Chapter Text
A comitiva seguiu pela estrada rochosa em direção ao norte. Eles haviam deixado a capital logo ao amanhecer. O sol mal era visto no céu, e os flocos pálidos já cobriam parcialmente o caminho, acumulando-se generosamente nas dobras das roupas.
O sopro glacial penetrava na carne, fazendo os presentes tremularem em seus grossos casacos confeccionados exatamente para aquele tipo de viagem.
Suguru cavalgava mais à frente; sua armadura negra devorava os raios tênues que timidamente invadiam, perfurando entre as nuvens cinzentas. Ele, que já havia realizado incontáveis viagens em nome da coroa, via-se hoje rezando — mentalmente — para que o clima, já tão hostil, não piorasse ainda mais.
— Sir Geto! — A alegre voz de Haibara cortou o silêncio pesado da estrada.
O alfa arqueou as sobrancelhas em um rápido sobressalto na sela. Ele não havia percebido, mas com certeza estava endurecido naquela expressão que sempre o denunciava quando preocupado… ou só pensando demais.
— Hmp.
O trote da égua do escudeiro acelerou o suficiente para que eles cavalgassem lado a lado. Suguru nem sequer precisava virar a face para saber que Haibara tinha um de seus sorrisos calorosos estampados no rosto; seu escudeiro sempre fora um jovem radiante — às vezes o cavaleiro invejava tamanha despreocupação. O mocinho de mechas amarronzadas era como uma criança que recebeu um grande pedaço de torta de caramelo. Em outras palavras: alheio.
— Quando chegarmos em Reiroku, seguiremos diretamente à cerimônia, estou correto? — perguntou o castanho, nem dando espaço para que o mais velho respondesse. — O rei espera que Vossa Senhoria permaneça junto ao altar, porém eu acredito que irão lhe acomodar nas cadeiras elevadas, com outros nobres!
Suguru apenas suspirou um riso; não estava exatamente ouvindo todo aquele falatório. Sua concentração focava em uma dorzinha incômoda que se espalhava pelo corpo…
Passar horas no lombo do Clydesdale não era nem de longe uma de suas atividades preferidas; o trote ritmado fazia-o oscilar — cada impacto dos cascos no solo reverberava nos ossos de seu quadril. E os olhos dele? Nem se fala… pois estavam tão pesados devido à vigilância constante no trajeto que Suguru, ocasionalmente, se pegava quase cochilando durante a equitação.
Estava exausto.
— A esse ritmo, chegaremos com antecedência, um dia antes do tempo estipulado. Assim, teremos um momento para o devido repouso. — Suguru cortou a tagarelice, murmurando mais para si mesmo do que para seu escudeiro.
Sua voz macia e ronronante tinha uma pitadinha cruel de esperança, um ato de rebeldia contra o ar seco que sussurrava danações contra eles.
Sendo um cavaleiro de alta patente, era um de seus deveres representar a coroa em eventos nobres. No entanto, ele gozaria da hipocrisia se se chamasse de um grande fã dessas jornadas quilométricas. O alfa preferiria estar em casa, embaixo de um cobertor quente, ou até mesmo no alojamento, treinando os mais novos. Missões como essa só lhe rendiam uma ou duas taças de vinho tinto e, quem sabe, uma ômega plebeia tentando atraí-lo para um local privado. Este casamento não seria diferente.
Afrouxou as rédeas com os dedos dormentes, sentindo a imaginação arrastá-lo até a promessa gentil da estalagem em seu destino: água morna para aliviar seus músculos tensos e lavar a sujeira da viagem, além de uma cama confortável onde poderia desabar sem culpa e, cá entre nós… hibernar pelas próximas horas pré-evento.
Sentiu um ronronar nascer no fundo da garganta enquanto todo o corpo se rendia àquele doce cenário fantasioso…
… nada poderia dar errado.
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Deu tudo errado.
O arrepio que ele tanto temeu rastejou coluna acima, como uma assombração. O espectro álgido cortou-os sem aviso prévio. Os cavalos relincharam e golpearam o ar com os cascos, respondendo àquele prenúncio.
