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02 | QUASE

Chapter 5: Breve

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Em Bangkok, Pat recosta na cama após voltar do banheiro e abraça Nong Nao. Mas quando fecha os olhos, em seus braços, é o Pran que está ali.

Em Singapura, Pran ainda está no banheiro. Resolve tomar um banho. Ele se lembra das duas semanas que passou em Bangkok. Já faz quase um mês — ou já fez um mês, não se sabe ao certo, não quer saber — que voltou ao trabalho e apesar dos dias corridos ocuparem sua mente sem deixar muito lugar para a saudade, sempre aparece aquele intervalo, ou breves momentos ociosos, em que fica impossível não sentir o tempo rastejar lento pela distância do Pat.

Ele se lembra de momentos de amor, que ele e Pat viveram. Ele lembra de todo trajeto e se pergunta se algum dia será mais fácil. Ele pensa no coração que desenhou com um pedacinho de algodão no rosto do Pat e em quando o assistia no corredor pelo olho-mágico da porta. Ele se lembra de quando eles nem se falavam ainda, se é que existiu um tempo em que eles não se falavam. Eles sempre se comunicaram pelo olhar.

Até nos anos em que Pran passou fora, quando mais novo, e eventualmente visitava os pais em Bangkok, as janelas vizinhas foram vítimas fatais de olhares curiosos. Pran sempre soube evitar. Pat nunca quis. E talvez, desde aquele tempo Pat soubesse. Ou os dois soubessem. Porque quando Pran o reencontrou, não teve como fugir. Pat nunca quis ou deixou que ele saísse de sua vista, mesmo do outro lado da porta, ou da faculdade, ou da morada. E agora Pran se vê na mesma situação em que está longe e não pode vê-lo, e quando enfim se encontram, precisam se contentar com as mesmas janelas, que agora fazem deles, as vítimas curiosas torturadas pelos vãos.

Pran sai do banheiro, pega rapidamente um pedaço de papel e escreve para Pat. Algo que ele vai mandar escrito a mão, no fundo de "Cartão-Postal-Inventado" de um lugar que quer levá-lo. Guarda num envelope para enviar no dia seguinte. Ele se deita e detesta o que está por vir.

Dizem que o orgasmo tem a capacidade de fazer com que fortes emoções enraizadas — muitas vezes escondidas —, venham à superfície. Sejam elas felizes ou tristes. Elas estão aqui, ele sente — e não são felizes. Ou, na verdade são, e por isso dói tanto. Pran começa a chorar. Ele passa uns segundos olhando para cima, para o forro branco do apartamento em que vive e tenta ver algo além. Mas o que ele vê, é o brilho turvo das lágrimas que não pararam até então. Olha para o celular — 04:25am —, e cogita. Será que devo?

*

Em Bangkok, o telefone de Pat toca. É o Pran de novo.

— Pran? — Atende confuso e não ouve resposta. Ouve, no lugar, soluços molhados. Ele está chorando.

Ouvir a voz do Pat lhe traz um alívio absurdo, que faz doer ainda mais a ausência constante que habita seu apartamento. Mas uma dor boa, porque é ele, e vai passar. E mesmo com ruídos da ligação — e lágrimas rotineiras —, alivia. Pat continua:

— Ei, não, não faz isso comigo, pequeno. Estamos felizes. Está tudo bem. — Pran chora. E se deixa chorar. E com os olhos fechados, quase pode sentir o ombro do Pat no lugar do travesseiro — Vou ficar na chamada até você dormir, ok?

— Temos que trabalhar cedo amanhã, Pat. Na verdade, hoje. — Consegue falar.

— Então vamos dormir juntos. Eu não vou desligar, Pran. — Insiste, tentando consolá-lo.

Pat está devastado, porém grato por saber como Pran realmente se sente. Ele está mais aberto, e permitindo que Pat o acesse, mas todo esse tempo, já é tempo demais, e agora, mais do que nunca, Pat sente que Pran está mandando um pedido de socorro. Eu preciso vê-lo, Pat, mas não posso, não agora, você não vem? Pat quase ouve Pran dizer, subentendido, em meio às lágrimas.

— Pat, você é meu melhor amigo. Você sabia? — Pran diz, um pouco mais calmo.

— Hum, finalmente tomei o posto do Wai? — Pat provoca e sorri.

— HÁ, é diferente. Você sabe que é diferente. A gente sabe que é diferente.

— É. A gente sabe que é diferente. — Pat sorri de olhos fechados e sonolento, e diz — Você também é meu melhor amigo, Pran.

Após alguns minutos de silêncio, Pat começa a cantar a música que eles compuseram juntos, naquela época em que não sabiam se eram ou não amigos. Época em que tudo era subentendido, mas para quem via de fora, não havia dúvida alguma.

"Just Friends"

— "Mai mii arai mang..."

E continua. Pran ri, pois Pat erra a letra. Ele errou de propósito, mas o outro não sabe. Pran respira e segue com a música.

— "Kae peuan reu mak kwah nan..." — Pat deixa que ele cante sozinho o refrão, enquanto, de olhos fechados, o imagina ali. E ele está.

Os dois continuam juntos, e mesmo com o delay da chamada ou os ruídos por interferência, em seus corações, a música ecoa do mesmo jeito de antes, no mesmo tempo, na mesma energia, e assim segue, até Pran adormecer. Pat iria esperar que ele dormisse para desligar, foi o que combinaram. Então, ele ouve o primeiro suspiro de sono do Pran.

— Dormiu? — Sussurrou. Só silêncio se fez — Fan dee na, pequeno. — Disse baixinho e resolveu não desligar.

E com a ligação ainda conectada, ouvindo Pran respirar em seu ouvido, ele fecha os olhos, e tem certeza de que pode senti-lo ali, do seu lado, segurando sua mão, o aninhando em seu peito por todo resto de noite. Eles nunca foram, e nem nunca serão apenas amigos, mas em primeiro lugar, eles são. E sempre foram. E até nas intrigas e implicâncias, nas pirraças e músicas, e nas esperas e entrelinhas, eles se fizeram indispensáveis em suas vidas. Eles fizeram, mais ninguém. E Pat sente que precisa tentar mais ainda agora. Ele precisa tentar mais, para conseguir, quando o Pran não consegue. E ele vai.

Em breve.

Apertou Nong Nao mais forte que anteriormente e com uma lágrima repousando em seu olho, dá um sorriso suave, e adormece.

 


Continua. Em breve.

MariJoopter

Notes:

Obrigada por chegar até aqui! O que tá faltando pra Pat entrar em um avião e ir pra Singapura???