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Bad Omegas Reformatory

Chapter 3: Capítulo 3

Chapter Text

 

 

 

💣 K I M  S E O K J I N 💣

 

 

 

 

 

 

— Espera aí, rebobina a fita só um tiquinho. Deixa eu ver se eu entendi. Vocês me trouxeram para a porra de um lugar chamado "Reformatório para Ômegas Malcriados"!? É sério!? — Gargalhei alto de chegar a escorrer algumas lágrimas dos meus olhos. Apoiei-me no carro grande de Daejung, respirando fundo para voltar a falar. — Vocês falaram essa merda de nome em voz alta!? Puta merda que coisa ridícula! O que vai ter aí? Tutorial de como empinar a raba para qualquer alfa que eu veja porque é minha missão na Terra!? 

Gargalhei outra vez, sem conseguir me segurar. Porra, que imaginação eles tinham. Acho que preferia ir para um hospício ou sei lá, pelo menos não tem um nome patético igual esse. Imagino como foi para registrar essa merda, como foi que permitiram que um reformatório com este nome fosse criado? Ou melhor, como permitiram que um reformatório em si fosse criado?

 

Mas, talvez a comida em um hospício seja ruim. Não que aqui não tivesse cara de servir cabeça de ômega ao molho pardo, não sei no que confiar. Se está vindo de Daejung, coisa boa é que não é. 

 


Falando em comida, minha barriga ainda roncava alto. Por mais que tivesse dormido e recuperado o pouco de energia que me restava, estava com muita fome. Aquela náusea estranha do estômago vazio ainda estava presente, chegando a me dar uma leve dor de cabeça.

 

Observei a tatuagem de cobra em meu pulso com o plástico, e sorri. Não vai ter ninguém me vigiando para saber o que eu iria comer. 

 

Minha alegria momentânea durou pouco, pois a merda do policial me agarrou pelos cabelos e me empurrou na direção traseira do carro, me arrancando um sibilar de dor.

— Puta que pariu, você não consegue calar a boca!? — Esfreguei a região onde havia puxado e olhei para trás, vi que minha mãe havia segurado ele, senão teria vindo para cima de mim outra vez. Ri pela pequena ômega tentar segurar um alfa daquele tamanho e afastei a franja do rosto. O sol queimava meu couro cabeludo, por mais que tivesse uma grande quantidade de árvores e pinheiros altos na região. Poderia estar perto da hora do café, pela posição que o astro estava. Meu padrasto grunhiu atrás de mim, que me fez voltar dos pensamentos para a realidade. — Pegue suas malas, vamos entrar. 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 


Assim que passamos pelos portões pretos e pontiagudos, notei que estava extremamente silencioso. Só conseguia ouvir o leve balançar das árvores, a brisa quase imperceptível, passava assobiando de leve em meus ouvidos e causava uma energia misteriosa. Parecia vazio e sombrio, mas de um modo geral, tinha aquela clássica cara de uma escola rígida da era vitoriana. Havia um longo caminho pela frente, consegui ver mais de um prédio mais para trás. Com certeza haviam muros nos rodeando, mas era simplesmente gigantesco, não era possível vê-los se não fossem os portões onde se encontravam. Já me deixava com um arrepio na espinha, aqueles pinheiros me lembravam filmes de terror onde o protagonista se perde em uma floresta sem trilhas. De qualquer forma beirava o filme de terror para mim naquele momento, pois Daejung me puxava com força, me segurando pelo antebraço livre e caminhando com muita pressa. 

 

Aigoo, por que tá andando tão rápido? Eu acabei de acordar, tô morrendo de fome, e já estou aqui como vocês queriam, não pode só me soltar? 

O alfa abaixou-se para perto do meu ouvido e rosnou, utilizando do lado lobo para tentar me fazer acanhar. 

Já disse para calar a boca. Quero ver ficar de pé depois do que eu vou fazer com você se não ficar quieto. 

Encolhi-me e continuei caminhando. Merda de voz de alfa do caralho, por que não nasci com isso? 

 

Esse vozerão todo para eles, todo alfa nasce com essa voz para impor ordens e conseguir mandar nos ômegas, é praticamente um feitiço para nos fazer obedecer. Geralmente é quase impossível para um ômega não obedecer um alfa que utiliza essa voz, para um ômega lúpus é pior ainda. E para mim, eu tenho o quê? Se eu tentasse falar assim iria sair a porra da voz de um hentai, só se for. 

 

Minha mãe pegou minhas malas de minhas mãos, já que eu estava quase deixando-as cair. Assim que atravessamos o enorme pátio de entrada assombroso, demos de cara com o maior prédio do local. Era de tijolos escuros, as grandes portas de madeira tinham ornamentos tão perfeitos que chuto terem sido feitos à mão, pareciam tão antigos quanto o próprio tempo. Havia um sino enorme no topo, algumas gárgulas em volta e uma placa de ouro ao canto. Deve contar a história do prédio ou algo do tipo, não tive paciência para ler. Mais parecia a própria igreja do Anticristo. Dois guardas que estavam na entrada abriram as grandes portas do recinto, fazendo uma brisa fria me ultrapassar e arrepiar até a espinha. Engoli em seco, observando o grande salão. Também estava vazio, mas tinha uma grande escadaria ao centro, que se dividia em duas para os lados. Tinham armários ao lado, vitrines com tacos de lacrosse, uniformes antigos, troféus, alguns quadros com certificados, e o chão quadriculado como um tabuleiro de xadrez. Uma enorme escadaria no centro separava-se em duas para os lados, mostrando mais algumas pinturas no andar de cima. Não consegui ver para onde as escadas levavam, e sinceramente, não queria descobrir. Havia algo de errado, uma constante sensação negativa me mantinha em estado de alerta a todo momento.

Alguns guardas vigiavam algumas portas com nomes em dourado no centro, e estavam uniformizados com roupas diferentes das vestes que Daejung geralmente usa como xerife. Eram grandes e plastificadas, tinham um tom acinzentado frio, armas grandes presas em suas costas, eretos como militares. Credo.

 

De repente, ouvimos passos fortes pelas escadas, e estremeci. Era uma presença esquisita, o chão sacudia e eu vibrava junto. Uma figura enorme surgiu no centro da divisão das escadas. Não tinha um fio de cabelo no topo da cabeça, era musculoso e grande, nem parecia humano. Parecia uma besta de tão grande e, pela sombra, tinha um sorriso assustadoramente maléfico no rosto. 

Sua presença me fez suar frio, a fome piorava tudo. Era a verdadeira figura de um predador. Encarei Daejung, e por incrível que pareça, ele estava com os olhos levemente arregalados, sua língua arrastou-se seca no lábio inferior e estalou o pescoço. Enxerguei uma gotícula de suor escorrer em suas têmporas e seu aroma estava suspeito. Ele estava com medo? 

 

Kim Daejung estava com medo!? 

 

— Kim Daejung, velho amigo! 

Assim que a voz estrondosa ocupou o recinto, me acanhei automaticamente e gani, buscando me esconder atrás do padrasto. Ele parecia estar com tanto medo quanto eu, mas se manteve firme.

 

Que merda, mesmo que eu tentasse, meu lobo estremecia como uma vara de bambu, não conseguia nem erguer a cabeça, e encarei o chão de quadradinhos preto e branco, meus olhos se enchendo de lágrimas e nem sabia o porquê de tanto pavor.

 

A cada passo do gigante, meu coração quase saltava pela boca. Nunca havia me sentido assim na presença de ninguém, era uma tarefa muito difícil até me fazer recuar se me ameaçassem. Mas, parece que só de olhá-lo eu já quero me encolher no chão e rezar para que não me notasse. Nem mesmo um alfa lúpus havia me causado tanto temor. Se é que aquilo era um alfa lúpus. Se provocava medo até mesmo no alfa na minha frente, eu estava muito fodido. 

— Kang Seojun, meu caro! Quanto tempo, hein? 

Me empurrou com certa brutalidade e cumprimentou o tal homem, parecia recuperar a compostura, enquanto eu e minha mãe estávamos com o peito em disparada. Ela parecia manter-se firme também, eu era o único que estava prestes a desmaiar. Tentei segurar em seu braço, mas a ômega lúpus se afastou e negou com a cabeça. Porra, nem minha própria mãe me traz um pouco de segurança.

— Pois é, tive uma surpresa agradável quando ligou, precisamos colocar o papo em dia mais tarde... — A figura gigante virou-se em minha direção, e me fez engolir em seco e baixar as orelhas. Merda, era tão automático que não conseguia o olhar nos olhos. — E esse aqui deve ser o tal ômega lúpus que você contou, esse rapaz está enorme! Como é o seu nome, garoto?

Passou o braço pelos meus ombros e me puxou para perto, bagunçando meus fios. Ri de nervoso e encarei Daejung, que me fuzilava com o olhar junto de um sorriso extremamente esquisito. Não estava de brincadeira.

 

K-Kim Seokjin... 

 

É, pela forma que minha voz saiu pela minha boca, meu poder de voz era da merda de um hentai mesmo, fina e quase manhosa, tive que tossir fraco para ver se voltava ao normal. Sua gargalhada ecoou pelo salão e me largou bruto, quase me fazendo cair. Seu aroma era a verdadeira definição do cheiro de vinho e hortelã, pois chegava a fazer minhas narinas arderem. Era tão forte que era quase possível sentir o gosto, fazia a garganta de qualquer um implorar por água.