Suguru segurou-se com força nas rédeas para que não fosse lançado pelo próprio garanhão. Haibara, no entanto, não tinha os reflexos tão rápidos quanto os de alguém nascido em campos de batalha.
Seu grito foi engolido em um piscar de olhos junto à paisagem — Suguru soube ali que não haveria outro. A névoa esbranquiçada veio junto a redemoinhos e uma rajada violenta, atingindo a comitiva e derrubando tudo pelo caminho.
Não era necessária nenhuma outra fatalidade para que o cavaleiro entendesse a situação… os deuses torceram os narizes para sua oração e, por sua vez, Suguru os amaldiçoou de volta.
Praguejou entre os dentes, se agarrando como pôde na crina e nas rédeas do cavalo. As coisas estavam fugindo do controle; era como se a tempestade tivesse ganhado vida e se tornado um monstro voraz, pronto para devorar seus companheiros, um a um.
Sucumbindo ao pânico, os cavalos escorregaram pelo gelo recém-formado. Suas pelagens espumadas de suor e a pontinha rosada de suas narinas congelaram ao menor contato com o ar. Aqueles que não se transformavam imediatamente em estátuas tombavam em cima dos porta-estandartes, tentando fugir do perigo.
O Clydesdale disparou estrada afora, tendo o próprio congelamento como um monstro do qual ele precisava escapar a qualquer custo. Seus cascos deslizavam desajeitados pelo caminho até que ele finalmente tropeçou.
O terreno nevado rodou quando Suguru foi lançado ao ar junto às bolsas que antes estavam presas na garupa.
A gravidade, sem o mínimo dó, arrastou sua fuça contra o chão; a pele exposta do rosto dele queimou como se tivesse sido jogada em brasas. Suguru sentiu, com desespero, a neve invadindo por todos os lados, infiltrando-se entre as placas metálicas e nas costuras de suas vestes quentinhas — adormecendo os membros antes protegidos, onde o gelo jamais deveria alcançar, pois era uma sórdida súplica de morte.
Berrou uma palavra chula pela metade, engasgando no processo com os cristais alojados em sua traqueia. Ele se esforçou para ficar de pé, gemendo com uma dor lancinante no tornozelo direito. Sua cara levemente esfolada também doía até os ossos.
Mas não havia tempo para lamúrias.
Tossiu convulsivamente e assoou o nariz com força, lutando para desobstruir as vias aéreas de forma improvisada, visto que não havia curandeiros e o presente na charrete provavelmente já perecia congelado a quilômetros de distância. Suguru procurou por sua montaria, sem esperança, pois, a essa altura do campeonato, ele já havia desaparecido em seu galope desgovernado. O cavaleiro quase podia ouvi-lo relinchando através da neblina densa, mas sem saber exatamente onde ele estava.
Suor frio desceu por sua edra, e o coração golpeou contra o peito; ele estava perdido em uma nevasca, sem qualquer referência à estrada, e não fazia ideia de quão longe se afastara dela antes de ser largado à própria sorte em um ermo vasto de brancura. Suguru olhou para o céu e viu o próprio hálito condensar no ar; seus caninos afundaram no próprio lábio trêmulo — talvez de frio, talvez de angústia. Para onde ele deveria correr?
Recompondo-se conforme protocolo militar, agarrou a primeira bolsa que encontrou, amassando-a contra seu peito… A cada passo, suas botas afundavam enquanto mancava em uma marcha sem rumo. O instinto primitivo de sobrevivência agia silenciosamente, guiando-o para só Deus sabe onde.
Um local chamando-o com canto de sereia.
Flocos de tamanhos variados batiam contra ele, acumulando-se em seus cílios escuros e no comprimento dos fios espessos de seu cabelo. Turvaram-lhe a vista, ao mesmo tempo que o peso da armadura o cansava, forçando-o ao limite do físico de um alfa pleno em uma situação extrema. Estressante.
