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Caído por Você | SukuIta

Summary:

Sukuna já escapou da morte mais vezes do que consegue contar.
Uma sequência de eventos improváveis o mantém vivo, como se algo, ou alguém, estivesse sempre um passo à frente, moldando o destino a seu favor.

Não é sorte. Não é coincidência.
É algo maior. Algo que o observa. Que o pode tocar sem ser visto.

Amor proibido / Anjo x Humano
Universo alternativo

Notes:

Olá pessoal.

Mais uma Sukuita pra vocês. Um tema adorável que eu amo. Aproveite! 💗💗🪽🪽❤‍🔥❤‍🔥❤‍🔥

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

𝐃𝐈𝐒𝐂𝐋𝐀𝐈𝐌𝐄𝐑:

  𝘖𝘴 𝘱𝘦𝘳𝘴𝘰𝘯𝘢𝘨𝘦𝘯𝘴 𝘥𝘦 𝘑𝘶𝘫𝘶𝘵𝘴𝘶 𝘒𝘢𝘪𝘴𝘦𝘯 𝘴ã𝘰 𝘥𝘦 𝘎𝘦𝘨ê 𝘈𝘬𝘶𝘵𝘢𝘮𝘪, 𝘯ã𝘰 𝘮𝘦 𝘱𝘦𝘳𝘵𝘦𝘯𝘤𝘦𝘮, 𝘱𝘰𝘳é𝘮 𝘵𝘰𝘥𝘰 𝘰 𝘦𝘯𝘳𝘦𝘥𝘰 𝘥𝘦𝘴𝘴𝘢 𝘩𝘪𝘴𝘵ó𝘳𝘪𝘢 𝘢𝘭𝘵𝘦𝘳𝘯𝘢𝘵𝘪𝘷𝘢 é 𝘮𝘦𝘶, @𝘔𝘪𝘹𝘣𝘭𝘶𝘦𝘴__.

 

 

𝐋𝐄𝐆𝐄𝐍𝐃𝐀

( “ Conversa duas aspas ” )

(‘𝘗𝘦𝘯𝘴𝘢𝘮𝘦𝘯𝘵𝘰 𝘶𝘮𝘢 𝘢𝘴𝘱𝘢 𝘤𝘰𝘮 𝘪𝘵á𝘭𝘪𝘤𝘰’)

( 𝘕𝘢𝘳𝘳𝘢çã𝘰 𝘦𝘴𝘱𝘦𝘤𝘪𝘢𝘭 𝘦𝘮 𝘪𝘵á𝘭𝘪𝘤𝘰 𝘴𝘦𝘮 𝘢𝘴𝘱𝘢𝘴)

 




_________________________________________________



Quantos momentos de quase morte um ser humano pode passar durante a vida? Algo tão precioso, frágil e de tão grande valor.

 

E quais as chances de o mundo estar dando uma pista de que algo incomum, que não deveria, mas está acontecendo?



Sukuna não se considerava um jovem adulto sem noção; ele sempre olhava para os dois lados antes de atravessar a rua, não saía quando o meteorologista dizia que uma tempestade estava chegando e sempre se certificava de que, ao sair de casa, os eletrodomésticos estivessem desligados.

 

Porém, para alguma piada do universo… naquele exato momento, ele estava em sua “experiência de quase morte” número dez.

 

Ele estava prestes a dar um passo na calçada para atravessar a rua quando percebeu que os cadarços dos sapatos estavam desamarrados. Dada a essa necessidade, parou e se agachou para amarrá-los; de repente, um grande barulho adiante fez com que ele perdesse o equilíbrio e caísse sentado no asfalto.

 

Dois ônibus colidiram de frente naquela pista. Quais eram as probabilidades?



Sukuna bufou com a piada que é a sua vida e continuou. Era ridículo o modo como ele se acostumou com esse tipo de evento. Esse foi o décimo incidente que presenciara.

 

A primeira foi quando, para resgatar um gato preto no meio de uma tempestade, ele evitou pisar uma poça d'água. Mais tarde, perceberia que um cabo elétrico havia sido cortado e caído nela; se ele tivesse pisado, teria certamente morrido eletrocutado.

 

A segunda foi quando seu relógio se recusou a soar o alarme e ele acabou perdendo o voo de Tóquio para Kyoto. Mais tarde, a notícia revelou que exatamente o seu avião havia caído subitamente sem aviso de alerta em uma área residencial.

 

A terceira foi num restaurante. Sukuna havia aceitado a sugestão do garçom e pedir o “sashimi da casa”, mas, por algum deslize, houve um acidente com os ingredientes da cozinha e ele decidiu mudar o pedido por impaciência. Minutos depois, quatro pessoas que pediram o sashimi anteriormente foram levadas ao hospital com intoxicação alimentar grave. Uma delas entrou em coma por três dias.

 

A quarta aconteceu quando ele resolveu correr no parque para aliviar o estresse. Ao sair de casa, deu falta dos fones de ouvido e voltou para buscá-los, por mais que tivesse a certeza que tinha colocado do bolso da calça.

 

Nesse intervalo de três minutos, um raio caiu exatamente na árvore sob a qual ele costumava fazer alongamento. Saiu na TV local como “milagre”.

 

E ele poderia continuar listando.

 

Tornou-se um tanto… normal fazer isso; poderia se dizer: todos os dias.

 

Não que ele tivesse aceitado o fato de morrer a qualquer momento, ou que estivesse mais do que convencido de que qualquer divindade que o observasse do céu era um pirralho mimado com uma lupa, transformando-o em uma formiga miserável.

Foi bem dito que um ser humano não é nada quando comparado à vontade de Deus, ou quem quer que seja.



E Sukuna sabia muito bem qual era o seu lugar em todo o cosmos; embora também soubesse que ele próprio poderia ser muito teimoso. Então, como boa ‘criatura do Senhor’, ele teve que testar o quanto o seu Deus estava disposto a fazer por ele.

 

‘O que eu poderia perder?’ Pensou certo dia.



Além de sua vida, é claro.



Considerou, por livre e espontânea vontade, se fazer de cientista louco, sendo cobaia dele mesmo ao fazer uma pesquisa de campo. 



Estava disposto a se colocar em perigo para ver se estava certo; e, no fundo, sabia que era isso. Muitos eventos haviam acontecido para categorizá-lo como uma série de coincidências.

 

Mas foi extremamente difícil planejar sua morte ‘acidental’.

 

Certa vez, Sukuna permaneceu nos trilhos do metrô, de braços abertos; ficara surpreso por ninguém ter se apresentado para tirá-lo de lá e impedir sua tentativa de suicídio. No segundo seguinte, ele ouviu uma voz alta dizendo que o metrô havia parado de funcionar naquele dia.



Definitivamente havia alguém manipulando seu destino.



A curiosidade o comia vivo, até onde esse estranho poderia ir…? Deus? Carma? Sukuna não conseguia decidir.

 

Ele já havia se metido em encrencas muitas vezes na infância, devido à sua natureza curiosa; quando segredos ou situações estranhas eram reveladas diante dele, brotava em seu coração a necessidade de saber como funcionava, sua origem e seu fim. Certamente foi por isso que escolheu uma carreira na qual pudesse desvendar mistérios à vontade. Ele escolheu estudar anatomia na Universidade de Tóquio, para que algum dia se tornasse legista.

 

Então estaria Sukuna disposto a jogar isso fora somente para testar uma hipótese? Não, claro que não.

 

Ele não era um idiota.

 

Mas esperava que o ‘Deus’ que estava cuidando dele estivesse. Dessa forma, ele somente teria que fazê-lo acreditar que estava prestes a morrer. Assim, talvez essa entidade curiosa aparecesse na frente de Sukuna.

 

Daí veio a grande chance final de uma vez por todas.

 

Nos próximos dias de folga da universidade — devido a um festival internacional que reuniu os intercambistas para estreitar os laços com outros países — Sukuna visitou o edifício Tokyo Opera City Tower, um arranha-céu de cinquenta e quatro andares localizado em Shinjuku.

 

Ele não se mataria, sabia disso. Só precisava testar sua teoria. Assim, sem que os seguranças percebessem, entrou pela escadaria e pegou o elevador até o telhado.

