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Atrás dos pinheiros

Summary:

"Não vá lá. Ninguém vai. Um alfa vive isolado lá há anos. Os boatos dizem que ele é... violento. Dizem que ele enlouqueceu depois que sua matilha foi toda assassinada, e desde então, ninguém se atreve a chegar nem perto"

Essas foram as primeiras palavras que Jeongin ouviu sobre ele, como uma advertência. Mas, para Jeongin, essas palavras soaram como um convite, despertando sua curiosidade deliberadamente irresponsável e seu desejo por respostas, que foram o suficiente para levá-lo atrás do temido alfa que ninguém via há mais de uma década.

Notes:

debutei no abo com uma alfa x alfa e queria dizer que, como o universo abo é completamente moldável, eu quis fazer uma coisa mais diferente relacionada aos cios/ruts (talvez nem seja tão diferente, eu só não leio tanto abo pra saber se escrevem assim), mas ao invés do cio/rut ser o desejo incontrólavel de fazer sexo por dias inteiros eu mudei um pouco isso, avisando só pra não estranharem

Work Text:

— Sabe aquela casa atrás dos pinheiros?

— Sim, eu sempre tive curiosidade-

— Não.

Jeongin franziu o cenho, confuso.

— O quê?

— Não vá lá. Ninguém vai. — respondeu Seungmin, erguendo as sobrancelhas em uma expressão despreocupada — Um alfa vive isolado lá há anos. Os boatos dizem que ele é... violento. Dizem que ele enlouqueceu depois que sua matilha foi toda assassinada, e desde então, ninguém se atreve a chegar nem perto

Jeongin lançou-lhe um olhar de canto, ainda não conseguia entender, na verdade, se sentia um tanto indignado.

— Boatos, então? — murmurou com a voz baixa, quase irritada — O certo a se fazer nessas situações é excluir alguém da sociedade, então? Como tentaram fazer comigo?

Seungmin suspirou, o beta tinha apenas 23 anos, tinha sido o primeiro a se aproximar de Jeongin desde que ele foi aceito pela matilha — Eu não sei… Eu mal tinha nascido quando isso aconteceu, eu só tô te falando porque você é novo por aqui, pra você tomar cuidado, por mais que… — ele fez uma careta — não é como se um alfa dominante fosse precisar de conselhos assim.

Jeongin não conteve uma risada alta, esbarrando contra o ombro de Seungmin — Quando me aceitaram aqui, disseram que não tinha discriminação dentro da matilha, e agora você tá me oprimindo por ser um alfa dominante?

— Oh… Como você deve se sentir oprimido por isso, pobre alfa. — Seungmin ironizou, não conseguindo conter um riso baixo também, olhando para o chão por um tempo — Mas sério, só… Vê se não sai fazendo besteira por aí, vai atrair os olhares que já estão em cima de você.

— Olhares que já estão em cima de mim?

— Um alfa novo e... — Seungmin hesitou, mas deu uma breve risada antes de continuar — gostoso? Por favor, todo mundo tá te querendo.

— Inclusive você? — provocou Jeongin, com um sorriso astuto.

Seungmin parou de brincar com o graveto no chão e levantou o olhar, surpreso, encontrando o olhar divertido de Jeongin. Ele sentiu as orelhas esquentarem, mas ele tentou disfarçar, murmurando — Não me olhe assim. Existem opções melhores lá dentro pra você, você sabe.

— Ah, mas eu realmente não ligo pra isso, eu sei que eu chamo atenção, mas... — Jeongin suspirou — Não sinto essa necessidade de ter alguém só por ter. Quero um parceiro pra passar os ruts porque preciso, mas esses olhares... Eles nem me conhecem, querem se aproximar só por isso aqui. — Ele apontou para o próprio corpo, arrancando uma risada de Seungmin.

— Bem, não é como se fosse pouca coisa, você já se olhou no espelho?

— Eu sei! Parece até hipócrita, como se eu fosse só um alfa arrogante que quer escolher demais, mas-

— Parece exatamente isso. — Seungmin o interrompeu, rindo.

— Qual é… Para de ser cruel.

— Você é hilário. — Seungmin sorriu, com um brilho genuíno no olhar — Não é o que eu esperava de um alfa dominante.

— Quer que eu te empurre na parede e faça você se ajoelhar pra mim? É isso que esperam de um alfa dominante?

— Eu não quero nada. — Seungmin levantou as mãos em rendição, rindo pelo nariz — Só tô dizendo que sua personalidade foge do que se espera de você, e isso me deixa aliviado. Ter alguém andando por aí, achando que é superior só por ser alfa dominante seria insuportável. — Seungmin suspirou — Se aquele alfa da casa também for dominante, eu espero que fique longe…

— Eu não acho que essa seja uma linha de raciocínio muito empática.

— Porque você é um alfa.

— O que?

— Por que você nunca precisou ter medo de um alfa violento, afinal, você pode ser um também. — Jeongin ficou estático por meio segundo, e Seungmin percebeu o choque em seu rosto — Eu não quis dizer que você…

— Relaxa, eu entendi. — Jeongin deu um sorriso leve — Mas ainda assim, eu tenho essa curiosidade insuportável de não aceitar que ele é só um alfa louco e violento.

— Só estou te dizendo o que todos dizem.

— Como a matilha dele morreu?

— Não faço ideia. Tem tantas versões que ele já virou uma lenda. — Seungmin riu, mas o sorriso morreu aos poucos — Dizem que ele foi visto pela última vez coberto de cicatrizes... Você consegue imaginar o que é liderar uma matilha e ver todos morrerem? Eu tenho medo dele, mas... se ele realmente enlouqueceu, eu também não o culpo.

Jeongin ficou em silêncio por alguns instantes, olhando para o céu antes de cobrir a cabeça com as mãos e soltar um gemido.

— Agora fiquei mais curioso ainda.

— Puta que pariu. — Seungmin bufou — Vou contar pro Jisung que você já quer fazer besteira.

— Não! Confia em mim, eu prometo que não vou fazer besteira.

Seungmin o encarou, descrente.

— Jeongin, faz três meses que eu te conheço, e nesse meio tempo não vi você fazer sequer uma coisa responsável.

— Confia em mim! — Ele segurou as mãos de Seungmin — Eu juro, não vou fazer besteira dessa vez. Só acho que... todo mundo merece uma segunda chance. — A expressão de Seungmin endureceu, e a de Jeongin fez o mesmo — Você sabe que independente do jeito que você me olhar, eu vou fazer o que eu quero.

— Ah, olha só... — Seungmin inclinou a cabeça, com um sorriso irônico — É… que bom que você tem essa personalidade, se você ficasse sério mais vezes seria um problema.

Jeongin franziu o cenho, notando o leve tremor nas mãos de Seungmin, que ele ainda segurava. Seus olhos se arregalaram — O-o que- Você ficou com medo?!

— Você precisa aprender a controlar seus feromônios. — Seungmin disse num sussurro, desviando um olhar — Mesmo pra um beta, os seus são... intensos.

— Eu... Eu não percebi...

— É normal, você ainda tá aprendendo. — O beta deu de ombros, tentando amenizar o clima tenso que havia se formado — Você só se sentiu desafiado, foi instinto.

— Desculpa — murmurou Jeongin, envergonhado — Eu vou pedir mais ajuda pro Jisung com isso.

— Para de agir como um cachorrinho, eu odeio isso. — Seungmin deu um leve peteleco em sua testa — O que você pretende fazer?

╱╳╲

Ele não estava exatamente saindo escondido. Ele só não estava avisando a ninguém.

Carregando uma cesta nas mãos, Jeongin se envolvia no tecido pesado do sobretudo, o capuz puxado sobre a cabeça. O sol já estava baixo, tingindo o céu de um laranja suave quando ele saiu pelos fundos de casa, atravessando o terreno em direção aos pinheiros. Desde que chegou na vila, foi algo que sempre observou. Era como se a floresta separasse dois mundos, um na vila, e outro que ele estava prestes a descobrir.

