Chapter Text
Começou com um tremor sutil nas mãos. Han Jisung estava descascando batatas para cozinhar quando reparou em fios coloridos, finos como cabelo, serpenteando por seus dedos, persuadindo-o a abandonar a tarefa doméstica. Depois, um arrepio na nuca desceu por suas costas. Olhou lá fora por um instante e não viu nada além da escuridão da noite.
— Estranho — comentou para si mesmo, parado no meio da cozinha enquanto a água borbulhava na panela.
Por precaução, deslizou a ponta dos dedos sobre as pétalas dos oxalis plantados em um vaso de barro no parapeito da janela. Não sentiu nada de anormal ao tocá-las, mas riu baixinho ao escutar alguns protestos. Hyunjin explicara, certa vez, que cada toque de Jisung era como se uma mão invisível passasse pelo rosto, provocando cócegas. O protesto, contudo, vinha sempre na voz de Minho, que, embora adorasse a preocupação do amigo, fingia indiferença apenas para manter a pose.
Com seus amigos fora de perigo, Jisung voltou-se para a panela no fogo e salpicou temperos secos. Também sussurrou uma canção para tornar a refeição mais saborosa, mas, depois de provar, percebeu que sua apreensão influenciara a magia: as batatas ficaram com um gosto levemente amargo.
Ficou inquieto durante todo o jantar, como se alguém o alfinetasse discretamente aqui e ali. Por mais que já tivesse verificado tudo, não sabia discernir a origem do incômodo. As únicas coisas que poderiam fazê-lo se sentir assim estavam em segurança, então o que podia estar fora do lugar?
Espiou mais uma vez através da janela e tentou alcançar os arredores com sua mente. O vento, livre de sua influência, soprou forte entre as árvores da floresta, chacoalhando as folhas e arrastando a vegetação rasteira pela terra. Ele uivou ao trespassar o chalé, e o mago estreitou o olhar para tentar enxergar ao longe, sem sucesso.
A ponte de pedra permanecia incólume enquanto deixava o regato descer preguiçoso entre a vegetação. Com um estalo de dedos, as lamparinas se acenderam, espalhando pontos de luz por todo o lugar. Nada suspeito apareceu diante delas, e Jisung começou a ficar impaciente.
— Me diga o que é! — esbravejou na direção da lareira.
O fogo saltitou de um lado para o outro, como se desse de ombros, demonstrando que sabia tanto quanto ele.
— Nem você sabe? — espantou-se.
Se nem o fogo sabia, a preocupação era real. Aprumou-se de imediato e buscou uma capa no armário. Pelo canto do olho, viu um relâmpago cortar o céu. Mundungus, seu gato korat, estava empoleirado no aparador e lambia as patas distraidamente, alheio à agitação do dono.
— Proteja a casa enquanto eu não estiver — ordenou ao bichano.
Jisung partiu noite adentro através da floresta, permitindo que sua intuição o guiasse até onde a premonição desconhecida o chamava. O vento o empurrava em direções aleatórias, confuso e incessante, como se fosse incapaz de controlar o próprio nervosismo. Isso o deixou alerta; era a primeira vez que tantas energias da natureza se combinavam para chamá-lo.
Ao repousar a mão sobre o tronco de uma árvore, escutou vários murmúrios. Uma população de criaturas buscava consolo, e Jisung não podia conceber o que causaria tamanha comoção. Não era a primeira vez que via a floresta inquieta diante de um problema, no entanto, era a primeira vez que a via tão apavorada. Parecia que, de uma hora para a outra, alguma besta surgira da terra ameaçando a todos com sua fúria. Mas isso não era possível; mesmo que algum monstro tivesse escapado de outro mundo, Minho teria feito algo a respeito. E informado a todos, sem exceção.
Ao se aproximar do que parecia ser o seu destino, percebeu a movimentação de cavalos e estacou. Escutou homens gritando; pelo pouco que entendeu, estavam à procura de alguém. Sombras e mais sombras assomaram, e ele precisou esperar. Não lidaria com um batalhão daqueles nem em seu melhor dia.
Prevendo que aqueles homens não sumiriam com a rapidez necessária, Jisung conjurou pequenas ilusões que, obedientemente, saíram de seus esconderijos entre as raízes para distrair quem quer que estivesse por ali. Elas atraíram a atenção do grupo, e os cavalos se distanciaram, permitindo que o mago prosseguisse. O vento o empurrou, e ele seguiu a trilha até uma ribanceira, descendo pela encosta com o apoio das árvores até reconhecer o local.
