Chapter Text
“A amizade é desnecessária, como a filosofia, como a arte...
Não tem valor de sobrevivência; ao contrário,
é uma daquelas coisas que dão valor à sobrevivência.”
― C. S. Lewis
Voltar à escola, depois de tudo o que acontecera, foi difícil para Harry Potter. Muitos outros tiveram dificuldades para lidar com essa nova era. Nada de caça, nada de Carrows e, claro, nada de Voldemort. Em vez disso, Harry Potter e seus amigos tiveram que lidar com algo, olhando para os anos anteriores, que Harry achou muito mais assustador: os NIEMs.
Continuar os estudos era inevitável se ele ainda quisesse perseguir seus sonhos como caçador de bruxos das trevas, o que o Salvador do Mundo Bruxo tinha todas as intenções de fazer. Mas para se tornar um auror, ele precisava terminar sua educação em Hogwarts e receber pelo menos notas acima das expectativas em todas as suas disciplinas. Então, para isso, Harry, Ron, Hermione e muitos outros alunos que haviam perdido o último semestre retornaram à escola. Até mesmo Neville pediu para ser admitido de volta ao sistema educacional mágico, sua justificativa foi que ele não aprendeu muito no último semestre além de, primeiro, como lançar a Maldição Cruciatus (que ele se orgulhava de dizer que nunca conseguiu fazer), segundo, como matar cobras venenosas (na qual seu desempenho foi excepcional) e terceiro, como sobreviver sendo assombrado (na qual ele também fez um trabalho excepcional, superando as expectativas de todos, até mesmo as suas próprias).
Curiosamente, porém, Harry e, secretamente, muitos outros também não apreciavam a vida tranquila em Hogwarts. Afinal, estavam acostumados a ser constantemente desafiados, a ter experiências de quase morte, a lutar contra Dementadores e Basiliscos, a fugir de aranhas gigantes, a ser possuídos por Voldemort, a assaltar bancos a bordo de dragões e a outros eventos terríveis. Para Ron e Harry, nem mesmo o Quadribol estava lá para aliviar o tédio bem escondido que, mesmo que instintivamente, tentavam superar de uma forma ou de outra.
E era por isso que Harry Potter agora corria pelo corredor em direção à sua aula de Poções, já com cinco minutos de atraso. Horace Slughorn podia ter uma inclinação para o jovem favorito do Mundo Bruxo, mas chegar atrasado significava estar na primeira fila, algo que o jovem desejava evitar agora que não tinha o Príncipe Mestiço o ajudando; algo que uma garota de cabelos castanhos e volumosos havia apontado muitas vezes antes, durante e depois das primeiras aulas de Poções do oitavo ano. Harry teve que concordar com ela, já que hoje em dia ele mal atingia o nível Aceitável quando se tratava de preparar poções.
O grifinório já estava no corredor da sala de aula quando algo terrível aconteceu. A costura de sua bolsa rasgou-se de repente, e todos os seus livros, tinteiros, penas e até mesmo sua Capa da Invisibilidade (que ele mantinha à mão desde a guerra, na esperança de que uma Capa da Invisibilidade pudesse ser útil) caíram no chão. Harry se lembrou perfeitamente que não era a primeira vez que algo assim acontecia com ele, e ele também já havia feito esse truque uma ou duas vezes, então, em vez de se agachar, ele sacou sua varinha e olhou ao redor.
Lá estava ele, o culpado, de cabelos loiro-claros, rosto pálido e anguloso, como sempre, embora o último ano também o tivesse afetado. Com olhos frios e cinzentos, mas aparentemente assombrados, Draco Malfoy não era mais o pirralho mimado que costumava ser. Ele era um guerreiro, por mais ridículo que isso pudesse parecer, dadas as características do jovem. Mas Harry conhecia a história e a situação atual do Sonserino, então baixou a varinha, sem medo.
— Ei, Potter!
O loiro gritou e Harry revirou os olhos.
De alguma forma, ele não conseguia sentir nenhuma inimizade por Malfoy desde sua desagradável visita à Mansão Malfoy. Depois de todo o ódio, o sonserino, se não o salvou, pelo menos o ajudou quando ele decidiu não reconhecer as feições deformadas de Harry.
Desde o verão passado, enquanto o Ministério realizava julgamentos para os Comensais da Morte quase semanalmente e eles se viam com frequência, o grifinório os considerava, mesmo depois de salvar a vida do loiro em maio. E, além disso, tantas vidas foram salvas que Harry perdera a conta de quem devia algo a quem, na verdade. Ele havia matado Voldemort, então tudo o que queria era ficar em paz. No entanto, o comportamento de Malfoy agora sugeria que ele queria outra coisa.
— Não tenho tempo. Vou chegar atrasado para a aula — disse Harry, agachando-se e pegando seus livros e anotações.
Para sua surpresa, outros dois joelhos apareceram perto dele logo em seguida e mãos começaram a recolher suas penas, enquanto um feitiço vindo de uma varinha que Harry conhecia muito bem consertou seu tinteiro e até mesmo recolheu o líquido preto derramado.
— Só... o que você está fazendo? — O grifinório encarou os olhos cinzentos.
— Como é que é, Potter? Estou limpando o chão. Sou o novo Filch, entende? — O loiro se irritou, enfiando os livros de Harry de volta na bolsa que havia sido arrumada anteriormente.
— Bem... você se parece com ele… — murmurou o jovem de cabelos negros em voz baixa.
— Ei, estou te ajudando aqui. Mostre um pouco de respeito.
— Foi você quem estragou a minha bolsa, Malfoy. — Harry lançou um olhar furioso. — Então me desculpe por não ter sido gentil.
— Está tudo bem, eu te perdôo.
Harry olhou boquiaberto para o loiro. Draco estava falando sério. Inacreditável.
O homem magro se levantou e estendeu o braço em direção a Harry, que relutantemente (e porque estava tão chocado que simplesmente não sabia mais o que fazer) aceitou e deixou o sonserino puxá-lo para cima.
— Não pense que alguma coisa mudou, Potter.
— Eu não ousaria — respondeu Harry com os olhos arregalados.
Mas é claro que naquele dia muita coisa mudou.
