Chapter Text
“You think the devil has horns? Well, so did I
But I was wrong, his hair is combed and he wears a suit and tie
He’s nice, polite, he’ll catch you by surprise
A smile so bright, you’d never bat an eye”
Devil In Disguise - Marino
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Acervo Caitlyn Kiramman
“Caitlyn Kiramman acaba de pousar no Aeroporto Internacional de Piltover após retornar de sua viagem à Ionia, acompanhada por seu agente e colega de trabalho Jayce Talis, e pela atual parceira, Maddie Nolan.”
Sábado, 5 de Junho de 2038
Aeroporto Internacional de Piltover
13:04
O aeroporto estava lotado. Pessoas cruzavam os corredores em todas as direções, ocupadas demais com seus próprios destinos para prestar atenção umas nas outras. Conversas se misturavam aos avisos de embarque que ecoavam pelos corredores. Nada fora do comum. Porém, no meio de todos, uma multidão se alojava, fazendo mais barulho e comoção do que o normal. Câmeras piscavam com seus flashes brancos, capturando diversas fotos uma atrás da outra, procurando o melhor ângulo. Seguida delas, milhares de microfones tentavam arranjar um espaço, se esgueirando pelas frestas minúsculas que encontravam atrás dos seguranças que cercavam três pessoas em específico. Os repórteres faziam perguntas incessantes, acompanhados de outras figuras – fãs – com celulares em suas mãos, gritando, balançando os braços no ar, tentando encontrar o mínimo de atenção possível que poderiam receber.
No centro de toda a agitação, um homem com cabelos castanhos ajeitava o colarinho de sua camisa branca, examinando seus arredores com seu olhar escuro. Sua estatura alta o ajudava, a postura perfeita sempre o mantendo acima do que a maioria enquanto seus sapatos escuros corriam apressados pelos corredores, tentando se livrar da grande multidão o mais rápido possível. Ao seu lado, uma mulher, um pouco mais baixa, tentava manter a mesma postura confiante e inabalada que ele continha, mas era nítido como não estava alcançando tal coisa. Ela tinha um ar inocente, os cabelos ruivos curtos contrastando com a atmosfera fria do aeroporto.
Mas nenhum dos dois parecia estar recebendo tanta atenção quanto a figura que se mantinha à frente deles.
Um par de saltos altos batia com firmeza contra o piso branco. A dona deles mantinha o queixo erguido e os ombros alinhados, atravessando a multidão como se ela sequer existisse. Usava um vestido de lã com mangas longas que adornava seu corpo com precisão, destacando suas curvas enquanto deixava seus ombros à mostra, e um par de óculos de sol pousado no topo de seus fios de cabelo escuros. Seu olhar azul penetrante se destacava em seu rosto, ainda mais frio e confiante do que o homem que a seguia.
E os repórteres com certeza queriam sua atenção, a rodeando como um enxame de abelhas procurando por pólen.
– Senhorita Caitlyn, poderia responder algumas perguntas rápidas?!
– Caitlyn, olhe pra cá!
– Senhora Kiramman, poderia nos contar sobre sua visita à Ionia? Como foi conhecer a senhorita Xan Irelia?
– Caitlyn, eu sou sua maior fã!
– Por favor, afastem-se! – um segurança aumentou o tom de voz, formando uma barreira humana com outros iguais a ele, tentando conter a comoção incessante – A senhorita Kiramman precisa de espaço para descansar depois de sua viagem!
A mulher pareceu inabalada diante de tantas pessoas, como se fosse apenas mais um sábado comum em sua vida. E de fato, era. “Caitlyn Kiramman” não era um nome qualquer. A postura impecável combinava perfeitamente com o sobrenome que carregava. Ela conhecia aquele espetáculo de cor e salteado. Os flashes, os gritos, as perguntas repetidas, os rostos ansiosos por uma única palavra sua. Era o preço da fama. E, por mais pesado que fosse, aprendera há muito tempo a carregá-lo sem demonstrar qualquer incômodo. E por isso, ela continuou andando, sem diminuir o passo.
O processo continuou até que a pequena multidão chegasse ao lado de fora, encontrando uma van prateada estacionada em um dos pontos de saída do aeroporto. Os seguranças fizeram o que podiam para conter os fanáticos enquanto o grupo se preparava para entrar no veículo, um deles abrindo a porta para eles. O homem foi o primeiro a entrar, seguido da mulher ruiva, com pressa. Porém, antes que a estrela principal do momento fizesse o mesmo, ela parou por um instante, se virando na direção dos repórteres e fãs e lhes oferecendo um sorriso cômodo. As câmeras começaram a piscar com mais intensidade, e a reação arrancou novos gritos da multidão. Caitlyn apenas manteve o sorriso.
– Todos vocês, não há necessidade de se preocuparem – ela começou, um sotaque forte se destacando em sua voz firme e confiante – Todas as suas dúvidas sobre minha visita à Ionia irão ser respondidas em breve. Por favor, aguardem com atenção.
E então, com um último aceno de cabeça amigável, se virou, entrando no carro enquanto ouvia os repórteres e fãs continuando a chamar por seu nome, como se não estivessem satisfeitos com tal resposta. Mas aquilo não importava mais, já que as vozes foram todas abafadas assim que a porta se fechou atrás dela.
E assim que aconteceu, ela se sentou com cuidado no banco ao lado da mulher ruiva, relaxando os ombros e soltando um suspiro cansado. O sorriso desapareceu no instante em que a porta se fechou, como uma máscara sendo retirada após horas de uso, revelando o cansaço escondido por trás de olhos que já não tinham energia para sustentar a mesma expressão.
– Argh, que dia cansativo! – a ruiva ao seu lado reclamou, se jogando de forma muito mais desleixada contra a poltrona aveludada, deixando a cabeça repousar no banco – Não sei como você consegue manter essa fachada séria toda hora, Caitlyn!
A mulher apenas deu de ombros, olhando de relance para a janela, observando a pequena multidão ainda do lado de fora.
– Não é tão difícil quanto parece, Maddie – foi sua resposta, baixa e assertiva – Você só precisa de treinamento.
– Hah, fale por você! – a outra mulher, Maddie, se jogou para frente, olhando para a mais alta ao seu lado enquanto mantinha uma expressão de desconforto no rosto – Esses repórteres parecem um bando de tubarões rondando você em cada passo que você dá. Tem que existir alguma técnica secreta que você não me contou ainda pra lidar com eles… – ela resmungou, cruzando os braços – Jayce, me conta qual o segredo dela!
– Uh…
O homem ao lado dela, aparentemente chamado Jayce, não deu nenhuma resposta para sua demanda, e Maddie se virou em sua direção, percebendo que o mesmo havia encostado a cabeça contra os vidros da van, com os olhos fechados e a boca semiaberta. Maddie descruza os braços, incrédula.
– Jayce!
– Uh, oi! – ele dá um salto em seu assento ao escutar seu nome sendo chamado com um grito, piscando assustado algumas vezes.
– Pelo amor de… Você nem chegou no carro direito e já pegou no sono?
O homem coça a nuca ao ser questionado, desviando o olhar. Mas não porque estava envergonhado. Parecia mais como se estivesse incomodado. Até mesmo um tanto quanto… enojado.
– Eu não dormi durante a viagem, Maddie. Você sabe como eu fico durante os vôos – ele dá de ombros, sem se importar muito com o que a mais baixa iria pensar.
– Você é inacreditável! – Maddie exclama mais uma vez, sua voz estridente abalando o carro.
– Chega, os dois.
Ambos se viram para a voz que se fez presente, e encaram a mulher mais alta, Caitlyn, que se encontrava de olhos fechados. Ela retirou os óculos de sol do topo da cabeça e os acomodou sobre o colo, tudo com uma expressão neutra em seu rosto.
– Não acham que os repórteres já nos deram dor de cabeça o suficiente? Prefiro ter um pouco de silêncio no nosso percurso de volta. Vocês sabem que eu tenho uma entrevista sobre a minha viagem logo na manhã de amanhã.