Encontrou o motivo da aflição da natureza a poucos metros: uma pessoa deitada no chão, gemendo de dor. Jisung se perdeu momentaneamente na balbúrdia da floresta, desesperada por ajuda, e precisou respirar fundo para pedir que todos aqueles esforços da natureza se contivessem.
Não muito longe do corpo que se contorcia, um cavalo batia os cascos no chão, açoitado pelos galhos dos arbustos desconfiados. Jisung foi até ele primeiro; estendeu a mão e tocou o pescoço do animal, dizendo algumas palavras de calma.
— Tudo bem, tudo bem — repetiu ao acariciá-lo, e o cavalo baforou em compreensão, agradecido pelo auxílio.
Assim que se certificou de que não havia mais nenhuma ameaça ao redor, o mago caminhou até o corpo em agonia. O que viu diferia de tudo o que esperava encontrar ali: um simples humano. Por que a natureza ficaria tão comovida por causa de um humano? E por que o chamaria até ali para vê-lo?
O rapaz se contorcia sem parar, e seus gemidos tornavam-se cada vez mais desesperados. Se não fosse pelo vento forte abafando o som, os lamentos teriam ecoado pelo ar e denunciado seu paradeiro. Ele parecia prestes a morrer, mas Jisung não conseguia ver a fonte do problema.
— Luz — invocou, e uma esfera branca e brilhante flutuou sobre eles.
Jisung estremeceu ao perceber a quantidade de sangue que vertia da lateral do corpo, empapando o tecido das roupas que grudara na pele. As vestes escuras disfarçavam a extensão do ferimento, mas era visivelmente profundo. Mantendo a postura calma, o mago vasculhou sua memória em busca de encantamentos de cura.
"É veneno", as folhas sussurraram ao farfalhar ao seu redor. Jisung encarou a árvore à sua frente.
— Como assim, veneno? — espantou-se, voltando-se para o humano, que tinha os olhos injetados e as veias do pescoço saltadas. — Veneno de que animal? Ou de que planta?
"Veneno de humano", as folhas responderam, rodopiando no ar.
Jisung aproximou a mão da área lesionada sem tocá-la e fechou os olhos, rastreando a energia. Ele sabia extrair a peçonha de qualquer animal e anular reações de plantas tóxicas, mas desconhecia qualquer antídoto para o que enfrentava agora.
Com sua sensibilidade, reparou que o sangue daquele humano estava completamente infectado por uma mistura desconhecida. Notou também que os órgãos funcionavam a todo vigor, lutando para expulsar o mal. Um calafrio percorreu sua espinha ao ter a certeza do propósito daquela substância: exaurir as energias da vítima para matá-la pelo cansaço.
Era uma magia forte e maligna. A floresta implorara por sua intervenção, então ele não podia recuar. Talvez conseguisse salvar aquela vida se consultasse seus amigos sobre venenos humanos, mas suspeitava não ter muito tempo. Precisava se apressar.
— Você consegue me ouvir? — perguntou ao rapaz, que suava incontrolavelmente, a pele quente como brasa.
Com os dentes rangendo, o desconhecido apenas rugiu em resposta.
— Não posso fazer muito por ele aqui — explicou para a floresta, que vibrava impaciente com sua hesitação. — Vou levá-lo para minha casa.
Estalou os dedos, chamando a atenção do cavalo. Com esforço, Jisung ergueu o humano e o colocou sobre a sela, enquanto lançava um feitiço para estancar o sangramento temporariamente.
— Leve-o. Eu vou me certificar de que aqueles que o procuram não o encontrem — instruiu o animal, que trotou obediente na direção indicada.
Jisung levantou os braços e recitou encantamentos de limpeza e outros que alteravam o odor do ar. Fez uma ilusão de labirinto flutuar entre os galhos para confundir a mente de qualquer rastreador e ordenou às criaturas invocadas que ficassem de sentinela.
Finalizado o trabalho, viajou velozmente de volta pela floresta. Ao chegar em casa, o cavalo o aguardava; Jisung retirou o ferido da montaria, tendo-o novamente pendurado em seus ombros para entrar no chalé.
