Chapter Text
💣 K I M S E O K J I N 💣
— Seokjin, corre!
Ouvi a voz de Jungkook lá da frente, e por mais que acelerasse, não ia alcançar o grupinho. Conseguia escutar o carro da polícia cantar pneus atrás de mim, e apenas um pensamento me rondava. "Merda, merda, merda!"
— Já vou, já vou!
Enfiava de qualquer jeito as latinhas de tinta que usamos para pichar o colégio, tentando me concentrar entre correr e não deixar as latinhas caírem.
Essa merda foi cara, não deixo cair nem fodendo.
Estávamos quase conseguindo virar ao beco sem saída, cheguei a suspirar aliviado quando corria, quando o maldito asfalto me tapeou. Não existe nada mais humilhante do que tropeçar em algo tão pequeno.
A porra da pedrinha na minha frente, não visível, prendeu meu pé, e fui ao chão.
Gritei de dor quando, em um movimento rápido para não cair de cara, virei as costas, e pela velocidade que corria, minhas costas se arrastaram no asfalto áspero e cheio de pedregulhos cortantes, que rasgaram minha regata preta e minha pele. Houve uma tentativa de virar-me para correr, mas a dor de ter milhares de pequenos pedaços de asfalto por dentro da minha pele me deixou tonto pra caralho. A tontura me faz ver luzes azuis e vermelhas, e quando voltei à consciência, meu coração disparou e arregalei os olhos assustado.
Merda, a polícia chegava. E já sabia quem estava naquela porra de viatura.
O carro parou à minha frente, minhas costas ardiam em chamas, e meu tornozelo latejava. Ergui a cabeça, ao ver o xerife alfa com aquele chapéu feio da porra e com aquele de cheiro "amadeirado" sair do carro bege com a logomarca da polícia da cidade de Gangsu.
— Ai, caralho...
Virei-me de barriga para baixo e tentei me arrastar, como um daqueles exercícios militares, mas a bota suja e pesada me forçou para baixo. Senti gotículas de sangue escorrerem pelas minhas costas, foi possível ouvir os estalos do asfalto me apertando contra o chão e guinchei com um ganido.
— Achei que tinha parado de vandalizar sua escola, Seokjin.
Rosnei alto tentando me livrar de sua bota pesada e nojenta de cima de mim.
— Filho da puta…
Kim Daejung me agarrou pelo braço e me empurrou contra a viatura, puxando meus braços para trás e as metálicas e gélidas algemas prenderem meus pulsos juntos. As luzes da viatura ainda me faziam ver estrelas, como sempre há fatores de produção naquelas porcarias para deixar os híbridos confusos, os policiais eram treinados para não passarem pelo mesmo. Esse desgraçado faz questão de me colocar com o rosto perto delas. Mas, sabe muito bem que eu não deito fácil.
Ri irônico, apoiando o queixo em cima do capô.
— Delícia, sabia que adoro quando me algemam? Prende mais apertadinho, desse jeito eu não gosto...
Exagerei na voz manhosa e sabia que Daejung estaria fervendo de raiva, adorava isso. Odiava aquele alfa com todas as minhas forças, e odiava o quanto me forçava a ser a porra de um ômega "dócil" perto dele. Sempre pensa que quando me pega de viatura vai conseguir me fazer acanhar, mas eu me recuso a deixar essa merda acontecer.
Me agarrou pelos cabelos e me puxou, agora empurrando para dentro da viatura e indo ao seu banco de motorista. Tudo em meu corpo doía, mas não podia deixar minha fraqueza à mostra. O cheiro daquele carro me embrulha o estômago, há uma mistura de pólvora e algum perfume barato para disfarçar, nojento pra caralho.
Apoiei meus pés contra as grades que me separavam de meu padrasto, relaxando sobre o banco. Sabia que o maldito não me prenderia pra valer, fazia aquilo para assustar meus amigos. Mas, eu sempre os aviso para simplesmente saírem correndo, deixa que com Daejung eu me viro. Não me perdoaria nunca se esse filho da puta fizesse qualquer coisa com a minha verdadeira família.