– Diz isso pra sua namoradinha aí – Jayce dá de ombros mais uma vez, falando com certo desdém.
– Ei! – a ruiva retruca, se virando de volta pra ele com certa raiva em sua voz.
– Maddie.
Mas antes que ela pudesse reclamar, mais uma repreensão saiu da mais autoritária do grupo, e ela se encolheu no lugar, sorrindo com vergonha.
– Me desculpa, m' eudail. Mas você precisa me dizer, como você consegue aguentar tanta coisa depois de uma viagem longa dessas? – ela abaixou o tom de voz, mas seu questionamento se fez presente mais uma vez, e Caitlyn apenas fechou os olhos, suspirando de forma leve.
– Não é algo natural, Maddie. Como eu disse antes, treinamento. Mas se quiser uma dica, de qualquer forma… – ela pausou por um momento, abrindo os olhos cansados – Finja que nada está acontecendo até que nada esteja acontecendo. Assim, tudo irá passar em um piscar de olhos.
A ruiva observou a mais alta com os olhos brilhando, como se estivesse completamente hipnotizada pelo que ela dizia. Mas Caitlyn apenas virou a cabeça levemente para o lado contrário, evitando qualquer tipo de contato visual.
– Você é realmente incrível, mo ghràidh… – ela exclamou, a voz saindo aveludada, ainda com os olhos fixos na outra – É realmente a pessoa mais forte que eu conheço. Principalmente depois de…
O silêncio caiu na van tão rápido quanto a frase saiu da boca da ruiva.
Maddie congelou assim que percebeu Jayce erguendo a cabeça imediatamente.
E, pela primeira vez desde que haviam deixado o aeroporto, Caitlyn pareceu vacilar. Foi apenas um instante. Um leve endurecer dos ombros. Um brilho estranho atravessando seus olhos antes de desaparecer.
Mas todos dentro do veículo perceberam.
– Maddie, você- – Jayce começou, mas foi interrompido.
– Tudo bem, Jayce – a voz de Caitlyn se fez presente mais uma vez, fazendo ambos virarem em sua direção – Vamos só deixar isso de lado, certo?
O homem ficou mais alguns segundos observando o rosto da mulher, seus olhos parecendo nitidamente preocupados, mas apenas recebeu um acenar leve de cabeça da mesma, tentando confortá-lo. E, apesar de não parecer funcionar, Jayce apenas suspirou baixo, abaixando o olhar e voltando a observar a janela ao seu lado.
– Como quiser, m' eudail. – Maddie sussurrou, visivelmente arrependida e desconfortável. Ela se aproximou e se agarrou ao braço da outra, apoiando a cabeça em seu ombro, sem ao menos perguntar se poderia fazer tal coisa.
Para sua sorte, Caitlyn pareceu nem mesmo notar sua presença ali.
Ela apenas virou seu rosto para a janela contrária a de Jayce, escutando a van dando partida, e observando enquanto a legião de fãs e repórteres era por fim deixada para trás, suas vozes abafadas se tornando cada vez mais e mais distantes.
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Piltover sempre foi um lugar movimentado. Sendo considerada a “Cidade do Progresso”, não poderia ser de outra forma. O grande centro urbano era um mar de carros, pessoas, prédios e tecnologia. Tudo se movia vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana. Nada descansava, nada parava, nada dormia. Na tarde daquele dia em específico, o céu se mostrava nublado, deixando as ruas com um tom melancólico, e os prédios altamente tecnológicos se destacavam com suas luzes brilhantes.
O trajeto da van pelas ruas foi silencioso, com Jayce cochilando tranquilamente em seu assento, e Maddie também adormecida, com a cabeça ainda repousando no ombro da companheira. Caitlyn se manteve parada, deixando a mais baixa ao seu lado, mas ela não aproveitou o momento para descansar. Ela não conseguia fazer isso. Sua vida era agitada, e ela naturalmente tinha dificuldade em relaxar daquela forma. Porém, outros fatores também a mantinham em alerta constante. Sempre atenta. Sempre acordada.
Então, ao invés de dormir como os outros dois, ela apenas observou a movimentação do lado de fora, vendo a cidade passar como um borrão enquanto a van corria. Mesmo exausta, seus olhos continuavam voltados para a cidade, ainda que mal registrassem o que viam.
Porém, apesar de seus esforços, nada diferente aconteceu. O veículo estacionou primeiro em frente ao prédio de Maddie, e Caitlyn acordou a mulher para que ela fosse para seu apartamento. Deixando um beijo na bochecha da mais alta e se despedindo com um “Eu te amo” em gaélico escocês, ela se retirou, deixando apenas Jayce, ainda dormindo, e Caitlyn na van. E então, a mulher fez o mesmo processo, se mantendo forçadamente acordada para que o amigo pudesse descansar, mas sem sucesso mais uma vez. Quando percebeu, já estava em frente à sua casa, e para seu alívio, não havia fãs ou visitas indesejadas esperando em frente a ela.
Com cuidado, ela cutucou Jayce de leve, tentando acordá-lo com gentileza. O homem resmungou de leve, abrindo os olhos lentamente, e se virando para a amiga.
– Chegamos, Jay.
– Ah, mesmo? – ele piscou, se ajeitando no lugar, olhando para a janela e constatando que sim, haviam chegado – Perdão por não ter ficado acordado com você, pequena.
– Você não precisa se preocupar. Eu posso descansar depois – Caitlyn dispensou as desculpas, dando de ombros enquanto se virava na direção da porta da van – Mas, se quiser pedir desculpa por algo, pode pedir por ainda usar esse apelido comigo.
– Poxa, você implica demais com seu amigo que se importa taaaanto com você… – o homem brincou em tom de deboche, sorrindo, arrancando uma virada de olhos da outra, mas também um sorriso pequeno, quase imperceptível.
Assim que a porta do veículo foi aberta, Caitlyn foi a primeira a descer, observando seus arredores enquanto esperava pelo amigo. Quando ele desceu, se espreguiçando, a mulher acenou para o motorista, agradecendo pelo serviço.
– A Agência CK vai enviar o pagamento em breve – ela completou, e o homem apenas se curvou levemente em sua direção, demonstrando seu respeito e gratidão. Então, fechou a porta de seu carro, entrando novamente no assento de motorista, e dirigindo de volta para as ruas.
– Lar, doce lar! – Jayce brincou assim que se viu sozinho com a mulher, se aproximando dela. Caitlyn apenas soltou um suspiro contente, agora olhando diretamente para a entrada de sua residência.
A casa era majestosa. Apesar de ser cercada por muros brancos e altos, já era possível sentir isso apenas com a sua imponência. Os dois modelos se direcionaram para a entrada do lugar, Caitlyn colocando a senha para destravar o grande portão automático, e escutando o mesmo sendo aberto com um bipe. Jayce fez um gesto cavalheiro enquanto o abria, sussurrando um “Damas primeiro” para que a amiga fosse em sua frente, arrancando mais uma revirada de olhos divertida dela.
A estrutura moderna se erguia em linhas retas e elegantes, combinando concreto, vidro e pedra escura em uma arquitetura imponente sem precisar ser extravagante. Grandes janelas revelavam o brilho quente do interior, espalhando uma luz acolhedora pela fachada. Uma escadaria iluminada conduzia à entrada principal, cercada por jardins cuidadosamente mantidos. Pequenos pontos de luz entre as plantas destacam o verde da vegetação e suavizam a imponência da construção. O reflexo das lâmpadas dançava sobre o piso ainda úmido da rua, dando ao lugar uma aparência quase cinematográfica.
Para muitos, a residência era o símbolo do sucesso de Caitlyn. Para ela, porém, era apenas “casa”. O único lugar onde podia trocar os flashes das câmeras pelo silêncio, os sorrisos ensaiados pelo conforto de simplesmente existir. E claro, onde ela se sentia verdadeiramente segura. Por isso, escolheu aquele lugar a dedo, pessoalmente, e planejou cada pequena parte da casa para que ela fosse apenas sua. Construída do zero, dos pés à cabeça.