O chalé inteiro ganhou vida para acomodar o visitante: uma mesa se livrou do que havia sobre ela e diminuiu de altura, enquanto um grande lençol, surgindo do armário, cobriu-a com precisão. Jisung depositou o corpo sobre a cama improvisada, e as pernas de madeira voltaram a se erguer sob seu comando. Bacias com água em diferentes temperaturas colocaram-se a postos, e um grande livro de feitiços flutuou aberto no centro da sala, aguardando ordens.
— Vá chamar Hyunjin ou Minho, quem você encontrar primeiro — disse a Mundungus.
O gato, que subira na janela, saltou do parapeito e saiu; a porta abriu-se sozinha para ele e fechou-se logo em seguida.
Jisung observou o rapaz se remexer na mesa e tentou ao máximo refrear o próprio medo. Precisava fazer alguma coisa, mas não sabia como, nem o quê.
— Alguma ideia? — perguntou ao fogo na lareira, que dobrara de tamanho. — Não tenho conhecimento sobre curas desse gênero. Eu trato animais e plantas, nunca curei um humano — reclamou, questionando-se mais uma vez sobre o motivo de a floresta ter insistido tanto para que ele resgatasse aquele jovem. Não era nenhum perito em salvar vidas humanas; se a natureza fosse mais esperta, teria recorrido a Minho, que era mais velho e certamente possuía mais conhecimento.
O fogo subiu e desceu, e Jisung livrou-se da capa. Arregaçou as mangas e removeu a camisa do rapaz, empapada de sangue, a fim de averiguar a situação. Ao ver a grande cicatriz no local onde o jovem fora ferido, sentiu-se indignado; mesmo não sendo especialista em humanos, tinha certeza de que seu feitiço inicial deveria ter restaurado a pele.
Não demorou muito para que a cena seguinte o deixasse em choque: o corte se abriu delicadamente, desfazendo-se como os pontos de uma costura frouxa.
— Isso não é possível — murmurou, estremecendo.
Não era comum seus feitiços se desfazerem, mesmo os mais simples e apressados. Que tipo de veneno humano seria capaz disso? Mesmo uma solução química potente não reabriria uma ferida cicatrizada dessa forma. Ocorreu então a Jisung que talvez a floresta o tivesse chamado justamente por aquilo não se tratar de um envenenamento comum.
— Magia? Ele foi envenenado com uma poção ou um encantamento?
O fogo crepitou em concordância. Jisung viu o sangue voltar a jorrar, vermelho e preto, através de uma linha que ia do umbigo à cintura. Uma toalha voou em sua direção e um balde esgueirou-se para baixo da mesa.
— Preciso estancar esse sangue — disse, notando os lábios do rapaz perderem a cor.
Céus, como queria que Hyunjin estivesse ali.
Sem experiência alguma, Jisung aproximou-se e depositou as mãos sobre o peito nu, sentindo um arrepio percorrer toda a extensão de suas costas ao tocar aquela pele quente e úmida. Fechou os olhos, tentando imaginar que podia replicar naquele humano o mesmo processo usado para salvar um animal doente.
Ao ouvir o fluxo incessante do sangue, ordenou que a toxina se deslocasse e se aglomerasse na carne sob suas palmas.
Com muito esforço e paciência, tentou guiar o veneno pelo corpo até o corte para expulsá-lo fisicamente. Porém, ao se aproximar demais da ferida, o mal se enrijeceu e escapou do controle do mago, fluindo para a corrente sanguínea mais uma vez.
Jisung soltou o ar bruscamente e tentou a mesma manobra, sem êxito. Aparentemente, a substância seguia alguma instrução de não sair sem a devida permissão. Com outro plano em mente, fechou os olhos e novamente reuniu o veneno em um só lugar, mas, desta vez, não tentou conduzi-lo para fora. Em vez disso, ao fechar a mão em punho, ordenou que a toxina congelasse. Murmurou um encantamento e, com a outra mão aberta, imitou o gesto de amarrar, prendendo aquele intruso dentro de uma caixa imaginária.
Isso não anularia a ação do veneno, mas retardaria seu efeito tempo suficiente até que seus amigos chegassem. Infelizmente, a manobra não impedia que o humano sentisse dor, o que era difícil de assistir. O rapaz ainda arfava incansavelmente, a boca seca, tentando implorar por uma ajuda que não vinha. Jisung tentou conjurar feitiços de anestesia, mas nenhum deles funcionou para amenizar aquela aflição.
— Não consigo extrair o veneno, mas posso paralisá-lo por um tempo — Jisung tentou explicar, embora o humano estivesse longe de compreendê-lo. — No entanto, não consigo impedir a dor. Quem quer que tenha feito isso queria muito que você sofresse antes de morrer.
