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Não era a primeira vez de Lorena em uma estreia, só esse ano ela esteve em outros dois eventos em comemoração ao primeiro episódio de outras duas séries em que ela trabalhou. Ela está acostumada com os paparazzi na porta, os jornalistas e seus sorrisos falsos, os colegas que a cumprimentam o mais rápido possível para então se afastar.
O que Lorena não está acostumada, pelo menos não nos últimos anos, é ser a protagonista.
Lorena está na indústria desde criança, sua mãe, Zenilda, era uma atriz reconhecida mundialmente antes de desistir de tudo para se casar com seu pai, Santiago Ferette. É engraçado pensar que desde cedo ele permitiu que Lorena participasse de comerciais infantis e, depois, de pequenos papéis em peças de teatro local. Ele devia achar que para Lorena era tudo diversão e não um sonho. Não o que a mantinha viva.
Ela era reconhecidamente boa e não demorou muito para ganhar um papel de protagonista em uma novela. Ela foi bem recebida pela crítica e pelo público e, por um momento, Lorena se sentiu à vontade o suficiente para ser quem ela era. Para dizer em rede nacional que era uma mulher lésbica.
As mudanças não começaram de uma vez. Foram sutis. Para olhos destreinados, poderia não parecer nada. Um diretor que a ignorava ao repassar as cenas e depois pedia desculpas, ele não tinha visto ela ali. Um roteirista que se esquecia de sua personagem e ela passava semanas sem aparecer. Uma figurinista que a questionava se ela conseguiria realmente usar um vestido ou preferia algo mais largo, só para saber mesmo.
Os papeis continuavam vindo, seu talento maior do que o preconceito das pessoas, ou pelo menos era nisso que ela acreditava, até ter uma briga em seu camarim.
O pai tinha enviado um advogado para solicitar que ela parasse de usar o sobrenome Ferette em seu nome artístico. Ela estava bebendo no dia, era o último dia da maldita novela, Lorena tinha conseguido um papel menor e ainda assim um papel que adorava, uma ativista em causas animais, ela estava tão empolgada apenas para ser quase completamente excluída no final da novela mesmo fazendo parte do núcleo principal.
Então Lorena estava bebendo, assim como todos os seus colegas, já que estavam comemorando o último capítulo ou algo assim, quando esse advogado entrou em seu camarim para falar besteiras. Ela gritou com ele. Lorena não tinha o costume de gritar, mas estava cansada naquele dia e então gritou. E o expulsou. E talvez o homem tenha caído em algum momento entre o meio do camarim e a porta.
Isso estava em todas as revistas no dia seguinte. Jovem, talentosa, lésbica e desequilibrada, mas principalmente lésbica.
Lorena ficou com receio depois de ler as primeiras notícias, com a imagem que estavam pintando dela, como isso afetaria seu trabalho na TV. Ela sempre tinha separado muito bem a vida profissional da pessoal, a única vez que não tinha feito isso foi quando falou sobre a sua sexualidade, mas disso ela não se arrependia.
Arte é ser visto, não pelo artista, mas através dele. E se com a coragem que a arte a deu, Lorena conseguiu atingir o coração de alguém que era como ela, então seu trabalho estava sendo feito. Sem arrependimentos.
Maggye Damatta, sua melhor amiga e agente, a disse para não se preocupar. Mas Lorena era filha da família Ferette, ela nasceu preocupada, então foi uma surpresa quando em meio a oportunidades para modelar para marcas já conhecidas, também havia aparecido o roteiro de uma série.
E não apenas qualquer roteiro, mas um em que Lorena seria mais uma vez protagonista. Uma série para um canal grande e que ainda assim era feita por mulheres, com roteiro de pessoas abertamente LGBT+. Lorena tinha mandado uma mensagem para Maggye na hora pedindo para que ela aceitasse a oferta, qualquer que fosse.
Isso a traz aqui, agora, na festa de estreia.
Todo o elenco está aqui, assim como a maior parte da equipe de filmagem, diretores e roteiristas. E, apesar de todos terem sido gentis nos primeiros dias de gravação e nas apresentações, Lorena ainda se sente estranha. Ela está esperando que as coisas piorem e talvez ela tenha andado negativa nos últimos meses.
