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Reconectando-se com a realidade (Aaríssimo)

Summary:

A perda de Sofia tinha aberto um abismo enorme em seu peito, e para piorar Veríssimo agora se encontrava completamente sozinho com uma criança para cuidar. Não que não amasse Mia mais do que qualquer coisa no mundo, pelos céus, ele a amava mais do que sua própria vida, mas não levava jeito algum com crianças, e Calisto, seu cunhado, embora ajudasse bastante, estava tão destruído quanto ele. Influenciado por um colega de trabalho, ele resolve buscar apoio em um grupo de pais solteiros, acabando por conhecer um rapaz com uma história conectada com sua própria, Aaron, que tem um filho pequeno e também perdeu tudo pouco tempo antes dele mesmo.
As sessões de terapia em grupo e atividades começam a ganhar uma cor diferente quando um sentimento especial começa a conectar dois homens tão diferentes, mas com histórias bizarramente conectadas.

Notes:

Dia 5 da week, tema: família.

Work Text:

Você se lembra como nos conhecemos? Certamente não foi a mais feliz das coincidências, mas devo admitir que fico feliz de ter cedido à pressão, pois só assim poderíamos ter chegado onde estamos hoje.

 

Veríssimo sequer podia acreditar que estava realmente indo a um lugar como aquele. Se fosse uma merda completa, um desperdício de tempo, a culpa era de Calisto Bessat, seu cunhado.

Olhou para baixo por um momento e viu Mia estendendo os bracinhos e pedindo colo; seu coração se derretia em amor e ao mesmo tempo doía terrivelmente a cada momento que olhava para ela, tão parecida com a mãe, Sophia, que havia partido de forma tão drástica.

— Não fujam. Eu vou voltar pra buscar vocês às 17h, e é melhor ter um relatório decente sobre como foi a reunião, ou eu vou levar a Mia pra casa durante o fim de semana e você vai ficar triste sozinho, viu? — encostado no carro a poucos metros dali, Calisto ameaçou em tom brincalhão, mas Veríssimo não duvidou que ele seria mesmo capaz, considerando que Mia era a única coisa que tinha restado de sua irmã, também.

— Vamos nos comportar bem, Calisto. Pode ir. Não se preocupe conosco, eu não estou com meu carro, não tenho como fugir daqui. — o mais velho suspirou, abaixando-se e pegando a garotinha de três anos em seu colo, antes de seguir os difíceis passos para dentro do edifício discreto com placa suspeita na frente, onde se lia “O Outro Lado da Vida, terapia em grupo de segunda a sábado, das 14 às 17h, consulte os temas de cada dia na recepção”.

Veríssimo entrou no prédio com a garotinha em seu colo e uma mochila dos Força G nas costas; era incrível como as crianças amavam aqueles quadrinhos, e Mia seguia pela mesma rota, sendo apaixonada pelo desenho desde tão pequena. A coleção de quadrinhos guardada no armário sob a escada, memórias do lado mais inesperado de sua falecida esposa, Sophia, e de quando ela o arrastava para incontáveis encontros de nerds junto do cunhado, Calisto. Veríssimo não conseguia se livrar dela, preferiu deixar para Mia, e seguiu comprando cada novo volume lançado como se fosse incapaz de alterar sua rotina desde o dia em que ela partiu.

A recepcionista lhe fez algumas perguntas, às quais ele respondeu mecanicamente; Veríssimo assinou um papel e uma senhorita de não mais que trinta anos veio buscar a pequena Mia e sua mochilinha na recepção, levando-a para a brinquedoteca, enquanto ele fora orientado a subir para o salão no andar superior.

Uma grande sala com cadeiras dispostas em forma de círculo; uma mesa baixa no centro, espaço amplo e com bastante luz natural. Um grupo de cinco homens já esperava lá quando ele chegou. Uma voz feminina atrás de si o assustou brevemente, fazendo-o virar-se em direção a uma mulher asiática que parecia ser um pouco mais velha que ele mesmo.