Com essas palavras, Jisung realizou mais um encantamento, criando uma barreira de proteção para impedir que os órgãos vitais fossem severamente danificados.
Quando um animal jovem era picado por uma cobra peçonhenta, Jisung estimulava o próprio fluxo sanguíneo a purificar a substância perigosa, mas isso parecia impossível naquela situação. O veneno — ou o que quer que fosse aquilo que corria no sangue do humano — tinha se alastrado como uma praga, percorrendo caminhos turvos. O mago pensou em tentar removê-lo manualmente com mais afinco, já que começava a perceber um padrão na magia infligida, mas teve medo de que, ao insistir, prejudicasse ainda mais a integridade do corpo já frágil.
O mago por trás daquele mal, com certeza, possuía vasto conhecimento sobre como impedir a cura.
Depois do que pareceu uma eternidade, Mundungus voltou com o amigo de Jisung em seu encalço. Hyunjin, curioso e igualmente aflito pelo chamado, olhou para o corpo estendido e choroso no meio da sala.
— O que é essa coisa? — perguntou, com um tom de repulsa.
— Um humano. A floresta me disse para salvá-lo — Jisung respondeu, ignorando a aversão que o amigo demonstrava.
Hyunjin encurtou a distância e torceu o nariz quando ouviu o enfermo gritar de dor.
— E o que há de errado com ele?
— Acho que o envenenaram. Mas não sei o que fazer. Esperava que você ou Minho tivessem uma solução.
Hyunjin, nada feliz por encontrar alguém claramente fora do mundo mágico, cruzou os braços. Não estava com raiva de Jisung, mas irritava-se com o fato de ter que fornecer auxílio a uma criatura que não tinha nenhuma afinidade com eles.
— Afinal, o que ele tem de especial para que a floresta tenha se prontificado?
— Eu não sei. Podemos procurar por essa resposta assim que ele recobrar a consciência? — suplicou Jisung.
Hyunjin soltou o ar pesadamente, cedendo em seu orgulho. Aproximou-se mais do rapaz e colocou a mão sobre a testa dele.
— Tem mão de mago aqui — declarou de imediato, confirmando as suspeitas de Jisung. — É como se ele estivesse possuído... Talvez... — ponderou, observando o corpo, e parou assim que viu o corte. — O que houve ali? — indicou o flanco.
— Ele estava ferido quando o encontrei. Tentei fechar o corte, mas nenhum feitiço meu segurou os tecidos no lugar.
— Talvez seja isso — concluiu Hyunjin. — Ele foi golpeado com uma arma enfeitiçada.
— Então o que temos de fazer?
— Vamos tentar tirar o feitiço com encantamentos de expulsão. Não sei qual deles vai funcionar; não reconheço essa magia de lugar nenhum. De onde será que ele veio? Como chegou aqui?
Jisung, então, relatou ao amigo todos os detalhes do que acontecera até aquele momento.
— Vá chamar Minho — Hyunjin solicitou a Mundungus, que mal acabara de se enrolar confortavelmente no estofado. — Ele deve entender alguma coisa de armas enfeitiçadas.
Jisung concentrou sua energia, vasculhando o livro de feitiços em busca de algo que pudesse ajudá-los. Enquanto isso, Hyunjin segurava a cabeça do estranho, murmurando palavras-chave para revelar a natureza da magia oculta. Um lápis conjurado rabiscava freneticamente as respostas numa folha em branco, acompanhando o ritmo do mago buscador.
— A ideia de paralisar o veneno foi bastante esperta — Hyunjin comentou, distraído. Mantinha o olhar fixo na parede à frente, como se o interior do corpo humano fosse projetado nela como em uma grande tela. — Foi a melhor medida. O veneno não está se espalhando e as sombras estão encurraladas.
— Já fiz isso com um animal doente. Paralisei um tumor até recuperar a carne em volta e conseguir remover o que estava podre sem comprometer o resto. Repeti o processo várias vezes com árvores e solos, mas funcionar em humanos é novidade para mim — disse Jisung, franzindo as sobrancelhas enquanto seus lábios acompanhavam a leitura dos parágrafos sobre a execução dos encantamentos.
— Fechado. Linhas. Aberto. Forte — Hyunjin citou as chaves, e o lápis transcreveu. — Denso e poroso. Falha. Água? Não. Jisung, encontre magia com fogo.