 

— E essa bela donzela deve ser a senhora Miyoung... 

Minha mãe estendeu-lhe a mão timidamente, e Seojun deixou um beijo nas costas de sua mão. Não pude evitar a cara de nojo, mas logo me segurei quando Daejung me chamou a atenção com um pigarro baixo. 

— Não faça bobagens.

Sussurrou. Minha barriga roncou alto e chamou a atenção dos outros três, os fazendo me encarar feio. Cobri a barriga com os antebraços, rindo amarelo para eles. Seojun encarou meu padrasto, que fez que não com a cabeça. Os dois vão arranjar um complô contra mim para eu não comer, é isso? Vão me matar de fome nesse fim de mundo?

 

— Bom, vamos dar uma volta pelo meu reformatório, sim? Há tanta coisa para mostrar, tenho certeza de que vão adorar. Chegaram no intervalo dos nossos estudantes, vão poder ver como as aulas funcionam, materiais…

 

 

Deixamos as malas ali e acenou para que o seguíssemos, indo na nossa frente e abriu um dos portões do fundo, logo atrás das escadas do centro, revelando mais um pátio enorme. Parecia uma universidade, todos estavam uniformizados e alguns carregavam livros. Tinham muitos alunos para lá e pra cá, uns conversando juntos e outros estavam extremamente esquisitos. Mas, uma coisa eu percebi: estavam magros, e alguns pareciam ter medo de outros. Os que utilizavam uniformes azulados tinham algo esquisito no pescoço, e pareciam robóticos, algumas olheiras fundas. Um ou outro sorria, provavelmente de algo atoa. Outros tinham uma gravata vermelha e o brasão do reformatório no lado esquerdo era padrão para todos, eram maiores e tinham uma aparência mais saudável. 

 

Parecia uma verdadeira prisão. Arrepiei, vendo alguns me encararem com tristeza e fazerem que não com a cabeça. Havia algo muito errado.

 

 

 

Demos uma grande e demorada volta por todo o Reformatório. Tinham salas de aula bem espaçosas, um refeitório na ala Oeste e dormitórios em outros dois prédios, um atrás do outro, seguindo a trilha de pedras na ala Leste. Há também um hospital próprio, muito bem elaborado, e estranhei aquilo. Tinha um pátio ao ar livre enorme no centro dos locais onde as aulas aconteciam, outras trilhas levavam às quadras para jogos e um terceiro prédio, que Seojun não quis falar sobre. Disse que estava reformando, estava interditado. A cada passo sentia que iria desmaiar de fome. A fraqueza em meu corpo era nítida, mas nenhum deles pareceu se importar. Segurava-me em minha mãe quando os dois alfas não me olhavam, a mulher me empurrava para frente toda vez, sem me deixar apoiar. Iria cair no chão parecendo um saco vazio a qualquer momento. 

 

 

 

Caminhamos de volta ao ponto de início, subindo as escadas e paramos na divisa, assim como quando vimos o alfa esquisito pela primeira vez. Felizmente haviam corrimãos para eu me segurar, apoiei-me ofegante depois de quase duas horas andando para todo canto desta merda de reformatório, com o diretor Kang nos explicando como o sistema funcionava, que não gostava de chamar de “centro de reabilitação” e preferia fazer tudo à moda antiga. Enfim, a mesma ladainha de todo conservador. 

 

— Chegamos ao fim do nosso tour, espero que tenham gostado do lugar. Fiz com muito carinho e dedicação para melhorar a educação dos nossos queridos ômegas, sabemos como a vida deles sem nós é muito complicada... — Não me aguentei e ri nasalado, recebendo um olhar maléfico dos três. Seojun segurou meu ombro, o peso me fez inclinar para o lado. O cheiro do vinho forte subiu novamente, e baixei a cabeça. Se eu fosse como alguns híbridos que possuem caudas, com toda certeza a minha estaria entre minhas pernas. — Seokjin, porque não me acompanha até a minha sala, hum? Seus pais podem preencher a papelada para você ficar, ainda terei que ter uma conversa a sós com você. Amigo meu tem direito à bolsa de estudos aqui.

Mandou uma piscadela ao casal, e arregalei os olhos, com medo. Eu realmente iria ficar ali de graça? Alguns guardas do local apareceram, e praticamente puxaram minha mãe de perto de mim. O alfa enorme agarrou meu braço e foi me puxando para a escadaria da direita, enquanto minha mãe e meu padrasto subiram pela esquerda. Pude ver um outro homem de terno esquisito abrir uma das portas do canto esquerdo, sussurrar algo para os dois que se entreolharam e olharam para mim em seguida, e engoli em seco. Eu realmente estava muito fodido.

 

 

Assim que entramos em sua sala, arrepiei-me por inteiro. Tinha dois armários enormes, uma mesa com uma grande poltrona atrás, e uma janela gigantesca era a única luz natural que entrava. Medalhas militares, uma grande arma na parede, e estranhos quadros com fotografias em preto e branco enfeitavam a sala, me fazendo arrepiar. Além de algumas cabeças de cervo e um alce, que pioravam a sensação de estranheza. Uma porta misteriosa ao lado de seu "trono" me fez arrepiar a espinha, minha respiração encurtou e uma sensação de pânico começou a surgir. Me senti na sala do Poderoso Chefão, aguardando ele dar ordem para seus homens me matarem. Ou deixarem uma cabeça de cavalo na minha cama. 

 

Seojun sentou-se em um estrondo no assento de couro, fazendo o chão tremer como um terremoto. Segurei as mãos na frente do corpo, apertando meus dedos. Eu queria tanto fugir, mas meus pés estavam o dobro do peso, não se moviam. Já estava com tanta fome que chegava dar tontura. Se fosse parar para calcular quanto tempo, eu estava a muitas e muitas horas sem comer nem beber água. 

 

— Não fique aí parado, sente-se! 

 

Ordenou firme, e me sentei tão rápido que cheguei a me assustar. Toda a minha pose anti-alfa que conseguia manter foi-se por água abaixo. Meu corpo não estava nas melhores condições para estufar o peito e o desafiar, não quando conseguia provocar medo até mesmo em um alfa. Minha boca estava seca e com um gosto metálico, até meus lábios se grudaram nas gengivas e minha mandíbula estava tensionada. O medo se apossava de mim como nunca havia antes. Eu tinha alguns receios quando estava com Daejung, mas aquele medo do desconhecido era a primeira vez. Respirei fundo, tentando retomar pelo menos a postura digna e ereta. 

— Eu sei que não é bobo, Kim Seokjin. Você sabe muito bem o porquê de estar aqui, e sabe que aqui irá sofrer se não andar na linha. O meu reformatório possui raízes e valores estruturados muito antes de você nascer. Desrespeito e “rebeldia” não são tolerados. Posso lhe garantir que se quebrar alguma regra, você irá se arrepender de ter nascido. 

 

A maneira de bonachão foi-se ao ralo, e cada palavra que dizia fazia meu lobo querer chorar. Meus olhos se lacrimejaram, encolhendo na cadeira. Realmente estava indo parar em um reformatório que funcionava como séculos atrás, quando ômegas que desafiavam as normas eram diagnosticados com histeria e eram internados à força. Parecia um pesadelo, mas as dores que eu já sentia me indicavam que estava bem acordado. Subitamente, o dono do reformatório olhou para os lados, e quando percebi o que olhava, já não tinha tempo de fugir. Dois grandes guardas me seguraram na cadeira, e esperneei de susto. Senti uma lágrima grossa escorrer pela minha bochecha, e agitei-me o mais forte possível. Arfava em dor pela força que me seguravam, e quando reparei o alfa gigante na minha frente segurando algo metálico, já era tarde demais. Agarrou meu queixo, firmando-me para cima e colocou algo em volta do meu pescoço, metálico e gélido, pareciam pequenas agulhas furando minha pele, e quanto mais me mexia, mais apertava e me machucava. 

 

— Fica quietinho, ômega lúpus. Ainda está cedo demais para lhe mostrar o que nossos restringidores fazem, não acha?

O encarei incrédulo. Os guardas me largaram e minhas mãos voaram ao meu pescoço, tentando agarrar aquela merda de ferro em mim. Incomodava, machucava, coçava até a alma. Choraminguei quando senti uma pontada forte do item, parecendo uma grande agulha me perfurando bem na região da nuca. Não era tão larga, mas era grossa e pesada, me enforcava e agoniava. Antes 

— O-O que é isso!? Você é louco!? Tira isso de mim! 

Consegui dizer com a voz mais firme, tirando a gagueira do início, tentei desajeitadamente me levantar, mas o grandalhão me empurrou de volta à cadeira, forçando-me para baixo. 

— Isso é um instrumento altamente desenvolvido para o meu instituto, apenas um toque nesse controle aqui, e você cai duro no chão. Esse pequeno item causa descargas elétricas tão fortes… Pena que não é mortífera, mas causa tanta dor que vai desejar que fosse.

Para resumir, uma coleira de choque. O filho da puta me botou em uma coleira de choque! 

