Chapter Text
Escuridão.
Escuridão por completo.
Um lugar totalmente banhado em preto e… silêncio.
“Olá?” Pomba diz ao vácuo infinito, girando no lugar, e nada. Absolutamente nada.
Clique-clac.
Uma maçaneta girando.
Pomba se vira de uma vez em direção ao som, onde uma porta de madeira branca havia aparecido ao longe, o menor tenta andar em direção a mesma apenas para perceber que não conseguia se mexer nem um centímetro. Estava paralisado.
O único movimento possível era com seus orbes, que foram em direção às próprias mãos, que não importava quanta força ou empenho tivesse, apenas não conseguia movimentá-las. Sua cabeça estava girando, onde estava? O que estava acontecendo? Isso era um sonho - ou melhor dizendo, um pesadelo?
Sua onda de desespero foi interrompida por um clique, a porta estava se abrindo.
Seus olhos se voltaram para a porta branca, lentamente sendo empurrada e então-
Pomba abriu os olhos com toda força em seu ser, se sentando na cama. Estava suando e com a respiração pesada.
Levou sua mão direita ao peito tentando se acalmar e regular a própria respiração.
Inspira.
Expira.
Inspira.
Expira.
Okay, foi apenas um pesadelo.
Pomba se acalma relaxando o corpo e deixando a mão recair sobre o lençol… espera, a textura desse lençol parece errada, estava bem mais lisa e leve do que seu cobertor.
Click.
A cabeça de Pomba automaticamente se tornou na direção do barulho, o tão familiar e sinistro barulho daquela porta de seu sonho. E do outro lado do quarto, estava aquela mesma porta branca, sendo aberta por uma figura muito alta, um homem tão branco quanto a neve, com um olhar baixo e cansado. O menor congelou no lugar, agarrando os lençóis até os nós dos dedos ficarem brancos.
“Ah, você acordou, como está se sentindo?” O homem diz levantando o olhar, que transparecia um cansaço colossal, mas com um sorriso fraco, porém gentil, mantendo as mãos juntas à sua frente, como se quisesse demonstrar que não é uma ameaça.
E essa tentativa foi bem sucedida, levando em consideração que Pomba soltou o ar que nem havia reparado que havia prendido. O menor olhou para o homem por alguns segundos, e então finalmente reparou no ambiente ao seu redor, aquele lugar não era o seu quarto, era um lugar com uma estrutura bem mais arcaica e… vintage?
Ele estava sentado em uma cama de casal enorme, com lençóis macios e completamente vermelhos, à sua frente havia um armário estilo de casa de vó, aquelas vós de interior mesmo, a porta e aquele homem, que ainda mantinha o mesmo sorriso.
“...Onde eu estou?” Pomba consegue se forçar a falar, só para perceber que estava com a garganta completamente seca.
“Eu te achei caído no meu quintal, acho que você bateu a cabeça então eu te trouxe pra dentro” O homem responde ainda se mantendo na mesma posição e lugar.
“Bati a cabeça?” Pomba tenta questionar mas sua tosse o impede.
O maior se aproxima com passos calmos, se abaixando ao lado da cama e servindo um copo de água a Pomba. O moreno realmente não estava bem, nem sequer havia notado a mesa de cabeceira ao seu lado.
“Aqui, beba um pouco de água” O maior lhe ofereceu.
Pomba solta um obrigado bem fraco e bebe apenas alguns goles, o suficiente para não doer ao falar. Afinal, não fazia ideia de onde estava e nem quem era esse homem.
Sua cabeça estava um borrão, realmente não se lembrava o que estava fazendo antes daquela escuridão, e agora estava na casa de um estranho, o que cacetes estava acontecendo?
“Quem é você?”
“...Diz o cara que você esteve rondando a casa?” O maior diz rindo.
“O QUÊ?? Como assim, eu-” Pomba tenta rebater mas então as lembranças daquela tarde voltaram com tudo.
── .✦
Pomba tinha encontrado algumas informações sobre casas que já haviam pertencidos a vampiros, em um endereço há uns dez minutos de sua faculdade, em uma região que ficava depois de um matagal.
Suas aulas haviam acabado duas horas antes - estava havendo greves de novo - então aproveitou o tempo livre e foi explorar o tal endereço.
