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Pintura Íntima

Summary:

Chanyeol era um jovem artista em busca de sua Monalisa, seria Kyungsoo sua obra prima?

Entre idas e vindas o destino decidiu brincar com dois corações, um já machucado pelas angústias da vida, o outro, no entanto, estava jovem e vibrante, pronto para curar qualquer ferida.

Notes:

Iai, tudo beleza com vocês?

O softyeol me deu a possibilidade de trabalhar coisas inimagináveis, bem legais pra mim e eu sou agradecida as adms desse fest saboroso.

Quero agradecer muitíssimo minha beta D, ela me guiou por todo o caminho tortuoso e gostoso que foi escrever essa história que começou de maneira despretensiosa e se tornou um Megazord.

Quero agradecer tb minhas amigas N e K que me ajudaram nesses meses de surtos e pitis, vocês são incríveis.

É um smut, mas descobri que as coisas comigo acabam superlativado demais, então desculpem o tamanho disso, prometo que vale a pena!

Essa é uma história que eu amei muito escrever e espero que vocês a amem tanto quanto eu.

Beijos e boa leitura.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Primeiro

Chapter Text

Morno.

Tudo ao redor de Chanyeol era… Morno.

Poderia ele vivenciar sua primeira crise artística, aos 25 anos? Os pincéis jogados no chão do quarto que foi feito especialmente para suas criações, o estúdio espaçoso, no apartamento luxuoso patrocinado por sua mãe, continha todo o aparato de primeira linha, necessário para que Chanyeol executasse seu talento natural com conforto, além de poder estudar com excelência. 

Mesmo com toda a estrutura que lhe era oferecida, com a falta de preocupações, além do que lhe concerne seu talento e profissão, Chanyeol sentia-se, morno. Ele não era um jovem mimado, era exigido segundo seu dom, seu ofício, pois sua mãe não queria nada menos do que a excelência, fosse lá no que ele se propusesse a fazer, pois ela lhe apoiava integralmente e exigia o máximo.

Fato é que, Chanyeol sentia-se frustrado. E o motivo de sua frustração tinha nome e sobrenome: Junmyeon Kim. O exigente professor de artes, que havia o incumbido de uma missão quase que impossível. 

Ao mesmo tempo que Junmyeon era seu mentor, aquele do qual, durante todos esses anos, absorveu o máximo que pôde em conhecimento, técnicas, macetes e contatos, ele também era seu calcanhar de Aquiles, aquele que o puxava, o cobrava e exigia, pois ele sempre dizia: “Gênios precisam de disciplina Park, senão, não chegam a lugar algum”, e Chanyeol sabia disso. Já havia estudado demais a história da arte para não constatar tal fato. 

No entanto, todo o x da questão é que, Chanyeol estava nesse momento, concorrendo com mais três alunos a uma bolsa, um intercâmbio para Paris. Ele poderia facilmente ir para lá e conseguir se manter e estudar, afinal era bem-nascido, mas o ponto era que não se tratava de dinheiro, de possibilidades. Se tratava de realização pessoal, de executar o melhor trabalho e fazer por merecer tal benefício que vai além do aprendizado, pois será uma experiência para toda a vida. 

O problema não era concorrer, a fonte de sua frustração foi a tarefa que lhe foi dada. Chanyeol precisava desenhar um nu. 

Como artista, Chanyeol estava acostumado com o corpo humano. Para ele, as formas, a nudez, fazem parte de toda a beleza que a natureza tem, e também deve ser retratada, afinal de contas, para isso que serve a arte; imortalizar momentos, pessoas e situações, seja por meio de esculturas, de fotos, de representações ou a que ele se dedicava, à pintura em tela. O jovem adulto estava acostumado a ver todos os tipos de corpos expostos nas mais variadas posições, os pintava de maneira íntima, respeitosa, de acordo com a sua inspiração ou com as indicações de seu professor, que era praticamente um guia, desde que o rapaz pisou na faculdade de Belas Artes. 

Pintar nus é algo que ele diria até que fugaz, não seria a primeira vez que ele desenharia um corpo em toda sua crueza. O ponto é, o modelo. 

Essa pintura é o seu passaporte para uma das maiores experiências que ele, em seus poucos 25 anos de vida, poderia ter. Porque, sim, ele tinha certeza que levaria, que esse prêmio seria seu, porém, voltamos ao ponto inicial de seus suspiros exasperados; os modelos. Chanyeol está insatisfeito com todos os que têm contato, não por não serem excelentes em seus trabalhos, a maioria é profissional e até mesmo, ligados ao ramo da arte, o problema é todo um estereótipo que segue esses modelos. Aquele arquétipo que poderia ser encontrado em nove de cada dez pinturas ou o que quer que fosse.

Chanyeol queria mais. Queria algo… Esplêndido. 

— Você tá desdenhando de mim? — Jongdae, seu melhor amigo, fez bico ao ser negado. — Eu não acredito que você não queira me desenhar! — fez bico magoado, que era bem característico.

— Dae, já tenho mais de trinta trabalhos só seus, não seja assim… E eu não desenho, eu pinto. — corrigiu amorosamente.

— Pois, nesse que é importante eu não sirvo pra você… É porque eu sou baixinho? — perguntou tristonho.

Chanyeol soltou um arzinho pelo nariz com a autodepreciação do amigo, sabia que ele estava somente fazendo tipo, na verdade, a sua frustração era pelo fato de que a pintura vencedora de Chanyeol não seria mais um quadro exibicionista seu.

 — Você não é baixinho, sua estatura é mediana. E não, nada tem a ver com quanto você mede. Eu só quero um modelo… Diferente… — respondeu pensativo, recolhendo seu material espalhado pelo ateliê. 

— O bonitão do Sehun me chamou para posar… Acho que vou então, já que não quer meus préstimos. — desdenhou.

— Você deveria aceitar mesmo, Sehun talha corpos em madeira com uma magnificência que vi poucas vezes, ele com certeza faria uma linda escultura sua. Além de que — completou displicente, fechando o cavalete que continha mais uma de suas tentativas frustradas — ele é doidinho por você.

— Eu sei, não é como se ele já tivesse dado margem a enganos sobre isso… — respondeu tranquilo, já estava acostumado com as diretas do rapaz — Mas não sei, acho ele molecão demais, não passa de um playboy da Faria Lima…

— Você mora na Vila Olímpia, Jongdae. É o sujo falando do mal lavado — tirou sarro. 

— É, mas não foi sempre assim, você sabe… 

— Sei, mas acho que você devia dar ao menos uma chance de conversar com ele, ao invés de negá-lo instantaneamente só porque ele tem cara de Mauricinho. — gracejou já saindo do estúdio, sendo acompanhado por Jongdae.

— Vamos ver, vamos ver… Ai Yeol, porque não cai na minha rede um ômega parecido assim que nem você, grande, bonito e bobão, mas sem ser você? 

— Porque eu sou único, gato… — gesticulou com o pulso fazendo graça, imitando o meme do Bob Esponja.

Jongdae riu escandaloso do humor quebrado do amigo — Em alguns momentos eu agradeço. — provocou.

— Por essas e outras que eu não vou pintar você. 

 

🎨

 

— O que exatamente você quer? — Junmyeon perguntou paciente, massageando a fronte com os dedos calejados. Chanyeol era seu melhor aluno, e com certeza, o mais problemático.

— Quero ser surpreendido, arrebatado, quero olhar para a pessoa e pensar "meu Deus, onde você esteve por todo esse tempo", só isso… — insistiu exausto.

Professor e aluno estavam na sala de práticas da faculdade, Junmyeon aproveitou o tempo livre para praticar a sua paixão, a escultura em mármore. Com seu martelinho em mãos, ele estava moldando uma grande árvore, que ele disse ser algo como A árvore da vida, quando foi interrompido em um rompante, pelo gênio incompreendido. 

— Não é mais fácil você transitar pelas ruas, até encontrar alguém que caiba nesse devaneio louco que você montou na sua cabecinha? — perguntou enquanto utilizava um esmeril próprio para escultores, a fim de arredondar as arestas que estavam afiadas após sua última intervenção na arte inacabada. 

— Imagina que lindo, eu andando na vinte e quatro de maio e metendo um Hey, gostei do seu estilo, quer posar pelado pra mim? — Chanyeol bufou enquanto mordiscava o lanche natural que havia comprado na cantina — Corro o risco até de ser preso por atentado ao pudor, sei lá.  

— Coloquei você em contato com aquela modelo incrível, a Naylla, e você também não quis… Ela tem curvas magníficas e é uma excelente profissional, Chanyeol.

— Ela é incrível Junmyeon, com certeza uma das modelos mais bonitas que eu já vi, mas… Ainda não é o que eu procuro.

— E o que exatamente você procura? 

— Eu ainda não sei… 

— Então descubra, o relógio não pára. — terminou sábio, voltando a sua escultura.

 

🎨

 

— Sério, Chanyeol, eu posso te ajudar. — Baekhyun sorriu sacana.

— A troco de quê? — Chanyeol perguntou desconfiado.

— Ora, somos amigos, a troco de nada! Assim você me ofende Chanyeol! — Baekhyun fingiu inocência, com as mãos postas de maneira teatral no peito.

Yixing soltou um arzinho pelo nariz e olhou de soslaio para Sehun que tinha um sorriso discreto nos lábios enquanto mexia no celular, sabia que nada de bom viria desse papo entre Baekhyun e Chanyeol, pois eles declaradamente eram inimigos. Na verdade, eles eram simplesmente os mais competitivos dos quatro rapazes, e viviam se engalfinhando por notas máximas, mas na hora da necessidade, ambos eram tanto apoio um do outro, quanto para os outros dois amigos. 

Chanyeol, Baekhyun, Sehun e Yixing tinham a pouco saído da faculdade, os amigos estavam procurando algum lugar para comer devido a manhã que havia sido cheia, pois Minseok, seu outro mestre de artes plásticas, havia puxado os quatro alunos geniais de maneira mais incisiva, por causa do desafio que batia às suas portas. Cada um deles tinha um jeito único para arte, haviam se desenvolvido de maneiras diferentes e tinham aptidões distintas, sendo Chanyeol um exímio pintor em tela, Sehun um artesão que dominava o esculpir em madeira. Baekhyun era um notável escultor em argila e por fim Yixing, que assim como seu mestre Junmyeon, estava se tornando um especialista em esculpir mármore. 

Os quatro rapazes excepcionais se tornaram companheiros inseparáveis, entravam em atrito quase que diariamente, pois seus gênios se faziam presentes a todo momento, mas para além das brigas diárias, eles eram realmente amigos, Chanyeol no alto de sua nerdice os denominou como o quarteto fantástico.

