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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-03-10
Words:
13,513
Chapters:
1/1
Comments:
3
Kudos:
13
Bookmarks:
2
Hits:
150

Amor de Post-it

Summary:

Kyungsoo é um clichê ambulante, o cara nerd apaixonado pelo rapper trainee de uma grande empresa. Kyungsoo também tem o estranho hábito de colar post-its com comentários nos livros que lê na biblioteca.

[ChanSoo | Colegial]

Notes:

- Fic postada também no Spirit

Oiee, meu povo!!!

Não sei nem como falar com vocês quando a última vez que escrevi uma fanfic foi quando eu ainda estava na faculdade, anos atrás. Acho que nem tenho muito o que dizer, né?

Obrigada à Gabi, que doou o plot ANOS atrás no grupo do exo fanfics, e me desculpa por só ter materializado a história agora. Foi bem diferente do plot que você doou, mas tentei manter a ideia central do amorzinho via post-it.
Muito muito obrigada às maravilhosas que me incentivaram a escrever, Karlinha, Deb, Ariel e Dan, vocês foram incríveis e essa fanfic só saiu graças a vocês.

Sem mais enrolações, espero que gostem dessa história.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Kyungsoo suspirou alto na hora que a 5ª bolinha de papel bateu no topo da sua cabeça e ricocheteou para o chão. Ensino médio definitivamente não era a época de vida mais memorável que ele teve até o momento, e provavelmente continuará não sendo no futuro.

Ser o nerd tímido também não ajudava, ele tinha plena noção disso. Qual é, ser um carinha nerd e super tímido era mais eficaz para chamar atenção do que usar uma melancia na cabeça, basicamente ele era um alvo neon piscante pedindo para os populares sacanearem. Sentar sempre na primeira fileira também não ajudava, mas era isso ou a miopia vencer mais uma batalha, então infelizmente teria que engolir a zoação em prol do conhecimento.

O maior exemplo disso era estar recebendo mais uma bolinha de papel na cabeça enquanto o professor de física explicava qualquer merda sobre ondas.

Kyungsoo nem precisava olhar para saber quem era: Oh Sehun. O jogador do time de futebol americano da escola, que é ótimo em alguma posição que Kyungsoo definitivamente não sabia o nome – e não tava nem aí pra saber, verdade seja dita -, mas que aparentemente vinha com o bônus de ser o mais popular da escola.

O mais popular e o mais insuportável também.

Ele e os amiguinhos de time, populares entre homens e mulheres, héteros e LGBTQIAP+, não gostavam de assistir aula e queriam que os outros não vissem também, naquela prepotência irritante de que eles eram o centro do universo, os mais importantes e donos dos holofotes a porra do tempo inteiro.

O Do olhou seu relógio de pulso, faltavam apenas 5 minutos para acabar aquela aula de física, o que significava poder correr para seu refúgio livre de populares, livre de professores, livre até dos seus próprios pensamentos. Sabe a paz? Exatamente, era lá que ficava.

Era só resistir mais um pouco e ignorar bolinhas de papel caindo em seus cabelos, e tentar entender o que porra eram aqueles símbolos na lousa, mesmo que por alguns pequenos minutos.

Foi com um esforço monumental que Kyungsoo focou os últimos vestígios de força intelectual naquele quadro branco, decidido a entender o que estava escrito ali nos minutos finais. Estava quase desistindo, entregando nas mãos de quaisquer entidades superiores, quando veio o grito de liberdade.

- Turma, para próxima aula, quero respondidas as questões das páginas 30 a 33 – o professor quase gritou, com um sorriso cínico na boca – e vou ver os cadernos de todo mundo, quem não tiver os cálculos nas respostas vou considerar como não feito.

E era assim, senhoras e senhores, que se destroçava a felicidade dos alunos do colegial. Não que Kyungsoo se importasse exatamente, ele nunca deixou de fazer as lições, e não estava em seus planos começar uma carreira de irresponsabilidade na reta final do 3º ano do ensino médio. Quando o sino tocou sinalizando o intervalo, uma música para os ouvidos adolescentes, quase não existiam caras felizes saindo da sala, e olha que estavam todos indo para o momento de respiro pós aulas.

- Vamos comer com a gente, Soo?

Jongdae, um dos poucos da galera de verdade naquela sala, o cutucou de leve no braço. Ele tinha um sorriso meio gato de Alice, era bem bonitinho, inclusive ele se gabava do atributo por ter conquistado a namorada na base do sorriso e da piadinha besta. Jamais iria verbalizar isso, mas conquistar na base do humor era muito uma meta de vida para Kyungsoo.

- Hoje não, Dae. Hoje vou pro Forte.

- Tá tudo bem? - o amigo olhou preocupado

- Tá tudo bem, não esquenta. Só quero dar uma relaxada mesmo.

Jongdae só assentiu com a cabeça e saiu de mãos dadas com a namorada. Kyungsoo às vezes olhava pra eles de longe pensando que aquele era um tipo de amorzinho que queria pra vida, ao mesmo tempo que não acreditava que conseguiria ter um dia.

O garoto só tinha 18 anos recém feitos, é claro que queria um amorzinho clichê, tranquilo, ficar de mãos dadas no cinema, dar beijos sem pedir explicação, ser bobo sem vergonha, ser safado sem ser rejeitado. Sendo um cara gay na Coréia do Sul, essa perspectiva dum amorzinho tranquilo parecia ainda mais distante, e essa constatação era um barulho constante lá no fundo da cabeça, aquela vozinha que dizia todo dia “você nunca vai ter isso, se manca”.

O problema dessa voz é que ela nunca calava a boca, nunca mesmo. Tipo uma televisão ligada em nenhum canal, só com aquela estática chata a porra do tempo todo.

“É isso, hora de ir”, pegou seu celular, seu bloquinho de post-it e a caneta de ponta fina, jogou tudo no bolso do moletom e foi para O Forte. O caminho já era conhecido a ponto de poder fazer sem olhar, com olhos vendados e tudo. 13 passos à direita da sala de aula, subir 2 lances de escada, 8 passos à esquerda, 25 em frente, 2 para a direita e 3 para frente.

“O Forte” era só o cantinho mais isolado da biblioteca, que Kyungsoo descobriu num intervalo preguiçoso do 9º ano, lugar raramente (para não dizer nunca) populado por outras pessoas. Os populares não deviam nem saber onde ficava a biblioteca - até porque o canto da fodinha ficava no estacionamento, todo mundo sabia disso - e os nerds costumavam ficar jogando RPG no 3º andar, de forma que podia-se considerar o metro quadrado mais pacífico e silencioso em toda a escola.

Normalmente, a mesa era só de Kyungsoo, seu livro do dia e seus pensamentos.

A leitura do dia em questão era um exemplar já velho de Drácula, da idade do próprio Conde, que achou perdido no acervo da escola por puro golpe de sorte. Claro que a febre pós lançamento de Nosferatu o ia instigar a ler novamente o livro. “Você é muito óbvio, cara”, pensou consigo mesmo.

Mas ignorou todos os pensamentos aleatórios e começou a leitura, se perdendo rapidamente no diário de Jonathan Harker. O bloquinho de post-it transparente ficava ao lado, pronto para uso a qualquer instante. O que, inclusive, já foi tema de incontáveis brigas com Baekhyun, e seguiria sendo pelos próximos 50 anos, se conhecia bem suas amizades.

- Cara, colar post-it em livro é tipo pecado com a obra - Baekhyun falava exasperado (como sempre)

- Claro que não é. Eu nem tô escrevendo no livro, Baek.

- Mesma coisa!! É como se escrevesse no livro, tá estragando.

- O post-it é feito pra ser grudado na folha, cara, e pode ser tirado de boa.

E sempre terminava com ambos revirando os olhos, Baekhyun exasperado de um jeito cômico que fazia Kyungsoo perder a compostura pra rir. Não que fosse mudar os hábitos, seus post-its são seus amigos íntimos e parceiros de leitura, onde podia escrever pequenas observações e comentários nas partes interessantes.

Àquela altura, boa parte do acervo abandonado da biblioteca da escola estava agraciada com post-it’s coloridos com comentários sérios, engraçados, análises rasas como uma poça, ou só passagens destacadas mesmo. Pouco provável que alguém visse, até porque Kyungsoo já tinha pego novamente livros que já lera antes e as folhinhas continuavam intactas lá, sem sinais de terem sido vistas por outros mortais.

Novamente, Kyungsoo voltava sua atenção ao livro. A magia de ler, para o adolescente, era conseguir se distanciar completamente do mundo quando estava lendo, instigado por uma realidade que definitivamente não era a sua. Era seu momento de flow, em que esquecia totalmente do mundo, de tudo e todos, para estar imerso numa realidade diferente descrita nas palavras.

Nesse estado de flow, já estava na parte que o Drácula expulsa as noivas de perto do Jonathan com um “Este homem me pertence!”, quando o sinal tocou para voltar à aula e à realidade. Antes de fechar o livro, deu tempo apenas de colocar um singelo post-it.

“Não há explicação heterossexual para isso”

▽ ▲

- Baekhyun, eu juro que te mato se você sujar meu sofá com esse salgadinho

Jongdae gritou da cozinha pro amigo na sala, praticamente abraçado no pacote de cheetos de queijo.

- Relaxa, mamãe, seu sofá tá salvo

Kyungsoo tinha certeza que o sofá estava em perigo, mas achou melhor não falar nada daquela vez. Os 3 estavam na casa de Jongdae vendo filmes de terror, porque aparentemente era divertido e Baekhyun queria provar a sabe-se lá quem que era corajoso.

Ele não era.

Os três tinham conseguido uma versão não muito legalizada do novo Nosferatu, e foi aí que decidiram por se juntar na casa de Jongdae para verem. Jongdae queria ver porque desafiou Baekhyun a assistir sem gritar, Baekhyun queria ver porque era competitivo, e Kyungsoo porque era uma obra incrível, nada a ver com um spoiler de nu frontal do Bill Skarsgård. Jamais que Do Kyungsoo veria um filme só por rumores de um homem pelado…

- Bora logo, Jongdae. Você que tá com medo e não quer vir - Baekhyun gritou num desafio

- Só tem uma pessoa com medo, e essa pessoa é você, meu caro.

Kyungsoo riu e revirou os olhos, porque como não? Mesmo com essa besteira toda - principalmente por isso, na verdade -, ele amava esses caras. Amava esses 2 otários desde a infância, e não tinha qualquer perspectiva de deixar de amar. Amizade era sobre isso, né?

- Vocês dois estão com medo, isso sim. Só quem tem coragem aqui sou eu.