Jayce fechou o portão atrás deles. Caitlyn se virou em sua direção, encontrando no rosto do amigo o mesmo esgotamento que sentia. O conforto da casa prometia descanso, mas ambos sabiam que ainda havia trabalho a fazer.
– Revisão geral? – o homem perguntou, e recebeu um sorriso desconfortável da mais baixa.
– Revisão geral – ela respondeu simplesmente, seguindo para as escadas enquanto mantinha o olhar baixo, e Jayce se manteve ao seu lado. Quando chegaram à grande porta de entrada, a mulher estendeu a mão para o outro, que colocou a mão no bolso e tirou um par de chaves de lá, entregando-o para ela. Sem perder tempo, ela encaixou uma das chaves na fechadura, girando-a e empurrando a porta para que pudessem entrar na residência de fato.
Assim que atravessaram a porta, foram recebidos pela tranquilidade familiar da casa. O espaço amplo combinava elegância e conforto sem esforço. A luz cinzenta da tarde atravessava as enormes janelas da sala de estar, refletindo sobre o piso de madeira clara. O grande sofá ocupava o centro da sala, enquanto a cozinha integrada e a escada suspensa completavam o ambiente moderno.
Caitlyn observou o ambiente por um instante. Depois de dias cercada por fotógrafos, entrevistas e compromissos intermináveis, o silêncio da casa parecia quase estranho. Jayce entrou logo atrás, soltando um último respirar longo e cansado enquanto passava a mão pelos cabelos.
– Vamos direto ao ponto, Cait – ele exclamou de repente, partindo rapidamente para a escada – Eu preciso de um banho logo, se não, sinto que vou apodrecer a qualquer momento.
– Você é extremamente dramático – a mulher brincou, balançando a cabeça de leve, mas entendendo bem o que o amigo queria dizer. Ela se sentia da mesma forma.
Os dois seguiram juntos para o andar superior, sabendo exatamente onde precisavam ir. Havia quatro portas no andar de cima, mas apenas a última os interessava. Quando chegaram, Caitlyn levantou o par de chaves, que ainda segurava, mais uma vez, agora usando a outra chave para destrancar a porta à sua frente. Quando o fez, não esperou pelo amigo, apenas abrindo a sala com rapidez e ligando as luzes em seguida.
O cômodo parecia pertencer a outra época.
As paredes eram cobertas por estantes escuras que se estendiam do chão ao teto, preenchidas por centenas de livros cujas lombadas gastas denunciavam anos de uso. Um lustre antigo pendia do teto, completando a atmosfera quase solene do ambiente. No centro do lugar, uma grande mesa de madeira maciça dominava o espaço. Diferente da organização impecável presente no restante da casa, aquela superfície carregava sinais claros de uma rotina intensa.
Pilhas de documentos ocupavam boa parte da superfície. Mapas parcialmente dobrados surgiam entre os papéis. Fotografias espalhadas entre anotações rabiscadas às pressas formavam conexões que apenas a pessoa que as realizou parecia ser capaz de compreender. Algumas páginas estavam marcadas por círculos, setas e observações escritas em diferentes tintas, como se diversos pensamentos tivessem sido registrados ali ao longo de noites sem dormir.
Nada parecia encaixar completamente quando observado de forma isolada, mas, juntos, os detalhes formavam um quadro desconfortável.
Havia algo estranho naquele lugar.
Não era apenas a bagunça. Era a sensação de que cada objeto escondia uma história que não deveria existir dentro da casa de uma simples modelo.
A sala não se parecia com um escritório doméstico.
Parecia um centro de operações disfarçado.
Sem pensar, a mulher fechou a porta atrás deles, a trancando logo em seguida, e logo se direcionou para uma grande poltrona adornada por couro escuro na parte de trás da mesa, enquanto Jayce se sentou em uma menor do outro lado, ambos caminhando quase que automaticamente. Caitlyn observou os papéis sobre a mesa de relance, mas não lhes deu atenção, voltando o olhar para o companheiro à sua frente. Viu Jayce puxar um celular do bolso, desbloqueando a tela.
– A agência desconfiou de alguma coisa sobre a viagem? – ela disparou, os olhos azuis ainda mais afiados do que o normal, e o sotaque se tornando sério.
– De acordo com os últimos e-mails e o agendamento da entrevista de amanhã, não – Jayce respondeu na mesma intensidade, ainda observando a tela do aparelho em suas mãos.
– Alguém suspeitou sobre o sumiço do alvo? – a modelo continuou as perguntas, sem dar espaço para incertezas no caminho.
– Nenhum sinal de qualquer suspeita – o homem não se abalou, continuando a responder à altura.
– Alguma testemunha deixada pra trás?
– Nada.
– Cena limpa?
– Com fotos e filmagens dos capangas.
– Câmeras?
– Viktor já cuidou de todas que poderiam ter capturado algo que não gostaríamos – ele levantou a cabeça, sério – Mas está checando novamente, e deve dar notícias logo.
– Certo – a mulher manteve a postura.
– Faltou alguma coisa?
– Não, só precisamos fazer o relatório e colocar as pistas nas evidências.
– Missão cumprida?
– …Missão cumprida – ela disse por fim, finalmente relaxando em seu assento, jogando a cabeça para trás e deixando os ombros caírem enquanto respirava, aliviada. Jayce imitou o gesto, deixando o celular cair em seu colo, junto de um assobio.
– Você vai acabar matando nós dois um dia se continuar com isso – ele brincou, e pela primeira vez no dia, escutou uma risada curta da amiga do outro lado da mesa.
– Não é como se eu tivesse escolhido estar nessa posição, você sabe disso – ela retrucou, alongando o pescoço.
– Claro. São apenas as coisas que eu preciso aguentar por ter feito amizade com uma Kiramman… – ele brincou novamente, sorrindo de canto.
Caitlyn sorriu de volta, dando de ombros, mas sua feição se tornou pesada logo em seguida. Não era como se estivesse nervosa ou chateada, mas… Uma melancolia não dita pairava em seus olhos.
Ela se virou para os documentos à sua frente. Normalmente, cada detalhe faria sentido de imediato. Naquele momento, porém, tudo parecia um borrão.
– Você não precisa se preocupar em lidar com isso por muito mais tempo, Jay – ela murmurou, ainda com a cabeça baixa – Estamos chegando perto… Eu consigo sentir.
O homem a encarou, o sorriso também deixando seu rosto ao escutar o tom da amiga.
– Eu espero que você esteja certa… – ele murmurou de volta, desviando o olhar em seguida – Já fazem cinco anos, Cait. Você tem certeza que consegue aguentar por mais tempo?
A modelo não ousou olhar para o outro, mas também não conseguia mais olhar para os documentos, então apenas focou sua visão em um porta retrato deixado de lado no canto da mesa. Seu olhar pareceu escurecer ao encontrar a imagem à sua frente.
– Eu preciso aguentar, Jayce – ela respondeu finalmente, após alguns segundos de silêncio – Eu não posso deixar todo nosso trabalho ter sido em vão. É o legado deles. O meu legado. E acima de tudo…
– Eu sei.
Ela levantou a cabeça ao ser interrompida, os olhos de Jayce encontrando os seus.
– Você vai conseguir isso, pequena.
A mulher manteve os olhares por alguns segundos, que pareceram horas, até fechar os olhos, suspirando.
– Obrigada por me apoiar nisso tudo, Jay. E eu peço perdão por ter te arrastado para essa… confusão.
– Já tivemos essa conversa, Cait. Não tem por que me agradecer, e muito menos se desculpar. Isso tudo é muito maior do que você jamais poderia imaginar.
Ele moveu o corpo para frente, esticando um dos braços até alcançar a mão da mulher, pegando-a com cuidado, fazendo a outra o encarar novamente.
– Você é como a minha irmã mais nova. E irmãos lidam com as coisas juntos. Não importa o que aconteça.