Andar não era um problema para ele, o alfa atravessou a floresta por trinta minutos, sentindo o frio úmido das árvores, até que, por entre os troncos, avistou a solitária casa de madeira. Ali, no meio do nada, completamente isolada.

Ninguém merecia viver assim. Ninguém merecia ser afastado do mundo daquele jeito.

Ao pisar no primeiro degrau da escada da varanda, a madeira rangeu, soando alto no silêncio ao redor. Jeongin hesitou por um segundo, mas logo avançou. Antes mesmo de bater, ele respirou fundo, farejando o ar. O cheiro de outro alfa era forte, mas estava distante demais para que pudesse descrevê-lo. Sentiu o coração acelerar, a curiosidade crescendo em seu peito.

Gostaria de descrevê-lo.

Ele deu duas batidas na porta.

— Com licença? — chamou, sem obter resposta — Eu sou novo aqui... Quer dizer, na vila depois dos pinheiros, eu trouxe umas coisas... — Ele ergueu a cesta, sabendo que ninguém lá dentro podia vê-lo — Você, uhn… Jeongin! Meu nome é Jeongin! Eu trouxe algumas frutas e outras coisas porque não tem nenhum mercado perto por aqui e deve ser difícil pra você encontrar comida, eu não quero incomodar, então eu só vou deixar… aqui, tá bem do lado da porta.

Ele esperou alguns segundos. Nenhuma resposta.

— Até outro dia!

Jeongin mordeu os lábios à medida em que se afastava da porta, porquê enquanto se afastava, sentiu o cheiro se intensificar, ele sabia que quem quiser que estivesse ali dentro, havia se aproximado da porta. Enquanto voltava para casa, Jeongin se perguntou quando deveria voltar, no próximo dia, talvez? Mas sua semana foi caótica, e só sete dias depois ele se viu, mais uma vez, com uma cesta nas mãos, caminhando entre os pinheiros.

Durante o trajeto, cantarolou baixinho, os pés firmes no caminho que já havia memorizado. Mas assim que a casa surgiu entre as árvores, ele franziu o cenho. A primeira coisa que notou foi que a cesta ainda estava ali, intocada, com a única diferença de que tudo dentro dela estava podre, rodeado de moscas e até mesmo de larvas.

Jeongin removeu o cesto deteriorado, sentindo o cheiro azedo, e suspirou antes de bater duas vezes na porta.

— Desperdiçar comida devia ser pecado, sabia? — resmungou, um tanto irritado — É o Jeongin. Eu trouxe outra cesta... Eu realmente só tô tentando ser simpático, você não precisava deixar tudo estragar porque… É comida, poxa, você pensou o quê? Que tinha veneno?

Ele disse batendo o pé, mas logo parou, franzindo as sobrancelhas..

— Se bem que… Se um estranho viesse na frente da minha casa e colocasse comida do nada eu também acharia estranho… — murmurou para si mesmo, e em um suspiro, ele tirou o capuz que escondia boa parte do seu rosto. As janelas da casa pareciam empoeiradas, o que o impedia de ver o interior dela, e também pareciam ser cobertas com cortinas escuras, mas ainda assim, Jeongin sentiu o mesmo cheiro da outra vez — Como eu disse antes, eu me chamo Jeongin.

Olhou ao redor, o silêncio da floresta crescendo ao seu redor. Sem pressa de voltar à vila, ele se sentou na varanda ao lado da cesta e pegou uma maçã, mordendo-a com satisfação.

— Tenho vinte e quatro anos, eu cheguei na vila há pouco porque... me expulsaram da minha antiga matilha. Outro alfa armou uma coisa contra mim, e... bem, se eu não saísse, iriam me matar. — Jeongin riu sem humor, o sorriso vazio — Até minha família me virou as costas. Mas, enfim... Você sabia que eu teria morrido se não fossem as pessoas da vila? O Jisung principalmente, ele me achou na beira da morte e me trouxe pra cá. É estranho, mas me acolheram de verdade, e eles tem todos, gente de todos os tipos.

Ele encostou a cabeça na porta, os olhos fechados, ouvindo apenas o vento balançando as folhas.

— Eu não sei a sua história, e eu não sei o que te levou a se fechar dessa forma, o que me falam sobre você é tão limitado que eu me pergunto se é real, eu nem sei o seu nome. — Ele mordeu mais um pedaço da maçã — Acho que… se você fosse violento como dizem, você já teria me atacado, não? Eu fui um pouco ousado, eu prometi ao Seungmin que não ia fazer besteira, mas eu nem pensei que eu tava invadindo o território de outro alfa quando vim pra cá.

Jeongin passou alguns segundos em silêncio.

— Eu tenho alguns problemas em controlar meus feromônios, eu demorei mais que o normal pra descobrir o que eu era, então eu nunca tive muita… Instrução? Eu tô tendo agora! E eu tô falando isso porque eu não quero que você pense que eu tô tentando de alguma forma afrontar ou tomar seu território, eu só não percebo as vezes quando eu faço isso, eu espero que não te incomode, por isso eu tentei me cobrir mais, mas também eu não pensei que isso poderia fazer você pensar que eu era um completo estranho e maluco, mas na verdade é isso que eu tô parecendo agora falando sozinho… Isso é mais confuso do que eu pensava.

Ele olhou para cima, o céu acinzentado, as folhas farfalhando e as cigarras começando a cantar, indicando a chegada da noite. Uma onda de vento passou por ele, e ele fechou os olhos, ouvindo o som do silêncio por algum tempo.

— Eu vou indo. — disse, sem saber se alguém o escutava — Não deixe a comida estragar dessa vez, tá? Eu volto outro dia.

Enquanto caminhava de volta pela floresta, parou algumas vezes para observar insetos entre as folhas. Já perto da vila, avistou Seungmin de pé na frente de sua casa, roendo as unhas e lançando-lhe um olhar apreensivo.

— Onde você estava?!

— Eu... O que houve?

Seungmin coçou a cabeça, inquieto.

— Não entra em pânico.

— O quê?! — Jeongin arregalou os olhos — Puta merda, o que aconteceu?

— Não entra em pânico! — Seungmin repetiu — O Felix entrou no cio. Jisung queria saber se... — Jeongin empalideceu, arregalando os olhos, e Seungmin o olhou incrédulo — O quê?! O que é esse rosto? Por que parece que você vai desmaiar?! Não é assim que você devia estar reagindo, o que-

— Jeongin? — Eles dois se viraram ao ouvir a voz de Jisung.

— Hyung… — Jeongin abaixou a cabeça, balançando-a em negação brevemente — E-eu… eu nunca cuidei de um ômega no cio. Nem ninguém, eu nunca cuidei de ninguém no cio ou no rut, eu não sei como…

Jisung observou-o atentamente, e Jeongin sentiu o rosto esquentar, corando.

— Seja sincero. — Jisung falou, sua voz sempre calma — Você quer acolher o Felix? Ele é o ômega mais fácil de lidar, o mais... como posso dizer-

— O mais perfeito, você provavelmente vai sair de lá apaixonado por ele. — Seungmin interrompeu, atraindo a atenção dos dois alfas — Por que vocês me olharam assim?!

— Eu não o conheço direito. Nos falamos no máximo duas vezes, nós nunca tivemos nada… Nenhuma ligação, eu sei que nesse momento, isso não importa, mas por que eu seria uma boa pessoa pra acolher ele? Eu nunca fiz isso.

— Pensei em você porque você disse que queria aprender. Mas ninguém vai te forçar. — Jisung respondeu, tranquilamente.

— Você é idiota? — Seungmin atrai a atenção dos dois novamente, dessa vez com as sobrancelhas franzidas em indignação — Felix é literalmente o ômega mais lindo da matilha e você- O que você tem na cabeça?!

Jeongin piscou algumas vezes, chocado — Seungmin, você quer ir no meu lugar?

— O quê? — Ele engoliu seco.

