Chapter Text
Bangkok. Carro do Pat. 21:40h.
Pat está a caminho de casa, e depois de mais um dia exaustivo de trabalho, se frustra só em pensar que ainda tem que usar o tempo livre para organizar planilhas da empresa. Um nome ecoa em sua cabeça incessantemente:
"List in".
Mas é por uma boa razão, pensa e alivia o cenho que estava franzido. Trata-se de um projeto que está sendo implementado no empreendimento da família. E isso implica em algumas mudanças no trabalho; também, em um treinamento de habilitação para que todos os funcionários sejam capazes de cumprir as tarefas básicas sem precisar de tanta supervisão e que, principalmente, Pat consiga comandar de qualquer lugar, sem ter a necessidade de passar o dia no escritório.
Essa adaptação será possível através de reuniões de treinamento para capacitação dos funcionários e de um aplicativo — List in —, que será utilizado por todos, e através do qual, Pat se atualizará dos progressos internos diariamente. Claro, com essa alteração no modo de trabalho padrão, a equipe está tendo que reajustar a hora útil de serviço até que se adaptem ao novo método e isso está fazendo com que Pat trabalhe até três turnos por dia — por ser, ele próprio, o diretor, administrador, supervisor e idealizador disso tudo.
Organiza. Conta. Adapta. Reorganiza. Atualiza. Recolhe. Confere. Registra.
Essas palavras estão quase moldando um novo formato na boca do engenheiro. Mas, quando passar o período de adaptação, virá enfim, a maior vantagem: eles não precisarão perder quase uma semana no fim de cada mês para fazer as conferências de materiais — logo, sem "retrabalhos" — e ele terá mais tempo livre, onde poderá pensar em voltar a ter algum hobbie e, — o que Pat quer fazer a mais de um ano — visitar o Pran.
Ming ficou receoso sobre essas mudanças, mas resolveu dar uma carta branca ao filho. "E sou muito grato por você ter aceitado assumir a empresa, mas não sei não, filho... somos de grande tradição no mercado. Mas já que você é mais jovem que eu, deve saber o que está fazendo com essa tecnologia toda", disse ele ao Pat.
A relação dele com o pai não é mais a mesma desde o momento em que o namoro com Pran foi descoberto. Sim, há mais de 4 anos, eles precisaram fingir o término como uma maneira de aliviar a convivência em família, mas aquele momento em que Ming empurrou o Pran na saída do supermercado, não aliviou em sua cabeça. Claro que depois de tanto tempo, Pat conseguiu separar as coisas. Entendeu que aquele Ming que boicotou o futuro da Dissaya, não era mais o mesmo que ele via em sua casa. Muito menos aquele que o criou.
Seu pai não é um homem ruim, ele tomou decisões ruins ao agir como o seu avô esperava ao invés de correr atrás do que realmente queria. E Pat sabe que quebrou esse ciclo, mas desde que rompeu as expectativas do chefe da família, a relação amigável entre pai e filho mudou drasticamente e eles se encontram apenas em almoços e jantares, quando Pat vai visitar a família. "Acho que vou te visitar essa semana", Ming ensaia dizer a cada refeição que serve ao filho, mas sempre desiste. E ele nunca foi visitá-lo. Pat faz questão de pagar o próprio aluguel, e isso só deixou ainda mais claro para Ming o quanto tudo mudou — tudo graças aos anos e anos de mentira que sustentou em benefício próprio. Mas a conta sempre chega. E chegou.
Então, Pat está trabalhando mais do que nunca para conseguir atender a demanda de tudo que propôs no empreendimento. Só que dessa vez, é diferente. Não é como na época do Rugby ou dos estudos. Nem é pela reputação ou pelo "nome da família". Não, ele não quer impressionar o pai. Ele está fazendo isso, porque gosta. Ele quer conquistar coisas novas atuando em sua área. Mas assim como o Pran — e apesar de qualquer teimosia e rancor que habite seu peito—, quer fazê-lo, porque seu pai não pôde.
Foi um "leap of faith" — salto de fé — que deu ao encarar esse desafio que, por sorte do destino, acabou sendo uma surpresa boa. Ele não imaginava que se identificaria dessa forma com a profissão, um tanto que o fez localizar em pouco tempo um grande problema de produtividade e modificar imediatamente a dinâmica da empresa — a ponto de levar trabalho para casa. Todos os dias.
Ele estaciona. Continua sentado dentro do carro, pensando por alguns minutos. Ele está exausto, mas carrega dentro de si um brilho inconfundível de quem tem controle sobre a própria vida. Esse sentimento ultrapassa o cansaço e lhe atinge em forma de empolgação, por dentro, pois por fora está acabado — segundo comentário que Ink fez mais cedo quando ele a encontrou no almoço em casa.
Enfim, sai do carro carregando pilhas de pastas e papéis e entra no prédio.