Foi bem mais fácil passar de moto pela trilha do que Pomba havia imaginado que seria, e em poucos minutos já estava no local.
O lugar se parecia com uma área de chácaras, com algumas casas antigas, outras em situações precárias - literalmente caindo aos pedaços - e algumas muito bem preservadas, mas uma em especial chamou sua atenção.
Uma casa de dois andares de paredes beges e um telhado de telhas, com um quintal florido enorme. Não havia nada em particular nessa casa que a fizesse se destacar tanto assim, mas Pomba sentia como se alguma coisa ali o chamasse.
Ele se aproximou do quintal e observou por algum tempo, a grama e as flores estavam muito bem cuidadas, como se alguém tivesse aparado a grama e regado as flores de manhã, mas isso não seria possível, afinal o disseram que ninguém era visto circulando naquela área há anos.
Pomba olhou ao redor, obviamente não viu ninguém, e então decidiu pular a cerca da casa e entrar no quintal.
Tinha duas janelas do lado do quintal por onde Pomba havia entrado, as paredes externas da casa eram cercadas por canteiros que o menor supôs já terem sidos cheios de flores mas que agora eram apenas cobertos de pedras, pedras naturais mesmo, soltas… teria que tomar cuidado para não se machucar ali.
E então rapidamente mas ligeiramente foi até uma delas para observar por dentro da casa. A janela dava acesso à sala que ficava de frente à porta de entrada da casa, e nela havia um par de presas de cobras presas em uma espécie de colar pendurado, o olhar de Pomba se iluminou na mesma hora.
“Presas de cobras penduradas na porta, isso é um símbolo de proteção para vampiros… eu não encontrei nenhuma pesquisa do por que eles pensam assim, na real eu nem sabia se isso era mesmo verdade, mas puta que pariu eu tenho uma evidência disso bem na minha frente” Pomba conversava sozinho em um tom baixo - só para garantir que não iria chamar atenção de nada nem ninguém -, logo puxou um mini caderno do bolso e começou a fazer anotações, bem como desenhar o exato colar que estava vendo.
A letra de Pomba estava ficando meio torta pela falta de um apoio decente e a empolgação o fez tremer um pouco.
Quando finalmente voltou a levantar a cabeça para olhar mais do cômodo, viu uma pessoa (?) alta parada ao lado da porta, olhando diretamente na sua direção.
A figura estava parada em um ângulo que ficava de costas para a luz do hall de entrada, então a visão que Pomba teve foi um ser muito alto, com a feição completamente coberta pelo escuro e olhos vermelhos brilhantes focados nele. O menor, em um ato de desespero, tentou dar impulso para correr, mas escorregou nas pedras irregulares e acabou caindo de costas no chão, e então tudo ficou preto.
── .✦
“EU JURO QUE EU NÃO SOU UM STALKER OU UM BANDIDO, EU SÓ… só…” Pomba respira e enterra o rosto nas mãos.
“Só estava fazendo anotações sobre as crenças dos vampiros?” O homem pergunta.
Pomba levanta o rosto das mãos e encara o maior.
“Como você?-”
“Cara, você tava caído no meu quintal só com um caderninho perto de você, depois que eu verifiquei sua cabeça, eu fui dar uma conferida no conteúdo” O maior lhe responde.
Involuntariamente, Pomba tateia a parte de trás da própria cabeça e sente um líquido viscoso - que arde. Agora sua mão está com resquícios de um… remédio? E sangue.
O maior pega o pulso do menor de forma rígida, como se estivesse com nojo, mas logo em seguida limpa a mão de Pomba com um lenço umedecido.
“Olha, bonitão, é melhor você não ficar mexendo no machucado, eu usei um pano pra fazer uma compressa com chá de calêndula… é uma planta que ajuda na cicatrização, então logo logo vai tá bonzinho”
…Bonitão?
“Ah, sim, eu conheço, dizem que essa flor realmente ajuda com isso, obrigado… é-”
“Jasper, meu nome é Jasper.” O maior, ou melhor, Jasper diz.
“Obrigado, Jasper, pode me chamar de Pomba”
“Eu imaginei” Jasper diz, entregando o caderninho de Pomba - que tinha seu nome na capa - e sorrindo.
Pomba rapidamente pega o caderno das mãos de Jasper e o segura contra o peito.
