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O Legado de Agatha

Summary:

Sinopse temporaria.

 

Helena Duarte levava uma vida simples até a morte de Agatha Moreau, a idosa que cuidava e que considerava como uma avó. O que parecia ser apenas uma despedida dolorosa se transforma no início de algo extraordinário quando Helena descobre que Agatha era uma bruxa - e que deixou para ela muito mais do que uma herança comum.

 

Entre cartas, segredos e um legado inesperado, Helena é lançada em um mundo oculto onde magia, criaturas sobrenaturais e reinos escondidos coexistem ao lado da humanidade. Agora, como nova estudante do prestigioso Instituto Eclipse, ela precisa aprender a controlar seus próprios dons enquanto tenta entender seu lugar nesse universo complexo.

 

Em meio ao luto, novas amizades, descobertas e perigos silenciosos, Helena cruza o caminho de Vincenth, um orc que reconhece nela algo muito mais profundo do que ela pode compreender. Dividida entre o mundo que conhecia e aquele que começa a revelar quem ela realmente é, Helena precisará decidir até onde está disposta a ir para abraçar seu destino - antes que segredos do passado e forças antigas venham à tona.

Notes:

Oiii. Como é bom falar com vocês de novo, espero que estejam todos bem e que tenham uma boa semana. Aqui estou novamente com mais uma história, dessa vez de minha completa autoria e imaginação. Essa história ainda esta em andamento, mas tenho boa parte dela escrita e irei postar aqui.

 

É o Primeiro livro da serie Entrelaçados e o Segundo da serie Os Sete Reinos. Todos as minhas histórias originais faram parte do mesmo multiverso, mesmo que sejam descritos ou tenham um universo proprios diferente um do outro.

 

Não esquecam de darem suas opnioes e lerem as tags.

 

Dica do dia: Inquisição. 

Boa Leitura a todos. 🌺

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Senhora Agatha

Chapter Text

Acordei com o despertador tocando às sete e meia como sempre. O céu estava um pouco nublado, frio, silencioso e por um instante desejei ficar ali, enterrada entre os cobertores quentinhos ignorando o mundo do lado de fora do meu quarto.

 

Mas a senhora Agatha me esperava e mesmo que todos acreditassem que a rotina com ela era chata e entediante, era, na verdade, o completo oposto. Conversar com ela era a única parte do dia em que eu sentia que poderia contar tudo e ela guardaria meus segredos a sete chaves.

 

Levantei da cama me espreguiçando e fui até meu guarda-roupa procurar algo para vestir. Optei por uma camisa preta do AC/CD e um casaco preto, uma calça jeans rasgada nos joelhos e meu tênis listrado favorito.

 

Peguei minha bolsa, chequei se tinha tudo o que precisava e saí do quarto. Fui até a cozinha, peguei o chá que a dona Agatha gostava e guardei na mochila. Após comer o café matinal, foi quando realmente sai de casa.

 

O caminho de ônibus até a casa da dona Agatha sempre parecia mais longo do que realmente era. Talvez porque aquele pequeno trecho entre a avenida principal e sua casa isolada fosse como atravessar dois mundos diferentes: a barulhenta e movimentada cidade e a vida calma e tranquila que começava assim que eu descia na última parada do ônibus.

 

Quando cheguei a casa, a porta já estava destrancada. Agatha Moreau detestava que eu ficasse esperando do lado de fora. “Uma moça não deve perder tempo na soleira de uma porta”. Era o que ela sempre me dizia, com aquele tom de carinho e a casualidade que me fazia rir.

 

Bati na porta e entrei já me anunciando. — Dona Agatha, já cheguei. — Ela como sempre, estava sentada na sua poltrona favorita com um xale lilás sobre os ombros, as mãos magras segurando um livro antigo que parecia prestes a se desfazer em suas mãos.

 

— Helena, minha querida. Bom dia! — Ela disse com um sorriso pequeno surgindo no rosto. — Pensei que se atrasaria hoje. — Ela falou rindo em tom sarcástico, eu sorri e deixei minha mochila em um dos sofás de couro da sala.

 

— Eu? Eu nunca me atraso. — Respondi tirando o casaco e o pendurado na porta da frente. — Não deixaria à senhora sozinha aqui. — Falei com um sorriso. Apesar de a dona Agatha ser uma mulher bastante saudável para a idade, ainda me preocupo muito com ela.

 

— Não sou tão frágil quanto pareço querida. — Ela respondeu com uma risada leve, quase jovem. — Mas confesso que gosto quando você se preocupa. — Sorri e a ajudei a ir para a mesa próxima à janela, nós sempre tomamos o café matinal e o café da tarde naquela janela. Dona Agatha sempre gostou de ouvir o som dos pássaros e olhar seu jardim enquanto toma um bom café ou chá.

 

Passei o dia fazendo o que sempre fazia: preparando o café dela, conferindo os remédios, ajudando na limpeza da casa, lendo para ela por algumas horas e ouvindo suas histórias que parecem retiradas de livros de fantasia. Ela falava de florestas encantadas, criaturas aladas do tamanho de uma mão que davam festas do chá, das bibliotecas escondidas e seres mágicos que pareciam tirados de filmes de ficção. Eu ria, comentava e fingia não acreditar em algumas partes, mas, no fundo, adorava cada relato. Eram pequenos escapes de uma vida comum demais.

