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O escritório da presidência no quadragésimo andar do Grupo Ferette sempre teve a temperatura de um necrotério e a opressão de uma catedral. Era um lembrete físico de quem ditava as regras daquele universo. Três semanas antes do tradicional almoço de domingo na mansão do Morumbi, Lorena Ferette foi convocada àquele santuário.
Quando as pesadas portas duplas de carvalho se fecharam atrás dela, o silêncio engoliu o murmúrio da Faria Lima lá embaixo. Santiago estava de pé, de costas para a porta, observando a cidade através do vidro panorâmico. O cheiro de charuto cubano, agora estritamente proibido pelos oncologistas do Sírio-Libanês, impregnava o veludo escuro das cortinas.
– Sirva um uísque para mim, Lorena – a voz áspera soou sem que ele se virasse. Não era um pedido, mas um teste rotineiro de obediência.
Lorena caminhou até o bar de cristal, os saltos afundando no tapete persa. Ela serviu a dose exata do líquido dourado, o estômago revirando com a mesma ansiedade infantil que sempre a assombrava na presença do pai.
A chefe implacável do departamento jurídico, que triturava sócios e humilhava subordinados, era inevitavelmente reduzida a uma garota desesperada por aprovação quando cruzava aquela soleira.
Ela se aproximou e entregou o copo. Santiago pegou a bebida, os dedos manchados e levemente trêmulos roçando os dela. Os olhos escuros e praticamente mortos do patriarca avaliaram a filha de cima a baixo.
– O Leandro passou a manhã inteira choramingando no meu ouvido sobre relatórios financeiros – Santiago começou, a voz carregada de um desprezo gelado, caminhando devagar até a sua cadeira de couro. Ele se sentou com um suspiro pesado. – Ele tem a espinha dorsal de uma minhoca. E o seu irmão caçula... bem, o Léo não tem cérebro suficiente nem para lidar com a própria mesada.
Lorena trincou o maxilar, mantendo a postura reta. O coração acelerou. Ela sabia onde aquela conversa iria dar. Ela a ensaiava mentalmente, em frente ao espelho, há quinze anos.
– O Grupo não sobrevive a nenhum dos dois, pai – Lorena pontuou, a voz aveludada, cirúrgica, alimentando o desprezo do velho. – O mercado engoliria o Leandro em uma semana, e o conselho desmembraria a nossa empresa no primeiro surto do Léo.
Santiago deu um gole no uísque, ignorando a própria tosse reprimida que chacoalhou seu peito.
– Exato. A empresa não precisa de garotos assustados, ela precisa de um carrasco – ele murmurou, cravando o olhar predatório na filha. – Precisa de alguém com o estômago para cortar gargantas sorrindo, alguém com a minha frieza nas veias.
O patriarca inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa de mogno maciço. O silêncio que se seguiu foi denso e definitivo.
– Esse império pode ser seu, Lorena.
A frase caiu na sala como uma bomba atômica. O ar fugiu dos pulmões da advogada. A coroa. A promessa irrefutável. A validação máxima da sua existência, finalmente entregue ali, no silêncio inquebrável daquele escritório. O peito de Lorena inflou com um triunfo avassalador, os olhos verdes brilhando de orgulho. Ela havia vencido. A vida inteira de abusos emocionais finalmente estava sendo paga.
– Eu não vou te decepcionar, pai – ela prometeu, a voz falhando minimamente pela emoção contida. – Eu vou fazer o conselho andar na linha. Eu vou blindar o Grupo e–
– Cale a boca.
A voz do pai chicoteou o ar, cortando o ego de Lorena. O brilho nos olhos de Santiago não era de orgulho paterno, mas da mais sádica demonstração de controle. O sorriso de vitória da advogada morreu antes mesmo de alcançar os lábios.
– Você acha que eu estou entregando a cadeira por amor filial? – Santiago soltou uma risada seca, o som raspando na garganta doente. – O mercado não dá a mínima para o afeto, Lorena. Eu te escolhi porque você é o meu cão de guarda mais feroz. Você morde quem tenta entrar e estraçalha quem ameaça o meu quintal. Mas não seja estúpida a ponto de confundir sucessão com independência.
Ele se inclinou sobre a mesa de mogno, a sombra do patriarca engolindo a filha.
– Eu posso até te colocar naquela cadeira, mas a coleira continua firmemente na minha mão. Você vai limpar o seu rastro de putarias baratas nos hotéis da cidade, vai sorrir para os acionistas que você despreza e vai governar sob a minha sombra até o minuto em que o meu coração parar de bater. Fui claro?
O insulto rasgou seu ego, mas a ambição foi o anestésico perfeito. Lorena engoliu a humilhação. Ela abaixou a cabeça, escondendo o brilho predatório que tomou conta de seus olhos verdes. O velho estava morrendo, afinal. A advogada calculou que só precisava fingir submissão por mais alguns meses até que a coroa pesasse de vez em sua própria cabeça.
– Sim, pai. Perfeitamente claro.
Quando Lorena saiu daquele escritório, marchando pelos corredores de vidro, ela se sentia a dona do mundo. O trono estava garantido. Pelas três semanas seguintes, a herdeira vestiu a arrogância como uma armadura de chumbo, triturando Leandro e Léo com a certeza divina de que era a escolhida. O ego a cegou de forma absoluta.
Para a mente mais brilhante e cínica da família Ferette, a possibilidade de estar sendo usada sequer passou pela cabeça. Ela não percebeu que a promessa no escritório era apenas um afago sádico do patriarca para mantê-la trabalhando como uma escrava no departamento jurídico, apaziguando os incêndios dos irmãos.
A verdadeira facada – o golpe que estilhaçaria a sua sanidade e a jogaria na mesma vala de mediocridade de Leandro e Léo – estava meticulosamente guardada para o tradicional almoço de domingo. O palco perfeito para o velho leão provar que, no fundo, todos os seus filhos não passavam de lixo.
O som da tosse de Santiago Ferette ecoou pela sala de jantar com a sutileza de um trovão. Foi um som gutural, que fez o tilintar dos talheres de prata cessar instantaneamente. O silêncio que se seguiu não era de preocupação, mas de um cálculo frio feito por cada um dos presentes.
O leão estava sangrando, e os abutres em volta da mesa já começavam a medir o tamanho da carcaça.
Leandro foi o primeiro a se inclinar para frente, ajeitando a gravata com uma urgência nervosa.
– O mercado abriu em queda de três por cento na sexta, pai – ele começou, a voz carregada com aquele tom ensaiado de executivo que ele achava que soava autoritário. – Os acionistas estão assustados com suas idas ao Sírio-Libanês. Acho que precisamos de um anúncio de transição sólido. Eu estive desenhando um cronograma com o conselho, focado em na criação de um software multiplataforma para o Grupo...
– Software multiplataforma, Lê? Sério? – Leonardo zombou do outro lado da mesa, esparramado na cadeira como se estivesse no balcão de um bar, girando o gelo em seu copo de uísque. – Você parece um gerador automático de lero-lero corporativo. O papai pode até estar tossindo, mas não tá tão senil assim... Qualquer um sabe que você quer a cadeira dele antes que o pulmão colapse para poder torrar nosso caixa naquelas suas startups de merda.
– Eu sou o único tentando manter as ações da empresa da família fora do lixo, Léo! Olha pra você! Você é um risco de compliance ambulante. O jurídico passa metade do mês abafando as suas festinhas!
Lorena jogou os cabelos castanhos para trás, os olhos verdes fuzilando os dois irmãos com uma mistura de tédio e superioridade. Como chefe do departamento jurídico, ela já usava a arrogância como uma segunda pele. Mas hoje, aquela arrogância tinha um lastro de ouro maciço. As palavras de Santiago, ditas no escuro do escritório semanas antes, ecoavam em sua mente como um mantra divino. Ela estava sentada ali apenas esperando o momento em que o pai cortaria a cabeça dos irmãos e a coroaria publicamente.
– Pelo amor de Deus, vocês me dão enxaqueca – ela cortou com uma voz aveludada e letal – Ninguém no conselho votaria em você, Leandro, porque você tem o carisma de uma porta. E o Léo... bem, o Léo não consegue nem se lembrar de pagar o próprio traficante, quem dirá administrar um conglomerado de mídia. O estatuto é muito claro: cada um de nós tem doze por cento. Se o papai decidir se afastar, eu sou a única com o trânsito político para assumir sem que a Comissão de Valores Mobiliários desmembre o Grupo Ferette na mesma semana.
Ela ergueu o queixo e olhou para a cabeceira da mesa, esperando a confirmação. A validação de uma vida inteira de devoção sádica.
Santiago limpou os lábios com um guardanapo de linho, os olhos escuros brilhando com um sadismo contido. Ele adorava aquilo.
– Vocês três são um bando de inúteis – o patriarca rosnou, a voz áspera varrendo as esperanças dos filhos da mesa
O sorriso contido de Lorena travou. O ar em seus pulmões parecia ter se transformado em gás mostarda. Ela piscou, a mente incapaz de suportar aquela frase. Vocês três.
– Eu dou um espirro e vocês já estão escolhendo a madeira do meu caixão. A Zenilda me deu três idiotas que acham que podem ocupar o meu lugar só porque têm o meu sobrenome. Escutem aqui, se vocês não conseguirem se provar, eu trago um CEO de fora amanhã. Um dinamarquês engravatado qualquer, só para ter o prazer de ver todos vocês implorando pela própria mesada.
A queda foi de mil andares. Lorena sentiu o sangue fugir do rosto, as mãos congelando sobre a toalha de linho. A promessa no escritório. O uísque. Tudo não passava de uma tática de adestramento. Santiago não a via como sucessora. Ele a via como mais uma peça defeituosa na vitrine dos Ferette. Ele a havia inflado apenas para mantê-la brigando, trabalhando como um cão raivoso, enquanto se divertia jogando migalhas para os três.
A humilhação de ser colocada na mesma vala de mediocridade que Leandro e Léo queimou sua garganta com o gosto ácido da bile.
Do outro lado da mesa, alheia ao colapso interno da filha, Zenilda, a ex-esposa, deu um gole lento em seu vinho.
– Não coloque a culpa do seu sêmen defeituoso em mim, Santiago. Eu só cedi o útero.
Arminda Dantas, a atual esposa, soltou uma gargalhada aguda, fazendo suas joias extravagantes baterem umas contra as outras e produzirem um som metálico.
– Ai, Zeni, não seja amarga. E olha, o Santiago não vai a lugar nenhum. Eu encomendei um trabalho fortíssimo e coloquei cristais de quartzo embaixo do colchão dele. Mas… – ela abriu um sorriso enlouquecido para os enteados – se ele bater as botas, saibam que eu queimo esse império até o chão antes de entregar minhas ações para vocês de graça.
Sentada silenciosamente ao lado de Lorena, Eduarda Fragoso apenas observava. Com os cabelos ruivos perfeitamente alinhados e os olhos marrons atentos a cada microexpressão naquela mesa, a Chefe do Departamento de Jornalismo da Tribuna era a imagem da esposa troféu e da nora ideal.
Mas, sob a fachada irretocável, ela registrou o exato momento em que a alma arrogante da esposa se partiu ao meio. Eduarda notou a rigidez nos ombros de Lorena, a palidez súbita, o maxilar trincado em puro ódio reprimido.
Para o público, o casamento de Eduarda e Lorena era o pilar de estabilidade do clã Ferette – e um aceno à modernidade que eles precisavam performar depois dos anos em que o conglomerado de mídia surfou na onda do conservadorismo.
Para Eduarda, no entanto, era um campo minado onde ela desarmava bombas todos os dias.
Minutos depois do aviso de Santiago, o celular de Lorena, pousado ao lado da taça de água, acendeu.
Era uma notificação simples, sem remetente.
Ok, te encontro lá. Suíte 402, Hotel Emiliano, às 15h.
Eduarda viu. Ela sempre via. Lorena tentava disfarçar o próprio esfacelamento agarrando-se à única coisa que ainda lhe dava a ilusão de controle: o poder de subjugar alguém em um quarto de hotel.
Sem desmanchar o sorriso polido, Eduarda esticou a mão e ajustou delicadamente a lapela do blazer de Lorena. Ao se aproximar, sentiu o cheiro leve, quase imperceptível, de um perfume floral e adocicado no pescoço da esposa – um perfume que Eduarda definitivamente não usava. Era a terceira amante diferente neste semestre. O padrão de Lorena era previsível: modelos em ascensão ou advogadas júnior ambiciosas.
Meio patético, Eduarda diria.
Mas Eduarda não confrontava, muito menos chorava. Ela apenas arquivava a informação. Sabia que o casamento era uma transação de poder, mas o descaramento de Lorena estava começando a testar os limites do seu estômago.
– Tudo bem com a agenda de amanhã, meu bem? – Eduarda perguntou, a voz baixa e dócil, servindo mais água para a esposa.
Lorena piscou, engolindo a fúria vulcânica que sentia pelo pai. Ela sequer olhou para Eduarda e continuou encarando Santiago, respondendo no automático, a voz embargada pela vontade de matar:
– Tudo certo… Eu tenho uma reunião externa com acionistas à tarde. Coisas do jurídico que preciso resolver.
– Claro que tem – Eduarda sorriu, engolindo o nojo – Pode deixar que eu seguro as pontas na Tribuna. Nenhuma manchete sobre as flutuações das ações ou sobre os... negócios paralelos da família. Pode ir para a sua reunião tranquila.
Lorena deu um tapinha distraído na mão de Eduarda.
– Você é um anjo, Duda. Sempre leal.
Atrás de Eduarda, de pé perto do aparador, Paulinho fingia ler um relatório em seu tablet. O irmão de Eduarda e diretor de Relações Públicas do Grupo suava frio a cada frase dita naquela mesa. Ele trocou um olhar rápido com a irmã. Paulinho sabia das escapadas de Lorena. Era ele quem, secretamente, garantia que os paparazzi não estivessem na porta do Emiliano às três da tarde.
O olhar de Eduarda para o irmão foi duro, um recado silencioso que dizia: Eu estou no controle.
A família estava tão ocupada lutando pela coroa de um rei doente que não percebia que Eduarda segurava as chaves do castelo. Ela sabia os segredos de Lorena, maquiava os escândalos de Léo e enterrava os fracassos de Leandro. A esposa que sorria para as fotos estava, peça por peça, mapeando o tabuleiro inteiro.
No terraço da mansão, longe do campo de batalha da sala de jantar, o silêncio do jardim era quebrado apenas pelo som dos sapatos de Paulinho batendo compulsivamente contra o piso de pedra.
Ele afrouxou o nó da gravata, o rosto vermelho, parecendo a um passo de um colapso nervoso.
– Eu não sou pago o suficiente para isso, Duda. Juro por Deus, a Gerluce já ameaçou trocar as fechaduras de casa se eu tiver que passar mais uma madrugada abafando os escândalos dessa família de psicopatas – Paulinho disparou, passando a mão pelos cabelos – E a sua esposa... Puta merda. No Emiliano de novo, Eduarda? A céu aberto, num domingo à tarde? Eu tive que subornar um fotógrafo da Caras na terça-feira passada para ele apagar as fotos da Lorena com aquela garota do marketing.
Eduarda estava encostada no parapeito de mármore, girando o resto de vinho na taça. O sol da tarde batia em seus cabelos ruivos, mas seus olhos marrons estavam frios, distantes da imagem da esposa devota que havia interpretado há dez minutos.
– Quanto custou o fotógrafo? – ela perguntou, a voz neutra.
– Quarenta mil do caixa das Relações Públicas. Anotei como despesas de consultoria de imagem.
– Arquive o recibo na minha pasta pessoal.
Paulinho parou de andar e olhou para a irmã, a testa franzida.
– Duda, até quando você vai aceitar ser feita de idiota? Você é a Chefe de Jornalismo da Tribuna, pelo amor de Deus. Você tem a chave da máquina de moer carne deles e a Lorena te trata como... como uma assistente de luxo que por acaso divide a cama com ela.
Eduarda finalmente desviou o olhar do horizonte e encarou o irmão. Havia um brilho duro, quase predatório, em sua expressão.
– A Lorena me subestima. Todos eles subestimam – Eduarda sorriu, mas não havia humor ali – Eles olham para mim e veem a garota que casou com o sobrenome Ferette. A esposa compreensiva e o escudo de relações públicas perfeito para garantir a boa imagem da nova geração dos Ferette.
Ela tomou um gole do vinho, saboreando a acidez.
– Por mim, deixe a Lorena foder meia São Paulo no Emiliano, Paulinho. Deixe o Leandro afundar dinheiro em criptomoeda e o Léo cheirar até o último centavo da própria herança. Porque você sabe o que vai acontecer quando o velho bater as botas?
– A Terceira Guerra Mundial no conselho de administração – Paulinho respondeu, cruzando os braços.
