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Meu pantanal

Summary:

A vida de Eduarda estava perdida.

Perdida ao ponto de seu pai lhe obrigar a passar um tempo no Pantanal para que ela conseguisse se encontrar. Era o que ele queria que acontecesse. Mas algo mudaria todo o rumo da história, ou melhor, uma pessoa, Juma Marruá.

O encontro entre as duas era caótico, duas pessoas tão diferentes e que viam a vida de forma opostas. Eduarda não via sentido em nada, Juma sentia o sentido todo dia quando o sol nascia. E de alguma forma era exatamente aquilo que puxava uma para a outra, aquela diferença e curiosidade.

Juma iria mostrar a vida pra Eduarda de uma forma que ela nunca viu antes, ela fazia a ruiva conseguir enxergar as coisas de forma mais leve. Eduarda ensinava para Juma coisas que ela nunca tinha experimentado antes, como a leitura.

As diferenças foi o que uniu elas. Mas seria ela capaz de separar as duas? Afinal, Eduarda tinha um propósito de planejar uma construção naquela zona e Juma, defendia seu território com unhas e dentes.

Chapter Text


CAPÍTULO 1 — Área perfeita. 

 

"A gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver - não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo." - Guimarães Rosa.

 

 

 

Mato Grosso do sul, 2025

 

Click. 

 

O apertar do botão ativou a máquina de café que produzia um ruído audível, alto suficiente para atingir um ponto central da cabeça de Eduarda que agora zumbia ainda mais. Os olhos piscavam cansados enquanto via o líquido quente atingir a xícara, não gostava de café de máquina, mas o pó de café tinha acabado. Ela precisava de cafeína quase como precisava de água. Não dormia bem há tempos, para se manter de pé precisava de uma grande dose de energia, ou se não sentiria-se inútil o dia todo, bem, na verdade se sentiria inútil de qualquer forma. Isso porque estava apenas há dois dias naquele lugar, dois dias que pareciam passar arrastados para alguém que estava acostumado com a vida rápida de São Paulo. Lá tudo era calmo, não porque nada acontecia, mas porque o ritmo era diferente, era calculado, não era de tentar controlar a natureza, mas sim de deixar se levar por ela. 

 

Aquele dia no pantanal estava ensolarado, perfeito para aproveitar tudo o que o local que estava hospedada poderia oferecer. Eduarda não estava acostumada com aquele sol, em uma cidade em que a fumaça parecia cobrir tudo, sentir os raios solares queimando em sua pele era quase uma novidade, o suficiente para que as bochechas dela estivessem um pouco avermelhadas. O Pantanal era diferente de tudo que já conheceu, as pessoas, o lugar, até o clima. Ela já tinha estado ali antes, com seus 19 anos em uma viagem em família, quando tudo era diferente, quando tudo parecia certo na sua vida. Ela havia aproveitado bastante, ela foi às festas que o hotel oferecia, os passeios, nadou no rio e até mesmo tinha ficado com uma funcionária. Tinha sido uma experiência incrível, mas agora aquele era o último lugar onde ela queria estar.

 

Após a xícara encher Eduarda a pegou em mãos soprando o líquido quente fazendo o vapor voltar em seu rosto e tomou um grande gole de seu cafe. Ela isso retirou o celular do bolso em um movimento rápido e agora fez o que estava acostumada, entrou no contato de Henrique Fragoso e clicou para realizar uma ligação. O ponto é que ela estava tão ansiosa que cada barulho que a chamada fazia, ela sentia-se mais impaciente, os segundos ali pareciam se estender antes que a ligação fosse atendida. 

 

— Você não cansa de me ligar? — a voz grave de Henrique saiu do outro lado da linha. 

 

— Nossa pai, assim você me ofende, você não gosta de receber ligações da sua filhinha?

 

— Não quando elas acontecem de duas em duas horas para ouvir reclamações. 

 

— Olha só, eu aceitei vir pra cá por causa da expansão do hotel, não para tirar férias. — a constatação foi feita de maneira rude. — Você até mesmo colocou um babá atrás de mim! 

 

— O Paulinho não é seu babá. — ele fez uma pequena pausa parecendo estar pensativo. — Ele trabalha ai, eu só pedi pra ele te receber bem...e você sabe que eu tenho motivos para fazer isso. 

 

Eduarda sentiu a mandíbula tencionar com aquela menção. Odiava a forma que seu pai estava a tratando desde o incidente.O incidente em questão era um pouco mais pesado do que Eduarda tentava transparecer. Uma overdose. Muitos acharam que foi uma tentativa de suicídio. Não foi. Mesmo que soubesse que estava se matando aos poucos. 

 

A verdade era que isso aconteceu pelo excesso de medicamentos antidepressivos. Eduarda começou a tomar-los há dois anos atrás, naquela época ela tinha controle sobre eles, controle sobre a dose e até mesmo fazia acompanhamento com o psiquiátrico. Isso durou alguns meses, meses esses que fizeram seu organismo acostumar com o efeito e se sentir necessitado por mais, por isso ela tomou medicamentos mais fortes e por não tratar de fato o problema e só se medicar como queria, parecia que não estava resolvendo e a alternativa pra isso foi tomar mais e mais, doses altas todos os dias, ela ficava dopada e completamente anestesiada.