O máximo que faria era quando chegasse em casa. Por mais que já soubesse que iria apanhar até desmaiar, medo é algo que ele não vai ver em mim.
— Ah, adoro quando você me dá carona também. Acho chiques as luzinhas, parece uma boate ambulante. — Diverti-me, observando as expressões furiosas do alfa pelo retrovisor. — Tua mãe sabes que carregas uma boate gay pela cidade?
Gargalhei alto, tendo um espasmo com o corpo quando o alfa deu uma cotovelada no ferro e fez meus pés caírem, pontadas de dor como vários beliscões elétrico me desceram pelo corpo todo pela queda.
— Cale a boca, ômega. Ponha-se no seu lugar. Trabalhei o dia inteiro e não vai ser você quem vai me tirar do sério.
Mordi o interior da bochecha e ergui uma sobrancelha, rindo de sarcástico do que havia dito. Como ele sabe me provocar, desgraçado de mente pequena.
— "Ponha-se no seu lugar", o caralho. Você tem sorte de estar aí na frente, eu ia arrancar a porra da sua cara nojenta em um arranhão só! — O alfa apertou o volante, consegui atingir seu ponto máximo de raiva, e amei aquilo. — Tem inveja do que ômegas lúpus como eu são capazes, só porque seu superior é um ômega, e não foi você quem foi promovido para estar lá... olha só para quem você perdeu!
Rosnou para mim e gargalhei maldoso. Tirá-lo do sério era um dos melhores passatempos da minha vida. O famoso “rage bait” que sempre caía. Odiava quando eu mencionava sobre seu trabalho, falhou no teste para ser promovido inúmeras vezes. Patético, como sempre.
Estava pouco me fodendo se iria levar uma surra, já fazia parte da minha incrível rotina, mas isso só prova o meu ponto: alfas, independente de serem lúpus, são sempre os mesmos.
•
Estranhei quando fomos até a delegacia, geralmente era o caminho direto para casa...
Estacionou em frente ao estabelecimento, saindo tão rápido do carro que não deu nem tempo de eu reclamar quando me agarrou pela regata e me puxou pra fora, empurrando-me com violência para dentro da delegacia. Não era uma delegacia muito grande, o meu bairro é um dos mais seguros da cidade. Parece que só foi construído para que Daejung me trouxesse para cá para me assustar. Duas mesinhas uma de frente para a outra, moscas, uma jarra de café que estava no mesmo lugar há duas semanas… o paraíso do meu maravilhoso padrasto.
— Aish, filho da puta, já estou aqui, vai devagar, caralho!
— Achei que gostasse quando sou bruto.
Grunhiu em meu ouvido enquanto retirava as algemas, e rangi os dentes. Havia apertado tanto que senti minhas mãos formigarem quando me soltou.
Tropecei quando me jogou na mini-cela do local, meu tornozelo machucado doía de me fazer ganir. Desta vez eu me machuquei muito, eu nunca havia vacilado desse jeito. Sou um dos mais rápidos no grupinho, fugir desse filho da puta nunca foi difícil, algo em mim estava errado.
— Vai ficar aí até amanhecer, seu merdinha.
Tive forças o suficiente para cuspir na sua frente, em desafio, mas apenas rosnou e virou-se para ir resolver o que precisava. Não era verdade, ele estava blefando.
Me sentei sobre o pequeno banco da cela e recostei minha cabeça na parede, fechando meus olhos e me concentrando para ir me acalmando. Cada canto do meu corpo afundado em uma agonia dormente, latejante. Sem mencionar minhas costas em carne viva, evitava ao máximo encostar no cimento frio atrás de mim. Estava inteiramente rígido, qualquer mínimo movimento já era o suficiente para me fazer sibilar. O cansaço falava mais alto, já era madrugada.
