Work Text:
Esse é o lugar onde a ganância pode levar um homem. As profundezas da escuridão e da dor, o labirinto da loucura da mente, o vazio da existência acima da complexidade do universo material e imaterial. Minha ganância elevou-se a tal ponto onde cometi o impensável, alcancei o inalcançável: eu revivi um deus, um deus que deveria estar preso por toda a eternidade, um deus que destruirá o universo.
Bem, talvez esse fosse o pensamento refletido nos olhos daquele servo que o encarava com tamanha adoração, talvez fosse apenas um sussurro das vozes sem fim que ecoavam no profundo da mente de Aaron. Talvez fosse apenas a insegurança gerada por eras de solidão ao finalmente encontrar os olhos de outra criatura, mesmo que fosse uma criatura mortal, inferior.
— O ritual deu… certo? — o homem perguntou hesitante, sem coragem de testar sua própria teoria.
O chão coberto de sombras deveria ser um sinal claro o bastante, mas parecia não ser. A incredulidade desenhada no rosto alheio era quase ultrajante para a divindade que lutava para mover aquele corpo mortal, erguendo-o da mesa, abrindo os olhos que tingiram-se de vermelho vivo no momento em que se abriram. Abriu a boca mas as palavras não saíram, claro. Por eras sem fim sequer era capaz de articular qualquer coisa que não loucura, como poderia esperar ganhar um corpo e, logo, também uma voz?
O mortal tremeu ao vê-lo, tremeu em excitação, em medo. Um sorriso se desenhou em seu rosto.
— Bem-vindo ao plano mortal, majestade sombria. Bem-vindo de volta.
Aquilo aconteceu há algum tempo, e os acontecimentos posteriores foram igualmente estranhos. Aquele mortal não estava sozinho, e seus apoiadores, embora poucos, eram bastante fiéis, mas pareciam cada dia mais frustrados porque seu deus não lhes dizia nada. Seu deus permanecia silencioso, frio, distante; mas eles estavam certos que era ele. Tinha que ser ele, afinal, num instante tinham um corpo morto no centro de um ritual, e em seguida tinham o homem erguendo-se das sombras, com olhos vermelhos aterrorizantes e aquela aura de profanação e vulgaridade.
Com o tempo, só estar perto do deus não parecia bom o bastante, e os experimentos começaram. Com o deus ao lado deles, não precisavam ter medo dos mortais.
Mas a ganância crescente no coração dos homens se revela uma faca apontada contra os próprios homens, onde eles lentamente se colocam contra o gume, que rasga aos poucos a carne enquanto eles mesmos se regozijam no calor do sangue vermelho e borbulhante.
Naquela noite, depois de interceptar os sinais de rádio policiais, a equipe de investigadores paranormais infiltrou-se na operação. Disfarçados como agentes da lei, chegaram ao local onde um crime brutal tinha ocorrido há poucos minutos. O cenário horrendo pintava-se do vermelho que pingava pelas paredes, pelo teto, arrastava-se pelo chão, férreo. Os corpos espalhados com sinais de violência contavam uma história de horror, de um grupo de membros de uma possível seita que teriam esfaqueado uns aos outros até a morte, mutilando-se em conjunto numa mesma sala até o fim de um ritual macabro pintado em branco no chão sujo. Num canto da sala, um homem agachado, encolhido sobre si mesmo, abraçava seus joelhos e escondia o rosto contra eles; um homem assustado, fragilizado, uma possível vítima de todo aquele horrendo caos, que teria muito a contar.
Arnaldo foi na frente conversar com os policiais na cena, Veríssimo aproveitaria a distração criada pelo colega para interrogar o homem.
O rosto que se levantou ao seu chamado não era de todo desconhecido: um rapaz que tinha desaparecido alguns meses antes, Aaron, se não estava enganado. As circunstâncias do desaparecimento estavam ligadas a uma espécie de culto que a Ordem vinha investigando. Precisava de tempo com aquele rapaz. Olhou para Arnaldo, vendo que os policiais continuavam focados nele.