- Toma vergonha, Soo. Você não tem coragem, você tem é tesão - Jongdae falou rindo, e Baekhyun soltou uma gargalhada ao seu lado

- Bom, isso também… - sentiu suas bochechas queimarem de leve

Por incrível que pareça - para o Do, pelo menos -, só levou o tempo de um salgadinho ser arremessado na cabeça de Jongdae e outro ser devolvido no meio da testa de Baekhyun para darem play no filme. E caramba, já começava bom.

Kyungsoo ainda tinha o começo do livro Drácula vívido na cabeça, o que tornou a experiência mais fascinante.

Seu lado meio nerd pensou no fato do Henrik Galeen ter revolucionado ao fazer a primeira adaptação do Drácula, não que o Bram Stoker tivesse concordado exatamente com esse adjetivo positivo. Mas o cara deu particularidades interessantíssimas ao conde Drácula, e fez uma obra única a partir de uma outra. Era o tal toque do artista.

De volta à realidade do filme em questão, o de 2025 mesmo, atualíssimo, Kyungsoo fitou a tela com atenção, já sentindo o rubor no rosto. Puta que pariu, o Nicholas Hoult estava um sabor, né?

- O Orlok também acha que ele tem um sabor. Sabor de sangue, mais particularmente - Baekhyun falou em meio ao riso

Merda, tinha falado em voz alta. Mas era isso né, se não fosse pra passar vergonha, melhor nem sair de casa.

- O Orlok definitivamente acha. Ele literalmente chupou o peito do cara e rebolou em cima do colo dele

Os outros 2 concordaram efusivamente, até porque não tinha como discordar. Contra fatos, não há argumentos, não é esse o ditado? E o fato em questão era uma cena do Bill Skarsgård rebolando no Nicholas Hoult. A vida prestava, e muito.

Não falaram muito depois disso, totalmente focados no filme.

Essa programação era uma espécie de hábito dos 3, às vezes 4 quando a namorada do Jongdae participava, se verem toda semana para assistirem um filme, hábito esse que construíram desde a pré adolescência, quando ainda estavam com a voz ficando fina e a cara cheia de espinhas.

Esse era um dos costumes que Kyungsoo gostava de verdade, e fazia sempre o possível para honrar. Verdade seja dita, fazia porque gostava de ter pelo quê ansiar durante a semana, mais ainda depois daquelas semanas de provas e vestibulares capazes de drenar a sanidade de qualquer um. Estar com amigos vendo filmes era realmente algo para se ansiar, era o respiro depois do caos, tipo um sorvete no verão.

Em geral, os garotos assistiam na tv imensa que Jongdae tem na sala, com pacotes de salgadinhos nada saudáveis espalhados na mesa de centro, e uma eventual pizza quando sobrava uma grana. Dessa vez, por exemplo, tinha uma belíssima pizza de pepperoni na mesinha de centro, só 3 fatias ao final do filme, e copos de refri bem gelado.

Na moral, esse era um dia tipo bom, e Kyungsoo sorriu de leve sozinho, mesmo estando vendo um filme de terror, porque estar com Jongdae e Baekhyun era bom, era como estar em casa.

▽ ▲

Como tudo que é bom acaba, Kyungsoo sentiu uma onda de desgosto ao abrir os olhos com a triste constatação de que era segunda-feira de novo. O final de semana acabava rápido demais e, com ele, acabava a serotonina e o descanso.

Acordar no primeiro dia útil da semana era sempre o maior trabalho de corno possível, e nem gente solteira escapava dessa praga (“não é sobre ter chifre, é sobre ter a alma de corno”), por isso o estudante de colegial levantou a bunda da cama quentinha e convidativa sem nenhum resquício de humor nem energia. Se arrastou tal qual um zumbi para o banheiro, ficou debaixo do jato do chuveiro enquanto uma água morna caía sobre seus ombros, deixando um caminho arrepiado na pele fria.

O cheirinho de sabonete de lavanda tomou o banheiro junto com o vapor da água, e até que dava uma atmosfera boa. Só não tanto quanto sua caminha macia.

Fechando os olhos, Kyungsoo se permitiu sentir, de fato, a temperatura da água, um morno agradável, sem ser escaldante. Se permitiu sentir a textura gostosa do sabonete líquido deslizando na pele, deixando cada centímetro do corpo macio, escorregadio, acordado.

Deslizou a mão direita pelo peito nu, abriu os lábios num suspiro baixinho quando os dedos tocaram os mamilos, apenas um afago gostoso, breve, que deu aquela sensação de querer mais, o borbulhar no pé da barriga que irradiava calor para o centro do corpo.

Despejou um pouco mais de sabonete nas mãos, e desceu a mão esquerda mais ao sul do corpo, enquanto a direita voltou a acariciar seus mamilos, alternando entre um e outro, se dividindo entre acariciar e apertar. Deixou a mão esquerda descer mais, sentir os pelos pubianos aparados curtinhos, sentir o toque levemente áspero.

Foi inevitável jogar a cabeça para trás em êxtase quando alcançou o pau já duro, gemeu baixinho quando apertou seu próprio pênis e sentiu aquele prazer que corre pelas veias como eletricidade pura. Seu corpo inteiro estava ligado, aceso e pronto para explodir.

Beliscou os mamilos com a pontinha dos dedos, ao mesmo tempo em que começou a masturbar seu pau, sentiu as veias pulsando sob seu toque firme, sentiu a pele se movimentar para expor a glande. Não precisava olhar para baixo para saber que sua glande estava vermelha, que estava pingando pré-gozo. Já tinha tempo que não se permitia se tocar assim, e tudo estava acumulado.

Em meio à névoa de tesão na cabeça, nublando seus pensamentos racionais, pensou nele. Não apenas pensou, mas quase visualizou ele esticando a mão para tomar o lugar da sua em masturbar o pênis latejando, quase sentiu a boca macia chupando seu pescoço desde a clavícula até aquele ponto sensível atrás da orelha que o fazia derreter .

Kyungsoo precisou tirar a destra dos mamilos para tapar sua própria boca e abafar os gemidos que escaparam sem autorização quando gozou, sentindo a porra cair em jatos no chão do banheiro. Que pena, seria tão melhor se tivesse lambuzado a mão dele…

Tal qual um impulso elétrico, o êxtase do orgasmo foi se dissipando, indo embora do meio do corpo até as extremidades, sentiu formigar até a ponta dos dedos, até restar somente o cansaço e o sorriso frouxo nos lábios.

Pelo menos, sua segunda-feira começou bem.

Com um maneio de cabeça, Kyungsoo foi puxado de volta ao mundo dos mortais, junto com o senso de que deveria terminar um banho, agora se lavando propriamente. Prazeres à parte, as obrigações se mantinham firmes e fortes. Se enrolou numa toalha macia, voltou ao seu quarto para colocar seu bom (nem tanto) e velho uniforme, porque um dia de escola lhe esperava.

Antes de sair de casa, Kyungsoo pegou seu copo de café (preto, com pouco adoçante, amargo como a vida), sua mochila cheia de bottons, e saiu para o ar fresco de outono.

 

O dia a dia do colegial nunca tinha muita novidade, ao mesmo tempo em que aconteciam 10 mil coisas potencialmente danosas - ou positivas - para a vida social de adolescentes pingando hormônio. A grade de aulas era bem definida, o ambiente não costumava mudar muito, e muito menos as pessoas. Especialmente as pessoas, para bem ou mal.

Dito isso, já era comum - até demais - que Kyungsoo sentasse na primeira cadeira na sala de aula, e esperasse que ele chegasse. Por ele, queria dizer Park Chanyeol, o crush supremo do menino Do desde os 12 anos, e queria dizer muita coisa que um crush se mantivesse forte mesmo após a humilhação chamada puberdade.

Kyungsoo já fez o discurso de Ode a Park Chanyeol umas mil vezes para Baekhyun e Jongdae: o cara é rapper, trainee numa mega empresa de entretenimento, lindo pra caralho (com perdão do linguajar), e com uma voz grossa que chega a ser crime. Não tinha uma unidade de defeito naquele monumento chamado Chanyeol, pelo menos aos olhos de Kyungsoo.

Tal qual a pessoa tímida que é, há anos que Kyungsoo se contentava em observar Chanyeol entrar na sala, a mochila surrada pendurada num ombro só, a carinha de sono que o nerd queria desamassar no beijo, e aquelas roupas folgadas que ficavam incrivelmente bem nele (mesmo que ficassem horríveis no resto do mundo).

- Dia. - Chanyeol disse para ninguém em particular

- Bom dia!!! - Kyungsoo respondeu baixinho, meio disfarçando

Pena que o mais alto nunca gostou de sentar na frente, então a entrada ou saída da sala eram os únicos momentos em que Kyungsoo podia olhá-lo em paz, sem parecer a garota do exorcista virando o pescoço em 360º. E estava tudo bem, porque o que são 6 anos de crush platônico senão se contentar com migalhas de vislumbre?

E então, uma vez começada a aula, Kyungsoo se perdia na fala de qualquer que fosse o professor, porque entrar numa boa faculdade ainda era seu objetivo pós escola, o que implica em efetivamente aprender as coisas. E, claro, as bolinhas de papel seguiam batendo em sua cabeça, porque Sehun simplesmente não conseguia se controlar. A sensação já nem era tão incômoda, depois de tanto tempo.

- Cara, para com essa porra, deixa o garoto em paz

Kyungsoo foi tirado do seu devaneio escolar (isso existia? Ele achou que deveria existir) pela voz grave que reconheceria em qualquer canto obscuro da terra. Olhou para trás num ímpeto, antes mesmo de se dar conta do que estava fazendo.

- Qual é, Chanyeol, tô te incomodando por acaso? - Sehun falou com o escárnio escorrendo pelos lábios como ácido sulfúrico

- Tá me incomodando, sim. O cara não tá fazendo nada e você tá enchendo meu saco jogando coisa na cabeça dele.

Sério que Park Chanyeol em pessoa estava defendendo um mero mortal como Do Kyungsoo? Porque o coração do garoto disparou, tropeçou e quase parou naquele minuto. As bochechas ficaram vermelhas com certeza, porque o calor que subiu pelo pescoço foi capaz de piorar o aquecimento global, e os olhos arregalados em puro e completo choque.

- Problema seu se tá se incomodando com algo que não tem a ver contigo. - Sehun falou sem nem alterar a voz

Para o orgulho - barra - desespero do baixinho, Chanyeol pareceu estar genuinamente considerando levantar da carteira para acertar um murro no meio do nariz do jogador de futebol americano. Em algum cantinho nada escondido, Kyungsoo conseguiu sentir um puta orgulho e ainda mais crush por ver seu crush preparado para defendê-lo, e olha que sequer são pŕoximos nem trocavam mais de 5 palavras em todos esses anos de escola.