Tentei esticar os braços para retirar a regata e gemi fraco, minhas juntas rangeram por dentro e se estalaram em dor. Retirei o pedaço de tecido, ensopado de sangue, e o joguei no solo. Toda rasgada daquele jeito, só presta agora para ser pano de chão. Acho que terei que jogar minha bermuda fora também, sentia ela pesar de sangue, suor e pedaços de asfalto. A merda da prefeitura também, nem para resolver logo essa parte. Culpa deles de eu ter me esborrachado no chão.
Um leve movimento no canto da cela me chamou a atenção, e notei um grupo de quatro policiais, provavelmente treineiros, me encarando. Me fitavam como se eu fosse um pedaço de carne, os olhos avermelhados indicavam que eram alfas. Pareciam novinhos, coitados, já nessa merda de profissão. Não podia perder a oportunidade de brincar um pouquinho...
— Gostam do que vêem, rapazes? — Mesmo com as dormências do corpo, soltei meus feromônios de morango no ar, observando como se atiçaram e cochichavam um para o outro. Busquei manter a voz mais aveludada possível, o que não é uma missão difícil quando eu quero. Pelo menos meu cheirinho disfarçava o cheiro metálico do sangue que escorria de mim. — Aproveitem, é por tempo limitado...
Gargalhei, retirando minha franja grudada de suor de minha testa e jogando os fios para trás, podendo ouvir os arfares de cães no cio logo ao meu lado de fora da cela. É tão fácil provocá-los que chega a ser ridículo. Eles estavam desejando a porra de um ômega lúpus que estava preso, e nem sabiam o motivo. São manipuláveis, nojentos, pervertidos.
Isto provava meu outro ponto: alfas pensam que ômegas são submissos à eles, mas comem na palma de nossas mãos.
Acho que eu deveria escrever um livro com este nome... enfim.
Nem consegui ter mais tempo de diversão, logo quando um deles ia se aproximar, a cela foi aberta por Daejung, que adentrou rapidamente e segurou firme em meu queixo, me forçando a encará-lo.
— Só não vai passar a noite aqui porque sua mãe insistiu. Agradeça a ela.
Fitei seus olhos, o leve avermelhamento nas orbes do lado alfa estava em chamas. Estava puto, realmente. Era o que mais queria, me deixar apodrecendo aqui, mas nunca conseguia.
— Agradecer aquela puta por ter traído meu pai com você e ter feito o mínimo que é me tirar daqui? Nos seus sonhos.
Apertou meu queixo e, com sua mão livre, a ergueu no ar e a acertou em meu rosto, em um tapa tão forte que me fez ficar tonto. Agarrou no meu pescoço e me puxou para cima, tirando meu ar e arranhando mais ainda minhas costas na parede. Esperneei, rosnando para ele. Meu sangue fervia de tanto ódio, podia sentir que os meus olhos brilhavam em azul, como se o meu lobo desafiasse o seu.
— Mais respeito com ela, desgraçado. Ela é um anjo com você, não merece a forma como você a trata! — Ofeguei alto quando me largou, tossindo e o encarando com desprezo. — Vamos embora. Lá em casa você vai ter o que merece.
Merda. Já sabia o que essa frase significa. Não tinha nem um pingo de medo daquele alfa de araque, mas quando dizia aquilo, me dava calafrios.
•
— E não ouse se levantar!
Caí de joelhos, sem fôlego, no meio de seu escritório, encolhido. Sangue escorria pelos meus lábios, e não sentia minha bochecha esquerda. Mesmo já estando machucado, Daejung não tinha um pingo de piedade. Mas, de qualquer maneira, eu não quero sua piedade, eu queria o ver morto. As poucas vezes que tentei revidar, quase parei no hospital, e não estou em condições de querer quase morrer esta noite.
Minha regata havia ficado no chão da cela, e havia hematomas enormes por todo o meu corpo. Encarava aquela porra de carpete vermelho com bege, rosnando para disfarçar que algumas poucas lágrimas escorriam por meu rosto.