 

Porém, naquele dia, Agatha estava especialmente silenciosa. O que era estranho já que ela falava pelos cotovelos, sempre com uma boa conversa na ponta da língua e conselhos enigmáticos para dar. Quando o sol começava a se pôr atrás das árvores e o quarto dela ficou dourado pela luz de teto, ela me chamou e sentei-me no tapete felpudo aos pés da poltrona na janela, como fazia desde que comecei a ajudá-la aos treze anos.

 

— Helena, quero conversar com você um pouco. — Disse com uma voz séria demais para sua personalidade descontraída.

 

— Você parece preocupada. Está tudo bem? — Perguntei franzindo as sobrancelhas, ela não parecia doente e a pressão não estava alta quando medi a algumas horas, mas seria melhor trazer um médico até aqui amanhã.

 

— Sim, minha menina. Sinto que está na hora de te dizer algumas coisas importantes que você precisa saber. — Suas palavras me deixaram em alerta na hora. A preocupação deveria ser óbvia no meu rosto. Ela sorriu e segurou minhas mãos com carinho e delicadeza.

 

— Agatha, não fale assim. A senhora está bem. Sua pressão hoje estava ótima. — Ela riu, mas havia algo mais escondido ali. Era como se ela estivesse esperando por algo que não podia impedir.

 

— Você sabe que… para mim você é como uma neta, não sabe? — Aquilo fez meu coração acelerar e eu tive a certeza de que ela podia ouvir os batimentos.

 

Eu sabia.

 

Sempre soube que ela me via assim, mas ouvi-la dizer… me fez sentir algo no peito, não de um jeito reconfortante ou amoroso, doeu de um jeito inexplicável. Uma sensação incômoda e pesada de que eu estava perdendo algo.

 

— E a senhora é como uma avó para mim. A avó que eu nunca tive. — Eu sussurrei segurando a mão dela levemente.

 

— Oh, minha doce menina. Eu queria ter tido mais tempo com você. — Ela acariciou meu cabelo, um gesto tão afetuoso que meu peito se apertou. — Mais dias assim, sentadas na janela comendo biscoitos e bebendo cafés. Mais tempo ouvindo você reclamar da vida e rir das minhas histórias impossíveis. — Ela falou com um sorriso calmo e rosto sereno, como se já aceitasse seja lá o que fosse acontecer.

 

Essa paz que vinha dela me deixou ainda mais preocupada. — Suas histórias são só… diferentes e criativas. — Falei tentando quebrar o clima melancólico que pareceu tomar conta do quarto.

 

Ela ergueu uma das sobrancelhas ao que eu disse. — Você ficaria surpresa com o quanto elas são reais. — Sua voz saiu em um tom de repreensão e eu ri pois, sabia que ela tentava me animar, mas havia algo no olhar dela, algo antigo e profundo, que me fez ficar quieta.

 

— Tudo o que fiz por você, fiz por que te amo, minha menina. Você precisa acreditar nisso, está bem? — Eu me ajeitei ao lado das suas pernas e apoiei minha cabeça nas coxas coberta pelo xale e suspirei.

 

— Eu acredito. — Sussurrei.

 

E acreditei mesmo. Agatha sempre foi à única pessoa que viu algo em mim quando eu mesma não via, que mesmo quando eu já desisti, ela era uma das poucas pessoas que me faziam continuar lutando.

 

— Promete que, quando chegar o momento, você vai confiar em mim? — Agatha falou com a voz surpreendentemente firme. Seus olhos castanhos pareciam ter visto mais na vida do eu em anos.

 

— O que a senhora quer dizer? — Questionei sem entender, o que ela queria dizer com essa conversa? Meu coração batia rápido e o nervosismo percorria meu corpo.

 

— Prometa… — Ela franziu a testa e repetiu firmemente.

 

Engoli seco. Parecia que eu engoli uma bola de papel e ela ficou presa na garganta. — Claro… Eu prometo. — Ela fechou os olhos e relaxou na poltrona, como se aquele acordo aliviasse algum peso invisível.

 

— Obrigada, minha menina. Sei que parece confuso e estranho agora, mas você entenderá com o tempo. — Eu a abracei na cintura. Foi o abraço que se dá quando se tenta segurar o tempo com as próprias mãos enquanto ele escorre por entre os dedos.

 

Minutos pareceram horas quando Agatha falou enquanto acariciava meu cabelo. — Seja corajosa, Helena. Você nasceu para muito mais do que imagina. — Franzi as sobrancelhas sem entender. Não fazia sentido. Mas a voz dela carregava uma certeza que me fez estremecer por dentro.

 

Naquela noite, quando deixei a casa dela, o céu estava coberto por nuvens pesadas, não dava para ver uma estrela sequer e pela primeira vez, senti que algo estava prestes a mudar. Algo grande. Algo que parecia pesar nos meus ombros.

 

Eu não podia imaginar que dentro de alguns dias, o mundo que eu conhecia desabaria sob meus pés.

 

E tudo começaria com um dia ensolarado.

__________

 

O sol daquele dia parecia debochar de mim.