Arquejei, algumas outras lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas. Estava muito assustado com isso tudo. Eu iria morrer naquele maldito lugar, sendo tratado como a porra de uma cadela e não poderia fazer nada, pois qualquer coisa que fizesse iria usar choque contra mim. Sua calma não era nem um pouco reconfortante. Parecia já ter visto esse filme milhares de vezes, e o brilho em seu olhar me mostrava o seu sadismo em me assistir tentando arrancar aquela coleira do meu pescoço.

 

— Deixe-me explicar como vai funcionar para você. Todo ômega possui um alfa tutor, para te acompanhar durante o processo e ficar de olho em você. Ele tem a autorização a te punir caso ande fora da linha. Você terá um alfa lúpus especial, considere-se premiado. Ele irá te receber em seu quarto. Você vai aprender o restante com ele, meus guardas irão o guiar para a sua unidade. 

 

Eu não podia acreditar. Aquilo só podia ser a porra de um pesadelo.

 

— O Instituto Oak Hill possui regras rígidas, meu caro. A cada deslize seu as correções pioram. Não deixe que seu desrespeito o traga até mim, eu não pego leve com ômegas que acreditam que podem agir além de seu propósito. — Acenou com a cabeça aos guardas, e quase vomitei de agonia — Levem-no.

 


Infelizmente, o pânico estava tão forte que meu primeiro instinto foi sair correndo. Aqueles guardas não eram páreos para a minha velocidade, a descarga de adrenalina foi tão grande que derrubei a cadeira e corri o mais rápido que pude. Estranhamente, os guardas não tentaram me impedir, nem mesmo Seojun. Mas, eu não ia prestar atenção neles no momento do desespero. Desci as escadas correndo, e não pensava em mais nada a não ser correr para o mais longe daquele lugar. Não sabia de onde tirei tanta força para correr, mas fui em disparada em direção à porta. Olhei de longe, e avistei Daejung e minha mãe cumprimentando o mesmo homem que havia lhes recebido momentos atrás, se preparando para irem embora e me abandonarem ali. Pareceu que haviam se passado horas dentro da sala de Seojun, ouvindo-o falar o tanto que iria me torturar ali dentro, que já haviam finalizado toda a parte burocrática. Mas, por um instante, tive uma luz de esperança. Talvez era só um susto, não iriam fazer aquilo de verdade.

— Não, mãe! Por favor! 

Gritei o mais alto que pude, esticando a mão em sua direção. Pude ver ela suspirar e virar as costas para mim, e lacrimejei mais. A única que poderia me ajudar, que me devia mais satisfações do que qualquer um nesse mundo, me dando as costas e me deixando para trás. Eu não merecia, essa mulher se arrepende de ter me colocado no mundo e eu sei disso. Mas, me deixar para ser forçado a ser o que eu não sou na base da tortura é algo que eu nunca irei perdoar.  

 

Eu estava quase lá. Se não fosse para ir com eles, eu fugiria de qualquer maneira. Uma fagulha de esperança acendeu em meu coração no momento em que ultrapassei a porta quando, de repente, meus pés embolaram-se um no outro com uma estranha tremedeira, doía no fundo do meu corpo como se tivessem jogado gasolina em meus ossos e tocado fogo. Seojun apertou o botão. 

 

Eu tremia, contraía e tentava gritar, mas minha língua se embolava dentro da minha boca devido às descargas elétricas, me fritando por dentro. Perdi totalmente o controle dos meus músculos, como se estivessem queimando intensamente, deve ter paralisado meu diafragma pois eu não conseguia respirar. Resisti o máximo que eu podia, mas até meus olhos pareciam dar a volta nas órbitas. Estava tão fraco, mas tão fraco que vi apenas um relance de luzes e alguns vultos circularem, e apaguei

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 


Acordei de súbito, arfando alto de susto e olhando em volta. Meus olhos ainda não estavam acostumados com a luz e tudo que conseguia ver eram borrões. Esse negócio de acordar e não saber onde você está é muito estranho, puta merda.

Eu estava em um quarto esbranquiçado, deitado sobre uma cama e coberto com a colcha. Tinha duas mesinhas de cabeceira uma de cada lado da cama, um armário no canto direito, uma porta que levava a um banheiro e a porta do quarto em si ficava ligeriamente distante do pé da cama. Do outro lado tinha um espelho, com alguns itens e algumas prateleiras com adornos e enfeites. Uma mesa com computador, cadeira com rodinhas e alguns livros. Algo me incomodava demais naquele quarto, e logo percebi: tudo era branco. Branco como papel, brilhante e polido. Ou o quarto isolado de um hospício

 

Será que eu morri? 

 

Me sentei sobre a cama e abracei-me na colcha grossa, encolhendo as pernas e ainda me perguntando o que aconteceu quando eu apaguei. Meu ouvido zumbia, e minha cabeça latejava. Sibilei de dor, massageando minhas têmporas com o polegar e o dedo do meio da mão direita. 

 

Onde caralhos eu estou!?

 


— Ah, finalmente acordou! Estava na hora, hein?

Meu coração quase saltou pela boca quando um estranho adentrou o quarto de uma vez em um estrondo, e agarrei mais ainda as fronhas da cama. Não tirei os olhos dele nem por um segundo, poderia me atacar a qualquer momento. Não confio em absolutamente ninguém nesta merda, eu estou sozinho e irei me defender até precisarem me matar. O moço era alto, sorria mostrando covinhas no canto da boca, os olhos miudinhos duplicaram de tamanho por causa dos óculos, que pareciam fundo de garrafa e armação fina. Seus fios eram acastanhados com uma franjinha delicada, cachos suaves formavam nas pontas, lhe dando um ar estranhamente inocente.

 

O que ele estava fazendo ali? O que ele queria? O que estava acontecendo? 

 

O olhei com o cenho franzido, fitando-o desconfiado. Ele parecia estar nas nuvens, mas não podia me esquecer que ele ainda fazia parte daquele esquema maluco de dobrar ômegas "malcriados". Realmente, parecia que eu tinha morrido. Até prefiro a morte.

 

— Você deve estar todo dolorido, me desculpe por isso, meu pai é bem imprudente... oh, licença, um instante! 

Apressou-se para fora do quarto, fechando a porta silenciosamente. Pude ouvir seus passos do lado de fora, mas assim que caiu a ficha do que havia dito, meu queixo foi ao chão. Pai? Será que seu pai era um dos guardas? Se bem que o diretor havia me dito que um alfa especial viria a ser o meu tutor.

 

Puta que pariu... 

 

Remexi na cama, desviando um pouco dos pensamentos questionáveis para perceber que realmente, meu corpo ainda tremia, tendo alguns míseros espasmos musculares. e até que o colchão era bem confortável. Meu estômago rugia feito um leão, puxei o travesseiro para apoiar as costas e tombei a cabeça para trás, tonto. Se eu não fosse morrer eletrocutado, iria morrer de fome. 

 

De repente, o garoto esquisito adentrou o quarto repetindo o estrondo na porta, com algo em mãos que me fez suspirar. 

— Aqui, meu pai, ou melhor, o diretor, não me permitiu fazer isso, mas fiz mesmo assim, não podia deixar passar... 

Tinha uma bandeja enorme, uma mesinha de trazer café da manhã na cama cheio de comida. Tinha panquecas, com aquele clássico mini tablete de manteiga no topo, e do lado um potinho com xarope de bordo. Tinha muitas frutas, uma tigela com bolinhos de arroz com peixe, ovos mexidos, um copo com café com leite e um outro com suco de uva. Tinha também um copinho com água e um comprimido do lado. Tudo estava tão cheiroso que minha boca salivava muito. O moço colocou a mesa bem acima do meu colo, e arrastei a língua nos lábios automaticamente, ouvindo minha barriga roncar mais uma vez. Ele riu, e sentou-se na cama. Parecia um daqueles nerds desengonçados, usava suéter esverdeado e uma calça jeans larga, e óculos arredondados. Então, realmente, aquele moço com cara de bebê é filho do merda do diretor. Vai ser tão horrível quanto ele.

— Coma, pelo rugido que ouvi, deve estar com muita fome. Não tomou café?

Estendi minha mão para pegar o garfinho de plástico, mas então recuei. E se tivesse algo nessa comida? Se eles são doidos o suficiente para fritar a porra do meu cérebro fora, quem dirá o que tem nessa bandeja. Encolhi as mãos e franzi as sobrancelhas, o encarando com a cara emburrada.

— Vamos, Seokjin. Coma, por favor, eu que fiz... 

O garoto pegou um dos morangos do pratinho e levou a boca sem problema nenhum. Ainda desconfiado, estendi a mão outra vez e catei da mesma fruta, farejando-a e levando a boca. Salivei muito mais quando o doce gosto da fruta tomou conta da minha boca, suspirando aliviado por finalmente estar me alimentando. Mas, outra coisa me intrigava. Ele sabe meu nome? 


— A propósito, meu nome é Kim Namjoon, e eu serei seu alfa tutor.

Ele sorriu simpático e roubou outra fruta. Então, ele seria meu "alfa tutor"? E ele era lúpus como eu? Com essa calma toda!? 

 

Não creio. 

