Chapter Text
Eu nunca parei para pensar nesse tipo de coisa ou como me sinto em relação a isso. Durante a academia as meninas já falavam sobre romance, especialmente a Chocho. Ela acha que todos os garotos (e até algumas garotas) são apaixonados por ela e isso é simplesmente um saco!
Claro, eu imaginei que isso aconteceria eventualmente. Um dia eu me casaria com uma pessoa comum, teria um filho e herdaria o clã como um Shinobi de prestígio, assim como meus pais esperam de mim. Ok, eu tive alguns desvios pelo caminho. . . Eu conheci o Ryogi e então ele me fez pensar que tipo de ninja eu realmente quero ser, não o que esperam que eu seja, então, eu decidi que buscaria meu próprio caminho ninja, seja ele qual fosse. Mas ainda assim, esse plano se manteve e eu não esperava algo diferente. Eu não tinha realmente que pensar nisso, afinal, tenho 15 anos e nenhuma pressa.
As coisas mudaram quando eu estava almoçando com o pessoal no Thunderburguer e o Boruto decide fazer um anúncio. Ele se levantou da cadeira e limpou a garganta fazendo um barulho desnecessariamente alto, mas ninguém esperava algo diferente do Boruto. Quando ele teve a atenção de todos nós, começou a dizer de forma dramática;
_ Meus caros amigos aqui presentes, eu gostaria de fazer um anúncio! Sintam-se privilegiados pois são as primeiras pessoas que estamos contando isso, para mostrar o quanto valorizamos a relação de vocês e-
_ Ai, Boruto, fala logo! Tá todo mundo olhando pra nossa mesa! - Disse Sarada tapando o rosto, visivelmente envergonhada das idiotices do Boruto, como sempre.
_ Aff, sua chata, eu estou tentando dizer o quanto vocês são importantes pra mim e você tá estragando o clima! Então, como eu estava dizendo, nós temos uma novidade para contar, isso pode talvez afetar a nossa relação como amigos, mas eu acho que estamos todos crescidos e amadurecendo, então-
_ Diz logo, para de suspense! - Iwabe interrompeu, já irritado. - E outra, você é a pior pessoa aqui para falar de amadurecimento.
Ele revirou os olhos e se virou para Mitsuki ao seu lado, que deu um de seus típicos sorrisos serenos e assentiu, como se estivesse dando permissão para alguma coisa. Boruto sorriu e forçou a garganta novamente, como se já não tivesse atenção suficiente.
_ Surpresa; eu e o Mitsuki estamos oficialmente namorando! - Ele pegou a mão de Mitsuki e levantavou para que todos vissem que agora eles usavam aneis de comprometimento, Boruto uma dourada com uma pedra amarela, e Mitsuki uma prata com uma pedra azul.
_ Chocho me deve 20 pra- Chocho tapou a boca do Inojin antes que ele pudesse terminar.
_ Aí meu deus, meus parabéns!! Eu sabia, eu sempre soube! -
Todos começaram a parabeniza-los e outros, vulgo, Inojin e Iwabe, a perguntar ao Mitsuki se ele tinha certeza que o Boruto era a melhor escolha, o que não deixou ele nada feliz e o Mitsuki assentiu diversas vezes e fazia questão de destacar que não podia estar mais feliz.
_ Então, o Boruto finalmente tomou vergonha na cara e te pediu em namoro, né? E até suas alianças são combinando! Que fofo! - Chocho disse ao Mitsuki, que assentiu rindo.
_ Por um momento eu achei que ele estava me pedindo em casamento. - Mitsuki disse, fazendo todos rirem, e Boruto virar o rosto envergonhado, enquanto coça o pescoço.
_ Pois é, amiga, finalmente! Eles são simplesmente insuportáveis nas missões, vivem grudados! Eu tenho que ter muita paciência mesmo.
_ Ah, que mentira! - Boruto protestou. - É você quem adora uma desculpa para ficar sozinha com o Kawaki!
Eu acho que nunca vi a Sarada tão vermelha quanto naquela hora. Chocho arregalou os olhos e abriu o maior sorriso.
_ Ah, eu sabia! Vocês tem tipo, tudo haver! Na verdade, a gente estava até mesmo apostando quem ia desencalhar primeiro, mas parece que o Nojinho ganhou! Quem diria.
_ Eu e o Kawaki?! Não, nada haver!!
E quando menos percebi, todo mundo estava falando sobre o relacionamento alheio (ou a falta dele). Chocho ainda acha que tem um admirador secreto, Sarada nega a todo custo que gosta do Kawaki e Boruto e Mitsuki falam como foi que finalmente começaram a namorar, depois de tantos anos nessa enrolação. Não que seja uma grande novidade, afinal, Wasabi e Namida já estavam saindo a um tempo, então eles não são os primeiros do grupo a desencalhar. Eu não sei dizer se é uma surpresa, Chocho e Inojin haviam literalmente apostado que eles namorariam, então não sei porque estou pensando tanto nesse assunto, quer dizer, era totalmente esperado, Boruto e Mitsuki são grudados desde a academia, fazem tudo juntos e facilmente dariam a vida um pelo outro, então, na realidade, acho que era tão esperado que não chega a ser um acontecimento relevante, mas estou feliz por eles.
