Work Text:
A madrugada caiu e já é tarde o suficiente para o prédio estar vazio. Ao menos, predominantemente vazio. Além da guarita dos funcionários da segurança noturna, que você consegue evitar com facilidade, há somente uma sala onde as luzes estão acesas. Uma sala que você conhece bem cada cantinho e cada cantinho do homem que você sabe que está sentado lá encarando uma pilha de documentos física ou digital, mesmo que a hora de ir para casa já tenha passado há muito tempo.
Para você, isso só torna tudo mais divertido ainda.
Você se esgueira pelos corredores, evitando as câmeras, pois você já conhece o posicionamento de cor. Abre a porta devagar, evitando qualquer barulho desnecessário e fecha da mesma maneira, apenas tirando suas luvas quando já está dentro da sala, jogando-as num canto qualquer que não o interessa agora. Nada disso é exatamente necessário, você nem sabe, mas qual seria a graça?
Você poderia encontrar Higuruma em qualquer outro lugar do mundo, mas no habitat natural dele é tudo mais divertido. Parte porque você sabe que não deveria estar aí e Higuruma também sabe que não deveria fazer isso, parte porque também te lembra de como se conheceram. Você, no banco dos réus por algo que você nunca cometeu. O que te ofendeu profundamente, afinal, tantas foram as coisas que você fez e foram acusar-lhe logo de algo em que você era inocente. Higuruma chegou como um anjo e o salvou da acusação injusta. Com o jeito dele, certinho, arrogante, o mais justo dos advogados, você temeu contar sobre o resto de sua… carreira para ele, então se calou sobre qualquer coisa que não fosse sobre o caso.
Ao menos, até sua sentença sair. Ao menos até, pouco mais de duas semanas depois, seus verdadeiros roubos serem notícias em jornais. Ao menos até aquela exposição de museu tão tentadora.
Você não mentiu em nenhum momento para ele, apenas omitiu. Mesmo assim, a primeira vez que o encontrou depois disso, ele não pareceu muito feliz com isso.
A tensão entre vocês era grande, palpável, e você realmente a sentiu quando, num ato em conjunto, os dois partiram para a coisa mais inesperada possível. Foi inebriante, inesquecível, coisa que você achou que seria pra uma vez só na vida, mas também foi viciante e você se viu voltando de novo e de novo para aquele mesmo escritório de advocacia, na sala de número 42. Ele, de alguma forma, mesmo com sua moral e todos os seus princípios e de discordar mortalmente de quem você é e o que você faz, continua te esperando voltar.
Por isso, não precisa de uma conversa quando os olhos dele se desviam da pilha de documentos sobre um caso qualquer. Não há a necessidade de desculpas ou de meias palavras nem sinceras e nem mentirosas. Nenhum dos dois vai mudar nunca e essa é a primeira certeza que vocês têm. A segunda é que vocês também nunca vão parar isso.
Ele cuidadosamente retira a pilha de papéis de cima da mesa, os colocando sobre outra superfície. Afasta gentilmente tudo que pudesse atrapalhar vocês em cima da mesa e, só então, te encara diretamente. Seus olhos têm milhares de palavras não ditas, mas que você aprendeu a ouvir de maneira única. Você se aproxima, tirando a roupa e a jogando de qualquer jeito por aí, tudo com um sorriso que já diz tudo o que você pensa.
Hiromi rodeia a mesa e o primeiro lugar onde te toca é na sua cintura, se segurando ali como se precisasse de um apoio. O jeito que ele te toca é sempre seu ponto fraco, algo que te faz se ceder a ele, se deixar vulnerável e maleável de um jeito que você não é com mais ninguém. Ele te puxa para perto, sente seu corpo contra o dele e solta um barulho do fundo da garganta, como se tivesse passado o dia inteiro estressado e esperando apenas por isso para serenar. Você apostaria que isso é verdade, se conseguisse pensar direito. Nesse momento tudo que seu cérebro consegue fazer é pintar as cenas obscenas que você imagina que estão por vir.
Ele segura seu queixo como se sentisse você escorrendo pelos dedos dele, firme, quase possessivo, embora disso você saiba que ele não tem exatamente nada. Ele não se importa quando você sai por aí, não liga para onde ou para quem você vai, ele só gosta de saber que você volta. Ainda assim, o jeito que ele te traz até ele para te beijar é como se dissesse o exato oposto disso e você nunca sabe lidar com isso.