Ainda assim, ser notado pela paixonite, mesmo que numa situação de quase precisar ser salvo de tomar umas porradas era muito mais que seu coraçãozinho poderia esperar. Com um certo orgulho, tomou coragem para falar, antes que uma briga de fato acontecesse diante dos seus olhos. Não poderia ser a razão de Chanyeol tomar porrada, né? Aquele rostinho lindo precisava seguir intacto.

- Obrigada, Chanyeol. Mas tá tudo bem, ele quer acertar as bolinhas em mim porque é a única coisa que ele acerta na vida. - precisou intervir, com a voz falsamente estável

Nesse momento, Kyungsoo percebeu várias coisas acontecendo de vez: Chanyeol sorrindo largo, desses sorrisos que fazem os olhos ficarem miudinhos; Sehun ficando vermelho de ódio, ajeitando a postura pra levantar e bater no nerd; a turma toda - obviamente liderada por Baekhyun, aquele besta de riso frouxo - rindo escancarado da cara de Sehun; o professor Zhang entrando na sala no meio do furacão e calando tudo com aquela calma invejável e nenhum senso de perigo.

De repente, o ar estava tão denso que dava pra cortar com uma faca, e Kyungsoo não estava nada animado com as perspectivas que lhe aguardavam no final da aula.

Apesar disso, o professor de biologia seguiu o curso normal da sua aula, ou totalmente alheio ao climinha de guerra fria rolando entre seus alunos, ou simplesmente sem se importar, porque, aos 40 anos, drama adolescente não era algo que valia a pena ocupar neurônios e perder a paz.

Pela primeira vez em algum tempo, Kyungsoo não conseguiu prestar atenção em nenhuma unidade de palavra dita pelo professor, e olha que a aula do professor Zhang era uma das suas favoritas. Biologia tem um lugar privilegiado em seu coraçãozinho nerd, e a metodologia do cara era boa de verdade.

Porém, biologia perdia feio numa competição com Park Chanyeol e seu sorriso. Digamos que Kyungsoo só bateria uma punheta para um desses, e certamente não seria por biologia, ou pelo professor Zhang.

Em todos esses anos de escola, jamais passou - ainda não passava - pela cabeça do garoto que seu crush pudesse um dia notar sua existência, quiçá que seria para defendê-lo gratuitamente de apanhar dum valentão. Nem foi ser defendido de nada sério, só de umas inofensivas bolinhas de papel, que nem eram uma ofensa grave.

Durante os 100 minutos de aula, 10 milhões de cenários fictícios passaram por sua cabeça criativa, todos envolvendo a boca cheinha de Chanyeol na sua, as mãos grandes segurando sua cintura…

“Acorda pra vida, Kyungsoo”, balançou a cabeça para tentar afastar os pensamentos. Não funcionou, mas valeu a tentativa. Talvez.

Sinceramente, nem passou pela sua mente que precisaria - em destaque para a necessidade - de um plano de fuga para após a aula, porque de jeito nenhum Oh Sehun, o valentão popular, ia deixar pra lá uma ofensa daquelas. Em público. Que eliciou o riso da sala inteira.

“Eu tô fudido”. Ainda assim, mesmo com a ameaça iminente, Sehun era a última coisa que passava pela sua cabeça, se é que passava. Ao invés disso, apenas um turbilhão de Park Chanyeol.

Kyungsoo foi tirado dos seus devaneios apaixonadinhos quando Jeno, um garoto com quem nunca trocou uma palavra na vida, lhe cutucou por trás do braço e passou um bilhete em papelzinho cuidadosamente dobrado em um mini tsuru. Aquilo certamente que não é obra de Baekhyun, o amigo tem uma habilidade manual lastimável, não acertaria fazer um origami nem que sua vida dependesse disso.

Desdobrou com cuidado aquela forma, tentando de verdade preservar a integridade do papelzinho. Estava movido quase que só pela curiosidade, jamais recebeu um bilhetinho de alguém que não fosse seu melhor amigo, e isso era tudo estranho.

“Não esquenta com o Sehun. Encontra comigo na porta da sala na saída”

A letra não era familiar, certamente não era de Baekhyun, e muito menos o garrancho esquisito de Jongdae. Olhou em volta rapidamente, deixando os olhos perscrutarem a sala num movimento rápido enquanto o professor desenhava briófitas na lousa.

E aí que o coração desabou de vez: seus olhos acharam os de Chanyeol como se fossem ímãs, como se seu olhar procurasse exatamente aquele par. E Chanyeol estava sorrindo. Não só isso, ele deu uma piscadinha inconfundível, mesmo que discreta.

Kyungsoo sentiu o mundo parar, que nem efeito de filme.

A única reação possível que Kyungsoo conseguiu ter foi deixar a boca abrir de leve, o suficiente para demonstrar seu choque e fazer o rapper rir de canto e abaixar o olhar para fingir que estava anotando algo super importante. Kyungsoo tinha certeza absoluta que seu rosto estava pegando fogo e a respiração estava ofegante.

- Agora, falaremos de gimnospermas e angiospermas

A voz macia do professor cortou qualquer clima que o baixinho poderia imaginar, e sua atenção voltou à aula em milissegundos, com toda a força do combo constrangimento e choque.

E, sinceramente, os vários minutos seguintes se arrastaram com tal vagarosidade que poderiam se confundir com um instrumento medieval de tortura, não tinha a mínima possibilidade de os segundos passarem com tanta lentidão no mundo normal. Beleza que o Einstein falou que o tempo é relativo, mas puta que pariu…

Nessa relatividade temporal toda, o smartwatch do garoto Do marcou uma frequência cardíaca além dos seus 80bpm normais à medida que o final se aproximava. Quando o sinal sonoro tocou, indicando o final definitivo daquele tempo, ele sequer olhou quantos mil batimentos por minuto, nem fez qualquer menção de se levantar imediatamente.

Ficou ali parado, estatelado na cadeira, fingindo para si mesmo que tinha algum desenho muito fascinante na superfície da carteira. Não tinha.

- Kyungsoo, né?

“Como ele chegou tão rápido? Não tava ali no final da sala meio segundo atrás?” Kyungsoo virou a cabeça tão rápido que jurava que ouviu um estalo no pescoço.

Chanyeol riu, e puta que pariu, tinha pensado alto de novo. Dia desses, Kyungsoo ia se meter numa saia justa por causa da sua boca de sacola.

- Você que tava distraído, eu andei normal. - o mais alto falou com um sorriso meio sem graça, mas que evidenciava as covinhas, para onde o olhar de Kyungsoo correu sem querer

- Er, sou eu mesmo! Valeu por me defender mais cedo, mas não precisava se incomodar com isso, já tô acostumado.

- Não esquenta. Sehun é um escroto, ele precisa crescer pra vida.

E, falando nisso, Oh Sehun passou ao lado de Chanyeol na hora exata de ouvir a frase, e a expressão em seu rosto não era nem um pouco acolhedora. Kyungsoo tentou não se encolher, porque demonstrar esse tipo de fraqueza na frente do seu crush seria humilhante demais, mas não foi fácil.

- Abre seu olho, Park! Se mete com suas próprias brigas.

- Vê se cresce, Sehun, você não tá mais no maternal.

Kyungsoo observou aquela interação hostil com curiosidade e, se fosse bem sincero, com uma pontinha de medo, porque ter se colocado ainda mais no alvo de um popular valentão era tudo que ele não queria nessa reta final. Mas, se esse era o preço de ser notado pelo crush…

- Se ele tentar alguma coisa com você, fala comigo, beleza?

Com essa frase que carregava um mundo inteiro, Chanyeol simplesmente saiu pela porta, dando as costas para um Do Kyungsoo boquiaberto e taquicárdico. Nem em seus mais loucos sonhos…

Que foram rapidamente desfeitos por um Baekhyun cutucando suas costas e por um Jongdae dando um pescotapa sonoro e ardido. O sorrisinho debochado adornando o rosto dos 2 melhores amigos era a maior prova irrefutável de que eles jamais o deixariam esquecer dessa interação. Maldita vez que abriu a boca para admitir seu crush num colega.

- Vamos comer, princesa, que seu príncipe veio te salvar do dragão e tá na hora do intervalo.

Será que jogou pedra na cruz para ter que aturar esse tipo de provação? Pensou nisso umas mil vezes no caminho entre sua sala de aula e o refeitório. Foi até surpreendente que seus melhores amigos não tivessem feito uma unidade de comentário, mas as caras de deboche garantiam que o assunto não seria esquecido tão cedo.

Em outros tempos, em outras circunstâncias, Kyungsoo com certeza estaria pensando em como diabos explicar o que aconteceu ali, mas agora, enquanto andava, o coração parecia que ia sair do peito de tão forte e rápido que batia. Não prestou atenção nem na quantidade de comida que a tia do lanche colocou na sua bandeja, e certamente ela o olhou estranho por não ouvir o pedido por um tico mais de batatinhas.

A cabeça de Kyungsoo só ressoava um eco eterno de Park Chanyeol, Park Chanyeol, Park Chanyeol.

Nem notou quando sentou na mesa de sempre, a memória muscular atuando lindamente como deveria, para levá-lo ao lugar de sempre na mesa ao canto do refeitório.

- Explana logo, Soo, o que foi aquilo com o Chanyeol?

Baekhyun perguntou com aquele sorriso ladino, forjado no deboche, que fez o coitado do Kyungsoo corar mais ainda, como se já não tivesse sentido as bochechas pegarem fogo umas trocentas vezes em menos de 1 hora.

- Tô sabendo tanto quanto você: nada.

- Tá querendo enganar quem, Kyungsoo? O teu crush te defendeu, pareceu uma cena daqueles doramas do Lee Min Ho.

Pior que parecia mesmo. Cena saída daqueles doramas super clichês que as pessoas amavam ou odiavam em iguais proporções. Mas…

- É, cara, mas isso aqui é vida real. O Chanyeol só quis fazer a boa ação do mês, nada demais.

A desculpa saiu meio sem credibilidade até para seus ouvidos, e obviamente soou menos convincente ainda para a dupla ao seu lado.

- Imagina se ele vai lá te defender do Sehun e, de quebra, ainda te dá um beijo? - Jongdae falou rindo, aquele ordinário

- Cara, ele tá tão na sua - Baekhyun completou com aquela descaração

Kyungsoo revirou os olhos e desperdiçou um pedacinho de cenoura para jogar na testa de cada um dos seus amigos, só pela audácia de sacanear desse jeito. E só riu mesmo, balançando a cabeça numa negativa sutil, porque nem em um milhão de anos. Mas alguém pode sonhar, né…

“Park Chanyeol me notando, ha! Mais fácil cair um meteoro”

▽ ▲

Um meteoro não caiu. E, na real, nada mudou depois Daquele Dia, como o Do nomeou o evento da sua grande paixonite defender de terríveis e letais bolinhas de papel. De verdade, as coisas seguiram sendo como sempre foram desde que o mundo era mundo e ensino médio era ensino médio.