– Exatamente. Cada um tem doze por cento. Eles vão se canibalizar. O Leandro vai tentar usar o mercado para esmagar a Lorena, a Lorena vai usar o jurídico para, sei lá, interditar o Léo. E o conselho vai entrar em pânico. Eles vão precisar de uma terceira via. Alguém que conheça a empresa, que tenha o nome da família, mas que não esteja sujo até a alma com o sangue da guerra. Alguém com uma imagem pública irretocável, que mantém a Tribuna dando lucro e silenciando os escândalos nos últimos anos.
Paulinho arregalou os olhos, processando a matemática da irmã.
– Você. Você quer a cadeira de CEO.
– Eu não quero, Paulinho. Eu vou sentar naquela cadeira – Eduarda corrigiu, suavemente – O Santiago não vai durar até o Natal, isso é fato. E aí, quando a poeira baixar, o conselho não vai querer os filhos imprevisíveis. Eles vão querer a executiva leal que segurou as pontas. E a Lorena... – Eduarda fez uma pausa, os lábios se curvando em uma mistura de ressentimento e desejo – Quando a Lorena perceber que não tem os votos do conselho, ela vai ter que vir rastejando até mim. Vai ser isso ou perder tudo para o babaca do Leandro, e eu duvido que ela aguentaria esse golpe no ego.
Paulinho soltou uma risada nervosa, incrédulo e maravilhado.
– Você é mais perigosa que aquele velho decrépito do Santiago.
– Eu sou apenas uma esposa dedicada fazendo o melhor pela família – ela piscou, o tom perfeitamente cínico. – Agora, volte para o seu escritório. Eu quero um dossiê atualizado com os podres do Leo e do Leandro. E, se a Lorena passar das sete horas no hotel hoje, me faça um favorzinho: ligue para a recepção e mande subirem uma garrafa de champanhe em meu nome.
A suíte 402 do Emiliano não cheirava a romance. Cheirava a suor, lençóis de algodão egípcio e à submissão calculada da advogada júnior que, naquele momento, vestia a própria lingerie com uma lentidão desnecessária.
Lorena Ferette estava de pé perto da janela panorâmica, já com a camisa de seda abotoada até a metade, observando o trânsito caótico lá embaixo. Seus olhos verdes refletiam as luzes da cidade, mas seu interior era um poço escuro e insaciável.
O sexo não havia sido sobre prazer físico ou atração genuína – Lorena raramente sentia qualquer uma dessas coisas nos últimos tempos. Era puramente sobre poder.
Ela gostava da sensação de pegar alguém brilhante, ambicioso e, francamente, inferior, e dobrar essa pessoa à sua vontade. Ver a garota gemer e implorar por validação era uma injeção rápida de autoridade na veia. Durante aqueles minutos, Lorena era a dona do mundo, preenchendo o vazio crônico e a impotência que a sombra de Santiago Ferette havia cavado no peito de todos os filhos.
No entanto, quando a euforia enfim evaporava, deixava para trás o mesmo gosto amargo de tédio e insuficiência de sempre.
Em meio aos devaneios da herdeira, uma batida discreta na porta quebrou o silêncio.
Lorena franziu a testa. Ela nunca pedia serviço de quarto em seus "encontros executivos". Caminhou até a porta, espiando pelo olho mágico antes de abrir uma fresta.
Um funcionário do hotel, uniformizado e com a postura rígida, segurava um balde de prata suando frio, de onde despontava o gargalo dourado de uma garrafa de Armand de Brignac.
– Boa tarde, senhora Ferette. Uma entrega para a sua suíte – o rapaz murmurou, os olhos polidamente fixos na parede atrás dela, treinado para não ver nada.
Lorena abriu a porta, confusa, e pegou o balde.
– Eu não pedi isso.
– Foi um pedido externo, senhora. Já está pago.
Quando a porta se fechou com um clique suave, Lorena caminhou até a mesa de centro de vidro. A garota na cama sorriu, maliciosa, tentando recuperar a atenção da chefe.
– Champanhe? Você não disse que estávamos comemorando uma vitória no tribunal, Lorena.
– E não estamos. Fique quieta – Lorena rebateu, a voz ríspida, cortando o ar como um chicote enquanto tirava o pequeno envelope de papel-cartão preso ao balde. O tom fez a advogada júnior encolher os ombros instantaneamente.
Lorena deslizou o dedo pela borda do envelope, puxando o cartão de caligrafia elegante. Havia apenas duas linhas, escritas com uma precisão cirúrgica:
Para que a sua "reunião com os acionistas" não termine com a garganta seca. Beba com moderação, o jurídico precisará de você impecável amanhã cedo.
Com amor, sua Duda.
O ar nos pulmões de Lorena sumiu por um segundo. Ela releu o cartão. Uma, duas vezes. A caligrafia era inconfundível.
Eduarda.
A sua Eduarda. A esposa ruiva de olhos marrons e sorriso polido, que ajeitava seu blazer e servia sua água nos almoços de família enquanto engolia as patadas dos Ferette. Eduarda sabia. Mais do que isso: Eduarda sabia onde ela estava, com quem estava, e teve a audácia e o sangue frio de cronometrar a entrega de um champanhe de quinze mil reais para o exato momento em que o encontro estaria terminando.
Lorena olhou para a garrafa. Aquilo não era um presente passivo-agressivo de uma esposa traída e magoada. Aquilo era uma demonstração de força. Era a chefe de jornalismo da Tribuna invadindo o espaço onde Lorena se sentia mais poderosa para dizer, em alto e bom som: Você acha que está no controle, mas eu estou assistindo a cada passo seu.
– Tudo bem? Aconteceu alguma coisa? – a amante perguntou, notando a mudança brusca na postura da chefe, o maxilar de Lorena travado de forma perigosa.
– Coloque sua roupa e vá embora – Lorena ordenou, a voz baixa, letal, sem sequer olhar para trás.
– O quê? Mas a gente ia jantar...
– Agora. – O tom de Lorena não admitia réplicas. O brinquedo havia perdido a graça, e aquela garota era apenas um peão irrelevante num tabuleiro que acabava de se expandir violentamente.
Sozinha na suíte, ouvindo apenas o baque da porta se fechando apressadamente, Lorena serviu uma taça do champanhe. Ela caminhou de volta até a janela. O vazio em seu peito havia sumido, substituído por uma adrenalina vulcânica.
Um sorriso lento começou a rasgar seus lábios.
Ela sempre achou que Eduarda fosse um porto seguro, um peso morto conveniente e cego que a ajudava a manter a fachada de estabilidade da família. Mas a ousadia daquele cartão... a frieza de marcar território no meio da sujeira dela…
Um arrepio subiu pela espinha de Lorena, uma mistura inebriante de irritação profunda, choque e, para sua própria surpresa, uma onda quente e esmagadora de tesão com a constatação de que, de alguma forma, o jogo havia mudado.
Lorena virou a taça de uma vez, sentindo o álcool gelar a garganta. Ela mal podia esperar para chegar em casa.
O silêncio no apartamento do casal era denso, quebrado apenas pelo som suave de jazz vindo das caixas de som.
Quando Lorena abriu a porta, a adrenalina ainda pulsava em suas veias em uma sensação quente e perigosa.
Ela caminhou até a cozinha em passos duros, os saltos batendo contra o piso de mármore. Eduarda estava sentada na ilha central, vestindo um roupão de seda verde esmeralda que contrastava de forma quase obscena com a cascata de cabelos ruivos.
Ela lia um relatório no tablet com uma taça de vinho tinto esquecida pela metade ao seu lado, refletindo a imagem da mais pura domesticidade.
Lorena não disse uma palavra. Apenas tirou a garrafa vazia de Armand de Brignac da bolsa e a bateu com violência sobre a bancada.
Eduarda levantou os olhos marrons lentamente.
Não houve susto ou qualquer sinal de espanto, mas tão somente um curvar quase imperceptível dos lábios em um pequeno sorriso.
Por dentro, a mente de Eduarda trabalhava a mil por hora. Ela olhava para a esposa fervendo de raiva e não via amor: via uma escada.
Deixe que ela ache que é a rainha, Eduarda pensou, o cinismo gelado correndo nas veias. Eu vou limpar o caminho, deixá-la esmagar os irmãos e, quando ela estiver sentada na cadeira de Santiago, cega pela própria arrogância, eu puxo o tapete e sento no lugar que ela pensa ser dela.
Mas, por fora, Eduarda era a esposa leal.
– Bebendo rápido assim, meu amor? – a voz de Eduarda saiu mansa, aveludada. – Achei que a sua reunião fosse durar mais. O sexo foi tão ruim que você precisou secar a garrafa no táxi de volta para casa?
Lorena deu a volta na ilha, o olhar fuzilando a esposa. Ela parou exatamente na frente de Eduarda, invadindo seu espaço, o peito subindo e descendo rápido. O cheiro do sabonete do hotel ainda estava na pele de Lorena, misturado ao suor e ao seu perfume caro.
– Quinze mil reais na porra de um champanhe e um bilhetinho escrito à mão para ser entregue pelo funcionário do hotel, Eduarda? – Lorena rosnou, apoiando as mãos na bancada, prendendo a esposa entre os próprios braços. – Você mandou aquilo pro meu quarto pra quê? Pra marcar território? Isso é ciúmes, Duda? A esposa perfeita finalmente cansou de fingir que não liga?
Eduarda soltou uma risada baixa, desdenhosa. Ela bloqueou a tela do tablet e cruzou as pernas sob a seda esmeralda.
– Ciúmes? – a ruiva repetiu, pegando a taça de vinho e dando um gole lento – De uma advogadinha júnior com um salário de quatro dígitos e um perfume floral enjoativo? Assim você me ofende, Lorena. O meu gosto é muito mais refinado que isso.
A calma inabalável da jornalista era como gasolina no fogo da advogada.
– Então qual é o seu problema? – Lorena disparou. A voz não se elevou, mas desceu para um tom frio e cortante.
Ela deu mais um passo, invadindo o espaço pessoal de Eduarda. Lorena apoiou as duas mãos na beirada da ilha de mármore, encurralando a ruiva entre os próprios braços.
– Nós temos um contrato, Eduarda. Não esgote a minha paciência tentando reescrever as cláusulas agora – Lorena inclinou o rosto, o olhar fuzilando a apatia da esposa – Você sabia exatamente o tipo de esgoto em que estava entrando quando quis entrar para essa família. Eu precisava de uma aliança no dedo pra calar a boca do Santiago. Precisava da porra de uma esposa de vitrine, perfeitinha e articulada, pra convencer o conselho de que eu sou uma herdeira estável, e não uma sociopata impulsiva.
Lorena soltou uma risada seca, desdenhosa. Ela ergueu a mão, roçando a ponta da unha pelo tecido caro do roupão de seda esmeralda de Eduarda.
– E você... você não era nada além de uma repórter ambiciosa que queria pular etapas. Você queria o peso do sobrenome Ferette nas suas costas. Queria a sala da diretoria da Tribuna pra poder brincar de dona da verdade e decidir quem vive e quem morre na mídia desse país. O nosso casamento foi uma fusão de ativos, Duda, e foi um negócio absurdamente rentável para nós duas. Eu te dei poder, e você me deu uma boa reputação, mas eu nunca te prometi exclusividade na cama, e você nunca foi burra a ponto de exigir isso.
– E eu continuo não te pedindo fidelidade, meu amor – Eduarda respondeu, a voz perfeitamente modulada, letal. Ela ergueu o queixo, sustentando o olhar predador da herdeira sem recuar um milímetro. – Eu estou apenas protegendo o investimento que fiz nesse casamento de merda.
Lorena franziu a testa, o maxilar travado
– O quê?
– O seu pai está tossindo sangue, Lorena. O conselho de administração está avaliando cada passo nosso com uma lupa, e você gasta o seu capital político comendo subordinadas num hotel no meio da tarde – Eduarda sussurrou, encurralando a advogada com a pura força de sua presença. – Você já pensou se o Leandro pega uma foto sua saindo de lá com a blusa desabotoada? Ele te tritura na mesma hora, Lorena. Então, goste você ou não, eu sou a única coisa mantendo a sua reputação limpa e o seu nome na disputa por aquela cadeira.
A audácia atingiu Lorena como um soco – e mandou uma onda de fogo direto para o centro de suas pernas. Ela estava acostumada a ver as pessoas implorarem, a dobrar qualquer um com um grito. Mas Eduarda a encarava de volta, inabalável, exalando uma dominância silenciosa que a enlouquecia.
Lorena levou a mão ao pescoço de Eduarda, os dedos longos apertando a garganta pálida com força suficiente para obrigá-la a inclinar a cabeça para trás, o polegar roçando a pulsação acelerada da ruiva.
– Você está me vigiando, então, é isso? – Lorena sussurrou contra os lábios dela, a mistura de ódio e tesão vazando em cada sílaba.
Eduarda sorriu por baixo do aperto. Ela levou as mãos até a cintura de Lorena, os dedos agarrando o cós da calça de alfaiataria com possessividade violenta, puxando a esposa com força contra o próprio quadril.
– Já disse, eu estou só protegendo meu investimento – Eduarda murmurou, a respiração batendo contra a boca de Lorena. – Eu quero que você ganhe essa guerra, Lorena. Quero ver você foder a vida do Leandro e pisar no pescoço do Léo. Quero você sentada no trono do Santiago, sendo a dona de tudo.
Para que eu possa tomar tudo isso de você depois, a mente de Eduarda completou no escuro de seus próprios pensamentos.
– Mas, para chegar lá, você precisa de mim. Precisa da Tribuna para continuar cavando as covas onde eu escondo a merda da sua família. Porque no dia em que eu decidir parar de limpar o sangue que vocês deixam pelo tapete... no segundo em que eu abrir as gavetas da minha mesa e soltar a coleira dos meus jornalistas, Lorena, o Ministério Público derruba as portas daquele prédio e o império dos Ferette vira pó antes da hora do almoço.
Lorena estremece, a arrogância cedendo espaço a um desejo cru e animal. Ela desce a mão da garganta para o peito de Eduarda, agarrando o seio por cima da seda, apertando com brutalidade, ouvindo o suspiro ofegante que escapou da boca da esposa.
– Você é uma cínica filha da puta – Lorena sussurra.
– E você tá molhada só de ouvir que eu sei exatamente quem você é – Eduarda retrucou, brutalmente honesta, a mão descendo sem cerimônia para agarrar Lorena por entre as pernas, apertando o tecido da calça com firmeza. – Você adora isso, não adora? Saber que eu conheço o lixo que você é, e ainda assim faço o mundo te aplaudir como uma deusa.
Lorena soltou um gemido rouco e a beijou. Foi um choque violento, com línguas brigando e o gosto de vinho tinto e luxúria desesperada.
Eduarda correspondeu com a mesma fúria, as unhas cravando nas costas de Lorena, enquanto sua mente, por trás do desejo, continuava a desenhar, peça por peça, o fim do império Ferette.
O beijo era uma guerra suja, mas Eduarda estava cansada de jogar na defensiva. Com um solavanco firme, ela inverteu as posições e Lorena tropeçou para trás, as costas batendo contra a borda gelada da ilha de mármore branco.
A advogada arfou, o susto cortando sua respiração.
Antes que Lorena pudesse reagir ou disparar algum xingamento, Eduarda agarrou as lapelas da camisa de seda da esposa e puxou com violência. Dois botões voaram pelo piso da cozinha, o tecido abrindo caminho para revelar o sutiã de renda preta e a pele clara, arrepiada pela mudança brusca de temperatura.
Eduarda não hesitou. Suas mãos escorregaram pelo abdômen tenso de Lorena, subindo sem pressa até os seios. Ela apertou a carne quente por cima da renda com uma possessividade que arrancou um suspiro trêmulo da herdeira. O polegar de Eduarda encontrou o mamilo de Lorena, já rígido pelo prazer, e o esfregou sem piedade por baixo do tecido, arrancando um gemido agudo que ecoou pelo teto alto do apartamento.
– Tão arrogante no andar executivo... – Eduarda murmurou, a voz rouca vibrando contra o maxilar de Lorena, roçando os lábios ali antes de descer para o pescoço dela. A boca da ruiva encontrou a pele sensível na curvatura do ombro, chupando com força, cravando os dentes com ferocidade suficiente para deixar uma marca roxa inegável. Ela queria que a advogada júnior, ou quem quer que Lorena comesse no dia seguinte, visse muito bem a quem ela pertencia – E tão submissa aqui dentro.
Lorena fechou os olhos, a cabeça tombando para trás no mármore. A humilhação de ouvir aquilo brigava com um tesão quase irracional. Ela, que passava o dia pisando nos irmãos e humilhando subordinados, estava ali, ofegante, derretendo sob o toque áspero da mulher que o mundo achava ser apenas o seu adorno.