Que cor mais brega. Mas, já estava todo manchado de sangue de qualquer jeito.
Ergui o rosto em sua direção, furioso. Bebia da boca de um garrafão de Whiskey barato, que fede a gente velha e podridão. Com certeza fica mais violento quando bebia, era um momento de diversão me bater até se entediar. Juntei forças, apoiei um pé sobre o chão e me reergui, triunfante.
Estufei o peito, sem medo de o confrontar. O dia que eu tiver medo de um merda como ele, podem me internar.
— Eu não fico de joelhos para ninguém!
Cuspi para o lado, em sinal de desafio. Sem importar se estava cuspindo mais sangue do que saliva. O que seria mais uma mancha do meu sangue no seu parquinho de diversões?
Virou para a minha direção, seus olhos avermelhados amedrontavam o meu lado ômega lúpus. Que ódio, meu lobo queria me encolher e correr, mas não podia lhe dar ao luxo de tal cena. Pela minha sorte, aprendi a controlar isso, se não estava fodido.
Merda de "instinto submisso".
Ao invés de erguer o punho, ergueu algo maior. A garrafa grande que carregava. Meus olhos se arregalaram, desta vez tive que me proteger e coloquei a mão na frente. Já havia usado objetos contra mim antes, porém a garrafa do seu tão amado whiskey era novidade. Isso não o impediu de me acertar na testa em cheio.
Fui ao chão outra vez, de cara contra o carpete horrível.
Puta merda, o estalo do vidro não ficou só no ar. Ficou dentro da minha cabeça, reverberando, como se tivesse rachado alguma coisa ali dentro também. Tudo girou de uma vez, rápido demais, e o mundo perdeu o eixo. O impacto veio seco, perto da têmpora esquerda, e foi como se alguém tivesse apagado metade da minha visão com um borrão fodido. Por um segundo, eu realmente achei que ia cair ali e não levantar mais. Era o que eu queria, se eu apagasse ele iria me deixar em paz.
O som de alguém esmurrando a porta do escritório do Daejung atravessava tudo, alto para um caralho, insistente, misturado com um zumbido direto no meu ouvido, fino que crescia por dentro e me torturava ainda mais. Cada batida parecia mais distante que a anterior, como se eu estivesse afundando devagar. Eu sabia que era ela, a mulher que, infelizmente, me colocou nesse mundo de merda.
Então, veio o que eu menos esperava.
O fogo.
Minha mente travou no instante em que senti o líquido escorrer pelas minhas costas abertas. Era o mais puro fogo. Fogo de verdade, como se tivesse sido aceso direto na minha pele aberta dos ferimentos do asfalto. O álcool encontrou cada porra de ferida, cada corte, e entrou sem pedir, queimando de dentro pra fora. Meu corpo reagiu antes de mim, arqueando por inteiro, tenso, como se tentasse fugir da própria pele.
A sensação era absurda. Não tinha onde segurar, não tinha como escapar. Era como se centenas de cacos de vidro estivessem sendo pressionados contra a carne viva ao mesmo tempo, me esfregando feito a porra de uma bucha, abrindo ainda mais, enquanto o líquido se espalhava sem pressa, escolhendo cada ponto sensível para se instalar. Por um instante, eu desaprendi a respirar, simplesmente não conseguia. Aquelas labaredas infernais adentravam meus pulmões e me afogavam naquele gosto horroroso daquela porra de Whiskey, me retirando do estado de quase desmaio.
Quando o som saiu, eu nem reconheci como sendo meu. Foi um grito bruto, rasgado, alto o suficiente para atravessar as paredes e alcançar a rua, carregado de dor pura, sem filtro. Os vizinhos devem estar pouco se fodendo, já estavam acostumados com os meus gritos. O gosto metálico subiu na boca, e o cheiro forte do whiskey barato grudou em literalmente tudo. Na minha pele, no meu cabelo, na minha garganta.