Ele sorriu de forma carinhosa, e Caitlyn retribuiu o sorriso, apertando os dedos levemente ao redor da palma do homem.
– Bom, toda essa viagem e conversa me esgotou – ele cortou o contato logo em seguida, se levantando do assento e começando a se mover na direção da porta do cômodo, girando a chave.
– Você vai conseguir me acompanhar amanhã? – antes que ele saísse, a voz de Caitlyn se fez presente mais uma vez, questionadora.
– Não vou perder por nada, pequena – ele respondeu, girando a maçaneta e abrindo a porta, se preparando para sair – Mas você precisa descansar. Deixe esse relatório pra amanhã, depois da entrevista. Tome um banho merecido, e eu peço um delivery pra gente enquanto isso, tudo bem?
– Mas…
– Shh… Sem desculpas – ele interrompeu a outra antes que ela tentasse retrucar – Tenho certeza que seus afiliados vão entender.
Caitlyn abriu a boca levemente, parecendo tentar argumentar, mas recebeu um olhar acusativo de Jayce, a fazendo desistir.
– …Certo – ela respondeu por fim após poucos segundos de silêncio, e o amigo acenou com a cabeça, satisfeito.
– Vou deixar a porta aberta, ok? Se precisar de qualquer coisa, pode bater na minha porta.
– Você fala como se essa fosse sua casa definitiva – ela brincou, e Jayce fez um gesto ofendido.
– Estou sendo expulso agora?
– Nunca, eu não disse isso – ela sorriu, levantando uma das sobrancelhas.
– Foi o que eu pensei – ele retribuiu o sorriso, e por fim, se virou, seus passos ecoando pelo corredor.
Caitlyn balançou a cabeça, ainda sorrindo levemente, mas não se levantou. Ao invés disso, voltou a olhar o porta retratos, e sem pensar, levantou uma das mãos, o segurando com extremo cuidado, como se fosse uma jóia preciosa. Ela passou longos segundos analisando cada parte da foto, vendo três figuras sorridentes nela. Um homem mais velho, já na casa dos cinquenta anos, ao lado de uma mulher elegante, que parecia ter a mesma idade, e no meio dos dois, uma garota pequena, os abraçando enquanto sorria largamente.
– Vocês poderiam ter deixado uma bagunça menor para mim limpar, não acham? – ela sussurrou, como se conversasse com as pessoas na foto. Mas não perguntava em um tom acusatório.
Tudo por eles.
Então, colocou a moldura de volta ao seu lugar, esticando o pescoço na direção da porta. E, se certificando que Jayce já estava em seu tão esperado banho, ela procurou por uma caneta, junto de papéis específicos em sua mesa, começando o relatório que prometera deixar para amanhã.
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A noite passou rapidamente depois que Caitlyn terminou seus afazeres. Teve o seu banho de luxo, aproveitando a banheira em sua suíte para relaxar por longos minutos. E então, como Jayce havia dito, ele pediu por um delivery, e ambos aproveitaram juntos um jantar simples, mas eficaz, de seu restaurante favorito. Quando finalizaram, ambos partiram para seus quartos, as luzes da casa se apagando uma a uma, e tudo se tornando escuro para que pudessem enfim descansar.
Mas, apesar de todas as regalias, a noite parecia ser curta demais para eles. Às cinco da manhã no dia seguinte, os dois estavam de pé, prontos para partirem em direção ao local em que realizariam a entrevista sobre sua última viagem. Caitlyn nunca havia visitado Ionia, então as perguntas e animação por parte dos fãs se mostrava mais fervorosa que nunca. E claro, ela não poderia os deixar sem conteúdo.
A van costumeira estacionou mais uma vez em frente a sua residência, agora com um motorista diferente do que havia os buscado na tarde anterior no aeroporto. A viagem dessa vez foi um pouco mais tranquila para a modelo, já que Jayce se manteve acordado para lhe fazer companhia, e apesar de ainda sentir a tensão de estar sempre atenta aos seus arredores, agora ela era muito menos presente, sendo dispensada com risadas curtas e conversas descontraídas que os dois tiveram durante o percurso.
Quando chegaram ao local, seguranças contratados pela sua agência os escoltaram até seus devidos lugares. Primeiro, o camarim. As aparências das duas estrelas do dia foram ajeitadas, desde os fios de cabelo mais desarrumados de Caitlyn, até a sola dos sapatos de Jayce. Em seguida, partiram para as fotos. Alguns cliques com a mulher em destaque, sozinha, outros com o homem, e então, ambos juntos. Eles nem mesmo precisavam de auxílio com suas poses e expressões. Sabiam muito bem o que a mídia gostaria que entregassem, e assim o fizeram. Era quase como se fossem robôs. Sorrir, posar, responder, agradecer. O mesmo roteiro repetido tantas vezes que já não exigia esforço consciente.
Por fim, a tão esperada entrevista. Os dois se posicionaram lado a lado, milhares de câmeras, microfones e luzes os cercando, mas nada que não estivessem acostumados. Uma mulher se sentou em frente aos dois, se apresentando brevemente, dizendo ser a pessoa que conduziria a entrevista, segurando uma prancheta que provavelmente conteria todos os questionamentos que precisava fazer. As filmagens ocorreram naturalmente, sem nenhum problema. Algumas perguntas eram previsíveis. O que mais gostaram da viagem? Pretendiam voltar? Como foi conhecer uma cultura tão diferente da sua? Jayce respondeu tudo de forma espontânea, com seu charme “jovial” dando as caras. Caitlyn, por outro lado, manteve sua postura cotidiana, mas agora deixando o rosto mais leve, mais inocente, como se quisesse mostrar que estava interessada de fato no que a entrevistadora dizia.
E, bom, em certas perguntas, ela realmente estava. Mas, na maior parte delas, ela apenas respondia o que já sabia que deveria responder. Infelizmente, o jogo da influência era milimetricamente calculado, e ela precisava manter as aparências, não deixando nada indesejado escapar. Então, nenhuma resposta era de fato totalmente verdadeira, apenas uma pequena – ou grande – distorção da realidade, visando manter o seu status e sua fama.
Ela nunca gostou de jogar daquela forma, mas não tinha outra escolha. Era o preço que precisava pagar para conseguir manter seu trabalho. Mesmo que muitas vezes pensasse em desistir dele.
Quando finalmente finalizaram, eles se despediram de todos, recebendo agradecimentos e elogios da equipe de filmagem. Ambos saíram do estúdio com a sensação de dever cumprido, mas também um certo esgotamento depois de passarem pelo mesmo processo de sempre. Nenhuma novidade, nenhum evento exuberante para lhes entreter.
Isso até saírem do lugar.
Quando estavam prestes a entrar na van mais uma vez, esperando partir para uma sessão de fotos que a agência decidiu marcar em cima da hora, um imprevisto se fez presente. E não era qualquer imprevisto.
Caitlyn foi a primeira a perceber. Uma movimentação estranha virando a esquina, com um pequeno grupo de pessoas juntas, cochichando, parecendo tentar esconder seus rostos, usando máscaras, óculos escuros e bonés. Ela cerrou os olhos de leve para observar melhor, e assim que notou algo diferente, virou o rosto para o outro lado. E lá estava. Outro grupo, praticamente idêntico, os encarando da mesma forma suspeita.
– Jayce – ela sussurrou, tentando chamar pelo amigo enquanto ainda mantinha o olhar em um dos grupos, mas antes que pudesse avisar, já era tarde demais.
Ela se voltou para o outro lado da rua, e antes que pudesse confirmar que havia mais um grupo ali como ela já suspeitava, viu um objeto sendo jogado com força no ar, e o observou cair em frente à van.
Uma bomba de fumaça.
– Se abaixa! – foi o que ela conseguiu gritar antes de perder a visão, agarrando o ombro de Jayce e o empurrando para o chão.