 

Mas, estava com fome demais para pensar em qualquer coisa. Precisava me encher para começar a bolar meu plano de sair daqui. Sim, eu iria sair dessa merda, nem que seja explodindo a porra toda. 

Nos encaramos por alguns instantes, ainda tentando familiarizar com a presença, e então ele suspirou.

— Bom, acho que não está muito a fim de conversa agora... vou esperar você comer lá fora, e vou lendo sua ficha, depois vá lá para conversamos, sim? E tome esse remedinho, é ótimo contra esses choques malditos.

 

Inclinei a cabeça ao ver o alfa se retirar, mais confuso ainda. Ficha? Que ficha? Criminal? E quem caralhos fala "remedinho"!? 

 

 

Não deu nem segundos da saída de Namjoon e eu avancei em cima daquele banquete. Era muito mais do que eu havia comido durante a semana toda. Mas, também, com a minha mãe falando que eu estou gordo o tempo todo, quem teria coragem de comer mais? 

Foda-se ela, enquanto eu estava no mini banquete, ela estava presa com aquele otário do Daejung. Não sei quem vai estar na pior, mas, pelo menos, não estarei com aquela traidora mau caráter e nem com o xerife filho da puta. A comida estava realmente deliciosa, e limpei aquela bandeja não deixando nem uma semente de uva sequer. Parecia que eu não comia a um mês, de tão rápido que eu devorei aquilo tudo. Pelo menos esse tal Kim Namjoon sabe cozinhar. 

Meu corpo havia parado de tremer tanto, ainda tinha alguns espasmos por causa das descargas elétricas recebidas anteriormente. Encarei aquela pílula azul clara na mesinha, catando-a e observando-a bem. Não sei o que poderia ter naquele comprimido, tudo parecia bem suspeito. Por que ele estava me tratando bem depois de tudo isso? 

 

Decidi não tomar o remédio e coloquei a mesinha de lado, me desembrulhando da colcha espessa e me levantei. Minhas pernas trêmulas quase não me deixaram de pé. Estava sem meus sapatos, os encontrei na beira da cama. Mesmo de meias, o chão era frio, como se eu fosse a primeira pessoa a caminhar naquele piso. Caminhei vagarosamente para fora do quarto, dando uma boa olhada no local que estava. Era maior do que os quartos dos dormitórios que vimos nas foos, visto que tinha cozinha com balcão grande e bem espaçoso, uma outra porta que, pelo que pude ver, era um outro quarto. Uma sala com um sofá pequeno, e uma TV relativamente grande. Os outros que vimos mal tinha espaço para duas pessoas no balcão da cozinha, neste tinha espaço para quatro. Kim Namjoon estava sentado ali mesmo no balcão da mini-cozinha, anotando algumas coisas e com arquivos logo acima. Tentei me esgueirar para bisbilhotar, mas ele notou minha presença antes. Sorriu outra vez e me chamou para perto. Como eu não tinha escolha nenhuma, revirei os olhos e me aproximei, me sentando sobre o balcão. 

O alfa lúpus ergueu a mão em minha direção para dizer algo, mas hesitou e deixou de lado. Talvez fosse me repreender por ter sentado no balcão, mas estava pouco me fodendo para isso.

 

— Pois bem, Seokjin, pelo que vi aqui você tem um histórico e tanto... não há dúvidas de que, para eles, você precise ficar aqui. — Não aguentei outra vez e ri debochado, arrastando a língua no interior da bochecha e o encarando com desdém. Ele era igual aos outros mesmo. Pigarreou, voltando a atenção ao arquivo. — Pelos meus cálculos, eu daria uns dois anos ou mais para recuperação total, e outros dois para total reintegração social! Este sendo o tempo mínimo, se pudesse eu colocaria menos…

 

Sorriu tão feliz que pareceu ter ganhado na loteria. Já a minha cara foi a contrária. Arregalei os olhos e franzi o cenho, cruzando os braços e pernas sem acreditar no que ele falava.

— E pelos meus cálculos, nem fodendo eu fico aqui por quatro anos! 

Exclamei em sua direção, o vendo ficar surpreso. Foram as primeiras palavras que disse à ele. Pelo menos minha voz não falhou, saiu firme e forte, como sempre tentava impor. Bom que já aprende como eu sou.

— Olha só, o ômega fala... Minhas sinceras desculpas, Seokjin, mas infelizmente não há muito que eu possa fazer. Se der sorte e cumprir suas funções devidamente, conseguiria te liberar em três anos e meio.

Puta que pariu... — Revirei os olhos, impaciente. Se depender dessa merda de estadia mínima e da minha vontade de estar ali — ou seja, 0 —, ia me deixar ali para sempre. Não é possível. — "Cumprir minhas funções", o meu pau de lacinho. Se a porra das minhas funções forem ficar submissos aos alfas daqui e dar uma de "dócil e ingênuo", sonharam. 

 

O alfa ajeitou os óculos e se levantou, parando de frente para mim, bem próximo. O olhei de cima a baixo, erguendo uma sobrancelha. 

 

— Então, o senhor revoltadinho vai ficar aqui por mais de quatro anos. E você nem sabe como vou te conduzir, e não vai ser por esse caminho. Nem esperou eu terminar de falar e já jogou isso em cima de mim. Todo nervosinho... Você poderia relaxar um pouquinho! Me deixe te explicar como vai funcionar!

Grunhi com sua fala e tentei respirar fundo. Quem esse filho da puta pensa que é!? Teria que apelar para o pior dos planos possível. Abri as pernas, e apoiei as mãos para trás, inclinando um pouco a cabeça para o lado e o olhando de cima a baixo novamente. 

— E o alfazinho já tem um plano, é? Pois eu sei como dobrar você... — Aproveitei a proximidade e levei minha destra em sua gola, o puxando para perto o suficiente e roçando a ponta do meu nariz contra a dele. Notei ele engolindo em seco e se estremecendo. Na mosca. — Hum? Por que não resolvemos assim? Você me tira daqui, e eu te mostro o que minha boca é capaz de fazer... 

Ri fraco, juntando um pouco das forças que tinha pós-choque e liberei minha melhor arma, meus feromônios de morango e arfei, enroscando minhas pernas ao redor de sua cintura. 

 

Que plano patético. Essa arma costumava funcionar antes mesmo de chegar a algo a mais, mas tinha que tentar. 

 

Mas o alfa teve uma reação que eu não esperava. Ele não recuou, nem rosnou, nem mesmo parecia ter sentido meu perfume. Em vez disso, ele deu um passo curto à frente, fechando o espaço entre nós até que eu pudesse sentir o calor saindo de sua pele. Ele não me tocou, em vez disso, espalmou as mãos com calma sobre o mármore do balcão, uma de cada lado do meu quadril, me cercando sem precisar me segurar.

Fiquei encurralado entre o frio da pedra e o calor da sua presença. Ele era tão grande que sua sombra me cobriu por inteiro, e o fato de ele se recusar a fechar os dedos sobre a minha pele, mesmo com minhas pernas ao seu redor, me deixou mais desconfortável do que se ele tivesse me batido. Era um autocontrole assustador.

 

Merda.

 

— Sugiro que não tente isso com qualquer alfa daqui, qualquer um pode utilizar do seu corpo como bem quiser, e isso não te faz sair. O mínimo que aconteceria é você virar brinquedinho deles até quando se cansarem, e te reprovarem só por diversão. Comigo não cola, mocinho. Agora, escute a minha versão do plano, sim? — Revirei os olhos, bufando fraco e tentei o afastar. Mas, não havia escapatória, conseguiu me fazer cair na minha própria armadilha. — Eu não aprovo os métodos deste lugar, e nunca irei aprovar. Não concordo com os ensinamentos, mas não posso demonstrar isso ao meu pai. Eu irei te guiar para que não se machuque ou se dê muito mal. Aqui não é brincadeira, e como você é o primeiro ômega que me é designado, não irei fracassar. Seguiremos o meu jeito, e nenhum de nós levamos a pior. Entendido? 

Rosnei, inconformado. Pior que ele teria razão, conhece esse lugar melhor do que ninguém. Filho da puta, teria que seguir o que ele diria. Mas então ele não concorda com o próprio pai? Que tipo de alfa lúpus ele é? E como foi que não moveu um músculo quando farejou meu cheiro? 

 

Puta que pariu, o que eu teria que fazer para me livrar disso tudo?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


— Aqui, vamos começar. — Kim Namjoon e eu nos sentamos nas cadeiras do balcão e então ele começou a dizer seu plano. Precisava ficar atento a tudo que ele dizia, por mais impaciente que estivesse e discordasse de cada palavra que saía de sua boca. Ainda era extremamente suspeito confiar nele. Ele poderia me esfaquear pelas costas em poucos segundos. — Eu sei que você gosta de responder as pessoas, mas isso vai ter que se reduzir lá fora. Meu pai tem todos os tipos de instrumentos de tortura que possa imaginar, não queira conhecer um por um. Os livros da sua mesa, são só itens que dizem exatamente o que você odeia. Você terá as aulas comuns de Ensino Médio e também aulas de etiqueta e comportamento. Vendo seu boletim, você não tem problemas com isso, passando acima de 60% você está livre. É a mais pura decoreba, o objetivo deles não é esse. Não responda os professores, não desafie ninguém. Este quarto é o único lugar seguro, pois é a cobertura do prédio de dormitórios, e o único andar que não tem câmeras. Ser filho do diretor te dá alguns privilégios... E qualquer coisa que fizerem com você, recorra a mim, ok? Qualquer outro não te dará a resposta que realmente ajude. Você me entende? 