Após uma hora, nós nos despedimos e começamos a nos recolher para nossas casas ou compromissos. Eu e Boruto íamos na mesma direção, então eu o esperava para poder pegar o trem, e quanto ele se despedia do, agora, namorado. Boruto e Mitsuki sempre foram melosos, mas então eles se beijaram, na boca, como dois apaixonados. Um disse que o amava, o outro disse que amava mais, e então começou uma discussão de quem se amava mais e eu tive que puxar Boruto ou então ficaria ali o dia inteiro e eu não tenho estômago pra isso.
Estavamos no topo do trem trovão, algo que não fazíamos a bastante tempo.
_ Então, você e o Mitsuki, né? Depois do festival, estávamos só esperando o anúncio. - Dei um saquinho no ombro dele, que ainda estava com um sorriso idiota e corado. - Mas ei, agora você precisa ter responsabilidade! Não seja idiota com ele.
_ Ei, você não é minha mãe! Aí caramba, como é que eu vou contar a mamãe?! -
_ você ainda não contou? -
_ Eu disse que vocês eram as primeiras pessoas que a gente estava contando! Mas, cara, vai ser um saco contar isso pros meus pais! -
_ Se eu fosse você, estaria mais preocupado em contar ao pai do Mitsuki. - Sorri brincando, mas então vi a face de Boruto ficar branca. - Ei, era brincadeira! Relaxa! Quer dizer, não pode ser tão ruim, vai ser um saco de qualquer jeito.
_ Aí meu Deus, eu tô tão ferrado!! - gesticulou de forma exagerada - eu nem sei se é minha sogra ou meu sogro!
_ Há, você tá muito ferrado! Boa sorte! - eu disse enquanto ria.
_ Você só ri assim porque não tem uma sogra ou sogro que pode te matar! Na verdade, você não tem nem sogra ou sogro nenhum, né.
_ E estou muito bem assim, obrigado. Sinceramente, eu não sei o que tem de extraordinário nessas coisas de namoro. Quer dizer, você e o Mitsuki já eram super melosos antes, nem faz tanta diferença agora.
_ É claro que faz! Agora eu tenho uma ótima justificativa para ficar bravo se eu ver alguém dando em cima dele.
_ Você já ficava de qualquer forma.
_ É, mas agora a Sarada não vai me julgar por isso. A gente também pode andar de mãos dadas, e a mão do Mitsuki é macia e fria, é confortável ficar junto dele.
_ Isso é muito específico.
_ E eu posso beijar ele, que é tipo, a melhor parte. Nosso primeiro beijo foi perfeito, os nossos lábios-
_ Tá, chega, isso realmente não me interessa. - me arrepiei com essa ideia super estranha sobre beijos. - felicidades para vocês, mas se me deixarem de vela eu juro que-
_ Não se preocupe, Shikadai, você já tem lugar garantido como meu padrinho de casamento.
_ Credo, não é muito cedo para pensar nisso?! E quem disse que eu quero ser seu padrinho? -
_ Eu já planejei meus votos de casamento, quer ouvir?! -
_ Eu juro que vou teempurrar desse trem. -
Felizmente eu cheguei no meu ponto e pulei para fora do trem, me balançando no poste até chegar ao chão.
Caminhei até em casa um tanto pensativo, recapitulando toda essa conversa sobre romances e namoro que rolou o dia inteiro. Durante o caminho para casa passei por um casal, um pouco mais velhos que eu, caminhando de mãos dadas. Acenaram para mim e eu correspondi o cumprimento.
Fui me aproximando de casa e pensei que, a ideia de ter alguém de confiança do lado não parece tão ruim assim. Deve ser bom poder contar com alguém pelo contar resto da vida, principalmente nos momentos difíceis, embora isso ainda pareça uma ideia distante.
Tirei os sapatos quando entrei em casa e fui recebido pelos meus pais, eram raros os momentos de encontrar eles de folga. Para variar, minha mãe estava brigando com o meu pai o mandando guardar as roupas limpas no guarda-roupas, e ele dizendo que já ia fazer isso.
Fui de fininho até a sala, esperando que ela não me visse e decidisse brigar comigo também.
Organizei o tabuleiro de shogi e comecei a treinar a última estratégia que aprendi, quero estar pronto para derrotar o Ryogi quando nos vermos mais tarde.
