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Para muitas pessoas o medo de subir ao palco as assola até a velhice.
E não é possível julgar, a final, apenas poucos corajosos podem afirmar que o superaram ou nunca tiveram o vislumbre de serem atentados por tal terror invisível.
Dizem que ele se assemelha a uma serpente traiçoeira. Que rastejará pelos pés, deixando-os bambos por suas escamas frias, subindo por suas entranhas silenciosamente em um ritmo tortuoso até se alojar entre a garganta e o cérebro, onde poderia destilar seu veneno corrompido.
Paralisando o corpo por inteiro.
Consumindo tudo o que tiver em sua vista.
E ela reinará naquele mórbido bloqueio que pode oferecer, saboreando o desespero ardiloso de olhares e julgamentos que poderia manipular dentro da mente infectada de seu hospedeiro, este que mal consegue proferir uma palavra, se é que pode se lembrar de como falar em um momento crítico como esse.
Pois aquela víbora se alimenta exatamente destes anseios, podendo se tornar um marco na vida de muitos, um motivo de trauma para outros, mas não importa de que forma seja... no fim, aquele ser sempre estará lá como um amargo lembrete
A serpente que enforca sonhos e impede pessoas de vencerem.
Cellbit Stregone, no entanto, se lembrava exatamente da primeira vez que a conheceu
Estava em uma pista de sua cidade, o verão havia assolado a todos os moradores de São Luiz do Maranhão mais cedo do que o esperado, obrigando as famílias maranhenses a abrirem suas janelas para tentar se refrescarem ou mandarem seus filhos para brincarem fora de casa na tentativa de escaparem do dia calorento. E como uma boa mãe brasileira que era, a senhora Stregone não deu outra, e expulsou o menino para ir brincar junto de sua irmã até que o clima estivesse ameno para retornarem.
Sua família relata que Cellbit sempre fora um pequeno ser de muito gênio e pouco espírito arteiro, era uma criança de cabelos longos e cacheados, pálido como leite e olhos críticos que poderiam julgar até mesmo a menor das arvores. E por justamente ser um menino calmo e indiferente, era um sacrifício quando se tratava de o tirar de sua querida casa.
Nunca dera muito trabalho, foram o que lhe disseram, era uma criança para lá de criativa e instigada em ler, pintando todas as paredes de casa e acumulando livros em suas prateleiras, então, para o fazer com que largasse os gibis e quebra-cabeças para brincar de pega-pega com sua irmã era um desafio e tanto que os adultos enfrentavam para propagarem a vida saudável para ele.
Mas em um dado momento, o Stregone subitamente passou a implorar para sair com sua irmã mais velha, irritando a pobre Bagi Stregone até o máximo que a garota alta de tolerância baixa pudesse conter, confundindo os pais pelo interesse repentino e que pouco sabiam explicar o porquê.
Não demorando para o enigma ser solucionado quando desenhos de skate passaram a enfeitar os cadernos da criança e adesivos do objeto dominarem as prateleiras.
Cellbit passou a adorar admirar os adolescentes que, na praça em frente a sua residência, aproveitavam seu tempo livre praticando a arte de ficarem em pés sobre uma tabua de madeira. Seus pequenos olhos imensos os observando, imaginando como se eles fossem seus heróis, quase sempre sendo pós as aulas onde poderia brincar no parquinho até anoitecer.
Os jovens faziam de tudo, manobras estilizadas, passagens arriscadas e depois continuavam a deslizar em alta velocidade, como se não tivessem acabado de fazer as coisas mais incríveis que o pequeno sonhava em realizar.
Gerando uma vontade crescente de dentro de seu pequeno peito, ansiando por estar junto a eles, sonhando em ser como eles.
Foi assim que o Stregone se apaixonou perdidamente pela cultura do skate.
Momentaneamente, seus pais e irmã adoraram seu desenvolvimento, o presenteando com coisas relacionadas, chegando a ganhar até o próprio skate num Natal, que era comicamente maior que sua altura, para o incentivar a realizar os exercícios que lhe fez tão bem.
Trazendo em retorno não somente uma vida mais saudável a criança que por tanto tempo se negava a se exercitar por falta de interesse, mas também os inúmeros ralados que pudesse e roupas entupidas de uma mistura entre terra e lama que a volta para casa o proporcionava.
Porém quando sua paixão acabou dando sinais de não ser algo passageiro e demonstrar mal desempenho nos estudos, os senhores e senhora Stregone e Bagi resolveram segurar suas pequenas asas antes que pudesse ao menos voar. Talvez por medo ou preconceito... já que era um esporte de fato perigoso e muito marginalizado pela sociedade. Cellbit preferia não pensar em tal época sombria onde até seu skate havia sido seu castigo pelas notas baixas escolares.
O jovem então passou a ser direcionado aos antigos hobbies na tentativa de drenar aquele amor perigoso, o que jamais teve êxito uma vez que o maranhense passou a treinar escondido por vídeos que gravou com sua pequena câmera na saída da escola ou com o que sua mente pode guardar ao admirar os esportistas em momentos em que ia brincar no parquinho.
E foi em dia de uma tarde qualquer em um mês de férias escolares, Cellbit, encorajado por seu amigo Felps, seu companheiro de apenas um ano mais velho que sempre o seguia em seus planos infalíveis, decidiu arriscar a sorte.
Planejando escapar das garras de sua irmã enquanto ela comprava sorvete e tentar descer uma escada da área de skate com uma manobra no meio do salto.
Seriam rápidos e ágeis de acordo com ele mesmo, Bagi mal notaria que teriam saíram.
Ele seria admirado por seus ídolos mais velhos, iria os orgulhar.
Bom, ao menos era isso que, após fugir dos brinquedos coloridos infantis, longe dos olhos de uma adolescente que fofocava com a sorveteira do parquinho, pensava que seria. Isto era, antes de ver o tamanho da enrascada que teria se colocado.
Ao chegar no alto, tudo pareceu ser abafado em seus ouvidos, tampando toda a acústica disponível
Suas pernas tremiam pelo arrepio que sentiu e o sorriso brilhante que antes reluzia agora era ruido pelo desespero que seus olhos transmitiam
Adolescentes parado com seu papear aos poucos para encarar a pequena criança que segurava no corrimão antes de descer a escadaria, sorridentes e felizes pela ousadia que ele tinha, mas que na cabeça de Cellbit, se transformaram em sorrisos descrentes e ofensivos.
Ele não deveria estar ali, o que tinha dado nele para achar que conseguiria?
A serpente então surgia pela primeira vez em sua vida. Pairando sobre ele, imponente, soltando silvos de satisfação ao começar a estrangular seus sonhos e a mata o destino que tanto sonhou por aquilo, se deleitando em sua crise.
Ela havia vencido, mais uma vez, como havia feito com todas as crianças que um dia tentaram arriscar a mesma coisa que Cellbit tanto queria. Subirem ao palco, e brilharem para o papel que pertenciam...
Mas a serpente arrasava tudo em seu caminho, e agora ela estava o destruindo tudo o que podia, até mesmo o pequeno salto que tanto treinou para chegar ali.
Pálpebras se fechando pelo medo incisivo.
Era o seu fim, papai e mamãe estavam certos, o skate não era para si.
Exceto que mãos acolhedoras envolveram lentamente seu corpo mirrado, em um grande abraço imprevisto, daqueles que são recheados de palavras e conforto que somente uma pessoa tão especial poderia dar para ele naquele instante decisivo.
- Eu sei que você ‘tá com medo maninho, mas nunca desista, eu sei que você consegue, eu acredito!
Acreditar...
Esta era a única palavra que precisava, capaz tornar o impossível se em realidade.
- Vamos Cellbo! Eu também acredito! – uma voz infantil ao longe soou de um menino com cabelos cacheados e sorriso feliz
Fora assim que olhos ferozes pela primeira vez finalmente se abriram.
Írises cristalinas e valentes, das quais ninguém jamais havia visto.