A fumaça explodiu em todas as direções. Em questão de segundos, a rua desapareceu. Os carros sumiram. Os prédios sumiram. Até Jayce parecia distante. O ar se tornou pesado, ardendo em seus olhos e garganta. E o caos foi imediato. Os seguranças à volta entraram em alerta, pegando suas armas e se preparando para um confronto, gritando uns para os outros. Alguns se posicionaram em volta dos dois modelos, tentando protegê-los, e logo, sons de tiroteio começaram a ecoar pelas ruas, com os sons das balas que atingiam janelas, metais e, consequentemente, pessoas. Gritos foram ouvidos ao longe, mas eles não vinham de Caitlyn e Jayce.
Eles sabiam que algo assim poderia acontecer.
– Caitlyn! O que… – o homem tentou perguntar algo, mas fechou os olhos imediatamente, tossindo ao sentir a fumaça entrar em seus pulmões.
– Completamente cercados! – apesar de não ter finalizado seu questionamento, Caitlyn sabia o que ele gostaria de perguntar, então o respondeu, falando por cima dos gritos e fechando os olhos por um instante, rangendo os dentes ao ouvir mais tiros sendo disparados, junto com alarmes de carros começando a emergir no meio da comoção – A gente precisa de um lugar seguro pra se esconder!
– Mas onde?! – Jayce gritou de volta, abrindo um dos olhos, sem saber o que poderiam fazer.
– Merda… – a modelo murmurou, tentando procurar por alguma saída, mas não conseguia ver nada além de uma nuvem cinzenta para onde quer que olhasse.
O coração batia rápido, mas não por medo.
Era frustração.
Ela já havia estado em situações piores. Já ouvira mais tiros do que conseguiria contar. Já havia corrido por vielas escuras com pessoas tentando matá-la.
Mas naquela ocasião, estava presa. Sem arma. Sem visão. Sem qualquer forma de reagir sem levantar suspeitas.
Justo quando deixei minha pistola em casa, ela pensou consigo mesma, se amaldiçoando.
Alguns dos invasores recuavam enquanto trocavam tiros com os seguranças, desaparecendo entre os carros estacionados. Outros pareciam tentar se aproximar, e isso fez seus músculos se tensionarem ainda mais. Mas antes que a modelo pudesse pensar em um plano de fuga, um dos homens que os cercavam gritou em agonia, sendo jogado para trás, e caindo ao lado deles na calçada, um buraco de bala jorrando sangue em uma de suas pernas. Ele se contorceu com a dor, tentando se levantar e pegar a arma, mas a área atingida não o permitia realizar qualquer movimentação. Caitlyn observou os arredores, agora abrindo os olhos completamente, se acostumando com a fumaça, e suas íris encontraram a arma do segurança, caída no chão.
Menos de dois metros.
Ela poderia alcançá-la.
Então, ignorou os gritos. Ignorou os tiros. Seus olhos permaneceram fixos nela. Aquela arma significava controle. Significava poder agir.
E, naquele momento, era tudo o que ela queria.
Sem pensar, partiu na direção do que poderia ser sua salvação.
Porém, antes que seus dedos tocassem a arma, algo segurou seu braço.
Ela se virou com rapidez, esperando encontrar Jayce, mas antes que pudesse registrar o que acontecia, foi puxada para cima, sendo abraçada com força.
– Abaixem as armas, agora, se não eu atiro!
Ela escutou uma voz que não reconhecia em seu ouvido. Uma voz feminina, mas firme e extremamente poderosa, e logo os tiros voltaram a se fazer presentes. Não sentiu nenhuma dor, nenhum impacto, então concluiu que ainda estava viva. Quem quer que a tivesse agarrado não parecia estar tentando machucá-la.
E por um instante, uma faísca de juízo atravessou seus pensamentos. Talvez, de fato, fosse melhor deixar os seguranças tentarem lidar com a situação. Menos suspeito.
– Eu mandei abaixar a porra das armas! – escutou a voz gritando mais uma vez, seguida de mais tiros, mas dessa vez, eles não foram retribuídos. Caitlyn abriu os olhos ao notar isso, e percebeu que a fumaça começava a se dissipar. Ao longe, ouviu pessoas gritando “Recuar!” ou coisas do gênero.
Foi apenas quando os gritos da desconhecida para os atacantes se fizeram presentes que o restante dos seguranças pareceu se reorganizar. E finalmente, poucos segundos depois, os gritos cessaram. A fumaça que a cercava se desfez por completo, e ela tomou coragem para se mexer, empurrando o corpo que a segurava levemente para o lado, se virando para encarar a figura.
E por um instante, esqueceu completamente da situação em que se encontrava. Se esqueceu da fumaça, dos tiros, dos gritos.
De tudo.
Uma mulher, um pouco mais baixa que ela, a segurava firmemente pela cintura com uma das mãos, enquanto a outra apontava uma arma para as ruas. Apesar da estatura mais baixa, seu corpo era definido, muscular, e seus traços se destacavam com facilidade. Ela usava uma das roupas de segurança, assim como Caitlyn havia deduzido, mas nada disso chamava tanta atenção.
O que capturou seu interesse foi o rosto da figura. Tudo era simétrico, como se tivesse sido esculpido. Seus olhos tinham uma cor cinza azulada, mas eram extremamente afiados, se destacando ainda mais com a maquiagem escura esfumada em suas pálpebras, e destoavam muito com os fios de cabelo que caíam em sua testa, que possuíam uma cor que a modelo nunca tinha visto antes, um rosa escurecido, quase vermelho. E tudo era adornado por uma série de acessórios, piercings em suas orelhas, um em seu nariz, e uma tatuagem se destacando em sua bochecha esquerda, um seis escrito em números romanos.
Não se parecia com uma segurança.
Se assemelhava mais a alguém que havia acabado de sair de uma briga de punhos.
E aparentava saber que venceria a próxima que participaria também.
– Caralho, eles não sabem quando desistir… – Caitlyn foi tirada de sua breve inspeção ao escutar a mulher mais uma vez, agora vendo a mesma abaixar a arma com cautela, mas ainda mantendo seu aperto firme ao redor dela, pronta para levantá-la novamente se necessário. Então, ela virou o rosto na direção da modelo, respirando fundo enquanto a encarava com seriedade – Você está bem?
Foi nesse momento que Caitlyn percebeu que sua cintura ainda estava sendo apertada com força pela segurança, e ela rapidamente se soltou dela, se afastando quase com um pulo.
– Sim, estou… – ela murmurou, desviando o olhar, visivelmente incomodada, e ao mesmo tempo, um tanto quanto envergonhada. Ela não estava acostumada a ser protegida dessa forma, principalmente porque sabia se defender sozinha. Então, era vergonhoso sentir o que estava sentindo naquele momento, como se fosse feita de cristal.
– Ótimo... É isso que importa – respondeu sem hesitar, ofegando levemente, e Caitlyn pode ver um sorriso mínimo se formando no canto de seus lábios ao falar, levantando uma cicatriz em seu lábio superior.
– Caitlyn!
Ela se virou ao escutar seu nome sendo chamado por uma voz familiar, e viu Jayce chegar ao seu lado, segurando seus ombros com força.
– Jayce…
– Você tá bem? – ele perguntou, checando o corpo da amiga com cuidado, preocupado – Algum dos tiros te atingiu? Te machucaram?
– Não, nada aconteceu comigo. E você? Alguma coisa? – ela devolveu o questionamento, olhando rapidamente para o outro, também preocupada.
– Um dos seguranças me deu cobertura, e eu consegui entrar dentro da van – ele respondeu, o tom de voz sério – Eu não consegui te chamar por que perdi você de vista no meio da fumaça… Me desculpa… Graças aos céus você tá bem…
– Graças aos céus você está bem, Jay… – ela murmurou, fechando os olhos ao sentir a adrenalina deixando seu corpo. Porém, os abriu de volta rapidamente, e apesar da vergonha, se virou para agradecer a segurança…
Apenas para ver que ela já havia deixado o lugar.
Ela escaneou seus arredores em busca dela, mas não a encontrou em lugar algum. E antes que pudesse tentar procurar em mais lugares, outros seguranças apareceram, cercando os dois modelos com rapidez, conversando entre si e em seus walkie talkies para tentar controlar a situação.