Essa merda de líquido escorria devagar pelos meus fios, pela minha nuca, descendo de novo pelas costas como uma segunda onda, reacendendo tudo que já estava queimando. Era quase proposital, até mesmo aquela porra de bebida adorava me ver sofrer.
Meu ódio por aquele alfa aumentava cada vez mais.
— Por que você não me mata logo!? — esbravejei, a voz saindo quebrada, engasgada nos soluços, enquanto cravava os dedos no carpete horrível como se aquilo fosse me ancorar em alguma coisa. — Filho da puta…
O mundo continuava girando, pesado, fora do lugar. Jurei que vi a sombra dele se mexer na minha direção. Tinha alguma coisa na mão, brilhava, fina, afiada. Ou talvez fosse só minha cabeça fodida tentando acompanhar o que já não dava mais. Minha visão falhava, tudo puxando pro cinza, como se alguém estivesse drenando as cores devagar.
É… talvez fosse isso. Talvez fosse aqui que acabava. Viraria só mais um número. Mais um ômega quebrado, descartado, enterrado sem nome no meio de tantos outros.
Que morte de merda.
O pensamento veio seco, quase um riso sem força. Era esse o meu destino, ser o saco de pancadas de um alfa de merda que minha mãe decidiu se casar, até morrer em suas mãos imundas. Então vozes atravessaram aquela névoa.
Distantes no começo, embaralhadas, até uma delas cortar mais forte, insistente.
— Seokjin! Seokjin!
Meu nome.
Forcei o corpo a reagir, mas parecia que eu estava preso dentro dele. Tentei me erguer, os braços falhando, o chão fugindo debaixo de mim, até que duas mãos me seguraram. Firmes, conhecidas. Não era ele. Não tinha nada afiado. Não era a porra da sombra do Daejung.
— Seokjin, meu bebê! Vem, levanta, vamos… — a voz tremia, carregada, invadindo tudo.
Minha visão focou-se o suficiente para reconhecer. Kim Miyoung. Minha mãe.
— Vem, meu anjinho… eu vou cuidar de você.
As palavras soaram erradas na minha cabeça, doces demais, fora de lugar para aquela merda toda. Ainda assim, meu corpo cedeu, pesado, sendo puxado por ela. Sua falsidade é palpável, até preferiria que fosse meu padrasto me arrastando para uma vala.
Por cima do ombro dela, consegui ver o desgraçado. Saindo. Simples assim.
Nem olhou pra trás. Nem uma palavra. Nem uma explicação. Porra nenhuma.
Exige respeito dela, cobra postura, cobra tudo, mas nem sequer consegue fingir que faz o mesmo.
•
Não faço a menor ideia de como minha mãe, uma mulher de 1,60 de altura, magra como uma vara de bambu, ômega lúpus delicada como uma bonequinha de porcelana, conseguiu me levar ao andar de cima no meu quarto.
Não queria encará-la de jeito nenhum. Me sentou no banquinho dentro do box do meu banheiro, removeu meus sapatos, mas não me despiu por inteiro, e ligou o chuveiro. O som da água me relaxou, e suspirei, cansado. Meu rosto estava bem inchado, pois mal conseguia abrir os olhos. Ainda estava um pouquinho molhado das lágrimas, e ainda escorria um pouco de sangue do meu lábio inferior.
Estava apático, podre. Como sempre, fiquei de bico fechado perto dela, engolindo tudo. Sabia que se abrisse a boca, ia sair alguma merda atravessada, e eu não tava em condição nenhuma de ouvir passo pesado no corredor e ver o desgraçado brotar do além para me esganar. Já tinha sido o suficiente por hoje.
Sibilei quando a água morna bateu nas minhas costas. Porra. Parecia que cada gota vinha com lâmina junto, abrindo tudo outra vez. Um gemido baixo escapou sem eu conseguir segurar quando o ardor espalhou, misturado com o cheiro forte do álcool que ainda me impregnava, subindo pra cabeça e me deixando tonto de novo.