Quando chegou a um ponto específico, tropeçou em algo macio — e a coisa reclamou ao ser chutada por ele.
Suguru farejou os arredores e então se virou num estalo; os olhos arregalados desceram, e ele sentiu a alma abandonar o corpo.
Seus pulmões expeliram todo o ar; ele teve certeza de que seu coração havia errado ao menos duas batidas. Seu corpo pesado se moveu antes que a consciência pudesse criar quaisquer linhas de pensamento. Suas joelheiras deslizaram quando se jogou sobre aquele monte; o frio cortante o feria conforme ele cavava. Mas não parou, ele não podia.
— Meu príncipe… — ofegou Suguru. O frio que cobria a figura inconsciente do herdeiro do trono, como um sudário moral, foi jogado de lado. — Diabos, Vossa Alteza não esbanja juízo?
O jovem ômega tremia como se o frio lhe quebrasse os ossos. Vez ou outra tossia como um filhote abandonado ao relento. A tempestade acomodara-se em todas as partes do manto real, feito de um nobre tecido azul, belo e caro, porém fino demais para suportar a tormenta. Seu rosto angelical estava mais pálido que o habitual, e os lábios, arroxeados, puxavam o ar com esforço.
O alfa não teve escolha senão puxar Satoru como se ele fosse um saco patético de batatas. Desatou as tiras do que um dia fora a couraça de sua ilustre armadura, derrubando uma boa quantia de neve que ainda estava presa ali no processo da remoção e abandono da placa de metal. Ele segurou Satoru contra o próprio peito, ignorando a raiva e o medo que se enroscavam como duas serpentes peçonhentas — já o príncipe, por instinto, se agarrava àquele resquício de calor que o outro tão generosamente proporcionava a ele.
— Vossa Alteza devia estar em seus aposentos, no palácio, em segurança! Vieste atrás de mim? Por qual razão?! — vociferou Suguru, mas não obteve resposta.
O príncipe estava inerte, molengo como uma massa crua de pão. As pontas delicadas de seus dedos, de pele mármore, estavam tão azuis quanto os seus.
Suguru resmungou, ajustando seu protegido em seus braços fortes, pressionando-o na tentativa de afastar o frio que roubava seu calor. O alfa avançou.
Correu o mais rápido que sua condição lhe permitia. A adrenalina recente corria a todo vapor em suas veias, o impulso de preservação rosnava que ele deveria manter seu ômega em segurança. Não soube por quanto tempo correu; até perdeu a conta de quantas vezes quase caiu no caminho. Mas todo seu esforço os levou até a fenda escura de uma gruta empoeirada, quase invisível naquele inferno, mas o local mais seguro possível, considerando a situação.
Seus olhos lacrimejaram enquanto ele se esgueirava para dentro sem pestanejar. O ambiente era imundo e irritava tudo acima da boca, ainda era insuportavelmente frio, mas indiscutivelmente menos cruel que o exterior. Ao menos, por ora, estavam longe do sopro assassino de Orofujin.
Satoru foi colocado em um cantinho que seu alfa julgou estar razoavelmente mais quente; o corpo dele tombou nos braços fortes de Suguru, quase como se ele já estivesse sem vida. O alfa rosnou um xingamento; se algo acontecesse com ele sob sua supervisão… talvez tivesse sido melhor ter compartilhado do destino de Haibara.
Por exatamente sete anos, ele empunhou sua espada em nome dos Gojo, e agora todo seu esforço estava prestes a ruir por causa de um rapazinho mimado que, por algum motivo, se apegou a ele o suficiente para fugir do conforto das lareiras e cobertores grossos para se enfiar em uma enrascada como aquela. Só porque não suportaria ficar sem a presença dos feromônios apimentados do alfa por alguns dias.
E ele sabia que, se o herdeiro morresse ali, a coroa não iria aceitar nenhum: "Perdoem-me! Eu fiz tudo que pude!” — os porcos iriam querer sangue e sua cabeça plebeia servida em uma bandeja de prata.