 

Isso funcionou por um tempo. 

 

Até o dia em que começou a ser demais pro seu corpo, quando ela novamente aumentou a dose sem prescrição nenhuma. Por pouco ela foi salva, por pouco ela não morreu sozinha em seu apartamento. Ela passou duas semanas internada, os psiquiatras não a liberavam devido o "risco" que ela tinha para si própria, o que particularmente Eduarda achava ridículo, ela não era do tipo suicida. Mas não teve muita escolha, ela só sentia sono o tempo todo e vomitava muito, os medicamentos haviam sido cortados e tudo parecia caótico na sua mente. Aqueles dias passaram como um borrão. As pessoas lhe visitavam com um olhar de pena, um olhar quase de culpa, era horrível, ela se sentia exposta, fraca e humilhada. Proibiu as visitas de acontecerem, mas quando saiu de lá tinha uma surpresa, uma viagem pro pantanal para que ela pudesse "se reconectar com o mundo", sem remédios, bem ao menos foi o que eles disseram, mas Eduarda tinha seus métodos. Ela já tinha aprendido sua lição, ia tomar de forma controlada, ela tinha controle sobre a situação.  

 

— Eu vou voltar pra São Paulo. — ela anunciou com a voz simples. — Eu vou voltar pro meu cargo na empresa, o setor precisa de mim. 

 

— Se você fizer isso, considere-se demitida. 

 

— Como!? — ela praticamente fugiu ao ouvir aquelas palavras. — Você não pode fazer isso! Isso é abuso de poder! Você sabe o quanto eu me dediquei por essa empresa! 

 

— Você se dedicou até demais Eduarda! Eu estou fazendo isso para o seu bem. — ele respondeu mais firme, as palavras saiam mais duras. — Escuta filha, aproveite o tempo que você está por aí para aproveitar a natureza, fazer os passeios que oferecemos e quando, apenas quando, eu perceber que você está mais tranquila, eu libero pra que você participe da expansão do hotel. 

 

— Que seja... — murmurou sem muita paciência.

 

— Eduarda, por favor filha, a gente só está tentando te ajudar. — Henrique carregava a voz com aquele tom paternal e cuidadoso. 

 

— Me prendendo na mata? O que você esperava com isso? que eu virasse uma pessoa transcendental do dia pra noite?

 

— Eu espero que você pare um pouco e consiga respirar em paz. — Henrique respondeu por fim, mais baixo. — Só isso.

 

— Parar pra quê? Pra ficar pensando? — rebateu rápido. — Porque olha, isso nunca deu muito certo pra mim.

 

— Pra sentir, então. — ele corrigiu, firme.

 

Aquilo a fez travar por um segundo.

 

Os dedos apertaram a xícara com mais força do que deveriam, o calor já nem sendo percebido direito. Sentir. Ele dizia como se fosse algo simples, como se fosse seguro. 

 

— Eu já sinto demais. — ela respondeu, mais seca agora. — Você que não vê.

 

— Não, Eduarda... você evita. Tem diferença.

 

 Click.

 

A chamada foi encerrada e, por um instante, ela ficou parada, encarando a tela apagada do celular como se pudesse discutir com o próprio reflexo. A mandíbula ainda travada, o gosto amargo do café agora parecia ainda mais intenso na língua. Ela mal conseguia controlar a frustração, a forma em que seus punhos fechavam com aquela sensação de descontrole pela própria vida. Estava impotente novamente e o que deveria ajudá-la só piorava tudo, por isso que não conseguiu suportar aquela sensação horrível e pegou uma das cápsulas do pote que estava em seu bolso e tomou sem nem precisar do auxílio de água para o medicamente descer. 

 

Depois que terminou aquele café sem graça de máquina, ela decidiu que contornaria aquela situação, que iria observar como andava o projeto sem interferir, apenas tomando notas para que quando seu pai percebesse que precisava dela, ela poderia agir. Sem esperar mais, ela saiu da pequena cabana de madeira que dava em frente a uma grande área arborizada com um lindo jardim cheio de cabanas iguais a sua. Algumas pessoas passavam ali, mas nenhuma delas era a que Eduarda procurava, sabia exatamente onde encontrar o homem que não largava de seu pé. 

 

— Viviane? — Eduarda falou com a voz grave, o que fez a mulher alta e de cabelos enrolados virar de frente pra ela. — Você viu o Paulinho por aí? 

 

— Senhorita Fragoso... — ela falou um pouco desconcertada por estar falando com a filha de seu patrão e sua superiora. — E-eu o vi com a Gerluce...eles devem estar trabalhando. 

 

— Trabalhando? Se o Paulinho tá com a Gerluce ele tá fazendo tudo menos trabalhar. — ele levantou uma sobrancelha. 

 

— Não! Droga! Não, ele não está com a Gerluce, tenho certeza que cada um tá trabalhando separadamente. — disse tentando resolver a situação que poderia deixar sua melhor amiga e paulo com problemas. — É...

 

— Relaxa. — a ruiva a tranquilizou colocando as mãos no bolso. — Eu não me importo o que eles estejam fazendo, mas realmente preciso conversar com o Paulinho. 