Logo seu peito lhe permitiu respirar de maneira profunda, com o pequeno se desvencilhando do abraço após dar um selo na mão da irmã para começar a correr, o mais rápido que pudesse.
O vento acompanhando sua velocidade rebatia sob seus cabelos enquanto montava em seu skate, a ansiedade o consumindo à medida que se aproximava cada vez mais do precipício da escadaria.
Até que ele pode voar.
Pelos ares sendo lançado, como uma estrela, girando o skate com seu rastro de poeira das pequenas rodinhas.
Gravidade parecendo inexistir, puxando em câmera lenta o corpo apoiado em seu objeto até o asfalto.
Findando a sequência em um baque firme, com o corpo e pés do pequeno permanecendo resiliente sob a prancha abaixo de seus pezinhos.
Aquele dia ficaria marcado não somente em sua doce memória, mas se transformaria em um marco importante para sua história de vida. Por um vídeo gravado em uma antiga câmera, Bagi esbanje seu sorriso banguela enquanto grita em plenos pulmões após gravar a manobra incrível que seu irmão executou, sendo seguida de Felps que aparece correndo atrás de um Cellbit estático que sorria estarrecido pela adrenalina de ter superado o medo que sentia a minutos atrás e executado com maestria a manobra que tanto queria.
Ruídos aparecem sobre a tela, causando interferência. Onde mostrava alguns skatistas se aproximando das crianças e comemorando em conjunto às crianças, logo em seguida cortava a gravação para todos brincando de jogar o pequeno maranhense para cima e para baixo enquanto sorria tímido para a câmera que marca suas feições infantis.
- Cellbit! Cellbit!
Este era o primeiro registro de uma história carregada de desafios e batalhas que ainda estavam por vir. A imagem da criança é congelada, sendo substituídas por outras de ângulos parecidos, demonstrando o crescimento de não mais um menino, mas para um jovem rapaz sorridente; manchetes de conquistas abarrotando a tela com feitos impressionantes de um pequeno brasileiro que desafia as leis da realidade com sua mágica de vencer as inúmeras competições de sua categoria.
Dominando o mundo com o clássico jeito brasileiro de ser.
Pequenas fotos de medalhas de plástico se tornaram grandes símbolos de competições profissionais do skate, até que tudo se apaga por completo, e no lugar de onde a última medalha ficava, um símbolo olímpico dourado aparece, tomando a escuridão por inteira.
Desfazendo as últimas memorias para surgir com um vídeo, não mais da pequena criança de cabelos bagunçados e roupas sujas de terra por tanto brincar.
Eles mostravam agora um homem, de um metro e setenta em toda sua glória. Cabelos caramelizados bem cortados em estilo long hair, com mechas descoloridas de branco enfeitando seus fios dourados. Os olhos nebulosos azul celestial encaram a câmera em um claro desafio ao que seus braços cruzam em frente ao peito, demonstrando os músculos bem trabalhados e tatuagens. Ele sorri, um sorriso ousado, mostrando a língua para a câmera enquanto revela a bela joia que escondia lá.
Tecendo uma imagem rebelde de um maranhense com muita cede de vitória, e que se orgulha da bandeira que carrega no uniforme como identificação da nação de onde vinha. Cores verde, amarelo e azul tomando o fundo de sua imagem com seu nome em letras douradas a sua frente indicando de quem pertencia toda aquela jornada.
Este era o skatista Cellbit Stregone
O brasileiro de vinte anos que intitulavam de feiticeiro olímpico pelas duas medalhas de ouro que conquistou para o seu país, além das várias medalhas de primeiro lugar em competições internacionais e estaduais.
Também sendo o próximo competidor prestes a se jogar pelas pistas parisienses de skate na busca acirrada de concorrer a tão disputada vaga das finais em sua modalidade nas Olimpiadas de 2024 na França.
Suor escorria sob seu rosto tonificado pelo calor que o sol irradiava pela pista, sua regata estava começando a o incomodar quando a vontade crescente de querer retirá-la surgiu por sua pele sobrecarregada. Seus cabelos já se encontravam desgrenhados por debaixo do capacete de segurança, ornando com o estado de suas roupas amarrotadas de tantas descidas nesses últimos segundos que realizara.
Tentava se concentrar em outras coisas para não sofrer com a ansiedade, Gorillaz explodia em seus ouvidos com a música “Controllah”, que era seu novo hit, mas nada que obstruísse a sinfonia de fundo formada pelos gritos de brasileiros berrando por seu nome, junto dos cânticos de sorte que proferiam para o time brasileiro. Que no seu caso, era ele quem representava.
Carregando o peso de seu país em seus ombros, sozinho. Cellbit sabia que jamais deveria ser um fardo para si a pressão de representar a sua nacionalidade que vestia em sua camisa, mas inevitavelmente tudo poderia contribuir para a tensão incomoda em seus músculos com a expectativa que eles depositavam sobre si.
Seu companheiro de time o olhava do outro lado apreensivo, de cabelos castanhos e seus óculos característico, Ljoga descansava embaixo do guarda sol com suas emoções a flor da pele transbordando através de seu rosto rígido, tentando inutilmente o passar uma força silenciosa de que tudo ficaria bem, mesmo que ambos estivessem em uma pilha de nervos consecutivos.
Era uma situação de puro estresse e delicadeza que seu time se encontrava. Seu companheiro havia treinado arduamente nos últimos dias consigo para garantir duas vagas seguras para a final dos jogos, o que fora arruinado após sua queda no último ciclo da forma mais infeliz possível. Tal erro deixando-o de fora da classificação para as semifinais, acarretando um homem brasileiro completamente sozinho contra todos os outros competidores na busca pelas medalhas olímpicas
Agora eram obrigados a torcer para que ao menos algumas falhas pudessem diminuir a nota de outros competidores, como no caso de Ljoga, para que fosse retirado de seus ombros o peso de uma nota alta para se classificar para as finais. No entanto isso não significava a garantia de uma medalha, uma vez que algumas figuras icônicas das últimas temporada ainda estavam no pódio para o assombrar.
Philza e Slime, por exemplo, eram fortes competidores que tiveram um excelente desempenho em suas rodadas, enquanto britânico era mais contido e estrategista em suas manobras, o estadunidense era sempre uma caixinha de surpresas, surpreendendo aos cinco segundos de seu último tempo para conquistar uma boa nota.
Já o vietnamita Shxtou era o queridinho da edição, sendo o mais novo a estrear de seu país e já conquistava o coração dos jurados e torcedores por seu carisma e técnicas não usuais que revertiam com ótimos pontos para seu placar.
Três homens dos quais Cellbit reconhecia que o cuidado deveria ser dobrado se quisesse passar a frente deles nas finais, e o brasileiro não via a hora de os ultrapassar.
Mas havia um competidor que, mesmo sendo seu amigo como os demais, lhe estava dava dando nos nervos nos últimos dias.
Um mexicano de alto rendimento que, embora fosse um piadista de primeira, na pista não existia espaço para palhaçada, assustando a muitos com sua ousadia para se doar cem por cento e vencer qualquer batalha, típico daqueles capazes de arriscar a própria vida em busca do ouro de volta para casa.
Mariana era o nome de seu pior inimigo. Um homem alto, e gentil que se dera muito bem com Cellbit, após compartilharem entre eles, suas obsessões em comum de manobras insanas em busca dos placares altíssimos em suas categorias. Era meio cômico pensar que se tornaram tão próximos depois de cada alfinetada ou cada olhar raivoso trocados no início quando se encontraram, mas nada que algum passeio pelo país da competição especifica não tivesse os aproximado.
O mais impressionante era que eles ainda mantinham aquelas provocações infantis e xingamentos baratos, até porque, adoravam virar burburinho nos sites de fofocas esportivos, e nada mais tirava ótimas gargalhadas de Cellbit e Mariana pós competições do que ver as pessoas achando que eram inimigos mortais.
Se ao menos soubessem que eles na verdade eram apenas ótimos amigos, e isso jamais impediria de ambos quase se pegarem no tapa em busca daquele ouro olímpico.