Kyungsoo acordava, xingava mentalmente o despertador, tomava seu banho, batia uma punheta de vez em quando - ficaram muito mais frequentes depois Daquele Dia, óbvio -, pegava seu sanduíche e seu café e ia pra escola. Lá, tinha as mesmas aulas de sempre, sentava na mesma carteira de sempre, e seguia sua vidinha normal.

Grande bosta.

Ainda assim, lá dentro, ele passava dia após dia esperando que o meteoro caísse. Ou melhor, que Sehun desse justificativa para falar com Chanyeol. Ou que Chanyeol falasse consigo de novo, mesmo sem justificativa nenhuma.

Sério, Kyungsoo tinha fantasiado sobre isso umas milhões de vezes. Como Sehun supostamente o abordaria no intervalo para fazer ameaças idiotas de jogador otário, tipo “se cuida, tampinha, senão eu te quebro na saída” ou algo do gênero, que nem em filmes. Com Kyungsoo engolindo o orgulho para esperar a aula acabar e Chanyeol passar na sua frente perto o suficiente para o nerd segurar a manga do casaco dele. Com uma frase baixinha de “aquela defesa ainda tá de pé?”.

Nas fantasias, tinham vários finais possíveis, por vezes sendo o Oh Sehun com o olho roxo, outras com o próprio Chanyeol com um corte no lábio (muito sexy, obviamente), outras consigo mesmo de óculos quebrados. A única coisa em comum a todas as cenas mentais era terminar com os lábios cheinhos do Park encostando nos seus.

Mas que merda de sonho, hein? Agora, Kyungsoo virou aquilo que mais julgou em todos os seus anos de aluno excluído: o cara que ficava devaneando apaixonadinho, olhando para o quadro sem enxergar nada.

Vez ou outra, tinha que ser sincero, deixava o olhar ir para o fundo da sala, meio como quem não quer nada, mas queria sim encontrar o olhar de Chanyeol procurando os seus de novo. Só que, desde aquela vez, não encontrou aqueles olhos nenhuma vezinha sequer, sua única visão era a dos cabelos pretos caídos, porque o cara tava sempre olhando para baixo e anotando.

Kyungsoo suspirou pela milésima vez, e usou toda a sua energia cognitiva para voltar a atenção à aula. Era aula de química, que, apesar de superinteressante, não chegava perto dos seus cenários mentais com certo rapper juvenil.

A aula do dia era uma revisão sobre soluções, e foi apenas nisso que o nerd tentou focar, fez toda sua força para não ceder às distrações, e ainda escreveu na pontinha do caderno um sutil “foca na faculdade”, só pra dar aquela incentivada quando precisasse.

E precisou. Por todos os longos minutos de explicações e intermináveis questões preparatórias, que pelo menos serviram para demandar concentração. Foram umas 15 questões bem complexas, dessas tiradas de vestibulares renomados, talvez até dificultadas para fins pedagógicos, e Kyungsoo deu seu máximo para responder todas.

Tinha acabado de marcar a opção de resposta da última questão - mais uma certa, para sua felicidade - quando a buzina estridente sinalizou o final da aula, e o horário abençoado do intervalo.

- Hoje é dia de Forte, galera.

Kyungsoo nem esperou seus amigos perguntarem, já se levantou informando o destino. Por mais gostoso que fosse passar os intervalos no refeitório, tendo a visão de Chanyeol sorrindo aberto (que sorriso gostoso, inferno) do outro lado do refeitório enquanto conversava com seu grupo, já era ficar babando demais por um homem. Seu coraçãozinho desiludido merecia uma folga de vez em quando.

Jongdae e Baekhyun já conheciam o amigo o suficiente para saber que ele gostava dos seus momentos sozinho, lendo sabe-se lá o que, e estava tudo bem. Ambos observaram Kyungsoo pegar seu famoso bloquinho de post-it e uma caneta da bolsa, levantar o óculos com o dedo do meio, e rumar para a porta.

- Cê acha que ele tá bem, Dae?

- Acho que tá, Baek. Aquela interação lá do Chanyeol mexeu com ele, eu sei, mas foi só aquilo.

- Bem que podia rolar, né? Ia ser tão bom ver o Soo felizinho…

Os dois deram aquele sorriso meio tristinho, meio desesperançoso até, mas é só que desejavam que o amigo fosse feliz, curtisse esse amorzinho. E estariam ali para celebrar o melhor amigo.

Até lá, foram ao refeitório, enquanto o Do ia na direção oposta.

Kyungsoo sentiu até os ombros relaxando quando chegou na biblioteca, seu lugar seguro e confortável, tão familiar quanto seu próprio quarto. Fez o caminho muito bem conhecido para sua mesa exclusiva, pegou aquele exemplar surrado de Drácula.

Já faziam alguns dias que teve a oportunidade de ir ler no intervalo, as provas e simulados para vestibulares estavam tirando sua paz, a época dos processos seletivos estava chegando e o ritmo ficando mais frenético. Já estava com saudade de suas leituras extra classe. Mais ainda de Drácula, depois de ter visto Nosferatu (com o gostoso do Nicholas Hoult), e a curiosidade para ler a obra sob uma nova ótica queimava lá por dentro.

- Bora ver esse Conde homoerótico clamar o macho dele. – falou consigo mesmo

Outra coisa boa da biblioteca só para si: dava para falar alto. Não alto alto, mas pelo menos falar sozinho sem ser visto como doido. Abriu o livro na página que lembrava ter parado, prontíssimo para seguir sua leitura com tranquilidade.

Nessa hora, irmãos, o coração de Do Kyungsoo deu um solavanco, disparou em batidas tão rápidas e fortes que jurou que seu coração sairia pela boca, uma injeção de adrenalina pulsando em suas veias numa potência de 40 redbull.

“No dia que o Drácula for hétero, eu também sou. Já viu o Nosferatu? O cara chupa o peito do homem e rebola”

Pela primeira vez em Deus-sabe-quanto-tempo de leitura, em toda uma vida de post-it em livros de biblioteca, a página estava decorada com uma folhinha adesiva que definitivamente não era sua. Nem em mil anos.

Mas que porra…?

Alguém estava lendo o mesmo livro que Kyungsoo, alguém que também entrou na hype do novo Nosferatu, e veio ler. O mesmo livro. E não só isso, ainda leu seu post-it idiota. E comentou.

Kyungsoo sentiu que poderia desfalecer ali mesmo, cair da cadeira da biblioteca, ter uma síncope e só ser encontrado daqui a 20 dias quando fizessem uma limpeza na biblioteca.

Dez mil possibilidades de quem poderia ser o outro leitor, ou leitora, mas cada rosto em sua mente era mais improvável que o outro. Ainda mais alguém que dizia na lata que não é hétero. Qual a chance disso? Numa escola de ensino médio, com um monte de gente super hétero top padrão.

Kyungsoo sabe que população LGBTQIAP+ não é realmente rara, ele próprio fazendo parte, mas também não tinha um grande costume escolar de pessoas de minorias saírem fazendo alarde. Okay, Kyungsoo já tinha tentado começar um clube de estudos de gênero e sexualidade, que não foi pra frente porque a escola era conservadora “disfarçada”, e porque as pessoas não queriam se tornar ainda mais alvo.

Então assim, saber que há mais pessoas LGBTQIAP+ não é nenhuma novidade, mas saber que tinha mais alguém ali, também meio nerd das leituras, lendo o mesmo livro e ainda comentando? Que é isso, o paraíso?

Kyungsoo precisou de longos minutos para regular a respiração - tal qual sua psicóloga lhe ensinou várias sessões atrás -, não só pelo susto, mas pela empolgação. Bancaria o Sherlock Holmes depois, porque descobrir quem era seu ou sua correspondente se tornou importante, o enigma de milhões, mas agora, queria seguir um pouco de leitura, para acalmar os nervos ou algo assim.

Não foi difícil ler, apesar do coração estar bombeando mais sangue que o normal, e um calor diferente tomasse conta de todo o corpo verticalmente prejudicado de Do Kyungsoo. Foi até muito fácil, para falar a verdade, porque mal se deu conta que estava na última página quando o sinal de volta à aula tocou.

Tá, sendo bem honesto, o intervalo tinha sido prolongado porque o professor do período pós intervalo estava de férias ou alguma merda assim, de forma que sua turma teve a maior bênção estudantil: o período livre.

Era uma boa história, como já conhecia, mas Kyungsoo ainda estava com aquela belíssima imagem do filme atual na cabeça, que, sinceramente, estava um pouco melhor que o romance hétero.

Com tudo isso em mente, e um sorrisinho de canto, pegou seu querido post-it, rabiscou uma frase e colou por dentro da contracapa.

“Chupar sangue é tipo a coisa mais homoerótica possível. O filme tá maravilhoso em comprovar isso. Você gostou?”

 

Kyungsoo estava um pouco abalado com o fato do seu post-it despretensioso ter sido respondido. Muito abalado, na verdade. Porque, de todas as mil coisas que poderia pensar de acontecer no colegial, essa não esteve nem em seus devaneios mais doidos.

Ele não era nenhum calouro na biblioteca, e já tinha relido livros o suficiente para saber que nenhum dos seus comentários tinha sido respondido até a última releitura, nem mesmo suas folhinhas tinham sido tiradas das páginas onde estavam há anos. E olha que foram muitos livros ao longo de anos de vida escolar.

A pergunta de “quem pode ser essa pessoa?” ficou martelando em sua cabeça por dias sem parar, dia e noite sem descanso, até nos sonhos. No momento que Kyungsoo pisou fora da biblioteca, uma vez que finalizou a leitura de Drácula e, consequentemente, se deparou com um post-it resposta, se percebeu olhando as pessoas de um jeito totalmente diferente.

- Será que é ele? Será que é ela?

Tudo que dava para saber era que quem escreveu aquela resposta era do vale, da parceria de minorias. Não só isso, mas que essa pessoa também tinha um bom gosto para leitura (modéstia à parte), e que tinha tempo para ler na biblioteca da escola, um refúgio totalmente subutilizado daquela instituição.

Foi com essa dúvida que Kyungsoo foi à escola nos dias seguintes, que prestou meia atenção às aulas. Lá no fundo, verdade seja dita, esperava que aquele comentário resposta fosse dele, mas seria muito enredo de clichê colegial para ser verdade, é sorte demais para sua vida de nerd excluído do ensino médio. Pff, nunca em um bilhão de anos.