 

Demorou mais ou menos um minuto devido à distância.

 

Lá em cima, o barulho da cidade se calou. Era como se o mundo inteiro tivesse parado, e tudo o que Sukuna conseguia ouvir eram as fortes rajadas de vento. Suas mãos estavam dormentes, mas começaram a suar de nervosismo.

 

Seus joelhos tremiam levemente. A temperatura caía, e o oxigênio rareava. O vento gelado bateu em suas bochechas enquanto ele se aproximava da borda.

 

Só precisava ficar ali. Algo aconteceria — ele tinha certeza. Talvez um helicóptero surgisse do nada. Ou, de forma absurda, alguém estivesse montando um trampolim gigante no asfalto, pronto para apará-lo no momento exato.

 

Então ele subiu no parapeito, ficando na ponta do prédio.

 

Fechou os olhos, o vento ali era mais barulhento e chato. Sukuna abriu os braços e esperou. Um, dois, três minutos.



Nada.




Absolutamente nada.





Ao abrir os olhos bufou, um pouco desapontado por refutar sua teoria; Talvez ele precisasse se jogar do prédio, mas não era louco o suficiente para fazer isso. Tinha sido uma experiência educativa e ele quase conseguia ouvir a voz de Uraume em seu cérebro: ‘Você realmente achou que algo iria acontecer, Sukuna…?’

 

Ele era um sonhador, não conseguia evitar. Sempre acreditou que o fantástico existia e, talvez, a sua vida estivesse destinada a descobri-lo.

 

Respirou fundo e se virou, era hora de voltar à sua vida diária.



Quando abriu as pálpebras encontrou dois grandes olhos dourados, bem na frente do rosto. “O que você está fazendo?”

 

“PORRA!” Sukuna gritou de surpresa. Tinha um cara ali, na frente dele. Ou era um garoto?



‘De onde diabos saiu?’



Ele recuou sem pensar e a borda do prédio terminou; seu mundo literalmente virou de cabeça para baixo quando caiu do arranha céu.



"MERDA, MERDA, MERDA!”

 

 Era tudo o que saía pela sua boca enquanto caía a toda velocidade. Ele teve que aceitar que esta foi definitivamente a coisa mais estúpida que fez em toda a sua existência e agora, como resultado de suas escolhas, ele enviaria toda a sua vida para o inferno.



O vento correu por seu rosto numa velocidade incrível. As lágrimas começaram a sair de seus olhos enquanto tentava ver os pontinhos lá embaixo se aproximando. Até que… ele parou de cair… ou melhor, alguém o pegou.



O mesmo garoto de cabelos como de cerejeira e olhos dourados o segurava nos braços. Sukuna empurrou-o pelos ombros, para longe de si.  Estava convencido de que o estranho personagem reluzente conseguiu drogá-lo ou algo parecido.

Ele escorregou daqueles braços, mas, para sua surpresa, continuou caindo no precipício.

 

“MAS QUE DESGRAÇA!”

 

Ele gritou novamente ao ver a calçada e sua morte se aproximando a centenas de quilômetros por hora.

Mas desta vez, ele parou de cair, sendo sustentado somente pela camisa. Sukuna olhou para cima, o mesmo jovem de olhos dourados segurando-o enquanto… voava?



"ME SOLTE, ME SOLTE! PORRA" Ele gritou.

 

"Se eu fizer isso, você vai morrer", o garoto fez um beicinho. “Era isso que você estava tentando fazer?



Ok, então esse tempo todo ele não estava lidando com um gênio nem nada.




Ele queria vomitar.

Sua mente começou a vagar em como isso tinha sido uma péssima ideia.

 

E agora a sua estupidez o estava fazendo pagar.



“Eu ainda vou morrer, certo?” Murmurou vendo o chão se afastar, como um filme que estava sendo voltado ao início por um controle remoto.

 

Em instantes, acima de sua cabeça, estava o telhado do prédio de onde ele havia caído, quando ele foi cuidadosamente recolocado de volta no lugar. 

 

Sukuna puxou com força a camisa da mão do garoto de olhos dourados. O ácido surgiu em sua garganta e com urgência, vomitou no chão e tossiu violentamente.

 

"Sente-se bem? "perguntou o garoto com uma voz manchada de curiosidade, inclinando a cabeça.

 

"Como diabos você acha que vou me sentir bem?! "Sukuna sibilou, limpando a saliva e o suco gástrico do queixo. "E quem diabos é você?”



“Você está xingando muito”, disse o desconhecido alarmado; “isso não é educado, eles podem punir você. Mas eu também não estou sendo!” Ele disse e depois gritou, agarrando mechas rosadas como chiclete que eram seus cabelos. 

 

Isso o assustou. “Como assim?”

 

“DESCULPA, DESCULPA!” A figura curvou o corpo muitas vezes, se lamentando.

 

Todo o sangue sumiu do rosto de Sukuna quando notou ambas as enormes asas projetando-se das costas do menino. Cheios de penas douradas e brancas… eram gigantescas…

 

'Isso… isso não poderia ser real… certo?'



“Eu sou Itadori Yuuji,” o garoto se apresentou, “seu anjo da guarda.” Esboçou um amplo sorriso branco que poderia ser mais ofuscante que o sol.



"Hum?”Tinha que estar brincando, realmente não pode… tinha que estar brincando. "Você está dando em cima de mim?”

 

O ‘anjo’ riu alto e começou a recuar, tropeçou em uma pedra e caiu sentado no chão. Sem qualquer elegância.

 

Os anjos não deveriam ser criaturas lindas e cheias de graça?

 

“Você é um humano muito engraçado!” O garoto de cabelo colorido se alegrou e se ajoelhou no chão. Vestia roupas brancas largas; era um quimono com as cores branco e dourado. As asas nas costas faziam pequenos movimentos toda vez que o anjo falava ou ria.

 

Vendo seu rosto, Sukuna se corrigiu mentalmente, o anjo era realmente lindo, mas seus movimentos ainda eram desajeitados e ásperos.

 

"Você.” Sukuna apontou. "Itadori," ele se corrigiu vendo o outro contorcer o rosto.

 

“Pode ser Yuuji mesmo.”



Sukuna pigarreou com a garganta, repetindo. "Você, Yuuji, é meu anjo da guarda?” 



"Sim.” Os olhos dourados nem piscaram confirmando.



"Você está brincando?”



 "Não.”



Sukuna tirou os cabelos corais avermelhados dos olhos — que nessa hora estavam muito bagunçados — e coçou o couro cabeludo vigorosamente. O ridículo da situação estava finalmente surgindo em seu cérebro e ele começou a rir alto e loucamente. Yuuji acabou rindo com ele, cheio de inocência.



"Por que ri?” Sukuna perguntou com alegria distorcida.

 

"Não sei", Yuuji concordou com uma risada melodiosa. “Não é educado rir quando alguém conta uma piada?”

 

"TEM RAZÃO! "Sukuna explodiu em outra gargalhada falsa. "Oh, deus, oh deus! Agora você vai me dizer que foi você quem me salvou toda vez que estou prestes a morrer?!”



"SIM". Yuuji concordou com um sorriso e depois desabou em uma confusão decepcionada. “Espere, eu fui muito óbvio?” 

 

"Demais! Vamos lá, você acha que sou um idiota?” A expressão de Sukuna ainda era de falsa alegria. “A morte está literalmente na minha frente, mas então algo me salva! Estou tão propenso a morrer?”

 

As bochechas do anjo ficaram rosadas, sua pele levemente morena contrastava com suas bochechas coradas. "Eh… devo admitir que a culpa é minha.”



“Quê?” A risada parou então.

 

“Sim.” A afirmação parecia deixar o jovem alado envergonhado.“É muito provável que às vezes eu me distraia e não veja além do seu futuro, fazendo você seguir sua morte até que eu corra para te resgatar no último minuto…”



“PORRA! VOCÊ ESTÁ BRINCANDO COMIGO?”



“Não xing—” O anjo tentou corrigir.



“QUE DIABOS!” Seu rosto se contorce, franzindo o cenho e ele continua gritando. “VOCÊ ESTÁ ME DIZENDO QUE É VOCÊ QUEM CUIDA DA MINHA SEGURANÇA? MAS SEMPRE ACABA SE DISTRAINDO E É EXATAMENTE POR ISSO QUE EU ESTAVA TÃO PERTO DE MORRER TODAS ESSAS VEZES?”