Caitlyn se recompôs, e respondeu todas as perguntas que eles a faziam, tentando manter a fachada levemente assustada, apesar de estar mais do que acostumada a lidar com aquele tipo de circunstância. Jayce também cooperou, segurando a amiga pelos ombros durante todo o processo. Foi descoberto que uma das rodas da van havia sido sabotada, e mesmo que tivessem tentado fugir, não conseguiriam. Então, outra van foi solicitada com urgência, e a agência dos modelos prontamente os atendeu, enviando uma viatura o mais rápido possível, juntamente com uma ambulância para os feridos, e policiais que cercaram a área, tomando as rédeas da situação.
Ao entrarem na nova van, Jayce não questionou nada, apenas mantendo os olhos na amiga. Ambos deixaram o teatro inocente de lado, sabendo muito bem o que havia acontecido. Mas também sabiam que não poderiam discutir sobre o incidente naquele momento.
E, durante todo o trajeto do estúdio de entrevista até a delegacia, onde fariam o depoimento já conhecido sobre o cenário que acabaram de presenciar, apenas um questionamento circulava a cabeça de Caitlyn.
Ela havia conhecido centenas de seguranças ao longo dos anos.
Nunca aquela.
Quem era aquela segurança, e por que nunca a tinha visto antes?
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– A agência o que?!
Alguns dias se passaram desde o dia do ataque no estúdio. As notícias não comentavam sobre outro assunto, manchetes com o nome de Caitlyn e Jayce estampados em todos os lugares, ofuscando a visita que fizeram à Ionia como se não fosse nada. Os fãs mostraram apoio do começo ao fim, deixando mensagens de carinho para os modelos, mas a mídia queria que os dois comentassem apenas sobre isso. Mesmo que tivessem dito que estava tudo bem, fazendo até mesmo aparições públicas para tal, os microfones sempre apareciam uma hora ou outra, querendo mais munição para soltarem em seus jornais.
Os dois tentaram manter tudo sob controle, mas atrás das cortinas, tiveram conversas intensas sobre o que poderia ter sido o ataque. Inimigos não faltavam, e qualquer um deles poderia ser um suspeito em potencial, então precisavam dar um passo para trás. Pensaram até mesmo na possibilidade de partir em outra viagem disfarçada para que pudessem procurar por mais pistas, mas decidiram deixar isso para depois que a poeira do assunto baixasse.
Para a sorte deles, a agência de modelos em que eram contratados lidou com o ocorrido rapidamente, emitindo uma nota oficial sobre o incidente, e deixando claro que, quem sequer tentasse tocar no assunto mais uma vez, sofreria retaliações. Foi o suficiente para que os canais de notícia parassem de perturbar as estrelas, e ambos puderam continuar seus afazeres como previsto, a situação parecendo finalmente ser deixada para trás.
Isso até uma carta chegar às mãos de Caitlyn.
– Eu sei, eu sei, Cait – Jayce exclamou, ambos juntos no escritório na casa da modelo mais uma vez. Os dois aparentavam estar visivelmente estressados e nervosos, o homem andando de um lado para o outro enquanto gesticulava com as mãos, e Caitlyn com uma expressão incrédula em seu rosto, segurando um papel em suas mãos, parecendo não acreditar no que seus olhos encaravam.
– Jayce, você não está entendendo a gravidade disso – ela voltou o olhar para o amigo, sua voz saindo assustadoramente baixa, e balançou o papel no ar, seu conteúdo exposto para o mundo.
Na carta, os dizeres eram quase como uma sentença de morte para a modelo.
“COMUNICADO OFICIAL
Assunto: Atualização dos protocolos de segurança pessoal.
Prezada Srta. Kiramman,
Em decorrência dos recentes incidentes envolvendo sua integridade física durante compromissos profissionais, e após avaliação conjunta realizada pela Diretoria Executiva e pelo Departamento de Gestão de Riscos, a Agência CK comunica a implementação imediata de novas medidas de segurança.
Nos últimos meses, foram registrados múltiplos eventos que resultaram em riscos diretos à sua segurança durante deslocamentos, aparições públicas e atividades relacionadas à sua carreira profissional. Considerando a recorrência dessas ocorrências e a crescente preocupação da administração, concluiu-se que as medidas atualmente em vigor já não são suficientes para garantir sua proteção adequada.
Dessa forma, fica determinada a designação permanente de um agente de segurança particular para acompanhá-la durante compromissos profissionais, viagens, eventos públicos e demais atividades consideradas de risco.
O profissional selecionado atuará de forma independente e terá autoridade para realizar avaliações de segurança, coordenar rotas de deslocamento, controlar acessos e recomendar alterações em sua agenda quando necessário.
Esta decisão foi aprovada de forma unânime pela Diretoria e entrará em vigor imediatamente.
Compreendemos que a medida poderá representar mudanças significativas em sua rotina. No entanto, considerando as circunstâncias atuais, a administração considera sua implementação indispensável.
A preservação de sua segurança permanece sendo a prioridade máxima desta organização.
Atenciosamente,
Conselho Administrativo
Agência CK.”
– Eu estou entendendo muito bem, Caitlyn – Jayce tentou rebater, passando as mãos pelos cabelos, impaciente – Eu também não consigo acreditar, é… É maluquice!
– Porra… – a mulher murmurou consigo mesma, também jogando os fios de cabelo azul escuro para trás, seus olhos escaneando o documento pela milésima vez, como se as palavras não fossem reais.
Eles não fizeram isso, foi o seu primeiro pensamento ao ler o conteúdo pela primeira vez.
Eles não podem ter feito isso, foi o próximo depois de ler mais algumas vezes.
Agora, a realidade era clara.
– Eles realmente fizeram isso… – ela soltou o papel na mesa, seu olhar fixado no chão do escritório, e mesmo que as palavras saíssem de sua boca, ela ainda não conseguia acreditar.
Agente de segurança particular.
Que iria acompanhá-la durante compromissos profissionais, viagens, eventos públicos e demais atividades consideradas de risco.
– Puta merda – ela soltou, frustrada, se sentando de uma vez na cadeira, cobrindo o rosto com uma das mãos, ainda com o olhar perdido.
– Você quer que eu tente conversar com eles? – Jayce a tirou de seus devaneios alguns segundos depois, se apoiando na mesa com pressa – Eu sou seu agente pessoal, talvez eu possa tentar mudar isso, fazer eles mudarem de ideia.
– Jayce, você leu a mesma carta que eu – Caitlyn soltou, visivelmente irritada, com as pálpebras fechadas enquanto mantinha a mão em sua testa, escondendo os olhos – Esta decisão foi aprovada de forma unânime pela Diretoria e entrará em vigor imediatamente.
– Sim, mas… – o mais velho tentou argumentar, mas não conseguiu terminar seu raciocínio.
– Você sabe muito bem como a “Diretoria” lida com a nossa carreira, Jayce! – a mulher se exaltou ainda mais, agora abrindo os olhos de forma estressada, quase gritando.
Jayce deixou as mãos caírem derrotadas ao lado do corpo, fechando a boca em uma linha reta, sem saber o que fazer. Caitlyn soltou um suspiro completamente frustrado, se jogando nas costas da cadeira devagar, passando ambas as mãos pelo rosto.
Isso não poderia estar acontecendo. Não agora.
Não quando estava tão perto.
– Então o que fazemos agora? – o homem voltou a questionar depois de alguns segundos de silêncio desconfortável, tentando arranjar uma saída para a situação da amiga. Mas não importava o lado em que olhasse, parecia que todas as paredes estavam fechadas ao redor deles, como se estivessem completamente encurralados.
Caitlyn colocou os braços nos apoios de sua poltrona, a cabeça jogada para trás. Ela encarou o teto branco sob sua cabeça por mais algum tempo, tentando organizar seus pensamentos, até finalmente respirar fundo, se voltando para Jayce.