 

Estava quente demais, brilhante demais, insolente demais. Dois dias depois daquela conversa estranha, quase profética, choveu como se o céu fosse cair sobre a cidade. E hoje, o sol brilhava como se não tivesse chovido dois dias seguidos sem parar.

 

Eu me vesti no automático, penteei o cabelo em frente ao espelho do banheiro e saí de casa com a impressão incômoda. O ar da manhã tinha cheiro de terra molhada depois da chuva. Quando cheguei ao ponto final, comecei a caminhar até a casa de Agatha desviando das poças de água na estrada. Durante o trajeto, tudo ao meu redor ficava mais silencioso conforme me aproximava da casa da Agatha até que não se podia ouvir nada além do vento que balançava as árvores.

 

A porta da casa não estava destrancada como sempre, mas isso não era incomum, às vezes dona Agatha dormia um pouco mais que o normal. Eu peguei a chave reserva no bolso da mochila e abri a porta.

 

— Agatha? Eu cheguei. — Falei como sempre faço enquanto colocava minha mochila na poltrona perto da porta.

 

Nenhuma resposta.

 

O silêncio era pesado, era um silêncio que não pertencia àquela casa. Foi quando percebi: não havia cheiro de chá, nem o som do rádio tocando exatamente igual a diariamente desde que me lembro.

 

Meu coração disparou.

 

— Agatha?... Dona Agatha? — Tentei chamá-la de novo e a minha voz parecia ficar mais fraca com o silêncio demorado. Caminhei até o seu quarto, cada passo parecia mais lento que o anterior, como se meu tênis fosse feito de chumbo.

 

Ela ainda estava deitada na cama.

 

O xale lilás sobre o criado mudo. Uma das mãos apoiada na barriga e a outra ao lado do corpo. O rosto dela era sereno, como se estivesse apenas dormindo. Mas ela não estava. Seu peito imóvel sem sinal de respiração, mostra isso.

 

Senti meu corpo inteiro congelar.

 

— A-Agatha? — Gaguejei aproximando-me devagar, me recusando aceitar o que meus olhos arregalados de choque já sabiam.

 

Toquei sua mão.

 

Fria.

 

Um frio que não pertencia a nenhum ser vivo.

 

O ar saiu dos meus pulmões como se eu tivesse levado um soco. Minhas pernas fraquejaram e desabei ao lado da cama. Eu estava incapaz de falar, ou pensar, ou respirar direito. Minha garganta queimava, minha visão embaçou e meus pulmões arderam em busca de um ar que Agatha não podia mais respirar.

 

— P-por favor… não… não agora, não assim… — Minha voz saiu trêmula, pequena e fraca entre os soluços. A confusão era tanta que me impedia de pensar em qualquer coisa além de pôr quê? Por que com ela? Por que agora? Ela não estava doente, não havia razão para ela morrer assim tão de repente!

 

Mas ela sabia... Ela sabia que estava na hora dela ir, ela tentou me preparar para isso, mas eu preferi fechar os olhos e ignorar o que estava acontecendo. Mas eu saber disso não tornava a dor que eu sentia menos devastadora, não a tornava menos dolorosa.

 

Eu chorei com o rosto pressionado no lençol dela, como uma criança perdida. Chorei tudo o que eu segurava nesses dias. O medo, a sensação de despedida, a promessa que não entendia e os momentos que não teríamos mais. Quando consegui finalmente parar de chorar, não sabia quanto tempo passou, mas sentia meus olhos ardendo, minha garganta doía e minha têmpora doía com o início de uma dor de cabeça. Eu sentia pesar toneladas e mal consegui me levantar e andei com minhas mãos trêmulas apoiadas na parede.

 

Parecia que eu era apenas como uma casca vazia a cada passo que dava para longe do quarto. As lágrimas tornavam a procura pelo meu celular na mochila mais difícil do que realmente era e quando o achei, precisei mais de quatro tentativas antes de conseguir desbloquear e ligar para minha mãe. Minhas mãos tremiam enquanto esperava ela atender. Quando a voz suave dela soou do outro lado do telefone, eu finalmente consegui controlar os soluços o suficiente para falar sem desmoronar completamente.

 

— M-mãe… — Minha voz falhou. — Adona Agatha… ela… — Eu tentei falar, mas voltei a chorar.

 

— Helena? Filha, o que aconteceu? Fala comigo, querida. — A palavra me fez soluçar e querer chorar ainda mais. Eu ouvi a voz do meu pai e depois dele fazer um exercício de respiração por alguns minutos, eu consegui respirar com mais calma e falei com minha voz ainda trêmula.

 

— A dona Agatha ela… ela morreu... — As palavras finalmente saíram tão doloridas que pareciam cacos de vidro. — Eu cheguei e ela estava… ela estava deitada e não respirava… — Depois que a primeira frase saiu da minha boca, foi como se tivesse engolido uma bola de baseball e cada palavra parecia pesada.

 

Ouvi meu pai ofegar e depois minha mãe assumiu a ligação, tentando me acalmar, dizendo estarem indo me buscar e que eu não precisava lidar com isso sozinha.