— Seungmin, você quer? — Essa foi a vez de Jisung perguntar, o que pareceu causar certo pânico no beta — Você não precisa ter medo de dizer, faz um tempo que você… Espera, a última vez que você ajudou alguém foi… — Jisung cobriu a boca chocado, enquanto Jeongin ficava cada vez mais confuso — Vai, agora. — o beta arregalou os olhos — É uma ordem, o Felix está precisando de ajuda.

Seungmin e Jeongin trocaram olhares, e Seungmin grunhiu antes de sair correndo dali, assim que ele se afastou o suficiente, Jisung riu, coçando a testa e negando com a cabeça.

— O que acabou de acontecer?

— Meses antes de você chegar, Felix entrou no cio e não tinha nenhum alfa por perto, e aí a gente encontrou ele uma semana depois em um ninho na casa do Seungmin… Com o Seungmin.

Jeongin riu, olhando para as próprias mãos — Ele gosta do Felix?

— Eu não tinha parado pra pensar nisso até agora.

— E pra vocês aqui… Isso não é um problema, certo?

— Se fosse, eu teria mandado ele ir ficar com o Felix?

— Sobre você ter me pedido. — Jeongin suspirou — Eu não sei se quero pular pra essa parte… Ajudar alguém parece ser uma responsabilidade muito grande, eu sei que essa conversa de pessoa certa não existe, mas se eu vou ficar com alguém em um momento como esse, eu iria querer que pelo menos fosse alguém com quem eu me sentisse seguro, e eu não sei se o Felix se sentiria assim comigo, por mais que, sendo honesto, eu me sinta instigado a saber como é passar o cio com um ômega.

Jisung assentiu, compreensivo — Você pretende passar seu próximo rut sozinho?

Jeongin se engasgou, e instantaneamente negou com a cabeça — Seria horrível, eu odeio sentir dor, passar sozinho deve ser… — Sua voz morreu lentamente, e ele desviou o olhar para os pinheiros — Hyung?

— Sim?

— Aquele alfa na floresta. — Jeongin voltou a olhar para Han — Há quanto tempo ele está lá?

— Cerca de vinte anos.

A expressão de Jeongin caiu por completo.

— Vinte… Anos? — Jisung assentiu, e Jeongin sentiu o estômago revirar

— Seungmin já te avisou pra manter distância, não é?

Jeongin assentiu com a cabeça.

— Enfim, não se sinta pressionado em aprender a ser um alfa, você já é um, e se chegasse no quarto do Felix, saberia perfeitamente como agir, porque são os seus instintos e você vai aperfeiçoar eles com o tempo. — Jisung tocou seu ombro, não como repreensão. Jeongin se sentiu aquecido — E sobre seu rut... quando precisar de ajuda, — ele sorriu gentilmente — sou o líder por uma razão.

╱╳╲

— Sou eu de novo. — Jeongin bateu na porta duas vezes, e ao olhar para o lado, ele não viu a cesta que havia colocado dois dias atrás. Isso fez um sorriso enorme surgir em seu rosto, mas logo se assustou ao ouvir um barulho vindo de dentro da casa — Oi? Tá tudo bem?

Por um momento, o silêncio foi a única resposta. Jeongin franziu o cenho, percebendo o quão entusiasmado estava — talvez até demais, ao ponto de seus feromônios estarem fora de controle.

— Desculpa! Desculpa, desculpa!

Ele colocou a cesta no chão, se sentando ao lado dela e respirando fundo — Eu já parei, eu só fiquei feliz que você não desperdiçou mais comida.

— É muito louco pensar que você me escuta, você provavelmente já me viu, e você pode estar aqui, atrás de mim nessa porta. — Ele fechou os olhos, se concentrando para farejar — Não… Eu sentiria seu cheiro se você estivesse aqui, você pode estar, hmmm… Numa cadeira um pouco longe da porta, olhando pra ela e me escutando falar. — Jeongin sorriu, e sem perceber, começou a tagarelar — Ou você pode não dar a mínima pras coisas que eu falo, eu não sei, eu gosto de pensar que você me escuta. E eu também gosto de imaginar como você pode ser.

Jeongin pegou uma maçã da cesta.

— Eu me pergunto… Se faz vinte anos que você tá aqui, e você provavelmente já era um adulto antes de vir pra cá, então você tem… cinquenta anos? Você poderia ser meu avô?! — Jeongin ouviu um barulho dentro da casa, dessa vez um barulho mais alto — Certo, parece que eu te irritei, desculpa… Mas pelo seu cheiro, você realmente não é tão velho assim.

Ele abraçou os joelhos enquanto comia a maçã, batendo hora ou outra a cabeça na porta — Você devia ser muito novo quando tudo aconteceu, eu sinto muito.

Jeongin não sabia de nada. Não sabia o que de fato tinha acontecido, como tinha acontecido… Mas ele sentia por aquela pessoa. De uma forma estranha, ele sentia.

— Sabe, eu estou bem lá na vila. As pessoas são acolhedoras. Ultimamente eu ando conhecendo ainda mais gente. Essa semana, por exemplo, foi meio chata, fiquei sem o Seungmin... Ele e o Felix passaram o cio juntos e agora estão inseparáveis. Eles são adoráveis juntos. — Jeongin riu — Você deve me achar ridículo, falando de gente que você nem conhece. Mas... por algum motivo, quando eu tô aqui eu me sinto mais livre. Irônico, né? Porque acho que pra você, esse lugar é uma prisão.

Um silêncio pesado caiu entre eles, enquanto Jeongin encarava o chão.

— Isso são só hipóteses que eu crio em minha cabeça, talvez na verdade essa seja a vida perfeita pra você, não? E todos os boatos sejam realmente isso… só boatos, e você só não queira conviver com as pessoas porque, realmente, é bem complicado. — Jeongin olhou para as próprias mãos, um nó se formando em seu peito — E talvez eu esteja aqui porque eu não sei o meu lugar no mundo, eu me sinto acolhido, mas tão perdido ao mesmo tempo, e quando eu ouvi sobre você, além de ficar indignado, eu pensei que podia ter encontrado alguém tão perdido como eu, e eu sei que existe uma punição parecida com isso que você faz.

Jeongin não sabia se estava indo longe demais.

— Dizem que quando um alfa falha, ele se condena a viver sozinho até o fim dos seus dias. — Ele franziu o cenho, o cheiro do alfa se intensificando ao ouvi-lo — Me parece uma punição cruel, alfa. Soa injusto pra mim.

Levantando-se, ele limpou a poeira das roupas e suspirou.

— Eu volto logo.

Durante três meses, Jeongin repetiu aquela jornada. Ele atravessava a floresta de pinheiros, sempre levando novas cestas, ansioso por qualquer som vindo de dentro da casa. Havia algo reconfortante em saber que ele era ouvido, que o alfa aceitava a comida. Com o tempo, ele até mesmo limpou a varanda abandonada, apesar de sentir claramente o cheiro de descontentamento do alfa ao notar a mudança. Nada disso, no entanto, foi suficiente para impedi-lo de continuar.

Na última semana, Jeongin não havia conseguido visitar o alfa. O motivo? Seu rut o havia atingido com força, e Jisung foi quem esteve ao seu lado. Quando chegou na vila, Jeongin nunca imaginou que se deitaria na mesma cama que Jisung. Nunca imaginou que tocaria o corpo dele, que sentiria a necessidade de tê-lo por dias de todas as formas, nunca imaginou que precisaria de um ninho com as coisas dele. Céus. Estava no mínimo envergonhado, mas para Jisung, parecia ser algo cotidiano, e Jeongin sabia que era. Sabia que ele ajudava todos que precisavam.

A chegada do inverno foi anunciada pelo frio cortante que envolveu a vila, e Jeongin estremeceu ao sentir o chão gelado sob seus pés descalços. Após um espirrar, ele rapidamente se enrolou em seu casaco mais grosso, calçou as botas e pegou a cesta repleta de coisas que havia preparado com cuidado. No fundo, estava ansioso. Sentia falta de alguém que nunca tinha visto, cujo rosto era um mistério, cuja voz sequer havia escutado. Mesmo assim, a simples ideia de cruzar a floresta de pinheiros para visitar o alfa enchia seu peito de um calor estranho e confortável.