 

“Sim…” O garoto mordeu os lábios, mexendo no chão com os pés como se tivesse algo muito interessante ali.

 

Foi então que a realidade caiu sobre Sukuna.

 

“Caramba! Meu anjo da guarda é um idiota!”



__________________________




Foi difícil digerir toda a informação e agora ele entendia que sua existência não significava nada. Todas as suas ações não eram suas e esse cara monitorava toda a sua vida o tempo todo.

 

Ele nunca teve privacidade. Então, ele fez a única coisa que qualquer pessoa sensata faria: ignorar que havia conhecido seu anjo da guarda e entrar novamente no prédio para sair.



Sukuna disparou andando pelas ruas de Tóquio, para seu apartamento e esqueceu todos os acontecimentos estúpidos do dia. 

 

Era uma boa ideia; continuaria com sua vida, estudaria suas aulas e nunca mais sairia de casa porque a entidade que estava a seu cargo tinha algodão-doce no lugar do cérebro e Sukuna poderia literalmente morrer a qualquer momento.

 

Ao passar por uma esquina onde havia uma obra abandonada, andou sobre o amontoado de escombros, cortando o caminho e seguindo em frente.

 

"Isso não foi educado!” Do nada, o anjo de cabelo rosa apareceu, em pé em cima de um hidrante.

 

 “MERDA!” 

 

Sukuna olhou em volta e todos os que passavam na rua olharam para ele como se ele tivesse enlouquecido; porém, ninguém prestou atenção no garoto de asas enormes vestido com um quimono. Ninguém viu nem esboçou surpresa alguma. 



‘Ah, não.’



De jeito nenhum, ele se recusava a parecer um louco falando no meio do nada. Parou então de olhar Yuuji e continuou seu caminho, acelerando o ritmo. Até que o anjo apareceu sentado à mesa de alguns clientes de um restaurante por onde ele passava.

 

“Oii!” Yuuji chamou; as pessoas continuaram comendo sem prestar atenção, e Sukuna continuou a ignorá-lo.

 

Novamente, o anjo apareceu sentado no teto de um veículo que parou ao seu lado em frente a um sinal vermelho.



"SUKUNA!” A figura deu um grito o surpreendendo.



"Você sabe meu nome?” Ele sussurrou, olhando para frente. 

 

"CLARO QUE EU SEI!” Yuuji continuou. "EU SOU SEU ANJO!

 

"Cale a boca, droga", Ele murmurou com raiva, como se alguém pudesse ouvir o jovem celestial.



Isso não parou, Yuuji reapareceu nos lugares mais inusitados, o que o faria rir se não fosse o fato de que naquele momento toda a sua vida havia perdido o sentido. O anjo enfiou a cabeça para fora do buraco do esgoto e gritou: 

 

"SUKUNA!” 

 

Atrás de uma árvore, em cima de um maldito outdoor… O que fez Sukuna começar a correr fungindo dele.



Ele o viu pela última vez na traseira de uma motocicleta e finalmente chegou ao seu apartamento. Ao abrir a porta, fechou-a atrás de si; certificando-se de fechar o cadeado e o trinco. 



Ele estava olhando para a porta quando bufou e seus ombros caíram. "Você também está aqui, certo?”

 

 “Sim!” Veio a mesma voz, atrás dele.

 

Num suspiro, se virou para encarar Yuuji. 



Ao longo de toda a sua vida, ele já havia visto várias imagens de representações de anjos, seja no Google ou no Pinterest. Os mais comuns eram aqueles que tinham forma humana e traços ocidentais. Havia também aqueles que pareciam monstros, com centenas de olhos por todo o corpo. Depois, havia os bebês nus e rechonchudos, chamados de querubins.



Mas ele nunca pensou que eles teriam a aparência de um jovem adulto japonês quase da sua idade; com cabelos rebeldes, mas, ao contrário de sua personalidade, com muita… muita energia.

 

“Tudo bem”, concordou Sukuna, tirando o casaco e colocando-o no cabide perto da porta. “… você é meu… ‘anjo'…”, ele sinalizou, fazendo aspas com os dedos.

 

“Sim”. O garoto respondeu novamente, imitando os sinais que o humano havia feito.

 

 “E você é o responsável por cuidar de mim desde que eu era bebê?”

 

 “Sim”. Confirmou, parecendo de repente alegre, sem nenhum peso nas palavras. 



“Ótimo… Era só o que me faltava…”

 

Ele precisava de uma bebida, então foi até a geladeira, ignorando o cara com asas em sua sala. Yuuji o seguiu como se fosse seu animal de estimação, queimando suas costas com seus penetrantes olhos brilhantes dourados. 

Sukuna, como um bom homem de aparência intimidade — principalmente por ter tatuagens tribais por todo o corpo — odiaria ser um péssimo anfitrião, então ofereceu-lhe uma lata de cerveja também.

 

“Oh! Não é necessário”, o anjo respondeu a ele.



Fazendo sua deixa, Sukuna continuou com sua rotina diária; felizmente, ele era o único morando em seu apartamento, então não precisava se preocupar em parecer estar falando sozinho. Às vezes nem percebia estar fazendo isso, para ele, talvez algo o tivesse atingido com muita força e ele estivesse tendo alucinações vividas; tinha noventa e nove vírgula nove por cento de certeza de que nenhum tipo de anjo da guarda deveria seguir você até sua casa e ficar no meio da sua cozinha.

 

Ao passar por Yuuji, Sukuna notou que era um pouco mais alto que o anjo, o que o fez sentir-se inexplicavelmente orgulhoso. Caminhou até sua sala, deitando no sofá e ligando a televisão.

Apreciando cada gota de álcool que provou com a língua, ele interrompeu a mudança de canal quando entrou em um programa humorístico. O senso de humor era um tanto infantil, mas ele só precisava silenciar o silêncio.

 

"Eu nunca vou entender o entretenimento humano!" Comentou o anjo em voz alta depois de alguns minutos, o que fez Sukuna quase dar um pulo com a voz histérica risonha. "Mas é muito engraçado!” 

 

Era como ter um gato quieto e um cachorro barulhento ao mesmo tempo. Sukuna bufou e mudou de canal, sentindo-se um pouco mais confiante com o estranho ser.

“Se você acha isso engraçado, espere até ver isso.”



Passou o resto da tarde assistindo a diversos canais, até que os raios do sol pintaram sua sala de açafrão, e depois na escuridão total. Embora Yuuji risse quando não havia piadas e às vezes quando os atores acabavam chorando, estranhamente isso fez ele rir também de como isso era inapropriado.



Por volta de meia-noite, Sukuna decidiu ser o suficiente para hoje. Na manhã seguinte, iria ter aulas logo pela manhã. Yuuji, entretanto, sorria para a tela à sua frente. Ele não foi cruel o suficiente para tirar seu entretenimento, então o deixou ficar ali.



“Sonhe com os anjos!” Yuuji se despediu, fazendo Sukuna bufar com a ironia. O garoto de cabelos coloridos parecia ter feito isso deliberadamente porque se juntou às risadas atrasadas dele.



Naquela noite não o expulsaria de seu apartamento.



Uma noite se transformou em duas e depois em uma semana. Quando percebeu, todo o seu Novembro tinha passado.

 

Naquele mês, ele descobriu algumas coisas sobre o anjo. Por exemplo, quando quisesse, poderia se materializar e pegar coisas, levantar outras e até comer.

 

Yuuji era engraçado; Sukuna nunca havia pensado em conseguir um colega de quarto porque não precisava de um. Seu vizinho e melhor amigo Uraume era o suficiente para sua companhia.

 

 Embora o relacionamento deles fosse mais baseado no homem tatuado entrando naquele apartamento quando podia, trazendo pizza e jogando videogame com seu amigo que era tímido e viciado, uma vez por semana, religiosamente.



Ainda faziam isso, só que antes de ir para o apartamento do vizinho, convencia o barulhento pirralho alado a não ousar dizer nada, pois tinha certeza de que Uraume o consideraria louco se percebesse.