Para o despertar de seus pensamentos, palmas altas o trazem ao foco para a saída triunfal de Mariana ao renascer de dentro do circuito onde finalizou sua série. O homem usa seu uniforme impondo a bandeira do México em seu peito enquanto passa por si para alcançar uma garrafa d’água que era oferecida pelo técnico aos atletas de sua equipe.
Os atletas andavam na mesma direção, colidindo propositalmente após um empurrão de ombros causado pelo mexicano ser o suficiente para o estádio enlouquecer com a afronta explicita que um dos maiores skatistas do mundo havia feito ao outro skatista, que também era um dos maiores.
- Buena suerte perro, eh... lo necesitas – o timbre baixo ressoa por seu ouvido, predatório. Cellbit vendo apenas sua sombra sair de perto após uma piscadela fajuta ser deixada em sua direção, para esquentar ainda mais o clima.
Ah esse culero.
- No necesito suerte, niño... - Cellbit sussurrou vendo a câmera de tempo real aparecendo em sua frente, mandando por instinto um beijo para ela, que o registra em seu preparo para descer o desfiladeiro – só preciso confiar em mim.
Vestígios da cobra se faziam presentes quando a falta de ar o pega após o narrador encerra sua apresentação para a descida.
Cellbit ainda podia ver a maldita, maior do que jamais esteve. Ela era gorda de desespero e faminta por sua vida, pingando autossabotagem de seus caninos venenosos em meio aos olhos esverdeados brilhavam em ira.
Com a espada invisível em suas mãos ele respira, sentindo as batidas de seu coração, antes acelerado, diminuindo seu ritmo contínuo.
De olhos fechados ele se blinda do mundo ao seu redor. Impassível.
Apenas para reabri-los, chamas da confiança formando labaredas dentro de suas írises cristalinas.
Ele corre, de peito aberto contra para a pior luta de sua vida. Vendo seu reflexo refletindo dentro do medo que bloqueava seu caminho, buscando a cabeça da serpente que o perseguia, enquanto pula pelo palco como uma estrela e avançando para o temido circuito
Vento e agilidade trabalhavam juntos naquele instante, mente processando todas as informações rapidamente para que cada manobra fosse executada com maestria, era como se o brasileiro dançasse em meio aos suportes coloridos, superando todos os obstáculos, completando cada ciclo de maneira indescritível.
Cada detalhe era tomado dentro de seu caminho, assim como as passagens obrigatórias que precisavam ser realizadas sendo feitas com tanta destreza que era difícil de acreditar que aquele homem era real e não uma espécie lenda do esporte exercido.
Então o corrimão se aproxima. Desafiando seu último tempo de partida.
Se lançando como um pássaro, o skate avança com tanta agilidade que ao fundo pode ouvir o desespero do comentarista francês pela ousadia que estava prestes a fazer. Iria subir aquele corrimão de baixo para cima.
E ele iria conseguir, Cellbit acreditava nisso.
Em questão de segundos, o brasileiro finaliza sua passagem após mandar a manobra que leva seu nome no mundo do skate chocando a todos com a nota mais alta obtida. Batendo não somente o recorde de pontuação que nas últimas olimpíadas havia cravado, mas também elevando o pódio do brasileiro, fixando-o em primeiro lugar.
Retirando o mexicano Mariana que cai para segundo e Philza junto de Slime que ficam em terceiro e quarto na sequência.
O público grita em êxtase, a festa estando liberada por ser o último a se apresentar. Joelhos se tornam fracos de mais para o alívio que sai de suas costas, caindo no chão de cimento queimado em diversas cores ao ser soterrado pela energia da vitória o rodeando junto das flores que são atiradas para ele, além de vários itens remetentes ao brasil como a bandeira e alguns chapeis de pelúcia.
Havia feito o impossível, garantiu as finais para o seu país que o agradece de volta sorrindo.
Ljoga e todos da equipe de repente aparecem em sua visão para o abraçar, pulando ao seu redor e aumentando a algazarra de felicidade explodindo dentro do peito aquecido. Cellbit podia descansar pela próxima semana, porque o pódio, por enquanto, estava consigo.
Mas em meio a tudo isso, um grito em outra língua parece despertar apenas a atenção de Cellbit, que se vira no mesmo instante que a voz irritada ecoa pelo local
- A LA VERGA, CULERO, TE ROBASTE – Um homem alto com a camisa da equipe mexicana aparece em meio à multidão de franceses, estadunidenses e brasileiros. Ele parenta estar zangado ao conversar com Mariana, que faltava se desmontar pelo chão de tanto que ria do rapaz que havia acabado de o tacar uma bandeira do México em sua face.
O mundo pareceu andar em câmera lenta, para apreciar a imagem. Ele tinha cabelos castanhos como um forte expresso de cafeína que trazia uma faixa azul em sua testa para estilizar a franja rebelde caída em seus olhos, impedindo de se tornarem a vista. Músculos um pouco marcados em seu corta vento mixado em cores rosadas e verdes contornavam seu tronco e braços, estes que faziam gestos possivelmente ofensivos para o outro amigo da mesma federação esportiva.
Cellbit percebeu que nunca o havia visto pela pista, dizia isto pois sabia que com certeza iria se lembrar de um amigo do seu rival tão bonito como ele nos treinos durante os últimos dias.
Talvez o atleta não houvesse se classificado como Mariana tinha conseguido e estivesse ali apenas para o apoiar, entretanto não fazia sentido ele estar na arquibancada junto do público e não na área privilegiada junto ao seu técnico e equipe classificada. Gerando um pequeno enigma para o brasileiro na tentativa de identificar o homem que jogava pragas para si por ter superado o outro mexicano para as finais.
De repente, como um magnetismo, seus olhos inesperadamente o encaravam. Apaziguando a nevoa raivosa que o dominava em uma áurea de curiosamente pela conexão genuína pela qual seus lumes eram fixados. E céus, que olhos eram aqueles? Profundos e densos como um chocolate quente sedutor de mais quase o chamando para se afogar.
Um jovem tão belo, e que, se estivesse em outro momento, adoraria o conhecer e saber mais pelo ser que podia o enfeitiçar apenas com sua presença.
Decidiu que iria findar aquela troca com seu clássico sorriso, seus lábios se abrindo para exibir seus dentes branquíssimos de forma provocativa, em um claro desafio para ser confrontado. O outro, pegando o skatista desprevenido, lhe mostrou a língua infantilmente em troca, para em seguida também sorrir, desafiando o skatista.
Afrontoso... Cellbit gostava disso, mais do que deveria.
Logo o tempo passou a acelerar novamente, explodindo a estranha bolha que antes era prendido no meio de um espaço temporal, Ljoga o puxava para se aproximar do outro lado da arquibancada lotada de jovens e crianças que pediam por um autografo ou fotografia. Implorando para irem rápido a fim de chegar o mais cedo possível ao alojamento onde estavam alocados.
De fato, subir ao palco e enfrentar todas as vezes aquele ser asqueroso que poderia o gerar consequências fatais em sua carreira não era fácil, lutando contra sua mente traiçoeira sentindo o manto verde e amarelo lhe orgulhar até a alma. Mas eram nestes momentos tranquilos onde tudo parecia valer a pena.
Assinar camisetas, tirar fotos especiais e mandar beijos para desconhecidos que fazem dele um mundo em suas vidas revigorava o seu espírito e o lembrava a sua principal motivação para continuar.
Ele inspirava essas pessoas, fazia elas acreditarem não só nele, mas em si mesmas.
Então não importava o que aquele mexicano bonitão dissesse sobre si ou se ele aparecesse semana que vem na arquibancada apenas para o azarar e comprar os juízes da prova, Cellbit seguia junto de sua equipe para o carro com apenas um pensamento.
Iria vencer aquela competição, e os orgulharia.
Traria o ouro para casa.
{...}
As águas da fonte olímpica próxima a vila dos atletas resplandeciam o luar que enfeitava aquela noite tão bonita.
Elas caiam, tão límpidas, performando desenhos que irradiavam a luz prateada dos postes que aos poucos eram acessos pelas ruas de Paris.