Não tenho certeza quanto tempo passei ali, mas foi o suficiente para eu sentir fome. Estava pronto para me levantar quando meu pai chegou e se sentou na minha frente.
_ Oi, Shikadai! Eu teria vindo mais cedo, mas sua mãe decidiu que cortaria meu pescoço se eu não guardasse as roupas. - Ele deu um riso enquanto organizava o tabuleiro para um novo jogo.
_ Tenho certeza que você concordou com esse termo no contrato quando decidiu se casar com ela. - eu disse e meu pai riu, concordando.
_ pode ter certeza. -
_ Ela sempre foi brava assim? -
_ Ah, bastante! Desde que era adolescente. -
Eles se conheceram ainda na adolescência, não é? Eles deviam ter mais ou menos minha idade.
_ Como vocês se conheceram? Vocês se apaixonaram logo de cara? - me arrependi de ter perguntado assim que vi meu pai me encarando com a sobrancelha arqueada e um sorriso de lado.
_ Ué, de repente ficou interessado em romance? -
Senti minhas bochechas esquentarem.
_ É só curiosidade! Credo! -
Ele deu risada, movendo a peça no jogo. Eu fiz minha jogada logo depois.
_ Eu e sua mãe nos conhecemos no nosso primeiro exame Chunnin. Ela era bem durona e me deu bastante trabalho na nossa batalha. Depois disso nos encontramos de novo na minha primeira missão como Chunnin, ela me ajudou a derrotar uma Kunoiche da vila do som.
_ Ah, então ela te salvou.
_ Se você quiser ver por esse ângulo, pode ser, mas eu tinha tudo sob controle! Bom, depois de algum tempo eu passei a ser sua escolta sempre que ela, como princesa da areia, vinha para Konoha, acabamos passando bastante tempo juntos, nós nos tornamos bons amigos. - moveu mais uma peça, o jogo estava bem encaminhado.
_ Então não foi aquela coisa de amor a primeira vista? - Movi meu rei de lugar.
_ Amor a primeira vista pode funcionar para alguns, mas para a maioria das pessoas, o amor surge de uma boa amizade. Eu e sua mãe saímos no nosso primeiro encontro oficial pouco antes do casamento do Naruto, e sim, ela sempre foi brava - deu uma risada, mas então olhou para mim e sorriu. - mas ela tem um sorriso muito gentil também.
Amor surge de uma boa amizade, heim? Acho que isso faz sentido.
_ Xeque-mate. - eu disse rapidamente.
_ O que?! Como eu não vi isso? -
_ É uma nova estratégia que aprendi com o Ryogi. -
_ Impressionante. - Vi ele me encarar, não soube dizer o que estava pensando. - Pretende chamá-lo para jantar aqui de novo? -
Essa pergunta foi meio repentina mas sorri com a ideia.
_ Pode ser. - Respondi. - Se ele aceitar, acho que a mamãe deixou ele envergonhado da última vez.
_ Ela gosta de fazer os convidados se sentirem bem-vindos, e ele é sempre bem-vindo.
_ É, eu sempre digo isso a ele. - falei um pouco desconfiado.
_ Ele é um bom garoto, acho que você parece mais a vontade em trazer ele do que o Boruto.
_ Ok, já está parecendo forçado, pai. - Dei um riso, embora tenha sido bem estranho. - Posso chama-lo mais vezes, já que vocês parecem gostar tanto dele.
Rimos e fomos para a cozinha, a onde mamãe já estava servindo o chá.
Pouco antes do entardecer eu peguei meu tabuleiro de shogi e sai, avisando que voltaria mais tarde. Eu não sei bem o que havia diferente hoje, não sei se todos os casais de Konoha decidiram ter um encontro no parque em uma sexta-feira aleatória de setembro, ou eu que estou prestando muita atenção na vida-alheia. Mas o parque estava cheio de adolescentes da minha idade e alguns até mais novos, ou adultos em encontros românticos, sempre em pares. Reconheci dois deles como sendo ex-colegas de academia. É meio estranho pensar como a maioria dos meus amigos já tem namorado, namorada ou alguém que estão flertando, não que eu sinta falta disso, nem tenho pressa, mas não consigo não pensar que estou ficando para trás. Quer dizer, já estamos na idade para isso, não é? E apesar de ser cedo para pensar nisso, vamos não casar uma hora ou outra. Nossa, isso tudo é um saco!
_ Hei, achei até que não viesse. - ouvi aquela voz familiar em minha frente.
Ergui a cabeça e me deparei com o seu sorriso sereno e olhar convencido de quem sempre ganha apostas de shogi e está pronto para ganhar mais uma, mas eu não vou pegar leve. Os cabelos dele agora estavam amarrados e caiam sobre o ombro, ainda eram curtos, mas ele não havia cortado desde os nossos 13 anos. Apesar do frio de setembro, ele sempre usava roupas leves, já que não fazia diferença se ele podia simplesmente regular a própria temperatura.
