio que Aaron não se segurou e teve que perguntar para o outro o que ele estava lendo.
— Você sabia que quem criou a ambulância foi o médico de Napoleão lá em 1792? — Kevin desviou o olhar fascinado do livro e olhou para Aaron.
— Não, na verdade. O que mais diz aí?
E a partir dali os dois começaram a se comportar um pouco mais como colegas de time com uma ligeira amizade e apreço um pelo outro do que apenas colegas de time que se suportam porque o irmão de um é a mãe pata do outro.
Toda vez que um estivesse estudando ou lendo, o outro perguntaria sobre o que era. Eventualmente as conversas sobre curiosidades históricas e faculdade evoluíram para coisas triviais do dia-a-dia. Kevin iria reclamar das escadas não terem fita antiderrapante na beirada dos degraus e Aaron concordaria com ele e compartilharia uma história engraçada. Ou então Aaron comentaria que Nicky sempre roubava seus chicletes de menta e a partir de então toda a semana ele encontrava uma caixinha nova escondida na sua escrivaninha.
Com a mudança de dormitórios, Kevin e Aaron não eram mais deixados sozinhos com frequência. Aaron ainda achava os chicletes toda a semana, mas desta vez no seu armário na Toca das Raposas e eles ainda conversavam entre si, principalmente em Columbia, quando tomavam café da manhã juntos (bem, Kevin tomava o café da manhã e Aaron tomava sua terceira xícara de café do dia). Algumas vezes Kevin apareceu no dormitório de Aaron, Matt e Nicky, geralmente para falar sobre exy com os três, mas logo mudando de assunto e passando a conversar só com Aaron enquanto os outros jogavam video game. O que era um comportamento suspeito de Kevin, mas Aaron preferia ignorar. Às vezes Kevin jogava também, dependia do quão perto de um dia de jogo eles estavam.
As ligações funcionam da mesma forma. Kevin ligaria durante a tarde para perguntar sobre algo relacionado a exy ou as Raposas e então eles começavam a falar de como o professor Sinclair de Biofísica II era um banana e do café tenebroso de Neil. Vez ou outra Aaron vez o mesmo, e ele pode ou não ter feito isso porque estava se sentindo sozinho no dormitório durante seu horário vago entre as aulas, mas somente talvez.
Kevin é uma boa companhia quando não está ocupado agindo como um idiota que só vive para o exy. Kevin é divertido quando vive para ele mesmo, apesar de não o fazer na maioria do tempo.
Embora eles não conversem pelo telefone durante a noite, Aaron atende.
— O que você quer? Não devia estar no treino noturno com aqueles dois idiotas? — Aaron pergunta ignorando o tom aborrecido de sua voz.
— Hum, eles saíram faz um tempo, na verdade. Disseram que voltavam de madrugada mas não disseram onde iam.
Então eles foram foder.
Antes que Aaron pudesse responder algo, Kevin grunhe do outro lado da linha. Aaron imagina que seja coisa da sua cabeça ou do sinal de telefone.
— Eu preciso da sua ajuda, Aaron.
— Precisa ser eu? Não dá pra esperar aqueles dois aparecerem? — ele questiona enquanto lança olhares julgadores para seu estudo dirigido.
— Acredite em mim, Aaron, não dá.
— O que é que você aprontou, Kevin? Não me diga que botou fogo na cozinha.
— Aquilo foi uma vez e em minha defesa eu nunca havia mexido com um forno antes. — Kevin profere as palavras como se já tivesse as repetido mil e uma vezes. Nunca vai deixar de ser engraçado a imagem de Kevin tentando apagar o fogo do pano de prato que ele havia esquecido dentro do forno com outro pano.
— Se isso te consola… — Aaron solta uma risadinha.
— Urgh, Aaron, isso é sério.
Aaron ouve outro grunhido e dessa vez sabe que não é o sinal do telefone e sem Kevin soltando barulhos de desconforto.
— Você precisa me ajudar.
— Tá bom, tá bom. Eu ajudo. O que você precisa que eu faça?
— Venha aqui no dormitório primeiro, não vou falar isso por telefone. Vai soar mais ridículo do que já é.
Aaron revira os olhos. Conte com Kevin para fazer tempestade em um copo d’água.
— Jesus Kevin, quanto drama.
— Só vem logo Aaron. — e então desliga o telefone.
Aaron vai mas só porque farmacologia o irrita mais que as palhaçadas de Kevin. Ele põe o celular no bolso e sai em direção ao dormitório de Kevin. Ele usa a chave que ficou com ele mesmo depois da mudança e entra. Tudo ainda parece o mesmo lá, o sofá, a televisão, os pufes, tudo. Menos Kevin que não está nem na sala nem na cozinha.
— Kevin! — Aaron grita.
— No quarto!
Aaron trota até lá resmungando baixinho. É melhor Kevin realmente precisar da ajuda dele e de preferência com nada estúpido, senão ele vai fazer picadinho de Rainha do Exy. Antes que ele possa colocar a mão na maçaneta, a voz de Kevin soa novamente, acompanhada com um grunhido.
— Não entra ainda.
— Kevin, você vai enrolar até quando? Já me fez vir até aqui, me diz logo o que tá acontecendo.
— Escuta, eu preciso que você não me julgue e não ria sob circunstância nenhuma, okay?
As sirenes na cabeça de Aaron começam a apitar.
— Você está bem? Tá machucado? Precisa que eu chame o Andrew?
— Não! Quer dizer… não — ele pausa. — Só promete que não vai rir, e nem contar para os outros.
— Você está começando a me assustar, Kevin.
— Não é nada sério, é só que… é só que eu aproveitei que o Andrew e o Neil saíram e resolvi testar uma coisa e eu perdi essa coisa lá dentro.
— O quê?
— Argh, Aaron! Não me faça repetir! — Kevin resmunga de dentro do quarto. Ele não pode estar querendo dizer o que Aaron acha que está, pode?
— Quando você diz lá dentro é…? — ele pergunta torcendo para Kevin não estar pedindo o que ele parece estar.
— É, Aaron — ele responde.
— E é um…?
— É, Aaron.
Meu Deus, Kevin Day quer que Aaron o ajude a achar o vibrador que ele perdeu na bunda.