— Ssshhh… calma, meu bebê… vai passar.
A voz dela veio baixa, macia demais pra aquele inferno todo. Seus dedos se enfiaram no meu cabelo, desgrudando os fios duros de suor e álcool com cuidado, e logo senti a mangueirinha do chuveiro. Ela inclinou minha cabeça para trás devagar, como se eu fosse feito de vidro, e começou a lavar, paciente, delicada do jeito que só ela conseguia ser.
Eu odiava aquilo.
Odiava o jeito que meu corpo respondia, como se lembrasse sozinho de um cuidado que eu não queria mais aceitar. O remorso vinha pesado, esmagando feito um bigorna na cabeça como dos Looney Tunes, sem dar espaço para respirar. Era ridículo o quanto aquele alfa tinha a moldado, o quanto tinha feito eu esquecer — ou tentar esquecer — que era assim que ela me tratava.
Mas eu não podia esquecer o resto. Nunca.
Foi ela que traiu meu pai. Foi ela que arrancou de mim a única pessoa que ficou do meu lado, que me via de verdade, que o colocou para fora como se o errado fosse ele. E agora eu estava ali, sobrevivendo na casa que um filho da puta invadiu, a minha casa, e que parecia tirar prazer em me destruir, pouco a pouco.
Ela cobriu meus olhos com a mão ao enxaguar o shampoo, mas não adiantou muito. A espuma escorreu pelas minhas costas e o ardor voltou com tudo, arrancando outro gemido de mim, mais fraco, mais cansado. Seus dedos vieram até minha testa, massageando devagar, depois puxando meu cabelo para trás, arrumando como sempre fazia. Continuava sussurrando alguma coisa, tentando me acalmar, mas as palavras se perdiam. Eu tava longe demais.
Quando ela passou o condicionador, os dedos dela trabalhando no meu couro cabeludo, por um segundo meu corpo me traiu. Relaxei. Esqueci. Como se aquilo ainda fosse seguro.
Era sempre assim. Toda vez que eu voltava fodido, quase morto, ela me reconstruía em silêncio. Mais uma parte maravilhosa da minha rotina de merda.
O sabonete veio nas costas, e dessa vez doeu pior. Minha respiração falhou, o corpo tensionando de novo, sem conseguir esconder. Ela estendeu a mão pra mim, e eu segurei sem pensar, apertando forte, tentando segurar alguma coisa que não fosse a dor.
As lágrimas vieram, teimosas. Virei um pouco o rosto, fingindo que era só a água.
— M-Mamãe… assim dói…
A voz saiu baixa, quebrada, sem a força que eu queria ter. Apertei a mão dela mais forte e puxei até encostar na minha bochecha, esfregando-a ali, fechando os olhos por um segundo.
Uma mania que tinha desde que era pequeno, pois sentir sua pele sobre a minha daquela maneira me acalmava mais que tudo. Por mais que eu odeie essa frase, não há nada mais forte do que a ligação de um filhote com sua mãe.
Seu aroma era de jasmins, um frescor relaxante que, aqueles que tinham a sorte de conseguir farejá-lo, juravam que sentiam até a brisa batendo no rosto. Simbolizavam sua delicadeza, característica que apenas o meu rosto e corpo puxaram. O interior é, por sorte, o oposto.
— Vai doer um pouquinho agora, Seokjin. Depois do banho, você veste seu pijaminha e eu passo um remédio onde dói, está bem?
Fiz que sim com a cabeça, soltando sua mão devagar à medida que parava de doer. A ardência não parou completamente, só havia parado de gritar tanto.
Terminou de me lavar, me senti completamente inútil e indefeso. Lavou meu rosto, meu tórax, tirou de mim qualquer sinal de pedregulhos e whiskey. Parecia puro novamente, tirando todas as minhas outras cicatrizes.