Pelo horizonte da cidade festiva, uma infinidade de prédios antigos se estendia pela encosta do rio Senna, todos com suas luzes acesas demonstrando a vida que emanava dos alojamentos olímpicos fornecidos a todas as equipes estrangeiras que ali competiam. De longe sendo possível ver a pequena agitação ocorrendo, evidenciando a volta dos atletas de intensos treinos nas academias ou dos dias competitivos.
Era uma paisagem urbana fina, se considerar a arquitetura antiga, o seu legado como nação historicamente e a boemia da cidade perdida no tempo.
Mas era disso que se fazia da França, um símbolo de muita ousadia, mistério e respeito
E talvez amor, mas isso poderia ser assunto para outro momento
Ao leste do grande centro de moradias, na região latina da vila, o prédio dos brasileiros se escondia próximo a academia olímpica de boxe e a quadra de ginastica artística. Onde folhas de arvore caiam tranquilamente em frente ao pequeno prédio enfeitando a entrada com as cores da bandeira dos atletas, verde e amarelo.
Após uma tarde cansativa, o grupo de skatistas tinham ido para seus quartos descansar após assistir o time de surfe terminar sua última bateria para as oitavas de final. Todos haviam se reunido no hall de entrada com grandes expectativas, observando pela tela da TV de um canal francês aleatório elas serem concluídas com sucesso após os competidores Bastet e Malena destruírem seus adversários conquistando belíssimas notas pelas ondas que pegaram durante o torneio.
Os brasileiros tinham orgulho de cada um deles, não importavam de qual modalidade eram, todos fazendo questão de apoiarem uns aos outros em cada etapa, e assim que a sirene soou pela praia do Taiti, eles correram para pegar seus celulares em seus quartos para parabenizar os dois atletas no grupo geral dos brasileiros que tinham pessoalmente, além cada um partir em busca do sagrado descanso para o próximo dia também.
Fora uma semifinal de muitas emoções e Cellbit estava mais do que ansioso para se aninhar debaixo das cobertas de sua cama no dormitório e apagar de sua vida. Quando pode subir para o quarto, ao menos se deu o luxo de fazer um tour antes de pensar no próximo passo, as paredes eram acinzentadas com uma cama de viúva no centro, as malas estavam encostadas no canto e ao seu lado uma porta guardava um banheiro muito bem arquitetado. Finalizando em uma bela vista da pequenina sacada para o pátio da vila.
Aquilo era como um colírio para a mente esgotada de Cellbit se deleitar, agora tudo o que precisava era de um delicioso banho e uma soneca bem aproveitada.
Como o não estava suportando mais o próprio odor, o skatista se obrigou a ir ao banho rapidamente para utilizar de seus cheirosos produtos em si e retirar aquele mal cheiro. Podia sentir a água percorrer seu corpo desnudo com poderes de relaxamento que jamais iria entender, lavando seus anseios para escorrerem de seu peito e desatando todos os nós que em seus músculos foram feitos.
Se embolando como uma bolinha felpuda dentro da toalha disponível, o brasileiro se perfumou com um bodysplash de morango e secou suas madeixas despreocupadamente. Vestindo em seguida um conjunto de calças de moletom pretas e uma camisa verde musgo confortáveis para ficar até a hora que seu sono lhe acolhesse.
Através do espelho, Cellbit sorriu para seu reflexo, normalmente ele se vestia de qualquer jeito sem se importar com a combinação de roupas que pudesse fazer dês de que estivesse quente o suficiente por ser uma pessoa muito frienta, mas naquela noite havia escolhido, por sorte, uma bela combinação caseira e quente para se aconchegar em sua cama.
Para a capital da moda, até que ele se encontrava dentro do padrão de vestimenta.
Parecia até que ele iria ousar sair da vila ou algo assim.
E isso seria um ato completamente insano para o corpo esgotado do skatista que implora pela cama naquele momento. Então, o brasileiro mal perdeu seu tempo, praticamente se jogando para dentro das cobertas, puxando seu fiel celular e começando a socializar futilmente pelas redes sociais.
Primeiro ele deixou algumas parabenizações no chat do grupo de atletas da seleção para os dois surfistas e respondeu algumas mensagens de seus familiares sobre o que tanto aconteceu. Curtiu algumas fotos de sua irmã e sua equipe que iriam estrear no dia seguinte a modalidade de vôlei feminino, deixando pequenas mensagens de incentivo, assim como algumas outras fotos de Felps da canoagem que havia conquistado bronze nos últimos dias.
Depois ele ousou arriscar passar um tempo no twitter para saber o que todos haviam achado de sua performance na pista. Apenas para rir descontroladamente com os comentários inusitados de pessoas achando que ele e mariana dariam um bom livro de romance entre garotos com o estilo de inimigos para amantes. Com certeza isso definitivamente não estava acontecendo na realidade, mas apreciava a criatividade de algumas pessoas naquele site.
Eu? Namorar alguém ou se apaixonar? Se perguntou ele mesmo. A tempos o skatista não pensava nessa modalidade de sua vida pessoal, passou tanto tempo se dedicando ao esporte e a sua paixão pelas pistas de skate que mal percebeu se esquecer daquela resposta tão natural das emoções e subconsciente.
Bagi recentemente estava tentando um relacionamento com a artista de ginastica Sul Coreana Tina após se esbarrarem nas últimas olimpíadas de Tokio. Seu amigo Pac, ginasta das paraolimpíadas, estava em um relacionamento fechado com o surfista americano, também das paraolimpíadas, Fit. E depois vinham... seja lá o que Mariana e Slime estavam tendo.
A verdade é que Cellbit na disputa do amor ficou em última colocação, mesmo sendo, como sua irmã diz, um romântico incurável nas horas vagas de leitura que poderia ter. Muitos diziam que o atleta terminaria sozinho se continuasse com algumas exigências que possuía em sua mente, mas o brasileiro sabia que não era apenas este o empecilho para ele.
Amar alguém implicava em tantas tangentes em sua vida, até chegaram a brincar consigo na entrevista de mais cedo que Paris era a cidade do amor, e que muitos atletas até chegaram a se apaixonar nestes jogos pela da intensidade do poder que a cidade francesa poderia obter sobre eles. Quem sabe isso não acontecesse com ele?
No entanto, pensar em como sua vida era agitada e como poderia inserir uma pessoa e obrigações de casais dentro dela lhe gerava uma dor de cabeça tremenda. Sabia que não somente exigiria de ambos os seres, mas também seria um caos por conta da mídia se algo não ocorresse como as leis moralistas deles, fazendo com que o skatista desistisse antes mesmo de tentar se aproximar de alguém.
O brasileiro sentia uma responsabilidade tremenda surgir dentro de si quando o assunto era proteger aqueles que amava de tudo o que poderia causar dano direto a eles. Com a pessoa que talvez amaria pelo resto de suas vidas não seria diferente, se não pudesse o proteger, então ele não estava fazendo.
Namorar e Cellbit possivelmente nunca estariam na mesma página e não era Paris, nem mesmo aquele Mexicano, que iriam mudar este fato.
Aliás, por que ele pensou naquele mexicano hein?
Tedio se estampava lentamente a face do homem amassada pelo travesseiro, um bocejo rompendo sua boca para o fazer se sentir um pouco fora de orbita, quase se perdendo na nevoa de sono que queria lhe envolver na embriagues. Uma chamada calma e delicada, para viajar ao mundo dos sonhos até o amanhecer.
Isso se seu grupo privado com seus amigos e rivais skatistas não começasse a encher de mensagens repentinamente.
A caixa foi aberta com desdém, querendo xingar todos os amigos quando viu a conversa gigantesca mesmo que só tivessem começado a poucos instantes. Ele rolou com preguiça a tela enquanto lia as frases pela metade, rindo de algumas figurinhas que Slime mandava para provocar um Mariana irritado, aos poucos se concentrando mais no que estava acontecendo.