Chanyeol olhou desconfiado para o oferecimento do amigo, tinha certeza que ele estava de alguma maneira querendo o sacanear. 

— Sei… Quando a esmola é demais, o santo desconfia.

— Evidente que é a troco de nada, você tem que estar em pé de igualdade para criação, não me sinto bem batendo em cachorro morto. — sorriu sem vergonha, e Chanyeol queria bater na cara dele.

— Você não vale nada. — Sehun gargalhou. 

— Impressionante como na Vila Mariana não tem nada que preste, ao menos de dia, pra comer… — Yixing vasculhava o celular tentando encontrar algum lugar minimamente interessante para que pudessem almoçar.

— A gente aqui numa conversa super importante sobre o que fazer no trabalho de nossas vidas, e o Xing tipo, foda-se, a papar? — Chanyeol riu.

— Desculpa se já sei o que vou fazer pra ganhar de vocês perdedores, moleza demais… — se exibiu, arrastando o dedão pelo touch do celular.

— Olha a rua, seu tapado! — Baekhyun puxou Yixing pelo braço que, distraído, não havia se dado conta de que estava quase atravessando sem ao menos olhar. 

— Baek sempre salvando a vida do Xing… — Sehun gracejou dando pouca importância ao fato, pois também estava imerso em seu celular.

— Também, não tira os olhos do lesadinho da mamãe. — Chanyeol cutucou o amigo, recebendo um olhar mortal do rapaz.

— Obrigada Baek, por ser meu anjo da guarda! — Yixing sorriu grande, as bochechas fofas e cheias de covinhas charmosas expostas.

Baekhyun avermelhou na hora, baixou a cabeça desconcertado e respondeu: 

— Tá, tanto faz, tudo bem, só… Presta atenção… 

— Certo, certo, eu quero é saber qual a proposta que você tá querendo fazer pra me ajudar. — Chanyeol fez aspas.

— Vamo fazer o seguinte, eu tenho uma pessoa em mente, se é algo fora do convencional que você quer, então eu vou te dar! Sábado ou sexta? — Baekhyun perguntou, retornando ao modo provocativo.

— Melhor sexta, sábado eu tenho almoço com a mãe.

— Beleza então, sexta à tarde, a partir da uma, espera com tudo pronto. Aposto que você vai gostar… — Baekhyun sorriu sádico.

— Medo. — Sehun exprimiu, ainda distraído com o celular.

 

🎨

 

O restante da semana passou como um borrão para Chanyeol, ele estava ansioso com a chegada da sexta-feira, precisava fazer com que seu trabalho tivesse andamento, e conforme via o desenvolvimento das artes de seus amigos que já estavam em processo criativo, sentia como se estivesse, pela primeira vez, um passo atrás dos outros. E ele sempre tinha que estar à frente.

O que lhe causava certo desconforto também, era o fato de que não havia conseguido sequer um modelo, ou até mesmo pessoa comum, pois, sim, em uma determinada tarde de ociosidade e desespero, resolveu passear pelas ruas de São Paulo, a fim de finalmente encontrar a excentricidade, o quê a mais que ele queria para sua Monalisa, sem obter real sucesso. 

As ruas do centro eram recheadas de diversidade, rostos, corpos, estilos, havia de tudo na capital pulsante da cidade, mas Chanyeol simplesmente não conseguia discernir o que realmente esperava, o que de verdade queria. Estava vivenciando seu primeiro chilique criativo e concluiu que não era nada legal, principalmente porque seu trabalho estava estagnado.

E esse estar estagnado era angustiante, pois no fim das contas, estava à mercê de Baekhyun, e do que quer que seja que ele estivesse aprontando. Confiava no amigo, sabia que ele como artista respeitava a arte, o processo criativo e tudo que envolvia o construir de uma obra-prima, mas… O cerne tirador de sarro que constituía aquele ser fazia com que Chanyeol tivesse sempre o pé atrás, sempre de guarda alta… Todavia, nesse momento ele não tinha mais opções, estava de mãos atadas no que dizia respeito a isso, só lhe restava esperar que seu amigo não o tivesse trolado, não nessa situação tão sensível.

A fim de distrair a mente da ansiedade da espera e também porque tinha muito a preparar para a chegada do pretenso modelo, Chanyeol pulou cedo da cama, se banhou rapidamente e partiu para a cozinha para além de tomar um café reforçado, fazer um agrado para seu convidado. Em uma bandeja dispôs diversos tipos de frutas, dentre maçãs, peras, romãs, morangos e cachos de uva verde, para que, quem quer que fosse, (Deus, ele não sabia nem mesmo como a pessoa se identifica!) pudesse se alimentar de maneira leve e nutritiva, para que eles prosseguissem o máximo de tempo possível, isso claro, partindo do pressuposto de que a pessoa seria finalmente o modelo escolhido para o trabalho. 

Organizou o ateliê de maneira que seu material estivesse todo à mão, o cavalete a postos próximo ao seu banco de madeira, as variadas tintas, pincéis de diversas numerações para que cada detalhe pudesse ser capturado por seus olhos que se tornavam cada dia mais peritos. No centro do cômodo, um grande divã em veludo preto adornava o ambiente claro e espaçoso, ao lado, uma pequena mesa lateral onde a bandeja com frutas juntamente com uma jarra de vidro contendo água. Satisfeito com o resultado do ambiente criado e a disposição de seu material de trabalho, resolveu tomar uma ducha rápida, a fim de estar apresentável, já que fazia muito calor por esses dias.

Não pensou muito no que vestiria, além de estar em casa, estava pronto para se sujar com tinta e removedor. Alcançou uma camiseta básica preta, calças jeans simples, largas como seu estilo despojado sempre mandava e uma havaianas preta. Penteou os cabelos platinados com os dedos, já estavam enormes e ele precisava cortá-los, pois começavam a lhe incomodar conforme pintava e por isso, decidiu por uma tiara fina preta. 

Ao terminar seu trabalho da manhã, a uma e meia da tarde, o interfone soou pelo apartamento. 

— Seu Chanhô, tem um homem aqui na portaria que disse que veio ver o senhor. O nome é Kyung, (como é mesmo?) É Kyungusoo. 

Chanyeol achou graça do seu Toninho, que era incapaz de pronunciar qualquer nome de maneira correta. Em outra oportunidade, havia o visto chamar uma visitante de Anha quando claramente seu nome era Ana, e sabia que ele não fazia por mal, era sempre um espetáculo à parte os seus anúncios. 

— Pode mandar entrar seu Toninho, obrigado. Inclusive, peça a dona Maria que mande mais trufas pra mim, as minhas já acabaram! 

— Ô seu Chanhô, peço sim, depois eu passo no zap, ela tá toda toda lá com uns sabor esquisito. 

— Pois me mande no zap que eu quero todos! — ouviu o ressoar da campainha no apartamento, seu visitante havia chegado — Tchau seu Toninho! 

Ao menos agora sabia que era um homem a quem aguardava, ouvira uma voz grave corrigindo o nome como Kyungsoo, não fazia ideia do que esperar, só desejava não ser mais um fiasco para si. 

— Já vai!… — respondeu ao chamado imperativo, não queria deixá—lo esperando. — Oi desculpa a demora, estava ainda no interfone falando com seu Toninho e… — Chanyeol tagarelava sem realmente prestar atenção em seu visitante que, parado ao batente da porta, olhava minuciosamente para o jovem que lhe recebeu. — Pode entrar… Chanyeol calou—se quando finalmente pôs os olhos no outro.

Kyungsoo era… Desconcertante. À primeira vista, Chanyeol poderia enumerar todos os predicados daquele homem que fazia, nesse momento, somente respirar. Os olhos, ele tinha olhos enormes, vivos e sagazes, com irises em mel, seus cílios eram longos e negros, espessos, fazendo como que uma camada de beleza no olhar dele. A sobrancelha era farta, a moldura perfeita para olhos tão expressivos. Ainda em sua expedição pelo rosto de Kyungsoo, Chanyeol pode ver a pele pálida, salpicada de pintas de beleza, em seu rosto, em seu pescoço, três Marias perfeitas pintadas a mão em seu queixo e por onde havia pele à mostra. O nariz era delicado, mas forte, os traços firmes em curvas suaves, conferindo harmonia e abrindo alas para a grande diva do rosto anguloso e de formas perfeitas; a boca. 

O homem à sua frente tinha lábios fartos, vermelhos como o mais suculento morango. Em um formato completamente peculiar, o arco do cupido, podia-se dizer, sem eufemismos, que era o mais bonito que já havia visto. Em seu íntimo, agradeceu por não ser um escultor, pois jamais seria capaz de talhar tal perfeição em pedra. Seu sorriso despretensioso moldava-se em um belo e peculiar coração, fazendo com que o de Chanyeol batesse de forma miseravelmente descompassada, e ele se sentiu envergonhado, somente por olhá-lo. 

Chanyeol não sabe quanto tempo ficou ali, parado em sua porta, o que ele sabe é que Kyungsoo deixou que tomasse todo o tempo necessário avaliando seu material, pois, afinal de contas, era seu ganha-pão. 

— Chanyeol Park? — perguntou divertido, a voz grave se perdendo no espaço e na mente de Chanyeol, e ele vendo o sobressaltar do jovem que, sem ao menos conseguir disfarçar, vistoriava cada parte de seu rosto. 

— OI! — respondeu mais alto que o necessário — Desculpa, eu acabei me distraindo, por favor, entra, fica à vontade. 

Kyungsoo lhe sorriu sedutor, como quem tinha certeza de que havia desconfigurado o jovem à sua frente. Caminhou pela sala do apartamento bem mobiliado e parou de frente para Chanyeol, no centro da sala, mãos nos bolsos e o sorriso que nunca deixava os lábios. Ele vestia terno, estava em alfaiataria da cabeça aos pés, uma camisa branca com os quatro primeiros botões abertos, um colete ajustado, denotando a cintura moldada. Ele estava com o corpo todo coberto, porém, as roupas tão bem perfeitamente ajustadas, que Chanyeol pode ter a certeza de que aquele homem era o diabo. 

— Meu nome é Kyungsoo Doh, Baekhyun entrou em contato comigo, disse que um amigo estava precisando de um modelo. — se apresentou formalmente, cumprimentou o rapaz que estava quase que em estado líquido.