 



"Tenha um bom dia!" Yuuji se despediu certa manhã enquanto Sukuna saia de seu apartamento para as aulas; O anjo barulhento muitas vezes ficava assistindo televisão pela manhã; Sukuna estava grato por ele não tê-lo incomodado na universidade.

 

“Oh!” O jovem de cabelos rosados lembrou-se de algo e voou descuidadamente até parar na sua frente.

 

“Deus!” Sukuna recuou, respirando fundo. “Yuuji, quantas vezes eu já disse para você não fazer isso?” O pirralho começou a contar com os dedos. “Esqueça!” Interrompeu o homem de cabelos avermelhados. “O que você queria? Diga-me!”

 

“Então… Você não vai passar hoje pela confeitaria do Wakunan, aquele lugar onde você sempre compra seu café da manhã?” Yuuji o perguntou, cruzando os braços atrás das costas.



“Sim, eu vou.”

 

“Ata! Ou então há nove em dez chances de um carro bater em você.”

 

Sukuna o encarou. “Mas que porra você ta falando?”

 

“Olha a língua!” Avisou o anjo. “E não, eu iria cuidar de você, mas a TV disse que iria passar uma repetição completa da primeira temporada de Dragon Ball Z durante toda a manhã.”



“Você é o pior anjo da guarda que existe,” Sukuna se despediu ressentido. Evitou andar no meio da rua quando ia para a aula. Então, uma ideia lhe ocorreu.

 

Ele se dirigiu de volta para seu apartamento e abriu a porta para encontrar Yuuji sentado no sofá tomando sorvete direto da embalagem; o jovem havia tirado o quimono que estava vestido, revelando uma camisa preta sem mangas e uma cueca bóxer preta dele. Ambas as peças de roupa eram justas nele, já que sua constituição, embora mais baixa, era mais larga que a dele.



"Ei Yuuji!” Sukuna o chamou.

 

O anjo o encarou com as bochechas cheias de sorvete.

 

"Tenho uma pergunta sobre o que você me disse de manhã.” O anjo engoliu em seco o doce e lambeu o restante dos lábios.

 

"Desculpe, Sukuna, não podemos dizer exatamente quando os humanos irão morrer; é proibido e é muito difícil acertar o alvo. O universo é muito mutável.” 

 

"Que? Não, não estou falando sobre isso". Afirmou, porém, o que o outro disse foi interessante então ele arquivou essa informação para perguntar mais tarde. “Quero dizer… vocês, anjos, conseguem ver o futuro?” 

 

"Dependendo das decisões que tomarem e apenas alguns momentos no futuro, dias talvez", Yuuji respondeu e depois cruzou os braços e pensou sobre isso, "é como… Ah! Se você pedir comida chinesa hoje, seu futuro será muito diferente do que se você pedir pizza.” Divagou como se isso fosse algo claro.

 

"Sério?” Sukuna não estava entendendo.



“Cada decisão que você toma, mesmo que mínima, muda tudo; sua linha de pensamentos e, portanto, suas ações e isso, por sua vez, o futuro!”

 

“Pirralho, não quero que você me conte meu futuro, caramba.” E então ele pensou melhor… “Pelo menos não tão longe assim, vem aqui…”

 

Aproximou-se do garoto alado e pegou-o pelo pulso, puxando-o em direção à saída. Yuuji se deixou manobrar e começou a correr com ele para fora do apartamento, sem se importar com as roupas que usava. Sukuna passou por alguns vizinhos, e eles só o olharam com estranheza porque ele estava correndo pelos corredores do prédio.

 

Embora o corpo do anjo fosse sólido, Sukuna fez uma anotação mental de que ninguém além dele o via. Eles chegaram ao estabelecimento por onde o humano havia passado há algum tempo; uma loja de conveniência e foram até o balcão, exatamente onde estavam os bilhetes de loteria.



Era uma forma inteligente de se pensar. Se ele agora tinha um colega de quarto que gostava de assistir TV sem pagar e comer suas melhores frituras, mesmo que não precisasse comer, Yuuji tinha que dar sua contribuição ocasionalmente.



“Eu me pergunto qual ingresso será o vencedor”, ele se perguntou em voz alta.



Essa foi uma indireta para o anjo.



Sukuna o viu pelo canto do olho, Yuuji estava curvado com um beicinho nos lábios; seus olhos pareciam maiores e mais infantis assim.



“Sukuna”, reclamou ele, “isso é ilegal e ruim.”



O homem tinha certeza de que algum vaso microscópico havia explodido em seu cérebro devido à raiva. Então ele saiu do estabelecimento e no caminho pegou Yuuji pelo pulso. O corpo alado não pesava mais que uma pena e Sukuna conseguia manobrá-lo com facilidade.

 

“Yuuji,” ele começou em um tom ameaçador quando eles estavam em um beco e ninguém conseguia ver como estava falando sozinho. “Não fique assim, inferno! Você come minhas batatas fritas e meus doces sempre que pode!”

 

“Não sei, Sukuna…” O humano então revirou os olhos.



“É por toda essa coisa de ser 'uma criatura de luz e de bem'”? Yuuji mordeu o lábio e assentiu. Sukuna pensou um segundo que talvez pudesse ter ficado olhando para aquele gesto adorável por mais segundos do que o necessário. Sua voz então foi amansando.



“Ah, vamos, não é ruim; Pelo que sabemos, esses caras ricos enganam todos os pobres diabos para que gastem todo o seu dinheiro em troca de um mísero vislumbre de esperança. Yuuji, eu sou um pobre diabo e você me deixa mais pobre; Não é seu dever cuidar de mim?”

 

"Sim, é", a voz pequena murmurou com a explicação.



“Você não quer cuidar de mim?”

 

“É o que eu mais amo no mundo inteiro”, ele respondeu, com tanta sinceridade que Sukuna sentiu um calor se espalhar por suas bochechas.

 

“Então está decidido!” Bateu palmas para sair daquele estranho hipnotismo. “Faça isso por mim!”




O anjo entrou com ele na loja e apareceu do outro lado do balcão, olhando atentamente cada ingresso. Sukuna passou o tempo olhando as frituras nos corredores. O vendedor estava folheando uma revista de entretenimento, distraidamente alheio ao novo cliente. 

 

Yuuji chamou-o quando descobriu qual era o bilhete que vinha com prêmio.

 

“Não é o maior prêmio”, explicou, “nenhum aqui tem, mas com este”, apontou um deles, “você pode ganhar oito mil ienes…”

 

"Eu quero esse! "exclamou Sukuna, apontando para o que o anjo lhe havia contado.

 



"NÃO ACREDITO QUE FIZ ISSO", gritou Yuuji assim que chegaram em segurança em seu apartamento.

 

"Você está chorando mesmo?” Ele ficou surpreso ao ver os olhos enormes de Yuuji, úmidos e vermelhos.

 

"NUNCA FIZ ALGO TÃO PERVERSO! TÃO PÉRFIDO! SOU TERRÍVEL, HORRÍVEL, MEREÇO A MORTE! EU NÃO MEREÇO ESSAS ASAS!” Ele gritou enquanto soluçava, apontando para si mesmo.

 

“Espere, espere”, Sukuna tentou permanecer em silêncio automaticamente, até se lembrar que ninguém devia ter conseguido ouvi-lo. “Yu..Yuu, não diga isso…”

 

“Me mate, Sukuna, me mate!”

 

"YUUJI! "Sukuna pegou o rosto molhado dele entre as palmas das mãos; o garoto estava fungando sem parar, então aproximou seu rosto do dele.

 

“Para! Se você quer culpar alguém, então me culpe! Vamos.” Ele cantarolou, os olhos de Yuuji pareciam maiores através de suas lágrimas quentes, seu nariz estava vermelho e seus lábios faziam beicinho, fazendo-os parecer mais cheios, “Vou comprar para você aqueles pockys de panda que você tanto gosta."

 

“Não quero nada comprado com aquele dinheiro contaminado”, o garoto olhou para o lado com seus olhos brilhantes. “… e também não posso culpar você… não posso te julgar, você é meu humano e aos meus olhos não há nada tão mal que você faça de errado, que me faça parar de… protegê-lo.”