 

Fiz que sim com a cabeça. Puta merda, esse cara fala demais. Por mais que odiasse esse regime militar, tem horas que eu preciso me segurar. Eu estou dentro da cova dos leões, e aquela não era a hora de bobear. Remexi-me incomodado, coçando a cabeça. Me pergunto como um lugar desses consegue existir, possuem total liberdade para me torturar e isso é revoltante. O alfa lúpus suspirou e afastou os cabelos da testa.

 

— Seokjin, eu sei que é muito para acompanhar, mas precisamos nos ajudar. Se nós não nos atentarmos, meu pai me coloca para fora e irá te usar como brinquedo. Além do mais, as regras de etiqueta quem irá lecionar serei eu, aqui dentro. Preferi assim, dessa forma não precisaremos passar o dia inteiro lá nos prédios das aulas. Se te virem não se comportando como querem, você roda. Mas, não se preocupe, pois eu estarei do seu lado o tempo inteiro. Aqui dentro, você pode ter seu espaço, estudar em paz e ficar na sua, eu não me importo. Revistas gerais de quarto: aqui é rápido, meu pai não gosta que vasculhem o dormitório do filho dele. Amanhã será seu primeiro dia de aula, como o costureiro só vem a tarde para te medir e fazer o uniforme, você usa meu moletom. Alguma dúvida? 

Pigarreei, massageando as têmporas. Havia acabado de acordar e recebendo todas essas informações era difícil. Parece que meu cérebro ainda está fedendo queimado, deve estar saindo fumaça pelas minhas orelhas.

 

Não bobear, não ser eu mesmo, não fazer nada que quisesse, virar um robô alienado. Que merda. Prefiro o hospício. 

 

Não consegui segurar um bocejo, e o alfa arquejou, retirando os óculos e os deixou sobre o balcão. Também parecia tenso, mas era com razão. Eu não vou deixar fácil para ele, deve estar blefando com esse tanto de cuidados.

— Por que está fazendo isso? Me ajudando assim? Era muito mais fácil você se beneficiar e fazer do jeito do seu pai. 

Ele se inclinou para frente e apoiou-se nas mãos, com os cotovelos sobre a superfície de mármore. 

— Eu prefiro te ajudar a colaborar com esse esquema fascista. É um termo radical, eu sei, mas não tô a fim de torturar ninguém. Eu não planejo continuar aqui depois de te passar. Seria uma aliança para que não tenhamos problemas.

Ainda não sabia se confio nele para isso. Acho duvidoso. Estaria trancado com um alfa lúpus desconhecido e acho impossível não tentar tirar proveito disso. O próprio filho do dono da porra toda não concordando com os métodos?

E outra, ele é lúpus, o pai teria que ser lúpus também. Mas, porque Kang Seojun exala mais dominância até demais? Está bem que era parte dos genes lúpus ter dominância sobre os outros — e, no meu caso, ser submisso aos outros —, mas era no mínimo suspeito. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Durante a tarde, consegui me concentrar melhor no que ensinou. O moletom acinzentado dele tinha o capuz avermelhado de identificação dos alfas tutores, mas iriam me notar pela coleira no pescoço. Como estaria o tempo inteiro do meu lado, não apanharia por usar o moletom "errado". Se realmente é como está dizendo, que eu levaria uma surra pelas roupas que usava, não aguentariam um dia vendo o que eu uso no dia-a-dia. Namjoon fez alguns bolinhos de arroz para o lanche, e reparei que o alfa ficava feliz até demais na cozinha. Garoto estranho.

Estava jantando macarrão com queijo que ele havia feito sentado no sofá e assistindo algo aleatório na TV. Não sei o que ele coloca nessa comida, mas, meu Deus, Kim Namjoon sabe cozinhar muito bem. Chegava a achar isso suspeito também, mesmo estando de olho nele enquanto fazia a janta. Deve até ter ficado incomodado com a minha presença, mas eu não vou deixar ele fazer a comida para mim sem observar se está colocando algum tipo de remédio ou droga dentro. Apesar de ser um prato simples, estava bem temperado e era de dar água na boca. Meu estômago agradecia pela comida caseira e por finalmente estar comendo novamente.

 

Talvez eu ganharia uns quilinhos a mais nesse lugar, mas era bom assim. 

 

O alfa saiu de seu quarto com os cabelos ainda úmidos do banho, os óculos pendurados na gola de uma blusa com decote V verde, o tecido parecia que ia se rasgar a qualquer momento. É, para um nerd com energia pra caralho, ele não era nem um pouco magricela. 

 

Parou na ponta do sofá, assistindo ao que passava na televisão. Desviei o olhar quando ele se virou em minha direção, naquele jeito todo desengonçado quando iria se referir a mim.

— Seokjin, por favor, poderia não comer em cima do sofá? Se derramar pode acabar manchando...

 

O encarei e ri maléfico, pegando um dos Macaroni e o balancei com o garfo propositalmente, o vendo se contorcer todo para tentar alcançar, mas recuando. Não queria se aproximar de mim, e achava isso engraçado. Parecia não querer ser desrespeitoso, e ver suas mãos abrindo e fechando querendo tirar o garfo da minha mão me divertia. Por sorte, não caiu um pingo de queijo no sofá, nem mesmo o Macaroni e o levei à boca, rindo maldoso do que havia feito. O alfa lúpus bufou e fechou os olhos, recuperando a paciência. 

— Ah, ninguém mandou me colocarem aqui. Agora, aguente

 

 

Devorei uma última garfada do conteúdo e me levantei para deixar a tigelinha na pia. Estava usando um dos meus pijamas confortáveis, bem aquecido. Acho que Kim Namjoon já havia se acostumado com a temperatura do lugar, porque para mim estava congelando. Até que a temperatura do chuveiro era bem quente, o banheiro é bem espaçoso e tem até banheira. Se não fosse essa porra de coleira e as supostas torturas, realmente estou de férias.

 

 

Namjoon havia se sentado no balcão enquanto eu terminava de comer, anotando algumas coisas quando me apoiei na parte mais alta que separava a parte da cozinha da parte da sala. Cozinha em conceito aberto são chiques.

 

Observei suas anotações. Um dos arquivos tinha minha foto, com um monte de informações. Provavelmente o básico para que não morresse de uma alergia aleatória e afins. 

 

— O que está anotando? 

Indaguei, apoiando as mãos sobre o mármore gelado e o queixo sobre elas, encarando as anotações para tentar ler de cabeça para baixo.

— Organizando os horários de amanhã e o que faremos na parte da tarde. 

Agora que havia percebido que era a porra de um planner decorado com adesivos de plantas, em tons de marrom e verde, as folhas decoradas em um tom creme que deixava tudo com uma estética suave. Não é possível que esse ser é um alfa lúpus. Pior que era difícil o identificar, seu aroma ainda não havia chegado até mim. Ainda.

— Hum... E quais serão? O que vai ser a tarde? 

O alfa ergueu o rosto e abaixou os óculos, me olhando por cima das hastes.

— Amanhã você verá. Lembre-se do que eu falei, na primeira aula eu não poderei estar com você, alfas tem uma palestra no início sobre o que ocorrerá no dia. Ande na linha. 

 

Não tinha frase que mais me irritasse na face dessa Terra. "Ande na linha". Porra, eu tenho cara de equilibrista!? 

 

— Ah, tá. E se eu fizer qualquer coisa que não for "andar na linha"? 

Exagerei na voz de deboche na última frase, notando como isso incomodava o alfa lúpus. Remexeu os bolsos e removeu um pequeno controle de dentro do direito, e engoli em seco. Se parecia com o controle mostrado por seu pai, antes de me fritarem até desmaiar. Meus joelhos quase falharam e embrulhei a barriga com os braços, relembrando da terrível sensação das descargas elétricas.

— É só apontarem para você, e eles te reconhecem por uma alta tecnologia. Procure andar debaixo do radar dos professores, pois os controles deles são universais, diferente deste meu, que funciona só em você. 

Rodou-o nos dedos, e o guardou, me fazendo arrepiar. Se ele encosta nessa merda de botão sem querer eu torro em dois segundos. Já estava frito o suficiente. Se sentar em cima e quebrar, piorou.

 

Acho que ele notou que me incomodei, pois rio fraco e se apoiou, me observando.

 

— Não se preocupe, removi as baterias. É melhor que seja bom em atuar, pois se tiver que provar que ele funciona... se estrebuche como um peixe fora d'água, eles caem fácil. – Riu outra vez e apoiou o cotovelo sobre o mármore, e o queixo sobre a mão – O cheiro de ozônio que esses choques deixam na pele... eu sinto daqui a quilômetros. Eu não vou carregar o peso de fazer isso com ninguém, Seokjin. Especialmente com você.