– Vamos precisar improvisar.
– Improvisar? – o homem perguntou como se aquela fosse uma sugestão absurda. Ele nunca imaginou escutar essa palavra sair da boca da Kiramman, já que seu próprio bordão dizia: nada menos que a perfeição.
– Eu sei. Você sabe muito bem como eu odeio quando preciso sair dos planos – ela pareceu ler seus pensamentos, confirmando o que ele pensava naquele momento – Mas isso, também, pode ser um tipo de plano.
– Ok, sou todo ouvidos – o outro ajeitou a postura, mantendo o olhar na mulher. Viu ela levantar de seu assento, os olhos azuis parecendo tomar outro tipo de tom, focados.
– A agência deixou claro que, mais uma vez, eu não tenho o poder de escolha aqui – ela começou a andar pela sala, seus saltos batendo de forma metódica, o som deles ecoando no cômodo – Então, vamos precisar redobrar a atenção e o cuidado nas missões. Eu genuinamente odeio ter que pedir por isso, mas vou precisar da sua ajuda agora mais do que nunca – ela continuou o raciocínio, cruzando os braços, parecendo perdida em seu próprio mundo – Talvez eu tenha que mandar você no meu lugar em algumas missões, e em outras, vou pedir para distrair esse… agente particular.
– Você ainda vai tentar continuar com as missões? – Jayce a interrompeu, seguindo a amiga com o olhar, e a viu levantar a cabeça para encará-lo, vendo que ela tinha uma expressão ofendida no rosto.
– Eu nunca deixaria de fazer o meu trabalho por conta de um simples… segurança no meu caminho, Jayce – ela fez um gesto de dispensa com as mãos ao citar o guarda-costas que teria que lidar com de um jeito ou de outro, olhando com desprezo para o lado – Mesmo que tentem me colocar em uma coleira, eu não vou ser o cachorro que eles querem que eu seja.
– Claro… Essa é a Caitlyn que eu conheço – ele brincou, um meio sorriso se formando em seu rosto, e a mulher apenas soltou uma risada curta, revirando os olhos.
– Se ele tentar alguma coisa, vou deixar evidente que, mesmo que trabalhemos juntos, eu vou estar no controle – ela continuou, voltando a cruzar os braços – E se ele inevitavelmente descobrir alguma coisa…
Jayce suspirou.
– Então teremos um problema.
Caitlyn ficou em silêncio por um instante.
– Um problema bem curto.
– Boom, headshot? – o amigo completou, ainda sorrindo.
– Você já pode parar de roubar as minhas falas, Jayce – ela levantou uma sobrancelha dessa vez, mas sorriu de volta ao escutar Jayce rir.
– Às vezes você é muito previsível, Cait, me desculpa – ele brincou mais uma vez, descontraído – Mas apesar de tudo isso… eu confio em você – ele terminou, a frase saindo de forma leve e verdadeira, e Caitlyn se aproximou dele, agora soltando os ombros.
– Você pode confiar, Jay. Você sabe como eu trabalho. Sempre três passos à frente – ela piscou um dos olhos, agora mais relaxada – E eu espero poder confiar em você também.
– Eu nunca te deixaria na mão, pequena – ele acenou com a cabeça, segurando um dos ombros da amiga com a mão, apertando a área de leve. Os dois sorriram de forma leve um para o outro, e Jayce a puxou para um abraço, logo sendo retribuído com um aperto leve em suas costas.
Apesar da confusão em que se encontravam, sabiam que poderiam contar um com o outro, não importava a circunstância. E não deixariam uma simples mudança de rota mudar esse fato.
Quando se soltaram, porém, Caitlyn desviou o olhar, o sorriso saindo de seu rosto aos poucos.
– Tudo bem? – Jayce instintivamente perguntou, ainda segurando os ombros da outra.
– Ah, sim, eu só… – ela respondeu piscando rapidamente, agora virando o olhar para ele – Eu acho que preciso de alguns conselhos…
E ela não precisou dizer mais nada, pois o amigo sabia muito bem o que ela gostaria de fazer.
– Eu vou pegar o carro – ele disse simplesmente, dando dois tapas leves em seu ombro antes de sair do escritório, Caitlyn o seguindo com o olhar até o perder de vista.
Ela coçou as costas de seu pescoço, parecendo ponderar algo que só ela sabia, mas balançou a cabeça levemente logo em seguida, saindo da sala com os olhos distantes.
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O céu se mostrou nublado mais uma vez naquele dia.
Caitlyn já não sabia dizer se era apenas consequência da poluição da cidade, ou se as nuvens realmente decidiram se acumular ali pelos últimos dias. Para sua sorte, pelo menos, não aparentava que poderiam soltar gotas de chuva.
Depois de terminar sua discussão com Jayce, ela se vestiu de forma simples, abandonando a fachada elegante e dando lugar a uma figura quase irreconhecível. Apesar das roupas ainda serem de marcas famosas ou feitas do zero exclusivamente para ela, a modelo se parecia mais com uma mulher qualquer, se misturando com a multidão com os tons escuros dos tecidos, e as formas básicas das vestimentas. E esse era exatamente o seu objetivo.
Quando seu amigo a chamou para entrar no seu próprio carro, um que não chamasse atenção de imediato, – perfeito para a ocasião – ela não demorou a sentar ao seu lado no banco de passageiro. O trajeto que fizeram foi curto, mas o silêncio que pairou no ar durante todo o percurso fez com que ele parecesse muito maior do que realmente era. Mas isso não era nenhuma novidade. Ambos já estavam acostumados à situação. Fizeram o mesmo processo milhares de vezes nos últimos anos. E, mesmo sendo incômodo, o silêncio passou a se tornar até mesmo um tanto quanto confortável depois de tanto tempo.
O homem não perguntou em momento algum sobre o destino, nem mesmo se a amiga estava bem. Apenas olhava de relance para ela, checando. E sempre tinha a mesma visão: uma Caitlyn cabisbaixa, com os olhos escuros mirando seus próprios pés, e nenhuma palavra saindo de sua boca. Ela mantinha as mãos fechadas sob seu colo, e às vezes olhava rapidamente para o lado de fora, parecendo tentar se distrair, mas logo voltava a fixar suas pupilas no chão do veículo.
E então, depois de alguns minutos, ele estacionou em frente a um grande arco de cimento, uma entrada óbvia, cercada por muros altos de ambos os lados. Algumas pessoas transitavam por perto, segurando flores enquanto adentravam o lugar, outras saindo com olhares perdidos, ou até mesmo chorando silenciosamente.
– Você quer que eu te acompanhe? – Jayce finalmente quebrou o silêncio, vendo Caitlyn olhar pela janela, encarando a entrada.
– Acho que gostaria de ir sozinha hoje – ela respondeu, firme, e o amigo apenas acenou com a cabeça.
– Tudo bem. Eu te espero aqui, ok?
– Certo… – ela murmurou, abrindo a porta do carro, se preparando para sair.
– Ei.
Mas antes que pudesse ir, ela foi parada pela voz do homem, o que a fez virar em sua direção. Viu ele a encarando com olhos tristes e preocupados.
– Só… Tome cuidado, pequena – disse por fim, fechando a boca em um sorriso reto em seguida. Caitlyn apenas afirmou com a cabeça, mas não sorriu de volta, fechando a porta do carro atrás dela, e puxou o capuz de seu casaco preto, o colocando juntamente com uma máscara escura em seu rosto.
O caminho que fez da calçada até o portão de entrada passou como um borrão. A modelo não tinha o costume de perder o foco, mas não importava quantas vezes fizesse aquele exato caminho, ela não conseguia se lembrar dele, como se desassociasse completamente da realidade naquele breve momento. Quando piscou novamente, se viu de frente com a entrada, dando um acenar de cabeça curto para o segurança que se encontrava na guarita ao seu lado, recebendo um cumprimento semelhante em retorno. Ele a conhecia, mas não pareceu fazer alarde ao ver Caitlyn Kiramman em carne e osso, como muitos fariam. Era quase como se fossem amigos naquele ponto.