— Encontrei um. Tem certeza de que dará certo?
— Água faria o sangue perder a estrutura fundamental. Precisaríamos reanimar o humano várias vezes devido à fraqueza, e não tenho certeza se o coração dele aguentaria. Não estamos em condições de arriscar. Mesmo que o fogo seja uma alternativa perigosa, é nossa melhor opção. Podemos reparar o estrago, se houver algum, depois de extrair o veneno.
— Vamos tentar com o fogo, então — Jisung concordou, encaminhando-se para a lareira.
— Um relâmpago cortando o céu não me parece um sinal tão comum... — Hyunjin comentou, lembrando-se do relato do amigo. — Você acha que ele pode ser alguém importante? Do tipo importante mesmo?
— Só saberemos depois que tudo isso acabar.
Jisung convocou o fogo para suas mãos. O elemento saltou da lenha para seus dedos, circulando no ar enquanto era levado em direção ao ferido. O mago depositou a chama sobre o corte e viu uma fumaça escura começar a se desprender.
— Eu vou protegê-lo — Hyunjin assegurou, notando a hesitação de Jisung.
O mago então leu o livro de feitiços, que flutuara até seu lado, e guiou o fogo através do corpo, tentando manter a firmeza mesmo ao ver o rapaz se debater, os urros de dor raspando seus ouvidos.
A fumaça negra era expulsa gradativamente, viajando pelo ar até ser sugada para dentro de uma garrafa de vidro destinada a selar energias.
O desconhecido se contorcia ao ser queimado por dentro, e Jisung sentiu o estômago revirar. Ele detestava essa parte; se não fosse por Hyunjin o mantendo focado e servindo de apoio, talvez não tivesse a coragem necessária para prosseguir.
Quando não restou mais nenhum resquício de sombra, o sangue limpou-se e o corte cicatrizou, deixando a pele lisa como se a ferida jamais tivesse existido. O humano parou de gemer e soltou um suspiro profundo, dando fim à sua lamúria. A garrafa mágica foi tampada e Jisung devolveu o fogo ao seu lugar de origem na lareira.
Hyunjin relaxou os ombros, exausto. No mesmo instante, a porta se abriu. O gato saltou para dentro e Minho surgiu na sala.
— O que houve? — perguntou, estarrecido, procurando no rosto dos amigos a explicação para aquela atmosfera pesada.
— Atrasado — Hyunjin pontuou, enxugando o suor da testa. — Acabamos de salvar um humano.
— Minho, poderia dar uma olhada nele, por favor? — pediu Jisung, aproximando-se do recém-chegado.
Minho, o Mago dos Mundos, arregalou os olhos diante da súplica de Jisung. Não era comum vê-lo daquela maneira, muito menos quando se tratava de algo que não se relacionava com plantas ou animais. Por isso, tornou-se sério e decidido a atender ao pedido, certo de que seu amigo não estava ali para brincadeiras.
Livrou-se do casaco e arregaçou as mangas, revelando uma fileira de desenhos na pele dos antebraços que se estendiam por todo o corpo. Eram tatuagens de diversos símbolos mágicos, cujos significados pertenciam apenas ao seu tipo de magia. Como alguém que guiava espíritos entre os mundos, ele precisava manter em si um aparato de amuletos para não se perder nem ficar preso entre as dimensões.
Com um sussurro, correntes transparentes desceram pelas mãos de Minho e percorreram o corpo inconsciente.
— Acreditamos que uma arma enfeitiçada foi usada para atingi-lo. O que é bastante surpreendente, pois faz muito tempo desde que ouvi sobre alguém praticar magia bélica. Não tínhamos um acordo de que esse tipo de magia não existiria mais? — Hyunjin perguntou.
— Talvez os magos do Reino ainda a pratiquem. Mesmo sendo proibido.
— Você acha que ele pode ser do Reino? — Jisung espantou-se.
— Isso explicaria a intervenção da floresta. Mas também deixa tudo mais confuso... Afinal, por que a floresta ajudaria alguém de lá? — Hyunjin questionou, desconfiado.
— A floresta não deixaria ninguém do Reino morrer — Jisung argumentou.
— Talvez seja mais apropriado perguntar: o que alguém do Reino faria tão longe de casa? — Minho interveio. — Mas isso não vem ao caso agora. Se a floresta nos chamou, é nosso dever como magos intervir.