_ Desculpa, o dia foi bem corrido, sabe como é. - sorri e sentei em frente a ele, abrindo o tabuleiro no banco. Ele pegou as peças e começou a organiza-las.
_ Sei, eu entendo. Você estava com aquela cara, aposto que estava pensando "mas que saco"!
_ Ei, você tá lendo mentes agora?
_ Haha, só a sua, você é bem expressivo.
_ É sério? Bom, eu tenho que melhorar isso, ser expressivo não é bom para um extrategista.
_ Isso é verdade. Mas então, meus poderes de ler mente não vão tão longe. No que você tava pensando?
Pensei se eu deveria contar. Eu e o Ryogi sempre conversamos sobre tudo, mas acho que nunca falamos sobre romances ou essas coisas melosas, não é do nosso interesse, e acho que isso é o mais legal de conversar com ele, nós somos parecidos, não dizemos ou fazemos coisas só porque todo mundo faz ou diz, simplesmente fazemos o que faz sentido para nós. Podemos ficar na mesma sala, cada um lendo seu próprio livro por horas sem ninguém dizer uma palavra e está tudo bem.
_ Não se preocupe, não é nada demais!
_ Tudo bem, então. Eu começo. - Ele moveu uma peça.
É simples assim, sem interrogatórios, sem julgamentos.
Boruto é meu melhor amigo, nós praticamente crescemos juntos, sabemos de tudo da vida do outro e somos sempre a primeira opção um do outro. Mesmo assim, se eu fosse escolher alguém para dividir minha vida, seria o Ryogi. Acho que minha relação com ele pode ser equivalente ao Boruto com o Mitsuki, somos simplesmente compatíveis. Não digo que concordamos em tudo, claro que não. Temos nossas opiniões e visão de mundo, mas lidamos bem com isso. Quando estou errado o Ryogi faz questão de apontar, e por mais que seja duro as vezes, acho que preciso disso. Ele foi minha principal motivação para ser quem eu sou hoje, me fez perceber o quão acomodado eu estava, que dizia que tudo era um saco mas nunca me esforçava para mudar. Graças a ele, eu tenho me esforçado mais, dominado jutsus difíceis, e cada vez mais perto do meu objetivo de me tornar um ninja que protege as pessoas, e o Ryogi é uma delas, quero poder protege-lo e ajuda-lo a encontrar seu próprio caminho ninja, ou qualquer outro.
Ele ainda olhava para o tabuleiro de Shogi, com a mão no queixo enuqnsto pensava. Era até fofo a forma como a boca dele fazia bico e mordida a bochecha sempre que estava encurralado, e as sobrancelhas se franziam enquanto bolava uma estratégia. Ele deve ter percebido meu olhar sobre ele, pois me olhou logo em seguida e ergueu uma sobrancelha.
_ Que foi? -
_ Nada. - Voltei a olhar para o tabuleiro, um tanto envergonhado por ter sido pego no flagra o admirando. Isso tem sido cada vez mais comum nos últimos tempos.
As vezes o Ryogi janta na minha casa, as vezes eu durmo na casa dele quando ele está se sentindo sozinho, e a algum tempo fomos juntos ao festival de fogos de artifício, acho que ele é minha companhia favorita.
Depois dos problemas com a gangue Byakuya, com a ajuda do Boruto, nós conseguimos que nossos pais dessem uma colher de chá a ele, sendo assim, ele foi submetido apenas a um trabalho voluntário durante alguns meses, o que acabou sendo menos pior pois eu o fazia companhia sempre que podia. O Shino Sensei foi um grande apoiador de seu perdão, pois sendo o tutor da Sumire, que assim como o Ryogi, é órfã, ele já estava familiarizado com esse tipo de caso. A Sumire se ofereceu para conversar com o Ryogi e o convidou para uma ou duas sessões de terapia em conjunto durante o processo de adaptação dele. Conseguimos um apartamento no mesmo prédio do Mitsuki, e em geral, a galera acolheu bem ele, estando todos dispostos a o fazer encontrar um lar em Konoha. Foi tudo um grande trabalho em equipe. Mesmo assim, eu estava no meio de tudo, buscando toda a ajuda possível. Acho que, uma semana antes do Ryogi aparecer em minha vida eu não me imaginava tão envolvido em algo simplesmente para ajudar alguém, mas não me arrependo de nada e tudo o que eu puder fazer para faze-lo se sentir acolhido, eu farei.
_ E eu ganhei. - Ryogi disse, chamando minha atenção para o jogo. - Xeque.
_ O que? De novo?! -
_ Não teve graça, você nem estava tentando. - Ele fez bico, o que me tirou uma risada. Ele pode ser fofo quando quer.