A mulher continuou seu caminho para dentro do que parecia ser um grande parque, mas logo a atmosfera se tornou extremamente pesada. Ela transitou por entre diferentes placas de pedra, fincadas no chão, vez ou outra passando por monumentos mais sofisticados e óbvios, com estátuas de pessoas se erguendo em meio às centenas de covas.
Caitlyn nunca pensou que precisaria visitar o cemitério da cidade tão regularmente, mas agora, não conseguia mais se imaginar não fazendo isso. Ela continuou andando como se conhecesse cada pequena porção do lugar, mas ao mesmo tempo, não se lembrava de nenhum detalhe sobre esse caminho. Assim como fazia com sua carreira de modelo, ela se movia no automático. Seu cérebro se recusava a agir de outra forma, esquecendo de tudo até o momento em que chegava em frente às lápides que realmente importavam para ela.
Ela ergueu a cabeça ao finalmente encontrar o lugar, encarando uma estátua maior que a maioria. Duas pessoas tinham seus corpos eternizados ali. Um homem de postura confiante, apresentando traços asiáticos e olhos de pedra vazios, que ainda conseguiam passar autoridade, ao lado de uma mulher, que apresentava a mesma fachada, talvez até mesmo mais confiante. Ambos estavam de mãos dadas. Apesar de serem apenas estátuas agora, ainda era possível sentir suas forças e imponência apenas com a sua visão.
E consequentemente, Caitlyn sabia muito bem o quanto se parecia com eles.
Ela olhou para os lados, se certificando de que não havia ninguém por perto, e retirou o capuz e a máscara com cuidado, deixando o rosto respirar o ar puro. Ela passou alguns segundos parada, ainda encarando a grande escultura à sua frente, e seus olhos se tornaram indecifráveis, como se fossem tão vazios quanto os olhos das construções.
Então, ela abaixou o corpo, se agachando com cuidado no chão, até se ver de frente com os dizeres aos pés do monumento.
“Tobias & Cassandra Kiramman. Pais e conselheiros amados. Piltover será sempre grata por seus atos.
1976 e 1981 - 2033”
– Olá, pai. Mãe – Caitlyn os cumprimentou com um sussurro, parecendo hesitante ao dizer a frase – Me desculpem por ter demorado tanto tempo para voltar até aqui e visitá-los. A agência tem me colocado para fazer vários trabalhos, e… Seus afiliados não conseguem descansar nem por um segundo.
Silêncio.
– Eu sei, mãe, que eu deveria parar de tentar conversar com vocês dessa forma, já que poderia chamar “atenções indesejadas”, como você sempre dizia – ela continuou, sorrindo de leve – Mas sinto que, se eu não fizer isso, você vai voltar como um espírito maligno pra me assombrar pessoalmente – brincou, tentando se distrair do peso esmagador que sentia se formar em seu peito.
Ela de fato não sabia por que continuava fazendo aquilo, conversando com fantasmas que nunca poderiam responder suas afirmações e perguntas. Mas algo dentro dela simplesmente não podia deixar de conversar com eles dessa forma. Como se ainda estivessem ali, ao seu lado, e não enterrados logo abaixo de seus pés.
– Hoje eu não vim com nenhuma novidade de uma nova passarela, ou algo sobre o caso para contar à vocês. Mesmo que eu tenha acabado de voltar de uma viagem à Ionia, igual vocês sempre quiseram que eu fizesse, eu não posso comentar sobre isso agora – sua voz se mantinha em um sussurro, quase como se estivesse com medo de dizer as palavras – Na verdade… Eu estou com um problema, extremamente sério, e não sei que direção tomar sobre isso.
Ela quase pôde escutar a voz de seu pai, animada, dizendo “Oh, é mesmo? Nos conte sobre isso, vamos te ajudar com o que precisar”, como sempre fazia para tentar deixar a filha mais calma.
– Alguns dias atrás, logo depois que a viagem aconteceu, eu sofri um ataque… Não estou machucada, não se preocupem. Mas logo depois disso… – ela sentiu a frase morrer em sua garganta, e respirou fundo, fechando os olhos antes de continuar – A agência decidiu me designar um guarda-costas pessoal.
“E qual o problema nisso?”, ela escutou a voz da mãe em sua cabeça dessa vez, juntamente com o tintilar de uma colher batendo em uma xícara de chá. “Você sabe que eu mesma teria ordenado isso se percebesse que sua situação está crítica, Caitlyn”.
– Bom, você infelizmente não é mais a pessoa que controla as coisas por baixo dos panos, não é, mãe? – Caitlyn brincou, sabendo que seria taxada de louca se a pegassem conversando consigo mesma daquela forma – Todas as suas operações caíram no meu colo. E com a sua… ausência… os zaunitas aparentam estar querendo se livrar de toda a linhagem dos Kiramman de uma vez por todas. Eu não sei dizer se o último ataque foi motivado por sede de vingança por tudo que vocês fizeram, ou se eu deixei algo passar na última missão.
Silêncio mais uma vez.
Agora, nem mesmo sua cabeça sabia o que preencher naquela lacuna. Já que seus pais nunca teriam esse tipo de conversa com ela se eles não estivessem…
Eles nunca teriam a deixado sequer descobrir sobre tudo aquilo.
– De qualquer forma… Esse agente pessoal vai atrapalhar completamente todos os meus planos. Ser vigiada em cada passo que eu der… Já bastava você, não é, mãe? Está me deixando maluca, e eu nem mesmo sei quem é essa pessoa. As operações agora vão ficar muito mais difíceis de lidar, e eu nem mesmo sei como vou continuar com tudo isso. Justo quando eu estou tão perto de acabar com tudo, de finalmente descobrir quem fez… isso… com vocês…
Ela sentiu a voz embargar, mas engoliu seco rapidamente.
– Eu tentei contornar a situação com o Jayce. Mantive as incertezas para mim mesma, igual você sempre me aconselhou a fazer, mãe. Mas eu… eu não sei. Eu sinto como se não existisse um jeito de realmente lidar com isso. Eu me sinto… perdida.
Sua voz morreu por completo dessa vez, mas ela fechou os olhos, balançando a cabeça com força. Nunca havia chorado daquela forma depois que viu a partida dos dois, e aquela não seria a primeira vez que faria isso.
Ela teve uma pequena esperança de que, assim que abrisse os olhos, descobriria que os últimos cinco anos foram apenas um pesadelo ruim, uma realidade completamente diferente da sua, e estaria bem, em sua casa, conversando com os pais na sala enquanto degustavam de uma xícara de chá juntos.
Quando suas íris azuis apareceram novamente, porém, ela apenas sentiu o vento frio batendo contra seus cabelos, enquanto continuava de joelhos em frente aos dois túmulos.
E o silêncio continuava ali. Sempre.
Talvez ter essa esperança estivesse a matando lentamente todos os dias.
– O que eu não faria para ter a ajuda de vocês agora… – ela murmurou, seus olhos se tornando ainda mais escuros – Me desculpem por estar tão emotiva hoje. Sei que geralmente não sou assim, e nem gostaria de ser. Eu queria conseguir ser mais forte, assim como vocês. Talvez um dia.
Então, soltando um suspiro, colocou uma das mãos no bolso de seu casaco, puxando de lá uma pequena moeda. Com cuidado, a colocou entre os dedos, esticando o braço na direção dos túmulos.
– Eu aposto que vai ser cara hoje – Caitlyn sussurrou, agora encarando o pedaço de bronze que segurava – Para um amanhã mais brilhante, e um futuro próspero.
E assim, jogou a moeda no ar, a deixando cair na terra fria. Quando a encarou, soltou um riso baixo e sarcástico.
– Vejo vocês em algumas semanas.
Ela se levantou, batendo as mãos nas calças com cuidado, e puxando o capuz e a máscara de volta. Se virou lentamente, voltando a fazer seu caminho para a entrada, deixando para trás os túmulos e a moeda, com a face da coroa virada para cima.
