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— Solte ela e eu dou a informação que você quiser. — a voz suave e firme ecoou pela pequena cabana feita de gelo, se misturando ao som esmagador do massacre acontecendo do lado de fora daquelas paredes. Katara piscou algumas vezes, a visão diante dela não desapareceu, não se distorceu em um amontoado de carne queimada e risadas cruéis como costumava fazer em todos os pesadelos. O frio era intenso, quase não se lembrava de como costumava invadir os pulmões e queimar o rosto. Olhou para as próprias mãos, luvas pequenas escondendo dedos menores ainda, que deveriam tremer pelo medo que sentira naquele maldito momento. Uma vida diferente escondida no fundo da mente, batalhas perdidas, sangue derramado, equilíbrio destruído por um homem e enterrado com um garoto. Os espíritos confiaram nela, a única que restou em um mundo reduzido a fogo, cinzas e fumaça.
— Você ouviu a sua mãe. Cai fora daqui. — assim como reconheceu o primeiro timbre, o segundo estaria sempre guardado em seus ossos como uma doença, podridão escondida na alma que nunca desapareceria, independente de quantas vidas vivesse. Yon Rha era assustador no passado, quando Katara não sabia como sujar as mãos de sangue. Ela aprendeu quando tudo ruiu.
As mãos eram pequenas, mas se moveram com a precisão de anos. Nenhuma lua enfeitava o céu, era verão, o sol deslizava pela paisagem em paralelo com a linha do horizonte por meses. Katara sentiu o chamado mesmo sem a influência direta de Tui, a sensação quase inebriante de afundar os dedos na água vermelha, o gosto da vida inundava o paladar com facilidade. Em um segundo, Yon Rha estava tão congelado quanto as paredes que os cercavam. Nem mesmo tremia, o amadorismo do controle tinha sido exterminado um ano depois da morte de Aang, perfeição garantia sobrevivência e tremores não eram perfeitos.
— Você condenou seus homens, Yon Rha. Todos serão engolidos por La, eu não vou descansar enquanto não tiver a certeza de que cada um de vocês apodreceu longe da luz de Agni. — a ameaça parecia estranha em um timbre tão jovem, embora a juventude trouxesse um tipo de horror dificilmente encontrado em vozes amadurecidas. Era errado, antinatural. Palavras que não deveriam ser ditas por alguém de inocência presumida pelo mundo. Katara não olhou para a mãe, sabia que não gostaria do que iria encontrar, foi um erro que parou de cometer dois anos depois da morte de Aang.
Como a marionetista habilidosa que aprendeu a ser, Katara fez com que Yon Rha se ajoelhasse diante de Kya, cabeça baixa e mãos descansando nos joelhos. Um doce cordeirinho, pronto para o abate. A mão direita do soldado agarrou a faca padronizada que todos aqueles sob comando da Nação do Fogo recebiam junto ao uniforme, ergueu a lâmina na frente do rosto, metal bem polido brilhando, olhando para a morte que o aguardava. Katara sentia a relutância, cada tentativa desesperada de retomar o controle que era facilmente frustrada pelo poder esmagador que decidia cada movimento por ele. Yon Rha olhou para cima, pescoço exposto para qualquer golpe que ela escolhesse. Sentiu como o sangue nos olhos dele denunciaram a vontade de olhar para Kya, o desejo por implorar, a última tentativa de um rato de se salvar. A faca foi virada para dentro, fio perfeitamente afiado pressionado na pele, a artéria pulsava sob o metal gelado. Um movimento da mão direita de Katara e Yon Rha cortou a própria garganta em um movimento firme e limpo.
O cheiro metálico se espalhou, o sangue vermelho esfriou no chão gelado, nenhum som de engasgo com o corpo sob influência externa. Yon Rha continuou de joelhos, membros amolecendo devagar, controle sendo lentamente retirado. O corpo sem vida no meio do cômodo não caiu quando as mãos de Katara se abaixaram, continuou onde estava, um monumento mórbido para homenagear a violência utilizada, um símbolo de mudança de um passado que costumava ser, de certa forma, imaculado.
Katara se assustou quando braços a envolveram, quentes e desesperados. Enfiou o rosto nas roupas azuis, o cheiro de ervas secas que estivera tão fraco em suas lembranças era tudo o que conseguia sentir. O coração de Kya batia veloz como o de um pequeno pássaro, sentia na ponta dos dedos o medo que agitava a mãe, a respiração falha enquanto segurava a filha que não sabia já ter perdido. Ela disse algumas palavras, mas Katara não conseguiu ouvir, toda a atenção estava na pulsação ritmada em seus sentidos, o coração que nunca pensou que ouviria outra vez. O som de um grito de horror ao longe a despertou, se afastou de Kya com delicadeza, a mulher não insistiu no aperto. Katara teve coragem o bastante para olhar nos olhos dela, o rosto que tentava guardar na memória com tanto custo nunca pareceu tão vivo em nenhuma delas, sempre era sobreposto pela carcaça queimada encontrada no canto da sala. Kya era deslumbrante, e era como encarar um espelho.
— Eu preciso ir. — as palavras foram ditas com distanciamento notável, o tom era desprovido de qualquer variação, morto. Kya segurou os ombros dela, preocupação brilhando nos olhos azuis, junto a outra coisa mais difícil de identificar. Ou seria, se Katara não conhecesse aquele sentimento como as palmas das próprias mãos. Medo.
— Katara. Você… — ela começou, mas foi bruscamente interrompida quando o punho esquerdo da garota se fechou. Congelada, como uma estátua, como Yon Rha esteve segundos antes de cortar a própria garganta. Katara se afastou, uma figura vermelha correu pela visão periférica, não era relevante, já sabia diferenciar perfeitamente as presenças que realmente estavam lá.