 

Viviane assentiu rápido demais, como se quisesse encerrar o assunto antes que ele crescesse. Não queria falar nada que colocasse sua amiga e o namorado dela em uma situação complicada. 

 

— Ele... deve estar lá perto do depósito de equipamentos, perto da trilha do rio. — apontou com a cabeça, evitando contato visual direto. — Foi a última vez que eu vi.

 

Eduarda estreitou os olhos por um segundo já imaginando o que eles estariam fazendo naquele depósito vazio. Ela não queria interromper o momento íntimo, mas de qualquer forma eles que estavam errados de fazer isso em horário de trabalho e não ela de atrapalhar. 

 

— Valeu. — agradeceu baixo. 

 

Sem esperar mais, seguiu na direção indicada. O caminho era parcialmente sombreado por árvores altas, mas o calor ainda era presente, colando a roupa leve em sua pele. O som dos insetos era constante, quase irritante, e o chão de terra fofa abafava seus passos. Conforme se afastava da área principal das cabanas, o movimento diminuía. Menos hóspedes. Menos funcionários. Mais silêncio.

 

Bom. Era exatamente disso que ela precisava.

 

Ela havia conhecido Paulinho quando havia vindo para aquele lugar aos 19, ele ainda era novo na empresa e foi o único que não lhe tratou diferente, o que fez com que eles virassem amigos. Depois disso tinham se encontrado novamente em São Paulo algumas vezes quando ele ia para reuniões, agora que ele era o principal engenheiro ambiental e também o responsável por analisar as zonas em que os hotéis da família seriam abertos. Quando ele ia para São Paulo sempre saiam, conversavam muito, mas por morarem longe não tinham tanta proximidade assim. Henrique sabia da relação de amizade deles e praticamente obrigou o engenheiro a ficar de olho na sua filha. 

 

Depois de alguns minutos andando, avistou uma pequena construção de madeira — o tal depósito. Algumas caixas estavam empilhadas do lado de fora, redes enroladas, galões de combustível e equipamentos de trilha. Ela já esperava aquela cena, mas o que viria a seguir era bem constrangedor, lá estava Paulinho e Gerluce agarrados, ele com as calças abaixadas e segurando ela no colo, mas não estavam no ato sexual em si, ainda que o beijo fosse intenso. 

 

— Paulinho. — ela falou como um assobio para que pudesse tomar atenção do homem. 

 

O som da voz de Eduarda cortou o ar abafado como um chicote. O susto foi tão imediato que Paulinho quase perdeu o equilíbrio, segurando Gerluce com mais força antes de, finalmente, colocá-la no chão de forma desajeitada. Gerluce, com o rosto subitamente mais vermelho que as bochechas queimadas de Eduarda, ajeitou a blusa com movimentos frenéticos, sem coragem de encarar a chefe.  Paulinho, por outro lado, soltou uma risada nervosa enquanto subia as calças, tentando manter um pingo de dignidade que já tinha escorrido pelo ralo.

 

— Pelo amor de Deus, Eduarda! Você não sabe bater na porta? — Ele gesticulou para o depósito, que tecnicamente não tinha uma porta fechada, apenas um vão aberto.

 

— Isso aqui é um depósito, não um motel de beira de estrada — Eduarda rebateu, cruzando os braços com uma impaciência que não deixava espaço para desculpas. —Os dois pombinhos não deveriam estar trabalhando? 

 

— Senhorita Fragoso...e-eu...eu...

 

— Não precisa disso, a Juquinha é inconveniente, ela nem está brava de verdade  — Paulinho interrompeu Gerluce vendo que ela estava prestes a ter um ataque. 

 

— Inconveniente é o seu senso de noção e de espaco, Paulo. — Eduarda rebateu com o tom de voz carregado de ironia. — Gerluce, por favor. Pode voltar para o que quer que estivesse fazendo... de preferência, algo que esteja no seu contrato. Não se preocupe, ninguem vai ficar sabendo do que eu vi aqui. 

 

Gerluce não esperou um segundo convite. Com um aceno de cabeça rápido e os olhos fixos no chão, ela contornou Eduarda quase como se tentasse se tornar invisível, desaparecendo pela trilha em direção à sede do hotel em uma velocidade impressionante. Paulinho suspirou, terminando de ajustar o cinto e limpando o suor da testa com as costas da mão. Ele olhou para Eduarda e viu a postura rígida, os braços cruzados e aquele brilho nos olhos que ele conhecia bem.

 

— Resolveu mudar de ideia sobre o passeio de barco, Juquinha? — ele perguntou. 

 

— Eu não vim aqui pra ver jacaré, Paulo — Eduarda rebateu, dando um passo para dentro da sombra do depósito. O cheiro de óleo diesel e madeira seca era forte ali dentro, mas era melhor do que o mormaço que começava a cozinhar seus neurônios. — Eu vim perguntar sobre o projeto da extensão, como ele está indo. 

 

— Voce sabe que eu tenho ordens para não falar isso com você, mas sabe para o que eu to liberado? Te levar para passear na vila, sem álcool! Mas podemos tomar um caldo de cana. 