Aparentemente Mariana reclamava que o Mexico ainda não tinha conquistado nenhuma medalha para o país e que era obrigação dos demais deixarem ele ganhar uma única vez. Philza tentava acalmar os ânimos do grupo, enquanto Ljoga apenas ria do pequeno caos que a conversa levava. Slime, por sua vez usava todas as suas cartas para provocar o revolto no grupo, mesmo que depois se sentisse mal, afinal, ele gosta muito mais do mexicano sorrindo do que ele ralhando consigo.
Cellbit se prontificou em se juntar a Slime para provocar a ira do mexicano, e o clima ia a loucura, até se amenizar com Mariana se gabando que no boxe eles com certeza estariam garantidos, já que nenhum dos dois atletas do país ainda havia sido eliminado na modalidade específica.
Mas tudo foi interrompido subitamente por uma descoberta um tanto desesperadora que o mexicano trouxe ao grupo, trazendo de volta o caos perdido.
- Wey, no me puedo creer
- Meu skate sumiu... – Mariana
- ???????? WHAT – Philza
- MARIANA COMO VOCÊ PERDE UM FUCKIN SKATE
- É LITERALMENTE SEU MATERIAL DE TRABALHOOOO – Slime
- YO NO SE!! eu e o Aldo estamos revirando os sofás e os moveis aqui, mas não tá em lugar nenhum?! - Mariana
- Porra Mariana, Chorão estaria decepcionado contigo – Ljoga
- E EU LA SEI QUEM É CHORAO, COÑO! - Mariana
- NÃO FALA ASSIM DO MEU KINGO DEUS DO SKATE MARIANA! – Cellbit
- Não liga pra ele Chorão, ele não sabe o que diz - Ljoga
- Perdon wey, me descontrolei
- Mas isso não muda o fato de que meu filho segue perdido - Mariana
- Mariana tenta tomar um copo d’agua e se acalmar. Se você chegou com seu skate no apartamento, ele com certeza deve estar aí em algum lugar. Você vai achar ele! e se não encontrar, eu e os meninos estamos indo no seu apartamento amanhã para ajudar. Don’t worry bro, we will find it, okay? - Philza
- Gracias Phil, eres um buen hombre
- Aliás, isso me fez pensar e de fato... eu não estou conseguindo encontrar meu skate porque eu vim DE CARONA COM ALGUEM, NÃO É SLIME SICLE? – Mariana
- ....
- Pior que foi né kk – Slime
- A NÃO, NÃO É POSSIVEL – Ljoga
- Alguém por favor bane esses dois skatistas que abandonam o próprio skate ao relento? - Cellbit
- Acho que se eu ficar um pouquinho mais estressado eu explodo, I swear... – Philza
- NOOOO I’M SORRY PHIL D;
- That was my fault guys, aparentemente nós dois esquecemos que eu fui buscar o Mariana de tarde na academia de boxe e acabei indo com ele para a cafeteria olímpica a pé, provavelmente o skate ficou lá e a gente esqueceu de buscar – Slime
- Vocês já foram melhores besties, meu deus - Ljoga
- Será que alguma alma de bom corazon poderia buscar meu querido skate maravilhoso vencedor de medalhas, vulgo Cellbit culon? - Mariana
- Primeiramente, só porque você me chamou de culon eu não vou
- E SEGUNDO, POR QUE EU????? E O LJOGA? NAO É MAIS BRASILEIRO PENDEJO?! - Cellbit
- Migo, então, primeiro que fui eu quem subiu nossas malas no apartamento, então estou proibido de fazer algo depois dessa. Segundo que ninguém merece descer cinco lances de escada quando você só tem que descer dois né querido!? - Ljoga
- Além de que o centro de treinamento é literalmente do lado de vocês, é só descer e voltar que amanhã eu mesmo vou andando aí e pego - Mariana
- Damn, them ate you here Cellbit - Slime
- NÃO USE FATOS CONTRA MIM SLIME! - Cellbit
- Vamo Cellbo, por favor busca o meu filho por favor weeeyy
- Juro que depois fico te devendo uma saída para alguma patsserie depois de ganharmos a olimpíada - Mariana
- *Cellbit não se encontra mais nessa conversa, tente novamente mais tarde* - Cellbit
- Mas é uma interesseira mesmo, a cara nem treme – Ljoga
{...}
Pequenos espirros eram ouvidos pelas ruas pacatas do centro olímpico.
No relógio de pulso era indicado a recaída da temperatura gélida, o que chocou não apenas o brasileiro em seu espírito, mas também o seu corpo despreparado para a frente fria que o atingiu.
Cellbit tremia dos pés à cabeça dês do fatídico momento em que partiu de seu apartamento em busca do bendito skate que Mariana havia esquecido na academia olímpica de boxe nas proximidades do alojamento. Sentia como se a própria rainha do inverno tivesse lhe dado um abraço para o parabenizar pela boa ação que realizava, já que suas mãos que se arroxeavam e um pequeno bater de dentes se fez presente depois de um tempo.
Sua mente apenas conseguia agradecer ao menos pelo estabelecimento ser bastante próximo, assim ele não teria que ficar rodando por horas dentro das ruas noturnas e correr o risco de tomar um resfriado oportuno e, como pior resultado, comprometer seus futuros treinos. Não podia ficar se arriscando dessa maneira, aproveitando para fazer uma nota mental de que não iria fazer nenhuma caminhada noturna novamente nem tão cedo.
Descendo as calçadas apreciando a vista do rio que se estendia ao contemplar seu curso sereno, finalmente pode ver, depois de algumas esquinas, o formoso prédio olímpico se formar em sua frente. Era uma estrutura bastante moderna, chamando atenção com a tecnologia evidente, era composta de cores frias e luzes de led, em conjunto com o símbolo característico de luvas em uma parede para indicar o serviço daquele estabelecimento.
Pelas janelas fume uma claridade amarelada transparecia pelo outro lado do vidro, resplandecendo de dentro para fora aonde iluminava os cantos das ruas com um ralo feixe de luz. O que poderia ser um ótimo indicativo de que ainda havia algum atleta praticando o esporte dentro do local, ou então um aviso de que estivessem prestes a desligar todos os aparelhos.
Os olhos de Cellbit se arregalaram. Sentindo o desespero subir por suas entranhas quando a simples teoria de acabar não conseguindo entrar para buscar o skate por conta do horário já tardio apareceu em sua mente. Já havia feito o sacrifício de ter saído e se arriscado em meio a friagem das noites francesas apenas para recuperar aquele objeto que deveria nem deveria ter sido esquecido em primeiro lugar.
Cellbit definitivamente não tinha feito tudo isso para chegar ali e seu plano falhar por conta de um horário.
Andando de maneira apressada e vestindo uma carranca em sua face, o brasileiro acelerou o passo até se aproximar do centro de treinamento. A marcha ecoando em meio ao silencio dominante do pátio que ele o cruzava, chegando cada vez mais perto das portas duplas com suas mãos estendidas em direção a maçaneta para puxar.
E assim que pode abrir a porta com um som de trinca, um sorriso vitorioso surgiu dentro de si ao notar que não estava trancada ainda.
Primeiro, o brasileiro experimentou enfiar apenas a sua cabeça para dentro, averiguando caso algum francês surgisse das sombras para o expulsar dali, contudo não viu nenhum indicativo de funcionários próximos de si, deixando passar o resto de seu corpo para dentro sem que pudesse emitir algum ruido.
Quando se estabilizou, passou a reparar melhor o hall de entrada. Uma ilha com algumas flores em vasos decorava o ambiente receptivo, enquanto um nome em francês decorava o fundo do pequeno espaço que as atendentes trabalhavam, também viu algumas catracas no local para dar o acesso a academia, e possivelmente sendo onde o skate lhe aguardava.
Estava mais do que claro que aquele tipo de segurança não iria impedir tão facilmente alguém que adorava quebrar regras como o skatista, arrancando um pequeno riso de Cellbit que não perdeu tempo para pular sob o objeto de reconhecimento metalizado que pretendia o impedir de avançar pelo trajeto.
Para um país altamente renomado, aquela segurança era bem precária. Pensou ele.
