Work Text:
As luzes são centradas no palco.
E então, música.
Começa lento, tão suave quanto uma orquestra poderia ser; a harmonia é quase visível em forma de notas, quase como se Newt estivesse entre os músicos, acompanhando o maestro com seus movimentos de mão e lendo as notas de uma cifra. É quase como um sopro de ar livre, uma manhã refrescante de outono, uma brisa amena de verão. A música preenche o ambiente em forma eloquente, atingindo todas as paredes com suas vibrações, e parece muito como algum tipo de hipnose inconsciente. O público, silencioso e apreciativo, se vê a mercê da melodia sem coral e, para Newt, quem não se sentia como nenhum tipo de amante desse clássico, revê e repensa suas escolhas de vida que o fizeram estar ali. Seu olhar, que intercalou em todos os músicos que poderiam observar, desviavam-se tantas vezes entre as cabeças para encontrar alguém em específico, que parecia qualquer coisa que não fosse avaliativo. E todas as vezes que seus olhos encontram Thomas, parece que a música se torna mais emotiva, mais intensa. Como poderiam seus pensamentos esvaziarem sua mente e só restar a imagem dele? O lugar de Newt na platéia era privilegiado, cadeiras acima e então, podia diretamente observar a maneira como a expressão de Thomas era serena e concentrada, suas mãos habilidosas fazendo um tipo de milagre com um violoncelo que Newt nunca pensou ser possível. É etéreo, mágico, deixou-o sem fôlego, pressionou-o de forma que de repente, não havia mais ninguém sob seus olhos. Apenas Thomas.
Tommy.
Quem o fornece é uma voz familiar em seu cérebro.
Dizem que almas gêmeas possuem um laço tão significativo que, assim que se encontram, tudo muda. Como se as flores ficassem mais nítidas, ou como se os cheiros se tornassem mais espessos. Newt sentiu algo quando encontrou Tommy antes da apresentação, mas não parecia tão avassalador quanto o ato de assisti-lo tocar tão brilhantemente.
Algum dia, você encontrará a pessoa que fará seu mundo tremer e ao mesmo tempo estabilizá-lo.
No espaço entre as pausas da apresentação, Newt quis que Tommy o olhasse novamente, que pudesse, por favor, sentir o mesmo que o seu estômago, dando cambalhotas. A expressão dele anteriormente, porém, não parecia como se o que quer que estivesse sentindo, fosse igual a Newt. Por isso, para ter certeza do que estava vendo, do que estava pensando, ele torceu, torceu e torceu mais um pouco, de modo que parecia perceptível para quem o visse, que havia alguma coisa em sua mente.
Ao final, quando as últimas notas musicais subiram através do teatro e as palmas foram intensas como fogos de artifícios na virada de ano, o coração de Newt batia tão descompassadamente contra sua caixa torácica que ecoou em seus ouvidos como uma forma de aviso. O sentimento de euforia tomou conta de seu ser e o obrigou a respirar tão fundo quanto podia.
“Você tá bem, cara?” A voz de Minho ecoa sobre a salva de palmas, e Newt acena distraidamente. “Viu? Não foi tão ruim, não é?”
“Não”, Newt respondeu, olhos atentos nas pessoas do palco enquanto a cortina vermelha se fechava. “Não foi ruim.”
“Certo, vamos encontrar Thomas!”
Newt estalou os dedos nervosamente, seguindo Minho por entre as cadeiras enquanto a multidão aglomerada aos poucos saía, conversando, murmurando, elogiando e relembrando minúcias das apresentações. Aos poucos, feliz e ordenadamente, seu corpo e mente se estabilizaram, como se tivessem aceitado completamente que Newt simples e inesperadamente acabou de encontrar (quase com certeza) sua alma gêmea, que as pessoas tanto esperavam durante anos.
Não era bem um camarim, mas um grande salão em que havia muitas pessoas convidadas a estar ali. Newt observou pessoas se abraçando e comemorando, algumas taças aqui e ali que provavelmente eram de champanhe, ao qual ele recusou educadamente ainda ao enlaço de Minho, e, depois de tanto buscá-lo com os olhos, Newt o viu novamente.