 

— Caldo de cana, Paulo? Sério? — Eduarda soltou uma risada irônica, mas o som morreu rápido, sufocado pelo zumbido persistente em seus ouvidos. — Eu acabei de ouvir do meu pai que sou descartável até segunda ordem. Eu não quero açúcar e entretenimento local. Eu quero os relatórios de sondagem da área norte.

 

Paulinho terminou de ajeitar a camisa e se apoiou em uma bancada de madeira coberta por poeira e alguns mapas enrolados. Ele a estudou por um momento; conhecia Eduarda o suficiente para ver que as bochechas vermelhas não eram apenas do sol, e que aquele brilho nos olhos era uma mistura perigosa de privação de sono e obstinação.

 

— Juquinha, o Henrique foi bem específico. "Deixe ela longe de qualquer coisa que tenha um gráfico ou um cronograma". Ele acha que se você abrir um Excel agora, seu cérebro entra em curto-circuito...e vamos ser sinceros, ele tem motivos para achar isso. 

 

— Meu cérebro já está em curto, e é justamente por não ter nada útil para processar — ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele, a voz baixa e cortante. — Eu sei que vocês estão tendo problemas com a drenagem perto da vazante. O solo lá não é o que a equipe de São Paulo previu, não é?

 

Paulinho desviou o olhar para o lado, e esse milésimo de segundo de hesitação foi tudo o que ela precisou para confirmar sua suspeita.

 

— Bingo — ela murmurou, um sorriso de canto surgindo, quase involuntário. — Se vocês continuarem com o estaqueamento original, aquele setor vai afundar na primeira cheia. O engenheiro ambiental que existe aí dentro sabe disso.

 

— Tá legal, você me pegou. O solo é um queijo suíço — ele admitiu, soltando um suspiro de derrota e puxando uma pasta azul debaixo de um rolo de cabos. — Mas eu não vou te falar mais nada, entendido? Não é da sua conta. 

 

— Claro que é da minha conta, sabe eu estava pensando na área que passam pelo passeio de barco, lá seria ótimo, se a gente pegasse as duas áreas entre o rio, aquela parte seria basicamente um ponto turístico enorme do hotel. 

 

— Nao vamos construir naquela área e não vou falar mais disso com você. — Paulinho disse com a voz soando mais firme. 

 

— Por que não vão construir naquela área? Ela parece ser perfeita. — ela rebateu tentando se aproximar dos relatório, mas Paulinho a impediu de continuar. 

 

— É mais complicado do que você pensa. — falou sem dar muitas informações 

 

— Complicado como? 

 

— Juquinha, você precisa parar com isso cara! Você não anda nada bem! Relaxa um pouco! Olha esse lugar que você está, aqui é lindo, aproveita um pouco a natureza...

 

Ela não se deu por vencida, mas por hora não iria discutir porque tinha planos melhores. Iria ver pessoalmente o porquê daquela área não está disponível para construção. Iria tomar notas, entender e tentar mudar aquilo, seria muito mais lucrativo se pudessem expandir por aquela região. Sua mente trabalhava daquela maneira, criando rotas de escape para que ela não conseguisse focar em resolver seu verdadeiro e maior problema que a trouxe ali. 

 

— Tudo bem, Paulinho. Você venceu — ela disse, forçando um sorriso que não chegava aos olhos, mas que foi o suficiente para desarmar a guarda do guia. — O passeio de barco. Vamos ver o que esse rio tem de tão especial.

 

Paulinho arqueou uma sobrancelha, claramente desconfiado da mudança repentina.

 

— Assim, do nada? — ele perguntou, estreitando os olhos, como se tentasse enxergar além da superfície daquela decisão.

 

— Ué, você não queria que eu aproveitasse? — Eduarda rebateu, cruzando os braços, sustentando o olhar dele com uma firmeza quase desafiadora. — Então pronto. Tô aproveitando.

 

Ele ainda a encarou por alguns segundos, como se pesasse as possibilidades, mas então soltou um suspiro curto e assentiu com a cabeça. Aquilo era um pequeno avanço e quem sabe se conectando mais com a natureza Eduarda voltasse a ser 1% do que era há dois anos atrás. Até porque Paulinho que se mudou para o Pantanal ha 10 anos atrás, e isso tinha mudado completamente sua vida, estar em contato com toda aquela fauna e flora fez com que ele encontrasse uma paz que nem sabia ser capaz de sentir, ele queria o mesmo para amiga. 

 

— Certo... mas nada de inventar moda, Juquinha.

 

Ela deu um meio sorriso.

 

— Eu? Jamais.

 

Mentira.

 

Paulinho soltou um suspiro de alívio, guardando o mapa com uma agilidade que irritou Eduarda; ele claramente não queria que ela decorasse as marcações. O caminho até o píer era feito por uma trilha de terra batida, cercada por árvores altas que filtravam a luz do sol em feixes dourados. O som dos insetos era constante, quase hipnótico, e o vento carregava o cheiro úmido do rio misturado com terra e folhas. Eduarda andava alguns passos atrás de Paulinho, observando tudo com atenção — não só pela beleza, mas pelos detalhes.

 

Distância entre os pontos.