Eduarda soltou o seio de Lorena e desceu a mão até o cós da calça de alfaiataria. O zíper foi aberto com um som metálico e rasgado. Sem a menor cerimônia, a jornalista enfiou a mão por dentro da calcinha de seda úmida, os dedos longos encontrando o centro de Lorena completamente encharcado.
– Porra, Eduarda... – Lorena praguejou, a voz falhando, o quadril instintivamente se erguendo contra a mão da ruiva, buscando o atrito.
– Pingando pra mim, Lorena. Olha pra você – Eduarda constatou, o tom letal, os dedos brincando na entrada dela sem penetrar, apenas espalhando a umidade sobre o clitóris sensível. – Passou a tarde comendo uma coitada para tentar se sentir no controle, mas é aqui, na minha mão, que você se desmancha. É pra mim que você implora.
Lorena rosnou, o ego ferido fazendo-a abrir os olhos verdes. Ela agarrou as golas do roupão de seda esmeralda de Eduarda, tentando puxá-la, tentando inverter o jogo. Mas Eduarda cravou as unhas na parte interna da coxa de Lorena, uma pressão dolorosa e imobilizadora.
– Fica quieta. Eu não te dei permissão para me tocar – Eduarda sussurrou, os olhos marrons queimando com uma autoridade que calou a advogada instantaneamente.
No segundo seguinte, Eduarda deslizou dois dedos para dentro de Lorena de uma só vez.
O grito de Lorena foi abafado pelos próprios dentes mordendo o lábio inferior. Eduarda a preenchia com a violência exata. Os movimentos eram fundos, implacáveis e impiedosos, batendo repetidamente no ponto que fazia a mente da herdeira entrar em curto-circuito.
– Fala o que você quer. Pede pra mim, vai – Eduarda provocava, enquanto a mão livre subia novamente para apertar o seio esquerdo de Lorena, puxando o bico com malícia, apertando-o entre o polegar e o indicador.
– Me fode, caralho... – Lorena implorou, o verniz intocável completamente despedaçado, os dedos agarrando desesperadamente a borda de mármore. Suas pernas tremiam, abrindo-se ainda mais, oferecendo um acesso irrestrito. – Mais rápido, Duda... me faz gozar, por favor...
O sorriso de Eduarda era afiado. Ela acelerou o ritmo, dobrando os dedos dentro da esposa. O som molhado e obsceno do atrito se misturava aos gemidos roucos de Lorena. Cada estocada era um golpe de poder, um lembrete físico e viciante de quem realmente ditava as regras daquele casamento.
O clímax atingiu Lorena como um carro em alta velocidade. Ela gozou com um grito áspero, o corpo inteiro arqueando para cima e convulsionando violentamente ao redor dos dedos de Eduarda.
A ruiva, no entanto, não parou – ela manteve a pressão rígida sobre o clitóris pulsante durante todo o orgasmo, sugando até a última gota de energia e resistência da esposa, garantindo que Lorena ficasse com os olhos revirados, trêmula e completamente à sua mercê.
Quando os espasmos finalmente cessaram, Lorena estava arruinada. O suor colava seus cabelos castanhos no rosto ruborizado, a respiração saindo em sopros pesados.
Eduarda retirou os dedos lentamente. Com uma calma aterradora, ela pegou um guardanapo de linho sobre a ilha, limpou a mão e ajeitou a lapela do próprio roupão. Nenhuma gota de suor manchava seu rosto. A compostura perfeita estava de volta.
– Durma bem, meu amor – Eduarda disse, com o mesmo tom doce e subserviente que usava na frente de Santiago e do resto da família Ferette.
Ela deu as costas para Lorena, deixando a advogada esparramada e embriagada de poder sobre a bancada gelada, e caminhou em direção ao quarto principal.
O sol da manhã invadia a sala de jantar do apartamento, refletindo na prataria intocada sobre a mesa de vidro.
Eduarda tomava seu café preto, o tablet em uma mão, repassando as manchetes da Tribuna com a frieza de um general inspecionando suas tropas antes da batalha. O roupão de seda esmeralda havia sido trocado por um terninho impecável, feito sob medida, com os cabelos ruivos perfeitamente alinhados.
A imagem da esposa perfeita, pronta para o abate.
Passos secos e decididos ecoaram pelo corredor, e Lorena apareceu vestindo uma saia lápis preta que abraçava seus quadris e uma camisa de seda branca, mas a gola estava propositalmente desabotoada um botão além do aceitável para o conservador andar executivo do Grupo Ferette.
Lorena parou em frente ao espelho do hall antes de se sentar.
Seus olhos verdes brilharam com uma faísca de loucura contida ao analisar a mancha roxa que adornava a base do seu pescoço. A marca implacável dos dentes de Eduarda.
O sorriso que rasgou os lábios da advogada era puramente predatório. Ela era louca por aquilo. Adorava saber que, sob aquela máscara de obediência e polidez que enganava até o velho Santiago, a esposa era tão possessiva e suja quanto ela.
– Bom dia, Duda – Lorena ronronou, puxando a cadeira ao lado da esposa. Ela ignorou a própria xícara, pegou a de Eduarda e deu um gole, os olhos fixos na ruiva – Gostei do acessório que você me deu ontem à noite. Acha que o Leandro vai notar na reunião do conselho? Ou talvez aquela outra advogada júnior do jurídico, a ruiva... ela costuma prestar bastante atenção no meu pescoço.
Eduarda não tirou os olhos do tablet. Sua expressão permaneceu impassível.
– Passe um pouco de corretivo, Lore. O Paulinho já não dormiu nada abafando as fotos do seu hotelzinho ontem, não precisamos dar mais trabalho para o chefe de Relações Públicas logo de manhã.
A indiferença calculada de Eduarda era um gatilho. Lorena odiava ser ignorada, e amava testar os limites do autocontrole da ruiva até vê-lo estilhaçar.
A advogada cruzou as pernas e deslizou a mão por baixo da mesa. Seus dedos subiram pelo joelho de Eduarda, arranhando o tecido fino da calça até apertar com força a parte interna da coxa da jornalista.
– Vai me deixar sair assim, Duda? – Lorena sussurrou, a voz carregada de veneno e luxúria, inclinando-se até que seus lábios quase roçassem a orelha de Eduarda. – Marcada como uma cadela na sua coleira? E se eu resolver mostrar pra diretoria inteira de quem eu sou? Ou melhor... e se eu disser que foi aquela estagiária loira que deixou isso aqui? Ela tem uma boca muito talentosa, sabe...
O dedo de Eduarda parou sobre a tela do tablet. A respiração da ruiva travou por uma fração de segundo. O maxilar travou.
Lorena sorriu vitoriosa. Ela se levantou, ajeitou a saia com uma lentidão provocativa e pegou sua bolsa sobre a cadeira.
– Bom, foi o que eu pensei.. Vejo você na empresa, meu amor.
Ela caminhou até a porta, mas, antes que pudesse girar a maçaneta, o estrondo da cadeira de Eduarda sendo arrastada violentamente contra o piso ecoou pela sala.
Em um piscar de olhos, uma mão agarrou os cabelos castanhos de Lorena pela nuca, puxando sua cabeça para trás com ferocidade, enquanto a outra mão a empurrou com brutalidade contra a madeira da porta. O impacto tirou o ar dos pulmões da advogada.
– Você é insuportável, Lorena – Eduarda sussurrou, respirando a centímetros do seu rosto. Ela prensou o corpo contra o da esposa, o joelho avançando de forma agressiva entre as pernas de Lorena, forçando a saia a subir pelas coxas.
– E você quebra tão fácil quando eu falo de outras – Lorena arfou, um sorriso maníaco nos lábios enquanto agarrava a cintura de Eduarda com força. – Admite, Eduarda. Você é obcecada por mim. Fica louca só de imaginar outra mulher me fodendo.
– Eu quero que você cale a porra da boca – Eduarda rosnou, capturando os lábios de Lorena em um beijo predatório e violento.
Eduarda não perdeu tempo. Com uma urgência punitiva, ela enfiou a mão por baixo da saia preta de Lorena e, ao encontrar a calcinha, a ruiva não a afastou – ela optou por puxar o tecido fino com força até ouvir o som de um rasgo seco. Lorena gemeu alto contra a boca da esposa, o corpo inteiro se acendendo.
– Você tá arruinando a minha roupa, caralho... – Lorena ofegou, mas suas pernas já se abriam contra o joelho de Eduarda, a umidade escorrendo pelas coxas, traindo sua falsa indignação.
– Eu compro outra com o seu cartão corporativo – Eduarda retrucou.
Sem qualquer preliminar, ela cravou dois dedos inteiros na intimidade encharcada de Lorena. A herdeira soltou um grito estrangulado, as unhas cravando desesperadamente nos ombros do paletó de Eduarda.
O ritmo foi frenético, cruel e desesperado. Contra a porta da frente, a poucos metros do hall do elevador onde qualquer vizinho poderia passar. Eduarda a fodia com uma raiva possessiva, o polegar esmagando o clitóris de Lorena enquanto os dedos entravam e saíam com força bruta, batendo exatamente no fundo, no ponto exato onde a advogada perdia toda a sua razão.
– Diz que é minha – Eduarda ordenou, a respiração fervendo contra o pescoço marcado de Lorena. Ela mordeu o lóbulo da orelha da esposa, puxando com força, marcando-a de novo. – Diz pra quem você volta, Lorena. De quem você é? Fala, porra!
– Sua... eu sou sua, Eduarda... caralho! – Lorena gaguejou, o rosto vermelho, a cabeça batendo ritmicamente contra a madeira da porta a cada estocada violenta. O orgulho inabalável dos Ferette estava reduzido a cinzas pela necessidade absurda que tinha daquela mulher. A submissão a inebriava de um jeito doentio. – Me faz gozar... ah, porra... me fode, Duda!
Eduarda dobrou a velocidade, a mão trabalhando em um atrito implacável. Lorena não durou muito. Esmagada pela intensidade e pela adrenalina do perigo, o orgasmo a rasgou ao meio. Ela choramingou alto, um som vulnerável e sujo, o corpo tremendo em espasmos violentos contra a porta enquanto ela gozava descontroladamente ao redor dos dedos da jornalista.
Eduarda sustentou o peso do corpo trêmulo da esposa com o próprio corpo. Lentamente, ela retirou os dedos escorregadios e, com um cinismo que beirava a psicopatia, Eduarda limpou os dedos molhados na barra da camisa de seda branca de Lorena, deixando uma marca sutil, mas inegável, escondida apenas pelo paletó que a advogada vestiria por cima.
Eduarda recuou um passo. Alisou a própria blusa, arrumou uma mecha ruiva que havia saído do lugar e pegou sua bolsa sobre o aparador. O sorriso polido e irretocável estava de volta ao seu rosto.
– Tenha uma excelente reunião de conselho, meu amor – Eduarda disse, a voz impecável, girando a maçaneta e abrindo a porta. – E mande lembranças ao seu pai.
Lorena ficou encostada na madeira, as pernas bambas, a respiração errática, a calcinha rasgada e o coração batendo na garganta. Ela estava arruinada. E nunca, em toda a sua vida, esteve tão disposta a entregar o mundo nas mãos de alguém.
O ar-condicionado na sala da diretoria de jornalismo da Tribuna mantinha a temperatura em exatos dezoito graus, mas Paulinho suava como se estivesse no meio do deserto.
O som caótico da redação lá fora – telefones tocando, teclados estalando, produtores gritando – morria completamente ao cruzar a pesada porta de vidro duplo do escritório de Eduarda. Ali dentro, o silêncio era cirúrgico. E mortal.
Paulinho jogou um tablet sobre a mesa de vidro de Eduarda, o peito subindo e descendo rápido por baixo do terno bem cortado.
– Me diz que a diagramação do caderno de Economia cometeu um erro, Duda. Por favor, me diz que um estagiário apertou o botão errado – Paulinho suplicou, passando a mão pelos cabelos com desespero. – Porque se isso for pro ar na edição digital do meio-dia, eu não vou ter Rivotril suficiente pra lidar com a ligação do Leandro.
Eduarda não piscou. Sentada em sua cadeira ergonômica de couro, ela usava seus óculos de leitura de armação fina, os olhos marrons varrendo a tela de seu próprio monitor com a tranquilidade de quem escolhe o sabor do chá da tarde.
– Não houve erro nenhum, Paulinho – ela respondeu, a voz mansa, deslizando o dedo pelo mouse. – A matéria está impecável. A apuração da nossa repórter sênior de finanças foi brilhante, não acha?
Paulinho se inclinou sobre a mesa, apoiando as duas mãos no vidro, os olhos arregalados.
– ‘A Arrogância do Vale do Silício Brasileiro: Como executivos tradicionais da mídia estão torrando fortunas em esquemas de criptomoedas falidos’ – Paulinho leu a manchete em voz alta, como se as palavras queimassem sua língua. Ele rolou a tela do tablet freneticamente. – Duda, você colocou aqui que "o herdeiro de um dos maiores conglomerados de comunicação do país" injetou trinta milhões de reais num fundo de investimento fantasma que está sendo investigado pela Polícia Federal. Você não citou o nome do Leandro, mas caralho... qualquer um sabe que só tem um imbecil com essas características capaz de se enfiar numa furada dessas! A Faria Lima inteira vai saber de quem você tá falando antes do final da tarde!
Eduarda tirou os óculos e recostou-se na cadeira, cruzando as pernas sob a mesa. Um sorriso gélido desenhou-se em seus lábios.
– Esse é exatamente o ponto, meu querido irmão. O mercado não precisa do nome na manchete. O mercado só precisa do cheiro de sangue na água.
– A Tribuna existe pra blindar essa família de psicopatas, Eduarda! – Paulinho sussurrou, aterrorizado, apontando para a porta. – Meu trabalho nas Relações Públicas é abafar as merdas que eles fazem. O velho caduco do Santiago vai arrancar a minha pele e usar como tapete se achar que nós deixamos vazar os podres do primogênito dele.
– O Santiago está cuspindo o próprio pulmão, Paulinho, eu garanto que ele não vai fazer nada – Eduarda cortou, a voz baixando para um tom mais autoritário. Ela se inclinou para frente, entrelaçando os dedos sobre a mesa. – Há anos nós engolimos os escândalos dessa família. Nós limpamos a barra do Léo quando ele cheirou meia Colômbia no iate, nós seguramos as ações quando o Leandro fez aquela fusão desastrosa em 2024. Mas o jogo mudou. A sucessão não é mais uma hipótese, é uma contagem regressiva.
Paulinho engoliu em seco, recuando um passo. Ele conhecia aquela expressão. Eduarda estava montando o tabuleiro.
– Você tá queimando o seu cunhado de propósito – ele murmurou, a compreensão finalmente afundando. – Você quer foder o Leandro antes da reunião do conselho de amanhã.
– O Leandro é um idiota arrogante que acha que vai sentar na cadeira do pai só porque tem um pênis e usa jargões em inglês – Eduarda disse, com um nojo frio. – Se o conselho achar que ele é um gênio das finanças, a Lorena perde força. Mas se o conselho receber, discretamente, com o café da manhã, uma reportagem da própria Tribuna insinuando que ele é um garotinho deslumbrado que cai em golpes de pirâmide... a credibilidade dele vira pó.
– A Lorena pediu pra você fazer isso? – Paulinho perguntou, estreitando os olhos.
Eduarda soltou uma risadinha anasalada, um som sombrio e arrogante.
– A Lorena acha que eu sou o anjo da guarda pessoal dela, um chaveirinho ruivo que ela usa antes de ir pro trabalho. Ela acha que vai vencer essa guerra com gritinhos no jurídico e ameaças veladas. Ela é brilhante, mas é impulsiva, e o ego dela a deixa cega. – Eduarda levantou-se, caminhando lentamente até a janela de vidro que dava para a redação, observando seus jornalistas trabalharem. – Ela não faz ideia de que eu encomendei essa matéria há três semanas. Ela vai achar que foi sorte, ou que eu fiz isso para ajudá-la. Vai entrar naquela sala de reuniões amanhã exalando prepotência, achando que o universo conspirou a favor dela.
Paulinho cruzou os braços, sentindo um calafrio na espinha. A irmã era a pessoa mais perigosa daquele prédio, e os Ferette estavam ocupados demais esfaqueando uns aos outros pelas costas para olhar para a frente.
– E quando o Leandro ligar gritando? – ele perguntou.
– Você vai atender com a sua melhor voz de pânico – Eduarda instruiu, virando-se para ele com uma expressão impecável. – Vai dizer que foi um vazamento interno que você não conseguiu segurar a tempo. Vai culpar um estagiário rebelde, prometer uma investigação interna rigorosa e dizer que o departamento jurídico já está redigindo uma liminar para tirar a matéria do ar. Faça o seu teatro, Paulinho. Mostre lealdade. Deixe o Leandro achar que a imprensa é incontrolável e que ele é apenas uma vítima infeliz.