— Ah, sim, ele falou que tinha a pessoa certa pra mim, mas como é o Baekhyun, eu não botei muita fé, mas no fim ele tava certo. — respondeu ainda meio inerte, a presença do homem, mesmo que de maneira despretensiosa, era arrebatadora.

— Fico feliz em lhe dar meus préstimos… — respondeu galante — Cobro por hora, é bom que saiba. 

— Não se preocupe, pagarei sua hora e um bom cachê, para tê—lo com exclusividade, pagarei o que for preciso. — Chanyeol informou firme, pela primeira vez, desde que ele entrou em seu campo de visão.

— Já ouvi muito isso… — respondeu simplista. — Sou um homem caro, Chanyeol Park… — se aproximou do rapaz e pegou—lhe o queixo — Meu tempo vale ouro… — soltou o rosto jovem, vendo—o desnortear.

— Eu pago… — respondeu debilmente, daria sua alma a ele, se assim quisesse.

— Que bonitinho… Tão dedicado… — respondeu risonho — Vamos fazer isso aqui mesmo, Chanyeol? 

— Ah, não, não, tenho um ateliê, me acompanhe por favor. 

Hesitante, Chanyeol guiou o homem apartamento adentro, sendo seguido de perto pelos olhos curiosos e astutos de Kyungsoo.

— Bela casa Chanyeol… — elogiou olhando o ambiente bem iluminado.

— Obrigado, ainda não é meu, mas logo logo será. — abriu a porta do ateliê, dando passagem para o homem bem—vestido — Por favor, fique a vontade. Ali tem uma arara, você pode pendurar suas roupas, pode dobrá—las, faça como te for mais confortável. Aqui o divã, algumas frutas que você pode comer quando quiser, quais quiser, são todas para você. 

— Você é realmente dedicado, não é Chanyeol, estou adorando, me sentindo mimado. — riu gentil, ao ver as bochechas fartas do rapaz vermelhas. 

— É, bom, eu quero que você se sinta confortável. — coçou a nuca envergonhado por ser alvo da atenção dos grandes olhos de Kyungsoo — Tem um roupão no cabide, é seu.

— Não se preocupe. Me dê um segundo, logo estarei pronto. 

Chanyeol respondeu afirmativamente, com o rosto em chamas, tirou os chinelos, tinha por hábito andar descalço pelo ateliê, sentia-se mais livre e confortável dessa maneira. Ficou tentado em olhar para o homem enquanto se despia, as mãos formigando em ansiedade pelo que viria, em poder finalmente vê-lo. A fim de controlar as ideias e os hormônios que dançavam descontrolados, Chanyeol resolveu novamente organizar seus pincéis e tintas, agora que havia finalmente visto o modelo, uma ideia começou a brotar em sua mente, via Kyungsoo envolto em cores quentes. 

Por mais que sua pele fosse pálida, a paleta de cores, o fundo de tom de sua cor era quente. Poderia facilmente imaginá-lo envolto em tons que dançavam entre o mostarda, o vermelho, bem como o dourado. Esse homem bronzeado provavelmente teria a mesma cor de seus olhos, quentes como o amarelo do âmbar. 

Separando as cores que idealizou e já montando o cenário ao redor de seu modelo, Chanyeol ouviu a voz grave chamando por si.

— Estou pronto. Diga a posição que quer de mim e a farei. 

Quando Chanyeol finalmente foi, de certa maneira, autorizado a saciar sua curiosidade, sentiu um misto de sensações que fluíam desde uma admiração profunda pelas formas perfeitas que o homem exibia, incredulidade, pois Kyungsoo simplesmente ignorou o roupão disponível para si e caminhava pleno, completamente nu pelo ateliê e envergonhado, muito envergonhado, por seus olhos serem incapazes de buscar outro paradeiro além do corpo alheio.

Ele era um jovem artista, desde sua maioridade praticou a arte da pintura de nus, o corpo humano para Chanyeol não era uma incógnita ou motivo de vergonha, porém, com Kyungsoo foi… Diferente. E o pior de tudo, ele não sabia precisar exatamente o porquê de tal arrebatamento, somente pela visão do outro homem que nesse momento, sentava-se no divã de maneira confortável, pescou um morango na bandeja e o mordeu, fazendo com que o sumo da fruta escorresse pelos lábios carnudos e vermelhos. Como quem lançava um feitiço, Kyungsoo encostou-se no espaldar do divã, apoiando a cabeça em sua mão esquerda, o corpo de pele leitosa ocupando toda a extensão do móvel confortável. A mão direita segurando a fruta por entre os dedos longilíneos, levando-a aos lábios, a perna direita flexionada como um arco, com seu pé apoiando em seu tornozelo esquerdo. 

Havia uma cicatriz rosada em seu peito, semelhante a uma meia-lua e Chanyeol ofegou, pegando instantaneamente o pincel e as cores que havia separado.

— Por favor, não se mexa. 

 

🎨

 

— Bora beber? — Yixing perguntou como quem não queria nada, mexendo no celular.

Andavam Baekhyun, Sehun, e Yixing lado a lado, após saírem de uma sessão que eles chamariam de tortura, se não tivessem absorvido tantas informações preciosas, tanto de Minseok quanto de Junmyeon. Cansados, como sempre, estavam em busca de algo para comer.

— Nem dá, hoje eu vou ver meu muso… — Sehun respondeu rápido, com um sorriso discreto nos lábios. 

— Eita, o amigo do Chanyeol? — Baekhyun perguntou interessado.

— Jongdae, aquele divo… — respondeu com olhos brilhantes — Meu sonho é sair com ele…

— Não foi ele que disse que você tinha cara de boyzinho do Jardim Europa? — provocou Yixing, arrancando risadas dos rapazes.

— Ele mesmo! Eu não vou me envergonhar por ter essa cara e corpo esculpidos por Deus e ser bem nascido, — deu de ombros sem modéstia — mas isso não significa que eu seja um babaca, ele vai perceber que eu sou um cara legal. 

— Disse Sehun Oh… — Yixing gracejou novamente ouvindo a risada de Baekhyun, amava as gargalhadas dele, adorava todas as suas reações.

— Enfim, consegui convencê-lo a sair comigo essa noite, então vamos lá no Manifesto tomar uma cervejinha.

— E desde quando você gosta de rock? 

— Desde que Jongdae ama rock and roll, e com ele eu vou pra qualquer lugar. — respondeu sonhador.

— Tá apaixonado. — Baekhyun riu.

— Não só ele… — Yixing falou displicente, olhando de soslaio para Baekhyun que, sem graça, desviou o olhar arregalado para o lado, disfarçando o rubor no rosto. 

— Então, — Baekhyun pigarreou sem graça — vamos só nós dois, Xing? 

Yixing sorriu radiante pela proposta feita — Vamos pro samba! — afirmou feliz.

— Apenas se beijem de uma vez. — Sehun resmungou, antes de entrarem no restaurante.

 

🎨

 

— E aí, você acha que deu certo? 

Em torno das dez da noite, Yixing estava à vontade, sentado em uma cadeira amarela com uma logo gigante da Skol em suas costas, na mão direita um copo americano servido pela metade com cerveja gelada, e na mão esquerda a coxa grossa de Baekhyun tremia sob o contato repentino, porém muito apreciado.

— Deu certo? O quê? — perguntou meio soluçado, pois estava nervoso. Estar a sós com Yixing sempre é uma montanha-russa de emoções.

Yixing, que era o mais velho do quarteto fantástico, já estava na iminência dos seus 27 anos. Havia entrado tardiamente na faculdade propositalmente, ao fazer dezoito anos resolveu viajar o mundo, foi atrás de suas origens desvendando tudo que a China podia lhe oferecer, dessa maneira, conhecendo parentes distantes, se aproximando culturalmente do país oriundo de seus avós, e recuperando assim, um pouco de sua história primordial, a qual ele tinha muito orgulho. Quando decidiu retornar, veio de cabeça feita, a escolha de ser artista entranhada em sua carne e, obstinado como sempre foi, seguiu em frente pelo desejo de ser escultor. Toda essa mística em volta de Yixing, o fato de ser mais velho, viajado e culturalmente experimentado, fez com que Baekhyun caísse de amores, logo no primeiro ano da faculdade de artes.

Ele realmente cria que sua admiração era disfarçada, porém, todos sabiam de sua paixonite pelo rapaz, que era naturalmente desatento, o que podia ser considerado até como um charme inerente a personalidade dele, porém, de bobo ele não tinha nada. Yixing vem cozinhando Baekhyun a dois longos anos, no entanto, essa noite, ele decidiu tomar para si, o que lhe é de direito. 

— O Chanyeol e o modelo, seu bobinho… — Yixing depositou o copo sobre a mesa amarela de plástico e apertou, com seus dedos gelados, a bochecha do rapaz — Estou curioso para saber se deu certo finalmente para ele… — carinhoso, desceu a mão de dedos gelados pelo pescoço do outro, em uma massagem delicada, depositando toque castos na clavícula exposta pela camisa de botões entreabertos, vendo com deleite, os olhos de Baekhyun se arregalarem e ele ofegar baixinho, pelo carinho.

— Ah, sim… — Baekhyun a fim de se acalmar, sorveu um gole generoso da bebida gelada — Acho que deu tudo certo, senão ele já teria ligado me xingando. — sorriu sem graça, sentindo o calor característico de quando Yixing lhe tocava.

E com o tomar o que lhe era de direito, Yixing passou a quase um mês deliberadamente tocar Baekhyun, em qualquer oportunidade que estivessem a sós. Toda sexta, o compromisso era firmado entre os quatro amigos, Pinheiros, Largo da Batata e samba de resistência. 

No entanto, nas últimas semanas, passou a se tornar quase que um encontro implícito, onde eles dividiam cerveja gelada enquanto ouviam samba do bom, falavam de política e assuntos atuais de maneira aberta e Yixing tocava o rosto perfeito, acariciava os cabelos descoloridos, explorava os limites que ele considerava aceitáveis para situação e depois partiam, cada qual para suas casas. 

Baekhyun nunca sabia como reagir às investidas que Yixing passou a dar, apenas recebia, envergonhado e quente, quente como o inferno, esperando pelo momento que realmente algo acontecesse. E ele rezava todo dia, para que acontecesse. Ele sentia-se intimidado na mesma proporção que excitado. 

— Verdade né… Mas sabe… Tem um outro assunto no qual eu estou mais interessado agora… — Yixing sussurrou rente a orelha que se encontrava vermelha, Baekhyun fumegava como uma chaleira.