Naquela noite, eu estava menos agitado. Talvez porque havia me machucado feio, e não apenas apanhado. Ela estava mais cuidadosa, não me deu bronca nenhuma. Eu estava cansado de verdade, e ela percebeu. Só havia aquele olhar reprovador que vinha junto de cada marca nova. Sabia que qualquer palavra a mais iria piorar.
Depois de desembaraçar meu cabelo com a maior paciência do mundo, secá-lo e passado um creme para deixá-lo mais cheiroso e hidratado, deixou-me no banheiro com meu pijama, me dando privacidade para que me trocasse.
Vesti a boxer branca e a calça de moletom. A blusa que escolheu raspava minhas costas feridas como uma lixa. Tudo era como uma lixa por agora, até ralados nas pernas eu tinha, e nem havia reparado. Estava um caco, mas ei, mais cicatrizes de guerra para mim. Quanto mais, melhor.
Assim que saí minha cama estava arrumada, e minha mãe estava com pomadas e ataduras nas mãos.
Arquejei, querendo chorar e correr para abraçá-la. Seu carinho é uma das coisas que eu mais sentia falta, ficar em seu colo, aninhar-me em seus braços feito um filhotinho novamente. Mas, meu orgulho não me deixava, um grande muro ainda me separava, pois foi ela quem me tirou tudo, ela quem me colocou nessa situação, ela é meu motivo de tanto ódio.
A culpa é completamente dela.
Para ser sincero, eu estou pouco me fodendo para essa saudade. É uma farsa, ela vai voltar a ser a duas caras de sempre, me machucar e me arrastar na merda como sempre faz. Não posso me esquecer, depois de todos esses anos, serei sempre eu por eu mesmo.
Enrolou meu tornozelo torcido nas ataduras bem justo, não estava tão ruim assim, amanhã já poderei retirá-las. Me deitou de bruços na cama, mal conseguia manter meus olhos abertos de tanto inchaço. A pomada me relaxou automaticamente, foi quando percebi o quão cansado eu estava. A moça acariciava meus cabelos, como se fosse minimizar sua culpa.
— Por que você foi trocar o pai por ele...? Olha a situação que você me colocou… Ignorar a forma que Daejung age, te faz tão ruim quanto ele.
Murmurei baixo, reparando que a ômega se afastou. Obviamente me ouviu, e se aborreceu. Estava preparado para ouví-la chamar Daejung, mas a ouvi fungar e se retirar de perto de mim, apagando as luzes e fechando a porta. Finalmente, estava sozinho. Puxei a coberta e me abracei nela, a entrelaçando as pernas como sempre fazia. Era difícil encontrar uma posição confortável, mas dormir de bruços não era um problema. Subitamente, ouvi vozes vindo do andar debaixo, então deixei que minha audição aguçada me permitisse ouvir melhor o que estava acontecendo.
— Este ômega não toma jeito! Eu não aguento mais!
Daejung. Ridículo.
— Mas, amor...
— Não adianta, mulher. Tentei do seu jeito, agora vai ser do meu!
Do jeito dela? Ah, tá. Como se sua doutrina de bosta deixasse uma ômega, ainda por cima lúpus, tomasse qualquer decisão.
— Nós vamos levá-lo para lá amanhã mesmo. E não ouse me contradizer!
Ouvi bater forte contra algo, talvez socou a mesa da cozinha, como fazia quando intrigado.
Me levar? Para onde? Por que minha mãe não poderia opinar?
Eu estava acostumado com eles discutindo sobre o que fariam comigo. É o grande feito de se ter “um ômega rebelde” em casa. Tive um estranho sentimento com essa discussão, eu nunca ouvi mencionarem um nome de um local específico, se estavam tão decididos, havia algo errado. Mas, quem se importa, eu não irei para lugar nenhum.
Por mais curioso que estivesse, talvez seja melhor descobrir amanhã...
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