Hyunjin cruzou os braços ao se levantar, sem parecer nem um pouco satisfeito com a situação.
— O humano está a salvo — Minho sentenciou após sua análise. — Vocês conseguiram expulsar o mal que se infiltrou na carne. Se ele não morresse pelo corte, certamente procuraria se matar para se livrar da loucura — completou sombriamente, recolhendo as correntes etéreas.
— Quem faria algo assim? — Jisung sussurrou.
— Alguém que queria vê-lo morto — Hyunjin respondeu com acidez. — E vai sobrar para os "magos bonzinhos" caso esse humano seja algum traidor do Rei.
— Se fosse traidor, não seria julgado por uma espada. Seria decapitado em praça pública, na frente de todos — Minho ponderou.
— E como podemos saber se ele não estava fugindo da sentença? O mago do Rei deve tê-lo golpeado para impedir que fosse longe. Estavam atrás dele na floresta; Jisung ouviu a cavalaria.
— Mas a floresta...
— A floresta não mede as consequências de suas exigências — Hyunjin cortou. — Mesmo que o coração dele seja humilde e cheio de boas intenções, ele não poderia escapar da lei humana. E vocês sabem muito bem disso.
Minho suspirou e olhou para Jisung. Hyunjin, ao ver a expressão dos amigos, voltou-se para eles com mais firmeza.
— Não podemos mantê-lo aqui. Ele pode ser perigoso!
— E o que você sugere? — Minho perguntou, enquanto Jisung apenas abaixava a cabeça, encarando os próprios pés como se fossem a coisa mais interessante do mundo.
— Não podemos escondê-lo do Rei. Vamos deixá-lo na floresta. Nós já fizemos nossa parte.
— Não podemos simplesmente jogar o corpo dele lá fora. Ele nem sequer está consciente. Pode ser morto enquanto dorme.
— E vocês querem dar o benefício da dúvida para um total desconhecido com grandes chances de ser um foragido?
— Mas e se ele não for? E se armaram contra ele? E se a floresta o ajudou por saber que ele é inocente?
— Hyunjin... — Jisung chamou, a voz baixa.
O Buscador trocou olhares com o Mago da Floresta e, naquele instante, foi atingido pela súplica silenciosa de Jisung. Tentou se esquivar, mas era difícil escapar de alguém que tinha tanta influência da natureza fluindo em sua magia. Jisung era como o ar que se respirava, como o fogo que aquecia e a chuva que molhava. E, naquele momento, ele emanava todo o seu poder para dobrar a resistência do amigo contrariado.
— Vocês dois têm o coração mole demais! — Hyunjin exclamou. — Ainda bem que eu existo nessa equação, ou teríamos nossas cabeças cortadas em menos de uma semana — disse ao se afastar.
Após um curto período de silêncio, encurralado pelos amigos que prezavam pela vida do humano, Hyunjin exasperou-se e deu-se por vencido.
— Vamos esperá-lo acordar. E quando isso acontecer, ele precisa ir embora. Entendidos?
Jisung abriu um sorriso aliviado, e Minho apertou o ombro de Hyunjin num gesto de solidariedade.
— Sabemos que você é totalmente contra abrigar forasteiros por conta de tudo o que já aconteceu conosco... mas fico feliz que, apesar de tudo, você ainda esteja disposto a reconsiderar suas decisões.
— Eu não consigo fazer nada quando ele fica desse jeito — murmurou o Buscador, indicando Jisung, que agora limpava os ferimentos do corpo do humano e separava roupas limpas para vesti-lo.
— Ji, se ainda precisar de ajuda, mande seu mensageiro — disse Minho ao abrir a porta, desfazendo-se no ar logo em seguida.
— O mesmo vale para mim. Vou ficar vigiando por perto caso ele acorde e você não saiba o que fazer. Deixe as luzes lá fora acesas — Hyunjin instruiu, apontando para as lamparinas.
— Obrigado, Jinnie.
Após a despedida dos amigos, o Mago da Floresta dedicou-se a preparar o quarto de hóspedes. Com o máximo de delicadeza que conseguiu reunir, acomodou o humano sobre uma cama grande e confortável, acendendo mais lamparinas com bolhas de luz flutuantes. Lá fora, a natureza aquietara-se, finalmente em paz após o dever cumprido.