— Mesmo, tipo, qual? — Baekhyun perguntou levando a mão a cintura delgada de Yixing, estava cansado de tentar ler nas entrelinhas e somente esperar. Queria acreditar que esse momento era sua oportunidade, além da necessidade que sentia em tocá—lo.

— Eu quero beijar você. Eu quero beijar sua boca, até que um de nós peça arrego. Eu quero muito, muito mesmo, beijar você. 

Baekhyun sorriu sem graça, ouvir da boca do homem pelo qual era apaixonado, que o desejava com intensidade, foi um alívio para sua introspecção e receio de não ser o suficiente para aquele cara incrível. Ele ia responder que sim, ele também quer perder o fôlego nos lábios bonitos de Yixing, que a ânsia e volúpia pelo mais velho era intensa e desesperada, quando foi bombardeado:

— E eu não quero somente sua boca, eu quero tudo. Quero beijar cada parte do seu corpo, e quero, principalmente, saber o quão fundo você consegue chegar dentro de mim. Eu quero fazer meu joelho ruim estalar, de tanto que eu vou sentar em você. Eu quero beijar você. Quero uma conversa corporal. Só com você. 

Baekhyun abriu e fechou a boca como um peixe, sem reação, jamais imaginou que Yixing conseguiria colocar em palavras todos os seus desejos, e que eles também fossem seus, era um alívio. Não estava brincando consigo.

— Eu quero beijar você. Nossa, eu quero tanto te ter, eu tenho fome de você. — assumiu Baekhyun sem reservas. Segurou a nuca de cabelos recém cortados de Yixing, sentindo o mais velho estremecer pelo contato. 

Com um sorriso feliz nos lábios finos, roçou o nariz no de Yixing, absorvendo o perfume bom que emanava dele em conjunto com o cheiro etílico fraco, pela pouca cerveja consumida.

 — Vem pra minha casa, deixa eu amar você? — suplicou. 

Yixing sorriu bonito, finalmente! 

— Vamos! — levantou-se da cadeira e saiu puxando o outro pela mão sentido seu carro.

A partir daquela noite, eles tiveram certeza que a decisão tomada era duradoura e nunca seria leviana em suas vidas. Estavam juntos.

 

🎨

 

Chanyeol estava ansioso. Riu sozinho ao pensar que duas tardes atrás, o motivo de sua ansiedade era completamente diferente de agora. Novamente ajeitava o espaço onde seu modelo se acomodaria, observador, percebeu a predileção dele por morangos e uvas, as tendo em maior quantidade dessa vez, para que se deliciasse, nas longas e exaustivas horas que exigiam esse trabalho. Decidiu também oferecer vinho, Kyungsoo era um homem mais velho pelo que pôde perceber, então achou de bom-tom servir algo de álcool, que lhe fosse agradável. 

Estava curioso sobre o homem que falou pouco e sorriu muito. Kyungsoo tem o rosto jovial e o corpo esplêndido, suas formas são perfeitas, não por exaustão de exercícios, barrigas trincadas ou um peito malhado, ele tinha o corpo modelado perfeitamente e naturalmente, e a impressão que passava era que aquele homem jamais havia posto os pés em uma academia. 

Ouviu o interfone tocar e sabia que se tratava de seu convidado, Chanyeol ainda não havia liberado sua entrada no prédio, então a chamada se fazia necessária, por enquanto.

— Alô seu Chanhô, aquele rapaz tá aqui de novo, ele pode entrar? — Antônio perguntou com seu característico bom humor.

— Pode sim seu Toninho, obrigado! Aliás, tô esperando as trufas, o senhor não me mandou pelo zap né? 

— Ah seu Chanhô desculpa, eu esqueci. Esse síndico dos infernos que fica enchendo meu saco com coisa que nem minha obrigação é! — confidenciou baixo no interfone — Se Maria ver tu me pedindo trufa duas vezes ela bate em mim… 

O nome dela ele não erra né… — pensou Chanyeol risonho — Não se preocupe eu saí sábado e peguei chocolates, mas preciso das minhas trufas, seu Toninho! — disse, quando ouviu a campainha tocar e sobressaltou—se, ele havia chegado — Mais tarde eu te chamo! 

— Tá bem. — ouvindo o click da chamada desligada, correu para atender a porta no cômodo ao lado, se preparado mentalmente pelo caminho, para ser novamente arrebatado por Kyungsoo, e seu pensamento não o traiu. 

Ele estava parado à sua porta quando Chanyeol a abriu, dessa vez não trajava terno, com os cabelos penteados para trás de maneira charmosa, ele vestia uma camisa branca sem botões, aberta no peito largo e pouco definido, deixando pele demais à mostra. Um conjunto de colares dourados adornavam o pescoço esguio e Chanyeol prendeu involuntariamente a respiração ofegando baixo, um desejo crescente e sorrateiro fazendo-se presente em seu peito. Sorriu sem graça para o homem que lhe respondeu de maneira cortês, dando espaço para adentrar o apartamento. 

Chamou sua atenção a faixa de cetim bem ajustada à cintura perfeita, calças justas evidenciando o quadril e o bumbum avantajado que Kyungsoo tinha, e Chanyeol pensou que, de longe, era a bunda mais bonita que ele já tinha visto. Enrubesceu com o pensamento intrusivo, baixando os olhos instintivamente para forçar-se a parar de secar o corpo do homem que andava tranquilo em sua frente. 

Desde a primeira vez que vislumbrou Kyungsoo, se sentiu incapaz de esquecê-lo. Passou um total de quatro horas absorvendo cada curva, cada detalhe e particularidade do rosto e do corpo do homem que, confortável, posou totalmente nu, de maneira descontraída. No mesmo momento em que pensava em todas as minúcias que envolviam o corpo de Kyungsoo, sentia-se envergonhado, era vexatória a maneira como os pensamentos dele evoluíam para coisas as quais não deveria. 

Kyungsoo parou em frente ao ateliê de Chanyeol, o olhou por cima do ombro e dirigiu-lhe um sorriso quase doce, quase, se não houvesse essa névoa implícita de sensualidade, que permeia todas as atitudes do homem, quase como de maneira ensaiada. 

— Desculpe, acabei aprendendo o caminho e tomei a dianteira, espero que não se importe. — Kyungsoo disse displicente, enquanto abria a porta do ateliê. 

— Não se preocupe, quanto mais a vontade você ficar, melhor é pra nós dois… — Chanyeol respondeu sem sentir o peso de suas palavras.

— Cuidado com o que deseja, garoto… — gracejou em resposta, já se encaminhando para a arara a fim de guardar suas roupas, sem ver a vermelhidão no rosto do rapaz.

— Eu, então… Coloquei vinho hoje para você, é de seu agrado? — Chanyeol perguntou apreensivo, tinha medo de soar invasivo ou qualquer coisa do tipo — Pensei que por, sei lá, ser mais velho, você gostasse, de repente… — terminou com a voz decrescendo gradativamente, pensou que seria fácil oferecer um simples vinho ao seu modelo, mas sentia que nada quando se tratava de Kyungsoo era tão fácil assim. 

— Gosto sim, gosto muito de vinho na verdade, mas nada tem a ver com a minha idade, sempre foi uma das minhas bebidas preferidas, mesmo quando tinha algo parecida a sua… — gracejou já nu, tendo dessa vez deixado sua camisa pendura em um cabide grande, disposta na arara — Aliás, você falou de uma maneira que pareceu engraçado, quantos anos acha que tenho, garoto? — perguntou divertido, quando parou em frente a Chanyeol que lhe oferecia uma taça de vinho e tinha o rosto rubro, assim como o líquido. 

— Eu não sei, você parece tão novo para mim… — balbuciou sem graça, sentindo o calor da mão macia do homem ao pegar a taça de vinho, e seu corpo todo respondendo ao contato breve, era vergonhoso sentir-se assim — Eu acredito que você tenha no máximo trinta anos… — respondeu levemente ofegante, como se tivesse feito algum exercício que exigisse esforço. 

Kyungsoo riu charmoso, ele sabia como as pessoas se enganavam com sua aparência, realmente acreditavam que ele ainda era jovem, e essa crença era seu ajudador na profissão que levava. 

— Eu tenho quarenta e um anos, e contando. — respondeu galante.

— Impossível! Você é incrível, tem um rosto lindo, um corpo perfeito, como é possível? — Chanyeol exacerbou de olhos arregalados, arrancando uma gargalhada, desta vez Kyungsoo até mesmo esqueceu-se da pose que mantinha, independente da situação.

Deu as costas para o jovem que, inevitavelmente, levou os olhos a delinear todas as curvas perfeitas.

— Existe vida, após os quarenta, garoto… — caminhou sedutor, sentou-se confortável no divã de veludo e levou a taça com o líquido carmesim aos lábios cheios, sorveu um longo gole, apreciando o sabor amadeirado, frutado e ao fundo a acidez tão apreciada, que dava todo o tom a um bom vinho. Aposentou o cristal na mesa lateral e se posicionou, como da vez anterior, olhou fundo nos olhos de Chanyeol e sentenciou — Existe muita vida, e você não faz ideia.

Chanyeol sentia como se ele mesmo tivesse bebido uma garrafa inteira de vinho. Estar ali, há mais de duas horas observando atentamente cada detalhe do homem, o deixava meio inerte, desacreditado, principalmente após a informação que foi jogada de maneira tão despretensiosa. Kyungsoo tinha quarenta e um anos. Enquanto delineava em tinta fluida na folha branca o corpo do homem à sua frente, a cabeça pesava, levando diversos fatores em consideração. 

Kyungsoo era um homem adulto, provavelmente já viveu muito mais coisa do que Chanyeol sequer poderia imaginar e ele não sabia nada sobre o mais velho, fazendo com que batesse uma urgência primária de descobrir mais sobre aquela intrigante e calada figura.

Chanyeol tinha os olhos pesados, turvos, fantasiando todas as experiências pelas quais Kyungsoo que, em sua concepção, era desprovido de vergonha, já havia passado. Todo esse devaneio interno fez com que Chanyeol ficasse calado, imerso em seus pensamentos e na pintura que produzia. Como se quisesse protelar o fim, ele desenhava lentamente, nesse momento, se apegando ao entorno do modelo, não em Kyungsoo em si, como se quisesse evitar olhá-lo. Estava distraído, quando ouviu a voz de barítono que lhe chamou tranquilamente:

— Chanyeol? — Kyungsoo chamou pela segunda vez, percebendo o rapaz disperso.

— Oi? Oi, nossa, desculpa Kyungsoo, eu acabei viajando aqui… — respondeu sem graça, quase havia borrado o jardim de inverno que desenhava como fundo de sua pintura.