 

“Eu poderia matar e você ainda me defenderia?” Sukuna perguntou, cheio de curiosidade. 

 

“Sim, não seria eu quem iria te julgar e se dependesse de mim, sempre te protegeria.”



“Eu poderia mentir e você ainda me defenderia?”

 

“Sukuna, você acabou de fazer algo pior e eu continuo aqui”, ele revirou os olhos, lembrando-se do homem de cabelos corais quando era criança e também adolescente, fazendo tatuagens pelo corpo todo para se mostrar intimidante para as pessoas. 



“Eu poderia fazer isso e você ainda me defenderia?” 

 

“O quê—?”

 

Mas ele não conseguiu terminar porque Sukuna encostou seus lábios nos dele.

 

 Foi apenas o impulso do momento e Sukuna era ruim em lutar contra seus instintos. Então, era impossível ter um garoto tão bonito e perfeito como Yuuji fazendo beicinho e parecendo tão inocente na frente dele, e não o beijar na hora. Inferno, se dependesse dele, ele faria muito mais do que somente isso.



O jovem alado arregalou os olhos e suas sobrancelhas alcançaram a linha das franjas do cabelo. 

 

"Yuu…?”

 

O som de enormes asas batendo o assustou e a próxima coisa que notou foram as penas douradas e brancas caindo até a altura de suas mãos. Yuuji havia desaparecido.

 

“Merda!”

 

Ele havia estragado tudo.





Uma tarde normal para Ryomen Sukuna, arruinando tudo de bom que ele tinha em sua vida. Foi por essa razão que ele era péssimo em relacionamentos. Ele demorava a se apaixonar, e se apaixonasse era direto, e então seu cérebro entrava em curto-circuito; começando a acreditar que seus sentimentos eram correspondidos por simples atos de bondade e amizade. Quão estúpido ele deve ser para pensar que viu um potencial interesse romântico em um maldito anjo?

 

Yuuji não estava presente naquela noite.

 

Se seu anjo ainda estava ao seu lado, cuidando dele, mas sem ser visto, ou se ele o havia abandonado completamente, Sukuna não sabia.

 

Mas ele se sentiu completamente sozinho.

 

Dois dias se passaram sem notícias de Yuuji.

Sukuna preferiu retomar a rotina que tinha desde antes de conhecê-lo; acordar, assistir às aulas e passar um tempo com seu melhor amigo de infância. 



Então, agora aqui estava ele, deitado na cama de Uraume, olhando para o teto e olhando para uma marca de ketchup que fez quando assustou o garoto de cabelos tingidos como uma brincadeira nada normal. Uraume acabou se assustando tanto que arremessou o cachorro-quente no teto, manchando-o.




“Eu estraguei tudo, Uraume”, queixou-se ele. A única coisa que se ouvia no quarto além de suas queixas eram os sons animados do videogame portátil do outro garoto. “Ele era um bom garoto e eu o arruinei.”

 

Claro, ele deixou de lado um detalhe de que era um anjo. No que diz respeito a Uraume, Sukuna disse que conheceu um cara em sua faculdade, esse cara se chamava Itadori Yuuji, e eles se tornaram bons amigos em muito pouco tempo. Uma coisa levou à outra e Sukuna acabou beijando-o.



“Eu nem sabia se ele era gay ou bi,” ele choramingou, como um idiota.

 

“Parece gay para mim”, comentou Uraume sem tirar os olhos do jogo. “Como você sabe? Se ele não bateu em você quando você o beijou, não te insultou, talvez esse cara seja só tímido.”



“Yuuji? Tímido?”Em sua mente veio o rosto sorridente do anjo totalmente à vontade em sua sala ele riu.“Acho que não.”



“Ainda assim… ah, inferno, por que você não morre?” Comentou o outro jovem para seu console portátil. “Mesmo assim, não pareceu que isso deu um encerramento ao relacionamento de vocês, não é mesmo? Além disso, só se passaram dois dias, acho que você está exagerando e tende a exagerar. Pelo relacionamento próximo que você tem com esse cara, ele aparecerá certamente o mais rápido possível.”

 

Isso parece promissor, mas nada que venha acalentar seu coração.

“Por que você nunca pode estar do meu lado?” Sukuna fez beicinho. 

 

Um silêncio junto às explosões no videogame o respondeu, antes do garoto de cabelos brancos e tingidos de vermelhos responder: “Porque alguém deve estar sempre certo.”






E assim como seu vizinho havia previsto ao entrar pela porta de seu apartamento, na sua frente estava o jovem com asas enormes. Yuuji havia começado a vestir suas roupas mais folgadas, mesmo que isso significasse fazer dois furos para o par de asas. Desta forma, no exato momento estava.

 

O coração de Sukuna começou a bater irregularmente, devido à visita inesperada e porque as imagens daquele dia chegaram ao seu cérebro. Como aqueles lábios eram inesperadamente quentes e macios e como o cheiro de Yuuji era celestial.



"V-Você está de volta," foi tudo o que ele conseguiu dizer.



“Sukuna, eu nunca saí.” Ainda assim, Yuuji parecia triste, quando se levantou do sofá pra ir ao seu encontro. “Como eu poderia abandonar você?” 

 

“Mesmo que eu tenha feito algo monumentalmente idiota?”

 

“Mesmo assim, não”, ele sorriu, tanto que Sukuna tinha certeza de que os cantos de sua boca doeriam se ele continuasse assim.

 

“Me desculpe por agir como um idiota, te peguei desprevenido, tenho certeza de que devo te dar nojo agora”.

 

As sobrancelhas de Yuuji franziram suplicantes, enquanto este apertava os punhos. “Sukuna, você nunca poderia me enojar! Você é meu humano, quantas vezes devo repetir isso?”

 

 “Mais duas vezes”, ele respondeu, curvando os lábios atrevidamente.



“Você é meu humano”, Yuuji sorriu e obedeceu, inclinando a cabeça, “meu, meu e de mais ninguém.”



“Droga, quero beijar você de novo”, admitiu Sukuna, fazendo Yuuji corar até o pescoço. “Mas eu não vou,” continuou com cuidado para não o assustar. “Aposto que foi um beijo terrível.”



“Bem, foi meu primeiro beijo…” Yuuji ponderou, olhando para o teto, com a mão no queixo. “Não costumamos fazer isso, quer dizer, nunca ouvi falar de anjo ou anjos se beijando…”



“Vocês consideram isso impuro?” Yuuji concordou. “Droga, sou duas vezes mais estúpido agora”, ele riu sem jeito. 



“A questão é…” Yuuji começou trazendo a atenção de Sukuna aumentar. “Não parecia nada impuro.” Os olhos dourados fitaram os vermelhos dele… caramba, Sukuna precisava parar de encarar aquele rosto ou começaria a cair em um buraco do qual sabia que seria difícil sair; mas não podia. 

 

“Então…”



“Você não é impuro, Sukuna, e nunca será. Na verdade, parecia… especial…”



“Não me diga só isso, Yuuji,” ele riu. “Especial no bom ou no mal sentido?”



O garoto alado murmurou algo que Sukuna não conseguiu ouvir. 

 

“Quê? Vamos, fale mais alto…”



“Especial, no sentido de que eu gostaria de fazer de novo…”



Nem um único batimento cardíaco soou, e Sukuna já tinha o rosto de Yuuji entre as mãos e os lábios nos dele. Desta vez, o homem de cabelos corais não se apressou em mostrar ao seu anjo o quanto significava para ele. Beijou o lábio inferior dele e lambeu seu canto.



 Com o polegar, abriu a boca rosada, entrelaçando-a com os seus lábios. Pequenos gemidos foram arrancados de Yuuji, fazendo seu peito arfar; seu corpo fazia cócegas das melhores maneiras; mas Sukuna queria ir com calma, a qualquer momento seu anjo da guarda poderia desaparecer novamente por sabe-se lá quanto tempo. Ele odiaria assustá-lo.

 

Se sentindo mais ousado, levou a mão à cabeça de Yuuji, enterrando os dedos nos cabelos rosados desgrenhados e aproximando o rosto; afundando-o cada vez mais fundo em seu beijo.

Sukuna queria afundá-lo, no mesmo buraco em que estava, com pensamentos e desejos estranhos.