 

Concordei e terminei a ligação. As horas seguintes foram um borrão: meus pais chegando e ligando para a ambulância. Depois que os paramédicos chegaram eu expliquei a situação e meu pai me abraçou enquanto minha mãe conversava com os profissionais. Eu pude ouvir quando os paramédicos confirmaram o que eu já sabia.

 

Agatha Moreau morreu durante o sono.

 

Voltei para casa com um sentimento oco no peito. Não chorei no carro nem respondia quando meus pais tentavam me tranquilizar. Quando chegamos em casa, meu corpo andou em direção ao meu quarto e me deitei na cama. Eu era apenas uma espectadora do meu corpo, não sentia meus membros ou qualquer emoção além de dor e o vazio por dentro.

 

A paisagem que eu olhava na janela era o completo oposto do que eu sentia, o céu estava azul e sem nuvens, sons de carros, animais e de pessoas vivendo suas vidas sem saberem o que eu acabara de presenciar. Eu estava imóvel, quieta olhando pela janela e o meu mundo parecia cinza, como se tivesse perdido todas as cores, apesar do dia ensolarado que fazia do lado de fora.

 

O funeral dela aconteceu três dias depois.

 

O céu estava nublado, como se finalmente o mundo tivesse entendido minha dor. Fiquei entre meus pais, segurando um lenço branco amassado, enquanto observava o caixão simples, mas elegante ser baixado para dentro da cova.

 

Agatha sempre falava que de onde ela vinha, as pessoas usavam branco para luto e não preto. Então essa foi a forma que eu encontrei de honrá-la. Eu usava um vestido branco longo e simples, meus pais também usavam ternos sociais simples com botões prateados.

 

Eu nunca imaginei quantas pessoas Agatha conhecia.

 

Mulheres e homens com rostos marcados de emoção rodeavam o espaço onde ela estava sendo enterrada, não eram muitas, talvez umas sete pessoas além de mim e dos meus pais. Entre aquelas pessoas havia uma mulher de cabelos brancos em um penteado elegante que me olhava durante toda a cerimônia, mas estava tão presa na tristeza que nem notei ela se aproximando quando o enterro terminou.

 

— Olá. Você deve ser a Helena, não é? — Ela disse segurando meu braço com delicadeza, sua voz estava sussurrada e trêmula. — Agatha falava muito de você, eu posso constatar o porquê disso. — Ela me olhou com um sorriso pequeno nos lábios e tristeza nos olhos.

 

A frase me desmontou por dentro.

 

— E-Eu… Ela não me falava muito da vida dela, desculpe... — Sussurrei com a voz rouca, tudo ainda parecia um pesadelo, um que por mais que eu tentasse, não conseguia acordar. Era como estar preso em um buraco escuro que afundava e me engolia cada vez mais. A mulher deu suas condolências e se afastou.

 

Outras três pessoas se aproximaram. Um homem não muito velho com cavanhaque e cartola e duas senhoras idosas gêmeas que completavam as frases uma da outra. Todas essas pessoas pareciam ter sido amigas próximas dela. Todas diziam que ela era extraordinária, sábia ou marcante. Havia algo na forma como todas essas pessoas falavam sobre ela que mexia comigo, como se todos compartilhassem um segredo que apenas eu não conhecia.

 

Fiquei ali, recebendo condolências de estranhos que demonstraram conhecê-la melhor do que eu mesma. Finalmente percebi haver uma parte gigantesca da vida dela que eu nunca vira. Que nunca me foi apresentada! Uma parte dela que ela não teve tempo de me contar. Isso doeu.

 

E enquanto jogavam lírios e terra sobre o caixão e a despedida final acabava, senti algo apertar dentro de mim. Uma sensação estranha, silenciosa. De que, não teria mais chances de conhecer essa parte da vida de Agatha que só conheci após a sua morte.

 

E isso me deixou com uma pergunta sufocante.

 

Quem era Agatha Moreau, de verdade?

 

E eu sabia, no fundo, que iria descobrir em breve…

 

Os dias depois do funeral foram silenciosos demais, frios e com um vazio sem sentido. Eu tentava me ocupar com qualquer coisa, arrumar meu quarto, ajudar meus pais ou dormir a maioria do tempo, mas nada parecia fazer a dor no meu peito diminuir, nada parecia preencher o buraco que eu tinha no coração. Eu acordava todas as manhãs pensando que precisaria ir trabalhar, só para lembrar um segundo depois que não havia mais ninguém na casa fora da cidade esperando por mim.

 

No final daquela semana, uma ligação inesperada mudou meu mundo ainda mais.

 

Era de um número desconhecido para mim, eu normalmente não atendia ligações sem nomes, mas algo me fez querer atender dessa vez. — Bom dia! Falo com Helena Duarte? — Perguntou uma voz masculina mais velha e profissional.

 

— … Quem é? — Esperei um pouco antes de falar, posso estar sofrendo, mas não pretendo cair em um golpe de telefone.