— Demorei dessa vez, né? — Jeongin murmurou, batendo suavemente duas vezes na porta — Meu rut chegou, então esperei os feromônios acalmarem pra não te incomodar. Mas agora eu tô aqui... sentiu minha falta? — Com um sorriso tímido, ele se sentou no chão gelado ao lado da porta, colocando a cesta ao seu lado — Tá frio pra caralho, né? Espero que você tenha uma lareira aí dentro.

Jeongin olhou para cesta ao seu lado, sorriu pequeno e pegou uma maçã.

— Lá na vila, a maioria já assumiu a forma de lobo pra suportar o frio com o pelo. Mas alguns, tipo o Hyunjin, ainda não conseguem, sabe? Ele tá chateado com isso, então o Ji está tentando ajudar. Dizem que esse inverno vai ser o pior em anos.

De repente, um floco branco caiu suavemente diante de seus olhos. Jeongin olhou para cima, surpreso ao perceber que começava a nevar. Ele bateu de leve na porta novamente — Ei... tá nevando. Se tem algum lugar aí dentro de onde você consegue ver, devia olhar. É lindo.

Perdido na visão dos flocos de neve, Jeongin não se deu conta de quanto tempo havia se passado. Quando finalmente voltou a si, notou que a neve já cobria boa parte do solo e continuava a cair intensamente. E então quando ele pensou que teria que atravessar a floresta de pinheiros com toda aquela neve, ele arregalou os olhos.

— Puta merda, eu sou muito burro. — Ele se encolheu dentro do casaco, murmurando para a porta como se ela pudesse responder — E antes que você se pergunte por que não me transformo em lobo, é porque quero conversar com você. — Ele suspirou, abraçando o próprio corpo para conter o frio — Acho que vou esperar a neve diminuir…

Mas, em vez de amenizar, a tempestade de neve só piorava. E Jeongin se viu um tanto perdido naquele momento. Voltar seria irresponsável, e ele escutaria Seungmin brigando com ele por trinta minutos seguidos caso fizesse aquilo, ele olhou ao seu redor, absolutamente tudo coberto com o branco. Lindo, mas ao mesmo tempo, um grande problema.

— Alfa… Se você me permite, eu vou passar um tempo a mais aqui, só pra esperar a neve passar. — Era noite. Já haviam se passado horas e Jeongin realmente não queria irritá-lo. Como de costume, ele não recebeu uma resposta, e dessa vez, nem sequer um barulho. O cheiro dele estava distante, talvez ele nem estivesse o escutando naquele momento, então Jeongin apenas se deitou, abraçando o próprio corpo, tentando se manter acordado para esperar a neve passar.

Ele não sabia quando havia dormido. Podia jurar que apenas havia fechado os olhos para descansar as pálpebras, mas quando as abriu, já era dia novamente, e o céu azul brilhava em cima dele. Jeongin franziu as sobrancelhas, bocejando e espreguiçando o corpo, só então notando que havia algo em cima dele.

Uma colcha. O motivo dele não ter congelado durante a noite.

Seus olhos brilharam e ele sorriu. Aquilo era mesmo real?

Jeongin trouxe a colcha para perto do seu nariz, se envolvendo nela e a cheirando. Era o cheiro dele. O cheiro do alfa.

Jeongin não conseguiu não rir devido a grande ironia daquele momento.

O cheiro dele era profundo e fresco, como uma brisa silenciosa que acariciou seu rosto ao amanhecer. Era o aroma do pinho. Limpo e denso, com um tom amadeirado que se espalhava pelas narinas de Jeongin, trazendo conforto para ele. Havia nele algo terroso, como raízes que se escondiam no solo, uma essência natural, quase selvagem, como se fosse parte da própria floresta. Era um cheiro reconfortante que trazia uma nostalgia, um verde escuro e úmido, o verde das árvores sob o céu nublado, quando a névoa dançava entre os galhos e as folhas choravam em gotas lentas. O aroma dele era paz.

Jeongin perdeu o tempo que ficou ali apenas enrolado na colcha, então ele abriu os olhos, rindo de como parecia patético. Ele dobrou a colcha e a colocou em frente a porta, percebendo que a cesta já havia sumido. Ele deixou-a ali, por mais que sua vontade fosse levá-la para sua casa, e dormir com ela todos os dias.

Era cedo, e Jeongin não sabia se ele já havia acordado, então para não incomodá-lo mais do que já tinha feito, ele apenas saiu em silêncio, sem perceber um par de olhos o encarando de uma brecha quase imperceptível na cortina.

╱╳╲

— Você podia ter morrido de hipotermia! — A voz de Seungmin ecoou estridente no ouvido de Jeongin, carregada de uma mistura de preocupação e irritação.

Jeongin revirou os olhos, enquanto os dois caminhavam lado a lado, o som dos passos abafado pela neve — Mas eu não morri, né? E sabe por quê? — Ele parou, virando-se para Seungmin, agora andando de costas com um sorriso travesso e as mãos nos bolsos — Porque aquele alfa que todo mundo tem medo me cobriu com uma colcha.

Seungmin arregalou os olhos, atônito — Você o viu?!

Jeongin balançou a cabeça, o sorriso brincando em seus lábios — Não… mas senti o cheiro dele, bem mais perto dessa vez. E, honestamente, é o melhor que já senti. Dá até um pouco de inveja, sabe? Ninguém nunca descreveu o meu cheiro, então nem sei se o meu chega aos pés do dele…

— Você é tão esquisito. — Seungmin resmungou — Eu costumo ter dificuldade com cheiros, mas gosto mais dos ômegas. Achei que, sendo alfa, você preferiria o cheiro de um ômega também, não é nem por estereótipo, mas porque alfas tendem a competir entre si.

— Oh, ômegas também tem cheiros incríveis, o Felix mesmo- — Seungmin, com uma feição despreocupada, levou uma das mãos até o peito de Jeongin que ainda andava de costas, e o empurrou, fazendo-o se desequilibrar e cair de bunda no chão — Ei?!

— Fala do cheiro do seu alfa, não do meu ômega.

— Meu alfa? — Jeongin gargalhou alto, rolando na neve, mas logo parou, a expressão transformando-se em uma súbita realização — Seu ômega?!

Seungmin desviou o olhar, envergonhado. — Ele ainda não sabe que é meu, mas…

— Quem é seu? — A voz de Felix soou atrás deles.

Ambos travaram, as palavras congelando no ar. Seungmin se virou devagar, tentando disfarçar com um sorriso nervoso — Lix! A gente tava falando sobre... hum... canais de televisão que-

Felix cruzou os braços, um sorriso irônico curvando os lábios — “Fala do cheiro do seu alfa, não do meu ômega.”

Ele calou Seungmin. E Jeongin, um pouco atrás deles, precisou cobrir a boca para não rir.

— Então você tem um ômega, Seungmin? — Felix arqueou uma sobrancelha, divertido — Relaxa, tô só brincando, eu tava te procurando.

— Ah… aconteceu alguma coisa? — Seungmin perguntou, tentando recuperar a compostura.

Felix olhou para ele com um brilho no olhar, aproximando-se devagar — Só queria ver... o meu beta?

Seungmin e Jeongin abriram a boca em um "O” perfeito ao mesmo tempo. E Felix olhou para Jeongin, sorrindo e acenando com uma das mãos.

— Eu tô de saída. — Jeongin acenou de volta para Felix — Não nasci pra virar um candelabro.

Ainda sorrindo, Jeongin fez seu caminho de volta para casa. Na manhã seguinte, acordou com uma neve tão espessa que a porta de sua cabana mal abria. A tempestade durou três dias inteiros, e assim que o tempo acalmou, ele se preparou novamente, arrumando sua cesta e partindo em direção à floresta.

Era bobo. Mas se perguntava se aquele alfa pensava tanto nele quanto ele pensava nele.

Ao chegar, bateu duas vezes na porta como sempre, deixando a cesta no chão antes de se sentar, fechando os olhos e encostando a cabeça na madeira fria.