 

Uma espécie de orgulho distorcido se desenrolou no seu estômago, ao pensar perigosamente o quanto provavelmente estava tendo efeito sobre Yuuji; se o anjo havia experimentado prazer apenas ao beijar, como reagiria seu corpo, seu cérebro, sua voz ao aumentar a temperatura do que estavam fazendo?

 

Ninguém mais tinha visto esse lado de Yuuji e certamente ninguém mais veria.



Seu cérebro borbulhava com esses pensamentos, e ele não percebeu quando inseriu a língua na boca de Yuuji e suas mãos começaram a levantar a camisa justa.

 

A pele do anjo era quente e macia; ele realmente parecia humano. Sukuna acariciou aquelas laterais e passou os dedos pelo abdômen. Yuuji soltou uma risada ao sentir o toque no umbigo e Sukuna não pôde deixar de rir também. Ficou surpreso ao sentir as mãos sedosas e medianas do anjo imitando as suas, levantando sua camisa e acariciando sua pele; mas, ao contrário dele, Sukuna não riu e, em vez disso, gemeu.




“Está bem?” Yuuji perguntou, parando suas carícias; Sukuna amaldiçoou isso em seus pensamentos. 

 

“Sim, sim… com certeza, esse som significa que eu realmente gosto.” O rubor nas bochechas de Yuuji se intensificou e ele insistiu: “Continue fazendo isso.”




Com um último olhar de promessa tranquilizadora, Yuuji continuou a levantar as mãos para o torso dele. Enquanto isso, Sukuna estava curioso para tocar aquelas asas enormes, então enfiou os dedos entre as costas e onde as penas começavam. Para sua surpresa, Yuuji se mexeu e soltou um gritinho.



“Hum…?”

 

“Oh, Deus, continue fazendo isso”. O anjo interrompeu, suspirando rapidamente.

 

Sukuna beijou-o profundamente porque ele estava rapidamente ficando viciado nesses lábios e não conseguia parar. Mas para sua surpresa, Yuuji não ficou muito atrás e inseriu a língua na boca dele, saboreando-a. Sukuna gemeu de surpresa agradável, ele sentia o corpo do anjo estremecer a cada carícia que fazia nele.



Ele se sentiu no céu.

 

Yuuji tinha gosto, aparência e som celestial.

 

A experiência foi de outro mundo. Seu corpo combinava perfeitamente com o do anjo; nunca sentiu nada assim. Foi perfeito, como se ambos pudessem saber o que o outro precisava. Eles tinham uma conexão extraterrestre e algo dizia a Sukuna que ele nunca experimentaria nada semelhante.



Porém, num segundo a mais, Yuuji congelou em seus braços. "Y… Yuu?”




O humano tatuado olhou nos olhos dourados dele. O calor havia desaparecido; todo amor e carinho foram substituídos pelo medo. Sukuna sentiu seu sangue se transformar em adagas de gelo rasgando suas artérias.

 

“Não…” 



“Yuuji…?”




Antes que pudesse terminar, Yuuji correu direto para a parede, impulsionado por um forte bater de asas e em segundos atravessou-a. Deixando Sukuna desgrenhado, confuso e semiduro. Yuuji teve a tendência a fazer isso com ele.




________________________





Seu anjo não apareceu novamente durante quatro dias.



E quando o fez, Sukuna não conseguiu alcançá-lo.

 

Até que certa noite, ele foi acordado por vozes discutindo; não conseguia discernir o tom de barítono e a voz sonora de Yuuji ofuscava a outra que soava suave e aveludada. Com toda a discrição de uma pantera, ele se aproximou para vê-los melhor ou pelo menos discernir o que diziam.



"…É por isso que estou falando, Yuuji, você não pode continuar assim, seu tempo está acabando e é assim que você quer usá-lo?”

 

"Eu tenho que fazer isso, Megumi, você vai me julgar também?”



A outra voz bufou exasperada.

"Por que você acha que eu não contei a ninguém onde você esteve?”



"Eu sei e por isso você é o melhor amigo de todos.”



"Você está ciente do que vai acontecer com você, certo? O que você fez, Yuuji… você não pode sair ileso.”



"Eu sei eu sei…”



Sukuna cobriu a boca, a preocupação começando a corroê-lo, mordendo os cantos do seu ser; e tudo piorou quando ouviu a próxima pergunta de Yuuji.



"Você tem ideia do que eles vão fazer comigo?”

 

"…não, mas essa foi uma das ofensas mais graves de todas.”

 

 "Oh.”



"Ele foi irresponsável, e agora você perdeu seu lugar ao lado dele, Yuuji; Eu tenho que perguntar, valeu a pena? Fazer tudo isso por um humano?”



"Quem sabe? É difícil culpar Adão e Eva por morderem aquela maçã, é mais difícil julgá-los colocando-se no lugar deles. Você se arrependeria de ter experimentado aquela fruta doce e decadente? Ou se arrependeriam de descobrir que foram proibidos de sentir esse amor?”



"São por causa desses tipos de pensamentos que te procuram; Eu me sentia mais calmo quando você falava consigo mesmo como um idiota.”



“Cuide bem dele, Megumi; Ele é um bom garoto. Estou feliz que seja você quem estará com ele agora.”

 

Um riso foi solto pela outra voz masculina. “E você sabe que ele não é mais uma criança, ele é um homem agora, tenho certeza que percebeu, oh se sim…”

 

“Shii…M-Megumi! S-Sim eu sei!”



Sukuna não aguentava mais, precisava de respostas. Tudo isso foi por causa do beijo? A culpa foi dele e agora…



“YUUJI!” 

 

Correu para encontrá-lo, e com o canto do olho conseguiu ver uma mancha preta e branca borrada que desapareceu em segundos; Yuuji ainda estava lá, olhando para ele surpreso. O que tinha visto antes certamente foi algum amigo do anjo. Seu coração começou a bater violentamente, muito mais que antes; ele havia esquecido o efeito que Yuuji tinha sobre ele.

 

E então o anjo sorriu para ele com a mesma alegria e inocência de sempre; Sukuna sentiu seu coração saltar para a estratosfera.



Os braços largos de Yuuji o envolveram em um abraço. Sukuna mal conseguiu retribuir quando sentiu os lábios do garoto nos seus. Da mesma forma impaciente de antes.



“Onde você esteve?”

 

“Lá em cima”, respondeu, e então seus olhos dourados escureceram de tristeza, “tive alguns problemas com meus chefes…”



“Foi pelo beijo?”

 

“Não”. Yuuji então pensou por um momento, reconsiderando. “Bom, sim… mas não!”

 

“Você não está fazendo sentido…” ele riu, porque tinha sentido falta do pirralho peculiar. 

 

“Um anjo não deve participar desses tipos de ‘costumes’ humanos.”




“Você quer dizer os beijos?” Yuuji assentiu ansiosamente.



“Aí os superiores me chamaram para ‘ter uma conversa séria’…” Ele imitou fazendo aspas com os dedos revirando os olhos. “O que mais tarde descobri ser apenas uma bronca. Publicidade enganosa, eu digo! Quem teria pensado?”



Sukuna sentiu muita falta desse jeitinho dele, então apenas riu enquanto ouvia.

 

“Começaram me contando que meu primeiro erro foi deixar você me ver. Mas como eu teria evitado isso? Você parecia um cara tão legal, eu estava morrendo de vontade de falar com você! Quer dizer, não morrer literalmente, não posso fazer isso, mas acho que você me entende…”

 

"Sim, sim", ele concordou, instando-o a continuar.

 

“Aí falaram coisas muito ruins sobre você, e como você havia seduzido um servo de Deus… Mas eu não permiti! Ah, não senhor!”

 

Sukuna teve que morder os lábios para não sorrir tanto, Yuuji era adorável demais para o seu bem. Embora uma parte sombria de sua alma se perguntasse se talvez eles estivessem certos; Sukuna fixado em um anjo, quem além dele teria feito isso?



“Depois do meu pequeno desabafo…” 

Sukuna duvidou que ele tivesse sido pequeno, “…Eles disseram que eu estava agindo de forma diferente da reação de um anjo e que talvez você tivesse envenenado minha mente… Eu disse a eles que era uma ideia estúpida e eles não aceitaram bem.”