– Você é uma filha da puta genial, sabia? – Paulinho balançou a cabeça, pegando o tablet de volta, o desespero sendo substituído por uma admiração nervosa.
– Eu sou apenas a diretora de jornalismo mantendo o compromisso da Tribuna com a verdade – Eduarda sorriu de forma cínica, voltando a sentar-se. – Libere a matéria, Paulinho. Vamos ver como o príncipe herdeiro sangra. E marque um jantar para mim e para a Lorena esta noite no restaurante mais caro que encontrar. Ela vai precisar comemorar a "coincidência" que tirou o irmão do caminho.
O escritório de Leandro Ferette, no quadragésimo andar do edifício-sede de vidro e aço do Grupo Ferette, tinha a vista mais cara de São Paulo. Mas, naquele momento, Leandro não via nada além da tela do seu iPad.
O silêncio do ambiente climatizado foi rasgado pelo som de um copo de cristal voando pela sala e estilhaçando violentamente contra a parede de vidro fosco.
– FILHOS DA PUTA! – Leandro rugiu, a voz embargada de pânico e ódio, o rosto vermelho contorcido em uma máscara de desespero.
Ele andava de um lado para o outro, as mãos puxando os cabelos engomados para trás, destruindo o próprio penteado. O colete do terno parecia de repente apertado demais, sufocando-o.
Na tela do iPad, esquecido sobre a mesa, a manchete da edição digital da Tribuna brilhava como uma sentença de morte: A Arrogância do Vale do Silício Brasileiro.
Eles não tinham usado seu nome. Mas trinta milhões, herdeiro de um conglomerado de comunicação,. Quem caralhos no mercado financeiro da Faria Lima não saberia decifrar aquele código? A página da Bloomberg em sua mesa secundária já piscava em vermelho: as ações do Grupo Ferette haviam despencado mais 1,8% nos últimos vinte minutos. O mercado estava farejando o sangue.
Leandro avançou sobre a mesa e esmurrou o botão do interfone com força suficiente para quase quebrar o acrílico.
– Cadê o Relações Públicas?! – ele gritou para a secretária do outro lado da linha. – Me passa a porra da ligação pro Paulinho, agora!
Dois segundos depois, a linha piscou e Leandro arrancou o telefone do gancho antes mesmo do primeiro toque terminar.
– Paulinho, que caralho de incompetência é essa no seu departamento?! – Leandro disparou, cuspindo as palavras, o verniz de executivo contido indo direto para o esgoto. – O jornal do meu pai. A porra do nosso jornal acabou de publicar uma matéria me chamando de otário de esquema de pirâmide pra Faria Lima inteira ler!
Do outro lado da linha, a atuação de Paulinho foi digna de um Oscar.
– Leandro, pelo amor de Deus, eu tô tentando derrubar o servidor há dez minutos, mas você sabe que a Tribuna tem que parecer um braço independente do Grupo! – a voz de Paulinho soou esganiçada, perfeitamente em pânico, exatamente como Eduarda havia ensaiado. – Foi um vazamento do conselho editorial, não passaram pelo setor de RP! Eu já coloquei o jurídico pra redigir uma liminar contra o nosso próprio portal, mas a matéria já foi replicada no Twitter e no LinkedIn!
– Eu não quero saber, Paulinho! Eu quero a cabeça do editor que aprovou essa merda rolando na minha mesa antes do almoço! – Leandro chutou a lixeira de metal pesado, amassando-a contra a quina da mesa. O ar faltava em seus pulmões. A imagem do rosto de seu pai, Santiago, tossindo sangue e olhando para ele com aquele desprezo gélido, piscou em sua mente. O velho o destruiria. – É um ataque coordenado! O mercado tá vendido, eles querem foder a minha sinergia com os empresários asiáticos! Vocês têm que lançar uma nota oficial dizendo que é fake news, que é... que é difamação de concorrentes! Faz um spin! Muda a narrativa, caralho!
– Lê, se a gente lançar uma nota desmentindo uma matéria que nem cita o seu nome, nós vamos estar assinando o recibo! – Paulinho retrucou, plantando a semente da impotência na cabeça do herdeiro – Se a gente gritar agora, o mercado vai ter certeza de que é você. Nós temos que deixar esfriar. Eu prometo que vou rodar a cabeça de quem publicou isso, mas você precisa agir naturalmente na reunião do conselho amanhã. Se você mostrar desespero, os conselheiros vão sentir o cheiro do medo.
Leandro paralisou, a respiração pesada, o telefone esmagado contra a orelha. A verdade crua o atingiu como um soco no estômago. Ele estava encurralado. Se processasse a Tribuna, assumiria a culpa. Se ficasse calado, sangrava em silêncio até a reunião de sucessão.
– Foi a Lorena... – Leandro sussurrou, a voz trêmula, os olhos arregalados para o vazio da sala. – Aquela vadia arrogante vazou isso pro jornal pra me sabotar antes do conselho. Ela plantou isso.
– Leandro, a Lorena não tem acesso ao editorial de Economia... – Paulinho tentou argumentar, a voz mansa, conduzindo o cordeiro para o matadouro.
– Mas a esposa dela tem! – Leandro berrou, a epifania distorcida explodindo em sua mente. Ele achava que havia desvendado o grande complô, ignorando completamente que Eduarda era a própria arquiteta, e não apenas uma ferramenta de Lorena – A sua irmã controla a Tribuna! Ela publicou isso a mando da minha irmãzinha, é óbvio! A Lorena acha que vai me tirar da jogada usando os tabloides do papai? Eu vou esmagar essa filha da puta. Eu vou foder com o jurídico e fechar aquele jornal de merda!
Ele bateu o telefone no gancho com violência, quebrando o plástico da base.
Com as mãos tremendo, Leandro afrouxou a gravata. A sala estava em silêncio de novo, mas na cabeça dele, o alarme não parava de tocar. Ele precisava de um contra-ataque urgente, precisava de um escândalo maior para jogar em cima de Lorena antes da reunião. Ele não iria perder a cadeira para a irmã e a esposa domesticada dela. Não iria.
A risada de Eduarda soou cristalina e letal do outro lado da linha. Paulinho, trancado em uma cabine no andar do Relações Públicas, teve que afastar o celular do ouvido por um segundo.
– Ele quebrou um copo de cristal na parede? – Eduarda perguntou, a voz transbordando um deleite sádico. Em sua sala na Tribuna, ela girava uma caneta entre os dedos, a imagem da serenidade.
– Voou vidro até na mesa da secretária, Duda. O Leandro tá em colapso total – Paulinho sussurrou, enxugando o suor da testa com um lenço. – E a melhor parte: ele mordeu a isca todinha. Ele tem certeza absoluta de que foi a Lorena quem te mandou vazar a matéria pra sabotar a reunião de amanhã.
O sorriso de Eduarda se alargou, frio e predatório. Era a sinfonia perfeita.
– Brilhante. O Leandro tem o ego tão frágil que não consegue sequer conceber que a esposa tenha cérebro próprio para orquestrar um ataque. Ele precisa colocar a culpa na irmãzinha malvada – Eduarda murmurou, saboreando a vitória – Deixe que ele ache isso, Paulinho. Deixe os dois cães raivosos se matarem amanhã no conselho. Quando a poeira baixar, nós seremos os únicos com as mãos limpas.
– Ele disse que vai revidar. Que vai procurar munição contra o jurídico – Paulinho alertou, a ansiedade voltando a subir.
– Que procure. A Lorena sabe se defender, e eu estarei lá para ser o escudo amoroso e compreensivo dela – o cinismo na voz de Eduarda era quase palpável. – Mantenha o teatro, Paulinho. E mande entregar uma garrafa de whisky na sala do Leandro, com um cartão do R.P. pedindo calma e tranquilidade neste momento. Ele vai odiar.
Do outro lado da cidade, em uma cobertura nos Jardins, o caos reinava em uma frequência completamente diferente.
Leonardo Ferette estava esparramado em um sofá curvo de veludo, vestindo apenas uma calça de moletom cinza de grife e uma camiseta branca amarrotada. Eram duas da tarde. Havia três garrafas de espumante vazias na mesa de centro de mármore, resquícios de um pó branco perto de um cartão de crédito, e duas modelos dormindo na varanda sob o sol da primavera.
Quando Leandro invadiu o apartamento, o rosto vermelho e a gravata frouxa, Léo nem sequer se moveu. Apenas ergueu uma sobrancelha, jogando um punhado de pistaches na boca.
– Olha só, se não é o lobo de Wall Street versão Faria Lima – Léo debochou, a voz arrastada, apontando o dedo do meio para o irmão – Você tá com uma cara péssima, Lê. Parece que alguém enfiou um guarda-chuva no seu rabo e abriu.
– Cala a boca, Léo. Manda essas piranhas embora, nós precisamos conversar – Leandro esbravejou, chutando uma revista de moda do caminho e parando na frente do irmão mais novo. – Você viu a edição digital da Tribuna?
Léo soltou uma risada nasalada, esticando as pernas sobre a mesa.
– Eu não leio a porra da Tribuna, Leandro. Eu leio, no máximo, o feed do meu instagram. Mas um parceiro meu me ligou dando risada da tua burrice. Trinta milhões em cripto fantasma, Lê? Sério? Papai devia ter te ensinado a não brincar com o dinheiro dos adultos.
– Foi a Lorena! – Leandro berrou, a veia do pescoço pulsando. Ele ignorou a humilhação pela falha no investimento; a traição familiar ardia muito mais – Aquela vadia arrogante vazou a porra do relatório pro jornal. Ela usou a mulherzinha dela pra me queimar um dia antes da reunião de sucessão. A Lorena quer me matar na frente do conselho, Léo! Ela quer a cadeira do pai, e acha que pode nos esmagar pra chegar lá.
Léo parou de mastigar. Ele olhou para Leandro, depois para o teto, avaliando a situação com um niilismo doentio.
A verdade é que Leonardo estava pouco se fodendo para a cadeira de CEO. Ele odiava reuniões, odiava planilhas e odiava o cheiro de mofo do conselho de administração. Mas havia uma coisa que ele amava mais do que festas exclusivas: ver Lorena perder o controle.
A irmã sempre agiu como se ele fosse um idiota. Ela revirava aqueles olhos verdes perfeitos para ele desde que tinham dez anos de idade.
– Tá. E o que você quer de mim, seu bosta? – Léo suspirou, pegando um copo sujo e servindo o resto de um uísque quente. – Quer que eu chore com você?
– Eu quero os seus doze por cento – Leandro disse, a voz baixando para um tom de conspiração desesperada. Ele se inclinou sobre Léo, os olhos arregalados. – Eu tenho doze por cento. Você tem doze. Juntos, nós formamos um bloco de vinte e quatro por cento. A Arminda tem os dez dela, e o conselho tem o resto. Mas se nós dois votarmos juntos amanhã e exigirmos uma investigação de compliance sobre o departamento jurídico da Lorena... nós tiramos a legitimidade dela. Nós travamos a ascensão daquela vagabunda.
Léo deu um gole no uísque, fazendo uma careta. Ele observou o desespero patético do irmão mais velho. Leandro exalava a necessidade doentia de agradar ao pai, mesmo com o velho no leito de morte.
– Deixa eu ver se entendi – Léo começou, girando o gelo derretido no copo. – Você faz uma merda colossal com o caixa da empresa. A Lorena joga a sua merda no ventilador. E agora você quer que eu te salve e me alie ao cara que tomou um golpe em um esquema de pirâmide? Por que caralhos eu faria isso? O mercado confia mais no meu traficante do que em você agora, Leandro.
– Porque se a Lorena assumir o Grupo Ferette amanhã, a primeira coisa que ela vai fazer é cortar a sua mesada milionária e te enxotar do conselho! – Leandro cuspiu as palavras, acertando exatamente onde doía. – Ela acha que você é um lixo, Léo. Ela acha que nós dois somos piadas. Vai deixar a nossa irmãzinha e aquela jornalista ruiva de quinta ditarem as regras do jogo?
Um brilho perigoso, infantil e cruel acendeu nos olhos de Léo. Ele não dava a mínima para o mercado ou ações. Mas a ideia de ver a prepotência de Lorena desmoronar, de ver o rosto perfeitamente esculpido dela se contorcer de ódio... ah, aquilo valia qualquer dor de cabeça.
Léo jogou o copo vazio no tapete persa e abriu um sorriso preguiçoso e cheio de dentes.
– Foder a vida da Lorena na frente daquele bando de velhos engravatados amanhã? – Léo riu, ajeitando-se no sofá – Porra, Leandro. Por que não disse antes? Tô dentro. Mas você vai ficar me devendo um jato particular novo nessa brincadeira, o meu tá com um puta cheiro de vômito.
O salão principal do restaurante estava mergulhado naquela penumbra sofisticada que custava milhares de reais por metro quadrado. O som do piano de cauda misturava-se ao tilintar de taças de cristal e ao murmúrio da elite paulistana.
Em uma das mesas mais reservadas, Lorena Ferette girava um vinho envelhecido em sua taça, a imagem da vitória encapsulada em um vestido de seda preta de gola alta – estrategicamente escolhido para esconder a marca roxa e violenta que a esposa havia deixado em seu pescoço naquela manhã.
Do outro lado da mesa, Eduarda cortava um pedaço de robalo com delicadeza pura. Os cabelos ruivos caíam em ondas perfeitas sobre os ombros, e os olhos marrons refletiam a luz das velas, calmos e impenetráveis.
– Leandro não atendeu minhas ligações a tarde inteira – Lorena comentou, um sorriso preguiçoso e cruel desenhando-se em seus lábios. Ela deu um gole no vinho, os olhos verdes brilhando de satisfação – O RP disse que ele cancelou as reuniões e passou o dia trancado na sala, gritando com advogados. Foi um golpe de mestre, Duda. Deixar o mercado financeiro fritar o ego dele em praça pública um dia antes da sucessão... Eu não poderia ter pedido um presente melhor.
Eduarda levou o garfo à boca, mastigou devagar e enxugou os lábios com o guardanapo de linho.
– Eu não fiz isso por você, Lorena. Eu fiz pelo Grupo Ferette – Eduarda respondeu, a voz perfeitamente modulada, a postura impecável. – O jornalismo tem um compromisso com a verdade. E a verdade, meu amor, é que o seu irmão é um passivo financeiro descontrolado. O conselho precisava saber disso.
Lorena soltou uma risada anasalada, inclinando-se sobre a mesa, invadindo o espaço.
– Corta essa merda de discurso corporativo pra cima de mim – a advogada sussurrou, o tom baixando para uma intimidade perigosa. – Nós sabemos muito bem o que você fez. Você abriu o caminho para mim. Aí amanhã, quando o conselho olhar para aquela mesa, eles não vão ver o Leandro. Vão ver um moleque desesperado que caiu num esquema de pirâmide. Eles vão ter que engolir o meu nome, quer o Santiago queira ou não.
Eduarda sustentou o olhar da esposa com frieza, e Lorena percebeu que havia algo ali. Uma faísca diferente. Algo faminto e predatório que não combinava com a esposa troféu que Lorena acreditava ter domesticado.
Sob a mesa, de forma invisível para o resto do restaurante, a ponta do scarpin de Eduarda deslizou pela panturrilha de Lorena, subindo lentamente pela fenda do vestido preto com uma pressão calculada.
– Eles vão olhar para você, Lorena... – Eduarda concordou, a voz aveludada, o pé subindo um pouco mais, arranhando levemente a parte interna da perna da advogada. – Mas vão olhar para mim também. Afinal, eles sabem que uma Ferette sozinha é uma bomba-relógio de arrogância e escândalos. O seu sobrenome pode até trazer sangue, meu amor, mas é o meu rosto que traz a estabilidade que o mercado exige.
A respiração de Lorena falhou por uma fração de segundo.
A advogada apertou a haste da taça de vinho com tanta força que o cristal ameaçou estilhaçar.
Ela olhou para a mulher à sua frente – realmente olhou. A frieza com que ela havia arruinado Leandro pela manhã. A facilidade com que a fodia de forma possessiva e selvagem. Todas as estratégias que já pareciam milimetricamente calculadas. E então, a mente afiada de Lorena finalmente conectou os pontos, e a epifania a atingiu como um soco no estômago.
Eduarda não era um escudo de relações públicas. Eduarda não era uma ferramenta que Lorena empunhava contra os irmãos, nem mesmo uma esposa preocupada com a imagem de Lorena na fila da sucessão.
Eduarda era uma jogadora. E ela tinha fome. A mesma fome inescrupulosa que corria nas veias de Santiago Ferette.