— Espero que você tenha conseguido se aquecer nesses dias, foram terríveis, não foram? Eu senti frio até nos meus ossos, se é que isso é possível. — Ele riu baixinho— Nesses momentos seria bom ter alguém por perto... Imagina se enrolar com seu parceiro no friozinho?

O silêncio que o envolvia era quase palpável, e Jeongin suspirou, abraçando o próprio corpo para se aquecer. — Sei que não costumo ter resposta, mas... talvez eu passe alguns dias sem vir. Com essa neve, sair de casa é complicado.

— Alfa. — Com os olhos fechados, Jeongin se aninhou contra a porta de madeira — Não quero falar muito hoje, o frio me deixa indisposto, se você me permite, eu só quero ficar aqui.

Ele já esperava não receber resposta, então apenas respirou fundo e continuou ali, com o frio tornando seus músculos pesados. Os sons da floresta estavam abafados, os pássaros e insetos ausentes, como se a própria natureza estivesse em repouso. Tudo ao redor parecia envolto em um véu de paz. Tudo naquele lugar parecia bonito. Parecia certo.

Jeongin sentiu o corpo enrijecer quando notou algo. Estava tão absorto em seus pensamentos, que só agora, havia notado que definitivamente tinha algo em sua frente. Ele não sabia se devia abrir os olhos, mas ao sentir o cheiro familiar invadindo suas narinas, ele abriu os olhos mais rápido do que nunca, e a primeira coisa que viu foi uma única orbe amarela em sua frente, enquanto a outra era acinzentada, e em meio ao pelo escuro, uma cicatriz cortava aquele olho.

Um lobo. Um lobo completamente preto, com uma cicatriz em seu rosto, ele estava parado na frente de Jeongin, que naquele momento, não sabia como reagir. Ele era enorme, e mesmo que fosse um alfa dominante, em sua frente havia um alfa mais velho, ele se sentiu pequeno, um pouco desnorteado, até perceber que… Era ele. E então Jeongin sorriu.

— Você… — murmurou, os olhos brilhando. Sem pensar, levantou a mão para tocá-lo, mas o movimento brusco fez o lobo rosnar, mostrando os dentes. Jeongin tirou a mão com um sorriso envergonhado — Desculpa, deveria ter pedido permissão.

Jeongin o encarou por alguns segundos — Você se sente mais confortável assim? Prefere que eu venha como um lobo da próxima vez também?

Ele fazia perguntas, mas sabia que era impossível para o lobo responder. Aquele contato não durou muito, porque sem aviso prévio, o lobo deu as costas a Jeongin, e correu floresta à dentro, deixando o alfa com um sorriso abobalhado no rosto.

Jeongin não sabia se era o certo a se fazer, e estava triste em não poder levar uma cesta com frutas para o alfa naquele dia, mas sentia que precisava ser daquela forma. Assumindo sua pelagem cinza que se mesclava com preto, ele andou sob suas quatro patas entre as árvores, o caminho se tornando muito mais curto daquela forma.

Assim que chegou em frente a casa de madeira, o lobo cheirou a porta, e ele andou de um lado para o outro na varanda, antes de se sentar em frente a porta, olhando diretamente para ela. Não demorou muito para que, pela segunda vez, ele visse o lobo preto saindo do meio das árvores. Ele ficou sob as quatro patas novamente, observando o lobo andar até ele. Jeongin era maior, mais jovem, com certeza mais forte, mas ainda assim, quando o alfa mais velho parou em sua frente, ele abaixou a cabeça e também uma das patas, como reverência.

Para sua surpresa, o lobo negro retribuiu o gesto, inclinando a cabeça numa reverência que Jeongin jamais esperaria. Ele sentiu o peito se aquecer com aquela demonstração de igualdade. Lentamente, aproximou-se, roçando o focinho no pescoço do alfa, que, por sua vez, farejava o pelo de Jeongin, absorvendo seu cheiro. Ficaram assim, em uma troca silenciosa, por alguns instantes, até Jeongin recuar.

Olhou os olhos do alfa novamente, eram diferentes, ele se perguntou se, quando perdeu a visão, ele teve alguém para cuidar dos seus ferimentos. Jeongin se aproximou, ele pensou que o outro se afastaria, mas não, então ele encostou seus focinhos.

Naquele ponto. O que era aquilo?

E a partir dali, apenas para ter a oportunidade de ficar perto do outro, Jeongin começou a ir todos os dias como um lobo para a casa do alfa.

Ele finalmente conheceu sua personalidade. Era calmo, tão calmo como seu cheiro aparentava ser. Eles andavam juntos pela floresta, ficavam deitados lado a lado em frente a casa do alfa, e Jeongin não ousou questionar porque ele não mostrava a sua forma humana. De certa forma, ele entendia. Chegou um momento em que passava mais tempo na floresta do que na vila, e isso chamou a atenção de Jisung. Que chamou sua atenção, apenas para saber se ele estava seguro.

Por alguns dias, Jeongin ficou afastado, ajudando a vila em tarefas que eram necessárias. Uma tempestade havia danificado o telhado de um dos anciãos, e coube a ele repará-lo. Enquanto trabalhava, observava o velho alfa sentado ao lado de dentro da janela, a expressão calma e atenta.

— Faça uma pausa pra tomar um pouco d’água, rapaz. — Ele acenou de baixo, e Jeongin desceu as escadas, aceitando de bom grado a água gelada — E pensar que um dia eu fui jovem e forte como você…

Jeongin riu.

— Senhor… O senhor vive aqui há muito tempo?

— Desde antes de você nascer.

— Oh… Certo. — Ele assentiu — Eu posso te incomodar com algumas perguntas?

O velho assentiu com um sorriso paciente — Você está me salvando de mais uma noite de neve entrando em casa, pergunte o que quiser.

— É sobre aquele alfa, aquele que mora atrás dos pinheiros. — O ancião assentiu, instruindo Jeongin a continuar — O que exatamente aconteceu? Por que ele se isolou de todos? E… se o senhor souber, por favor, não me fale o nome dele.

O ancião suspirou, o olhar distante — Aquele alfa… Eu o vi crescer. E vi também a ruína da sua matilha. É uma das histórias mais tristes que presenciei. — Jeongin franziu o cenho, atento a cada palavra — Ele nunca escolheu ser líder, a vida exigiu isso dele cedo demais. Quando os pais morreram, ele tinha apenas dezenove anos e precisou assumir a posição de líder da matilha.

Jeongin assentiu com a cabeça.

— Naqueles tempos, a vida era mais brutal... matilhas lutavam entre si e o mais forte sempre oprimia o mais fraco. Quem respeitaria um alfa tão jovem e inexperiente? — O ancião prosseguiu — Mesmo assim, ele lutou para proteger os seus, mas viu muitos dos que defendeu, abandoná-lo. A lealdade foi escassa. Alguns fugiram, outros caíram em batalha, e, no fim, ele ficou só.

— Então ele realmente… Aquela punição.

O mais velho assentiu — Morrer sozinho pelas vidas que você perdeu.

Jeongin sentiu um aperto em seu peito — O senhor, sendo um alfa mais velho… Concorda com isso?

— Eu posso ser velho, mas não sou um ignorante. O que aconteceu na vida daquele garoto foi pura injustiça, ele não merece essa punição, não merece nenhuma, na verdade.

— É o que eu sinto também. — Jeongin sorriu com tristeza, terminando o serviço rapidamente — Bom, a neve não será mais um problema para o senhor.

— Você é forte, garoto. — disse o ancião com um olhar de gratidão — Obrigado pelo seu tempo.

— Eu preciso ir agora… — Ele entregou o copo para o homem, abaixando a cabeça em respeito — Obrigado por seu tempo.

Jeongin não se importava se estava tarde, mal verificou o que havia colocado na cesta e partiu em disparada para a floresta. Vestiu seu casaco e, mesmo sabendo que uma nevasca se aproximava, correu entre os pinheiros com uma urgência que não sabia de onde vinha. Havia algo no ar, um chamado inexplicável que acelerava seu coração.