Por um momento, Jisung também permaneceu imóvel, apenas observando e escutando a respiração suave de alguém que acabara de escapar da morte. Sem o tormento da dor, o humano dormia como uma criança exausta após um dia agitado. Jisung mal conseguiu resistir ao impulso de afastar a franja úmida de suor da testa dele, expondo um pouco mais daquele rosto desconhecido.
Agora, sem a agonia e o estresse do resgate, conseguia ver bem as feições do rapaz. Era jovem e possuía cabelos de um loiro escuro, cor de areia, com fios que caíam em suaves ondas para a frente. O rosto era harmonioso e seus lábios, recuperando a cor, pareciam desenhados.
Belo, foi a primeira palavra que cruzou a mente de Jisung. O humano era como uma magnólia em botão, prestes a desabrochar numa manhã de primavera. Tinha o porte de um nobre, mas também uma doçura difícil de pôr em palavras. Parecia um príncipe, saído diretamente das histórias que Jisung contava para as criaturas da floresta.
Curioso como era, levou o dedo até o lábio do humano para tocá-lo de leve, mas, quando este mexeu a boca durante o sono, o mago retraiu a mão, rindo baixinho de sua própria ousadia.
— Enfim conseguimos te salvar — sussurrou, aliviado. — Espero que você possa acordar pela manhã. Assim, poderei saber seu nome e quem é você.
O mago levantou-se e foi se lavar. Com alguns comandos, organizou a casa e foi se deitar em seus próprios aposentos. Mundungus, que ficara na sala, seguiu-o e pulou na cama, aninhando-se aos seus pés.
— Quem você acha que ele pode ser? — perguntou ao mensageiro, mas o felino não emitiu som algum além do ronronar.
Sem o vento soprando nas árvores e com a floresta silenciosa, restava apenas o som relaxante do crepitar da lareira. Jisung ouvia a madeira estalar enquanto deixava seus pensamentos vagarem sem rumo. Queria adormecer para descansar depois daquele tumulto inesperado, mas não conseguia, por mais que seu corpo implorasse.
Depois de uma hora, soube que não conseguiria ficar ali, sabendo que havia um desconhecido no quarto ao lado que poderia acordar a qualquer momento. E se o humano despertasse desorientado e se assustasse com o ambiente estranho? E se tentasse fugir no meio da noite? Era melhor prevenir.
Levantou-se e, na ponta dos pés, foi até o quarto onde o hóspede estava. Ele continuava na mesma posição, dormindo profundamente, alheio à apreensão de seu salvador. O mago aproximou-se e, com um gesto sutil, fez surgir uma poltrona confortável ao lado da cama. Acomodou-se ali, mantendo uma distância respeitosa, pronto para vigiar o sono do rapaz.
Sem demora, e exatamente como previra, as pálpebras de Jisung começaram a pesar. O sono veio ao seu encontro como se estivesse apenas esperando aquela decisão para finalmente abraçá-lo. Era uma sensação estranha; não se lembrava de já ter se sentido assim antes.
Claro, já havia perdido noites preocupado com incidentes da natureza, arquitetando soluções para problemas ambientais, mas aqueles eventos seguiam o curso natural da Grande Vida, algo que ele sabia não poder controlar totalmente. Aquela ocasião, no entanto, parecia depender inteiramente dele e de seus esforços.
Além da responsabilidade, havia aquela sensação persistente de já ter visto aquele rapaz em algum lugar, embora não conseguisse recordar onde nem quando. Se ele fosse mesmo do Reino, como seria possível? Eram de universos tão distintos, e Jisung jamais abandonava a floresta. Seria fruto de sua imaginação fértil? Mas como seria capaz de inventar uma familiaridade tão específica?
O som de um arquejo interrompeu o fluxo de seus pensamentos. Jisung despertou do transe e arregalou os olhos, buscando a causa. Observou o humano mexer-se inquieto e fechar os punhos, tenso. Ainda estava de olhos fechados.
Jisung ergueu-se na poltrona, preocupado. Será que o rapaz ainda estava ferido? Mas lembrava-se de ter checado o corpo minuciosamente e curado cada lesão. Será que o veneno ainda resistia? Minho garantira que não. Então, o que poderia ser?
Quando o rapaz virou o rosto para o lado e resmungou baixinho, angustiado, Jisung compreendeu. Eram as lembranças da dor.
O mago recostou-se novamente, mas estendeu o braço e pousou a mão suavemente sobre a face do humano, deixando sua magia de calma fluir pelo toque.
— Durma bem — murmurou, dissipando os pesadelos.