Uma onda de ódio corrosivo subiu pela garganta de Lorena. A paranoia, velha amiga da família, fincou as garras em sua mente. Essa filha da puta quer o meu lugar, Lorena pensou, o sangue fervendo. Ela destruiu o Leandro, e se eu piscar, ela me destrói amanhã também.
O pensamento de ser traída, de sofrer uma rasteira da própria esposa na frente do conselho, a encheu de uma raiva homicida. Mas, simultaneamente, um calor líquido e pesado inundou o centro de suas pernas.
Lorena odiava admitir, mas a audácia da ruiva a excitava de um jeito doentio. A ideia de dormir ao lado de uma víbora tão letal quanto ela mesma era inebriante.
– Você tá se achando grande demais, Eduarda – Lorena sibilou, a voz rouca, o peito subindo e descendo rápido. Ela agarrou o guardanapo de pano sobre o colo, as pernas tremendo sob o toque audacioso do sapato de Eduarda – A Tribuna é um ativo importante do Grupo Ferette, sim, mas você, enquanto Diretora, continua sendo só uma funcionária muito bem paga da minha família. Se você acha mesmo que o conselho entregaria tudo isso pra alguém de fora ou se está armando uma rasteira em mim amanhã… eu sugiro que repense.
Eduarda sorriu. Foi um sorriso doce, gentil, absolutamente aterrorizante. Ela não recuou, nem confirmou, nem negou.
– Eu sou a sua esposa, Lorena. Na alegria e na doença, nos lucros e nas falências – Eduarda murmurou, levantando a própria taça em um brinde silencioso e ambíguo. – O meu único objetivo amanhã é garantir que a pessoa mais inteligente, fria e capacitada sente naquela cadeira. Alguém que não deixe o ego afundar o império. Nós duas sabemos quem é a pessoa certa... não sabemos?
A ambiguidade da resposta foi como uma faca girando na barriga de Lorena. Enquanto ela digeria a fala da esposa, Eduarda pressionou o bico do scarpin com mais firmeza contra sua perna, arrancando um suspiro trêmulo e rasgado que a advogada precisou disfarçar como uma tosse, cobrindo a boca com a mão.
– Você é uma cínica do caralho – Lorena sussurrou, o ódio e a luxúria embolados na garganta. Os olhos verdes queimavam de desafio. – Se você tentar me apunhalar amanhã, Eduarda, eu te arrasto pro inferno comigo. Eu juro que te deixo na rua com a roupa do corpo e nada mais.
– Eu adoro quando você faz essas promessas violentas – Eduarda retrucou, o tom manso, retirando o pé e cruzando as pernas elegantemente sob a mesa, deixando Lorena ofegante e frustrada. A ruiva bebeu um gole do vinho e ajeitou a postura. – Termine o seu jantar, meu amor. O motorista já está nos esperando. Nós temos uma longa noite pela frente no apartamento, e eu prometo que vou arrancar esse seu vestido com os meus próprios dentes para descobrir se você é tão forte quanto diz ser.
O trajeto do restaurante até o apartamento no foi feito em um silêncio espesso, carregado de uma eletricidade quase palpável.
No banco de trás do sedã blindado, as coxas delas se roçavam a cada curva. Lorena olhava para as luzes da cidade pela janela, a mente girando em um misto de paranoia e tesão. A ideia de que Eduarda poderia roubar a cadeira de Santiago amanhã era aterrorizante. E a deixava encharcada.
Quando as portas de metal do elevador privativo se abriram direto no hall do apartamento, a bomba-relógio explodiu.
Lorena não esperou. Com um rosnado gutural, ela avançou, agarrando as lapelas do terninho vinho de Eduarda com violência e empurrando a ruiva com toda a força contra a parede espelhada do corredor.
– Você acha mesmo que vai sentar na da cadeira do meu pai? – Lorena sussurrou calmamente, mas os olhos verdes brilhavam com uma fúria insana. Ela prensou o corpo contra o da esposa, o antebraço subindo para pressionar o peito de Eduarda. – Acha que me manipulou esse tempo todo, Duda? Que eu sou uma idiota que você pode simplesmente descartar amanhã?
Eduarda não piscou. O impacto bagunçou levemente os fios ruivos, mas o sorriso que tomou conta de seus lábios era o próprio diabo disfarçado em pele humana.
– Eu acho que você está perdendo o controle, meu amor – Eduarda arfou.
Antes que Lorena pudesse cuspir outro xingamento, Eduarda agiu. A jornalista agarrou os pulsos da advogada com uma força brutal, torcendo-os para baixo e invertendo as posições em um movimento rápido. Foi a vez de Lorena ter as costas jogadas contra o espelho frio.
O choque da submissão instantânea fez a respiração de Lorena falhar. Eduarda avançou, prendendo as pernas da advogada com o próprio joelho, encurralando-a.
– Você tem tanto medo de perder o poder, Lorena – Eduarda murmurou – Tão paranoica. Achando que todo mundo quer te foder no conselho de administração...
As mãos da ruiva deslizaram pelas laterais do vestido de seda preta de Lorena, subindo até o zíper invisível nas costas. O som rasgado do fecho descendo ecoou pelo hall. Eduarda puxou o tecido com força, despindo os ombros de Lorena e deixando o vestido embolar na cintura. O contraste da pele clara contra a lingerie de renda vermelha fez os olhos de Eduarda escurecerem.
– A única pessoa que vai te foder e te destruir, Lorena... sou eu – Eduarda rosnou.
A boca de Eduarda atacou o pescoço de Lorena, os dentes cravando exatamente em cima da marca roxa que havia deixado naquela manhã, reabrindo a dor e o prazer e fazendo Lorena soltar um grito.
Eduarda desceu a mão esquerda até a calcinha molhada, rasgando a lateral da renda vermelha com um puxão violento. Ela esfregou o clitóris da esposa por cima da seda rasgada, arrancando gemidos roucos, mas, quando Lorena abriu as pernas, implorando por mais, Eduarda parou.
A ruiva recuou um passo, deixando Lorena ofegante, trêmula e vazia contra o espelho.
– Não aqui – Eduarda ordenou, a voz fria cortando a neblina de luxúria da advogada. Ela apontou para o corredor escuro. – Pro quarto. Agora.
O orgulho de Lorena gritou para que ela mandasse Eduarda ir à merda, mas o líquido quente escorrendo por suas coxas falava mais alto. Derrotada pelo próprio prazer, a herdeira dos Ferette cambaleou pelo corredor, o vestido arrastando no chão, até cair de costas sobre os lençóis de algodão egípcio da cama.
Eduarda a seguiu a passos lentos. O terninho vinho continuava impecavelmente abotoado. Ela parou ao lado da cama, olhando para a esposa esparramada, o peito subindo e descendo freneticamente, a prepotência reduzida a um amontoado de necessidade crua.
Com um sorriso sádico, Eduarda subiu na cama, engatinhando até pairar sobre Lorena. Ela agarrou os pulsos da advogada e os prendeu acima da cabeça com uma só mão. Com a outra, Eduarda finalmente mergulhou dois dedos sem aviso na intimidade encharcada de Lorena.
– Porra! – Lorena arqueou as costas, o choque de ser preenchida tão brutalmente arrancando lágrimas de seus olhos.
Eduarda começou a foder a esposa com estocadas pesadas, cruéis e rítmicas. O som molhado do atrito preenchia o quarto. Lorena balançava a cabeça pelo travesseiro, os dentes cravados no lábio inferior, as pernas se abrindo o máximo possível para dar passagem à jornalista.
Mas Eduarda queria mais. Ela queria a ruína total.
No auge do desespero de Lorena, a poucos segundos do orgasmo, Eduarda puxou os dedos de dentro dela. Lorena soltou um gemido de agonia, os olhos verdes se abrindo, desfocados e suplicantes.
Eduarda levou os próprios dedos brilhantes e encharcados com a umidade da esposa até a boca de Lorena.
– Chupa – Eduarda sussurrou, o tom não admitindo recusa. – Sente o seu gosto, Lorena. Prova como você fica na minha mão.
A humilhação explodiu na mente de Lorena, misturada a uma excitação tão doentia que ela não hesitou. A advogada implacável, a herdeira que aterrorizava executivos e esmagava adversários no tribunal, abriu a boca e sugou os dedos de Eduarda. Ela chupou com avidez, a língua contornando a pele, os olhos fixos nos olhos marrons de Eduarda em um misto de ódio e devoção completa.
– Isso. Boa garota – Eduarda elogiou, a voz rouca, o cinismo derretendo diante do obsceno.
Eduarda tirou os dedos da boca de Lorena, agora molhados também de saliva, e os afundou novamente entre as pernas da advogada, ainda mais fundo, ainda mais rápido. Lorena urrou contra os lençóis. Eduarda usou o polegar para esmagar o clitóris, enquanto a mão livre agarrava o pescoço de Lorena, apertando a garganta para restringir o ar, elevando a tensão a um nível insuportável
– Quem é que manda aqui, Lorena? – Eduarda rosnou, o suor finalmente marcando sua testa, a máscara de gelo quebrada pela fúria do momento. – De quem você é?
– Sua! É tudo seu, Eduarda! – Lorena berrou, a voz esganiçada e sem fôlego, arranhando os lençóis. – Me fode, caralho... me quebra toda, por favor!
A súplica foi o gatilho. Eduarda dobrou a velocidade, batendo implacavelmente no fundo. Lorena se estilhaçou em mil pedaços. O orgasmo a rasgou ao meio, violento e longo. Ela gozou soluçando, o corpo convulsionando ao redor da mão de Eduarda, a mente completamente em branco, entregando não apenas o controle de seu corpo, mas a coroa de seu império ali mesmo, naqueles lençóis.
Quando os tremores finalmente cederam, Lorena estava destruída. Uma poça de suor, lágrimas e luxúria.
Eduarda retirou a mão lentamente. Ela olhou para a mulher arruinada em sua cama, pegou um lenço na mesa de cabeceira, limpou os dedos e alisou o próprio paletó.
O silêncio no quarto durou apenas o tempo exato que Eduarda levou para virar as costas. O ego de Lorena, ferido, violentamente excitado e inundado de uma necessidade doentia, gritou mais alto que a exaustão. Ela não terminaria aquela noite sendo apenas a cadelinha ofegante nos lençóis. Ela era a herdeira do império, afinal.
Com um rugido gutural que misturava frustração e luxúria pura, Lorena avançou. Ela agarrou o pulso de Eduarda antes que a ruiva desse o terceiro passo, puxando-a de volta para a cama com toda a força que lhe restava.
Eduarda não lutou. Na verdade, a jornalista girou o corpo no ar com uma leveza calculada e se deixou cair de costas sobre o colchão bagunçado. O sorriso que rasgou os lábios de Eduarda foi aterrorizante de tão sereno. Ela olhou para Lorena de baixo para cima, os olhos marrons brilhando com o deleite de um predador que vê a sua presa favorita finalmente morder a isca.
Em um segundo, Lorena estava em cima dela, os joelhos prendendo os quadris da esposa. A advogada estava em ruínas: o vestido preto embolado na cintura, a maquiagem borrada, o peito subindo e descendo freneticamente.
– Tira essa porra de terno, Eduarda – Lorena rosnou, a voz grave, as mãos tremendo enquanto agarrava a gola da camisa – Você acha que manda em mim só porque me fez gozar? Acha que eu sou o seu brinquedo?
Eduarda soltou uma risada baixa, rouca e absurdamente íntima. Ela não tentou empurrar Lorena. Em vez disso, ergueu as mãos e, com uma lentidão provocativa, começou a desabotoar o próprio paletó.
– Eu deixo você brincar de chefe um pouquinho, meu amor – Eduarda murmurou, o cinismo banhado em afeto distorcido. Ela deslizou o paletó pelos ombros, jogando-o no chão, e fez o mesmo com a camisa de seda branca. O sutiã de renda preta e a calça de alfaiataria foram os próximos.
Quando Eduarda finalmente ficou nua sob o corpo de Lorena, a pele clara e salpicada por algumas sardas invisíveis sob a roupa corporativa, o ar faltou nos pulmões da advogada. A ruiva era deslumbrante. E, ali, esparramada de pernas abertas, oferecendo-se com uma vulnerabilidade completamente fabricada, ela era a dona absoluta da sanidade de Lorena.
Lorena desabou sobre ela. O que ameaçou começar como um ataque brusco derreteu no instante exato em que as bocas se colaram. Não foi um beijo com raiva, mas uma colisão inebriante e, de certo modo, apaixonada.
Os lábios se encontraram com a familiaridade de quem conhece cada canto da outra alma. A língua de Lorena invadiu a boca de Eduarda, quente, lenta e possessiva, enroscando-se na da ruiva em uma dança úmida e sem pressa que fez o mundo fora daquelas quatro paredes desaparecer.
Eduarda suspirou contra os lábios dela, um som baixo e entregue, os braços envolvendo o pescoço de Lorena para colar os dois corpos de vez. A herdeira mordeu o lábio inferior da esposa, puxando a pele macia devagar entre os dentes para, em seguida, chupar o local com uma devoção desesperada. Era um beijo profundo, que sugava o ar dos pulmões e revirava o estômago, misturando o gosto do vinho com a saliva e a respiração pesada de ambas.
Havia uma paixão insana ali, um amor tóxico, visceral e sufocante que só duas mulheres com a mesma ambição letal poderiam entender. Ninguém no mundo conhecia os demônios de Lorena como Eduarda. E, naquele beijo longo e molhado, Lorena idolatrava cada centímetro da escuridão da ruiva.
– Você é minha, Eduarda – Lorena sussurrou contra os lábios dela, as mãos descendo pelo abdômen tenso da jornalista até encontrar a intimidade encharcada. – Você vai sentar do meu lado naquele conselho amanhã e vai fazer o que eu mandar.
– Então me faz obedecer, Lorena – Eduarda arfou, arqueando as costas, oferecendo-se mais. O olhar dela, no entanto, continuava lúcido, segurando a alma de Lorena na palma da mão. – Toma o que é seu. Mostra pra mim o que você sabe fazer.
Lorena não hesitou. O desafio que brilhava nos olhos de Eduarda era o gatilho perfeito para o ego predatório da advogada. Com um movimento ágil, Lorena desceu pelo corpo pálido da esposa, os cabelos castanhos roçando a pele arrepiada da ruiva. Ela se ajoelhou entre as coxas escancaradas de Eduarda, inalando o cheiro inebriante de suor e pura luxúria.
Sem pedir permissão, Lorena afundou o rosto na intimidade encharcada da jornalista. Ao mesmo tempo, deslizou dois dedos longos e impiedosos para dentro dela de uma só vez.
Eduarda arfou alto, o impacto tirando o seu fôlego, as costas arqueando-se para fora do colchão. O ataque foi simultâneo e devastador: a boca de Lorena chupava, lambia e devorava o clitóris com uma pressão sádica e meticulosa, enquanto seus dedos a penetravam com estocadas brutais e rítmicas.
A ruiva soltou um gemido alto, rasgado, a cabeça tombando para trás no travesseiro. Lorena começou a foder a esposa até destruir a sua compostura. Queria apagar a imagem da diretora de jornalismo intocável e deixar apenas a mulher suada e trêmula.
– Porra, Lorena... – Eduarda praguejou, o vocabulário sujo escapando enquanto empurrava os quadris contra o rosto da esposa. – Mais, caralho...
Sentindo a necessidade de ver a submissão estampada no rosto da esposa, Lorena subiu de volta pelo corpo de Eduarda. Ela manteve os dedos enterrados, trabalhando fundo na intimidade da ruiva, e pairou sobre ela. O rosto da advogada brilhava de umidade, e seu olhar selvagem cravou-se nos olhos nublados e entregues de Eduarda.
A cada estocada, Lorena olhava no fundo dos olhos da esposa. O tesão era tão esmagador que doía no peito. Era possessão. Era uma necessidade física de marcar o território, de provar que, não importava o quão longe Eduarda fosse na sua sede de poder, ela sempre voltaria para aquela cama.
Eduarda envolveu o pescoço de Lorena com os braços, puxando o rosto da advogada para perto.
– Ninguém nunca vai te amar como eu te amo, Lorena – Eduarda sussurrou, a voz trêmula pela proximidade do orgasmo, os lábios roçando a orelha da esposa em uma confissão doentia e sincera – Ninguém tem estômago pra engolir o que você é... só eu.
Aquelas palavras atingiram Lorena como uma droga direto na veia. A paixão distorcida que a consumia transbordou. Ela beijou o pescoço de Eduarda, chupando a pele clara com brutalidade, enquanto aumentava o ritmo dos dedos, batendo no ponto mais sensível da ruiva sem nenhuma piedade.
– Goza pra mim, Duda. Agora – Lorena ordenou, a voz grave, autoritária, sentindo as paredes internas de Eduarda começarem a pulsar e apertar seus dedos.