— Você deve ser o senhor Veríssimo, por favor, sente-se e fique à vontade. Eu sou Chizue, a psicóloga que estará conduzindo a terapia de hoje. Já vou lhe apresentar aos outros. — ela disse e logo passou por ele, seguindo em direção à roda e cumprimentando os demais presentes.

O tempo parecia não passar. Aquele lance de terapia em grupo não ia ajudar em nada, claro, ou ao menos isso era o que o homem pensava enquanto ouvia os colegas de terapia falarem sobre suas vidas, seus progressos, sobre como estavam lidando no dia a dia com a vida como pais solteiros, como seus filhos estavam lidando com aquilo tudo. Mais pessoas chegaram depois, cerca de vinte pessoas na sala lidando com seus próprios problemas, se abrindo sobre seus cotidianos para aquele bando de estranhos que pareciam ter perdido seu propósito de vida.

Alguns estavam naquelas rodas de terapia há meses, outros há anos, Veríssimo se perguntava como aquilo poderia funcionar se as pessoas pareciam frequentar o resto da vida. Como era sua primeira vez, Chizue pediu que ele ficasse à vontade para contar sua história se quisesse ou apenas ouvir os outros se ainda não estivesse confortável o bastante, mas lembrando da ameaça do cunhado, preferiu colaborar com o procedimento. Se não funcionasse, seria porque o sistema era uma bosta mesmo, e não porque ele não estava colaborando com o processo do grupo.

— Minha esposa faleceu durante o parto. Isso ocorreu há três anos e dois meses atrás. Ela teve uma hemorragia, os médicos fizeram tudo o que podiam, ela morreu segurando minha mão e sorrindo em meio à dor e ao medo. Ela não chegou a segurar nossa garotinha nos braços, só me pediu pra cuidar dela. — a voz começou a ficar trêmula. Veríssimo nunca precisou explicar o que tinha acontecido com Sophia antes, já que o cunhado trabalhava no mesmo local que ele e fazia-se de porta-voz. Pensando bem, era a primeira vez que falava abertamente sobre como Sophia morreu. — Mia é igual à mãe dela em aparência, e isso me aterroriza. Tenho medo constante de perdê-la também, de não dar conta de tudo. Foi difícil voltar ao trabalho, muitas vezes não consigo deixá-la nem mesmo na casa dos meus sogros. Sendo muito honesto, estou apavorado agora por não tê-la ao alcance dos meus olhos, mesmo sabendo que as pessoas que trabalham aqui são mais do que capazes de cuidar de uma menina tão boazinha quanto ela. Acabo levando ela comigo para o trabalho com frequência, porque não consigo deixá-la longe da vista, mas meu ambiente de trabalho nem sempre é o melhor lugar para uma criança estar, meu cunhado está preocupado e insistiu para que eu viesse fazer terapia para encontrar alguma forma de lidar com esse… trauma.

Falar sobre Sofia era difícil, mas sobre Mia era o oposto; Mia era a luz de sua vida, cada conquista dela parecia servir de âncora para que o homem ainda tivesse alguma vontade de continuar nesse mundo. Isso era algo que a maioria das pessoas presentes ali podia compreender, mas, claro, o luto e os traumas se refletem de formas diferentes em cada pessoa, por isso as experiências plurais de cada um ali ajudavam os outros a enxergarem maneiras diferentes de lidar com os próprios receios.

A próxima pessoa a falar também era alguém que estava entrando agora na roda e por isso o grupo estava curioso para ouvi-lo falar. Chizue lhe deu as mesmas orientações.

— Senhor Strach, pode compartilhar conosco o que quiser, mas se não se sentir confortável, tudo bem deixar para falar numa outra sessão e apenas ouvir, ok? — ela disse gentilmente. O rapaz meneou a cabeça em agradecimento.

O tal homem parecia ser a pessoa mais destoante do grupo. Usando boné, capuz, óculos escuros e uma máscara que cobria sua boca e nariz, ninguém podia saber como realmente era sua fisionomia, as mãos, cruzadas sobre os joelhos, exibiam tatuagens, mas de resto ele estava praticamente todo coberto. Uma figura exótica.