_ Desculpa, eu estava me lembrando de umas coisas. -
_ Que tipo de coisa? Se algo te incomodar, você pode me contar. -
Sorri para ele.
_ Na verdade, estava lembrando de quando nos conhecemos. Sabe, você costuma dizer o quanto é grato por tudo o que eu fiz por você, mas eu quase nunca agradeci por tudo o que você me fez. -
_ Quer dizer, te arrasar todas as vezes que jogamos? -
Revirei os olhos e ri, obviamente já esperava isso dele.
_ Quero dizer que você me motiva a dar o meu melhor. Me fez questionar coisas que não questionava, me fez perceber que eu não posso reclamar que não gosto de algo se eu não faço nada para mudar. É sempre bom estar com você. -
_ Nossa, você é tão meloso! - ele desviou o olhar com as bochechas levemente vermelhas. - Eu não fiz tudo isso, você é bem mais incrível que eu. -
_ Eu só quero que saiba que você é importante pra mim. - Falei, mas queria dizer mais, eu quero dizer mais, porém as palavras estão presas em minha garganta. Eu gostaria de dizer que ele me faz bem, que é uma das pessoas mais especiais da minha vida. Quero dizer que vou protegê-lo, e cuidar dele como ele merece ser cuidado, quero dar a ele o amor que ele merece receber e gostaria de ouvi-lo dizer que tudo isso é recíproco, que ele me quer em sua vida assim como eu o quero na minha! Mas eu não disse. Eu não consigo dizer pois tudo isso parece algo que você diria para alguém que você está apaixonado.
Será possível? Eu posso estar apaixonado pelo Ryogi?
Essa ideia não me desagrada, na verdade. Penso que, se é para amar alguém, que seja ele, alguém que me faz bem ao ponto de perder a noção do tempo, que confio minha vida de olhos fechados, e eu não me importaria nenhum pouco em dividir minha vida com ele. Eu poderia segurar sua mão? Definitivamente é fria, mas se eu a segurasse, sentiria nossas palmas se encaixarem? Será que eu ficaria chateado se o visse tão próximo de outra pessoa? Eu olho para o seu rosto, ele ainda me encarando com olhos serenos, mas brilhantes e profundos, parece preocupado por me ver calado a tanto tempo. Olho para sua boca entreaberta, mas eu não sinto nada. Eu deveria sentir borboletas na barriga? Deveria sentir uma necessidade intensa de beijar seus lábios? Um beijo deveria ser o primeiro vínculo selado entre duas pessoas apaixonadas, como uma confirmação ou simplesmente um sinal de que é para acontecer. . . Mas eu não sinto isso. Simplesmente não parece certo. Essa imagem passa pela minha cabeça e eu não sinto absolutamente nada pois talvez, para mim isso não faça o menor sentido. Eu não sinto vontade de toca-lo e o trazer para perto. O que eu estou sentindo senão poderia estar apaixonado? Perto dele eu sinto uma paz que não sinto perto de mais ninguém, sinto necessidade de protegê-lo e é algo que eu faço por mim mesmo, não mais algo que esperam de mim, mas tocar seu rosto parece simplesmente errado. Então, como posso dizer que quero passar minha vida ao seu lado se não sei se realmente estou apaixonado?
_ Estou ficando com sede. - Ele disse repentinamente. Então percebi que eu parecia completamente alheio e totalmente idiota. - Quer beber alguma coisa? Acho que tem uma casa de chá aqui perto.
_ Ah, claro! Por mim tudo bem. -
Vi ele se levantar e pender a cabeça de lado enquanto parava na minha frente, esperando que eu me levantasse também. Ele fechou os olhos e sorriu. Lembrei das palavras do meu pai nesse momento "ela tem um sorriso muito gentil". Será que é isso que ele sente quando vê o sorriso da mamãe? Eu não sei o que estou realmente sentindo, mas eu senti meu coração pular por conta de um sorriso, então um beijo não deve ser tão importante assim para definir tudo.
_ Sabe, meus pais estão perguntando quando você vai jantar lá de novo. - Falei enquanto guardava o tabuleiro de shogi. - eles realmente gostam de você, estou até com ciúmes. - ele riu.
_ Eles são mesmo muito legais. Você tem muita sorte. -
_ Você quer se juntar a nós essa noite? -
_ Hoje? Eu não quero incomodar. -
_ Você não vai! Eles adorariam ter você em casa, e eu também gostaria.
_ Bem, acho que não posso recusar. - Suas bochechas pareciam levemente vermelhas, era difícil ver ele com vergonha. - Sendo assim, me deixa pagar o chá. - começou a caminhar em direção a saída do parque.
_ O que? De jeito nenhum. -
Fomos para a casa de chá enquanto discutiamos quem era o mais gentil e pagaria o chá para o outro. No final das contas, Ryogi venceu, mas eu não me importo muito, afinal, ele irá jantar na minha casa hoje e eu farei o possível para ele se sentir confortável.