A única coisa que poderia competir com a pergunta silenciosa em sua cabeça era, obviamente, a presença muito notável de Park Chanyeol entrando na sala aula, então óbvio que a questão sumiu da sua cabeça imediatamente à entrada do outro garoto na sala de aula. Kyungsoo sempre o observava, mesmo que disfarçando o olhar - ficar encarando o crush não é de bom tom, essa regra social até ele sabia - e pode notar claramente o quanto ele estava diferente. Não uma grande diferença, dessas que qualquer pessoa percebe, tipo mudar o corte ou a cor de cabelo, era uma coisa muito mais sutil, que talvez só fosse perceptível porque o observava demais.

Depois daquela cena com Oh Sehun, Chanyeol criou o hábito de entrar na sala de aula e olhar em sua direção, mesmo quando estava com os olhos miudinhos de sono, em plena 7h da manhã, provavelmente depois de um dia anterior de treino na empresa. Pior ainda: ele entrava, olhava em sua direção e sorria. Kyungsoo derretia como queijo quente na cadeira, sob o olhar descontraído do trainee.

Essa mini interação durava segundos, só o tempo de Chanyeol chegar na sala e passar pela porta. Era algo mínimo, objetivamente falando, mas que Kyungsoo passou a ansiar todos os dias, tanto quanto ansiava pelas noites de filme com seus amigos.

Os sorrisos de Chanyeol lhe entregavam mais vontade de viver que aquela dose de café matinal, e olha que pouca coisa chega perto do café no ranking do seu coração. Mas era uma competição injusta, Chanyeol sempre teve prioridade no seu coração (e em outras partes do corpo, caso tivesse oportunidade).

- E aí, cara?

Demorou um tempo consideravelmente longo, o suficiente para ser vergonhoso, para Kyungsoo perceber que era Chanyeol parado na sua frente e falando consigo. Não era uma alucinação, era literalmente seu maior crush o olhando, esperando uma resposta à saudação.

- O-oi! - o nerd gaguejou, para seu ódio interno

Kyungsoo queria ter tido tempo de dar uma resposta decente, demonstrar que sabia usar a linguagem falada tal qual um cara de 18 anos típico, mas foi só Chanyeol abrir a boca que as palavras - e, francamente, os pensamentos - fugiram da sua cabeça e foram para um abismo perdido em outra galáxia.

Até que recuperasse o dom da fala, o rapper já tinha cruzado a sala de aula e se acomodado em seu lugar no fundo, e Kyungsoo pensou consigo mesmo que perdeu A Oportunidade. “Grande idiota que você é, Kyungsoo”.

Sobreviver às aulas naquele dia, mais que em outros, foi desafiador, porque só 2 coisas corriam em loop em sua cabeça: post-its e Chanyeol, Chanyeol e post-its. Grande clichê colegial, pensou consigo mesmo, só que sem o romance, sem as habilidades sociais, sem o dom do Sherlock Holmes.

Assim que tocou o sinal do intervalo, nem se percebeu fazendo o caminho conhecido até seu refúgio escondido, nem prestou atenção se Jongdae e Baekhyun tinham lhe chamado para comerem juntos. Provavelmente sim, já era hábito dos amigos, mas, felizmente, eles o conheciam bem demais para saber quando sua cabeça estava em outra dimensão, e sabiam que era melhor deixá-lo com seus próprios pensamentos até voltar ao planeta Terra.

Também não se percebeu pegando o exemplar de Drácula, mesmo que já tivesse concluído a leitura dias atrás, mas é que existia um fiozinho de esperança de que seu post-it tivesse sido respondido, mesmo que fizessem só 3 dias. Racionalmente, não esperava muita coisa, mas quem disse que tinha algo racional na cabeça naquela hora?

O coração estava quase saindo pela boca em expectativa quando tirou o único exemplar da prateleira e abriu, com cuidado com as páginas velhas que nem papiro, na última folha. Viu, primeiro, seu próprio papelzinho, do mesmo jeito que tinha deixado, intacto como na hora que colou.

Mas, logo abaixo, num post-it menor, tinha uma resposta ao seu.

“Eu amei o filme novo, e você? E sabe o que é tão homoerótico quanto chupar sangue? Pintar um quadro. Deixa um post-it na mesa se você quiser que eu deixe um livro legal pra você”

Puta que pariu, puta que pariu. Kyungsoo ia ter uma taquicardia, ele tinha certeza absoluta que iria de arrasta para cima em tipo 5 segundos, no máximo. A resposta era real, seja lá de quem fosse, e ainda era uma resposta legal, uma interação através de livros e bilhetinhos. De uma pessoa que gostava do mesmo livro, tinha visto o filme e gostado também. E ainda estava se prontificando a recomendar um livro homoerótico.

Kyungsoo não tinha qualquer informação ou pista de quem poderia ser aquela pessoa, mas tinha um sentimento (ou era esperança?) bem lá no fundo de que era alguém relevante, por falta de uma palavra melhor. Não uma relevância tipo destaque de time ou aluno destaque da escola, mas alguém com quem se daria muito bem se visse pessoalmente.

Era uma intuição mais do que qualquer coisa, ou algo advindo dessa breve conexão literária, mas estava ali de todo jeito. Pelo menos, sabia que essa pessoa tinha bom gosto, o que já significava alguma coisa. Não era? Um bom gosto parecido com o seu.

Foi sem pensar muito que Kyungsoo escreveu sua resposta rápida e colou na beirada da mesa escondida no fundo da biblioteca.

“Eu sempre vou querer um livro legal (e homoerótico)”

O coração ainda estava ameaçando sair pela boca, e as bochechas ainda queimando como carvão em brasa, quando saiu da biblioteca para voltar à vida real de estudante. Novamente, Kyungsoo não teve uma única unidade de neurônio para prestar atenção no caminho que fazia, e pelo menos não precisava de fato, já tinha se tornado automático.

Foi por isso que não percebeu a existência de outra pessoa no corredor até ser tarde demais, até sentir o impacto do seu corpo bater em algo muito sólido. Que diabos era aquilo, uma parede? Uma parede que segurava seus ombros?

- Me desculpa, eu não…

As palavras morreram no fundo da garganta quando olhou para cima e viu que tinha trombado com ninguém mais, ninguém menos que o próprio Park Chanyeol em pessoa, carne, osso e beleza. Homem esse que estava lhe segurando pelos ombros num aperto firme.

- Você tá bem? Você tava apressado pra caramba, tá tudo certo? - Chanyeol perguntou com uma preocupação genuína na voz grave

Kyungsoo sentiu que sua alma estava saindo pelo corpo, porque era a única explicação para estar com essa falta de ar, os olhos arregalados, e a pele pegando fogo onde os dedos de Chanyeol o tocavam. Tinha a impressão muito nítida de que seu uniforme teria marca de queimado onde a mão dele segurou, mas talvez fosse só seu fogo mesmo.

- Eu tô bem, foi só um susto. Você tá legal? Me desculpa, eu estava distraído. -Kyungsoo tirou forças sabe-se lá de onde para responder baixinho

O nerd levou um tempo vergonhoso, na sua própria concepção, para se dar conta de toda a cena, para além do corpo alto na sua frente, o olhando da cabeça aos pés num misto de preocupação e curiosidade.

Chanyeol estava parado na sua frente, a franja do cabelo descolorido caindo pertinho dos olhos, num comprimento que fazia a pontinha dos dedos de Kyungsoo formigar para tocar e tirar de cima. O uniforme dele estava com botões abertos, a gravata folgada dando aquele ar rebelde que ele sempre teve.

Aos pés dos dois, Kyungsoo percebeu depois de muitos segundos, estavam vários livros espalhados no chão, e só então ele percebeu que, no impacto, provavelmente tinha derrubado o que estava nas mãos do outro. Vários livros didáticos, iguais aos seus, e algum outro, menor que os outros, que estava soterrado sob os módulos.

Nessa bagunça toda, percebeu seu fiel bloquinho de post-it amarelo néon caído junto às coisas do mais alto, e pensou consigo mesmo que era o máximo que suas coisas se misturariam na vida. Que pena.

- Meu Deus, me desculpa, deixa que eu pego suas coisas

Kyungsoo achou - não, ele tinha certeza - que morreria de vergonha pela própria desatenção, e abaixou o mais rápido que conseguiu para tentar pegar os pertences espalhados no chão, porque era o mínimo depois de ter esbarrado no cara.

Os dedos estavam tremendo e causando um risco de derrubar tudo de novo, mas respirou fundo para não passar mais essa vergonha. Estava dando o comando aos pulmões quando Chanyeol agachou na sua frente, sorrindo daquele jeito leve que fazia parecer que ele tinha o sol na boca.

- Ei, foi um acidente, fica tranquilo. Eu te ajudo.

E foi nessa hora que o mundo parou de girar, quando os dedos quentinhos de Park Chanyeol tocaram os seus quando pegaram um livro ao mesmo tempo. Merda, Kyungsoo queria morar naquele toque, por mais leve fosse, mas parecia ancorar tudo naquele momento.

Maldito Chanyeol com seu sorriso lindo, cabelos lindos, dedos quentes. Não tinha limites para o tanto que poderia desejar uma pessoa? Deveria ter.

Obviamente que o trainee foi mais rápido em pegar as coisas, porque, antes que o Do percebesse totalmente, ele já estava com todos os livros apoiados no braço e levantando-se do chão. Kyungsoo levantou também, sem conseguir tirar os olhos do rosto bonito (se ele se demorou olhando para os lábios cheinhos, ninguém precisava saber), nem mesmo para receber seu bloquinho de post-it.

- A gente se esbarra por aí, Kyungsoo.

Chanyeol falou, ainda sorrindo como se estivesse num comercial de pasta de dente, e saiu andando. E espera aí, ele falou seu nome? Assim, com todas as letras?

 

▽ ▲

 

Há tradições escolares que simplesmente não somem, independente de quanto tempo se passe. O baile dos formandos, por exemplo, é uma das tradições que mais resistem, já que todos os alunos do terceiro ano do ensino médio querem uma boa razão para se divertir, dançar e fazer do ginásio da escola um lugar descontraído.

Não surpreendia, também, que o baile fosse quase que exclusividade das conversas nas últimas semanas de aula. A data do evento estava se aproximando, assim como a formatura do último ano, e a energia era contagiante.

Bom, para a maioria das pessoas, era uma energia de caos gostoso, de antecipação para algo memorável. Os corredores estavam decorados com cartazes divulgando a data, todos os professores comentavam em suas aulas - até os professores estavam empolgados por uma noite de lazer - e não se falava em outra coisa nas conversas paralelas.