Tipo de solo.

A inclinação do terreno.

 

O barco deslizou para longe da margem, cortando as águas cor de chá do rio com uma suavidade que contrastava com a tensão que ainda vibrava sob a pele de Eduarda. À medida que se afastavam, o cenário do hotel — com suas cabanas de madeira perfeitamente integradas à vegetação e o telhado de palha da sede — ia ficando para trás, sendo engolido pela imensidão verde do Pantanal.

 

O rio era um espelho escuro onde se refletia um céu de um azul tão sólido que parecia pintado. Nas margens, a vegetação era densa e caótica; sarãs de galhos retorcidos mergulhavam na água, enquanto as raízes aéreas dos aguapés flutuavam como ilhas móveis, abrigando famílias de pequenas rãs e insetos que ela sequer sabia o nome. O sol, agora no ápice, transformava o rio em uma sucessão de flashes prateados. No horizonte, a linha da água se perdia em curvas fechadas, onde as copas das figueiras e piúvas se debruçavam sobre a correnteza, criando túneis de sombra úmida. O calor era uma presença física, um abraço pesado que trazia consigo o cheiro de peixe fresco, lama seca e o perfume adocicado de flores silvestres escondidas na mata. Paulinho pilotava o barco com uma mão relaxada no leme, mantendo uma velocidade constante. Ele parecia distraído com a beleza do lugar, mas Eduarda percebia como seus olhos vigiavam não apenas o rio, mas os movimentos dela.

 

— Olha ali, Juquinha — ele apontou para uma família de ariranhas que brincava perto de um tronco caído. — Aposto que você não vê isso na Faria Lima, né?

 

Ela apenas assentiu, mas seu olhar estava focado no ambiente. Lá era realmente lindo e aquele passeio valia a pena, mas ele com certeza valeria muito mais se caso o hotel cercasse a área, como o resort que a família tinha no rio de janeiro que rodeava um pedaço do mar. Ela não era viciada em trabalho, mas estava parecendo uma, pois sua mente preferia lidar com os números e contratos do que começar a pensar em lidar com os sentimentos bagunçados e sombrios de Eduarda. Era um mecanismo de defesa, uma rota de fuga para esquecer o quão fodida estava. 

 

— Juquinha, presta atenção ali na esquerda! Aquela é uma...

 

— Vou precisar ir ao banheiro, Paulinho — ela o interrompeu, a voz seca. — Pode encostar naquela margem ali? Tem uma trilha de pescador, eu me viro em cinco minutos.

 

— Aqui não é muito seguro, melhor esperar chegarmos na curva do... — Paulinho franziu o cenho, olhando para a densidade da mata ciliar. 

 

— São cinco minutos ou eu vou ter um problema sério aqui no seu barco — ela disparou, usando o tom autoritário que costumava calar estagiários na Faria Lima.

 

Relutante, ele manobrou e encostou o bico do barco no barro seco. Assim que parou de vez o movimento, Eduarda saltou com uma agilidade que surpreendeu a ambos.

 

— Não saia daí. Eu já volto.

 

Ela caminhou para dentro da mata, sentindo as folhas de gravatás arranharem suas pernas. Assim que perdeu o barco de vista, Eduarda não parou. O som do motor em marcha lenta foi ficando para trás, substituído por um coro ensurdecedor de insetos e o grito de um carão. Ela ligou o GPS do celular para ver quais eram as coordenadas do local em que estava, enquanto observava o arredor dali, seus olhos analisavam cada detalhe que poderia indicar o "complicado" que Paulinho mencionou.  A trilha que ela seguia logo desapareceu, engolida por cipós e raízes aéreas que pareciam dedos tentando segurar seus tornozelos. O chão era instável, a cada passo, o pé afundava em uma camada de folhas secas que escondia sabe-se lá o quê. O calor ali dentro era sufocante, uma estufa natural que fazia o suor escorrer por suas têmporas, mas ela ignorava o desconforto. Precisava ver aquela área, precisava ver o que tinha de errado com aquele lugar. 

 

De repente, o silêncio da mata foi quebrado por um estalo alto de galho seco, logo à sua direita. Eduarda estancou. O coração bateu contra as costelas, o mesmo ritmo frenético de quando as ações da empresa caíam na abertura do pregão. Ela olhou em volta, mas a vegetação era um emaranhado de tons de verde e marrom. 

 

Click.

 

O som veio de novo, mas não era um galho. Era um estalido gutural, baixo, vindo de algum lugar entre as folhagens baixas. Eduarda recuou um passo, mas seus olhos, antes nublados pela exaustão e pelo efeito dos remédios, subitamente focaram com uma nitidez perturbadora. Ela esperava encontrar um animal selvagem, um pescador ou um invasor de terras, mas a figura que emergiu da vegetação densa era algo que nada no mundo poderia traduzir. A mulher que se aproximava não caminhava, ela deslizava por entre as folhagens com uma fluidez que desafiava a lógica, como se entendesse exatamente onde e como pisar. A luz do sol, filtrada pelas copas das árvores, criava um jogo de luz e sombra que dançava sobre sua pele levemente bronzeada, coberta por uma fina camada de poeira e suor que brilhava como ouro velho.