— Eu percebi, te chamei duas vezes e você não respondeu — explicou risonho.

— Desculpe por isso… — Chanyeol baixou a cabeça envergonhado, quando conseguiria olhar aquele homem sem ter um surto interno?

— Não se preocupe com isso… Artistas são criaturas dispersas, principalmente no momento da criação. Dispersas do mundo, é claro, pois sua concentração total está no que estão produzindo. — afirmou se levantando, espreguiçou—se como um gato, esticando todos os tendões do corpo, cansados pela mesma posição — Preciso me alongar um pouco e ir ao banheiro.

— Claro, o que você quiser! O banheiro é naquela porta, você já sabe. E sim! Nossa, às vezes meu professor me dá uns tapas porque ele está falando e eu nem aí pra ele… Mas em minha defesa, é totalmente sem querer! — Chanyeol afirmou, enquanto o homem usava o lavabo.

Kyungsoo saiu do banheiro e aproximou-se da bancada de tintas de Chanyeol, vendo as orelhas do rapaz vermelhas, por sua nudez. 

— Eu sei que sim, conheço muitos artistas, sei como funciona. — respondeu bem humorado em frente ao rapaz que evitava olhá-lo — Eu posava para um que ficava tão inerte, que eu podia levantar e sair do cômodo, que ele mal notaria — riu grave e franco, e Chanyeol sentiu como se nunca mais fosse capaz de esquecer o timbre exato da risada grave daquele homem — Aliás, posso olhar? — perguntou com olhos grandes e curiosos, o que também foi um traço de sua personalidade que Chanyeol absorveu para si.

— Claro, pode ver! Nossa mas… — Chanyeol gargalhou — Imagina não perceber você se movimentando pelo ambiente… — soltou sem perceber, dando espaço para que Kyungsoo parasse ao seu lado e visse o progresso de seu trabalho.

— Ficaria intrigado com o tanto de pessoas que não prestam atenção em mim… Inclusive já fui contratado como modelo somente de corpo.

— Imagina não retratar seu rosto… — Chanyeol disse sem realmente pesar suas palavras, e tão imerso em sua pintura, não percebeu, pela primeira vez, que havia desestabilizado o homem ao seu lado, arrancando dele um sorriso sem jeito.

Descrente do que havia acabado de ouvir de maneira tão despretensiosa, Kyungsoo pela primeira vez em muito tempo sentiu-se envergonhado. Não uma vergonha relacionada a constrangimento, mas aquele calor gostoso, característico de quando a gente não sabe como agir mediante o elogio de alguém. 

O que estava acontecendo? 

 

🎨

 

Estavam na aula de História da Arte, aula essa que era o desespero dos estudantes por ser, em certas ocasiões, extremamente massante. Os jovens tinham a arte pulsando em suas veias, não tinham muito interesse no que aconteceu a decênios atrás ou em seus antecessores, o quarteto fantástico tinha ânsia de escrever o futuro. Levemente disperso enquanto a aula corria, Chanyeol sentiu um cutucão em seu ombro:

— E aí, como estão as coisas? — sussurrou Baekhyun curioso, rente às costas de Chanyeol.

— Me diga você, como estão as coisas? Fiquei sabendo de uma fofoca aí… — respondeu sussurrado e risonho. 

— Não existe fofoca! — Yixing respondeu alto, sentado na mesa ao lado — Estamos namorando! 

Shiiiii 

— Desculpe mestre.

— Desculpe mestre.

— Desculpa mestre.

Responderam em uníssono ao ouvir a retaliação da professora que, mesmo sua matéria às vezes sendo insuportável, era doce, a preferida de todos os alunos. Além de arrasar corações por toda a faculdade. 

— Eu sei que hoje o dia não está dos melhores, garotos… — ouviu—se a voz doce ecoar pela sala — Mas gostaria que prestassem atenção neste pormenor, vai cair na prova. — afirmou sorridente, arrancando suspiros de alguns alunos presentes, incluso a eles Sehun, que tinha o queixo apoiado na mão esquerda.

— Professora Jongin é tão linda né…? — suspirou novamente de maneira audível, vendo a professora esguia parada em frente a sala, com livro em mãos lendo em voz alta. 

— Já sabemos desde o momento que ela pisou aqui, mas se liga, Baek e Xing são um casal! — sussurrou alto demais.

— Ok, ok, estamos felizes que nosso prodígio da argamassa e o batedor de pedra estão finalmente namorando, mas, podem fofocar depois, rapazes? — Jongin pediu gentil, arrancando risadas dos alunos e deixando um Baekhyun envergonhado, mas em contrapartida, um Yixing muito orgulhoso.

— Desculpe mestre.

— Desculpe mestre.

— Desculpe mestre.

— Vamos por partes, muitas fofocas e eu tô meio lento hoje. — Chanyeol colocou sua bandeja na mesa previamente ocupada pelos quatro amigos. 

— Você não cansa de BK não? — Yixing perguntou displicente, enquanto cutucava seu prato saudável. 

— Disse aquele que vive de donuts… — respondeu torcendo o nariz — E não mudem de assunto não, vocês tão namorando?! — Chanyeol finalmente perguntou, arregalando os olhos, tornando-os maiores do que já são. 

— Sim! — Baekhyun respondeu orgulhoso — Eu e Yixing estamos juntos! — piscou pro rapaz que remexia a salada o mandando um beijo.

— Graças a Deus, não aguentava mais o Baek com cara de cachorro magro, com fome. — Sehun disse de boca cheia, após morder seu lanche de frango teriyaki de 30 centímetros.

— Você, por outro lado, segue com a mesma cara de vira lata que caiu da mudança, Sehun. — Baekhyun alfinetou — Tomou outro toco, foi? 

— Amor, não pode ficar se entupindo de milkshake, toma, come esse shitake aqui — mandou Yixing enfiando o cogumelo na boca do rapaz, que fez uma careta — e pare de perturbar Sehunnie, nem todos podem ser correspondidos, independentemente de sua beleza. — terminou plácido.

— Hey! Quer dizer, obrigado? — respondeu confuso — Enfim, quem espera sempre alcança, me deixem em paz. — Sehun emburrou.

— Vocês falam demais e são todos esquisitos, não sei porque ainda ando junto.

— O Yeol aí todo posudo, eu vi você suspirando na aula hoje viu, e não foi pela professora Nini… — Baekhyun alfinetou esperto, enquanto espetava mais um cogumelo do prato do namorado.

— Opa, opa, opa, o que tá rolando? — Yixing se interessou, aproximando-se de Baekhyun e aconchegando-se em seu ombro. 

Ali, naquela mesa redonda de shopping, todo o combo de desgraça de Chanyeol o rodeava, três pares de olhos curiosos o interpelam e demandam uma resposta. Sabendo que não desistiriam nunca de seu intento, bufou irritado, não tinha nada o que contar.

— Bora Chanyeol que eu não tenho a tarde toda, meu muso inspirador já, já vai se encontrar comigo pra modelar… — Sehun apressou sonhador.

— Não tenho nada pra contar, não sei do que vocês tão falando! — despistou, eram as duas da tarde e ele precisava ir — Vou nessa, o Kyungsoo vai chegar em casa logo.

Chanyeol levantou pegando sua bandeja vazia, ajeitou a mochila nas costas e com um sorriso fechado, se despediu dos amigos, que só fizeram o encarar de volta. Sehun bufou alto, enquanto Yixing revirava os olhos, enfadado. 

— Impressionante como ele adora fazer a bicha muda. — Baekhyun deu de ombros.

Sehun riu — Referência de velho.

 

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Kyungsoo acordou quebrado. 

Havia saído logo após a sessão com Chanyeol, tinha um cliente marcado às vinte horas daquele dia e era sempre mais do mesmo. Aquela pessoa, que já era seu cliente costumeiro, tinha o interesse em conversar, se embebedar e pagar um boquete. Enfadado, Kyungsoo olhava o homem quase idoso que estava dedicado em sua tarefa, meio ébrio por somente duas taças de vinho e dando seu melhor em tentar arrancar dele ao menos um gemido sequer de prazer, mas como sempre, sem sucesso. 

Esse cliente como tantos outros, tinha prazer na humilhação, sua satisfação jazia em tentar ser sedutor, arrancar prazer de Kyungsoo, e ser totalmente rechaçado. Sexualmente impotente, pagava a Kyungsoo uma quantia exorbitante tão simplesmente, para tentar dar-lhe prazer. 

Como sempre entediado, Kyungsoo recebeu a notificação de seu pix gordo caindo na conta-corrente e partiu para casa, para o mais longe possível daquela vida que ele detestava, mas que pagava suas contas.

Estava dolorido pois havia dormido mal, seus pensamentos eram uma bagunça infinita desde a tarde do dia anterior, quando acabou ficando sem palavras por causa daquele garoto. Sentia-se levemente angustiado, uma sensação estranha de ansiedade, uma espécie de frio na boca do estômago o acometia nesse exato momento e ele considerava que não tinha mais idade pra isso. 

Novamente, como estava virando costume, parou na porta do condomínio para tocar a campainha, a fim de falar com o porteiro, que era um homem gentil, porém incapaz de falar seu nome corretamente. Quando fez menção em tocar o interfone, ouviu o apito do portão e o trepidar da porta automática, dando passe livre para adentrar sem ser anunciado. Sentiu o peito pulsar, o estômago virou do avesso e ele quis se bater por tais reações tão… Juvenis.

Cumprimentou o homem que devolveu a gentileza, fez todo o caminho que aprendeu para o apartamento do jovem pintor e se preparou mentalmente, para a visão que era o rapaz. 

Kyungsoo se lembra integralmente da primeira vez que o viu. Ele contrastava totalmente de si, e o mais velho sorriu ao lembrar de sua vivacidade e suas roupas despojadas. Mas o que realmente o atraiu foram os olhos. Chanyeol os tinha grandes, vivos e espertos e Kyungsoo sentiu-se desnudado pelos olhos analíticos e perceptivos, que avaliavam seu rosto sem receios, sem filtro, como se vissem sua alma. Disfarçando sua insegurança, fez sua melhor pose de cafajeste, era sempre seu maior disfarce para esconder o que realmente povoava sua mente. 

Ao bater na porta, Kyungsoo involuntariamente prendeu a respiração, soltando assim que ela foi aberta e pode vislumbrar novamente os olhos grandes, negros e brilhantes, que se assemelhavam a uma constelação. Como sempre ele sorria envergonhado para si e Kyungsoo invariavelmente pensava, quem teria a sorte de ter aquele rapaz lindo, de feições meio bobas e olhos gentis? Sortudo.