Claro que, com o tema baile, vinham as tensões sobre os pares para irem ao evento. Jongdae namorava, então era certo que ele iria com ela, como foi a todos os eventos nos últimos 3 anos. Fora os casais já estabelecidos, o 3º ano se tornou um grande pandemônio hormonal de adolescentes tomando coragem de chamar seus e suas crushes, nervosos e nervosas pela perspectiva de uma aceitação ou de uma negativa.

- Por que você não chama teu crush para o baile, Soo?

Baekhyun, aquele arrombado, teve a cara de pau de perguntar enquanto almoçavam no refeitório, Kyungsoo com uma garfada a meio caminho da boca.

- Porque eu vou chamar sua mãe. - respondeu antes de colocar a comida na boca e mastigar lentamente, olhando em desafio

Jongdae, que estava ao lado, deu uma gargalhada alta o suficiente para chamar a atenção das mesas em volta, e pessoas desconhecidas os olharam estranho. Nada de novo sob o sol, então nenhum dos três ligou.

- Tô falando sério, porra. Tá todo mundo chamando quem tá afim, e é tipo a última oportunidade. A gente tá indo embora desse inferno.

- Porque isso muda muita coisa na nossa vida, né? - Kyungsoo revirou os olhos - Primeiro, você convida o Jongin e aí eu penso em pensar na possibilidade de chamar.

Foi o comentário certeiro para fazer Baekhyun corar, o que era um fenômeno raro para alguém tão abertamente cara de pau e palhaço. Kim Jongin, um jogador surpreendentemente legal do time de futebol americano, e parte da equipe de ginástica da escola, era o ponto fraco do Byun. Eles já tinham flertado discretamente, Kyungsoo percebia umas trocas de olhares entre eles em momentos aleatórios, mesmo que nem ele nem o amigo nunca tenham dito nada sobre isso, e sabia, também, que nenhum dos dois tinha coragem de fazer nada por livre e espontânea iniciativa.

- Você é tão mau, Kyungsoo, eu só tava tentando ajudar - Baekhyun disse com o biquinho

Lá no fundo, no íntimo mesmo, Kyungsoo já tinha fantasiado sobre como seria chamar Chanyeol para o baile. Em vários dos seus devaneios improváveis, ele chegaria para o crush com toda a coragem do mundo reunida, perguntaria sem gaguejar, e Chanyeol daria um daqueles sorrisos luminosos para dizer que sim, iria ao baile consigo.

Não passavam de devaneios, porém. Nunca teria coragem para sequer chegar perto de Chanyeol, que dirá convidar para um baile. Além do mais, não tinha a mínima ideia se ele curtia homens, ou se curtiria Kyungsoo caso gostasse de homens, e a possibilidade de receber uma rejeição era mais que suficiente para fazê-lo desistir da ideia.

Não, ser rejeitado por Park Chanyeol, correr o risco de ver uma expressão de asco naquele rosto era fora de cogitação. Sua saúde mental e seu coraçãozinho não aguentariam um golpe desses.

- Pois você bem que poderia tentar, seu cruel - Baekhyun tentou uma última vez

Por mais que não fosse tentar, foi inevitável Kyungsoo olhar na direção do Park, numa mesa do outro lado do refeitório. Tudo na vida deles era assim: opostos. Sentavam em lugares opostos na sala de aula, comiam em mesas opostas no refeitório, a quantidade de pessoas em volta era oposto, a popularidade e relevância na vida eram diametralmente opostas.

Ainda assim, Kyungsoo olhava, usava a distância para observar como Chanyeol ria daquele jeito estridente que mexia seu corpo inteiro com alguma piada que seus amigos falavam, ver como o cabelo, agora num tom pastel de azul, meio que bruxuleava sob o feixe de luz que passava pela janela e batia nele.

Merda, estava ficando romântico demais, não existia uma forma disso acabar bem para seu coração.

Jongdae e Baekhyun engajaram em algum assunto, provavelmente ainda o baile, a única temática em todo o colégio até o dia do evento, e Kyungsoo se permitiu viajar nos pensamentos, nas coisas inesperadas que estavam rolando na sua vida, nos 45min do segundo tempo escolar.

Desde o dia que viu o post-it resposta ao seu em Drácula, e teve aquele oferecendo um livro, o coração de Kyungsoo batia forte sempre que ia à biblioteca, o que se tornou mais frequente na última semana. Seu penpal estava quase - palavra chave aqui sendo o quase - competindo com o crush na frequência de pensamentos, perdendo ainda por muito pouco.

Depois de ter deixado a resposta na beirada da mesa, aceitando a indicação misteriosa de livro, Kyungsoo passou uns bons 2 dias parecendo sob efeito de energéticos fortes de tão agitado, queria ir correndo para a biblioteca toda hora, mas não podia porque seria simplesmente muito suspeito, fora que seus amigos não engoliriam.

O rolê dos post-its ainda era um segredo, não porque quisesse esconder as coisas de Baekhyun e Jongdae exatamente, mas porque parecia algo tão particular, tão só seu… Queria manter aquela interação só para si por um tempo, aproveitar o gostinho e as sensações enquanto elas lhe eram tão particulares.

Nisso de se perder em pensamentos, acabou de volta ao Forte, esperando muito ver um bilhetinho grudado, mas com aquele medo lá no fundo de não ter nada e ser tudo uma ilusão. Para seu grande alívio, o suficiente para soltar o ar que nem sabia que estava prendendo, tinha uma folhinha laranja grudada à mesa, no lugar onde tinha deixado a sua resposta.

“Terceira estante à direita, na última prateleira (perto do chão), atrás de um livro amarelo de física aplicada.”

O coração de Kyungsoo já estava errando as batidas, como se uma banda estivesse fazendo a apresentação mais doida do mundo, ouvia sua pulsação ecoar nos próprios ouvidos de um jeito ensurdecedor. Seguiu as coordenadas de um pedacinho de papel, esperançoso e curioso sobre qual seria aquele livro, e quem seria seu amigo desconhecido.

Agachou, ainda que sua altura verticalmente comprometida já o fizesse estar mais perto do chão naturalmente, e precisou vasculhar a prateleira com os olhos até achar o tal livro de física para, então, procurar atrás dele pelo que esperava. Se sentiu estranho, de um jeito bom, procurando por algo secreto, que apenas ele e outra pessoa sabiam.

Quando encontrou, não teve jeito, precisou abrir um sorriso do tamanho do mundo quando pegou o livro e viu qual era, aquele nome conhecido na capa. Realmente, era uma pessoa de muito bom gosto, e certamente gay, se é que tinha dúvidas sobre isso. Quem mais deixaria O Retrato de Dorian Gray como indicação?

Realmente, nada mais homoerótico que pintar um quadro do crush.

Apesar de já ter lido antes alguns anos atrás, pareceu quase inédito quando veio assim, como indicação misteriosa, nessas circunstâncias tão particulares. Kyungsoo não resistiu à curiosidade e folheou as páginas surradas, sentindo o livro em suas mãos como se pudesse sentir o toque da outra pessoa por baixo do seu. Ilusão, mas quem disse que estava procurando tudo racional?

Nessa hora, sua atenção foi roubada pelo vislumbre rápido de uma folhinha colorida perdida no meio das folhas brancas/meio amareladas. Sabia, imediatamente, o que significava aquele laranja néon no meio das páginas.

“Espero que goste. Aliás, quer ir ao baile comigo? Eu vou estar com uma flor azul no bolso do paletó. Me diz se aceita? “

 

As semanas finais do ano letivo passaram vertiginosamente rápido, de um jeito que toda a escola estava com os nervos à flor da pele, seja pela excitação gostosa das férias, seja pela animação de concluir a escola para entrar na universidade, seja pelo medo de tomar bomba, ou seja pela vontade desesperada de férias e um 13º caindo na conta.

Qualquer razão que fosse, a energia do lugar estava elétrica, dava para sentir as partículas se movendo ao entrar pelas portas dos prédios, como se tudo estivesse num rebuliço constante. E meio que estava mesmo.

- Soo, amor da minha vida …

Baekhyun recepcionou Kyungsoo na porta da escola, o que já era estranho por si só, e, se o estava chamando por um nome carinhoso, vinha chumbo grosso aí.

- Não tenho grana pra emprestar, Baekhyun, nem vou te ajudar a desovar nenhum corpo.

Baekhyun levou as mãos na altura do coração, fingindo que estava profundamente magoado com aquilo, mas os cantinhos da boca subindo num riso zombeteiro entregava tudo.

- Você é sempre tão mau comigo, SooSoo. Só por isso, eu devia te deixar de fora da novidade.

Okay, Baekhyun falar em novidade era algo, bom, novidade. Pelo menos com aquela animação toda, que o levantasse da cama antes do horário das aulas e estivesse à postos antes do primeiro sinal.

- Você tá estranho, me conta logo o que foi, desembucha.

Seu melhor amigo, então, sorriu do jeito aberto de sempre, mas o rubor que tomou suas bochechas era uma coisa nova. Muitas novidades, de fato.

- Eu talvez tenha chamado o Jongin pra ir no baile comigo. E ele talvez tenha aceitado. Então talvez a gente vá junto de verdade.

Kyungsoo ficou boquiaberto, a cabeça zonza num redemoinho de pensamentos e sentimentos. Caralho, ele estava tão feliz por seu melhor amigo, ao mesmo tempo que surpreso pela coragem dele de chamar o crush, surpreso com o fato de Jongin ter aceitado, e absurdamente feliz por tudo, sem tirar nem pôr.

- Não acredito, Baek!!! Caralho, eu to muito feliz por você.

Ele, que não é o mais afetuoso fisicamente, deu um abraço muito apertado do amigo, que ria descontrolado sob seu toque. Surreal demais, de um jeito gostoso, ver mais um melhor amigo sendo apaixonadinho e indo com seu highschool sweetheart para o baile.

- Eu sei!!! Agora só falta você chamar o Chanyeol.

Bom, aí entrava o tópico perigoso, que Kyungsoo tentou disfarçar sob a animação efusiva pelo amigo. Ainda não tinha tido coragem de contar aos dois melhores amigos sobre suas trocas de bilhetinhos via post-it, muito menos que tinha recebido um convite para o baile, e menos ainda que tinha aceitado tal convite.

Lá no fundo, Kyungsoo se sentia culpado por não estar informando tudo em tempo real, como normalmente faria, mas era uma troca que parecia ainda tão íntima e frágil, algo que poderia quebrar irreparavelmente se deixasse cair. Kyungsoo não queria deixar cair.

- Não vai rolar, Baek. Mas tá tudo bem. Eu quero ver você dançar muito com o Jongin, e não aceito menos que um beijo entre vocês.

Foi o suficiente para fazer a atenção de Baekhyun desviar da sua falta de coragem para dar lugar ao adolescente contato, com toda a empolgação que tinha direito, sobre seu date de baile com o paquera gostosão, finalmente tirando a atenção do drama particular do nerd.