— Por favor, me chame apenas de Aaron. Espero que minha história não ofenda nem assuste ninguém aqui. Honestamente não sei se é o tipo de história apropriada para terapia em grupo, mas meu psiquiatra insistiu que estaria tudo bem. Meu filho vai fazer nove neste ano, é um garoto quieto, estamos tentando trabalhar isso na terapia, mas eu também não sou de falar muito, acho que ele me puxou. Somos só nós dois; não temos rede de apoio. A mãe dele foi assassinada três anos atrás, eu não estava em casa, não consegui ajudá-la, cheguei poucos minutos depois, já era tarde demais. Jaser… Jaser viu tudo acontecer. Eu prefiro não compartilhar mais detalhes sobre isso agora; não por mim, mas acho que os detalhes mórbidos podem prejudicar a situação de vocês, e não é minha intenção. — o rapaz fez uma pausa, a cabeça inclinada fazia notar que ele olhava para os próprios pés. — Nós fazemos tratamento individual, mas o psiquiatra acha que é importante nos acostumarmos a socializar com outras pessoas também. Jaser frequenta a escola, mas não faz muitos amigos, eu trabalho em home office, então não vejo muita gente.

— E como você se sente em relação a essa situação, Aaron? Se sente só? — a psicóloga deu corda para desenvolver um pouco mais do lado emocional do homem, que parecia falar de forma racional demais com sua voz compassada e baixa, sem demonstrar qualquer oscilação emocional além de sua postura.

— Anestesiado. Acho que nada parece real ainda. Não sei dizer se em algum momento já pareceu real. Acho que estou procurando algo que faça sentido em toda essa história, nossas vidas parecem ter sido um pesadelo que ainda não acabou.

— Bom, primeiramente meus sentimentos pela sua perda. Em segundo, desculpe-me perguntar, mas o responsável pelo assassinato já foi pego pela polícia? — um dos outros presentes verbalizou a pergunta que rondava a mente de Veríssimo, mas que ele não ousaria fazer tão abertamente.

Aaron pareceu pensar por um momento antes de responder a pergunta do colega de terapia, e escolheu as palavras mais simples que poderia para isso.

— Ele está morto também. Obrigado.

 

Quando aquilo tudo acabou, Calisto esperava pelo cunhado e pela sobrinha do lado de fora para irem embora. A mente de Veríssimo estava presa naquele relato do tal Strach. Não se lembrava de ter visto sobre aquele crime, certamente tinha acontecido depois da morte de Sophia, quando ele estava de licença, caso contrário se lembraria de ter visto algo a respeito no trabalho, já que trabalhava na polícia.

A primeira coisa que fez ao chegar no trabalho foi procurar informações daquele caso, tendo em mente os nomes citados: “Aaron e Jaser Strach”.

Um crime horrendo, de certo. Abraão Strach tinha matado praticamente todos os membros da própria família, exceto por Aaron que não estava em casa no momento por ter saído para comprar pão alguns minutos antes, e por Jaser, um moleque de 6 anos, que o esfaqueou no peito em legítima defesa, evitando a própria morte, mas causando a do assassino. A criança teve que matar o próprio “pai” para se defender, em tão tenra idade… Aquilo era horrível.

Aaron era sobrinho do assassino, primo da criança, mas tinha o adotado depois do ocorrido e o criava como seu próprio filho.

Aquela família estava sendo observada por Sophia, que antes de sua morte era assistente social, e investigava denúncias de maus-tratos às crianças da casa. Uma pena que não tinha conseguido colocar aquele homem na cadeia antes que o pior acontecesse. Que mundo pequeno era aquele no qual viviam.

 

— Sinto muito pelo que aconteceu com a sua família.

No sábado seguinte, antes que a sessão começasse, Veríssimo encontrou Aaron do lado de fora do prédio fumando um cigarro e se aproximou, puxando a conversa.

— Você se deu ao trabalho de ir procurar a respeito? Uau. Obrigado. Espero que não tenha se traumatizado, nem que isso tenha te causado medo de deixar sua filha frequentar o mesmo local que Jaser. Ele é um garoto ótimo, só fez o que tinha que fazer pra continuar vivo. — Aaron suspirou, jogando o cigarro no chão e o apagando com o pé antes de se virar para o outro homem.