 

— Aqui é Nogueira, sou advogado da senhora Agatha Moreau. Tentei entrar em contato antes, mas não tive retorno. Preciso que a senhorita compareça ao meu escritório para a leitura do testamento da qual a senhorita também está inclusa. — Ele continuou sem esperar minha resposta. Eu nem fazia ideia de que Agatha tinha um testamento ou que eu fazia parte dele…

 

— Seu nome está incluído como uma das pessoas que devem estar presentes na abertura do testamento e há alguns detalhes nos documentos que precisam ser discutidos. Enviarei o dia e o endereço do meu escritório para a abertura dos documentos por email. — Eu sabia que ela tinha bens, isso era óbvio. Mas nunca imaginei que faria parte do testamento dela, ela ainda conseguia me surpreender mesmo não estando mais presente.

 

Testamento…

 

Meu estômago embrulhou.

 

— Claro… Eu vou estar lá. — Ele me deu suas condolências antes de desligar e me deixar ali, sem saber como reagir a mais essa notícia.

 

Quando abaixei o celular, percebi que minhas mãos tremiam tanto que quase o derrubei.

 

__________

 

O escritório do advogado ficava no centro da cidade, em um prédio antigo e bem cuidado. Tudo na sala dele cheirava a madeira polida e móveis novos, apesar de a estrutura do lugar ser antiga. A sala de reuniões tinha um tamanho considerável, com um sofá e poltronas de couro preto e algumas decorações espalhadas, a mesa e cadeiras em frente a grande janela era de madeira envernizada e um cheiro suave de lavanda preenchia o cômodo. Eu logo percebi as duas pessoas sentadas com um homem de terno do outro lado da mesa.

 

Uma mulher de expressão dura, postura rígida que me olhava como se eu fosse um inseto no caminho e não devesse estar ali. Ao lado dela havia um rapaz que aparentava ter a minha idade, talvez um pouco mais velho, com cabelos escuros cacheados e olhos gentis e diferente da mulher, ele realmente parecia triste.

 

A mulher cruzou os braços e falou. Sua voz era um pouco aguda e tinha um tom impaciente. — Você é a tal Helena? Finalmente, por que não demorou um pouco mais, nós temos o dia todo para esperar por você, pelo visto! — Era óbvio na voz dela a insatisfação por mim. Perguntei-me como ela me reconhecia, considerando que nunca tínhamos nos visto antes de hoje.

 

Mamãe ficou tensa enquanto se aproximava mais de mim e papai acariciou meu ombro me confortando. Eu apenas assenti. O rapaz ao lado da mulher ergueu a mão em comprimento tentando suavizar a aspereza da mulher que eu penso ser a mãe dele.

 

— Desculpa, Helena, não é? Eu sou Daniel Moreau. Neto da Agatha — Ele disse com um pequeno sorriso nervoso e a palavra “neto” me atingiu como um soco. Eu sempre pensei que Agatha não tinha filhos, ou pelo menos era o que acreditava há anos.

 

Ela nunca falou de nenhum filho ou cônjuge para mim, eu apenas pensei que a pessoa com que ela se casou já havia falecido antes da possibilidade de filhos surgirem. Saber que ela tinha não apenas uma filha, mas também um neto era como se um abismo tivesse surgido entre a vida de Agatha que eu achava conhecer e a que ela livremente escolheu manter em segredo de mim.

 

Ela nunca mencionou uma filha. Nunca mencionou ninguém por quem se casou ou teve algum romance, tudo o que ela me dizia sobre o seu passado era das muitas aventuras que vivia com seus amigos nos tempos de escola e nos mundos e histórias que ela criava quando estava entediada.

 

— Sim,… Prazer em conhecer vocês. — Respondi tentando manter a voz firme. Tentando não chorar de novo ao pensar no que mais havia sobre a Agatha que apenas eu não sabia?

 

— Não sei por que mamãe colocou você nisso. Você mal a conhecia de verdade. — A mulher me fitava com puro desprezo, era como se eu tivesse humilhado ela da pior forma possível, como se apenas minha presença ali fosse o suficiente para estragar o dia dela.

 

— Chega mãe. — Daniel murmurou desconfortável. Bem, ele não era o único.

 

— Ela abandonou a própria família, Daniel. E agora essa menina aparece do nada recebendo atenção demais. Nós somos a família dela, não esses estranhos. — Ela falava alto só para que todos ouvissem, o que deixou o clima na sala ainda pior do que estava quando chegamos.

 

Eu apertei os lábios, tentando não reagir. Não queria piorar nada. Seus olhos sobre mim, eram lâminas afiadas, prontas para cortar qualquer tentativa de paz.

 

Álvaro pigarreou chamando a atenção de todos na sala.

 

— Se puderem se sentar, podemos começar. — Ele falou apontando para as outras cadeiras ao redor da mesa.

 

Meus pais ficaram ao meu lado, como dois pilares tentando me manter em pé. Daniel estava em frente a mim enquanto a mãe ao lado dele permaneceu rígida com o desgosto estampado no rosto.

 

Ele abriu uma pasta com documentos antigos e começou a falar sem olhar nada da pasta, o tom dele era cauteloso, mas dava para ver o respeito em sua voz ao falar de Agatha.

 

— A senhora Moreau deixou um testamento formalizado e autenticado há alguns anos, atualizado em 14 de janeiro de 2025. Após a sua morte no dia 22 de novembro de 2025 e estamos lendo seu testamento final no dia 4 de dezembro de 2025. Aqui estão as razões estipuladas pela senhora Moreau. — Ele colocou os óculos e abriu um dos papéis da pasta, olhou por alguns minutos antes de pigarrear e começar a ler em voz alta, a voz dele ecoando pela sala de reuniões.