 

“Yuuji! Que diabos está errado com você? Você é idiota?”

 

“Não! Recebi ordem de te abandonar, eu seria designado para outro humano e outro anjo seria seu guardião. Eu não aguentaria isso, Sukuna!” A expressão de Yuuji era eufórica, com pânico sendo transmitido através daqueles olhos. “Eu não quero ficar longe de você. Eu não me importo se eles me derem o pior castigo de todos os tempos.”



“Ei, ei, ei, você está louco?” O homem de cabelos avermelhados pegou o rosto dele e acariciou suas bochechas, confortando-o. “Eles sabem que você está aqui comigo?”




A figura alada balançou a cabeça em negação e mordeu os lábios; mas, antes que Sukuna pudesse dizer qualquer coisa, Yuuji capturou sua boca em um beijo — surpreendendo-o. Nunca esperaria que o anjo fizesse essa iniciativa.

 

"Eu não acho que seria capaz de abandonar você", disse, sem fôlego.

 

"Então não faça isso", Sukuna sussurrou, suas respirações se misturando. Sua cabeça começou a girar. “Mas primeiro… me diga. Qual é a punição para uma ofensa tão grave?”

 

"Se… apaixonar por um humano." Yuuji revelou hesitante. Guardou as palavras por um momento, como se elas pesassem demais na garganta. Então, com a voz baixa, completou: “Vão tirar minhas asas... e eu vou cair.”



Aquilo não era mais um jogo, e por mais que não precisasse, Sukuna queria que ele soubesse: se estivesse no lugar de Yuuji, faria o mesmo.



O beijo do anjo voltou. Foi impaciente, mas havia algo a mais — tristeza, dor, e um toque de despedida. Sukuna sabia. Eles não poderiam se esconder daquilo. Só esperava poder ter aquela noite.

 

“Ensine-me”, implorou Yuuji, quase sem voz. “Ensine-me a amar você… como um humano.”

 

Sukuna mordeu o lábio com força, até a pele ceder — mas Yuuji acariciou sua boca com o polegar, suave, fazendo-o sussurrar:

 

"Sim."

 

E então o beijou de novo. Desta vez com mais urgência. Mais fome.

Porque, mesmo que nenhuma palavra fosse dita, ambos sabiam: aquela seria a única noite.

 

E Sukuna faria questão de torná-la inesquecível.



Os dois foram para o quarto, as roupas caíram lentamente, entre beijos longos e mãos ansiosas. Cada peça retirada era um convite à vulnerabilidade, mas nenhum dos dois recuava. Yuuji agora estava deitado, ofegante, a pele corada, as asas abertas sob ele como uma moldura viva. Brancas e douradas, imensas, tremiam levemente a cada toque — uma extensão direta de seu prazer.

 

Sukuna o olhava como se estivesse diante de um milagre. Não havia pressa, só desejo misturado com reverência. Ele se inclinou e beijou o peito de Yuuji, depois sua barriga, depois cada centímetro possível entre um suspiro e outro.

 

“Você é lindo”, murmurou, a voz rouca. “Até onde isso me condenar, eu vou te querer assim. Por inteiro.”

 

Yuuji fechou os olhos, as mãos apertando o lençol abaixo. “Só… não pare.”

 

Sukuna sorriu contra sua pele e o obedeceu.

 

As mãos dele deslizaram pelas asas com carinho e precisão, os dedos afundando entre as penas macias. Yuuji gemeu alto, já que inexplicavelmente aquele toque ligava a algo direto ao centro de sua zona erógena. Sukuna se demorou ali, acariciando as bases delicadas, onde as asas se conectavam ao corpo, arrancando gemidos e tremores. Yuuji quase chorava, contorcendo-se, o rosto enterrado no braço.

 

“Você sente tudo aqui, não é?”, Sukuna sussurrou, excitado com a intensidade da reação.

 

“Sinto… demais…” A voz saiu quebrada, entre prazer e emoção. “Sukuna… por favor…”

 

“Você confia em mim?” Perguntou, pegando um objeto lubrificante de algum lugar de onde o anjo não havia visto. 

 

“Sim, eu confio.”

 

Ele entendeu. Abaixou-se, beijou o interior das coxas de Yuuji com devoção e começou a prepará-lo com paciência e cuidado, enquanto manipulava sua própria ereção e sua mão. Cada toque era gentil, cada avanço era lento, queria que Yuuji se sentisse seguro, desejado por seu humano. Queria que ele soubesse que era mais que um corpo ali, que ele era amado.



Yuuji se arqueava contra os dedos, os olhos marejados, as asas tremendo descontroladamente sob ele.

 

“Você tá… me deixando louco”, ele sussurrou, a voz embargada. “Nunca… ninguém…”

 

Sukuna subiu até ele, beijando suas bochechas úmidas. “Eu sei. Eu também nunca. Mas agora é só a gente.”



Ele o envolveu com os braços, os corpos colados, pele contra pele, e seus lábios se encontraram mais uma vez: um beijo lento, molhado, cheio de coisas que nenhum dos dois sabia dizer em voz alta. Ele o penetrou com suavidade, sentindo o corpo de Yuuji se abrir com um suspiro trêmulo.

 

“S-Sukuna…Oh céus!”

 

Yuuji gemeu baixo, os olhos fechados, as mãos apertando os ombros do homem como se temesse cair, mesmo estando já deitado. As asas estremeceram sob ele, se contraíram, e Sukuna sentiu a vibração passar por seu corpo inteiro como uma onda quente.

 

“Você tá bem?”, sussurrou, roçando o nariz no dele, o movimento dos quadris ainda contido, cuidadoso.

 

“Sim… só… me beija mais.”

 

E Sukuna o atendeu.

 

Cada movimento era uma confissão. O maior se movia dentro dele com doçura, com ritmo crescente, como quem explora algo que sempre desejou mas não ousava tocar. O prazer crescia entre eles como uma maré, lenta e inevitável, e os gemidos de Yuuji ficavam mais altos, entrecortados por pequenos soluços de emoção.

 

Ele chorava em silêncio, com os olhos molhados, sem vergonha de se mostrar. Sukuna beijava suas pálpebras, sua boca, as asas tensas sob ele — nunca ignorando o quanto elas respondiam ao toque, nunca deixando de acariciá-las como parte de quem Yuuji era.

 

“Você já é tudo pra mim”, sussurrou contra sua pele, já ofegante. “Você é tudo, e eu... eu não quero te perder.”

 

O jovem de olhos dourados estava com os olhos marejados, as bochechas coradas. Com a voz entrecortada, disse:

 

“Então… fica. Só fica… até eu esquecer que posso cair.”

 

E Sukuna ficou.

 

Movendo-se com mais firmeza agora, sentindo o prazer tomar conta, mas sem nunca deixar de tocá-lo com cuidado, sem nunca tirar os olhos dos dele. Seus corpos dançavam em ritmo próprio, úmidos, quentes, tão conectados que o mundo parecia ter desaparecido.

 

Yuuji tremia, à beira, as asas arqueadas, abertas como em um êxtase sagrado.

 

Sukuna o beijou uma última vez, e juntos, chegaram ao limite — como se estivessem se desfazendo dentro um do outro. 

 

Depois, tudo ficou em silêncio. Somente o som das respirações e as asas ainda estendidas, como testemunhas do que havia sido mais do que desejo: uma entrega.

 

E para o anjo, por um momento, céu e terra eram o mesmo lugar.



_________________________




Na manhã seguinte, Yuuji não estava lá.

Sukuna tentou lutar contra o sono, mas a exaustão e a respiração tranquila de Yuuji o embalaram como uma armadilha suave. Quando percebeu, já tinha baixado a guarda… e perdido a consciência.

Acordou sozinho. Nunca se sentiu tão só.

Encolheu-se na cama, levando os joelhos ao peito, enxugando com pressa as lágrimas que escorriam silenciosamente. Não precisava de provas — ele sabia. Sabia que aquele outro anjo, aquele que falara com Yuuji, estava ali. Observando. Julgando. Protegendo-o.

Droga. Ele tinha estragado tudo.

 

Mas, arrependimento não vinha em seu coração, e as consequências disso poderiam ser terríveis para seu amado.