 

Eduarda, acostumada com a beleza milimetricamente montada das passarelas de São Paulo e das clínicas de estética dos Jardins, sentiu um nó estranho na garganta. Aquela mulher era visceral, era a definição de beleza crua. Ela notou a simetria perfeita do rosto de Juma, era tão bonita que mesmo com os cabelos desgrenhados, o corpo um pouco sujo e as roupas como trapo, ela continuava tendo a beleza mais intensa que Eduarda já viu. Os lábios eram cheios, mas mantinham uma linha rígida de desprezo, e os cabelos eram uma cascata indomável, emaranhados em pequenos galhos e folhas, cheirando a chuva e a mato. No entanto, eram os olhos que prendiam Eduarda — verdes quase amarelo, selvagens e profundos. Havia uma presença animal ali que era, ao mesmo tempo, aterrorizante e hipnotizante. Para Eduarda, Juma não era apenas uma ameaça, mesmo segurando uma arma e parecia mirar em sua direção, para ela a mulher era a personificação de tudo o que o Pantanal representava: algo que não podia ser domesticado, comprado ou cercado por um contrato de expansão hoteleira.

 

— O que oce tá caçando na minha terra? — A voz de Juma vibrou, rouca e baixa, um som que parecia vir diretamente do chão sob seus pés descalços. Era selvagem.

 

— Eu... eu estava apenas caminhando — mentiu Eduarda, a voz falhando. Ela se sentia subitamente consciente de suas roupas de marca, de sua pele pálida e de seu perfume francês que, ali, parecia uma ofensa ao ar úmido e terroso.

 

Eduarda não conseguia desviar o olhar. Achou Juma magnética, possuidora de uma beleza que lembrava uma tempestade ou um incêndio florestal — algo que você sabe que pode te destruir, mas que é impossível parar de observar. A forma como Juma segurava a espingarda antiga, com os dedos firmes e calosos, revelava uma força que Eduarda nunca vira em ninguém. Juma inclinou a cabeça, o cano da arma baixando apenas alguns milímetros, mas o dedo ainda permanecia tenso perto do gatilho. Ela sentiu que aquela mulher conseguia ler seus segredos mais obscuros apenas pelo cheiro do seu medo.

 

— Oce num chega perto deu! — a mulher falou em um tom rude quase animalesco que pareceu um rugido autoritário. 

 

Os músculos dela estavam rígidos, odiava presença de pessoas de fora em seu território, odiava em como eles pensavam que mandavam em tudo ali. A prova de sua fúria estava na espingarda alta que sempre apontava quando visitas indesejadas apareciam, aquilo geralmente era o suficiente. Mas não para Eduarda, ela não tinha medo da morte, seu estado mental era tão complicado que arriscar-se de tal maneira era quase como se pudesse se sentir viva novamente, quase, porque ainda sim deu outro passo sem temer a arma de fogo apontada para si. 

 

— Eu vim em paz. — Eduarda falou com a voz firme e levantou os braços em rendição. 

 

— Vá embora! — gritou em um rosnado dando um passo para perto da mulher como se quisesse impor sua ameaça, impor sua presença tão marcante que parecia fazer parte da natureza. 

 

— Calma... — ela pediu agora a voz saindo um pouco mais baixa e tranquila demais pra quem tinha uma arma apontada pra si. — Se você me matar, a polícia vai vir te prender, não é uma boa ideia fazer isso...podemos apenas resolver isso conversando. 

 

— Eu num tenho medo dus homem fardado num, eles que tem que ter medo d'eu. — ela abaixou um pouco a arma, mas ainda sim mirando no corpo da ruiva. — Oce não tem medo de morrer?

 

— Você não vai me matar. 

 

— Oce rela em mim pra ver se eu não mato. Oce num deveria tá aqui, aqui num é território de gente da cidade. — a garota selvagem dizia sem paciência e Eduarda apenas a observava com um fascínio silencioso, estava curiosa. 

 

— Eu não quero relar em você — Eduarda respondeu, achando certa graça naquela situação, algo pareceu desagradar mais ainda a outra mulher. — Eu só quero saber o que tem por aqui...só vou olhar a área, não quero problemas. 

 

A mulher soltou uma risada curta, seca, que parecia o estalo de uma madeira queimando. Eduarda gostou em como aquele som soou, parecia como um passarinho cantando, era pertencente, era natural. Já morena não relaxou a postura, mas a curiosidade em seus olhos selvagens brilhou por um segundo.

 

— Problema? — a pantaneira repetiu com escárnio na voz. — O problema é oces que chega querendo saber de tudo e querendo mandar em tudo. A natureza num é vitrine de loja pra oce ficar olhando as coisa assim. 

 

— Você é tipo uma ativista da natureza? 

 

— Eu num sô tipo nada, moça — rebateu, a voz descendo uma oitava, tornando-se um sussurro perigoso. — Eu sô a terra onde eu pisu. Eu sô o bicho que caça e o bicho que corre. Oces fala bonito demais pra num dizer que num entende o que é ser de verdade.