Eduarda não conseguiu segurar a máscara. O prazer a partiu ao meio. Ela gritou, um som agudo, sujo e completamente desavergonhado, o corpo inteiro convulsionando sob Lorena. Ela gozou em espasmos violentos, as pernas apertando a cintura da advogada, a mente derretendo na névoa do orgasmo enquanto arranhava as costas da esposa até quase tirar sangue.
Lorena sustentou as estocadas, sentindo o corpo da mulher que amava e odiava se desfazer na sua mão, bebendo cada gota daquela rendição física como se fosse o elixir da vitória.
Quando os tremores cederam e Eduarda desabou no colchão, o peito subindo e descendo freneticamente, Lorena retirou os dedos úmidos. Ofegante, com um sorriso de pura arrogância desenhado no rosto, a advogada beijou a testa suada da ruiva.
– Quem é a boa garota agora? – Lorena sussurrou, acariciando o rosto de Eduarda, sentindo-se a própria dona do universo, inabalável e invencível.
Lorena saiu de cima dela, exausta, arrastando-se para o seu lado da cama para desabar no sono, certa de que havia domado a fera.
Mas, enquanto a respiração de Lorena pesava e recuperava o fôlego com a falsa ilusão do controle, Eduarda continuou acordada no escuro. A ruiva virou o rosto no travesseiro, observando o perfil da herdeira dos Ferette. O corpo de Eduarda ainda formigava de prazer, a paixão insana que sentia pela esposa queimando no peito.
Alguns minutos depois, o quarto estava mergulhado na penumbra e no cheiro pesado e inconfundível de sexo, suor e perfumes caros misturados. A respiração das duas finalmente havia desacelerado. Lorena estava deitada de lado, a cabeça apoiada no peito nu de Eduarda, os dedos da advogada traçando círculos preguiçosos na pele da esposa.
A exaustão era física, mas a mente de ambas continuava girando a mil por hora. Havia uma paz rara ali, uma intimidade crua que só existia quando as armaduras corporativas estavam jogadas no chão.
Apesar da guerra, dos egos inflados e das traições, elas se adoravam de um jeito visceral.
Era uma paixão tóxica, mas inegável.
Eduarda passava os dedos pelos cabelos castanhos e bagunçados de Lorena, desembaraçando os fios com uma ternura que beirava a devoção, o que contrastava bizarramente com a brutalidade do que haviam acabado de fazer.
Um sorriso cínico curvou os lábios da jornalista.
– Sabe o que eu acho engraçado? – Eduarda quebrou o silêncio, a voz rouca vibrando no peito onde Lorena descansava – Aquela advogadinha júnior que você levou pro Emiliano... a loira. Ela deve achar que você é o auge da dominância. Deve gozar achando que tem a herdeira dos Ferette na palma da mão.
Lorena soltou um suspiro arrastado, fechando os olhos sob o carinho nos cabelos. A menção aos seus casos extraconjugais geralmente seria motivo de briga, mas, depois daquela noite, não havia espaço para orgulho. Havia apenas a total rendição.
– Ela era só um pedaço de carne pra descarregar o estresse de ter que aturar a minha família, Eduarda – Lorena murmurou, a voz rouca, esfregando o rosto no pescoço da ruiva e deixando um beijo úmido na pele dela. – E ela não faz a menor ideia de como eu gosto de apanhar.
Eduarda soltou uma risada baixa, uma vibração que arrepiou a espinha de Lorena. A jornalista deslizou a mão pelas costas nuas da esposa, parando na curva da cintura, apertando a carne com possessividade.
– Você é uma fraude, Lorena Ferette – Eduarda provocou, o tom banhado em um afeto doentio – Aterroriza o andar executivo, mas chega em casa e abre as pernas na primeira ordem que eu dou.
Lorena ergueu o rosto, os olhos verdes encontrando os marrons no escuro. Em vez de rebater, ela deu um sorriso safado, completamente entregue à loucura que sentia por aquela mulher.
– Você é um problema, sabe – Lorena sussurrou, deslizando a mão pelo abdômen de Eduarda até repousar sobre o quadril dela. – Se você continuar me comendo desse jeito, me fodendo até eu esquecer o meu próprio nome... eu vou ter que cancelar a minha chave lá no Emiliano. Vou ter que aposentar a vida noturna de vez. – Lorena mordeu o lábio inferior da ruiva, puxando de leve – Serei só sua, Duda. Cem por cento.
A expressão de Eduarda mudou. O sorriso cínico desapareceu lentamente, dando lugar a uma seriedade fria, enquanto a mente implacável da jornalista recalculava a rota de colisão que havia traçado para o dia seguinte.
O plano original era simples, limpo e brutal: deixar os irmãos Ferette sangrarem na mesa do conselho e, no ápice do caos, dar a rasteira final em Lorena. Humilhá-la publicamente para tomar o controle sem resistência imediata.
Mas, olhando para a herdeira ali, com os olhos verdes brilhando de uma devoção perversa, a lógica de Eduarda exigiu uma correção de curso. Dar um golpe cego nas costas de Lorena criaria a inimiga mais letal que o Grupo Ferette já viu. Uma mulher ressentida, orgulhosa e com recursos infinitos para infernizar a sua gestão e a sua vida. Na lógica do poder, era infinitamente mais inteligente – e seguro – dividir a cama com uma parceira de crime do que com uma adversária declarada.
E, sendo brutalmente honesta consigo mesma, Eduarda desceu o olhar pelo corpo nu e suado da esposa. Ajudava muito o fato de que Lorena era absurdamente gostosa. Jogar fora a submissão daquela mulher, arruinar as noites em que a advogada se desfazia em suas mãos por puro ego ferido, seria um desperdício imperdoável dos prazeres carnais.
Mas não era só luxúria. A despeito da arrogância insuportável, do ego do tamanho do mundo e das traições em hotéis caros, Lorena era uma jogadora indispensável. Ela tinha a mente mais afiada e predatória de São Paulo, e Eduarda admirava e respeitava a sociopatia genial da esposa.
A verdade era bastante simples: o império precisava de Lorena, e Eduarda precisava de um carrasco guardando os portões da presidência, não tentando derrubá-los.
Então, ela tomou sua decisão. Iria abrir o jogo. Iria fazer a herdeira entregar a coroa por vontade própria, e não por uma facada nas costas.
Eduarda segurou o rosto de Lorena com as duas mãos, os polegares ancorando o maxilar da advogada com firmeza, prendendo-a ali.
– Então, se você é minha... me escute com muita atenção – Eduarda disse, o tom cortando qualquer resquício de brincadeira ou torpor pós-sexo – Amanhã, na sala do conselho, o velho vai sangrar vocês três em praça pública. E eu quero que você saiba que não vou sentar naquela mesa para te coroar, Lorena.
Lorena franziu a testa. O corpo da advogada se tensionou instantaneamente, os músculos enrijecendo sob o toque de Eduarda. Ela se apoiou no cotovelo, erguendo-se para olhar a esposa de cima, a velha paranoia voltando com força total.
– O que você quer dizer com isso? – a advogada perguntou, a voz baixando para um tom perigoso.
– Eu quero a cadeira do seu pai, Lorena. Eu vou ser a próxima CEO do Grupo Ferette – Eduarda respondeu. A confissão foi simples e cirúrgica.
Lorena soltou uma risada seca e incrédula, afastando-se de Eduarda e sentando-se na cama. Ela puxou o lençol para cobrir os seios, como se de repente precisasse de um escudo.
– Você tá de sacanagem com a minha cara – Lorena rosnou, o ódio borbulhando rápido. Os olhos verdes queimavam – Você me fode até eu perder o juízo pra depois tentar dar uma rasteira no meu próprio império? Eu passei a minha vida inteira engolindo os abusos do velho Santiago, brigando com aqueles dois idiotas dos meus irmãos, pra chegar na véspera da sucessão e entregar a porra da coroa pra minha esposa? Você é uma filha da puta, Eduarda!
Eduarda não se encolheu. Ela sentou-se também, a pele clara iluminada apenas pela luz da lua que entrava pela janela, sustentando o olhar furioso da herdeira com uma calma que beirava a psicopatia.
– Eu sou a única pessoa lúcida dessa família – Eduarda rebateu, o tom de voz inalterado. – Pensa, Lorena. O Leandro está morto a partir de hoje, nós vazamos aquele escândalo e o mercado não confia nele para gerenciar nem uma barraca de limonada. O Léo é um viciadinho imprevisível que o compliance quer internar numa clínica bem longe daqui. Sobra você. A brilhante, implacável e insuportável Lorena Ferette.
Lorena abriu a boca para xingar, mas Eduarda ergueu a mão, silenciando-a com autoridade.
– Você é a melhor advogada que esse país já viu, meu amor. Mas você continua sendo uma Ferette. Você é impulsiva, arrogante e arruma inimigos por diversão. Se você sentar naquela cadeira amanhã, metade do conselho vai boicotar as suas decisões. Os acionistas minoritários vão entrar em pânico. A Arminda vai tentar te derrubar no primeiro deslize. Você terá um alvo nas suas costas e vai passar o resto da sua gestão apagando incêndios e tentando provar que não é o seu pai.
Lorena engoliu em seco, a mandíbula travada. O ego gritava, sangrava, mas a mente processava as palavras. Ela sabia que era verdade. O sobrenome Ferette era uma bênção e uma enorme maldição.
– E o que te faz pensar que o conselho vai aceitar você? – Lorena cuspiu as palavras, relutante, tentando encontrar uma falha no raciocínio da esposa.
– Porque eu sou a estabilidade – Eduarda respondeu com a confiança de um monarca – Eu tenho o nome Ferette no papel, mas o meu sangue não carrega os escândalos de vocês. Eu administro a Tribuna com lucro recorde, eu tenho a mídia na minha mão, o Paulinho controla o Relações Públicas, e o mercado me vê como a nora razoável. A ponte perfeita entre a tradição do Santiago e a modernidade que eles tanto querem exibir.
Eduarda se aproximou, invadindo o espaço de Lorena de novo. Ela tocou o rosto da advogada, o polegar acariciando a maçã do rosto tensa.
– Eu assumo a frente, Lorena. Eu levo as pedradas da imprensa, eu apaziguo os velhos do conselho e eu sorrio para as câmeras. E você fica na chefia do conselho administrativo e no jurídico. Você comanda o império por trás da minha cadeira, mexendo as peças, sem o mercado respirando no seu pescoço. Nós seremos absolutas… Mas o nome na porta da presidência vai ser o meu.
O silêncio no quarto ficou denso. Lorena olhou para o rosto perfeitamente esculpido da mulher à sua frente. Havia tanta audácia ali. Tanta fome.
– Desde quando? – Lorena perguntou, a voz rouca, o peito subindo e descendo devagar. – Desde quando você tá planejando tomar o meu lugar, Eduarda?
Eduarda não desviou o olhar. Não houve hesitação, nem remorso.
– Desde o dia em que eu assinei a porra daquele contrato pré-nupcial e entrei nessa família – Eduarda foi brutalmente honesta – Eu olhei para vocês se matando por migalhas da atenção do Santiago e percebi que, uma hora ou outra, a coroa ficaria jogada no chão. Eu só precisava esperar o momento certo para abaixar e pegar.
Lorena ficou em silêncio. Qualquer outra pessoa no mundo teria pedido o divórcio naquele instante. Teria gritado, quebrado os abajures, ligado para os advogados.
Mas Lorena não era qualquer pessoa. Ela era uma Ferette.
Ao ouvir a confissão limpa e inescrupulosa de Eduarda, a fúria de Lorena começou a derreter, substituída por um fascínio doentio e uma admiração sombria. Eduarda não estava dando uma rasteira covarde nas sombras, ela havia orquestrado a queda dos cunhados, colocado a esposa na coleira e, agora, olhava nos olhos dela e exigia o trono sem o menor pudor.
Lorena balançou a cabeça, um sorriso torto, relutante e enlouquecido nascendo nos lábios. Ela odiava ter que ceder. Odiava perder a cadeira. Mas, porra... ela nunca havia respeitado tanto alguém na vida. Eduarda era a maior filha da puta que ela já havia conhecido.
– Você é uma psicopata, sabia? – Lorena sussurrou, a contragosto, agarrando a nuca de Eduarda e puxando-a para perto. O ódio ainda estava ali, mas a paixão e o tesão haviam engolido todo o resto – Eu te odeio por estar certa. Mas devo admitir que, com essa postura, amanhã o conselho vai comer na sua mão.
– Eu sei que sim, meu amor – Eduarda murmurou contra a boca dela, o sorriso de vitória brilhando na escuridão – E você vai estar do meu lado.
Lorena a beijou com força, um beijo que selava o pacto mais sujo e poderoso de São Paulo. Ela não seria a CEO, mas seria a dona da mulher que comandava o mundo. E para Lorena Ferette, aquilo era quase a mesma coisa.
– Amanhã a gente toma essa porra – Lorena rosnou contra os lábios da ruiva.
A sala de reuniões do conselho no quadragésimo andar do Grupo Ferette era um mausoléu de vidro e nogueira maciça, suspenso acima do trânsito caótico de São Paulo. O ar ali dentro cheirava a café expresso, couro caro e ao pânico silencioso de homens que estavam prestes a perder muito dinheiro.
Na longa mesa, a divisão era clara. De um lado, os abutres: Kasper, Macedo e Samira, que representavam os acionistas minoritários. Do outro, os herdeiros. Leandro suava frio, o celular virado para baixo para não ver o derretimento em tempo real de suas ações. Leonardo, escondendo os olhos vidrados da noite anterior atrás de óculos escuros, girava uma caneta de prata com tédio. Zenilda e Arminda mantinham uma distância asséptica uma da outra.
E então, as pesadas portas duplas de carvalho se abriram. O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Santiago Ferette foi empurrado para dentro em uma cadeira de rodas. O patriarca respirava com a ajuda de um cateter de oxigênio fino, a pele cinzenta e translúcida, mas a escuridão em seus olhos continuava a mesma que havia triturado concorrentes e governos por quarenta anos. Ele ergueu uma mão trêmula, dispensando o enfermeiro, e cravou o olhar na mesa.
– Eu sei que vocês já escolheram até a banda que vai tocar no meu velório – a voz rouca e levemente ofegante de Santiago rasgou o silêncio e fez os conselheiros encolherem os ombros.
Ele olhou diretamente para o primogênito.
– Trinta milhões em um esquema de pirâmide, Leandro? Você é um garoto muito estúpido. Se eu tivesse força nas pernas, eu mesmo o chutaria por aquela janela. E você, Léo... tire a porra desses óculos na minha sala, seu viciado inútil.
Santiago tossiu, um espasmo violento, antes de apoiar as mãos ossudas na mesa.
– O mercado está em pânico. O conselho está em pânico. E eu não tenho tempo para a mediocridade do meu próprio sangue. Algum de vocês vai me provar que tem os culhões de assumir essa cadeira e estancar a sangria ou vou ter que apelar para alguém de fora?
Leandro ajeitou a gravata, abrindo a boca para iniciar seu discurso ensaiado de contenção de danos, mas Lorena se levantou primeiro.
O som do salto dela ecoou na sala. O terninho preto de alfaiataria impecável era uma armadura, e a postura, irretocável.
Ao seu lado, Eduarda continuava sentada. A ruiva mantinha as mãos cruzadas sobre a mesa com uma expressão impenetrável.
– O Leandro é um passivo financeiro letal. E o Léo é uma bomba-relógio que o compliance tenta desarmar a cada fim de semana – Lorena discursou, a voz aveludada, sem pressa, ecoando com uma autoridade que fez Macedo e Kasper trocarem um olhar de alívio antecipado. A advogada olhou para o pai. – O Grupo Ferette não sobrevive a mais um escândalo, muito menos à instabilidade de um ego frágil. Nós precisamos de alguém que o mercado respeite. Alguém que não tenha o próprio nome afundado na lama dessa família.
Leandro soltou um suspiro pesado, o gosto amargo na língua. Ele esperava que a irmã, no alto de sua arrogância, se coroasse ali mesmo e iniciasse a ditadura que ele tanto temia.
Mas Lorena não apontou para si mesma. Ela descansou a mão no ombro da esposa.
– Por isso, como chefe do departamento jurídico e detentora de doze por cento dos votos, eu indico Eduarda Fragoso, diretora do departamento de jornalismo, para a cadeira de CEO do Grupo Ferette.
O baque daquelas palavras quebrou a gravidade da sala. Um murmúrio estourou entre os conselheiros.
Leandro bateu com as duas mãos na mesa, levantando-se de supetão, a cadeira tombando para trás com o impacto. O rosto do executivo estava roxo de fúria e indignação.
– A agregada?! – Leandro berrou, perdendo o verniz corporativo, a veia do pescoço pulsando. Perder para a irmã era trágico, mas perder para a jornalista que entrou na família por conveniência era a aniquilação total do seu orgulho – Você quer entregar o império do nosso pai pra essa… essa ratinha ruiva? Uma funcionária da Tribuna que só tá sentada aqui porque você colocou uma aliança no dedo dela?!