 

Me mantive mais sério que cachorro em ponta de canoa. Ele falava com um asco tão real que, por um momento, quase esqueci que ele era filho do homem que inventou aquela tortura. Não sei como consegue rir em uma situação dessas, eu não acho graça, porra nenhuma. Não queria demonstrar nenhum sentimento perto dele, sei lá o que ele pode usar contra mim se me fizer fraquejar. Olhei para o relógio de ponteiro ao lado da geladeira, e notei as horas. 21:30.

 

 

Havia passado o dia inteiro lendo os livros da mesinha e fazendo upgrades no computador para que pudesse usar para estudar. Bom, pelo menos os que me permitiam fazer sem os bloqueios. Também arrumei minhas roupas nos armários e itens de higiene no banheiro. Acho que organizei meu cantinho direito. Uma coisa que aprendi é que, por mais que esteja no inferno, pelo menos um canto deve ser totalmente meu, para me relembrar de mim mesmo e saber que ninguém pode me fazer mudar. Algo como “retornar para mim”, e o meu quarto é o canto que eu não abro mão. 


Bocejei e me espreguicei, voltando a deitar a cabeça para o balcão. Kim Namjoon nem ergueu os olhos das folhas, estava tão concentrado em fazer um dos letterings perfeitos que chegou a me dar ânsia de vômito.

— Vá dormir, Seokjin. Amanhã eu te repasso as coisas. Se comporte, por favor! 

Bufei e revirei os olhos, indo em direção ao meu quarto. 

— Eu vou me comportar... no inferno! 

Bradei a última frase em um grunhido nervoso, batendo a porta do quarto sem dar a mínima se o barulho iria atrapalhar.
 

 

Não queria estabelecer nada com o alfa, não confio nem um pouco nele. Ainda queria o vigiar, mas estava com muito sono. Amanhã seria um dia e tanto. O vigiei o máximo que conseguia, mas ele sempre conseguia notar que o olhava pela fresta da porta. Merda, se esse cara me atacar enquanto dormia, era meu fim

 

Não posso bobear perto de um alfa lúpus. Confio apenas em Jungkook, e olhe lá. Ainda tenho as cicatrizes de um acidente, três grandes marcas de garra atravessavam minha bochecha esquerda, provocadas pelo menor. Passou um mês tentando se redimir, e no final das contas quem me convenceu a perdoá-lo foi Park Jimin. Acho que é por isso que é tão protetor quando se trata de mim e Jimin, não quer que o acidente se repita. 


Diferente de Jeon Jungkook, eu não sei absolutamente nada sobre Kim Namjoon, se ele tiver um ataque de raiva e partir para cima de mim, eu morro. Ele nem mesmo tem o sobrenome de Seojun, como posso confiar? 

Vai demorar um bom tempo até eu conseguir me ambientar a isso. Mas, estava sonolento demais para continuar pensando. 

Como sempre, deixei a luz do banheiro acesa, encostando a porta poucos centímetros para que não fique completamente escuro. Me deitei na cama confortável, embrulhando-me naquelas colchas para que ficasse o mais aquecido possível. Provavelmente Namjoon iria me acordar amanhã cedo, e estava cansado demais para dormir em alerta. Nem havia me dito que horas deveria acordar. Problema dele, já não fez uma coisa direito.

 

Aos poucos meus olhos se pesaram, e dormi pesado que nem pedra.

 

 

 

 

 

 

 


•⏰•

 

 

 

 

 

 


— Seokjin, vamos, está na hora. Sua primeira aula é às 7:55. 

Deu dois tapinhas em minha perna, e bufei. 

 

Início do inferno. Lá vamos nós. 

 

Olhei no relógio de ponteiro em cima da porta do quarto, eram 6:25. Odeio acordar cedo. Não sei como consegui levantar, nem sei como dormi com aquela porra de algema no pescoço. Pelo menos sabia que era a prova d'água, pois já havia tomado banho com ela, morrendo de medo de morrer se desse um curto. Me observei no espelho, notando a tatuagem no meu pulso e sorri. Sentiria saudades dos meus amigos... estariam se levantando agora também, para irem à Escola Municipal de Gangsu. Moonbyul encontraria a namoradinha dela, Chanyeol iria chegar atrasado por dormir demais, e Jungkook seria o primeiro a chegar, com olheiras fundas por ter jogado a noite inteira e com uma latinha de energético na mão. Se Jimin estivesse lá, ficaria todo preocupado com Jungkook, e o deixaria dormir escondido atrás dele. Suspirei fundo, agora o sentimento de frustração batia forte. Eles nem saberiam o motivo de eu estar faltando. Faltarei por quatro anos. Em quatro anos eles já estarão cuidando de suas vidas, e eu nesse fim de mundo do caralho. 

 

Senti juntarem lágrimas pequenas em meus olhos, mas sacolejei a cabeça e me encarei no espelho.

 

— Eu não vou ficar aqui por quatro anos. Nem fodendo

 

Por sorte, o plástico ainda estava bem colocado no lugar do desenho, e pude tomar banho novamente sem problemas. Já estava na hora de removê-lo, e o descartei sem problemas. O desenho estava vivo, os traços impecáveis eram uma boa maneira de me relembrar que logo irei vê-los novamente. Vesti uma calça jeans preta, junto do meu tênis all star e uma blusa de manga longa, pois sabia que teria que usar o moletom do alfa tutor o dia inteiro e lá fora estava frio. 

 

Assim que saí do quarto, minhas narinas captaram um cheiro delicioso, algo quentinho que me deixou salivando. Lá estava Kim Namjoon, já pronto e com um avental ao redor do corpo, todo manchado.

— Que bom que já está pronto! Aqui, eu não sabia qual você gostava, então eu fiz... bem... 

 

O balcão estava cheio. De. Comida. 

Como, eu lhe pergunto, como ele consegue!? 

 

Tinham pães, tofu com molho, sanduíche de ovos mexidos e tomate, frutas, panquecas e até mesmo aqueles bacons que só se vê em filmes norte-americanos. 

 

Por quanto tempo eu fiquei no banheiro!? 

Meus olhos foram ao lado da geladeira e o relógio marcava 7:00. Acho que consigo comer isso tudo em 20 minutos, no mínimo

 

 

 

Damos início ao café da manhã, e puta que pariu, eu estava com muita fome. Não sei de onde saiu tanto apetite do nada, e agora sim tinha certeza de que iria ganhar alguns quilos a mais ali. Culpa desse alfa lúpus Masterchef também, tá querendo me ver gordo, só pode. 

 

— Seokjin, deixe um pouco separado para o seu lanche, não vai querer comer a comida daqui, é horrível. Parece um mingau de mofo.

 

Fez uma careta e sacolejou a cabeça, enojado. É, se foi ele quem disse, e com todos aqueles dotes culinários, melhor não arriscar. Deixei dois sanduíches de ovos mexidos, um pouco de bacon e morangos, e Namjoon separou uma garrafinha de água e outra de chá verde quente para mim. Tinha uma mochila própria do reformatório, e estava pendurada atrás da porta. Tinha um tom cinza azulado, as alças tinham o interior azul e outros detalhes dessa mesma cor. É, azul era a cor de identificação de ômegas, pelo visto. 

Naquele ponto, eu já estava quase aceitando meu destino. Não iria me render aos maus tratos nunca, e nunca deixarei meu objetivo de sair daqui o mais rápido possível, mas sei que se eu for bem lá fora, as chances de eu ir embora mais cedo são maiores. Vesti o moletom do alfa, que era quase o dobro do meu tamanho. Tampava minha tatuagem, e isso poderia ajudar a não me causar mais problemas. 

 

Lá vai o disfarce de bom garoto. Já estava com a mochila pronto para sair, já eram 7:30. Apoiei a mochila no ombro direito e suspirei, afastando a franja preta do rumo dos olhos e, assim que levei a mão na maçaneta da porta, travei. 

Puta merda, não havia pensado no quão sozinho eu estaria ali. Pular de sala em sala sem poder dar um piu, voltar para cá e ter as tais aulas com Namjoon, apesar de ele também ter que estudar das mesmas matérias que eu. Ele estava bem mais sobrecarregado. Mas, como ele disse, os alfas são instruídos há mais tempo, sabiam controlar bem as tarefas do dia. De qualquer forma, eu não ficava sozinho há muito tempo, estava sempre rodeado dos meus amigos, agora eu estava no meio do nada sem ninguém para servir de apoio. Minha mão estava gelada e as palmas suadas, e cheguei a me estranhar. 

 

 

— Seokjin, tudo bem? Não vai abrir a porta? 

Namjoon me tirou do transe dos pensamentos e franzi o cenho, abrindo a porta do dormitório com certa violência e saindo pelo corredor. Não tinha pensado também que não lembrava como havia chegado naquele quarto, e não havia saído ali para ver desde que acordei. 

Aguardei pelo alfa terminar de trancar a porta do dormitório e me entregou a chave. 

— Aqui, está é para você. Depois se quiser algum chaveirinho para não perder, posso fazer um com biscuit! — Ele sorriu simpático e franzi o sobrolho em sua direção. Como que esse ser consegue ter essa disposição em um lugar daquele? E o que caralhos é biscuit!? — E não me deixe esquecer de te entregar os horários das suas aulas da semana, assim que acabar essa primeira eu te busco na porta para seguirmos à próxima. 