Ao se aproximar da cabana, ele sentiu. Era impossível ignorar. O aroma denso e quase intoxicante do rut de um alfa.

Jeongin ficou zonzo e apressou seus passos. Assim que chegou na casa dele, pela primeira vez, Jeongin viu que a porta estava entreaberta, e não fechada. O odor denso de feromônios quase o deixava nauseado, mas não por repulsa — era a dor sufocante e crua que o alfa emanava. Fechando a porta atrás de si, Jeongin esqueceu completamente da cesta que havia trazido e seguiu o cheiro até o quarto. Lá, a cena que encontrou despedaçou seu coração.

O homem estava encolhido sob o mesmo cobertor que antes, cobriu Jeongin. Ele não conseguia ver seu rosto, mas o tremor que sacudia seu corpo era claro.

— Alfa, sou eu. — Jeongin estava tremendo também. O que devia ser feito? — Jeongin, sou eu… Eu tô aqui.

Algo dentro dele pulsava com uma vontade feroz de protegê-lo, de acalmar cada estremecimento daquele corpo exausto. Queria proteger aquele homem, acalmar sua dor, tê-lo em seus braços. Com cautela, se aproximou e sentou-se na borda da cama, estendendo a mão para tocar as costas do alfa através do cobertor. O calor febril era quase assustador, e o corpo do homem tremeu ainda mais sob seu toque.

A angústia de Jeongin aumentou, e ele sentiu os olhos arderem.

Ele precisava fazer alguma coisa.

— Alfa, eu vou fazer uma coisa, e se você não consentir, você pode me chutar pra fora, me morda, me arranhe, me mate, eu vou embora se você quiser.

Com a respiração ofegante, Jeongin puxou o cobertor, descobrindo cuidadosamente o corpo do alfa enquanto deixava o rosto coberto. Deitou-se ao lado dele, envolvendo sua cintura com um carinho que carregava toda a ternura que era capaz. O toque na pele nua do alfa o fez estremecer, e ao deslizar a mão pela barriga dele, Jeongin ouviu um chiado de dor.

— Dói…

A voz embargada do alfa revelou que ele chorava em silêncio, e Jeongin sentiu como se algo dentro dele tivesse se partido. Jeongin lembrou que meses atrás, Jisung disse que quando chegasse a hora, ele saberia o que fazer, que seus instintos iam guiá-lo, e ele realmente acreditava nisso agora. Jeongin apertou o corpo do alfa contra o seu, oferecendo sua presença e seu calor, enquanto roçava o nariz em suas costas. Começou então a liberar seus próprios feromônios, enchendo o quarto de um aroma suave e calmante.

— Tá tudo bem… — sussurrou, a boca próxima ao ouvido do alfa, que se encolhia, escondendo o rosto — Vai ficar tudo bem, alfa, você precisa descansar…

Sentiu o tremor diminuir, o alfa finalmente relaxando sob seus cuidados. Com um impulso suave, Jeongin deixou um beijo leve nas costas do homem, sentindo a pele aquecida sob seus lábios. Ele estava com febre, sabia que precisava acalmá-lo ainda mais.

— Dorme… — sussurrou carinhosamente em seu ouvido — Vai ficar tudo bem, eu tô aqui, nada vai te fazer mal.

— V-você- É um alfa. — murmurou o homem, a voz hesitante, como se mal acreditasse no que estava acontecendo.

Jeongin sorriu levemente — E você também é. Qual o problema? — respondeu, massageando delicadamente a base do abdômen do alfa — Está se sentindo melhor? — sussurrou, deslizando o nariz por sua nuca, fechando os olhos enquanto liberava mais de seu cheiro reconfortante — Descansa, alfa, eu vou estar aqui quando você acordar.

— Seus feromônios…

— Eu sei, eu te disse que precisava aprender a controlar eles, lembra? E por causa disso… — Ele passou as unhas sobre a pele do homem, sentindo-o se arrepiar, e se aninhar contra seu corpo — Eu posso colocar até um alfa teimoso como você pra dormir.

O homem tentou murmurar alguma resposta, mas logo o cansaço venceu, e ele adormeceu. Jeongin o abraçou com um carinho protetor, como se nada no mundo pudesse tirá-lo dali. Com o rosto enterrado no pescoço do alfa, respirando seu cheiro e mantendo o quarto imerso em seus feromônios, Jeongin também caiu no sono.

Ao despertar, sentiu o corpo pesado e levou um momento para se lembrar onde estava. Abriu os olhos, e seu coração disparou. O alfa, que antes dormia de costas para ele, agora estava virado de frente, observando-o de perto. Jeongin ficou paralisado. Era a primeira vez que via o rosto dele.

Seu rosto era tão bem desenhado, talvez em traços brutos, sua cicatriz tomava seu olho esquerdo, partindo da testa até a bochecha, sua boca era grande, parecia ser macia, Jeongin deu uma atenção especial para seu nariz, chamativo, lindo.

— Você é… tão... — Jeongin murmurou, baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse — Tão lindo.

Ele viu o rubor de vergonha tingir o rosto do alfa e sorriu, tocando de leve sua bochecha, como se estivesse diante de algo precioso.

— Me diz seu nome, alfa.

Parecendo hesitar, o mais velho abaixou o olhar, franzindo as sobrancelhas — Chan — murmurou, olhando nos olhos de Jeongin novamente — Bangchan.

— Bangchan… — Jeongin sussurrou rouco e arrastado, vendo o alfa tremer na frente dele — A sua dor, ela melhorou? — Chan assentiu — Chan… Olha pra mim.

Ele hesitou antes de fazê-lo. Era estranha a forma com que aquele alfa mais novo o olhava. Um estranho que ele poderia estar habituado demais para negar.

— Posso... passar seu rut com você? — perguntou Jeongin, quase num sussurro — Não precisamos fazer nada além do que você quiser. Só deixa eu cuidar de você… não quero que você sinta dor.

— Eu não entendo… — O alfa murmurou, fechando os olhos com o toque de Jeongin — Na minha época era impossível que um alfa pudesse passar o rut com outro alfa, mas você… — Ele franziu as sobrancelhas — Eu senti essa dor por mais da metade da minha vida, e você fez ela ir embora.

— As coisas mudaram. — Jeongin disse suavemente, afastando uma mecha do cabelo de Chan para trás da orelha — Isso é um sim?

Chan o olhou por entre os cílios, antes de assentir quase imperceptível. E ele viu os olhos de Jeongin brilharem.

— Quando foi a última vez que você comeu?

— Não importa… — Chan disse, enfiando a mão por baixo da blusa de Jeongin — Só não deixa a dor voltar.

— Não vai voltar, eu prometo. Mas Chan... — A voz de Jeongin tremeu levemente enquanto segurava o braço dele, o tirando de baixo da sua roupa — Se você fizer isso... vai complicar minha situação.

Pela primeira vez, Jeongin viu o vislumbre de um sorriso nos lábios do homem — Afinal, alfas continuam sendo alfas, não é?

Jeongin riu, envergonhado, mas assentiu — E você me deixa louco.

— Eu te deixo louco? — Chan perguntou, a curiosidade genuína nos olhos, enquanto Jeongin deslizava a mão até sua coxa, posicionando a perna de Chan sobre seu quadril. Chan arfou com a proximidade.

— Completamente. — murmurou Jeongin, a voz baixa e firme — Você me diz até onde quer ir. Não vou fazer nada além do que você permitir.

Chan respirou fundo, afundando o rosto no pescoço de Jeongin, como se quisesse absorver cada partícula daquele conforto quando sua cintura foi agarrada de novo. Ele puxou a blusa de Jeongin para cima, a tirando do corpo dele e pressionando-a contra o rosto para sentir seu cheiro.

— Ei… assim você fere meu ego — Jeongin brincou — Eu tô bem aqui, e você prefere a minha blusa?

Ele levantou os olhos e, sem precisar dizer uma palavra, lançou um olhar firme, como uma ordem silenciosa para que o outro se calasse. E Jeongin, sem hesitar, obedeceu, observando o alfa com um olhar fascinado.