Ele estava rezando com todas as forças dentro da própria cabeça para que Jasper não tenha lido nada do conteúdo daquele caderno, afinal, pesquisar sobre vampiros (sendo humano) é algo que o faria ser considerado psicopático… e provavelmente denunciado ao governo.
Além do mais, isso seria tão vergonhoso, ele iria ficar parecendo um lunático com hiperfoco em cultura vampiresca - o que não estava tão longe da verdade.
“Mas então, como você tá se sentindo? Não tá tonto, com vontade de vomitar, nem com dor de cabeça?”
“Não, eu tô bem, obrigado.”
“Você deve ser um crânio, né? Pra não estar sentindo nada… okay que foi uma batidinha bem de leve, mas você desmaiou, né? Então…” Jasper se levanta e estende a mão para Pomba.
É verdade, uma caidinha dessas não deveria fazer Pomba - ou qualquer um - desmaiar assim.
Pomba olha para a mão de Jasper, para o rosto do maior, e então volta para a mão e a pega, ganhando um impulso para se levantar da cama.
Jasper espera alguns segundos para ver se Pomba realmente não iria sentir tontura, e quando o moreno não apresenta nenhum sinal de dor ou vertigem, o maior solta sua mão gentilmente.
“... acho que eu deveria ir agora.” Pomba diz rapidamente encarando o chão.
“Se você acha que aguenta dirigir”
Pomba levanta o olhar no susto, como ele sabia que ele tinha vindo dirigindo??
E como se Jasper pudesse ler sua mente:
“Dá pra ver sua moto estacionada na entrada da trilha”
Pomba devia estar com uma cara ainda mais confusa, porque Jasper acrescenta:
“É fácil ler suas expressões, Pomba” O maior diz rindo.
“Vou te levar até a porta” Jasper falou enquanto caminhava em direção a porta.
Pomba o segue, deixando com que o maior passe completamente pela porta primeiro, e o seguindo só depois de alguns segundos.
Eles passam por um corredor com mais duas portas e chegam em uma escadaria, que dá direito na porta da casa.
“... obrigado por tudo de novo, e perdão por… invadir seu quintal”
Jasper ri alto.
“Está tudo bem” Ele abre a porta, dando passagem para o moreno.
E foi apenas nesse momento que Pomba finalmente parou e reparou no rosto de Jasper, os cabelos tão claros quanto a pele, seus olhos tão azuis que pareciam encarar a sua alma, com uma armação quadrada - que combinava muito bem com o formato forte do rosto… puta que lá merda, que cara gato.
Pomba apenas chacoalha a cabeça, afastando esses pensamentos.
Mas ainda tinha mais alguma coisa que chamava muito a atenção de Pomba para Jasper, que ele só não conseguia decifrar.
“Vê se cuida do machucado direito, viu?”
“Eu vou… obrigado de novo” Pomba agradece olhando para frente e indo em direção à sua moto, mas não se contém e olha para trás, apenas para ver que Jasper ainda estava lá, o encarando - mas assim que percebeu Pomba o encarando de volta, sorriu e acenou. Pomba acenou de volta.
── .✦
Quando Pomba chegou em casa, o apartamento de seu pai, foi direto para seu quarto. Nunca agradeceu tanto que Harpia e Papagaio - seu irmão mais velho - não estivessem em casa, ele tinha tanta coisa em sua mente que se eles tentassem conversar com o mesmo, ele explodiria.
Um banho quente, hidratação capilar e escovar os dentes, era só disso que Pomba precisava para se acalmar. Mas mesmo agora, já tendo feito tudo isso, ainda não conseguiu relaxar.
Ele mexe e se revira na cama sem parar, não conseguindo parar de pensar naquelas sensações formigantes, amedrontadoras, mas…familiares de algum modo?
Pomba já tinha reaplicado remédio na feridas e tomado dipirona, mas a dor de cabeça ainda estava presente, até demais, e ele precisava se distrair.
O moreno se levantou da cama indo até a escrivaninha, onde havia largado seu caderninho ao chegar. Ele não havia sequer olhado para ele direito depois de toda aquela confusão.
É só respirar.
É, e ao abrir o caderninho, Pomba havia confirmado uma informação sobre alguma parte da fé dos vampiros ele deveria estar estático e empolgado, então por que-
“... O QUÊ??”