 

Eduarda ficou sem palavras por alguns segundos, nunca tinha escutado alguém se descrever assim. Era uma forma tão crua e bruta, mas bonito a forma de identidade. A ruiva se fosse explicar quem era falaria algo como "Empresária, solteira, lésbica e atualmente presa na mata". No momento de silêncio dela, a panteneira deu um passo a frente e inclinou a cabeça, observando a ruiva com uma profundidade que parecia atravessar as camadas dela. Depois aspirou o cheiro dela que estava no ar. 

 

— Oce tem perfume forte de cidade, a terra num gosta do seu cheiro, melhor oce voltar pelo rastro que veio, a onça pode sentir o cheiro e decidir que oce vai virar janta. — avisou com cuidado. 

 

— A onça? — Eduarda repetiu, e um sorriso involuntário e desafiador surgiu em seus lábios carnudos. — Morrer sendo devorada por uma onça deve ser mais heroico do que morrer com um tiro da sua espingarda. 

 

A pantaneira estreitou os olhos, a confusão nublando a fúria. Ela estava acostumada com o medo, com o pânico que fazia os turistas tropeçarem nos próprios pés enquanto fugiam, mas aquela mulher de cabelos cor de fogo parecia ter um vazio dentro de si que nem o cano de uma espingarda conseguia preencher.

 

— Oce fala coisa de gente que tá com a cabeça doente — a mulher comentou, baixando a arma apenas o suficiente para que não apontasse mais para o coração de Eduarda, mas mantendo-a firme. — A vida num é um brinquedo pra oce falar dela desse jeito dela. Aqui, quem num respeita a morte, num merece a vida.

 

— Eu respeito a morte, só aprendi que vida real as vezes dá mais medo do que ela. — Eduarda deu mais um passo, desta vez ignorando completamente o aviso sobre a onça. Agora estavam frente a frente. — Como você se chama?

 

A mulher hesitou em responder. Não queria ter que dar seu nome para alguém tão esquisita quanto aquela mulher com cabelos de fogo, mas havia algo intrigante em seu olhar perdido e semblante triste que despertava uma sensação estranha em Juma. O vento soprou, balançando as folhas ao redor e fazendo o cabelo escuro dela chicotear o rosto marcado pelo sol.

 

— Me chamam de Juma — ela respondeu finalmente, a voz menos animalesca e mais curiosa. — E oce? Tem nome ou é só mais um número que o vento vai levar?

 

— Eduarda, eu me chamo Eduarda. — Ela estendeu a mão, um gesto puramente mecânico que a fez rir de si mesma segundos depois. — Esqueci que você não gosta que relem em você.

 

— Doarda... — repetiu tentando emitir o som. 

 

— Eduarda. 

 

— Eduarda! Finalmente! — Paulinho disse ofegante sentindo os pingos de suor se formando em sua testa de quem havia corrido bastante para achar a ruiva. — Juma...

 

— Vocês se conhecem? — Eduarda perguntou um pouco confusa alternando o olhar entre os dois.

 

— Juma...por favor. — ele pediu ignorando a pergunta e a presença da ruiva. — Ela não sabe o que tá fazendo e muito menos o que tá falando. A Eduarda é da cidade, você sabe como esse povo é... a cabeça não funciona direito no mato.

 

— A moça disse que num tem medo de morrer, Paulin. — Juma sibilou, a voz carregada de um desprezo fascinado. — Disse que a onça é mais herói que meu chumbo.

 

— Ela tá delirando de sol, Juma! — Paulinho deu um passo cauteloso para o lado, tentando se colocar entre as duas, mas um rosnado baixo da pantaneira o fez congelar. — Eduarda, pelo amor de Deus, volta pro barco agora. Você só se mete em situação complicada garota.  

 

— Complicada é um elogio, Paulinho. É fascinante — Eduarda disse, a voz firme, quase divertida ainda encarando a mulher que estava frente de seu amigo. — E a Juma não vai atirar na gente. Nós duas estávamos apenas... nos apresentando. Não é, Juma?

 

Juma finalmente baixou a espingarda, deixando-a descansar ao lado do corpo, mas a tensão em seus ombros não diminuiu. Ela reconhecia a figura daquele homem, ele diferente de muitos ali sabia respeitar seu território. 

 

— Tira ela daqui, Paulin. O cheiro dela tá impregnando as folha e o mato. Se eu ver esse cabelo de fogo cruzando meu rastro de novo, eu num vou querer saber de conversa.

 

— Vamos, Eduarda. Agora! — Paulinho praticamente a puxou pelo braço, mas a ruiva se soltou com um solavanco, mantendo o contato visual com a mulher selvagem.

 

— Eu vou voltar, Juma — Eduarda afirmou, não como uma ameaça, mas como uma promessa. — Ainda não terminei de olhar a área.

 

Juma não respondeu com palavras. Ela apenas deu as costas com uma agilidade que parecia desafiar a física, desaparecendo entre as samambaias gigantes como se nunca tivesse estado ali. O silêncio voltou a reinar, pesado e úmido, interrompido apenas pela respiração descompassada de Paulinho enquanto eles caminhavam em direção ao rio. 

 

— Você é louca? — o guia explodiu assim que tiveram certeza de que estavam sozinhos. — Como você sai sozinha assim no meio de uma floresta!? Falam que aquela mulher vira onça Eduarda! Você quase virou peneira e tá aí sorrindo? 