Chan parecia perdido no momento, mergulhado no cheiro que tomava o ambiente. Quando deslizou a camisa sobre o próprio corpo e afundou novamente o rosto no pescoço de Jeongin, a respiração do mais jovem vacilou. O calor que emanava de Chan era intenso, quase febril. Jeongin começou a deslizar os dedos pelo cabelo do alfa, um toque que era ao mesmo tempo suave e possessivo, quase protetor. Chan roçou os dentes de leve na glândula de Jeongin, e a sensação fez com que ele puxasse os fios de Chan, um suspiro ofegante escapando de seus lábios.

Quando Jeongin afastou Chan de seu pescoço, ambos estavam vermelhos, ofegantes. Ele encostou a testa na dele, as respirações se misturando enquanto roçava o nariz contra o do outro.

— Eu quero te beijar — sussurrou Jeongin, a voz baixa, quase um pedido. Pedido que Chan, sem hesitar, acatou, se inclinando com urgência, colando seus lábios nos de Jeongin. O beijo era quente, fervente, suas bocas pareciam sincronizadas em uma dança intensa. Jeongin guiava o movimento, envolvendo Chan, que parecia inexperiente, segurando-o pelo cabelo e conduzindo cada movimento, até que o ato se transformou em algo profundo, uma bagunça caótica.

Com uma mão firme, Jeongin deslizou até a base das costas de Chan, pressionando-o para criar uma fricção sutil entre seus corpos. Um gemido escapou dos lábios de Chan, que se entreabriram, formando uma linha de saliva que logo foi rompida quando os lábios se uniram novamente.

— C-como… Isso funciona? — Chan murmurou, entre gemidos — Eu não sou um ômega.

— E não precisa ser — Jeongin respondeu com um sorriso de canto, mexendo o quadril contra o de Chan, arrancando-lhe um suspiro profundo, enquanto suas unhas arranhavam os ombros do alfa — Você quer isso?

Chan tentou responder, mas Jeongin calou suas palavras com outro beijo. E então, como resposta silenciosa, Chan assentiu rapidamente, agarrando-se aos fios macios de Jeongin, completamente rendido. Quando a mão de Jeongin se fechou em torno de sua ereção que já pulsava entre eles, o toque foi direto, firme, provocando uma onda de prazer que fez Chan soltar um gemido abafado, quase engasgado.

— Você precisa me ajudar, sim? — sussurrou Jeongin em seu ouvido — Não temos nenhum tipo de lubrificante, e eu sei que você não vai me deixar ir buscar. Então, goza pra mim, alfa.

Jeongin intensificou o movimento, fazendo o corpo de Chan se contrair em sua direção, como se fosse controlado por um instinto indomável. Chan estava envergonhado, se perguntava, se deveria estar gostando tanto de ser tocado por outro alfa. Mas a resposta estava em seu próprio corpo, em cada tremor, em cada respiração acelerada.

Pré-gozo já escorria de sua glande, e ele agarrou a nuca de Jeongin, cravando as unhas ali, puxando-o para um beijo profundo, sentia queimar cada lugar que Jeongin tocava. Com um gemido rouco e arrastado, Chan atingiu o clímax, pulsando intensamente na mão de Jeongin, que o observava com um sorriso satisfeito.

— Devagar... — Jeongin murmurou, sua voz suave, porém firme, enquanto deslizava a mão melada pela pele de Chan, provocando-o lentamente. Seus dedos alcançaram o períneo e, delicadamente, massagearam a entrada do alfa — Respire devagar, alfa… Não se sobrecarregue.

Chan assentiu, franzindo as sobrancelhas, os lábios entreabertos, em uma expressão de prazer que não conseguia esconder. Seu corpo instintivamente se agarrando ao de Jeongin.

— Jeongin...

— Sim? — respondeu o mais jovem, enquanto introduzia o dedo com suavidade, atento a cada reação de Chan. Ele sabia o quão sensível aquele toque poderia ser, e, cuidadoso, ia mais fundo, permitindo que seus feromônios se misturassem cada vez mais — Tá tudo bem?

Ele assentiu, e seu olhar, nublado e perdido, se encontrou com o de Jeongin, como se implorasse por algo. O prazer que sentia era embriagante. Sentia como se fosse errado para ele experimentar algo tão bom, mas ao mesmo tempo ele desejava mais, queria se entregar ao toque do outro sem nenhuma barreira. Havia um medo dentro dele, quase infantil, de que Jeongin pudesse deixá-lo ali, sozinho, abandonado naquele momento de vulnerabilidade. Ele não suportaria isso. E foi esse medo que o fez se agarrar a Jeongin com toda a força, colando os lábios próximos ao ouvido dele em um murmúrio rouco — Mais…

Jeongin cerrou os dentes, sentindo o pedido como um comando irresistível. Com cuidado, ele adicionou mais um dedo dentro de Chan, que arqueou as costas em resposta, um gemido escapando de sua garganta. As mãos de Chan nunca soltavam o corpo de Jeongin, os dedos cravando-se em sua pele, deixando se sobressair seu instinto de posse e necessidade. Eles se mantiveram assim, num transe que quase parecia um ritual, os corpos fundidos como se fossem um, até mesmo seus cheiros eram como um.

Jeongin sabia que o improviso de usar o esperma como lubrificante estava longe do ideal, mas era tudo o que tinham. Deslizou os dedos, empurrando-os suavemente, e Chan tremia sob suas mãos, levado pela intensidade do momento. Ele enterrou o rosto nos cabelos de Chan, inalando profundamente aquele cheiro único que lhe fazia perder o controle.

— Jeongin… — Chan murmurou, a voz rouca, sem que houvesse algo específico a ser dito. Ele só queria chamá-lo. Por vinte anos, ele não teve ninguém para chamar, ninguém para se apoiar, e agora, como um milagre, Jeongin estava ali — A-Ah! Jeongin!

Os olhos de Chan se apertaram, sentindo os lábios de Jeongin distribuindo beijos por seu rosto. Ele estava à beira de um colapso quando sentiu a mão de Jeongin envolver seu membro, agora novamente duro.

— N-não, não- — ele sussurrou, abrindo os olhos, desnorteado ao perceber que Jeongin tinha parado.

— O quê? — Jeongin questionou, a voz suave — Você disse não. Quer parar?

Chan piscou, confuso, as palavras hesitando em seus lábios — Eu só queria dizer que… se você quiser… acho que já consigo aguentar… você.

Agora era a vez de Jeongin ficar surpreso, seu rosto ganhando um tom avermelhado — Você quer... ir até o fim?

Chan cobriu o rosto com as mãos — Eu já perdi toda a minha dignidade. E pela primeira vez, a minha dor foi embora, eu nunca senti nada assim.

Um sorriso se esboçou nos lábios de Jeongin, seguido por um leve engolir em seco. Ele assentiu, mas antes que pudesse fazer qualquer movimento, Chan o soltou, relutante, permitindo que ele se levantasse apenas o suficiente para se despir. Foi tudo o que Chan conseguiu esperar. No instante em que Jeongin voltou à cama, o alfa o puxou para si quase desesperado.

— Você tem certeza de que quer isso?

A pergunta foi quase um sussurro entre eles. Até então, Jeongin ainda não havia tirado completamente o lençol, como se houvesse uma hesitação em desvendar Chan por inteiro. Mas agora, com o corpo nu exposto, ele finalmente pôde vê-lo. Chan era forte, os músculos definidos e marcados por cicatrizes. Cada detalhe parecia chamar por ele, implorando silenciosamente para que fosse possuído.

— A dor… está voltando — murmurou Chan, tocando a base de seu abdômen com uma expressão de desconforto que despertou Jeongin para o presente. Sem hesitar, Jeongin deitou-se ao lado dele, e com firmeza, guiou o corpo de Chan para que ficasse de costas, ajustando-o em uma posição confortável.