O alfa tutor passou na minha frente, e notei que caminhava quase saltitante. Puta que pariu, o que passa na cabeça desse cara?

— Por que você tem que me buscar? Não dá para encontrar lá? 

Do mesmo jeito pimpão que estava, nem se virou para me responder.

— Se for pego sem seu alfa tutor por perto, leva choque. Nem uniforme você tem ainda, é pedir para sofrer alguns segundos de energia elétrica. De tarde vão vir tirar suas medidas, aí ficará mais tranquilo.

 

Revirei os olhos e bufei, impaciente com toda essa quantidade de regras. Porra, eu não posso nem ir ao banheiro sozinho? 

 

 

 

Caminhamos ao fim do corredor, e notei que não havia outros quartos no andar. Havia uma grande janela contínua na parede contrária, e pude bisbilhotar o lado de fora. Aparentemente, estávamos na cobertura. Talvez por isso não havíamos caminhado até aqui no tour de ontem, esse apartamento foi feito para o alfa lúpus. Ter Kim Namjoon como alfa tutor tem suas vantagens, como a melhor unidade do reformatório todo. 

 

Para descer até o final, tivemos que pegar um elevador lento para um caralho. Imagino que quem havia me carregado enquanto estava desmaiado, deve ter tido um trabalhão. Não que eu pesasse muito, mas não deve ser tão fácil assim.

 

 

 

Seguimos o caminho de pedras até o centro, e engoli em seco. Relembrei do meu pesadelo, as folhas me afogando, e quando tentei levar a destra no pescoço, bati contra a coleira e minha respiração chegou a falhar. Me tornaria mais um daqueles ômegas raquíticos

 

Fomos até o interior do prédio A, o mais próximo do Centro do Reformatório. Era logo na primeira sala de aula do térreo, nem precisamos andar muito, havia visitado aquela sala na minha volta de ontem. Tinham mesas separadas na mesma cor de madeira e o mesmo design de todo o resto. Todo o visual parecia ter saído de uma série de época britânica, era desconfortavelmente sinistro. O cheiro de verniz, o álcool dos marcadores de quadro branco, um pouco de poeira, realmente passava a imagem de uma universidade de prestígio. Mas, havia um outro cheiro, quase imperceptível, parecia algum produto de limpeza. Meu estômago se embrulhou e estremeci, chegando a ficar enjoado. Coisa boa é que não é.

Namjoon futricou em algo de sua mochila avermelhada e me entregou um papelzinho plastificado com nomes das aulas e até dos professores. É aí que eu invejo a organização desse alfa lúpus.

— Prontinho! Lembre-se do que eu te passei, procure ficar mais quieto, se souber alguma resposta pode responder. Mas, é preferível que não chame a atenção deles. Pode ser que eles foquem em você, e nem todos serão por algo positivo. 

Ele parou na minha frente e limpou meu ombro direito, ajustando um pouco do moletom em mim e o encarei desconfiado. Namjoon com certeza tinha uma mania de organização fodida. De repente, um sino alto tocou, feito daqueles de igreja, mas saía de caixas de som espalhadas no local. Alguns ômegas passaram entre nós e adentraram a sala, e engoli em seco. Meu coração bateu forte, e minha barriga parecia um saco de gelo. 

— Preparado? Ótimo, te encontro daqui 45 minutos! 

Sorriu outra vez e correu pelos corredores, e o perdi de vista entre outros estudantes. É isso, Kim Seokjin, primeira aula no inferno para valer.

 

 

 

 

 

 

•📚•

 

 

 

 

 

 


O professor Song Haneul dava aula de história, minha matéria favorita. Havia passado algo para copiar no quadro enorme, e todos estavam muito concentrados em copiar e o ouvir. Me sentei na primeira carteira da fileira do canto, um bom lugar para copiar e ainda fora do radar do professor de cabelos brancos e óculos grossos. Enquanto copiava, cruzei minhas pernas em pernas de índio, deixando-as em cima da cadeira enquanto copiava cautelosamente. 

 

 

De repente, fez-se um silêncio mórbido. E quando ergui a cabeça, o professor estava bem de frente para mim, com uma cara furiosa. 

 

— Você é novo aqui... Qual é o seu nome? 

Pigarreei e mantive a coluna ereta, de forma respeitosa — como se eu quisesse — e fiz uma pequena reverência com a cabeça.

— Kim Seokjin, senhor. 

— Hum, Kim Seokjin. o lúpus que chegou ontem, certo? — Fiz que sim com a cabeça, olhando de canto se alguém me olhava, e todos encaravam o quadro de forma assustadora. Ninguém ousava me olhar. — Pois então. Nunca aprendeu a se sentar direito? Ou até isso terá que aprender? Vamos, pernas para baixo, agora! 

 

Grunhiu alto sua última frase, e fez meu sangue ferver.

 

— Por quê? A forma como eu me sento não irá atrapalhar como eu irei compreender sua matéria, senhor. 

 

Não resisti. É mais forte do que eu. O alfa professor levou as mãos aos bolsos, e me fitou como se quisesse avançar em mim.

 

"não irá atrapalhar", ah, cale a boca! Sente-se como um ômega de respeito! E não me responda, mocinho. Um ômega não deve responder um alfa dessa maneira. Deve permanecer quieto, recatado, e com as pernas para baixo! 

 

Aí ele quis me ver bravo. Ele pediu por isso. Eu, submisso e recatado? O cu dele. Bufei e uni os dedos das mãos, colocando-as sobre a mesa e sorri em um ar de deboche. 

 

— Oh, me desculpe, professor Haneul, por ter dito algo coerente e ter razão, isso me faz um ômega lúpus malvado e desobediente. 

Segurei um riso fraco, pegando minha caneta de volta e continuei a copiar. Eu sei o que prometi, mas não acreditava que realmente fosse fazer alguma coisa. O ouvi rosnar alto na minha frente, e assim que me dei conta, tinha o controle da coleira nas mãos. Mal prendi a respiração e as descargas elétricas me fizeram contorcer e a cadeira tombar para trás, caí batendo a cabeça no chão. Suspirei alto quando soltou o botão, e o ouvi rir. 

— Puta que pariu, só pode ser brincadeira... Por estar com as pernas cruzadas? É isso!? 

Perguntei a mim mesmo, tentando me levantar e esfreguei a cabeça onde havia batido. A região latejava pela pancada forte, e meu ouvido direito zuniu. Chequei para ver se estava sangrando, graças a Deus não estava. Me sentei no chão e fechei os olhos, concentrando-me em fazer a dor parar.

— E não lhe dei autorização para falar ou se levantar. Acho que alguém precisa levá-lo à sala do diretor Kang, está precisando saber como as coisas funcionam por aqui.

 

 

Arregalei os olhos e assustei-me quando dois guardas enormes surgiram de súbito feito fantasmas na sala me ergueram de uma vez do chão, suas mãos segurando meus braços com tanta força que não consegui segurar um ganido, me puxando na direção da porta dos fundos do recinto. Não sei de onde surgiram, talvez já estivessem na sala de aula desde o início, ou há algum código para chamá-los. Os ômegas daquela sala nem sequer se moveram, e agora pareceu ter me caído a ficha.

 

Talvez eu estivesse fodido

 

Caminharam por um corredor que não havíamos passado, era sombrio e o tom amadeirado era mais escuro. Arrepiei-me por inteiro, o cheiro do ambiente era ácido e fazia minhas narinas arderem. Dava para perceber que era uma descida, pareciam passar de algo. Por baixo do prédio, talvez, uma rede de corredores que devem ligar todas as salas até um ponto específico. Não devem levar ômegas na frente de todos até a sala do diretor, não querem apavorar ninguém. Ontem mesmo não vimos nada de suspeito, e agora entendi o porquê. Acho que os guardas podiam ouvir o meu coração bater forte de medo, pois às vezes se entreolhavam e me encaravam com um riso maléfico. 

 

Merda, o que foi que eu fiz? 

 

Tentei me remexer para me livrar dos guardas, mas um dos alfas retirou um controle do bolso e me eletrocutou outra vez. A cada descarga elétrica, meu corpo se enfraquecia, e ficava com cada vez mais medo. Pressionou aquela merda de botão até que eu perdesse as forças, e quase desmaiei. A risada dos guardas me fazia querer chorar. Aquele ambiente todo já me deixava em pânico, e olha que é bem difícil me fazer ficar com medo. Enfrentei Daejung por todo esse tempo, e agora me borro a cada passo que eu dou nessa porra de lugar. 

 

 

Fomos parar no final da enorme passagem, saindo no meio do salão do prédio principal e subimos diretamente nas mesmas escadarias que levavam à uma sala que gostaria de nunca mais ver. A maçaneta avermelhada era em formato de leão. Meio brega, por sinal, mas na hora foi a coisa mais macabra que vi ali. 

 

A porta se abriu em um rangido grave, que me fez arrepiar da cabeça aos pés. Kang Seojun estava de pé logo atrás dela, o terno preto parecia ainda mais escuro sob a luz fraca da sala, e o aroma dele me atingiu de uma vez só, pesado, sufocante, fazendo meu corpo reagir antes de qualquer pensamento. Um ganido baixo escapou da minha garganta, involuntário, e eu odiei isso imediatamente.