Como sempre, Minho seguiu na frente com os cumprimentos, puxando Tommy para um abraço contente e elogiando com toda a sua capacidade criativa de criação. E Tommy o entregou um sorriso calmo, agradecido, antes que Newt se aproximasse.
E então, algo.
Newt abriu um sorriso, demorando-se a observar o rosto de Tommy se abrindo em uma expressão confusa. “Parabéns. Vocês foram incríveis lá.”
“Obrigado-”
“Olha, vou ali falar com Aris também, não vou demorar!” Minho saiu com uma deixa, arrastando um pobre garçom consigo para escolher uma de suas taças.
Agora, Newt podia sentir seu coração começando a acelerar de novo, a proximidade com o outro parecendo um tipo de desestabilizador inconstante. Um curto zumbido ecoou em sua mente antes que Tommy falasse novamente, um tom um pouco mais urgente e afobado.
“Isso pode parecer estranho, mas… você também sente como se já nos conhecêssemos antes? Antes de hoje, quero dizer. Talvez algo mais distante.”
Newt tentou miseravelmente manter a voz uniforme, calma e ordenada, mas Tommy o olhando com um tipo de expectativa em seus olhos brilhantes era tudo, menos um calmante para sua mente e alma.
“Não exatamente…” Ele não perdeu a forma como os ombros de Tommy caíram um pouco, e isso o fez abrir outro sorriso. “É mais como se eu quisesse muito te conhecer. Tipo, muito. Ou como se eu realmente precisasse disso.”
“Então…” Tommy se pronuncia tão eloquentemente que Newt não consegue desfazer o pequeno sorriso em seus lábios. É uma emoção nova, aparentemente, e muito bem-vinda, também.
“Então?”
“Posso falar mesmo isso em voz alta?”
Newt riu. “Sim, eu provavelmente estou pensando o mesmo. Tente.”
“Parece que somos… todo aquele papo de parceiro destinado? Almas gêmeas? Uau, isso parece meio bobo quando eu digo assim.” Newt concordou com um aceno positivo.
“É o que acho. Almas gêmeas e tals.”
“Então… Deveríamos nos conhecer de verdade? Sair juntos e essas coisas.”
Um nervosismo persistente incomodou Newt de forma a fazê-lo rir semelhante a um adolescente novamente; tenso, se permitiu aliviar o clima de forma a tentar diminuir o ritmo de sua frequência cardíaca.
“Você está me convidando para sair? Mal nos conhecemos!” Seu tom de voz treme um pouco, entregando-o em uma bandeja, mas ou Tommy não notou, ou fingiu não o fazer.
“Talvez o suficiente? Você é Newt, melhor amigo de Minho, estudante de engenharia, que eu meio que esqueci qual é exatamente, mas… Acho que temos a mesma idade, você é bonito e aparentemente minha alma gêmea.”
“Soa… Convincente. Eu aceito.”
“Por um momento fiquei com medo de você dizer não.”
“Não passou pela minha cabeça, na verdade.” Não é mentira; desde o início da orquestra um pensamento tímido condizia com as palavras de Tommy. Newt havia desejado ter tempo para conhecer esse cara de verdade, e de repente, havia todo o tempo do mundo para tal.
“Isso é bom. Fico contente.”
“Eu também, Tommy.” O apelido escapa como mel, e parece tão certo que Newt não conseguiu se arrepender. E ver a reação hilária e nervosa do jovem na sua frente certamente o incentivou na ideia; Tommy percorreu os olhos por todo o salão, e distraidamente bagunçou os fios de cabelo com uma mão ligeira.
“Ah… Isso é algo, então? Já estamos avançando?”
“É mais como um apelido para alguém que me fez rir duas vezes durante a noite.”
“Vou arranjar um pra você então. Para alguém que… parece uma boa promessa de encontro?”
“É uma afirmação ou uma pergunta?”
Tommy sorri, “é… bem, o que você pensar que seja.”