 

— Eu gostei dela... — Eduarda murmurou, agora já próxima do barco, sentindo-se genuinamente acordada. — Você colocou essa área como complicada por causa das onças? Isso não é problema Paulinho. 

 

— Eu te disse que isso não era da sua conta. — ele respondeu de uma forma agressiva que Eduarda nunca tinha visto antes. — Mas você não consegue aceitar quando as coisas não saem do seu jeito, não é? Você não pode sumir desse jeito! Você não conhece esse lugar, poderia ter ficado perdida, poderia se machucar. 

 

— E-eu só estava curiosa. — sua voz agora carregava um pouco de culpa, mesmo que não houvesse nenhum arrependimento. 

 

Paulinho passou a mão pelo rosto, respirando fundo como se estivesse tentando se controlar antes de dizer algo que realmente se arrependeria.

 

— Curiosidade aqui não é qualidade, Eduarda. Aqui é risco. — a voz dele saiu mais baixa agora, mas ainda firme. — Você não tá na Faria Lima pra fuçar planilha. Aqui, quando você "dá uma olhada", pode não voltar.

 

— Eu voltei. — Ela desviou o olhar por um segundo, chutando levemente a terra seca com a ponta do tênis.

 

— Esse é exatamente o problema! Você age como se sempre fosse dar certo. Como se não existisse consequência!

 

Ela abriu a boca pra responder, mas parou.

Porque, pela primeira vez desde que chegou ali...Ele não estava errado. Eduarda desviou o olhar, encarando o horizonte. O vento bateu mais forte contra o rosto dela, levando embora parte do calor... mas não o suficiente pra limpar o que estava acontecendo dentro da cabeça dela.

 

— Ela não ia atirar — murmurou, mais pra si mesma do que pra ele.

 

— Como você sabe?

 

— Porque ela não queria. — Eduarda demorou um pouco pra responder.

 

— Você não pode ler as pessoas assim, Juquinha. — Paulinho soltou um suspiro cansado.

 

O silêncio entre os dois se estendeu enquanto voltavam pro barco. Só o som dos passos na terra e o barulho distante do rio preenchiam o espaço.

Quando chegaram, Paulinho entrou primeiro, soltando a corda com mais força do que o necessário. Eduarda subiu logo depois, ainda com a cabeça em outro lugar.

 

— O que você quis dizer com ela "vira onça"? — Eduarda perguntou de repente, sentando-se e observando o guia dar partida no motor. O barulho cortou a paz do lugar, mas não o rastro do encontro em sua mente.

 

— É o que o povo diz — Paulinho respondeu, agora mais calmo, mas ainda com o olhar fixo no leito do rio. — Dizem que quando ela fica com raiva, ou quando se sente acuada, ela vira bicho. Eu nunca vi, e nem quero ver. Mas já vi homem feito, caçador experiente, sair correndo daquela região jurando que viu olhos amarelos no meio das samambaias onde não deveria ter nada.

 

O barco começou a se afastar da margem. Eduarda olhou para trás, para o verde impenetrável. Ela sentia que Juma ainda estava lá, observando a de espuma que o motor deixava na água. Aquela mulher vivia uma vida tão diferente da sua, no meio do mato, parecendo não ter ninguém por perto, vivendo apenas do que é necessário e não com futilidades. Isso despertava uma curiosidade tão grande na ruiva, quase igual a curiosidade para entender a área. Por fim, ela voltou a abrir o celular, mas não para ligar para o pai ou checar e-mails da empresa. Ela abriu o bloco de notas e escreveu apenas um nome: Juma. Ao lado, desenhou um pequeno círculo, como se fosse algo que ela precisava entender sobre. 

 

— Paulinho — ela chamou, a voz agora mais baixa, quase dócil. — Amanhã a gente volta. Mas sem o barco. Quero ver a tapera.

 

— Amanhã eu te levo pra ver os tuiuiús, Eduarda. Esquece a Juma. Se você preza o que resta da sua alma, esquece que aquela mulher existe.

 

Mas Eduarda já sabia que era tarde demais.

 

O barco seguiu cortando o rio, deixando para trás uma linha de espuma branca que logo se desfazia, engolida pela água escura como se nunca tivesse existido. O mesmo não acontecia com o que ficava dentro dela.

 

O nome ainda pulsava na tela do celular por alguns segundos antes que Eduarda apagasse o brilho do visor. Mesmo assim, a palavra permanecia, marcada em algum lugar mais fundo, onde lógica nenhuma alcançava. Não era mais sobre a área, nem sobre o projeto, nem sobre números que precisavam fechar.

 

Era sobre aquilo que não fechava.

 

O vento batia contra seu rosto, bagunçando os fios ruivos que agora pareciam mais vivos, como se o calor do sol tivesse acendido algo que andava apagado há muito tempo. O corpo ainda carregava o cansaço, o peso das noites mal dormidas, o efeito químico tentando equilibrar o que dentro dela insistia em pender para o caos — mas, pela primeira vez em muito tempo, aquilo tudo não parecia suficiente para anestesiar completamente o que sentia.