 

— Primeiramente, a senhora Agatha reconhece sua filha, Elisa Moreau, como herdeira legítima de parte dos seus bens familiares. — Elisa ergueu o queixo e me olhou com ainda mais desdém do que eu achava ser possível.

 

— Porém… — Ele continuou, direcionando um olhar severo para quem agora sei ser Elisa. — Aqui deixa claro que a relação entre elas está rompida desde muitos anos por motivos pessoais que ela não menciona no testamento. — O silêncio permeia a sala e houve um som de engasgo de Elisa que tinha uma expressão de surpresa e descrença.

 

— Apesar disso, Agatha determina que Elisa receba uma quantia financeira generosa de 150 mil dólares americanos e alguns bens pessoais da própria Agatha. — Eu pude perceber Daniel ficar tenso no assento, isso era muito dinheiro, mas pela expressão dela, não era isso que ela queria ouvir. Todos na sala ficaram tensos esperando uma resposta dela.

 

— Só isso? Ela me deixou apenas 150 mil e algumas tranqueiras? Tudo bem, eu ficarei com o dinheiro. — A mulher bufou e franziu a testa, a raiva dela era visível em seus olhos a quilômetros de distância.

 

— É o que está escrito no testamento, eu suponho que não quer os bens materiais que ela deixou com o dinheiro? — Ela acenou com a cabeça e cruzou os braços. — Peço que assine aqui para… — Elisa arrancou a caneta da mão dele assinou o contrato apressadamente, sem nem sequer ler o que tinha escrito.

 

Ele a encarou e então voltou a falar com a voz muito mais séria do que antes. — Agora que você assinou essa cláusula do contrato, a outra parte restante da herança foi deixada inteiramente para Helena Duarte. — Ele a olhou com um pequeno sorriso e bateu o dedo indicador direito no único contrato assinado na mesa.

 

— E isso inclui os bens que você acabou de abdicar. Entre eles uma caixa de joias e pedras preciosas, livros antigos e peças de roupas do século XVII, que estão avaliadas em aproximadamente 1.041.480,00 dólares… — Ele a olhou com desdém enquanto dizia os valores dos bens descritos no contrato.

 

O silêncio que seguiu foi tão abrupto que pensei poder ouvir meu próprio coração acelerar.

 

Eu mal conseguia respirar. Estremeci quando Elisa bateu as mãos na mesa e esbravejou em pura raiva.

 

— NÃO!! Isso é um absurdo! Cancele esse contrato! AGORA! Minha mãe dedicou anos a essa estranha e eu fico com as migalhas?! — Daniel fechou os olhos, como se previsse a explosão. O advogado apenas a olhou como se já tivesse visto essa mesma cena várias vezes antes.

 

Ele tentou pedir que ela se acalmasse, mas ela o ignorou e continuou gritando furiosa. —JÁ CHEGA! — Ele vociferou e a raiva no rosto dele fez Elisa estremecer e se sentar novamente na cadeira. — Não vou permitir tamanho desrespeito contra Agatha desta maneira. A sua ganância não lhe permitiu apreciar o bom da vida enquanto sua mãe estava viva, e continuou a te cegar como fez agora. Engula o choro e lide com as consequências de suas ações, criança! — A raiva e decepção transbordava na voz dele, todos desviaram o olhar quanto ele a tratou como uma criança, um soluço escapou de Elisa e o homem sentou-se novamente na cadeira.

 

— Eu não entendo… eu não pedi nada disso. Eu gostava de cuidar dela. — Murmurei sentindo meu rosto aquecer. Eu não pensei que poderia me sentir pior do estava, mas saber que Agatha deixou quase toda a herança para mim ao invés da filha me fez sentir uma mistura de dor e culpa. Mas observar o quão gananciosa Elisa era vez a culpa diminuir um pouco, eu tinha receio sobre Daniel, e espero que ele não seja parecido com a mãe.

 

— Minha avó tinha suas razões para fazer o que fez. Você cuidou dela quando a família de sangue virou as costas para ela. Isso está mais que justo. — Daniel falou com sinceridade, mas havia um toque de tristeza e culpa em cada palavra dita. Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas.

 

— Sim, tinha. As razões erradas! — A mãe dele rebateu com puro veneno. A raiva dela agora direcionada a mim.

 

— Senhora Elisa, eu não quero ouvir a sua voz até que a leitura desse testamento esteja concluída. Você falará quando tudo terminar e apenas quando terminar. — Falou sério erguendo a mão para silenciá-lá e voltou a falar.

 

— A herança de Helena inclui também a casa em que Agatha residia e todos os bens dentro dela, as economias pessoais fora os 150 mil… E algumas escrituras de comércios que ela não menciona no testamento. — Agatha tinha deixado praticamente tudo o que tinha para mim. Eu me pergunto há quanto tempo ela vinha planejando isso?

 

Elisa ficou ainda mais indignada, mas não se atreveu a dizer nada.