— Minha esposa era assistente social. Ela estava investigando as denúncias de maus-tratos feitas sobre o menino chamado Golias. Teve que passar o caso adiante quando saiu de licença pelas complicações da gestação.

— Uma moça ruiva? Ah… Então ela faleceu… — a voz de Aaron pareceu adotar um tom mais triste por um momento. — Golias gostava dela, Jaser também. Eles sempre comentavam sobre como ela era gentil. Fui eu quem denunciou Abraão para o conselho tutelar, mas o problema nunca foi resolvido, infelizmente. Pensei que era a negligência deles que a mulher nunca voltou, não imaginei que a gestação dela tinha se complicado. Me desculpe, acho que mentalmente xinguei sua esposa quando tudo aquilo aconteceu. 

Veríssimo respirou fundo e colocou uma mão sobre o ombro do outro, apertando de leve num consolo silencioso. Por alguns minutos, nenhuma palavra foi dita entre os dois.

— Nós devíamos sair pra beber um whisky qualquer hora, Aaron. Se quiser ir lá em casa, podemos procurar nos documentos da Sophia, tenho certeza que ela já tinha passado a denúncia ao ministério público. Se for o caso, posso solicitar reabertura da investigação e tentar descobrir porque esse homem não tinha sido preso. Alguém tem que se responsabilizar por isso, e não são você e o Jaser.

Aaron abriu um sorriso leve e negou com a cabeça.

— Obrigado, Veríssimo, mas acho que essa parte da história já teve um fim. Nem tudo na vida tem um final feliz. Eu e o Jaser estamos tentando seguir em frente, não olhar pra trás. Mas eu agradeço a gentileza, e aceitaria o convite para beber. Não sou bom com álcool, mas você me parece um homem exemplar pelo jeito como fala da sua filha, e como se propôs a tentar me ajudar, sendo que não me deve nada. Eu preciso fazer amigos, então se você estiver disposto, eu estou.

Veríssimo sorriu de volta e afirmou com a cabeça, dando dois tapinhas leves no ombro do rapaz.

— Vamos hoje, então. Se não tiver com quem deixar o Jaser, posso pedir para o meu cunhado cuidar dele e da Mia. Calisto ama crianças e é excelente com elas, não vai negar um pedido meu.

 

Nós bebemos na sala da minha casa, pois nenhum dos dois gosta de lugares cheios, e conversamos sobre tudo o que podíamos conversar. Como se nos conhecêssemos de longa data, como se tivéssemos vivido vidas próximas e semelhantes. Você não era mesmo bom com álcool, ficou bêbado muito rápido, dormiu no sofá. Você foi até aquele lugar porque precisava fazer amigos, mas no fim apenas me mostrou o quanto eu também precisava daquilo.

Virou rotina. Todo sábado, depois da terapia, deixávamos as crianças com Calisto e passávamos tempo juntos. Uma hora simplesmente aconteceu de forma natural. Eu não conseguia mais imaginar uma vida sem você por perto. Pedi desculpas pela minha petulância, você riu de mim e me chamou de idiota, me beijando logo em seguida. Achei que estávamos bêbados demais para ter ideias corretas, mas repetimos sóbrios na manhã seguinte e tudo soou perfeitamente bom.

Jaser e Mia se davam absurdamente bem, e ter “uma irmã mais nova” por perto parecia fazer muito bem para ele, que se tornava mais comunicativo, menos sério, se soltando mais e mais a cada vez que tinham uma “festa do pijama”.

No fim, Calisto me apresentou indiretamente às pessoas que mais amei em toda minha vida, primeiro Sophia, com quem vim a ter Mia, e depois você e o Jaser, que não teria conhecido se ele não me enchesse tanto o saco para fazer terapia.

Não precisamos mais das sessões em grupo de terapia, mas sou grato porque graças a ela pudemos nos conectar novamente com a realidade.

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