Quando chegamos em casa o sol já havia caído e os postes de luz começavam a acender. Entramos e tiramos os sapatos.
_ Estou em casa! - Gritei da entrada, logo depois minha mãe veio nos receber.
_ Isso são horas de chegar? Ah, Ryogi! Seja bem-vindo. O Shikadai não estava te dando trabalho, não é?
_ Claro que não. - Ele riu juntamente com a mamãe.
_ Eu o chamei para jantar aqui hoje, se não tiver problema. -
_ tomou vergonha na cara, heim? -
_ Mãe!! - Ela sempre faz questão de me envergonhar na frente dele.
_ Entra e fica a vontade, Ryogi, daqui a pouco a janta tá pronta. -
_ Muito obrigado por me receber, Senhora Temari. -
Não pude evitar sorrir com isso. Tirei meus sapatos e coloquei no chão ao lado de duas sandálias que não pertenciam a ninguém de casa, então, reconheci como sendo do Velho Enchu, o ancião do clã Nara. Ele tem a fama de ser um pé no saco, basicamente a pedra no sapato do meu pai, e meu também.
Minha mãe deve ter percebido que eu estava encarando essas sandálias e disse:
_ É, ele está lá na sala com o seu pai, mas já já vai embora, não tem que se importar com isso.
Eu assenti e me virei para o Ryogi.
_ Vamos para o meu quarto, podemos jogar shogi lá.
Ele assentiu e fomos em direção ao quarto, passando pelo corredor e pela sala que estava fechada. Queria passar dali o mais rápido possível, mas parei ao ouvir meu nome ser citado. Ryogi parou ao meu lado e me encarou. Ele ficou visivelmente surpreso ao ouvir as palavras "Shikadai" e "decepção" serem citados. Começamos a prestar atenção na conversa abafada.
_ Ele já cumpriu diversas missões de alto Rank de forma bem sucedida e dominou o jutsu de sombra paralisante e o estilo vento com perfeição, então eu creio que o senhor esteja subestimando o meu filho.
_ Vivemos tempos de paz, missões de Rank menores que S não trazem o prestígio que nosso clã merece. Quando você vai parar de passar a mão na cabeça daquele menino?
_ Vamos deixar o Shikadai fora disso? Ele é só um garoto.
_ Ele é quase um homem. Já tem o que, 15 anos? Logo ele será um adulto e você acha mesmo que ele está pronto para herdar esse clã?
_ Garanto que quando for a hora ele estará pronto, mas até lá, ele tem muito tempo para amadurecer.
_ Até lá ele tem tempo de encontrar uma esposa, é isso que ele deve fazer. Uma mulher de honra e digna do clã Nara. Devemos encontrar candidatas de clãs poderosos para que a próxima geração herde esse poder.
_ Você está sugerindo um casamento arranjado?!
_ Uma união de negócios que beneficiará as duas famílias. Os anciões dos clãs Yamanaka e Akimichi devem concordar, afinal, soube que eles também não tem estado decepcionados com o desenpemho dos membros do Ino-shika-cho dessa geração. Seria essa uma oportunidade de unir ainda mais nossos clãs, com pretendentes dos ramos secundários do clã Yamanaka e Akimichi para o Shikadai. Também há aquela garota Uchiha, sem dúvidas tem grande potencial. Uma união de porder assim-
_ Certo, eu acho que já chega disso. Eu jamais vou submeter o meu filho a algo tão antiquado e invasivo como um casamento arranjado, e duvido muito que qualquer um dos outros clãs concordem com isso também. O meu filho terá total liberdade de escolher com quem irá se casar e nenhum de nós tem que se envolver nisso. Portanto, se pretende continuar insistindo nessa ideia, eu peço que se retire agora mesmo.
Eu e Ryogi nos afastamos da porta assim que ouvimos eles se levantarem.
_ Desculpe, eu acho que não foi um bom momento para eu vir. - Ele estava prestes a se virar mas eu segurei a mão dele, puxando para mais perto.
_ Não, por favor. . .
Antes que eu pudesse dizer mais, a porta foi aberta e meu pai saiu ao lado do Sr Enchu. Meu pai ficou surpreso em me ver enquanto o velho semicerrou os olhos e trocou o olhar entre mim e Ryogi.
_ Ah, Shikadai. Se seu pai não fosse tão superprotetor eu teria conversado com você a sós. E quem é essa? Vejo que já tem uma-
_ Eu sou um garoto. - Ryogi disse, interrompendo ele. Percebi que ele não tinha uma cara nada amigável para o Senhor Enchu. Eu gostei muito disso.
_ Ah. . . - ele ficou visivelmente desconfortavel, mas fez uma cara pior ao ver nossas mãos ainda juntas. - Certo, entendi o que está acontecendo aqui. Bom, acho que terei que fazer milagre para colocar você no caminho certo, e resolver essa situação.