Do outro lado da mesa, Leonardo soltou uma gargalhada alta, seca e arrastada. Ele bateu palmas lentas, tirando os óculos escuros para encarar a cunhada com puro deboche.
– Porra, Lorena, você é masoquista até aqui empresa – Léo riu, inclinando-se para frente. – Vai entregar a presidência do nosso império pra mulher que limpa os chifres no tapete todo dia? A gente vai ser comandado pela corna mansa da família agora? É esse o nível do desespero?
O silêncio que se abateu sobre a sala de reuniões foi doentio e carregado de uma tensão obscena. Lorena trincou o maxilar, os olhos verdes queimando de ódio, o instinto assassino gritando para que ela esganasse o irmão ali mesmo.
Mas os dedos de Eduarda subiram suavemente, tocando o pulso da esposa. Um toque frio, contido. Um comando silencioso: Eu assumo daqui.
Eduarda se levantou. A lentidão do movimento contrastava assustadoramente com a histeria dos irmãos Ferette. Ela ajeitou a lapela do terninho vinho. Os olhos marrons, sempre tão dóceis nos almoços de domingo, estavam mortos. Não havia empatia ali, apenas o vazio calculista de um predador no topo da cadeia alimentar.
– Corna mansa, Léo? – Eduarda testou as palavras em sua língua, a voz saindo baixa, mas tão perfeitamente articulada que fez o sangue do caçula gelar. Ela caminhou alguns passos lentos pela lateral da mesa. – Sabe quem também é bem manso? O juiz da 3ª Vara Criminal, que eu tive que subornar no ano passado, usando a verba de publicidade da Tribuna, para abafar o inquérito sobre os três quilos de cocaína que a Polícia Federal achou no porta-malas do seu carro. Foi um inferno limpar a sua ficha antes que os nossos acionistas descobrissem que o príncipe da família Ferette não passa de um vagabundo cheirador. Mas eu limpei.
Léo paralisou. O sorriso cínico desapareceu. Kasper e Samira arregalaram os olhos, chocados com a crueza da revelação, enquanto Eduarda virava o pescoço milimetricamente na direção de Leandro.
– E você, Leandro? Acha que eu sou uma simples agregada? – Ela sorriu, mas a falta de calor do sorriso fez o primogênito recuar um passo. – Quem você acha que passou os últimos quatro anos segurando os jornalistas investigativos que queriam expor suas contas fantasmas em paraísos fiscais? Quem orquestrou o vazamento de ontem para mostrar a esse conselho que você é incapaz de proteger o próprio patrimônio? Você não é o lobo de Wall Street, Leandro, você é um imbecil que eu mantive fora da cadeia durante muito tempo, mas que hoje decidi parar de proteger.
Eduarda caminhou até a beira da mesa, apoiando as duas mãos sobre a nogueira maciça, inclinando-se na direção de Macedo, Kasper e dos demais acionistas engravatados, que a olhavam como se vissem um fantasma.
– Os senhores acham que o Grupo Ferette é um império imaculado por causa do sangue brilhante dessa família? – Eduarda perguntou, a voz ecoando implacável – O Grupo Ferette é rentável porque sou eu quem enterra a podridão deles há meia década. Eu conheço cada empresa que Leandro tentou comprar e faliu, conheço os fornecedores ilícitos do Léo, os crimes trabalhistas e ambientais das nossas subsidiárias... e os hábitos noturnos da minha esposa.
Eduarda olhou de relance para Lorena. A herdeira estava paralisada, os lábios entreabertos, observando a mulher que amava dissecar sua família com frieza máxima. O tesão e o respeito que irradiavam dos olhos verdes de Lorena eram quase palpáveis.
– Eu sou o único filtro entre os crimes da família Ferette e o Ministério Público, senhores – Eduarda concluiu, erguendo o queixo – E se eu não sair desta sala com o cargo de CEO... eu abro as gavetas. Eu deixo a vitrine quebrar, e aí... as ações de vocês se transformam em pó antes mesmo do fechamento da bolsa desta sexta-feira.
Uma tosse engasgada quebrou o transe da sala.
Arminda Dantas estava com a mão sobre a boca, os ombros tremendo. A atual esposa de Santiago não estava chocada – ela estava rindo.
Uma bandida reconhece outra, ela pensava. Arminda olhou para a jornalista com a mais profunda e sombria admiração.
– Puta que pariu – Arminda murmurou, maravilhada, ajeitando os diamantes no pescoço – Olha, eu voto nela. É a única pessoa com sangue nos olhos nessa sala, e eu prefiro colocar meu dinheiro nas mãos dessa aí do que nas desses dois.
Zenilda deu de ombros, bebericando sua água com total apatia diante do desespero dos próprios filhos. – Ela mantém os meus dividendos intactos. Tem o meu voto.
Macedo, Kasper e Samira trocaram um olhar rápido, o cálculo de perdas e ganhos feito em frações de segundo. Eles não se importavam com o drama familiar, se importavam com os lucros. E a chantagem de Eduarda parecia, no mínimo, uma apólice de seguro mais sólida que qualquer dos filhos daquele império.
– Os minoritários acompanham o voto da senhora Ferette – Macedo declarou, a voz seca, entregando a vitória – Estabilidade é tudo o que nós buscamos.
Todos os olhares, então, convergiram para a cabeceira da mesa. Para o velho leão que morria lentamente em sua cadeira de rodas.
Santiago Ferette olhou para a nora. Ele viu o monstro que ela era. A audácia sociopata, o sangue frio, a ambição sem amarras que ele sempre desejou ver em seus próprios filhos, mas que encontrou justamente na jornalista ruiva que a família inteira subestimara. Ele olhou para Leandro, arruinado e ofegante, e para Léo, encolhido. Por fim, olhou para Lorena – a indomável Lorena – que havia, por alguma razão, abdicado do próprio trono por pura devoção àquela víbora.
O peito de Santiago começou a vibrar. O que parecia ser um ataque de asma transformou-se em uma risada grave, rouca e sombria, que ressoou pelas paredes de vidro.
– Que revelação... – Santiago murmurou, o olhar transbordando um respeito doentio, limpando um filete de saliva do canto da boca. – Essa filha da puta tem mais culhões que os dois marmanjos idiotas que carregam o meu sobrenome juntos.
Ele recostou-se na cadeira de rodas, os olhos cravados em Eduarda. O cálculo final foi rápido na mente do patriarca.
A verdade era que ele provavelmente estaria morto em questão de algumas semanas. Foda-se. Se a ruiva queimasse o império até sobrarem apenas cinzas, pelo menos o crédito da destruição seria cobrado da conta dos Fragoso. Mas se ela vencesse... o dinheiro continuaria jorrando.
– Foda-se – Santiago declarou, batendo o punho ossudo na mesa com a última fagulha de força que tinha – Se vocês são incompetentes o suficiente para deixarem a esposa roubar o império de vocês sob a luz do dia, merecem mesmo a coleira. Eduarda Fragoso é a nova CEO do Grupo Ferette. Que conste na porra da ata.
O silêncio desceu sobre a sala, denso e definitivo. O império havia mudado de mãos.
Leandro saiu da sala chutando a própria cadeira, seguido por um Léo pálido e silencioso. Os conselheiros começaram a juntar seus papéis, abaixando as cabeças em respeito à nova dona da mesa.
No caos controlado da vitória, Lorena observou Eduarda. Ela ainda estava de pé, a postura ereta, a luz de São Paulo refletindo em seus cabelos ruivos como uma coroa de fogo. Lorena sentiu as pernas fraquejarem. A derrota nunca teve um gosto tão inebriante, e o mundo, agora, pertencia à mulher que dormia na sua cama.
O clique metálico da pesada porta de carvalho sendo trancada por dentro soou como um tiro no silêncio do quadragésimo andar.
Do lado de fora, o Grupo Ferette estava em chamas, digerindo o choque de uma sucessão brutal. Mas do lado de dentro do suntuoso escritório da presidência, o tempo parecia ter parado. O cheiro dos charutos que Santiago costumava fumar ainda impregnava as cortinas de veludo, mas o velho leão não estava mais lá.
Sentada na imponente cadeira de couro, atrás da mesa de mogno maciço de três metros de comprimento, estava Eduarda Fragoso, a nova CEO. Ela girou a cadeira lentamente, observando a vista panorâmica de São Paulo com a tranquilidade de uma deusa que acabara de herdar o Olimpo.
Passos duros e impacientes cortaram o silêncio, e Lorena atravessou a sala. A herdeira estava com a respiração pesada, a adrenalina da reunião ainda fervendo em suas veias, misturada a uma luxúria tão violenta e pegajosa que fazia suas mãos tremerem.
Sem dizer uma única palavra, Lorena parou de frente para a mesa. Com um movimento brusco e agressivo, ela varreu a superfície de madeira. Relatórios financeiros, o peso de papel de cristal e a placa de bronze com o nome Santiago Ferette voaram pelos ares, espatifando-se contra o piso com um estrondo.
Eduarda não piscou. Ela apenas recostou-se na cadeira, os olhos marrons e predatórios acompanhando cada movimento da esposa.
Lorena subiu na mesa. Ela engatinhou sobre a madeira fria e polida, o terninho preto de alfaiataria esticando-se perigosamente, até parar de joelhos exatamente de frente para a ruiva. A advogada abriu as pernas, sentindo os olhos da jornalista percorrerem por toda a extensão das suas coxas.
– Eu te dei a porra da coroa – Lorena sussurrou, a voz rouca, o peito subindo e descendo rápido. Os olhos verdes queimavam com uma devoção quase maníaca – Eu entreguei o império na sua mão, humilhei meus irmãos e abdiquei do meu poder para te engrandecer…
Eduarda inclinou a cabeça para o lado. Um sorriso arrogante e sádico se formou em seus lábios.
A advogada inclinou-se, o rosto a centímetros do de Eduarda. O hálito quente misturou-se no espaço mínimo entre elas, mas, antes que a luxúria a cegasse completamente, o cérebro da herdeira tomou a frente. Lorena era uma Ferette, afinal, ela não doava impérios por caridade.
– Mas não confunda a minha rendição com submissão, Eduarda – Lorena avisou, a voz descendo para um tom áspero, estritamente comercial. O dedo com a aliança de casamento bateu no peito da CEO, bem sobre o coração. – Eu quero o meu preço estipulado agora. A diretoria do departamento jurídico é minha de forma vitalícia. A presidência do conselho de administração, também. Nenhuma fusão, nenhuma aquisição e nenhuma demissão no alto escalão passa sem a minha assinatura conjunta.
Lorena agarrou a gola da camisa Eduarda, puxando-a milímetros para mais perto, a respiração caótica traindo a pose de negociadora fria.
– Você pode ser o rosto desse império pro mercado – Lorena sussurrou, os olhos verdes brilhando com uma ambição suja – Você usa a coroa, mas eu sou o pescoço que sustenta a sua cabeça. Estamos entendidas?
A audácia pragmática de Lorena não esfriou o clima – pelo contrário, foi o maior estímulo que Eduarda poderia receber. A ruiva sentiu um calor denso e pesado irradiar pelo próprio corpo.
Era exatamente por isso que a amava. Era por isso que não a havia apunhalado pelas costas. Para Eduarda, não havia nada mais excitante no mundo do que uma mulher que negociava poder com a mesma voracidade com que fodia.
Eduarda inclinou a cabeça para o lado. Um sorriso arrogante rasgou seus lábios. Ela ergueu a mão, traçando a linha da mandíbula tensa de Lorena com a ponta dos dedos, antes de descer e apertar possessivamente o pescoço da advogada.
– Você sempre foi uma excelente negociadora, meu amor – Eduarda murmurou, a voz perfeitamente polida, aceitando os termos com a majestade de quem sabia que ambas sairiam ganhando – O jurídico é seu. O conselho é seu. Nenhuma vírgula muda nesse prédio sem o seu aval. Nós temos uma parceria blindada, conselheira.
A confirmação verbal foi a fagulha que faltava no barril de pólvora. O ego de Lorena estava saciado, suas garantias estavam firmadas e o contrato de sangue estava selado. Agora, restava apenas a fome animalesca que sentia por aquela mulher.
A máscara de executiva de Lorena derreteu completamente.
– Então sela a porra desse acordo – Lorena rosnou, a voz quebrando pela urgência. Ela agarrou os cabelos ruivos de Eduarda com uma mão e a lapela do blazer com a outra, puxando a CEO para perto – A papelada a gente assina depois, mas agora, Eduarda, eu quero o meu bônus. Quero que você me foda nessa mesa velha do Santiago até eu esquecer o meu próprio nome.
O olhar de Eduarda escureceu instantaneamente. A paciência evaporou, engolida por uma fome que não tinha absolutamente nada de corporativa.
Eduarda levantou-se da cadeira com uma lentidão predatória. Ela não recuou do aperto de Lorena em sua gola, e avançou, prensando o corpo da advogada contra a beirada da mesa.
Com um movimento rápido, a mão da ruiva agarrou o colarinho da camisa de seda de Lorena e empurrou a herdeira com brutalidade para trás, até que as costas de Lorena batessem violentamente contra a superfície fria da mesa. O ar fugiu dos pulmões da advogada, que ofegou, os olhos arregalados, o choque da agressão incendiando seu centro.
– Você acha que está em posição de exigir alguma coisa? – Eduarda sussurrou, debruçando-se sobre ela, o aperto no pescoço firme, restringindo a respiração o suficiente para fazer o coração de Lorena bater na garganta – Eu mando nessa cadeira. Eu mando nesse prédio. E eu mando em você.
– Duda... – Lorena arfou, as mãos subindo não para afastar Eduarda, mas para agarrar o pulso da esposa, implorando silenciosamente. O tesão era tão massivo que a deixava tonta.
– Cala a boca – Eduarda ordenou.
Com a mão livre, Eduarda começou a desabotoar a camisa de seda de Lorena. Ela, no entanto, não tinha qualquer resquício de urgência. Em contraste com o desespero de Lorena, os movimentos da ruiva eram lentos e torturantes.
Ela abriu a camisa e a afastou pelos ombros, expondo o sutiã de renda preta, e o contraste da pele clara advogada contra a madeira escura da mesa formava uma pintura verdadeiramente obscena.
Eduarda desceu a mão do pescoço de Lorena para traçar a linha da clavícula, descendo até o colo. Com um movimento ágil, Eduarda soltou o fecho do sutiã de renda e puxou a peça pelos braços de Lorena, jogando-a em um canto qualquer da sala, libertando os seios da esposa.
Lorena gemeu baixo, o peito arfando. Eduarda agarrou os dois seios, apertando a carne quente com uma força possessiva, os polegares esfregando os mamilos já rígidos e doloridos de forma lenta e circular. A fricção demorada, quase sádica em sua ausência de pressa, fez o corpo de Lorena se contorcer sobre a mesa.
Mas Lorena era uma Ferette e, para sua família, a submissão nunca vinha de graça – ela precisava ser extraída à força. Então, em vez de implorar por alívio, a advogada controlou a própria respiração. Um sorriso torto desenhou-se em seus lábios, e os olhos verdes brilharam com uma arrogância perigosa, decidida a testar a mulher que agora comandava o seu império.
Ela ergueu o quadril, roçando o próprio centro, ainda coberto pelo tecido da calça de alfaiataria, contra a coxa da esposa, a voz saindo carregada de um escárnio aveludado e provocador.
– Você rouba a presidência da minha família, aterroriza o conselho inteiro... mas tá com medinho de me machucar, Duda? – Lorena sussurrou, testando as barreiras da esposa – É só isso que a grande CEO tem a oferecer? Essa lerdeza toda? Achei que você tivesse culhões. Pelo visto, o peso dessa cadeira já tá te deixando mans–
O som do tapa estalou alto no escritório.
A mão de Eduarda encontrou o rosto de Lorena em um golpe seco, ardido e pesado, virando o rosto da advogada bruscamente para o lado. O impacto deixou uma marca vermelha imediata e quente na bochecha pálida da herdeira, o som ecoando nas paredes com isolamento acústico.
Lorena engasgou, os olhos verdes se enchendo de lágrimas – não de dor, mas da mais pura, suja e humilhante excitação. O tapa havia quebrado a última barreira de sua sanidade. Ela estava arruinada. Arruinada de amor e de luxúria de uma forma crua, que beirava o doentio.
– Eu te mandei calar a boca – Eduarda sussurrou, a voz rouca, os lábios roçando a orelha da esposa enquanto a mão voltava para apertar o pescoço de Lorena com firmeza – Você não dita as regras aqui, Lorena. Você não exige nada. Você abre as pernas, cala essa boca e só goza quando eu mandar, ouviu bem?