— Eu preciso ir. — repetiu, um pouco mais de emoção injetada nas sílabas, dolorosamente artificial. Os pequenos pés começaram a andar na direção da saída, onde sabia que encontraria caos e guerra, o ambiente que melhor conhecia. Ergueu uma parede de gelo na porta, selando a casa de toda a violência exterior, como se já não estivesse contaminada por ela. Abriu a mão esquerda, ouviu os chamados de Kya e as batidas na parede imediatamente, ignorou os dois.
A neve manchada pela fuligem caía do céu devagar, tão delicada quanto nos momentos em que era límpida. Katara ainda se lembrava das semanas depois do ataque, a fuligem permaneceu no chão por tempo demais, grudada nos telhados e paredes, se recusando a desaparecer. Ela consertaria isso, reconstruiria tudo o que a Nação do Fogo arruinou em suas visitas intermináveis para buscar o último dominador de água no sul. Primeiro, precisava terminar o que haviam começado. Andando pela pequena vila, Katara começou a controlar a batalha, como sempre fazia durante cada tentativa de realizar a segunda queda de Ba Sing Se. Por onde passava, soldados em armaduras vermelhas soltavam suas armas e começavam a andar, sob o olhar confuso e assombrado de diversos sulistas, ovelhinhas caminhando para o abatedouro com docilidade renovada. Katara sentia os olhares queimando a pele quando toda a Tribo da Água do Sul se reuniu para ver o batalhão de soldados da Nação do Fogo ajoelhados no campo aberto onde o navio estava atracado. Olhavam para baixo, perfeitamente posicionados, até mesmo alguns que já não respiravam, atingidos por golpes quando largaram as armas.
Avaliou com cuidado, a busca pelo elo fraco era sempre delicada. Eram dezessete de joelhos, onze deles ainda respiravam e cinco sobreviveriam a uma viagem de retorno. Afrouxou o controle sobre os homens mortos, permitiu que o gelo os engolisse junto aos que sabia que não sobreviveriam, ignorou os gritos abafados abaixo da superfície. Os cinco restantes ficaram de pé, Katara sentia os batimentos desordenados na ponta de cada um dos dedos da mão direita. Polegar para baixo, o pescoço do homem à esquerda foi torcido brutalmente. Ouviu gritos de horror, a figura vermelha sorridente voltou a assombrar a visão periférica. Mindinho para baixo, o homem da ponta direita teve o coração explodido dentro da caixa torácica. Muito bem, Katara. A voz não era estranha, muito pelo contrário, conhecia o timbre tão bem quanto os violentos impulsos cravados na alma. Anelar para baixo, o sangue nas artérias do homem à direita foi puxado para fora como lâminas. A neve acinzentada foi banhada de vermelho vivo. Médio para baixo, sangue começou a escorrer pelos olhos, nariz e orelhas do penúltimo homem de pé, choro escarlate sendo a representação física da vida sendo arrancada. Katara sentiu mãos nos ombros, não olhou para trás, eram frias e as unhas eram longas, quem a tocava daquela forma não estava lá.
Um homem restou de pé. A mancha escura de urina ficou visível no uniforme, uma humilhação divertida demais para negar. Começou a caminhar na direção dele, neve fofa rangendo sob o peso dos pés, embora fosse muito mais leve do que quando o acordo de passado, futuro e presente fora fechado. Os olhos do soldado estavam fixos nela, não sentiu no fluxo do sangue tentativas de desviar, ele desejava encarar a morte de frente. Katara parou perto, dentro do alcance dele, dedos levantados outra vez para refinar o controle, sentia cada reação do corpo, não impediu o arrepio que sabia ter atravessado o corpo dele por inteiro. Ele se abaixou, somente o joelho direito foi ao chão, retirou o capacete pesado, cabelos suados expostos ao frio. Estavam no mesmo nível, olhos escuros nos claros.
— Diga a Ozai, o Usurpador, que a força de La afundou seu navio na volta. Eu vou saber se fizer diferente disso. Um pequeno barco te espera no porto. — a fala era calma e firme, tão fria quanto a brisa suave que os cercava. Ele estava aterrorizado, era claro como o sol da meia noite que os iluminava. O pescoço foi inclinado para trás, olhos fixos no céu de onde a neve suja caía, Katara viu um pequeno floco cair na bochecha do soldado quando posicionou a mão direita na testa dele, cabelos suados entre o polegar e a pele. Tão rápido quanto começou, tudo acabou. O corpo trêmulo caiu na neve, livre do controle ferrenho da dominadora. Katara assistiu com atenção o momento em que ele percebeu a liberdade devolvida, nenhuma tentativa fracassada de ataque, ele rastejou, engatinhou e tropeçou antes de realmente correr. Não retornou à embarcação monstruosa que atracaram, correu para o porto, aterrorizado. Era o suficiente, sabia que a temeria muito mais do que a Ozai quando entendesse o que havia sido arrancado dele.
Voltou-se para a Tribo, os vários pares de olhos azuis como o céu a viam como um monstro desconhecido, um espírito guardião forjado em sangue e terror dominando o corpo de uma doce garotinha. Hakoda escondeu Sokka atrás de Bato antes de começar a andar na direção da filha mais nova, os batimentos dele ecoavam nos sentidos dela com mais força do que no futuro amaldiçoado em que morreu. Katara olhou para a direita, a única figura vermelha que restou de pé, avaliou o sorriso largo e orgulhoso que ela exibia, voltou a olhar para o pai quando a mão dele hesitou em repousar no ombro dela. Ele deve ter dito algo, mas ela não prestou atenção.
Era hora de forjar um novo futuro. Aang acordaria em um mundo sem guerras.