 

— Kim Seokjin. Logo no primeiro dia? — sua voz saiu baixa, controlada, como se eu tivesse falhado em algo que ele já esperava que eu falhasse. — Que decepção

Me agarrou pela gola do moletom e me puxou para dentro da sua sala, meus pés arrastando no chão por um segundo. Os guardas entraram logo atrás e fecharam a porta, se movendo de forma sincronizada demais, como se aquilo fosse rotina. O alfa gigante me arremessou na cadeira em frente à mesa e eu caí sentado, encolhido, tentando recuperar o ar.

 

Merda, isso tudo por não ter descruzado as pernas. Que mania idiota de querer ter sempre a razão, de querer bater de frente com todo mundo, puta que pariu.

 

Seojun se sentou na enorme poltrona atrás da mesa como se tivesse todo o tempo do mundo, e me encarou em silêncio por alguns segundos. Seus olhos tinham aquele tom avermelhado esquisito, mas não era só isso. Havia algo neles que me deixava inquieto de um jeito que eu não conseguia explicar, como se ele estivesse me analisando por dentro, procurando exatamente onde apertar.

Eu achei que conseguiria aguentar como aguentava Daejung, mas aquilo era diferente para caralho. Meu coração batia tão forte que parecia subir pela garganta, e eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir. A luz vindo da janela atrás dele deixava seu rosto parcialmente escuro, destacando ainda mais o brilho das íris e criando uma sombra que o deixava… errado.

— Sabe, fiz uma aposta com os coordenadores a seu respeito. Disse que só iria tentar algo no segundo dia. — estalou a língua, abrindo uma das gavetas sem desviar o olhar de mim. — Mas logo no primeiro? Aí complica, ômega lúpus.

Ele puxou uma caixa de dentro da gaveta e a abriu sobre a mesa. O som do metal se movendo foi baixo, mas suficiente para me fazer engolir em seco. Havia vários objetos ali dentro, alguns pontiagudos, outros achatados, todos com uma aparência que não deixava muita margem para interpretação. Eram os tais instrumentos que Kim Namjoon havia comentado. Maldita hora para ser orgulhoso.

— Eu gosto de observar antes de agir, entende? Ver até onde vocês vão sozinhos. — passou os dedos pelos instrumentos com calma, quase distraído. — Mas você resolveu se adiantar.

Havia um tom de empolgação em sua voz, estava louco para colocar as mãos em mim. Meu estômago se embrulhou com tanta força que achei que fosse vomitar, eu tremia como se estivesse dentro de um congelador. Mal respirava, estava com mais medo do que ontem.

— Eu li seu histórico inteiro antes mesmo de você pisar aqui. — ele disse por fim, com naturalidade, como se estivesse comentando o clima. — Cada ocorrência, cada escola, cada “incidente”. Impulsivo. Desafiador. Incapaz de manter a boca fechada quando deveria.

 

Inclinou levemente a cabeça, me analisando. 


— Você gosta de testar limites, não gosta? Pois eu também

 

A forma como disse aquilo fez meu sangue gelar. Eu gania como um filhote perdido na chuva, suava frio de agonia. Eu só queria que aquele pesadelo acabasse logo.

 

— Eu já vi dezenas iguais a você entrarem por aquela porta. — apontou com a cabeça vagamente na direção de onde eu tinha vindo. — Todos com esse mesmo olhar. Essa mesma necessidade de responder. E todos, sem exceção… aprenderam.

O sadismo era tangível. Eu subestimei demais as chances de sobrevivência que eu tinha, não escaparia impune. A capacidade monstruosa de deixar qualquer um desconfortável me arrepiava, e ainda nem havia tocado em mim.

— Eu sei exatamente onde apertar para você parar, ômega lúpus. — seus olhos fixaram nos meus — Só preciso escolher por onde começar.

 

Senti um arrepio subir pela minha espinha inteira. Uma lágrima pesada escorreu pela minha bochecha, teimosa, e eu me encolhi ainda mais, puxando as mangas do moletom para cima e abraçando o próprio corpo, como se isso fosse me proteger de alguma coisa. Ele observou os objetos por mais um segundo, até que seu olhar mudou de direção e pousou diretamente nas minhas mãos. 

 

Foi aí que eu lembrei.

A tatuagem.

 

— Sabe, Seokjin, você deveria pensar bem no que coloca em sua pele. Ômegas da sua espécie não deveriam tatuar nada. Estraga a imagem. — Seu sorriso esquisito me fez estremecer. Era possível ver as ideias de como me punir passando com brilho em seus olhos. — Vocês foram feitos para parecer… intactos. Limpos. — No máximo uma flor, uma borboleta. Algo delicado. Algo que não confunda o que você é.


Puxei as mangas de volta até a palma da mão, escondendo-as debaixo dos braços. Se levantou devagar, sem pressa, e deu a volta na mesa, me encarando como se fosse me devorar em uma dentada só. Cada passo parecia calculado, pesado, fazendo o ar da sala ficar mais difícil de respirar. Quando chegou perto, segurou meus pulsos e puxou minhas mãos para frente com força. Tentei me afastar e choraminguei por sua força, agoniado, mas era muito mais forte do que eu, só lhe rendeu uma cena patética da minha tentativa de me livrar de seus dedos nojentos. Acenou com a cabeça aos guardas, que seguraram meus braços em cima da mesa com violência. 

— Não queria se mostrar antes, hã? Vamos, me mostre a tatuagem! 

Espalmou minhas mãos na mesa, afastando a manga da minha mão esquerda onde residia o desenho. Os guardas me seguravam firmemente, meus braços estavam formigando.

 

Isso era humilhante.

 

— M-Me desculpa, senhor, e-eu não faço mais nada, por favor... 

 

Merda, me fodi legal agora. Minha voz saiu quebrada, e eu odiei cada segundo disso. Abaixei a cabeça, o choro começava a vir sem controle. 

 

Seojun socou a mesa com tanta força que o som estourou no ar e vibrou nos meus ossos, até os guardas ao lado afastaram-se levemente. Eu estava com tanto medo que segurei muito para não mijar nas calças na frente dele. 

— E você acha que pedir desculpas vai ajudar agora? Não, não vai. Você deve aprender que não iremos te livrar dessa só porque é seu primeiro erro. Na verdade… o primeiro erro é o mais importante. É nele que eu garanto que não existirão outros no futuro.

Engoli em seco. Tudo isso porque eu não quis descer a porra das pernas da cadeira. Era tão simples.

O alfa gigante tateou os instrumentos a sua frente. Até os sons dos metais tilintando levemente um contra o outro me fazia estremecer. Parecia os escolher com cuidado, para saber exatamente o que usar em mim. 

— Kim Seokjin, diga-me. — Seu tom casual era cínico — Sabe como se mata uma cobra?

Fodeu. Ele ia cortar minha mão fora. Agitei-me, meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento racional me atravessasse, os guardas me seguraram mais forte e cravaram minhas mãos contra a mesa. A pressão fez meus dedos latejarem imediatamente, um formigamento agonizante subindo pelo pulso. Não conseguia mover meus dedos, e o suor nas palmas manchavam levemente o forro de couro da grande mesa. 

Seojun remexeu nas gavetas outra vez, demorando o que parecia uma eternidade, e removeu algo que me fez agitar ainda mais. Parecia uma marreta, um martelo pesado com a cabeça maior e quadrada, maior do que o necessário. Não tinha como aquilo ser só ameaça, aquela merda vai fazer um estrago desgraçado em tudo. 

 

Arregalei os olhos, uma gota de suor arrastou-se pela minha testa e pingar contra o solo de madeira. 

 

— Hum? Sabe como? 

As lágrimas escorriam sem parar pelo meu rosto, minha respiração curta já me deixava tonto. Estava sentindo o mais puro e terrível medo, cru, algo que nunca senti antes. Esperneei ao tentar me livrar dos alfas, mas estava vulnerável demais para tentar manter a pose contra eles. Seojun fez questão de sacudir aquela porra de martelo de tortura bem perto do meu rosto, rodopiando-o em sua mão. 

 

— Nós a acertamos na cabeça, esmagando-a em segundos. Aqui, deixe-me demonstrar como se faz! 

 

Minha respiração travou como se alguém tivesse apertado minha garganta por dentro, e minha alma saiu do corpo por alguns instantes. Por um segundo, minha cabeça ficou vazia, um branco absoluto. Eu conseguia ouvir tudo, meu coração pulsando até em meus dedos, na mesa, o sangue bombeando e atravessando gélido por meu corpo.

Foi como se tudo ficasse em câmera lenta, desacelerando pesado, arrastado, cada detalhe ficando nítido demais quando Kang Seojun ergueu o maldito martelo quase acima de sua cabeça e o descia em alta velocidade em um movimento preciso, controlado, sem qualquer hesitação, em direção à minha mão.

 

Notes:

Esse foi o primeiro capítulo!

Comentem o que acharam, qual seria o lugar que os pais de Seokjin querem o levar... (Costumo fazer muitas interações lá no Wattpad, eu adoro quando comentam e sempre busco responder, perdoem aí qualquer coisa ksksksksk)

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