Chapter Text
Nascida da espuma do mar e filha das ondas, Sakura Haruno era filha do oceano. Mas esse tampouco a interessava, a paisagem se tornava um monótono azuláceo sem fim, tudo parecia sempre igual, não importava o quanto ela se esforçasse para ser otimista: o mar era sempre igual, seja calmo ou agitado, ele sempre soava igual para ela. A verdade é que ele estava machucado e sofrendo, e nem que Sakura usasse toda sua habilidade de cura, ela seria capaz de ajudá-lo.
Talvez por isso ela se interessasse tanto pelo que existia além mar. Sereias eram curiosas por natureza, e Sakura não era exceção a essa regra, ela queria ver o céu, sentir a areia da chamada terra, ela queria beber o veneno direto da fonte, sem se importar com as consequências disso.
“Cuidado, Sakura.” Ino alertava, “Humanos não lidam bem com aquilo que desconhecem.”
Mas ela não dava ouvidos, a cura para o tédio é a curiosidade e, a curiosidade não tem algo que a cure. Sakura nadava dentre os recifes de corais, onde os humanos mergulhavam para assistí-los, ela ia para as pedras perto do antigo farol e observava as crianças a brincar, além das festas noturnas dos jovens. Esse era seu divertimento, observar a vida dos passantes da beira mar: as crianças sem preocupações, os amantes se divertindo os mais velhos apenas observando as ondas enquanto os mais jovens as desafiavam com suas pranchas coloridas e suas roupas de banho vibrantes.
Os dias se enchiam de cores, sensações e sabores: o aroma doce das barracas se misturava com o sal do mar. Era lindo, se ao menos ela pudesse chegar mais perto…se ao menos ela pudesse ir até lá…era um sonho impossível conhecer essa tal terra com esses tais humanos, seres sem cauda que podiam andar tanto na terra quanto no mar (e no ar, pelo que ela tinha visto).
Ela pensava distraída sobre a vida enquanto encarava a pequena cidade costeira por dentre as grandes pedras da costa, seu passatempo favorito.
“Socorro!” Sakura ouviu uma voz gritar, poucos metros atrás dela. “Alguém me ajuda!”
Ela se virou e nadou até a fonte do barulho, era um humano de cabelos pretos, quase da cor do oceano. Ele se debatia com força, fazia movimentos para nadar para cima e tentava erguer a cabeça para não inalar água.
“Socorro! Socorro!” Ele gritava desesperadamente, mas ninguém na costa parecia ouvi-lo, seu ponto de afogamento era muito afastado, mesmo que alguém o ouvisse, ele já estaria morto até lá.
Com a graça de um golfinho e a precisão de uma coridora, Sakura nadou até ele e o puxou pelas axilas, o encarando. Ele arregalou os olhos e puxou fundo o ar que conseguiu, ainda em desespero, o garoto parou de se debater e a encarou de volta.
“O que aconteceu?” Sakura perguntou analisando-o, verificando se tinha algum ferimento e qual era a gravidade da situação.
“Meu pé.” Ele disse de forma dolorida, “Meu pé ficou preso, mas eu não consigo ver o que é.”
Ela sorriu gentilmente, “Não se preocupe, eu vou te ajudar.”
Sakura mergulhou e foi até onde o pé do garoto estava preso, ele tinha se embolado em algumas algas e ficado preso embaixo de uma rocha que provavelmente havia se soltado do rochedo. Com destreza ela a levantou e puxou as algas, assim submergindo e puxando o garoto, que se soltou.
“Você…você tem uma cauda…” O garoto de cabelos cor de mar disse incrédulo enquanto nadava para se manter na superfície.
“E você não tem.” Ela pontuou, o segurando pelas axilas e o auxiliando a chegar à costa.
“Muito obrigado…” Ele disse meio atordoado enquanto se sentava na areia.
“De nada!” Ela respondeu sorrindo, “Mas da próxima vez tente não nadar tão fundo, ainda mais quando você não consegue ver o fundo.”
“Claro…” Ele disse se levantando e a encarando se afastar.
“Até mais, garoto bonito!” Sakura disse mergulhando de novo, sem esperar para ouvir a resposta.
Sakura nadou até a parte de baixo do píer e respirou fundo o aroma doce e salgado como as ondas do mar, como o cabelo do garoto que acabara de salvar, e que seu coração jamais a permitiria esquecer.