Mordeu o interior da bochecha nervosamente.
Suguru jogou a bolsa que carregava no chão. Seus dedos tremiam dolorosamente enquanto ele tentava abrir os cordões de couro. Sacudiu-a de cabeça para baixo, espalhando os suprimentos armazenados pelo chão pedregoso. Encontrou, por fim, os gravetos embebidos em cera, enrolados em linho, junto a alguns fósforos e o que restava do álcool — seu kit de emergências para missões mais longas.
A chama nasceu com dificuldade e o calor o alcançava com o dobro de esforço. Suguru soprou as brasas e rezou para que não apagassem. Só quando teve certeza de que o fogo estava estável, o cavaleiro voltou até seu senhor, carregando outro objeto da bolsa — um cobertor pesado que ganhou de presente de seu antigo lar, no dia em que deixou Ikihana para servir. Agora, já ao lado de Satoru, ele cortou as cordas que comprimiam a pele de urso-pardo, libertando a extensão que expandiu sem pedir licença, quase dobrando de volume.
— Vossa Alteza… pode me ouvir? — murmurou Suguru, a voz rouca de exaustão e da garganta dolorida. Ele se encostou bem no ouvido do homem para falar: — A neve em nossas vestes está derretendo, tudo há de encharcar e, neste clima, equivaleria a condenar Vossa Alteza à morte.
Calou-se por um momento, esperando uma resposta que não veio. Imaginava que Satoru fosse despertar assim que mencionasse as roupas, apenas para acertá-lo com a palma aberta por assédio à coroa, ou sacrilégio. Vendo que ele não se mexeu, respirou fundo e continuou:
— Hei de precisar despir-nos, certo? — Outro silêncio constrangedor. — Por favor, Alteza, não se alarme quando acordar e estivermos…
Ele não conseguiu terminar, mas se demorou no corpo do príncipe, antes de se repreender por isso.
Suguru engoliu em seco, despindo-os com toda a reverência que aquela situação ainda permitia, os dedos hesitando onde jamais deveria sonhar em tocar. Seu rosto estava virado para o outro lado, tentando manter o respeito. Uma a uma, as peças retiradas eram postas próximas ao fogo para secarem. O resto da armadura foi a pior parte; as amarras estavam presas por culpa do gelo, boa parte das tornozeleiras e calça foram danificadas por conta da queda — nada saía com facilidade. Quando finalmente conseguiu, jogou as peças num canto seco qualquer.
Estando ambos nus, o cavaleiro pressionou seu peito firme, lapidado por anos de treinamento, contra as costas largas do parceiro, cobrindo ambos os corpos com o cobertor. A textura áspera do pelo de urso roçou a pele úmida, desconfortável, mas melhor do que o frio cortante anterior. Suguru escondeu o nariz gelado na nuca alva. Ele sabia que aquilo era necessário para a sobrevivência de ambos, mas, mesmo assim, a vermelhidão queimava em suas bochechas.
Ele sentiu seu corpo reagir de formas que não deveria, pois estava tão perto das glândulas de acasalamento do príncipe... O instinto primordial se recusava a entender que aquilo não era desejo. Não era intimidade, nem ninho. Era urgência.
Apertou-os com mais força quando sentiu um rosnado suave vibrar na garganta e o seu pênis semi-endurecer. Ele respirou fundo para se controlar, virando Satoru delicadamente para se encararem, afastando-se daquela glândula tentadora. Ele aninhou o rosto angelical de Satoru em seu peito, onde seu calor era mais constante. Por ser um alfa, seu corpo era muito mais quente, projetado para aquecer um companheiro de ninho durante invernos rigorosos…
Os cílios de boneca de Satoru se mexiam contra sua pele, um tremorzinho originário de sonhos que ele provavelmente estava tendo naquele momento.
Suguru não pretendia dormir naquela primeira noite, mas, quando a adrenalina finalmente cedeu, deu lugar ao sono.
E ele veio, silencioso, impiedoso e inevitável…
Tudo apenas escureceu.