A face, no entanto, que acometeu o atleta quando viu o espaço interno, fora impactante o suficiente para ele parar alguns instantes para admirar o que estava à frente dele.
Paredes pretas com janelas e luzes embutidas no teto compunham a base primaria da academia, com barras de ferro estilizadas cruzando os ares para servirem de suportes dos grandes e variados sacos de peso que eram pendurados nas mesmas. Havia também alguns outros equipamentos de treino como pesos, sacos e luvas extras para auxiliar caso algum dos atletas necessitasse, além de conter uma arena de tamanho considerável para estimular treinos de lutas entre os próprios atletas como preparo para as competições por equipes.
Bebedouros não ficaram de fora, estando espalhados pelas quinas das paredes para hidratar a todos que a ela frequentem, além de um conjunto de três portas solitárias em cada canto da sala estarem presentes, onde Cellbit supôs ser a área de banheiros e um vestuário, finalizando o vislumbre com um grande espelho que ocupava toda a largura de uma parede aleatória.
Tudo era tão bonito e bem investido que Cellbit sequer notou estar de boca aberta com o visual que pode enxergar. Jamais esteve dentro de um centro de boxe, então tudo era muito novo para si e satisfatório de admirar, uma diferença extremamente gritante para ele que estava mais acostumado em navegar por corrimões e desfiladeiros, não em socar sacos ou pessoas o dia inteiro.
Para pessoas que eram amantes do esporte, talvez estivesse pisando em um pedaço de paraíso e mal saberia.
Ao fundo o barulho do ar-condicionado ressoava baixinho, indicando o seu funcionamento, sendo quase impossível do brasileiro não se encolher com o vento gelado que pela segunda vez o saudou dês dos últimos segundos. Suas mãos correram por seu corpo para abraçar seus braços nus enquanto praguejava mentalmente o indivíduo maluco que havia ligado àquela corrente com o ambiente já estando frio naturalmente.
Retirando o frio incomodo, tudo parecia tranquilo. Os equipamentos muito bem-organizados, limpeza impecável e áurea serena do recinto implicavam que não havia nada que representasse o mínimo de perigo para a pequena invasão que Cellbit havia cometido. Não captando nem mesmo sinais de câmeras que pudessem o denunciar pela ousadia de estar ali.
Uma calmaria que facilmente teria envolvido o skatista... se ofegos e socos secos não tivessem surgido a sua espreita.
Despertando um sinal de alerta vermelho dentro de si.
Boxe talvez tenhas sido um dos esportes mais violentos que já haviam inserido nas olimpíadas, se não o mais agressivo. Homens e mulheres que praticavam a modalidade poderiam literalmente matar seu adversário ou qualquer pessoa se quisessem de fato ceifar as suas vidas.
Eles eram os monstros do esporte, uns dos mais temidos por todos que cruzassem seus caminhos. Tal informação fazendo com que muitas pessoas de outras modalidades, até mesmo Cellbit, recuassem de se aproximar dos atletas que passavam pelo refeitório com semblantes sérios e músculos evidentes.
E como se não fosse o suficiente, Cellbit poderia estar preso em um ambiente, sozinho, com um deles.
Em outras ocasiões sabia que poderia ter ido embora de tanto medo sentido pela sinfonia aterrorizante que o outro produzia, não que o brasileiro não estivesse suando frio naquele momento como se ele fosse o próximo saco de pancadas a recebê-los. Mas sabia que quem quer que estivesse junto a ele provavelmente era alguém que não deveria ser perturbado tão cedo, e o skatista trataria de sair da academia o quanto antes para que sua presença não fosse detectada e o homem se zangasse consigo por inteiro.
Foi assim que, visando passos leves, o skatista progrediu para dentro do recinto, se sentindo tal qual um espião em uma área secreta, tentando andar com cautela e desviando de qualquer potencial de ruido que pudesse o denunciar para o outro, sendo único com sombra em meio aos aparelhos.
Não era uma tarefa fácil, principalmente para um ser que era tão desastrado como ele, os pesos pareciam brotar do intangível em sua frente para o assustar, além de ter que realizar mais uma tarefa simultânea a que ele se dedicava a fazer, a primeira sendo de desviar, e a segunda de procurar a todo custo um pedaço de madeira verde, branco e vermelho.
Quanto mais se afastou da entrada, mais seus nervos à flor da pele ficaram. Pânico escorrendo de seus poros como se pressionassem todos os botões de seu cérebro a cada segundo que sentia seu coração acelerar, ouvindo tortuosamente os socos ficarem cada vez mais rápidos, acompanhando o musculo cardíaco como uma corrida.
Até que, subitamente, ao atravessar um arco de uma parede, uma silhueta se formou em sua visão.
Algo que impactou o brasileiro, que sentiu suas pupilas dilatarem em encanto.
De costas para Cellbit, um homem alto em posição de luta socava freneticamente um saco de pancadas com agilidade e precisão. Ele tinha cabelos escuros, quase como um café bem passado pela manhã, deslumbrando uma franja que caia sobre seu rosto de maneira que não pudesse o ver, deixando-o com um ar de misterioso.
Sua pele cobreada dava a ele um visual único, quase como se brilhasse contra a luz. Por estar sem camisa, ela não somente lhe proporcionava a visão direta de seus músculos tensionados ficando evidentes em seus movimentos, mas também às tatuagens que ele possuía. A maioria trabalhada em um estilo tribal, sendo a mais evidente a grande arraia que possuía de ombro a ombro.
A bermuda preta da marca puma que usava era apenas um charme, deixando amostra suas panturrilhas que igualmente eram bem malhadas, onde era possível ver algumas flores de tatuagem. Suas mãos enfaixadas socavam initerruptamente o objeto em sua visão, se assemelhando a um monstro enraivecido pela velocidade que ele conseguia chegar, demonstrando estar tão compenetrado no exercício que mal notou a sinfonia amedrontadora que podia emitir com a força utilizada.
Se Cellbit pudesse, facilmente passaria horas admirando aquele homem de ombros largos que fazia coisas com seus sentimentos que preferia não verbalizar, mas também não seria louco o suficiente de acordar aquele armário de sua concentração com a chance de receber um nariz quebrado. Embora um pensamento atrevido de pedir o número do bonitão que tanto observava tivesse o tentado.
Foi então que, ao tentar desviar o foco confuso, as sobrancelhas do skatista subiram tão rápido que uma dor ligeira tomou a região despreparada. A bela peça de skate com as cores da bandeira do Mexico e enfeitado com algumas calaveras do dia dos mortos era possível ser visualizado em pé, ao lado de uma grande mochila que servia para o objeto estar apoiado.
Internamente, Cellbit sentiu seu espírito pular de alívio por finalmente o encontrar a peça que tanto lhe gerou dores de cabeça.
Agora era só o pegar e vazar do local.
Montando rapidamente um plano infalível que deveria ser meticulosamente executado, o brasileiro se viu passando o mais discreto que conseguia atrás do lutador para pegar skate no canto da sala, sem ser notado pelo outro atleta. Desviando dos últimos sacos como uma pluma, além de não tropeçar com o tatame abaixo dele.
Aproveitou-se dos murros e ofegos para abafar seus movimentos bruscos de agachar e desviar, se camuflando entre os pontos de sombra enquanto se esgueirava pela sala.
Chegando cada vez mais perto, faltando tão pouco.
Respirando totalmente contido por tanta tensão.
As pontas dos dedos a milímetros de alcançar a bendita madeira.
Até que as pontas dos dedos com agilidade agarraram a aba do skate, trazendo-o para perto de Cellbit para o abraçar com cuidado, enquanto dentro de seu peito ele festejava pela conquista altamente perigosa que conseguira. Desativando todos os seus alertas que havia ligado dentro de si.
A princípio se sentia em um sonho, apenas para de repente, um barulho ensurdecedor de um saco de pancadas estourando. Que pelos ares voou com a força do impacto, caindo no chão onde a areia que o preenchia aos poucos começou a vazar pelo buraco que as mãos do lutador tinham deixado.