 

— Ela deixou algo para o Daniel? — Perguntei enquanto eu ainda tentava entender tudo.

 

— Não há nenhuma menção de bens para ele no contrato. Ela deixou algumas cartas especificadas. Uma para você e duas para ele e a mãe, além de instruções adicionais sobre outros documentos que serão entregues seguindo os pedidos específicos da Agatha. — A sala girava, metade da minha vida mudou da água para o vinho sem minha permissão.

 

Eu não entendia. Por que eu?

 

Por que isso estava acontecendo comigo?

 

E, principalmente, porque Agatha escondeu ter uma filha e um neto?

 

Quando a reunião finalmente terminou, Elisa saiu bufando, quase derrubando a cadeira após tentar mais uma vez revogar a assinatura do contrato e Álvaro negar. Quando todos os documentos foram assinados comprovando a leitura do testamento, Daniel se aproximou de nós com uma expressão nervosa e começou a se desculpar.

 

— Senhor e senhora Duarte, eu realmente sinto muito pela minha mãe. Ela… Ela nem sempre foi assim... — Disse ele com genuíno constrangimento, suas orelhas e nariz ficando levemente rosados.

 

— Não se preocupe Daniel, não é culpa sua, todos estamos passando por um momento difícil. Você e a Lena deveriam conversar por vezes, vai ser bom para vocês dois. — Meu pai falou calmo, mostrando que não julgava Daniel pela mãe que tinha. Daniel sorriu um pouco e concordou. O amor que ele sentia pela avó era óbvio, mas a dor também.

 

— Nós conhecemos versões diferentes dela, vai ser bom saber mais da dona Agatha. Eu só… não sabia de nada disso. Do testamento ou de vocês… — Respondi seria, ainda tentando processar tudo o que tinha acontecido em poucas horas e ainda nem passava do meio-dia.

 

— Nem eu. Minha avó era cheia de segredos. Eu não me ligo para a herança dela, eu só queria ter mais tempo com ela, além do que eu tive quando criança. — O carinho na voz dele me fez querer desabar em lágrimas. Ele tinha todo o direito de estar bravo, mas estava sendo gentil, eu não era a única que perdeu alguém importante em Agatha.

 

Ele pareceu hesitar antes de perguntar:

 

— Posso ter seu número? Penso que ela gostaria que nos conhecêssemos. — Assenti embora ainda estivesse processando, porque, mesmo sem entender, eu pressentia que aquilo era apenas a primeira porta se abrindo.

 

E o mundo atrás dela não era nada parecido com o que eu conhecia.

 

Os dias seguintes foram difíceis, lentos. Dolorosos.

 

Eu lembrava dela sempre que fazia ou pensava em algo que tiraria uma risada humorada, um conselho sábio ou até mesmo uma bronca vindo dela. O mais doía não era saber que não poderia falar ou abraçá-la quando tivesse um dia ruim. O que mais doía era programar o despertador e lembrar que não seria mais necessário porque a Agatha não estaria mais me esperando em sua poltrona favorita perto da janela. Doía saber que não teríamos mais a presença dela nas sessões de filmes nos finais de semana.

 

E a casa…

 

A casa de Agatha agora estava vazia, mas ao mesmo tempo… cheia demais. Eu não tive coragem de voltar lá imediatamente. Só de pensar no quarto, na cama, no silêncio onde antes existia a voz dela… meu peito se apertava até doer fisicamente.

 

Mas eu não fui a única a sofrer.

 

Minha mãe passava horas em silêncio, mexendo em fotos antigas que tínhamos tirado juntas — aniversários simples, tardes de café, pequenas celebrações. Meu pai, que era sempre muito emotivo, ficou mais quieto do que nunca. Ele gostava de Agatha de um jeito alegre, respeitoso, como se reconhecesse nela algo raro.

 

— Ela era diferente, sempre sabia o que dizer nos momentos certos. Uma daquelas pessoas que não aparecem duas vezes na vida. — Ele disse uma noite, enquanto jantávamos sem muita vontade. Eu apenas assenti. Não confiava na minha voz para dizer qualquer coisa.

 

O luto não vinha como uma única onda. Ele vinha em pedaços — em pequenos momentos traiçoeiros. Quando eu via uma xícara que ela teria gostado. Quando alguém mencionava algo que ela costumava dizer. Quando eu acordava e, por um segundo, esquecia que ela não estava mais aqui.

 

E então lembrava.

 

Sempre lembrava.

 

Três dias depois da leitura do testamento, recebi uma ligação de um número desconhecido.

 

— Oi, Helena. É o Daniel… Espero que não seja estranho eu ter mandado mensagem agora... — Ainda era estranho saber que ele era neto de Agatha, saber que ela tinha uma filha…

 

— Oi. Tudo bem… não é estranho. — Demorei um pouco pensando no que dizer a seguir, mas a resposta dele veio rápido.

 

— Eu só queria saber como você está. Tem sido difícil para mim, não posso imaginar como tem sido para você… — Demorei mais dessa vez. Tudo ainda era difícil de assimilar, eu sabia que tinha partes da vida de Agatha que eu não conhecia e que talvez nunca chegasse a conhecer, mas de alguma forma, saber que Daniel a amava mesmo distante me fazia sentir menos culpada.