_ Não há nada que precise ser resolvido aqui. - Meu pai disse firmemente, enquanto observava o Sr Enchu caminhar até a saida. Só voltamos a falar quando ouvimos a mamãe bater forte a porta, e gritar algo como "Velhote desgracado".
Meu pai suspirou profundamente.
_ Não sei o quanto vocês ouviram, mas sinto muito por isso. Você não deve se importar com nada do que ele disse, filho.
_ É, eu sei. - Respondi rapidamente, mesmo que toda aquela conversa ainda estivesse se remoendo em minha mente.
_ Sinto muito por isso, Ryogi, o Sr Enchu é bastante. . .
_ Desagradavel? Ele disse coisas horríveis sobre o Shikadai! - Ele disse visivelmente irritado.
_ Não se preocupa com isso, a gente aprende a só ignorar. - Falei tentando o tranquilizar. - Tá tudo bem!
_ Não, isso é- Eu apertei um pouco mais a mão dele, negando com a cabeça, e ele abaixou o olhar, ainda visivelmente irritado.
_ Eu vou ajudar sua mãe com o jantar. - Meu pai suspirou e pôs a mão em meu ombro, antes de caminhar em direção ao corredor. Antes de entrar na cozinha ele deu uma rápida olhada para nós. - Confio em você para cuidar dele, Ryogi.
Fomos até o meu quarto.
_ Desculpa por isso, o Sr Enchu pode ser bem problemático. . . -
_ Ele é terrível! Porque você deixou ele falar assim de você?! -
_ Percebemos que não adiava de nada discutir com ele, então apenas ignoramos. -
_ E toda essa ideia maluca de casamento arranjado?! -
_ Ele já tentou me transformar em um político, me fazer desistir de ser ninja e já até mesmo sobrou para o Boruto por ele ser filho do Hokage e eu filho do acessor do Hokage, eu acho que ele é capaz de inventar qualquer coisa para "trazer prestígio ao clã". -
_ Nossa, isso é uma droga. . .
Eu tentei não olhar para Ryogi, pois sabia o quanto ele estava incomodado com aquela situação. Eu queria dizer que estava tudo bem, e que eu não me importava, mas eu nunca conseguiria mentir para ele, isso tudo é uma drogs completa!!
Cai para trás na cama e cobri meu rosto com as mãos, abafando meu grito irritado.
_ Mas que saco!! - Falei mais baixo após o surto.
_ Shikadai, você tá bem?! - Ryogi disse em um tom elevado, me fazendo olhar para ele. - Você está alheio o dia todo! Eu não gosto de me meter em sua vida, mas você sempre me diz para não esconder o que me faz mal, então por que você não diz o que está passando?! Esse velho é um saco, mas claramente tem algo mais te incomodando. - Ele me olhava firmemente, era um pouco intimidador.
_ Ryogi eu. . . - "eu gosto de você " eu quero dizer, mas simplesmente não sai. Eu não posso estragar nossa amizade ao proferir quatro palavras que eu sequer sei o significado. E se eu disser? O que vai acontecer? Ele poderia gostar de mim também? E depois?! Iríamos namorar? O que significa andar de mãos dadas, nos anunciar para todos que conhecemos, nos beijar! Então eventualmente nos falaríamos e teríamos filhos. . . Como herdeiro do clã eu terei que fazer isso algum dia, mas de todas as coisas que eu tenho que fazer, por que essa parece a pior?! Mas eu sinto que se não escolher logo, alguém vai escolher por mim. - Eu sou o herdeiro do clã Nara, nós temos uma linhagem muito antiga. Cuidamos da floresta Nara muito antes de Konoha ser fundada. Também temos uma tradição antiga, a formação Ino-shika-cho, então meus antepassados já faziam times com os antepassados da Chocho e do Inojin desde sempre, não é realmente algo que escolhemos, é simplesmente esperado de nós. Meu avô foi um herói em duas grandes guerras, meus pais são heróis da quarta grande guerra! Minha mãe é princesa de Suna e eu sou o segundo na linha de herdar o título de Kazekage! Eu só estou simplesmente cansado de esperarem tanto de mim! Eu sigo regras que não criei e por quê?! Sempre que eu penso que estou no controle da minha vida eu percebo que eu não faço a menor ideia o que estou fazendo! Eu só não entendo o porquê! Nada disso faz sentido! São tradições antiquadas que as pessoas ainda seguem sem questionar o porquê! Tudo isso é simplesmente tão "Normal" que ninguém percebe que não faz o menor sentido! Ou talvez não faça o menor sentido para mim e isso tudo é um saco! - Eu respirei fundo, soltando um suspiro cansado. - Eu odeio o fato de que sempre vão escolher por mim.