É como um misto de fome e saudade, como a realização compulsiva de um desejo proibido que se torna vício e obsessão, como uma exigência, é pessoal demais. É tudo o que vocês são. Assim como é o primeiro passo para que ele te vire e te debruce sobre a mesa, percorrendo seu corpo com todos os mesmos sentimentos até lá embaixo.
Ele te devora como pode, a frente e atrás, ataca suas coxas e marca sua bunda quando te faz ficar de bruços sobre a mesa. Te aperta, te bate, te acaricia. Suas mãos e sua boca te dizem, com ações e gestos e sem palavra alguma, que você é como a esposa e a puta dele, ao mesmo tempo, sem nenhuma transição. Ele é terno e bruto e você nunca sabe o que esperar e essa sensação te inebria mais do que qualquer licor.
Quando seus dedos te invadem é com paciência e precisão, Higuruma gosta de fazer tudo do próprio jeito e disso ele jamais abre mão, não importa o quão estressado ou com vontade de você ele esteja. Ele primeiro te faz terminar quantas vezes for preciso para te ver no exato estado em que ele gosta, não mais e nem menos do que isso, não importa o quanto você implore para que seja antes quando se sente impaciente.
Quando você já sente seu corpo tremer, um choro querer subir pela garganta e o cérebro mal conseguir pensar direito, Hiromi finalmente julga o suficiente. Ele dá um sorriso satisfeito enquanto tira os dedos de você e finalmente abre o zíper da calça. Um gemido rouco do fundo da garganta dele enquanto Higuruma entra em você é o que sela seu destino. Você revira os olhos e pede um “por favor” que não sabe nem ao que se refere direito, mas ele parece saber. Dessa vez não há ternura ou paciência, apenas um ritmo descomedido com a presunção de que você o irá aguentar e as mãos dele te segurando tão forte no lugar que você sabe que manterá tatuadas as silhuetas delas arroxeadas em sua cintura.
Assim como ele entrou inteiro de uma vez, Higuruma tira quase tudo, apenas para empurrar inteiro de novo, chegando o mais fundo que consegue em ti. Você arranha as costas dele, quase grita nesse ritmo frenético, mas em certo momento ele te puxa pelo cabelo e a boca dele te abafa. É muito, é demais, é exatamente o que você gosta e precisava ter, ainda mais vindo dele, mas é tanto que seu cérebro mal consegue processar o pau que entra e sai de você e a língua que dança com a sua ao mesmo tempo.
Quando Higuruma te dá espaço para respirar, ele parte para seu pescoço, mordendo, beijando, mordendo, mascando, percorrendo com a língua, como se não tivesse feito isso antes e precisasse o fazer agora, como se ele não tivesse falta de ar alguma e pudesse continuar até o infinito. Por favor, continue, você pensa, mas a boca não consegue soltar nenhuma palavra consistente, nem mesmo o nome que você não para de chamar, Higuruma, soa correto. Isso parece ser como combustível para as chamas em que ele queima, pois Hiromi, tão rápido que você mal raciocina, sai de você, te vira para que fique de frente a ele e volta para dentro novamente, dessa vez juntando suas pernas e as colocando de lado.
Você só consegue virar uma bagunça maior ainda, ainda mais com os olhos de Higuruma te comendo que você sente que essa expressão nunca foi tão literal. Os olhos escuros te encaram como se ele quisesse te engolir além da boca dele engolindo a sua, além do pau dele engolindo qualquer sanidade que você ainda tivesse. Como se tudo que ele tem de você, isto é, tudo, porque ainda que por uma noite — que se repete mais do que o planejado —, você se entrega por inteiro para ele, deixa ele fazer tudo que quiser como o quiser, ele ainda precisa de mais. Ele quer mais de ti. Ele te quer mais. Mais e mais. Nunca é o suficiente de você.
O pensamento, mesmo vindo de maneira quebrada em sua mente, te quebra ainda mais. Te torna pedaços, cacos, rabiscos do que você é ou foi, você nem saberia dizer agora, mas, para Hiromi, você agora é mais que uma obra prima. Ele parece mais do que satisfeito com o seu estado atual, um sorrisinho arrogante de satisfação o pinta os lábios. Ele se pergunta, ainda que você não saiba, se ele é o único que consegue te deixar assim. Ele te indagaria, massagearia o próprio ego com suas tentativas patéticas de resposta desaguando em mais gemidos, mas ele sabe que a resposta é sim. Só ele. Apenas doutor Higuruma Hiromi pode te deixar assim e é por isso que você sempre volta para ele.