 

Amado…



A figura alada em seus braços era a única coisa que podia imaginar. Sua mente corria não limbo, numa imensidão que nem ouviu a porta bater com força, várias vezes.



 

"É a primeira vez que faço isso", foi o que Uraume disse ao entrar no apartamento. Sukuna ainda estava na cama, sem nem se dar ao trabalho de acender as luzes nos últimos dias.

Nos primeiros, sobreviveu à base de sopas instantâneas, salgadas demais. No terceiro dia ficou sem roupas limpas. Decidiu que não precisava delas. Quatro dias trancado, assistindo reprises de Dragon Ball Z, revendo na cabeça cada segundo do que poderia ter sido se Yuuji ainda estivesse consigo.

Uraume entrou, acendeu as luzes e desligou a TV com um clique seco e ordenou.

"Sukuna, você tem que sair um pouco."

O silêncio respondeu. Sukuna só pensava na ironia da situação — afinal, não fazia nem três meses que ele mesmo invadiu o apartamento de Uraume quando este passou uma semana trancado em casa, obcecado em zerar um jogo de videogame. Sukuna teve que carregá-lo até o chuveiro, ameaçando jogar o console fora, para que ele reagisse.

Mas Uraume não podia fazer o mesmo com ele.

Então jogou um copo d’água na cara do amigo.

 

Sukuna tossiu. Algumas pequenas gotículas atingiram seus pulmões, outras, seus olhos.

"Droga, Uraume."

 

"Eu tive que fazer algo para te fazer reagir." Seu amigo se desculpou. "Agora, tome um banho. Vamos comer pudim, seu doce favorito, e depois vamos até a universidade convencê-los de que você estava mortalmente doente essa semana."

 

"Qual é o ponto?" rebateu, enxugando o rosto com a primeira toalha que encontrou. "Qual é a utilidade de tentar?"

 

"Você teve um desgosto, ok? Esse cara saiu sem dizer uma palavra e te machucou. Eu entendo. Mas você não pode deixar sua vida desmoronar por causa disso."

 

Ele amava Uraume de todo o coração, mas seu amigo não entendia. Ninguém entendia. 

 

Como se pode sentir falta de algo que nunca foi seu?

 

Uma camisa e uma calça foram jogadas em seu rosto, ouvindo um: "Vista-se."

 

Sabia bem do que Uraume era capaz para fazer as coisas acontecerem do jeito que queria, então não fazia sentido se opor. Mesmo assim, precisava dificultar as coisas para o amigo também, porque ele também era imaturo pra certas coisas.

 

Sukuna então tirou a cueca. Uraume se virou em menos de um segundo e murmurou baixinho. "Deuses, Sukuna, tenha mais vergonha."

 

Ele riu, porque passar um tempo com seu amigo antisocial sempre o deixava de melhor humor.

 

Com a promessa do seu doce favorito no almoço, Sukuna estaria mentindo se dissesse que aquilo não o animava. Depois de dias sobrevivendo apenas com ramen instantâneo, a mudança era quase divina. 

 

E agora, como Uraume havia dito, eles saíram bem rápido e caminharam pelo campus para conversar com os professores. 

 

Sukuna olhou para o lindo céu azul, pensativo.

‘Talvez um dia eu possa esquecer o que aconteceu.’



Talvez ele pudesse esquecer seu encontro com aquele anjo da guarda e como o relacionamento entre eles se aprofundou sem que percebessem. E como Sukuna se apaixonou tarde demais.

 

Mas o que ele não esqueceria jamais eram aqueles olhos dourados enormes e aquelas asas brancas e douradas, tão lindas quanto irreais.

 

Ainda doía. Ele ainda ficava deprimido se pensava demais nele. Mas um dia, talvez, parasse de doer.

 

E só até então ele poderia sair e se apaixonar por humanos normais.

 

A batida de uma bola contra sua cabeça o tirou dos pensamentos. A força foi tanta que Sukuna foi jogado para frente, caindo de cara no chão. Quando se levantou, sua cabeça latejava e os cotovelos ardiam. Uraume já estava atrás de uma árvore, ao lado dele.

Claro, seu amigo tinha visto o projétil vindo e, em vez de avisá-lo, aproveitou segundos preciosos para se esconder.

 

Que belo amigo.

Era bom saber o quanto ele significava para Uraume.



"MEU DEUS, ME DESCULPE!"

 

Ele ouviu alguém gritar atrás dele e, no segundo seguinte, sentiu uma mão em seu pulso tentando ajudá-lo a se levantar.

 

"Porra, tudo bem, estou bem", respondeu Sukuna abruptamente, puxando o braço do aperto do estranho. De relance, avistou a bola de basquete — o projétil culpado.

 

"Cara, me desculpe", a voz repetiu, cheia de culpa.

 

"Tudo bem, escute, pirralho, só tome mais cuidado da próxima…v-vez."

 

Sukuna finalmente levantou os olhos depois de sacudir a poeira, e ficou sem palavras. O garoto à sua frente era o mesmo. O mesmo anjo com asas imensas e olhos como ouro derretido.

Seu coração deu um salto desgovernado.

 

O estranho de cabelo rosa o encarava e, ao reconhecer Sukuna, arregalou os olhos.

 

"Nossa… você é muito fofo", comentou o garoto, corando até as orelhas. Sukuna sentiu as próprias bochechas esquentarem.

 

"QUE…?"

 

"Quero dizer… sinto muito! A culpa foi minha, eu estava jogando basquete com os caras e acertei a bola com muita força!" exclamou ele, curvando-se com todo o tronco, em sinal de desculpas.

 

"Cara, está tudo bem, está tudo bem", Sukuna repetiu. Não queria fazer cena. Além disso, tinha que ser Yuuji. Aquilo não podia ser só coincidência.

 

"NÃO, NÃO, A CULPA FOI MINHA. SOU TERRÍVEL. HORRÍVEL. MEREÇO A MORTE!"

 

Definitivamente era Yuuji.

 

Sukuna acabou rindo alto.

 

"Esqueça, não foi nada", ele assegurou. "Meu nome é Ryomen Sukuna."

 

Ele estendeu a mão, que foi agarrada imediatamente pelo outro.

 

"Itadori Yuuji."

 

O sorriso do homem de cabelos avermelhados se alargou.

 

"Esse… é um belo nome."



Aquilo era destino?

 

Eles poderiam tentar de novo, da maneira certa desta vez. Sukuna sabia que não podia virar as costas para uma segunda chance.



"Ei", Yuuji falou, com o sorriso tão brilhante quanto antes, "meus amigos e eu vamos continuar jogando por um tempo. Mas acho que depois vamos tomar sorvete, quer ir?"

 

"Ah…sim, sério?"

 

"Sim", respondeu o ex-anjo, com um sorriso inocente e sedutor, o que foi interessante.

 

"Você parece muito confiante. Por que acha que deveríamos ir?"

 

Yuuji desviou o olhar para os próprios joelhos, depois para o rosto de Sukuna.

 

"D-devo... devo me assegurar de que você não terá problemas mais tarde. Já sabe... hematomas e outras coisas."

 

"E outras coisas? É mesmo. Pode ter sido algo sério..." Foi inútil tentar esconder o sorriso que se desenrolava nos cantos da boca.

 

Sukuna olhou para Uraume, que saía de seu esconderijo e caminhava em direção a eles.

Seu amigo, é claro, notou sua linguagem corporal. Com uma expressão de eterna relutância, levantou o polegar em aprovação.

 

"Então…" 

 

"Então…?" Yuuji respondeu, com expectativa.

 

"Itadori Yuuji, vejo você aqui em uma hora?"

 

"Não vou sair deste lugar", garantiu.

 

"Apenas tente não me bater dessa vez, ok?"

 

"Eu nunca sonharia em fazer isso.

Além do mais... desta vez, ficarei encarregado de proteger você."

 

Sukuna se despediu do garoto com um sorriso bobo, que Yuuji espelhou. E ele confiava plenamente que Yuuji estaria lá, esperando.




FIM

Notes:

😇Ounth🥹Deixe-me saber o que você achou. 💕💕💕 Obrigada por ler mais uma vez. 🪽🪽🪽