— Boa tarde Kyungsoo! — cumprimentou feliz, Chanyeol tinha o contentamento escorrendo pelos poros. 

— Boa tarde, Chanyeol, tudo bem com você? — puxou papo entrando no ambiente, assim que convidado pelo rapaz.

— Comigo está sim, estava ajeitando algumas coisas no ateliê, especialmente para você. — Chanyeol falou de maneira fofa, causando um solavanco no peito de Kyungsoo.

— O que meu dedicado artista tem para me surpreender hoje? Aliás, o vinho ontem estava delicioso. — agradeceu.

— Que bom que gostou, eu não sou muito bom com bebidas, eu só tomo uma cervejinha e olhe lá! — respondeu risonho — Aí por isso… — falou incerto, chamando a atenção de Kyungsoo.

— Por isso o quê? — o encorajou.

— Eu não falei nada, mas… Hoje eu pensei em me dedicar ao fundo da minha pintura, então… Na verdade, você nem precisaria vir, mas…

— Mas… — encorajou Kyungsoo, sentindo novamente o gelo da boca do estômago, não era possível, queria ele sua companhia?

— Não sei, eu queria estar com você! — falou rápido, antes que perdesse a coragem — Não me leve a mal, eu gostaria de te conhecer melhor e, bem, você parece um cara legal, então eu pensei: por que não, né? Mas se você não quiser, eu entendo, você deve ser muito ocupado e ah, eu pagaria seu tempo também e… — Chanyeol desembestou a falar, arrancando uma gargalhada sincera de Kyungsoo, que se sentia estranhamente feliz.

— Hey, hey, calma, você é rapper ou algo do tipo? — gracejou vendo as bochechas rubras do rapaz, e segurando o ímpeto de apertá—las — Eu topo. Não queria falar nada, mas hoje estou cansado, ontem não tive uma noite boa… Será um prazer te fazer companhia, e inclusive, você não me deve nada. 

— Claro que sim! Você está aqui desperdiçando seu tempo comigo! — respondeu Chanyeol.

— Não considero passar um tempo com você como perda de qualquer coisa… Mas então, o que temos para a tarde de hoje?! — Kyungsoo respondeu franco e a queima-roupa, não calculando muito bem o estrago que suas palavras fariam na mente e no coração do jovem hiperativo. 

— Hn, ok, legal então! Hoje a tarde é de festa! — respondeu feliz, envergonhado, porém extremamente feliz.

Chanyeol estava concentrado, trabalhava diligentemente em todo o preenchimento da tela que era grande, seria um dos maiores trabalhos que já havia criado. De regata preta, respingada em tons de vermelho, verde folha e dourado, para Kyungsoo ele era lindo. Estava como de costume descalço, a calça jeans larga e também manchada de tinta descia folgada até encontrar os pés grandes, depositados no apoio da banqueta em madeira. 

Ainda em sua observação silenciosa, Kyungsoo adorava a maneira como os cabelos platinados, lisos e maiores do que o usual ficavam bonitos presos atrás da tiara fina preta, deixando à mostra as charmosas orelhas salientes. Chanyeol era para Kyungsoo, uma das criaturas mais bonitas que ele já havia visto, e a cada dia que passava com o rapaz, absorvendo suas particularidades, trejeitos e hábitos, sentia que estava se perdendo, indo por um caminho que simplesmente não o cabia, um caminho impossível para si. Precisava parar.

Estava sentado ao seu lado, observando como fazia traçados fluídos, sem esforço, Chanyeol tinha uma naturalidade tão grande ao pintar, que Kyungsoo jurava nunca ter visto alguém tão naturalmente talentoso assim. Ainda em sua observação silenciosa, ouviu o interfone tocar, causando um pequeno sobressalto no rapaz concentrando, arrancando—lhe mais uma risada despretensiosa.

— Chegou! — Chanyeol falou animado.

— O que você está aprontando? — perguntou Kyungsoo curioso, seguindo o rapaz que já saia do ateliê, sentido a entrada do apartamento.

— Eu? — perguntou maroto, apontando o próprio peito — Eu não apronto nada, sou um santo! — afirmou.

— Você tem cara de garoto terrível, imagino você aos dez anos com uma regata e papete do Ben 10, bermuda de tactel e o braço quebrado… — gargalhou, vendo—o indignado abrindo a porta.

— Muito obrigado! — respondeu gentil o entregador — E fique com o troco! Soo segura essa caixa aqui pra mim? E em minha defesa eu quebrei o braço aos doze e foi tudo culpa da minha irmã! Aliás, isso foi muito específico, você tá bem? — gracejou e gargalhou em seguida, ao ver a cara de perdido que o homem fazia.

Ah… Ele me chamou de Soo… Isso não vai dar certo…

— Soo! Vai cair!

Kyungsoo acordou de seu mini ataque de pânico, e segurou a caixa antes que caísse. Era uma caixa grande e bem cheirosa, que com certeza continha algo de comer dentro, e seu estômago roncou em antecipação. Acompanhou o jovem por uma ambiente novo da casa, chegando a cozinha bem equipada, que parecia um lugar dos sonhos para um amante da arte da culinária.

— Coloque aqui em cima da mesa, por favor. — Chanyeol orientou, enquanto colocava a sua caixa — Pronto! Agora teremos nossa tarde de festa! 

— Você está esperando mais alguém? — Kyungsoo perguntou levemente mal-humorado.

Chanyeol riu gostoso ao ver o bico do mais velho, deixando-o involuntariamente envergonhado 

— Não, somos só nós dois, não se preocupe. Eu nem comprei tanta coisa assim, vai! 

— Chanyeol, tem todo tipo de salgado aqui, sem falar que, isso é um bolo? — perguntou abismado, enquanto via o rapaz abrir a caixa que trouxe, contendo um mini bolo confeitado — Eu não acredito… — Kyungsoo riu desacreditado.

— Sim! Um delicioso bolo recheado de chocolate belga e morangos! E quanto aos salgados, não se preocupe, você não faz ideia do quanto eu como… — respondeu empolgado e envergonhado — Você não come besteira, né? Eu sabia que isso não ia dar certo, você nem deve comer essas porcarias e eu querendo te empanturrar de bolo e salgado.

— Não, não é isso, eu só… Por quê? — os grandes olhos de Kyungsoo estavam perdidos, e essa nova reação tinha toda a atenção de Chanyeol.

— Como assim por quê? Quem foi que disse que a gente precisa de um aniversário pra comer comida de festa? Soo, quando foi a última vez que você comeu um bolo recheado e confeitado? — Chanyeol perguntou mais confiante.

— Eu… Não faço ideia. Sei lá, uns dez anos? — enquanto puxava a memória, tinha os olhos presos na parede branca da cozinha.

— Imagina passar dez anos sem comer um pedaço de bolo, Soo, pelo amor de Deus! — espantou-se Chanyeol.

— É muito tempo mesmo… — Kyungsoo riu constrangido, de tudo que já havia vivido, não imaginou que aquele rapaz teria algo para o ensinar. 

— Vocês adultos ficam sem fazer tantas coisas tão simples por bobagem… Não que eu não seja adulto, porque né, eu sou adulto viu, muito adulto, já tenho vinte e cinco anos, sou um homem já — Chanyeol tagarelou novamente, sentindo a vergonha corroer seus ossos.

— Eu sei que você é um homem Chanyeol, posso ver isso com meus próprios olhos, não se preocupe. — Kyungsoo afirmou sentindo o coração falhar uma batida.

— Bom, bora esquecer esse papo esquisito e partir pra o que interessa! Vamos comer! Aliás — lembrou Chanyeol se dirigindo a geladeira — não é porque a tarde é de festa que somos crianças — riu ao lembrar do mico que acabou de pagar — Uma cervejinha? — perguntou balançando levemente a latinha de Eisenbahn.

— Sim! — Kyungsoo respondeu sorrindo grande.

Fazia muito tempo que não se sentia dessa maneira e tinha medo, muito receio de que no momento em que Chanyeol descobrisse quem ele realmente era, se afastasse abruptamente, como tantas pessoas já haviam feito antes.

 

🎨

 

— Você tá com cara de idiota, quer dizer, não que você não já tenha cara de idiota, mas ela tá mais aparente esses dias… — observou Jongdae — O que tá rolando? 

— Como tá você e o Sehun? Já deixou ele colocar o mãozão em cima de você? — Chanyeol perguntou mudando bruscamente de assunto.

— Não, tenho por regra três encontros, se ele conseguir três encontros sem ser um babaca tarado aí eu deixo ele encostar as mãos em mim, mas não muda de assunto não, você tá com cara de quem tá aprontando… — disse analítico.

— Eu não tô aprontando nada Dae, meu Deus. — Chanyeol respondeu ansioso, perdendo a partida de Mortal Kombat que jogava com o amigo — Aí ó, perdi! 

— Cabaço. — Jongdae tirou sarro — Fica aí mentindo, isso que dá.

— Eu não tô mentindo Dae… — desistindo de ser evasivo, Chanyeol se jogou no sofá confortável da casa do melhor amigo — Eu realmente não tô aprontando nada, eu só… Tô estranho…

— Estranho como? Tem a ver com o tiozinho que você tá desenhando? — Jongdae tirou sarro.

— Primeiro que eu não desenho, já te disse, eu pinto. Segundo que ele não é um tiozinho, ele é um homem maravilhoso Dae, ele é incrível, bonito, inteligente, engraçado…

— Meu Deus, tá apaixonado pelo daddy. — Jongdae gargalhou.

— Que daddy quê, minha vida não é anime de incel não, pelo amor de Deus! — Chanyeol afirmou arrancando mais gargalhadas do amigo, dando nele um tapa no ombro — Ele só é! Eu não penso na idade dele, na nossa diferença de anos, isso pra mim é indiferente. Você sabe que não me envolvo com ninguém pensando em coisas supérfluas como o que a pessoa tem entre as pernas, como se identifica ou que idade tem, isso é besteira! — terminou resoluto.

— Eita como ele é desconstruiiiido… — Jongdae tirou sarro — Já pode dar uma de esquerdomacho e convidar ele pra uma pintura íntima, tudo em nome da arte, para que vocês troquem fluidos espirituais e energia cósmica, ah pera, vocês já estão fazendo isso.

— Eu vou embora.

— Vai nada, tá parei. Eu sei de tudo isso, seu bobo… — Jongdae falou sério, afagando os cabelos do amigo — Mas você sabe alguma coisa dele? Pelo que eu te conheço você deve ter falado sem parar em todos esses encontros — fez aspas — que vocês tiveram.