— Fique assim… — instruiu Jeongin, segurando uma das coxas de Chan e deixando suas pernas levemente afastadas. Ele encostou os lábios no ombro do alfa, depositando beijos quentes ali, enquanto passava um braço por baixo do seu corpo, segurando-o com força — Alguns lugares são mais sensíveis… — murmurou, com um toque de provocação. Com um gesto sutil, beliscou um dos mamilos de Chan, que arqueou o corpo, soltando um gemido baixo, quase um rosnado, o que fez Jeongin rir.

Jeongin soltou a perna de Chan, ajustando-se com cuidado, até que seu membro tocasse a entrada do alfa. Com uma pressão lenta, a glande adentrou, e Chan arregalou os olhos, em busca de um ponto para se agarrar, seus dedos se afundaram nos lençóis. Sua boca se abriu, mas nenhum som escapou, apenas o arrepio e a tensão, seu corpo reagindo à invasão. Jeongin se aproximou de seu ouvido, sussurrando palavras reconfortantes, enquanto liberava feromônios para acalmar o alfa. Lentamente, Chan relaxou, os olhos revirando enquanto sentia Jeongin avançar cada centímetro.

— Porra… — Jeongin rosnou, a voz baixa, os dentes cerrados. Chan era tão apertado que ele sentia o controle escapando por seus dedos — Relaxa, Chan… Relaxa pra mim, alfa.

Chan não conseguiu responder, sua respiração entrecortada era a única resposta. Com uma mão trêmula, procurou a de Jeongin e a guiou até seu próprio membro, pulsante e quente. Os olhos de Chan se ergueram, encontrando os de Jeongin em um olhar desesperado e íntimo. Ele se inclinou, juntando os lábios aos de Jeongin, puxando-o para um beijo profundo, mesmo que já não tivesse mais fôlego algum em seu corpo.

— Não p-para… — Chan murmurou contra os lábios de Jeongin, como uma ordem. Em seu olhar, Jeongin viu um brilho vulnerável, uma faísca de insegurança que o alfa tentava esconder — Não m-me… — A frase foi cortada por um gemido, seu corpo se arqueando ao sentir a primeira estocada de Jeongin — Não me deixa… sozinho… n-não me…

— Shhh, tá tudo bem — Jeongin murmurou, lambendo o pescoço de Chan, sentindo o gosto salgado de sua pele, e com cada estocada, se afundava cada vez mais no calor de Chan — Eu tô aqui, Chan. Não vou te deixar.

Jeongin cravou os dentes no ombro de Chan, e enquanto o fodia sem parar, sua mão livre viajou pelo peito do alfa, os dedos provocando e puxando seus mamilos, arrancando gemidos roucos e baixos que preenchiam o quarto. O som das peles se chocando era o ritmo animalesco que os mantinha ali, presos no prazer.

— Chama meu nome… — Jeongin sussurrou, mordiscando o lóbulo da orelha de Chan e, logo em seguida, descendo para morder seu pescoço com força. Chan arqueou o corpo, a voz escapando em um grito de prazer. Seu corpo se apertava em volta de Jeongin, tremores percorrendo-o enquanto sussurrava o nome de Jeongin como se fosse a única palavra que conhecesse.

Chan gozou pela segunda vez, mordendo o lençol para abafar os gemidos, sentindo o calor quase insuportável que consumia seu corpo. Jeongin continuou, estocando com força até que também atingiu o clímax, derramando-se dentro de Chan, enchendo-o com uma quantidade que o deixou estranhamente satisfeito. Mesmo depois que Jeongin se retirou, Chan se sentia preenchido, seu corpo ainda formigando com os resquícios de prazer.

Deitado de bruços com o corpo exausto, Chan sentiu o toque quente em sua nuca. Jeongin passou a língua ali, marcando seu cheiro, sua presença. Suas mãos exploravam as curvas do corpo de Chan, cada toque ficava cada vez mais forte. Ao sentir o nariz de Jeongin se pressionar contra seu pescoço, Chan percebeu que ele o estava marcando. Algo que pensou que teria repulsa caso um dia acontecesse, mas agora trazia um inesperado alívio, como se fosse exatamente onde deveria estar.

— Alfa? — Jeongin chamou baixinho, e Chan assentiu, com um aceno sutil, enquanto recebia um beijo no topo da cabeça — Quer descansar agora? — Jeongin perguntou. Chan assentiu novamente, sentindo o cansaço invadir seu corpo. Jeongin puxou o lençol sobre eles, envolvendo Chan em um abraço — Eu vou estar aqui quando você acordar. Pode me pedir o que quiser — sussurrou, acariciando suavemente a barriga de Chan — Mais tarde, vamos cuidar direitinho disso, pra você não sentir dor depois — acrescentou, enquanto Chan, aos poucos, se entregava ao sono — Você não vai mais ficar sozinho, eu prometo.

Nos dias que se seguiram, eles permaneceram juntos cada momento. Jeongin descobriu um Chan carente, um lado dele que surgiu aos poucos, aceitando que ser cuidado durante o rut não diminuía sua essência de alfa. A entrega foi mútua, uma confiança que se construiu com toques, sussurros e beijos, num tempo que pareciam ser para sempre.

Eles conversaram por horas, afundaram-se em beijos que iam além do lado sexual, e Chan encontrava consolo no peito de Jeongin. Mesmo sem um ninho para se abrigarem, Chan sentiu uma proteção como nunca havia experimentado antes.

Jeongin não o deixou sozinho. Jeongin ficou lá até o fim.

Chan despertou suavemente, o peso do rut finalmente aliviando. Ao abrir os olhos, esperava estar com o corpo dolorido e machucado, mas, para sua surpresa, sentia-se mais leve do que em anos. Jeongin cuidou dele com tanta paciência e delicadeza que qualquer traço de dor parecia ter sido apagado, substituído por uma calma profunda que Chan não conhecia.

— Acordou? — A voz rouca de Jeongin soou baixa, próxima ao seu ouvido, e Chan se virou em um leve susto, assentindo, com uma expressão quase incrédula.

— Sim… acabou.

Jeongin sorriu de leve — Eu percebi. Seus feromônios estão voltando ao normal, estão mais suaves agora.

— Jeongin... — chamou, o tom sério atraindo a atenção do mais novo — Por que você fez tudo isso?

Jeongin franziu o cenho — Como assim?

Chan desviou o olhar, tentando encontrar as palavras certas — Desde o início… até agora. Por que você ainda está aqui? Eu não tenho nada a oferecer, Jeongin, eu não sou uma boa pessoa… sou um péssimo alfa e…

— Ei, você não é nada disso. — Jeongin interrompeu, se sentando e segurando o rosto de Chan entre as mãos, firme e carinhoso, o fazendo olhar em seus olhos — Você passou tanto tempo se culpando por algo que não foi sua culpa… não é justo. — Chan baixou o olhar, os olhos marejados, mas Jeongin continuou, acariciando sua bochecha com o polegar — As coisas mudaram desde que você se isolou. E eu… eu quero te mostrar como as coisas são agora. Porque, porra… — Jeongin riu, suavemente, enquanto seus dedos percorriam a pele marcada do rosto de Chan — Eu acho que me apaixonei por você, alfa.

Chan prendeu a respiração, o mundo à sua volta quase parando.

— Mesmo antes de tudo isso — Jeongin confessou — você já não saía da minha cabeça. Era você o tempo inteiro, Chan… e eu quero te mostrar o mundo de novo. Quero te provar que você não é o monstro que acredita ser. Quero que você seja meu alfa. — E, se aproximando devagar, Jeongin depositou um beijo suave nos lábios de Chan — Eu quero ser seu alfa também. Quero que sejamos alfas um do outro.

Chan o encarou em silêncio, um nó apertando sua garganta. Ele jamais imaginou que poderia ouvir algo assim, nunca imaginou ser olhado com tamanha admiração. O amor que via nos olhos de Jeongin era profundo, algo que ele nunca acreditou merecer.

Depois de alguns instantes, um sorriso se formou em seus lábios, um sorriso tão suave e vulnerável, o mais bonito que Jeongin já tinha visto.

— Jeongin... — Chan murmurou — Você me fez seu alfa durante toda essa última semana… você realmente acha que seria difícil para mim te aceitar agora?

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