O fazendo emitir um grito inesperado.
Silencio cru era o que restou após a explosão de sons findarem. Cellbit tentando preencher seu desespero gritante com a coragem que não tinha para se virar e encarar a fera que lhe aguardava, movendo seu corpo com cautela em meio a reza para sair vivo dessa enrascada.
No entanto, por algum motivo, o brasileiro, ao dar de cara com o estrangeiro, se viu tendo a impressão de reconhecer aquele rosto agora visível de algum lugar.
Com mexas de seus cabelos caindo sob ele, uma face era jovial se fez presente, acompanhada de um queixo bem definido e sem pelos. Suas bochechas eram redondas na medida certa enquanto uma mandíbula compunha a harmonia de um rosto marcante e perfeito, além dos os lábios parecerem macios e bem hidratados pelo brilho que tinham ao refletirem a luz do teto, vindo por fim o conjunto de dois olhos.... e que olhos lindos possuía este ser.
- Mira nomas, a quien tenemos aqui... não sabia que atletas poderiam jogar em mais de uma modalidade – O homem misterioso sorriu ao alfinetar ele, cruzando os braços como se analisasse Cellbit meticulosamente.
“Braços tão definidos em frente às belas montanhas que formavam seu peit-“
Cellbit se controla!
Pelo que pode notar ele falava em inglês, mas seu sotaque arrastado e a primeira frase denunciaram o espanhol nativo que provavelmente era de sua língua materna. Fato curioso para o brasileiro que buscou identificar a nacionalidade sendo discreto, mas não obteve êxito por ele não usar o uniforme que sua delegação que fornecera.
- Relaxa cara, eu só vim pelo skate e ‘tô vazando, desculpa te atrapalhar – Cellbit não tardou de se explicar, dando pequenos paços para longe de onde estava, apenas para se proteger caso o rapaz resolvesse avançar.
- E por que tanta pressa, eh? Que eu saiba não há ninguém aqui além de mim e você – O desconhecido o retrucou, azedo.
- Olha, me deixa em paz por favor, estou indo embora, não quero arrumar confusão com você – Cellbit tentou mais uma vez, levantando as mãos em rendimento
- Hm no se, para alguém que me deu um sorriso tão valente hoje de manhã parece meio cômico estar fugindo de uma conversinha tão inocente – Indagou o outro em seguida, se divertindo com ele quando se moveu, bloqueando sua passagem para a saída com o corpo em sua frente.
Cellbit raramente era visto irritado ou que alguém havia lhe tirado do sério. O brasileiro era muito adepto da paz e se esforçava rotineiramente para não explodir com alguém sem querer, no entanto, nessa pequena troca de gestos e conversa, incrivelmente fora o suficiente para frustrá-lo pelas pequenas provocações que o outro lhe fizera.
- Cara eu sorri para muitas pessoas no dia de hoje, você precisa ter sido mais marcante se quiser que eu me lembre – Resolveu alfinetar de volta, vendo com satisfação a surpresa na cara do provocador inicial romper o seu semblante convencido.
- Ah si? Então acho que gatitos como eu não fazem seu tipo, afinal acho que você lembraria de um certo mexicano que te deu a língua quando estava de saída. Cellbit – declarou ele simples, ainda cínico.
Foi então que uma viajem no tempo pareceu estalar algo dentro da mente do brasileiro que parecia ter deletado uma parte muito crucial do seu dia. Flashes da competição pela tarde se misturando entre os inúmeros momentos de apreciação e reflexão antes de descer à pista e fazer a vitória de seu time, para então estagnar em um breve momento, como um pause de um filme, onde um rosto muito bonito que avistou na arquibancada o xingava antes de ser puxado por Ljoga e desaparecer.
ERA ELE! O mexicano que não sabia se era skatista, amigo de Mariana!
- Posso ver daqui as engrenagens de sua cabeça finalmente se movendo – a voz grave e divertida dele ressoou, imitando os barulhos de cartum que as engrenagens poderiam fazer, lhe arrancando um sorriso
- Devo pedir mil desculpas, oh inesquecível... ahn, perdão qual é seu nome? – Cellbit interrompeu seu discurso para perguntar
- Me llamo Roier Brown, mas pode me chamar de Roier, gatinho – Roier o respondeu, percebendo como o flerte barato aparentemente mexeu com ele.
- A-ah claro. Enfim, como eu dizia – o outro gaguejou, tímido - oh inesquecível Roier, me perdoe! Como poderia esquecer do mexicano atrevido que gritou aos quatro ventos na quadra que eu roubei na bateria olímpica de skate.
- Ay, atrevido? Yo? Claro que não, sou completamente inocente, não lembro de ter feito tal crime tão sério – olhos de corça brilharam como um poço infinito e um grande bico saltou de seus lábios cheinhos, tentando justificar sua verdade à Cellbit.
E céus se esse homem pedisse para o brasileiro fazer qualquer coisa naquele momento com aquele olhar e timbre meigo, o skatista sem questionar estaria o fazendo, não poderia contra um ser tão fofo quanto aquele.
- Sei, sei...- Foco Cellbit! Era o que mais uma vez seu lado racional dizia, focando logo em outra coisa que o chamou atenção no momento para se distrair - Aliás, esse skate era seu? Desculpa por ter pegado tão aleatoriamente assim, na verdade achei que era de um amigo meu porquê ele tinha me pedido para buscar o dele, já que havia esquecido aqui
- Que? Como que meu? - O mexicano questionou
- Ué, você não é do time de skate do Mexico Roier? – Cellbit estranhou a confusão do outro, virando a parte de baixo do skate para que o outro pudesse ver o desenho estampado nas costas da madeira- Ou esse skate é para ser seu ou de Mariana, se for seu foi mal, vou colocar ali de volta na parede, nem imaginei que poderia ter pegado o skate errado e parecer estra-
- É do Mariana Cellbit, calma gatinho, calma – O mexicano o interrompeu, tentando acalmar os pensamentos acelerados do outro – Você pegou o certo, pero quién te dijo estas mamadas de que eu sou do time de skate? Nem saber andar nessa coisa eu sei!
Okay, agora quem estava confuso era o brasileiro.
- Oxi, então por que você estava hoje na competição se você não é da equipe do Mariana?
- Pues... para apoiar ele, no?
Uma solução tão fácil e logica que contradizia completamente ao invés da novela que assumiu como verdade para resolver o enigma do belo homem em sua mente.
Roier não era um skatista e nem teria como ser, pois, a equipe mexicana não teria permitido que um dos atletas fosse excluído no banco e tão pouco ele tinha capacete e protetores nos antebraços e joelhos para indicar que apenas se perdeu... fora muito ingênuo para dizer o mínimo de alguém que apenas fez uma suposição maluca sem perguntar ao amigo sobre a verdade quem Roier era.
Cellbit sentiu seu rosto começar a ferver de vergonha repentinamente, se tocando da história completamente absurda e sem fundamento.
- Ah merda – ambos riram pela frase de derrota que o skatista pronunciou – Achei que você era da equipe, o que não faz nenhum sentido agora porque você é amigo do Mariana então é mais certo que você tenha ido para o apoiar do que um companheiro de equipe que havia se perdido nas arquibancadas. – As mãos do brasileiro subiram por seus cabelos e começando a bagunçar os fios, tentando se distrair da vergonha alheia sobre ele.
- Si, y, se quiser saber, definitivamente boxe é mais a minha praia do que andar em uma madeira com rodinhas – O atleta disse ainda risonho, se aproximando um pouco de Cellbit que não se incomodou com a tentativa.
- Ei! Minha praia ainda continua sendo essa “madeira com rodinhas”, pendejo! – Cellbit mal notou inflar suas bochechas com a face emburrada, virando de costas para o outro enquanto suas mãos cruzavam em frente ao peito pela revolta de Roier ter o diminuído daquela maneira
- Perdón corazon, não queria ferir seus sentimentos pela arte do skate
Sendo pego de surpresa mais uma vez, o brasileiro sentiu o desespero voltar a habitar seu ser quando mãos foram sentidas o rodeando pelas costas até chegar à frente em um gesto íntimo, o abraçando fortemente, como se o prendesse junto ao corpo alheio.