Você chora, se desmancha em lágrimas, mas não quer que ele pare. Você tenta implorar para que ele não pare, mesmo que isso só saia como sons incoerentes e gemidos desesperados. Ele entende sua mensagem de algum jeito, não para, apenas continua, continua te quebrando, continua indo fundo em você, continua gemendo do fundo da garganta e continua segurando suas pernas para que você não consiga abrir. Com a destra livre, te dá tapa na cara, na bunda, na coxa, segura seu rosto e te faz olhar nos olhos dele enquanto te pune por ser a cadela que você é, mas a canhota continua te segurando, deixando claro com seus gestos que não quer que você mude.
Termina dentro de você, dessa e das outras vezes. Quando não lá embaixo, na sua boca. Quando não é metendo devagar, é num ritmo desenfreado que não desacelera, como se você fosse o único a se afetar por isso. E você se afeta, o acompanha quando consegue, mas é difícil se segurar quando ele faz de tudo para que você venha seguidamente. Ele se diverte, dá um riso quase de escárnio quando você o faz, bate mais na sua cara e te bota em outra posição para continuar como se não fosse nada.
Quando termina em sua boca, Hiromi espera que você engula tudo. Quando você não o faz, já completamente burro de tanto levar pau, o corpo mal te obedecendo e a porra dele escorrendo pelo seu queixo, ele te bate. Te bate na cara, te puxa para o chão e o bota de quatro, segura seu pescoço enquanto continua te fodendo. Ele não precisa falar nada, você sabe que fez errado. Você sabe que precisa agradar ele e, embora seja uma punição, Higuruma também sabe que você gosta tanto de ser tratado assim que também é um incentivo. Então quando ele faz de novo você tenta ainda mais o agradar, ajoelhado, tentando segurar com as mãos o que escorre da sua boca. Ele dá uma risada de escárnio de novo, mas te puxa mais uma vez para a mesa, te debruça lá e continua, como se elogiasse seu desempenho dessa vez. Você sabe que parece completamente patético, entregue a ele e tudo que ele quiser fazer contigo e todo o pau que ele te der. E é exatamente assim que ele gosta de você.
E é também exatamente o jeito que você gosta de ser tratado. Tanto o é que você continua voltando, porque nunca é o suficiente dele. Tanto o é que você deixa ele continuar até você realmente pensar que vai quebrar de vez. Você nunca pede para parar porque você não quer parar. Ele para sozinho, averigua seu estado com os olhos tão frios quanto uma lâmina de corte e decide se continua ou não. Quando você já está longe, quer muito falar, quer muito pedir para que ele continue, quer muito se sentir assim para todo o sempre, mas nenhum balbuciar ridículo são da sua boca e é geralmente assim que ele bate o martelo. É exatamente o que ele o faz e, quando você percebe ele te olhando dessa maneira, quase se desespera. Você precisa dele, precisa que ele continue. Você tenta mexer seu quadril para continuar sozinho, mas ele sai de você e se afasta um pouco. Você choraminga, mas aceita. Continua choramingando, nem sabe exatamente o porquê. Seu cérebro não funciona mais direito.
Como sempre, foi demais. É demais para que você só coloque sua roupa e fale algo provocativo, pisque e saia rebolando como é de seu feitio. É demais para que você faça alguma piadinha suja ou peça para mais uma ou mais um dia. Você não se aguenta em pé, suas pernas estão bambas quando Hiromi te coloca no chão e te guia até o sofá no canto do escritório, mais te levando do que te auxiliando a andar. Você deita ali e até ouve de longe ele te perguntar algo, mas cai no sono sem sequer ter escolha. Você não viu, mas ele deu uma risadinha com isso.
Como sempre, você acorda quando clareia a manhã, deitado no sofá dele com uma blusa servindo de travesseiro improvisado e uma manta te cobrindo. Como sempre, é claro demais o brilho do sol que entra pela janela, te lembrando o quão grande ela é e te fazendo pensar se alguém pode ter visto algo do que aconteceu na noite passada. Uma preocupação com Higuruma, sempre, nem com você mesmo. Sobre você, não haveria nenhuma consequência que o mancharia mais, mas, sobre Higuruma, você até chega a temer pela carreira dele. E, como sempre, seus pensamentos ruins são dissipados quando ele passa pela porta segurando duas xícaras de café e te oferece uma, você torce o nariz e reclama que não gosta e ele suspira e te pergunta se você prefere água. Você dá um sorriso. Ele o retribui. No fim, vocês se conhecem um pouco bem demais para dois pseudo estranhos que transam às vezes, mas, como talvez seja a terceira certeza dos dois, é exatamente disso que vocês gostam.