Senti um peso no colchão ao meu lado. Eu me levantei e percebi que Ryogi me encarava seriamente.
_ Você não é um peão. Você me disse isso a muito tempo. Eu entendo você, alguém mil anos atrás decidiu que esse mundo era o certo a se viver e agora nós seguimos isso. Isso é simplesmente idiota. Mas você não é um peão para ser usado pelos outros! Eu acho que não podemos escolher quem são os nossos pais, mas você não é obrigado a seguir os passos deles! Você não precisa deixar que alguém diga o que você pode ou não fazer! - Ele segura minha mão firmemente.
_ Ryogi, eu acho que gosto de você. -
_ Uh. . . O que? -
_ Eu não sei quem foi que decidiu que existia um jeito de amar, mas eu não consigo ser assim. Eu não quero ser assim. Eu não posso te beijar ou me agarrar a você, eu não tenho a mínima vontade de estar agarrado a qualquer pessoa, mas você não é como qualquer pessoa. Você é meu amigo mais íntimo, é alguém que eu consigo amar. Posso confiar em você de olhos fechados e se eu tiver que escolher alguém para estar do meu lado e ser meu companheiro nessa vida, eu quero que seja você. Eu ainda não sei o que é isso ou se sequer faz algum sentido, e eu odeio não saber das coisas. Eu costumo dizer que romances não fazem sentido mas você e o que eu sinto por você faz muito sentido para mim.
Encarei ele por alguns segundos, vendo sua face compreender tudo o que eu disse. Não foi muito tempo, mas foi o suficiente para meu coração palpitar e meu estômago embrulhar, com medo do que poderia ouvir. Porém ele apenas segurou minha mão com as duas mãos, me puxando para mais perto dele.
_ Isso faz sentido para mim também. - disse com um sorriso gentil - Eu também gosto muito de você Shikadai, e eu simplesmente não faço a mínima questão de toda essa história de proferir juras de amor ou ficarmos nos agarrando por aí. - Deu uma risada, embora ele não faça ideia do quanto essas palavras me fazem sentir compreendido. - Eu te amo e podemos fazer isso do nosso próprio jeito.
_ Eu também te amo. . . Do nosso jeito, e eu juro que essa é uma escolha só minha.
O Puxei para um abraço apertado, afundando meu rosto em seu ombro. Senti suas mãos em minha nuca enquanto s o abraço apertava mais. Não senti vontade de largar ou ir mais fundo. Não me sinto atraído por seus lábios ou seu corpo, mas pelo seu sorriso gentil e tudo o que ele tem e é e representa. Sinto que nossos corações se encaixarem perfeitamente, e só isso importa para mim.
Eu e a galera estamos no parque em uma quarta-feira aleatória no fim de setembro. As árvores já são alaranjadas e vermelhas, outras já estão perdendo todas as folhas, ganhando a cara do outono.
_ Esses dois são simplesmente insuportáveis. - Kawaki comentou enquanto dava um passo distante de Boruto.
O mesmo se encontrava dando um beijo na bochecha de Mitsuki depois de ajuda-lo a amarrar seu cachecol.
_ Nem me fala. - Sarada revirou os olhos, mas deu uma risada.
_ Eu acho eles insuportavelmente fofos. - disse Chocho.
_ Só insuportáveis. - Inojin disse, recebendo um empurrãozinho de Chocho.
_ Eu nunca vi um gay tão homofóbico quanto você.
_ Olha aqui sua-
Ryogi riu da cena, entrelaçando seu braço em meu ombro, me causando um rápido arrepio.
_ Ei, você tá gelado! Não coloca sua mão tão perto da minha orelha! - Eu disse, mas isso o fez rir.
_ Quem tem mão gelada tem coração quente, sabia? -
_ Sabia sim. - passei meu braço pelas costas dele, o abraçando pela cintura.
_ Uau, desde quando vocês são tão próximos? - Inojin ergueu a sobrancelha na minha direção.
_ É verdade, eu também percebi, o Shikadai prefere sair mais com você do que com a gente. - Chocho apontou para Ryogi. - Por que está roubando o Shikadai de nós?!
Ryogi riu enquanto eu fiquei envergonhado.
_ Desde quando vocês são tão super protetores? - Perguntei.
_ Desde quando o ruivinho é prioridade? - Inojin ergueu a sobrancelha.
_ Desculpem, agora vão ter que dividir o Shikadai comigo. - Ryogi falou, os fezendo ficar completamente indignados.
_ O que?! Isso é um absurdo! - Chocho arfou de forma exagerada.
_ Vocês estão namorando ou coisa assim?! -
Eu e Ryogi nos olhamos, ele soltou uma risada e eu dei de ombros.
_ Coisa assim. - eu respondi.
_ É definitivamente alguma coisa. - ele disse.
_ Uma coisa só nossa. -
Continua. . .