— A gente conversa, tá? Ele é meio restrito, e até um pouco mal-humorado, ele é tão charmoso… 

— Foco, Chanyeol.

— Enfim, a gente conversa, e bastante até. Eu não sei ainda tudo sobre ele, mas é pra isso que a gente conversa, certo? — Chanyeol disse convencido.

— Sim, é pra isso que a gente conversa. — Jongdae concordou rindo — Por falar em conversa, ando conversando bastante com o Sehun. Continuo achando que ele é um playboy do Jardim Europa, mas ele é legal.

— Sim, ele é um mauricinho de merda, mas é um cara firmeza. Da próxima vez que o vir, chama ele de Sehunnie que eu garanto que ele vai fazer tudo que você quiser. — Chanyeol disse bem-humorado.

— Ele já faz. — Jongdae disse convencido — Ah e assim, só pra saber… — Jongdae lembrou, se levantando do sofá indo sentido o quarto tomar um banho, não disse para Chanyeol, mas já tinha um novo encontro marcado com o mauricinho do Jardim Europa — Você pegou o número de telefone do seu gato velho?

Chanyeol deu um tapa em sua própria testa, desacreditando tamanha era a sua falta de atenção. Estava a praticamente uma semana pintando Kyungsoo, tinham conversado horas a fio, e não lembrou em nenhum momento de pegar o contato do homem que povoava seus pensamentos.

Tapado.

 

🎨

 

— Boa tarde Chanyeol. — Kyungsoo cumprimentou, como sempre, parado em frente a porta.

— Me dá seu telefone?

Chanyeol interpelou Kyungsoo antes de entrar, ansioso, pediu o telefone do homem antes que acabasse faltando coragem para tal. Não que fosse uma atitude totalmente inusitada pedir o número de alguém, mas Chanyeol sentia como se tudo ao redor de Kyungsoo fosse potencializado, como se qualquer coisa que relacionasse o mais velho tivesse que ser tratada com a maior seriedade possível.

Kyungsoo riu surpreso pelo modo intempestivo de Chanyeol, mas com certeza considerava toda aquela energia caótica que ele emanava atraente e divertida, como se Chanyeol distribuísse vida. Jamais negaria qualquer pedido dele. 

— Claro, — riu charmoso — pensei que nunca pediria, achei que a molecada hoje vivesse pendurada no whatsapp — gracejou.

— Que zap o que tio… — Chanyeol entrou na brincadeira e tomado de coragem, fez o que desejava a um bom tempo. Ao fechar a porta, assim que Kyungsoo passou, de maneira displicente, mas calculada, levou a mão grande ao ombro do outro, com receio e levemente envergonhado, escorregou os dedos longos pela extensão do braço alheio. Com bochechas rubras e sentindo que havia ido longe demais, segurou a mão de Kyungsoo e o puxou sentido ateliê — A galera gosta é do twitter. 

Kyungsoo deixou-se ser guiado, o coração a mil e sentimentos contrastantes se faziam presentes com força total. O gelo na boca do estômago dando a sensação ridícula de felicidade e a angústia gritante. Precisava falar.

— Tudo bem? — Chanyeol perguntou envergonhado, tinha a sensação de que sempre que interagia com Kyungsoo seu rosto pegava fogo. Porém, nesse momento, o que chamou sua atenção foi ver o outro com o aspecto triste, suas feições denotavam um estado mental diferente de quando chegou. Chanyeol notou com estranhamento também, que estava envolto pela primeira vez no roupão que havia disponibilizado. Por que se escondia? 

— Ah, tudo, eu só me sinto um pouco cansado hoje. 

— Não dormiu bem essa noite? — Chanyeol perguntou interessado, abandonando os pincéis e se virando totalmente para Kyungsoo, que o olhava sem graça.

— Não muito, tem algumas noites já que não consigo dormir direito… — respondeu incerto, Kyungsoo estava sendo engolido por sentimentos e queria entendê-los.

— Já sei! — afirmou Chanyeol de repente — Espere um segundo, por favor. — e saiu do ateliê, rápido como um raio.

— O que ele vai aprontar? — Kyungsoo falou consigo mesmo, aguardando intrigado o retorno dele. Estava sentado no divã, com o rosto e o corpo cansados, se sentia exausto da vida que levava. 

Três minutos depois, Chanyeol retorna com uma embalagem em mãos, no rosto um sorriso sapeca, como quem tinha tido uma ideia genial. E realmente havia sido. 

— Ok, pergunta estranha, mas acho que você já está se acostumando comigo… — falou risonho.

— Já estou totalmente familiarizado às suas esquisitices, manda. — Kyungsoo respondeu humorado.

— Me chamou de esquisito, mas relevarei, você confia em mim? — perguntou sapeca.

— Você tá cheio de mistério hoje, garoto… — Kyungsoo olhou desconfiado arqueando involuntariamente as sobrancelhas expressivas — Confio, claro. Posar nu por si só já é um ato de confiança para com o artista, afinal de contas, estou vulnerável. — respondeu tranquilo, vendo com deleite Chanyeol arregalar os olhos expressivos em entendimento.

— Certo, eu nunca pensei por esse lado? 

— Provavelmente porque nunca posou nu. — riu da expressão de descoberta do jovem artista. 

— Cara… Eu nunca tinha pensado assim e realmente, quando você posa tá completamente a mercê do outro né… — Chanyeol mirou os olhos grandes e brilhantes nos de Kyungsoo e sentenciou — Muito obrigado por confiar em mim Soo. — e foi novamente agraciado com o sorriso sem graça do homem mais velho, e um rubor primário invadir as maçãs de seu rosto bonito — Esse papo já ficou estranho de novo, né? — pigarreou — Então, foco aqui. Poderia fazer a gentileza de abaixar a parte das costas do seu roupão, e deitar—se confortavelmente neste divã, caro senhor?

Kyungsoo considerou o pedido excêntrico, porém não o rechaçou ou questionou a natureza dele, simplesmente, de frente a Chanyeol, deixou que a parte de cima do roupão escorregasse por seus ombros e braços, parando em sua cintura preso pela faixa, deixando todo o torso à mostra. Chanyeol engoliu seco perante a visão do homem à sua frente, tinha consciência que ele fez um gesto que seria considerado simples por qualquer ser humano, mas Chanyeol simplesmente não o enxergava como qualquer ser humano. Estava muito fodido, pois mesmo que não assumisse, estava perdidamente apaixonado por Kyungsoo Doh.

Tomando finalmente ciência e conhecimento desse fato, riu anasalado, pois tinha certeza que teria, pela primeira vez, seu coração partido, afinal de contas, Kyungsoo com certeza não tinha interesse em si. Se desvencilhando de pensamentos que de nada o serviriam nesse momento, seguiu em seu intento ao ver o homem deitado de barriga para baixo no divã de veludo preto, com a cabeça apoiada em uma almofada. Respirou fundo sentando—se na beirada do divã, dividindo espaço com Kyungsoo. 

— Soo, isso que eu vou passar em você é óleo essencial de lavanda. — informou assim que jogou delicadamente uma quantidade do produto no meio das costas de Kyungsoo — Eu não sei se você acredita nessas coisas, mas ele é um ótimo relaxante, ajuda no sono, faz bem pra pele e tem um cheiro ótimo… 

Enquanto conversava baixinho, Chanyeol espalhou o óleo pelas costas largas e de pele macia, e por mais que fingisse tranquilidade enquanto falava, estava em um surto interno de nível altíssimo, por tão somente tocar a pele alva do homem que, relaxado, deixou escapar um gemido longo e grave, ao ter suas omoplatas massageadas firmemente.

— Está bom, Soo? — Chanyeol perguntou rente ao ouvido, sentindo—se corajoso e correspondido de alguma maneira, vendo os poros da nuca dilatarem. 

Ouviu a concordância saindo do fundo da garganta dele, sentindo-a reverberar em todo seu corpo. Sorriu satisfeito e seguiu massageando, descendo lentamente as mãos por todo o caminho sinuoso, alcançando a lombar bem marcada pelo bumbum avantajado. Seguiu resiliente, acariciando e massageando de cima a baixo a extensão das costas, vendo o quão relaxado Kyungsoo estava, praticamente liquefeito em cima do divã.

— Pode virar Soo, por favor? — perguntou dócil.

Kyungsoo suspirou alto em contentamento, ouvir a voz grave do rapaz ao pé de seu ouvido, sentir as mãos grandes acariciando suas costas cansadas, isso o dava senso de pertencimento e também excitação. Uma cena tão banal e ao mesmo tempo, tão única, íntima, onde Chanyeol estava pura e simplesmente tentando o confortar. Esse sentimento de bem-querer que transborda do rapaz toma lugar de maneira certeira, direta e é avassalador, pois Kyungsoo sabe que esse carinho é todo direcionado a si. 

Transbordando de tudo que há de bom, Kyungsoo gira o corpo lentamente, ficando de frente ao rapaz e revelando parte de sua nudez, o membro semi ereto, provocado pelos toques incisivos em seu corpo e principalmente por quem o causou. As mãos grandes e macias, o aperto ora carinhoso, ora firme, acabando com o autocontrole do homem que simplesmente não podia se entregar. 

Chanyeol tinha as pontas das orelhas vermelhas, os olhos presos no rosto de Kyungsoo que, também sem graça, riu de sua fofura. Aproveitando as mãos envolvidas no óleo cheiroso, trêmulo e delicadamente, tocou o vão entre as sobrancelhas fartas com os dedos indicadores, fazendo movimentos leves e gentis sentido a testa. Percebendo ser positivo o toque ao vê—lo fechar os olhos, se deu ao luxo de poder observar, de perto, cada detalhe do rosto masculino. 

Além da obviedade da beleza de Kyungsoo, Chanyeol pode detectar pequenas imperfeições. Notou leves marcas de expressão em sua testa, expressões essas que ele já havia notado serem raras, mas quando surgiam, lhe davam um contentamento enorme. O mais velho, quando curioso ou pego de surpresa, arregalava os olhos arqueando bem as sobrancelhas, gerando dobrinhas charmosas em sua testa. 

Riu mudo ao lembrar da boca aberta de maneira fofa em um O perfeito, tamanha expressividade ele escondia. Delineou as maçãs do rosto com a ponta dos dedos, encontrando pequenas dobras em seus olhos, dobrinhas que ele gostava de ver surgirem a cada vez que a risada grave ecoava sem freio pelo ar. Piscou aturdido ao vê-lo umedecer os lábios fartos, por Deus, estava apaixonado. 