— Estamos aqui para ajudar, rapaz. Preciso que me responda a algumas perguntas, ok?
As marcas nos braços do rapaz contavam a história que suas palavras não diziam: abuso, tortura. Talvez o silêncio derivasse daquilo. As máquinas no local, seringas, macas, tudo mostrava que aquele rapaz estava sendo vítima de algum tipo de experimento. A Ordem o levaria para cuidar dele até que as respostas viessem.
Aaron não dizia nada, mesmo depois de vários dias. Veríssimo tentou uma abordagem diferente, trazendo então um intérprete de LIBRAS. Os olhos do rapaz pareceram brilhar, e ele rapidamente se ocupou de aprender aqueles sinais, e em pouco tempo estava se comunicando bem, mas o que ele dizia parecia não fazer sentido aos olhos do agente da Ordem.
“Ainda estou tentando me acostumar com esse corpo, não é seguro usar minha voz.”
Talvez o medo derivasse do trauma, de tudo o que ele devia ter vivido naquele lugar.
Conforme o tempo passava, Aaron começou a dizer mais coisas do que sabia. Aqueles homens realmente eram cultistas, realmente tinham feito vários testes e experimentos em seu corpo, tirando seu sangue para estudar e realizar rituais, torturando-o em busca de poder. Aquilo tudo tinha terminado, pois os cultistas se viciaram no sangue, almejando mais e mais dele, até chegarem ao ponto de matar uns aos outros para ficar com ele, mas nenhum sobrou.
Veríssimo queria entender aquilo, mas cada vez mais a conclusão que tinha era de que faltava uma peça naquele tabuleiro, uma peça muito importante.
Aaron não era um ocultista. Ele não parecia entender o que aquelas pessoas estavam fazendo, não parecia saber o que era a Ordem também. Na verdade, ele parecia maravilhado e confuso com a tecnologia simples do mundo, como televisão e celulares, como se nunca tivesse visto isso antes, Parecia curioso quanto às pessoas, quanto à realidade. O agente, experiente, não conseguia deixar de ter a sensação ruim de que algo havia acontecido com aquele homem além do que eles já sabiam, mas Aaron não contava, sempre se calava quando chegavam naquele ponto.
Não havia nenhuma sensação ruim ou estranha perto dele, não pareciam ter resquícios sobrenaturais no homem, mas Veríssimo era incapaz de ficar em paz. Algo de muito ruim tinha acontecido com Aaron, isso era certeza.
Meses se passaram e então ele queria ajudar; queria ser um agente da Ordem também, queria combater o Outro lado com Veríssimo e seus aliados. Embora hesitantemente, o mais velho aceitou.
Aaron se provou um bom aliado, uma mira excepcional, e por algum motivo as criaturas do Outro Lado mal pareciam perceber sua presença antes que ele as aniquilasse.
Aniquilação era o melhor termo possível.
Muita coisa aconteceu, muitos anos se passaram, Aaron se tornou o melhor amigo de Veríssimo, alguém em quem ele confiaria de olhos fechados, mas de quem nunca ouviu a voz.
Até que num certo dia, numa certa missão, com a equipe dividida pelo ambiente de um convento abandonado, Veríssimo terminando de investigar sua parte, resolveu procurar pelo outro. O cenário era o pior possível: a arma de Aaron estava caída perto da porta e o homem no centro da sala cercado por cultistas prontos para matá-lo. Veríssimo preparou sua espada e segurou a respiração, preparando-se para entrar, mas antes que o fizesse, viu pelo vidro da porta o homem puxar a máscara que prendia seu rosto e pronunciar algo com voz baixa, a qual ele não pôde ouvir, mas que ecoou em sua mente por anos como se o puxasse para um lugar escuro, profundo.
Todos os homens da sala pareceram convulsionar antes de pegarem suas armas e começarem a atacar uns aos outros. Aaron se afastou com cuidado, pegando a arma no chão antes de se dirigir para a saída, dando de cara com Veríssimo completamente pasmo.
— Você não. Eu até que gosto de você.