 

— Não muito bem. Mas… acho que isso é normal. Estou tentando lidar com tudo isso. — Apesar da tristeza que eu sentia, eu sabia que Agatha era amada por muitas pessoas. E ver que eu não estava sozinha no meu luto era reconfortante, não diminuía a dor, mas a tornava mais leve.

 

— É. Eu também não ando muito bem, estive pensando em todos esses anos que passei longe dela… — Ele respondeu com a voz baixa e rouca, como se tivesse acabado de chorar. O que poderia ter acontecido, foi ali que percebi que, eu não fui a única a perder uma avó. Daniel também perdeu uma avó. Ele também perdeu a Agatha.

 

Aquilo me surpreendeu. Pela forma simples, direta como ele falou. Sem tentar parecer forte. — Você era próximo dela? — Perguntei, tentando não ultrapassar algum limite. A resposta demorou um pouco mais.

 

—Eu queria ter sido. Minha mãe e a vovó brigaram feio quando eu era criança, depois disso nós nunca mais falamos com a vovó. Mas eu poderia ter tentado entrar em contato depois, mas sempre arranjava uma desculpa ridícula. Eu perdi essa chance a muito tempo. — Sua voz ficou trêmula enquanto falava, de vez em quando o ouvia fungar e percebi que ele estava chorando, mas não tentava esconder o choro em momento nenhum.

 

Depois disso, começamos a conversar aos poucos. Nada intenso, nada forçado. Pequenas mensagens ao longo do dia. Mensagens de conforto, conselhos e piadas ruins na tentativa de aliviar a dor um pouco. Até que, em uma noite particularmente difícil, quando o silêncio parecia mais pesado do que nunca, ele acabou falando mais sobre a briga entre a mẽ e Agatha.

 

— A minha mãe… Sinto muito pela forma como minha mãe tratou você e seus pais na leitura do testamento. Ela não deveria ter falado daquele jeito com vocês. — Me lembrei de como ele parecia naquele dia. Seu rosto não mostrava irritação pela forma como a mãe agia, sua expressão era uma mistura de resignação e decepção, como se já tivesse visto algo parecido antes.

 

Suspirei antes de responder. — Ela estava… chateada. Ela perdeu a mãe. — Tentei amenizar o que tinha acontecido, não queria que ele criasse rancor da mãe por algo assim.

 

— Ela estava sendo ela mesma — Ele corrigiu, com um suspiro cansado. — Minha mãe sempre foi assim. Muito focada em dinheiro, status… atenção. Perder qualquer coisa, para ela, é inaceitável. Mas, honestamente? Acho que o que mais incomodou ela foi não ter ficado com o que queria. — Ele parecia irritado agora, mas era como se aceitasse que não poderia mudar a forma como a mãe agia e pensava.

 

Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando pensar no que dizer sem ofendê-lo. —Ela sempre foi assim com a Agatha? — Questionei simples, como alguém com o caráter de Agatha tinha uma filha mesquinha? Eu não queria tirar conclusões precipitadas sobre alguém que nem sequer conhecia.

 

— Elas brigaram anos atrás. Feio. Minha mãe queria controle sobre tudo. Decisões, bens, até a forma como minha avó vivia. A Agatha… não era o tipo de pessoa que aceitava isso. — Sorri de leve, mesmo com os olhos ardendo. Lembrando dos momentos de teimosia dela, quando perdia a hora conversando com as flores e dizia serem espíritos de ninfas.

 

— Elas se afastaram depois disso. — Ele continuou com um suspiro pesado. — Elas nunca mais se falaram. Eu ainda visitava quando podia, escondido às vezes… mas parei depois de um tempo. — Havia culpa ali. Clara e pesada.

 

— Ela não falava de vocês… Mas sei que ela te amava. — Dizer aquilo apertou meu peito. Não queria que ele se sentisse culpado, mas não podia mentir sobre isso.
Às vezes, me pegava pensando em como seria se nós tivéssemos nos conhecido antes, por um motivo diferente…

 

Com o passar dos dias, comecei a perceber que minha dor não estava sozinha. Meus pais também carregavam a ausência dela de formas diferentes. Minha mãe começou a acender uma vela para ela todas as noites no nosso mural de dia del los muertos. Meu pai, por outro lado, decidiu que iria refazer todas as receitas dela, apesar de nunca ficarem parecidas com as de Agatha.

 

— Você não precisa entrar lá sozinha. — Ele afirmou um dia, enquanto estávamos tomando café da manhã.

 

Ainda não me sentia pronta para ir lá. Mas sabia que aquele momento chegaria, eu estando pronta ou não. E, talvez… Eu pudesse aceitar e seguir em frente com o que aconteceu.

 

Porque, no meio da dor, uma certeza começava a crescer dentro de mim:

 

Eu não estava sozinha com minha dor.

 

E eu estava, aos poucos, aprendendo isso.

Notes:

Oiiii. Me digam o que vocês acharam desse capítulo. O que vocês acharam da Helena? Não tivemos tempo de conhecer a Dona Agatha, mas teremos menções dela nos proximos capitulos.

 

Nos vemos nos Proximos capitulos e um bom fim de semana a todos. 🐹🥰

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