Todos os traços de Kyungsoo eram sua somatória de experiências, histórias e vivências, e Chanyeol daria qualquer coisa para poder saber um pouco, nem que minimamente, sobre a vida dele e principalmente, se possível, conseguir algum espaço nela. Embebido em paixão e sem freio de ações, deslizou o dedão pelo lábio inferior de Kyungsoo vendo e ouvindo o descompassar da respiração alheia, e em um único ímpeto, o beijou. 

Arregalou os olhos ao perceber a atitude que havia tomado, sentindo-se invasivo, Chanyeol recuou vermelho desde o pescoço até a ponta das orelhas, mortificado por ter se deixado levar. Kyungsoo tinha a respiração irregular, e no mesmo movimento que Chanyeol fez de recuo pelo ato impensado, ele levantou, segurou a nuca de Chanyeol em seus cabelos longos e, sério, trouxe o rosto do jovem artista rente ao seu.

— Por que fez isso? — baixo, quase inaudível, Kyungsoo perguntou ofegante, arrastando lentamente o nariz pelo rosto quente, sentindo-o tremer em seus dígitos.

Em reciprocidade, Chanyeol jogou pro alto qualquer trava que o impedisse de se expressar verdadeiramente — Não vou me desculpar… — e gemeu sôfrego, ao ter seus cabelos seguros de maneira firme.

— Então porque parou, garoto?

Entregue, Kyungsoo beijou Chanyeol como há muito tempo queria, lento. Não havia pressa, não havia gana, somente a descoberta das bocas que, apesar de desconhecidas, se encaixavam perfeitamente, cadenciadas no mesmo desejo de pertencer. Kyungsoo distribuiu pequenas mordidas nos lábios cheios, lambeu o inferior e o sugou delicadamente, enquanto Chanyeol e suas mãos inquietas, bagunçava os cabelos negros de Kyungsoo. No ateliê o que se ouvia eram ofegos desconexos, estalos molhados de lábios que se experimentam devagar, mas com uma fome insaciável. Podia dizer sem eufemismos, que há anos não se sentia assim, tão vivo. 

— Você não deveria… — e fazendo o contrário do que dizia, Kyungsoo trazia para mais próximo o corpo grande e febril, maleável.

— Soo… Me beija. 

Chanyeol tinha os olhos perdidos, letárgico, como se finalmente ter o mais velho fosse embriagante. Ao sentir seu rosto ser pego pelas duas mãos gentis, se entregou sem reservas, seu único desejo era ser dele. Inquieto, pulsante, subiu no colo de Kyungsoo, precisava aplacar a ânsia crescente pelo corpo dele e o mais velho, se aproveitando do ímpeto alheio, depositou as mãos nas coxas de pernas quilométricas apertando—as com gosto, enquanto desfrutava do pescoço cheiroso de pele dourada.

— Você é tão bonito, tão vivo… — Kyungsoo balbuciava débil, vistoriando o corpo grande com as mãos ansiosas.

— Sou seu. 

Em um movimento gentil, girou Chanyeol pairando por cima dele e pôde ver o resultado de sua obra. Sentiu-se satisfeito, principalmente por ter aquele homem sob si. Os lábios bonitos e inchados, vermelhos dos beijos trocados, o pescoço dourado e esguio possuía marcas avermelhadas, denunciando que ele havia se excedido ali, porém não podia se sentir menos culpado. Os cabelos loiros bagunçados jogados no tecido negro, entregavam um combo de saciedade que Kyungsoo não sentia em anos. 

Quando levou a mão a barra da camiseta preta que Chanyeol vestia, e vislumbrou a barriga magra, lisa, teve um estalo, um fio de consciência que instantaneamente o impediu de prosseguir. 

Não podia fazer isso. 

Movido por sentimentos que ele não sabia nomear naquele momento, baixou lentamente a camiseta e se levantou gentilmente, mirando doloroso os olhos confusos de Chanyeol que denotavam todo seu desentendimento.

— Você não me quer? — foi o que ouviu na voz frágil do rapaz, e aquilo lhe doeu fisicamente, pois tudo que mais desejava era poder beijar todo seu corpo nu.

— Quero, eu quero muito, garoto eu… Faria qualquer coisa por você… — foi franco.

— Soo, eu não entendo.

— Venha aqui, preciso te contar algo, podemos conversar? — perguntou gentil, segurando a mão do mais novo e o ajudando a se erguer.

— Agora? Você jura que quer papear agora Kyungsoo? — Chanyeol perguntou de maneira espontânea e impaciente, arrancando uma gargalhada inesperada do outro.

— Ué, não é você que vive tagarelando, e agora que eu quero falar algo, tá me recriminando é? — continuou na onda, de certa maneira aliviado pelo clima ter se tornado mais leve.

— Fala, tio. — gracejou e Kyungsoo riu.

— Falo garoto, mas primeiro eu vou me vestir.

— Olha Kyungsoo, eu vou ser bem franco aqui, eu quero tirar esse seu maldito roupão, não que você vista toda sua roupa! Você tá me enrolando, o que tá acontecendo? Você se arrependeu, é isso? 

Kyungsoo viu a tristeza no semblante do rapaz e não pôde deixar que ele permanecesse com a ideia errada das coisas. 

— É justamente para que eu não me arrependa que quero conversar contigo antes de qualquer coisa, você confia em mim? 

Chanyeol bufou infantil, cruzou os braços e afirmou positivamente. Kyungsoo como recompensa beijou a ponta de seu nariz e se levantou, queria estar devidamente vestido para a tal conversa.

Enquanto se arrumava, Kyungsoo estava pensativo sobre como diria o que precisava dizer, precisava falar sobre a real natureza de sua vida, como a levava e ser franco, pois Chanyeol não poderia simplesmente achar que ele era uma pessoa comum. Ansioso, se vestiu rapidamente, queria resolver logo essa pendência para, ou levar em frente o seu desejo, ou como já ocorreu anteriormente, seguir sua estrada só. 

A ansiedade do outro também era palpável, Chanyeol estava sentado no divã, dessa vez não se privou de observar o corpo do homem enquanto se trocava, estava intrigado e de certa maneira temeroso. Era fato que não sabia nada sobre a vida de Kyungsoo, simplesmente mergulhou de cabeça nos sentimentos recentes e aflorados que o homem havia despertado em si, e não parou, em nenhum momento, para pensar. Seria Kyungsoo casado? Onde ele mora? Se mantém somente posando? 

Kyungsoo tem família, uma mãe, um pai, irmãos? Ele é um homem de quarenta e um anos, certeza que tem algum filho por aí… Chanyeol devaneava em pensamentos quando arregalou os olhos, ele pode até mesmo, tem um filho de sua idade! Seria ele seu enteado? Certeza que Kyungsoo era casado. 

O mais velho, percebendo que Chanyeol estava fazendo conjecturas fantasiosas, apressou-se em sentar ao seu lado, caloroso, segurou a mão grande que, nesse momento, estava gelada.

— Fala a verdade, você é casado né? — Chanyeol perguntou de olhos arregalados.

Kyungsoo riu do rapaz a sua frente, pelo pouco que conhecia da mente hiperativa, sabia que ele estava viajando em possibilidades surreais 

— Não Chanyeol, eu não sou casado. Nunca me casei.

— Será? Já sei, meu Deus, você é hétero… Ou tem um filho? É um impostor? Um serial killer? — deu um pulo pra trás, arrancando uma gargalhada de Kyungsoo.

— Chanyeol, foco, volta pra terra. Me deixa falar, é sério, é importante. 

Chanyeol respirou fundo, tentando buscar tranquilidade e deixar que Kyungsoo falasse. Acenou positivamente, permitindo que o outro continuasse.

— Chanyeol, eu gosto muito de estar com você, de verdade. Nesses últimos dias tenho sentido coisas que eu não me permitia a muito tempo e, de verdade, eu tô feliz pra caralho. — acariciou o rosto do rapaz, vendo-o fechar os olhos — Eu tô apavorado porque, as coisas não são tão fáceis pra mim, eu preciso que você entenda. 

— Qual o problema Soo… — Chanyeol disse baixo, de olhos fechados.

— Eu… — tomou fôlego — Eu nunca disse com o que trabalho, né? — perguntou rodeando o assunto.

— Nunca falamos sobre isso, você não falou e eu, bem, nunca pensei sobre isso, o que tem demais Soo? 

— Meu corpo é meu ganha-pão Chanyeol.

— Eu imagino que sim, você é modelo, não é? — Chanyeol perguntou confuso.

— Já fui, a anos atrás, mas não é nesse sentido Chanyeol…

— Ué, qual mais poderia ser Kyungsoo, eu não tô entendendo! — Chanyeol respondeu exasperado, interrompendo o mais velho.

— Chanyeol me deixa falar…

— Eu tô deixando, mas você tá me enrolando Kyungsoo! 

— Eu vendo meu corpo Chanyeol, vendo sexo, transo com pessoas por dinheiro, sou acompanhante de luxo, escolha um deles! — despejou exasperado, bagunçando os cabelos negros com as mãos, sentindo-se angustiado.

Chanyeol riu, desacreditado, ele riu de perder o fôlego de tão absurdo que aquilo parecia aos seus ouvidos. Kyungsoo, por outro lado, estava estático, sério, sem reação pela crise de riso do rapaz.

— Se você não quer ficar comigo, Kyungsoo, fala logo — disse rindo —, você é casado, fala a verdade, meu, não acredito que você meteu essa…

— Por que te parece tão impossível isso? Por que é difícil acreditar que eu sou um garoto de programa? — fez aspas — Isso é porque eu sou velho? 

— Kyungsoo pelo amor de Deus você não é velho, pra começo de conversa, você é um cara inteligente, experiente, se veste tão bem. Você, sério, como você quer que eu acredite que é tipo aqueles caras que ficam vagando na Augusta? — Chanyeol perguntou sério, a insistência de Kyungsoo desmoronando pouco a pouco suas certezas.

— Bem se vê, você é um rapaz bem-nascido, protegido desde a infância… Você não tem noção nenhuma de mundo, Chanyeol. — viu o rapaz arregalar os olhos — E por te dizer isso, minha intenção não é te ofender, isso é bom, garoto, assim você está protegido da podridão que existe lá fora. 

Kyungsoo levantou do divã, acenou, sorriu triste para Chanyeol e partiu, sem ao menos uma palavra, deixando para trás um rapaz boquiaberto e com olhos cheios de lágrimas.