Lorena tem um copo de suco de laranja na mão, tentando deixar o mais claro possível pela cor da bebida que o que quer que esteja no copo não é álcool, caso algum jornalista queira escrever sobre isso mais tarde. É nesse momento que Eduarda Fragoso, sua coprotagonista, esbarra nela e deixa o suco de laranja cair em todo o vestido branco de Lorena.
O olhar de puro choque naqueles grandes olhos castanhos é quase cômico se Lorena não quisesse chorar e Eduarda é rápida em desamarrar o lenço que estava usando em volta do pescoço para tentar diminuir o dano causado ao vestido.
— Sinto muito. — As mãos dela são quentes através do tecido do vestido e Lorena sente o corpo inteiro se arrepiar com a gentileza do toque. — Sinto muito, Ferette. Não tinha te visto aqui.
Talvez seja o uso do sobrenome. Talvez seja a frase remanescente dos diretores homofóbicos. Mas a voz de Lorena sai mais fria do que ela havia planejado.
— Não se preocupe com isso, Fragoso. Não será minha primeira capa de revista.
Os olhos de Eduarda se estreitam ao ouvi-la e Lorena se parabeniza por conseguir irritar a colega com quem compartilhará mais tempo de tela antes mesmo de começarem a gravar juntas.
— Olha, Paulinho está aqui por perto, posso pedir para ele te emprestar o blazer dele.
Lorena repassa todos os colegas de elenco e a equipe com quem trabalhou na cabeça. Ela não se lembra de nenhum Paulo entre eles.
Quem caralhos é Paulinho, afinal? E por que Eduarda já tinha proximidade o suficiente com ele para pedir um blazer emprestado? Será que todo o elenco que permaneceu em São Paulo já estava assim, todo entrosado, enquanto Lorena ainda se sentia uma intrusa em Campo Grande? Pior, por que Lorena se importava?
Ela deve ter pensado alto a primeira parte porque a carranca de Eduarda se aprofunda.
— Paulinho é o meu noivo. — Lorena não consegue esconder a surpresa em sua expressão e se sente uma idiota quando Eduarda dá as costas e desaparece entre as pessoas da festa.
Bela primeira impressão, Lorena Ferette.
O que a surpreende é que Eduarda volta, minutos depois, com um blazer nas mãos e ajuda Lorena a se vestir.
— Você pode me mandar a conta da lavanderia depois, eu faço questão.
Lorena se sente repentinamente tímida e arrependida.
— Não precisa, mesmo. — Ela encontra aqueles olhos castanhos mais uma vez. — Me desculpa por como falei antes, fico nervosa em festas assim.
Eduarda sorri, um sorriso pequeno mas bonito o suficiente para Lorena não conseguir desviar o olhar.
— Te entendo, tive que trazer o Paulinho essa noite para conseguir lidar com a festa. — Eduarda desce o olhar pelo vestido de Lorena. — Cinco minutos sozinha e olha o que eu fiz.
— Alguns chamariam de tons de laranja em tela branca. — Lorena brinca e é recompensada por um sorriso mais largo da ruiva, largo o suficiente para pequenas rugas se formarem no canto da boca. É injustamente bonito.
— Vamos? Acho que a exibição do primeiro episódio já vai começar.
Lorena aperta o blazer ao redor do corpo e caminha atrás de Eduarda até a ruiva encontrar um homem mais alto com um sorriso gentil que se inclina para sussurrar alguma coisa na orelha de Eduarda. O gesto é íntimo e faz Eduarda sorrir muito mais abertamente do que qualquer comentário anterior de Lorena.
Eles caminham próximos até a entrada da sala de exibição e Lorena se senta duas fileiras atrás do cabelo ruivo, perto de outros colegas do elenco.
Pelo menos ela conseguiu desfazer o mal-entendido, Lorena pensa. Pelo menos Eduarda não deve achá-la uma idiota antes de suas personagens se encontrarem na série.
Lorena certamente não terá problema nenhum em trabalhar com Eduarda Fragoso.
Quando as luzes voltam a acender, com os créditos subindo na tela, duas fileiras a frente Eduarda ri alto de algum comentário. O som iluminando a sala ainda mais intensamente que as luzes amarelas.
E, bom, talvez Lorena tenha um problema.