- E como foi que você, hipoteticamente, chamou ele pro baile? - Kyungsoo perguntou enquanto andavam em direção ao prédio de aula.

Se Baekhyun precisava de uma desculpa para despejar todos os seus segredos (não precisava), era aquela. Foi um alívio para Kyungsoo conseguir driblar a atenção que receberia, ao mesmo tempo em que estava curioso de verdade com a súbita coragem.

- Foi bem clichê, na verdade. Eu queria te contar uma história de arrepiar até os cabelos do seu cu, mas vou ficar devendo essa pra quando eu contar que dei pra ele.

Até nisso, Baekhyun era um palhaço. Pior que ele, só Kyungsoo que riu.

- Eu só botei um bilhetinho no armário dele perguntando se ele queria parar de só me olhar de longe e ir comigo no baile, e botei meu número embaixo. Você não vai acreditar em como ele me respondeu…

- Como? - estava genuinamente curioso

- Ele me olhou do carro dele, piscou pra mim, e disse que aceitava. Você acredita nisso, Soo? Ele piscou pra mim. E vai comigo no baile.

A empolgação de Baekhyun era contagiante, não só por ele deixar a felicidade jorrar pelos poros, mas porque Kyungsoo estava realmente feliz pelo melhor amigo, mais um apaixonado que estava tendo uma experiência boa no amor. E, por mais tranquilo que fosse na vida, Kyungsoo sabia que, se Kim Jongin se atrevesse a machucar seu amigo, não restaria muito dele para contar a história.

Foi sorrindo todo o caminho, ouvindo as confabulações alheias, até chegar na sala de aula e sentar no lugar de sempre, na sua rotina nada inédita. Quer dizer, quase nada inédita.

A coisa toda tinha tomado um rumo muito diferente nas últimas semanas. Primeiro, Chanyeol, para o perigo da capacidade cardíaca de Kyungsoo,tinha criado o hábito de sempre falar consigo quando entrava na sala de aula, o que já era muito estranho, ainda que muito bom. Nas primeiras vezes, o nerd duvidou que era realmente consigo, mas não dava para duvidar muito quando estava sendo citado nominalmente.

Todos os dias, ouvia um “Bom dia, Kyungsoo”, “dormiu bem, Kyungsoo?“, “gostei do copo, Kyungsoo”. Seu coração ameaçava parar em todas as vezes, sem exceção, em ouvir aquela voz grave lhe falando diretamente como se fossem conhecidos antigos. Okay, eles eram colegas há anos, mas nunca tinham trocado tantas palavras antes.

A segunda coisa era a correspondência via post-it com seu amigo oculto barra par no baile. Kyungsoo ainda não fazia a menor ideia de quem poderia ser, só que era um cara que curtia homens, tinha um ótimo gosto literário, e parecia saber sua identidade.

Pior que Kyungsoo tentou ficar mais atento nas idas à biblioteca, tentando descobrir quem era aquela pessoa misteriosa, mas não tinha nenhuma pista, nenhumazinha para dar qualquer dica de quem seria. E, mesmo não sabendo quem era, tinha aceitado ir ao baile com ele. Assim, no escuro, tipo um blind date.

Que loucura.

Nessas semanas, estavam lendo O Retrato de Dorian Gray, aquele romance de Oscar Wilde, e trocando post-its no livro como se fosse uma conversa ao vivo, dessas que sempre quis ter com outras pessoas. Era uma troca gostosa, leve, cheia de bom humor e sacanas legais, indicações de filmes até.

Na última, o post-it do seu correspondente secreto dizia apenas

“Se você gostar de saber quem eu sou, podemos assistir ao filme juntos e babar pelo Ben Barnes.”

E era nesse momento de nervosismo que Kyungsoo se encontrava, porque o baile seria na noite seguinte, quando finalmente poderia descobrir a identidade do seu par. Uma sensação constante de borboletas no estômago tomou conta, sem parar um minuto sequer, e já nem estava uma coisa gostosinha. A antecipação era boa, ao mesmo tempo em que era sufocante.

Quem era seu par? E se não gostasse dele? E se fosse feio? Estava traindo seu crush em Chanyeol em ir com outro no baile? Com quem Chanyeol iria? E se gostasse do par?

Eram tantas questões que tudo ficou em segundo plano pelo resto do dia.

 

Do Kyungsoo se olhou no espelho de corpo inteiro, analisando cada ângulo e vinco em seu paletó preto. Com certeza, ia passar um calor inexplicável no ginásio do colégio, mas precisava estar o mais bonito possível.

O terno branco e paletó preto estavam muito bem alinhados, muito obrigado, seu sapato de couro estava lustroso e recém polido. Até seu cabelo curtinho, passado na máquina 1, estava bonito.

Tinha optado por lentes de contato, apesar de odiá-las em geral, mas pareciam uma boa opção para ir a um baile de encerramento de escola. O perfume também estava bom, sem ser exagerado, nem pouco demais, além de ser o seu favorito, reservado a ocasiões especiais.

Olhou-se de todos os ângulos possíveis, se movendo na frente do espelho como se fosse ter uma visão diferente de uma hora para outra. Talvez, só talvez, estivesse nervoso com a possibilidade de descobrir a identidade do seu par, e o fato dos minutos se aproximarem só deixava tudo ainda mais caótico, fazia formar um nó na garganta que não tinha nada a ver com a gravata.

Só desviou o olhar quando ouviu três batidas suaves na sua porta, que provavelmente eram da sua mãe.

- Pode entrar!

A senhora Do entrou no quarto devagar, e Kyungsoo viu quando ela tentou disfarçar os olhos marejados. Realmente, mãe era uma coisa boba, né? Não que ele não achasse bonitinho, mesmo quando o fazia ficar morto de vergonha.

- Você está tão lindo, meu filho. Você era um bebê até um dia desses, e agora está um homem, todo arrumado para um baile.

Kyungsoo se segurou para não revirar os olhos, pois sabia que magoaria sua mãe se o fizesse, e ela só estava cumprindo o papel de mãe orgulhosa e apoiadora. Foi ela quem esteve com ele em todos os momentos, enxugando todas as lágrimas de quando sentia medo de tirar uma nota ruim (nunca tirou), de quando descobriu que gostava de garotos.

Seu pai tinha falecido quando Kyungsoo ainda era criança, então sempre foi ele e a mãe contra o mundo. E, mesmo trabalhando o dia inteiro, ela ainda teve forças de ser a mãe mais incrível do mundo, tinha todo direito de ser emocionada o tanto que quisesse.

- Obrigada, mãe. Obrigada por escolher a roupa pra mim, ficou muito boa mesmo.

- Seu pai ficaria tão orgulhoso, filho. Ele amaria te ver agora. - ela disse, deixando algumas lágrimas caírem

Ele também queria ter o pai ali para vê-lo concluir o ensino médio. Mas ele não estava, era sua mãe ali o tempo inteiro, do começo ao fim. Kyungsoo tentou não ficar emocionado também, sabia que a mãe choraria ainda mais se ele caísse no choro também.

- Eu te amo, mãe. Fico feliz de você estar aqui para me ver agora!

Ele se sentiu uma criança de novo ao procurá-la para um abraço bem apertado, mesmo que, agora, ele a abraçasse por cima dos ombros, estando muitos centímetros mais alto. Realmente, parecia um dia desses que ele a abraçava pela cintura, e conseguia ouvir seu coração batendo na altura do seu ouvido.

- Agora vai logo, moleque, senão eu vou molhar seu paletó com lágrimas.

E lá estava ela de volta, com seu humor e cara de teimosa, fazendo-se de forte para que o filho fosse também. Funcionou para arrancar um sorriso dele, e fazê-lo sair da frente do espelho para ir ao tal baile. O relógio no pulso indicava que chegaria elegantemente atrasado.

- Você pode molhar quantos paletós quiser, dona Do. Mas eu já vou, não se preocupa.

Kyungsoo deu uma última olhada no espelho, só por garantia (a milésima da noite) e acompanhou a mãe para descer as escadas. Dessa vez, os familiares não fariam parte, porque não era a cerimônia de formatura de fato, só o baile dos alunos. Nem os professores participavam de verdade, estavam lá só para garantir que um monte de adolescente reunido não fizesse muita merda nem contrabandeasse bebida para jogar no ponche.

A viagem de Uber de casa à escola foi rápida, não morava muito longe. Em dias normais, fazia o percurso de bicicleta, e levava 20 minutos no máximo, mas chegou à conclusão de que andar de bicicleta vestindo roupas formais não era exatamente a ideia mais brilhante do mundo.

Portanto, Uber foi a resposta.

O que era, também, uma merda, porque os 8 minutos de viagem no banco do passageiro davam margem para que os pensamentos tomassem conta, e isso nunca era algo bom, especialmente nessa noite.

O nervosismo voltou a bater com força em seu peito, as batidas do coração indo para um ritmo digno de maratona. Quantas milhões de possibilidades existiam de dar muito errado essa história de aceitar um par sem saber quem era? E se fosse um cara estranho? Feio?

Tudo isso martelou na cabeça de Kyungsoo durante toda a viagem, que pareceu muito mais longa do que realmente era. Seu estômago estava embrulhado e a testa orvalhada de suor quando o carro parou na entrada da escola.

- Chegou, garoto! Bom baile aí, e deixa aquelas 5 estrelas pra fortalecer o trampo. - o motorista disse assim que puxou o freio de mão

Kyungsoo abriu a porta meio cegamente, depois de agradecer e confirmar que daria 5 estrelas pro cara. E era aquilo, né, se o motorista não fizesse nenhuma loucura que colocasse sua integridade física em risco, nem assediasse de alguma forma, as 5 estrelas estavam garantidas. Esperava que as suas também.

Nem o ar frio da noite ajudou em muita coisa a diminuir o calor, suas palmas das mãos ainda estavam molhadas, independente de quantas mil vezes as enxugasse na calça. As pernas estavam meio bambas quando fez o percurso da entrada da escola até o ginásio, tentando lembrar dos exercícios de respiração que sua psicóloga tinha passado inúmeras sessões ensinando.

O ginásio, como esperado, estava totalmente decorado para um baile memorável, parecendo um cenário de Grease, só faltava Olivia Newton-John e John Travolta dançando na pista. Pista essa que, inclusive, já tinha algumas pessoas dançando.

Deixou os olhos perscrutarem o ambiente, tentando gravar os detalhes para o futuro, para quando não tivesse mais escola. E, se ele estava procurando por uma flor azul no bolso do paletó, ele diria que era ilusão de quem observasse.