Eduarda desceu a boca pelo pescoço marcado de Lorena, chupando a pele, subindo até os seios descobertos. A ruiva capturou o mamilo esquerdo entre os lábios, sugando com avidez, a língua brincando com o bico sensível enquanto os dentes raspavam sem piedade. Lorena soltou um grito afogado, as costas arqueando e as unhas arranhando a madeira envernizada da mesa de seu pai.
O prazer se acumulava em camadas densas e lentas. Eduarda saboreava cada suspiro, cada tremor do corpo submisso sob o seu. Com uma lentidão enlouquecedora, a ruiva desabotoou a calça de alfaiataria de Lorena, puxando o tecido e a calcinha de seda para baixo até os joelhos.
A intimidade da advogada estava encharcada, brilhando na luz do meio-dia que invadia o quadragésimo andar.
Eduarda não usou os dedos imediatamente. Ela usou o polegar, traçando a fenda úmida de Lorena de cima a baixo, espalhando o líquido quente, esfregando o clitóris com movimentos arrastados e provocativos que faziam a herdeira choramingar como um animal encurralado.
– Olha pra você, Lorena – Eduarda murmurou, rindo de forma sombria contra a pele da barriga da esposa – O terror do conselho de administração. A mulher mais temida do jurídico. Derretendo na minha mesa porque eu não quero foder você ainda.
– Me quebra, Duda... me fode... eu sou a sua… por favor… – Lorena implorou, a dignidade reduzida a cinzas. Ela balançava o quadril instintivamente, tentando esfregar-se contra a mão da ruiva.
Foi quando Eduarda finalmente cedeu. Mas não com pressa.
Ela deslizou dois dedos molhados para dentro de Lorena em um movimento dolorosamente lento. A herdeira urrou de alívio e agonia, o corpo inteiro se contraindo quando a invasão aconteceu centímetro por centímetro, esticando-a, preenchendo o vazio que latejava.
Uma vez dentro, Eduarda encontrou um ritmo fundo, lento e implacável.
O som obsceno do atrito ecoava no escritório sagrado. A cada estocada, Eduarda puxava o ar do corpo de Lorena, o polegar friccionando o clitóris enquanto a mão na garganta mantinha a herdeira fora daquela dimensão. A intensidade foi triplicada pela calma aterradora da nova dona do império, que fodia Lorena com a precisão de quem está tomando posse de uma aquisição inestimável.
A tensão explodiu em uma ascendente insuportável. Lorena não conseguia mais respirar, não conseguia pensar. Ela estava cega pela paixão, pelo cheiro de Eduarda, pela força dos dedos que a invadiam e pela dor doce do tapa que ainda queimava em seu rosto.
– De quem é tudo isso aqui, meu amor? – Eduarda exigiu, aumentando a velocidade e a força das estocadas no exato segundo em que sentiu as paredes de Lorena começarem a convulsionar.
– É seu, amor, é tudo seu – Lorena respondeu com a voz trêmula, as pernas abraçando a cintura de Eduarda.
O orgasmo a rasgou ao meio. Lorena gozou com um grito rasgado e animalesco, o corpo tremendo em espasmos violentos e intermináveis. Ela apertou os dedos de Eduarda com uma força absurda, soluçando abertamente enquanto o prazer a afogava em ondas quentes, espessas e descontroladas. A mente de Lorena apagou completamente, entregando não apenas o poder sobre a empresa, mas a posse total e absoluta de sua própria alma.
Eduarda sustentou o corpo trêmulo da esposa, mantendo a penetração e o atrito até que o último tremor miserável deixasse a advogada.
O silêncio desceu sobre o escritório, quebrado apenas pela respiração caótica de Lorena e pelo murmúrio distante do trânsito da Faria Lima lá embaixo.
Lentamente, Eduarda retirou os dedos brilhantes e escorregadios. Ela ajeitou os punhos do próprio terninho vinho, sem um único fio de cabelo ruivo fora do lugar, e recuou um passo, olhando para a mulher arruinada, ofegante, seminua e marcada sobre a mesa de mogno.
O distanciamento, no entanto, não durou mais que três segundos. O tempo exato para que Eduarda pudesse admirar a própria obra de arte.
Com um suspiro pesado, Eduarda tirou o blazer, jogando-o de qualquer jeito sobre a cadeira giratória da presidência, e voltou para a mesa, invadindo novamente o espaço de Lorena.
A advogada tentou abrir os olhos, os cílios pesados de exaustão e suor, mas, antes que pudesse formular um pensamento, sentiu as mãos quentes de Eduarda segurarem seu rosto.
Os polegares da ruiva acariciaram as bochechas pálidas, detendo-se com uma reverência quase devota sobre a pele quente e avermelhada onde o tapa havia estalado.
– Dói? – Eduarda sussurrou, a voz descendo para um tom macio e perigosamente carinhoso.
Lorena riu e balançou a cabeça devagar, roçando o nariz no dela, inebriada pela proximidade.
– Eu amo a sua mão pesada – Lorena confessou, o olhar brilhando de pura adoração por trás da exaustão. – Eu amo tudo o que você faz comigo, Duda. Absolutamente tudo.
Os olhos castanhos de Eduarda brilharam com uma emoção crua que ela raramente deixava transparecer no mundo corporativo. Ela se inclinou, selando os lábios nos de Lorena e misturando o gosto de saliva e triunfo com a intimidade que só as duas conseguiam compartilhar sem ressalvas.
Enquanto a beijava, a mão direita de Eduarda desceu novamente, os dedos roçando o interior das coxas trêmulas da esposa.
Lorena soltou um gemido sôfrego, o corpo inteiro se curvando como um arco. Ela estava hipersensível, os nervos em curto-circuito pelo orgasmo violento de instantes atrás, e até mesmo o menor toque parecia eletricidade pura.
– Duda... não... – Lorena arfou contra a boca da ruiva, as mãos subindo para agarrar os pulsos de Eduarda, tentando afastá-la em um reflexo de defesa, rindo de nervoso e tesão misturados – Eu tô sensível demais... eu não vou aguentar...
Eduarda sorriu. Um sorriso arrogante e seguro. Ela não recuou a mão. Em vez disso, beijou o maxilar tenso da esposa, segurando os pulsos de Lorena com facilidade.
– Shhh. Confia em mim – Eduarda murmurou contra a pele arrepiada do pescoço da advogada. – Eu conheço o seu limite, amor, e eu te garanto... você aguenta muito mais.
Lentamente, Eduarda substituiu o ritmo frenético e castigador de antes por uma exploração agonizante de tão doce e provocadora. Ela deslizou apenas um dedo para dentro da herdeira, movendo-se com uma lentidão que beirava a tortura, enquanto a outra mão subia para acariciar os cabelos castanhos de Lorena, desembaraçando os fios suados grudados na testa.
A cada movimento raso e demorado de Eduarda, um arrepio subia pela espinha de Lorena. Era um contraste completo: a mulher que controlaria São Paulo com mãos de ferro agora a tocava com um cuidado que a desarmava por completo. A advogada derreteu sob a carícia. O atrito leve no clitóris não exigia dor nem humilhação, apenas uma entrega irrevogável.
– Você é a coisa mais linda que essa família já produziu – Eduarda murmurou, olhando no fundo dos olhos verdes e turvos de Lorena, o dedo movendo-se em círculos vagarosos no interior quente e latejante da esposa.
O coração de Lorena bateu tão forte que pareceu ecoar na madeira envernizada da mesa. O amor que sentia por Eduarda era uma doença crônica e incurável.
Lágrimas silenciosas, nascidas de um alívio e de um prazer avassalador, escorreram pelos cantos dos olhos de Lorena. O tesão começou a se acumular novamente, não como um furacão que a partia ao meio, mas como uma maré quente e sufocante que engolia tudo ao redor. Ela abriu as pernas o máximo que pôde, oferecendo-se de corpo e alma, os quadris balançando em um ritmo preguiçoso, buscando a fricção exata da mão de Eduarda.
– Eu te amo... puta que pariu, eu te amo tanto, Eduarda... – Lorena chorou baixinho, a voz embargada, os braços envolvendo o pescoço da ruiva e puxando-a para um abraço apertado.
– Eu sei, meu amor. Eu também te amo. Mais do que qualquer coisa na porra desse prédio – Eduarda respondeu, selando a confissão no pescoço de Lorena enquanto acelerava o movimento dos dedos apenas o suficiente para empurrá-la para o precipício mais uma vez.
O segundo orgasmo não teve gritos estrondosos ou arranhões desesperados nas costas. Foi profundo, longo e inebriante. Lorena soluçou contra o pescoço de Eduarda, o corpo pulsando em contrações suaves e ritmadas nos dedos da ruiva, derretendo em uma poça de vulnerabilidade que o mundo lá fora jamais teria o privilégio de ver.
Eduarda a segurou firme, acariciando suas costas nuas, sendo o porto seguro no meio do caos que ela mesma havia criado. As duas ficaram ali, emaranhadas, a herdeira esparramada na mesa de mogno e a presidente do Grupo Ferette debruçada sobre ela.
O império estava garantido, mas, naquele instante, o maior troféu de Eduarda Fragoso era a mulher que respirava exausta e completamente apaixonada em seus braços.
Seis meses após o enterro de Santiago Ferette – uma cerimônia impecável e sem lágrimas que parou o trânsito da capital –, os corredores do quadragésimo andar do Grupo Ferette nunca estiveram tão silenciosos. E tão lucrativos.
Na cabeceira da mesa de carvalho da sala do conselho, Eduarda Fragoso assinava o balanço trimestral com uma caneta Montblanc. O silêncio na sala não era de luto, mas de uma absoluta e castradora submissão.
Do lado direito da mesa, Leandro encarava a tela do seu tablet, os dentes trincados com tanta força que o maxilar doía. As ações do conglomerado haviam subido treze por cento desde que a agregada assumira a presidência.
Os investidores do leste asiático adoravam Eduarda. O mercado a idolatrava. Leandro, reduzido a um diretor de operações sem autonomia para comprar um clipe de papel sem a assinatura da cunhada, teve que engolir o próprio ego a seco. Cada número verde naquele relatório era um lembrete humilhante de que ele era uma peça irrelevante naquela engrenagem.
Do outro lado, Leonardo brincava com a borda de um copo de água mineral. Estava sóbrio há noventa dias. Não por força de vontade, é claro, mas porque o departamento jurídico, chefiado pela tirana da sua irmã, havia atrelado cada centavo dos seus dividendos a exames toxicológicos semanais.
Se ele cheirasse uma linha, Eduarda congelava suas contas em Mônaco no dia seguinte.
– Os números são indiscutíveis, senhores – Eduarda murmurou, fechando a pasta de couro e erguendo os olhos castanhos para os dois cunhados – O mercado confia na nossa nova governança corporativa. Espero que as vice-presidências continuem operando com a mesma... disciplina. Alguma objeção, Leandro?
Leandro apertou os punhos debaixo da mesa. Ele olhou para Eduarda, depois para Lorena, que estava sentada à direita da CEO, exalando a mesma arrogância predatória de sempre em um terninho risca de giz. As duas eram uma muralha intransponível.
– Nenhuma objeção, senhora presidente – Leandro cuspiu as palavras, o orgulho estilhaçado, levantando-se da cadeira.
– Ótimo. Estão dispensados.
Os dois irmãos saíram da sala como cães escorraçados, a porta pesada fechando-se atrás deles com um clique definitivo.
Assim que o som dos passos desapareceu no corredor, o ar na sala de reuniões mudou. A temperatura pareceu subir dez graus.
Lorena empurrou a própria cadeira para trás. Ela caminhou lentamente até a cabeceira da mesa, os olhos verdes fixos na mulher ruiva que agora comandava o país. A advogada parou atrás de Eduarda, deslizando as mãos com possessividade pelos ombros da esposa, inclinando-se para beijar a curva do pescoço pálido.
– Você castrou os meus irmãos – Lorena sussurrou contra a pele dela, a voz rouca, vibrando com um misto de adoração doentia e o mais puro tesão – O Leandro parecia que ia chorar lendo aquele balanço. Você é um monstro, Eduarda.
Eduarda soltou uma risada baixa, encostando a cabeça para trás no estofado da cadeira de couro, fechando os olhos para absorver o toque da esposa. As unhas de Lorena arranhavam levemente sua clavícula por baixo do tecido, uma carícia perigosa e familiar.
– Eu só mantenho o quintal limpo para você poder brincar no jurídico, meu amor – Eduarda murmurou, virando o rosto para capturar os lábios de Lorena.
O beijo começou lento, mas rapidamente escalou para a urgência suja e violenta que definia as duas. Lorena puxou o cabelo de Eduarda, aprofundando o beijo, as línguas se encontrando com gosto de café expresso e poder absoluto.
Amor, no dicionário dos Ferette, nunca foi sobre jantares românticos à luz de velas ou declarações clichês. Era sobre quem segurava a faca e quem oferecia a garganta. E Lorena amava Eduarda com a intensidade de uma psicopata. Ela amava a genialidade cruel da ruiva. Amava o fato de que a mulher que o mercado via como um anjo caído do céu para salvar o império era, entre quatro paredes, a única pessoa no mundo capaz de colocá-la de joelhos e fazê-la implorar.
Eduarda girou a cadeira de repente, puxando Lorena pelo cós da calça de alfaiataria até que a advogada caísse sentada em seu colo.
Lorena ofegou, as pernas abrindo-se instintivamente para se acomodar sobre as coxas da CEO. Ela olhou no fundo dos olhos marrons de Eduarda, mas, dessa vez, a névoa de luxúria cedeu espaço a uma clareza cortante.
Lorena olhava para a mulher que subornava juízes, manipulava a imprensa e a política nacional e chantageava velhos engravatados sem nem piscar. A mulher que havia aniquilado os próprios cunhados a sangue frio.
E Lorena nunca a achou tão fascinante.
– Sabe qual é a pior parte? – Lorena sussurrou, a voz perdendo a ironia, descendo para um tom grave e cru. Ela traçou a linha do maxilar de Eduarda com o polegar – Eu passei a vida inteira achando que o meu problema era não ter alguém para me frear. Achando que eu precisava de alguém com moral o suficiente para me salvar de ser a mesma escória que o meu pai era.
Eduarda não sorriu. Ela apenas sustentou o olhar, as mãos firmes apertando a cintura de Lorena com possessividade.
– E aí eu me casei com você – Lorena continuou, um sorriso torto, quase melancólico pela própria inevitabilidade, desenhando-se em seus lábios – Uma mulher que suborna juízes com a mesma naturalidade que pede um café expresso. Que cortou o pescoço dos membros da minha família enquanto sorria para as câmeras. Você é o ser humano mais inescrupuloso e dissimulado que já pisou na Faria Lima, Eduarda Fragoso.
Lorena inclinou o rosto. Seus narizes se roçaram, a respiração quente e pesada misturando-se no espaço mínimo entre elas. Os olhos verdes da advogada transbordavam uma honestidade nua, despida do ego gigantesco dos Ferette. Mas aquilo não era uma rendição poética – era a constatação de que ela finalmente havia encontrado o seu espelho.
– E eu te amo pra caralho por isso – a confissão de Lorena saiu, rasgando a garganta – Eu amo o fato de que você é tão podre quanto eu. E eu amo que, com você, eu não preciso fingir que eu presto, nem por um segundo. Eu te amo, Eduarda. Absurdamente.
A máscara de vidro e gelo de Eduarda rachou. Para uma mulher que passou a vida inteira manipulando peças no tabuleiro, ouvindo apenas mentiras e bajulações, ser amada exatamente pela sua falta de escrúpulos era a forma mais alta e perigosa de devoção.
A respiração da ruiva falhou por uma fração de segundo. Ela ergueu as mãos, segurando o rosto de Lorena com uma força que beirava o desespero. Os olhos marrons queimavam com uma intensidade letal.
– Você nunca precisou de salvação, Lorena – Eduarda murmurou, a voz rouca, roçando os lábios nos da esposa. O polegar da CEO acariciou o lábio inferior da advogada, marcando seu território na alma dela. – Você só precisava de alguém que não tivesse medo de quem você realmente é. Alguém que soubesse exatamente como te segurar e te erguer ao topo.
Lorena fechou os olhos, soltando um suspiro trêmulo de pura aceitação quando Eduarda a puxou para um beijo.
Não foi um beijo agressivo como o das brigas, nem desesperado como o do sexo entre as duas. Foi profundo e definitivo, selando um pacto silencioso com gosto de café e… bom, uma dose de cumplicidade criminal.
Elas eram terríveis, eram o veneno e a cura uma da outra. Mas a realidade que batia à porta era uma só: o império do velho Santiago havia morrido para sempre com o patriarca. Por outro lado, o reinado de Eduarda e Lorena, construído sobre a mais pura, suja e inquebrável lealdade, estava só começando.