- Kyungsoo, aqui!! - ouviu alguém gritar

Perto da mesa das comidas, obviamente, Baekhyun e Jongdae já estavam muito bem acomodados, com vários papéis de salgadinhos amontoados em cima da toalha vermelha. Os copos estavam cheios também, ele notou, apesar de não ter nenhum álcool envolvido até onde sabia.

- Você não tá meio atrasado não, Soo? - Baekhyun tentou provocar

- Meu caro, um mago nunca se atrasa, nem se adianta, ele chega exatamente quando pretende chegar.

Seus dois melhores amigos reviraram os olhos do jeito mais caricato que conseguiram com a citação de Senhor dos Aneis a essa altura dos acontecimentos. Um nerd não abandona suas raízes de uma hora para outra.

- Você já perdeu parte da diversão. O senhor Zhang já flagrou o Sehun tentando trazer um cantil com whisky, ele só não foi suspenso porque os professores ficaram com pena. Mas ele tá sob vigia.

- Cara, não acredito que ele fez essa burrice, o cara realmente não pensa. - Jongdae complementou

Isso era tão típico de Oh Sehun que Kyungsoo nem se surpreendeu, talvez a maior surpresa fosse o professor ter ficado de boa com isso. O senhor Zhang era um cara tranquilo, desde que não fizessem bagunça na sua aula, porque aí era o suficiente para a paciência ir pelos ares. O próprio jogador do time já foi expulso da sala um zilhão de vezes, deveria saber mais que isso.

Sentou-se na cadeira que sobrava, ao lado da namorada de Jongdae, que estava linda ao lado do namorado. Seus dois amigos estavam lindos, na verdade.

- A gente tá gato pra caralho, né não?

Baekhyun, como sempre, foi o primeiro a comentar, com aquele sorriso sacana e convencido nos lábios. Só que, dessa vez, ele estava certo.

- A gente tá gato pra caralho. - Kyungsoo concordou

- Pelo menos uma vez na vida a gente tem que estar. - Jongdae complementou

Estar com seus amigos era como estar em casa, tinha aquele conforto gostoso da familiaridade, do acolhimento, de saber que ali era o ponto de equilíbrio. Apenas ali, Kyungsoo conseguiu que seu coração normalizasse as batidas e a respiração levasse uma quantidade decente de oxigênio para os pulmões, sem a ameaça iminente do colapso.

E, falando em colapso…

- Caras, preciso falar uma coisa com vocês.

Tentou falar sem rodeios, já falhando um pouco, mas sendo o suficiente para chamar a atenção dos dois amigos. Ambos o olharam com total atenção, curiosos e fofoqueiros como sempre.

- Então… - começou, pigarreando - Alguém meio que respondeu a um dos post-its que eu deixei num livro, e a gente meio que começou a conversar por post-it

Olhou para Jongdae e Baekhyun, procurando por qualquer indício do que seus amigos estavam pensando. Baekhyun já tinha franzido o cenho, o que era esperado, e o Do sabia que ele estava há segundos de falar alguma coisa sobre seus post-its.

- E ele meio que me convidou pro baile hoje. E eu aceitei. Só que eu não faço ideia de quem é, ele só me disse que ia estar usando uma flor azul no bolso do paletó.

Okay, tudo parecia muito mais idiota quando ele falava assim, em voz alta, e olhando para a cara dos melhores amigos. Que ideia mais idiota tinha sido essa de aceitar um convite feito por um estranho? Via post-it em livro?

Kyungsoo estava prestes a abrir a boca ele mesmo e se recriminar, antes que seus amigos o fizessem. Jongdae estava com aquele franzido de testa típico de quem daria uma bronca inesquecível.

Porém, no momento em que mexeu a boca para falar alguma coisa, o nerd viu a expressão de Baekhyun mudar de “meu Deus, que ideia merda” para pura surpresa e incredulidade. Foi uma mudança tão clara que pareceu um frame by frame de desenho animado, como aquela cena da preguiça rindo da piada em Zootopia.

- O que foi, Baek? - perguntou, já preocupado

- Eu ia dizer que foi a ideia mais burra que eu já ouvi - ele começou, abrindo um sorriso sacana. - Mas acabei de mudar de ideia. Você venceu muito na vida, cara.

Sabe aquele momento de filme em que tudo passa em câmera lenta? Quando o tempo congela, quando os confetes caem devagarinho, quando as luzes se encontram para iluminar o centro da cena, e a música vira uma trilha sonora perfeita? Kyungsoo se sentiu nesse momento cinematográfico ao olhar para trás.

Ele esperava muita coisa, ao mesmo tempo em que não esperava nada, mas sabia que nunca, jamais pensou que fosse ver um Park Chanyeol de terno e paletó pretos, cabelo penteado para trás com gel e um sorriso enorme iluminando o salão.

E uma rosa azul no bolso do paletó.

- Você me daria a honra de uma dança, Do Kyungsoo?

Era o próprio Park Chanyeol, vestido como uma droga de um príncipe, que estava lhe estendendo uma mão, sorrindo em expectativa daquele jeito estonteante.

Kyungsoo ficou sem palavras, literalmente sem palavras. Mas teve a presença de espírito de, mesmo boquiaberto, levantar e deixar sua mão ser abraçada pelo calor daquela mão maior que a sua, uma diferença que o fez se sentir pequeno.

Chanyeol o conduziu lentamente até o meio da pista de dança, sem nunca tirar os olhos do companheiro. Kyungsoo se deixou ir, completamente entregue em todos os sentidos possíveis e impossíveis, com o coração prestes a se tornar um helicóptero que voaria para fora do seu peito, diretamente para as mãos do seu par.

No meio da pista de dança, Chanyeol o girou devagarinho, testando as reações. Pousou a mão grande em sua cintura, apertou de um jeito que foi, ao mesmo tempo, sensual e reassegurador, e a outra mão não abandonou a sua em nenhum momento, nem por um segundo.

- Você pode colocar a mão no meu pescoço, sabia? - disse com um sorriso maroto nos lábios

A ficha começou a cair quando a música mudou para algo mais lento, uma balada clássica de baile escolar, e Chanyeol o conduziu numa valsa lenta. Kyungsoo nem tentou resistir ao impulso de levar sua mão à nuca do seu par, não resistiu a acariciar o local, sentir a aspereza dos cabelos baixinhos graças ao undercut.

- Era você esse tempo todo?

Ainda que seu mega crush estivesse literalmente consigo nos braços, dançando num baile, ainda era difícil de acreditar que era realidade. Era tão bom para ser verdade, que Kyungsoo teve medo que tudo se dissipasse e ele acordasse na sua própria cama, longe do quente do corpo do outro, longe do cheiro da colônia amadeirada, longe daquele peito sólido contra o seu.

- Você esperava que fosse outra pessoa?

- Nunca. Mas não achei que eu teria tanta sorte assim.

Chanyeol deu uma risada baixinha, que soou como música aos seus ouvidos, levou um calor ao meio do peito, e que ameaçava descer para outras extremidades do seu corpo.

- Fiquei de olho em você desde que o Sehun fez aquela ceninha, fiquei com medo dele tentar alguma coisa contigo. Aí vi suas idas à biblioteca e aquele bloquinho que você costumava escrever.

Ele não precisava se explicar, mas o fez assim mesmo, e Kyungsoo sentiu-se derreter mais e mais a cada segundo. O mundo se resumia àquele homem na sua frente, e nada mais. Se explodisse tudo naquele momento, ele não saberia.

- E aí você decidiu conversar por ali ao invés de falar pessoalmente? - arqueou as sobrancelhas

- Em minha defesa, eu não sabia se você curtia homens, e não quis arriscar tomar um fora. Acho que falar sobre Nosferatu te entregou.

Kyungsoo riu junto, tinha entregue a si próprio graças a um vampiro comedor de casal. Se isso não era a coisa mais louca da sua vida, sinceramente não sabia o que mais poderia ser.

- Os post-its só não entregaram um detalhe.

Chanyeol arqueou uma sobrancelha, curioso. Lá no fundo, tinha uma gotinha de apreensão, mas era pequena, uma que fez questão de desmanchar o mais rápido possível.

- O quê?

- Que tem anos que eu tenho crush em você, Park Chanyeol.

Mal as palavras saíram de seus lábios, o rapper sorriu ainda mais, como se tivesse ouvido a coisa mais incrível do mundo inteiro, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Porra, Kyungsoo se sentiu importante, desejado, celebrado como nunca antes.

As coisas ficaram em câmera lenta novamente quando Chanyeol se aproximou ainda mais, grudando seus corpos até não existir espaço para um átomo entre eles. A solidez do corpo maior era surreal, mais que em seus sonhos, o calor que emanava do corpo do seu par estava suficiente para fazê-lo entrar em combustão espontânea.

Quando os lábios macios e cheinhos de Chanyeol tocaram os seus, o mundo parou. Apertou a mão que estava na nuca do outro, puxando-o mais para perto, com medo que ele fosse embora. Ele não foi. A mão em sua cintura apertou-o um pouco mais, o suficiente para tirar um gemido que, em qualquer outra ocasião, seria constrangedor.

Chanyeol aproveitou esse átimo de segundo para deslizar a língua na boca de Kyungsoo, devagarinho e sorrateira, explorando a quentura daquela boca que deseja há meses.

Do Kyungsoo nunca foi um grande fã de beijos, achava-os bonitos apenas nas histórias e nos filmes, mas uma coisa superestimada na vida real. Talvez o problema estivesse em quem beijou, porque, com Chanyeol, era tudo diferente.

Se entregou naquele beijo como se a vida dependesse disso, sentiu-se guiado pela boca de Chanyeol na sua, ditando o ritmo, os movimentos, aprofundando ainda mais o que nem sabia ser possível de aprofundar. Mas o rapper sabia, e fazia questão de demonstrar com sua boca.

Kyungsoo tinha perdido completamente a noção de tempo, espaço, até a noção do ser, focado apenas naquele beijo molhado, lento e sensual. Não percebeu nem quando estava com o ar faltando nos pulmões, que só voltou quando seu par se afastou, finalizando aquele beijo com vários selinhos.

- Você é meu melhor amor de post-it.

Kyungsoo realmente estava vivendo um clichê colegial. O melhor do mundo, se significasse poder beijar Park Chanyeol por horas e horas, dias, meses.

Notes:

E aí, meu povo, o que acharam? Espero de coração que tenham gostado, e fiquem livres para comentar e falar comigo no twitter (@smiugol) sempre que quiserem.

Sei que terminou de um jeito levinho, sem nenhuma cena hot mesmo. Mas, se essa fic tiver uma boa recepção, talvez eu faça um extra mostrando um pouco da relação ChanSoo depois dessa ficada no baile. Me contem o que vocês acham da ideia.

Beijinhos, e obrigada por chegarem até aqui.