Assim ele foi levantado pelos ares, onde lutou veemente contra si mesmo para não derreter como caldo quente dentro dos braços fortes que os moviam para que saísse da penumbra da sala próxima a saída e viajando diretamente para debaixo da luz onde o mexicano treinava anteriormente.
Sendo posto no chão, Cellbit levantou seus olhos azulados ao sentir a atenção de Roier sobre si mesmo, se deparando com olhos galáticos que foram pegos o admirando com afinco.
- Tão bonito... guapito – Cellbit confessou em um suspiro, muito ocupado em se perder dentro do universo que os olhos que Roier carregava dentro dele para se importar com a confissão romântica que havia dito
Ternamente, o mexicano o respondeu – Tu eres más, mas eu agradeço o elogio
Com ambos perdidos dentro de seus pensamentos, eles ficaram assim, parados por um tempo sem se desfazerem do abraço de ferro difícil de se desfazer. Acontece que nenhum deles queria mesmo se separar, embora soubessem que em algum momento Roier teria que soltar a cintura de Cellbit para deixá-lo ir.
Mas naquele segundo, gostariam de fingir que eles tinham bastante tempo para ficar juntinhos.
Talvez todo o tempo do mundo.
- Então... você é atleta do comitê de boxe do Mexico? – Com um timbre brando Cellbit puxou assunto novamente, ao se virar nos braços que o rodeiam para ficar de frente para o atleta.
- Efectivamiente, o melhor, diga-se de passagem. Já participei de inúmeras competições e este é meu segundo ano nas olimpíadas – Esbanjou o lutador, buscando algum sinal que pudesse satisfazer o outro de suas conquistas incríveis.
- Que zika! Mas você não fica com medo de sei lá... ir para o hospital ou algo assim? – o skatista mostrou seu lado apreensivo, aquelas conquistas eram impressionantes, mas não podia deixar de perguntar como o outro se sentia em relação aos perigos que o esporte o trazia.
- Bien, se fosse para eu deixar meu medo vencer, talvez não estivesse aqui conversando contigo sim? – um pequeno carinho foi feito pelo rosto de Cellbit, que apreciou com carinho o gesto ao fechar seus olhos para senti-lo melhor – E você não pode falar muita coisa gatinho, o seu é igualmente perigoso como o meu, se não pior.
As risadinhas se misturaram pelo ar, Cellbit não sabia como, mas sentia lentamente seus muros e ansiedade se abaixarem de uma maneira surpreendente ao redor daquele boxeador que despertava lados jamais vistos dentro de si.
Estava meio aéreo, bobo, e até mesmo um pouco manhoso em relação ao rapaz. Era como se Roier tivesse colorido aquela noite e tivesse enchido seus pensamentos de algodoes para agir em sua forma mais pura de pensar.
Isso somente acrescentava mais pontos dentro do coração do loiro, liberando as borboletas que sobrevoavam sua barriga.
- Não use argumentos bons contra mim guapito!
- Mas é verdade! Agora imagine aqueles culeros das ginasticas ou os de vôlei, um errinho e bum! A música triste do bob esponja começa a soar, e tudo estará perdido – em uma tentativa um tanto falha, Roier tenta replicar ao outro o som que se referia, se satisfazendo ao ver o skatista quase chorar de tanto rir
- Ah e o seu claramente não é perigoso, senhor pacifista?
- Si yo soy y? o boxe é um esporte alto em teor de amor, união e pacifiques, é que vocês niños radicais não conseguem compreender. – Se gabou o outro, adorando arrancar mais e mais daqueles sons de felicidade que Cellbit emitia.
A energia que contaminava o ambiente era harmônica e tranquila. Contrapondo o pânico violento de minutos atras com a doçura que a interação daqueles dois homens poderia atingir qualquer desavisado em cheio, deixando uma leve brisa de paixão os contagiar e acalmar seus nervos, uma bolha de carinho que era apenas deles.
Parecendo até feitos um para o outro.
Como se estivessem destinados a estarem assim.
- Te ves mucho más belo en rojo, sabes? – as palavras escaparam dos lábios do mexicano, que se encontrava olhando distraído para o jovem vermelho pela falta de ar causada pelas risadas.
E de fato, na visão de Roier, ele se encontrava inalcançável.
Sendo mais baixo do que o lutador. Aquele homem vestindo uma camiseta plus size verde musgo e calças de moletom, o deixavam quase minúsculo na visão do maior, com seus cabelos bagunçados dando um charme para o quão lindo era sua coloração. Mexendo com os sentimentos de Roier tão repentinamente que se assustou por ficar encantado com Cellbit em um período tão curto de tempo.
Seu rosto então não era necessário falar, pois palavras não eram o suficiente para descrever a beleza que o outro possuía. Uma face magra e bem estruturada com pele clara e macia contrastavam com uma barba muito bem cuidada pelo atleta, além de cílios longos como de gatos e belos olhos cores de oceano que Roier poderia pular dentro daquele lago sem medo de se afogar.
Já havia sentido o mesmo na manhã de jogos onde o viu ao vivo conquistar o primeiro lugar. O brilho eletrizante e a garra em seus movimentos de ousadia tinham despertado o mesmo sentimento de admiração e... paixão? O mexicano não sabia dizer, mas tinha preferido não dar atenção, achando que apenas seria uma coisa passageira.
Mas agora, com o salpicar avermelhado de sua pele que se tornava um delicioso morango pela falta de ar provocada estavam cortando talvez os últimos fios de sanidade do mexicano que se controlava a muito tempo para não atacar aquele ser meigo e polido que havia invadido a academia para buscar o skate de Mariana.
- E sua voz é tão bela que poderia ouvi-la por horas sem me cansar – Cellbit devolveu o flerte, sorrindo embriagado pelas inúmeras emoções amorosas que conseguiram o dominar.
Aquilo tinha nome, uma palavra bonita e que mesmo assim muitos a temem pela intensidade que a pronunciar pode causar.
Era muito intenso, talvez cedo demais para afirmar uma emoção tão intensa por conta de uma conexão assustadoramente forte que os rapazes foram capazes de criar a partir do pouco tempo que se conheceram.
No entanto, ali, sem serem julgados e sem a imprensa podendo os pegar e ditar o que seria certo ou errado, corpos necessitados de carinho viram um no outro a oportunidade de se saciarem da cede invisível que em noites frias os assolavam em uma cama vazia e sem alguém para os cuidarem.
Cuidar de suas almas machucadas pela dedicação a profissão tão desvalorizada, pelas quedas e socos de fracassos que uma vez tomaram.
E que agora encontraram, naquela noite da cidade do amor, Pariz, a peça que faltava em seus quebra-cabeças.
A pessoa certa para eles amarem.
Cellbit fora quem tomou coragem para avançar, pelo escuro divagando uma correspondência ao selo simples nos lábios do mexicano surpreso pelo ato.
Suas mãos agarravam seus ombros largos e faziam um carinho tímido pelas suas costas com suas pequenas unhas, facilmente podendo se esconder dentro daquele abraço enorme, que, lentamente, se tornou mais apertado, e a mão que antes lhe acariciava suas bochechas, deslizavam para trás de sua nuca.
O que era um selinho, se transforma em um beijo profundo. Queimando em brasa seus peitos e derretendo seus corpos com o calor que emanavam, onde as almas naquele mar açucarado de desejo e paixão eram tomadas por ele ao se espalhar por todo o sistema dos homens que se amavam em segredo no local.
Tinha um toque magico e talvez um pouco de perigo. Apimentado na medida certa para enlouquecê-los pelo mix de sentimentos que refletiam. Talvez não devessem estar ali tão tarde da noite, e a mera ousadia de serem pegos agitava ainda mais o cerne dos atletas que descarregavam a adrenalina nos lábios quentes de seus amantes presentes.
Era como se flutuassem do céu ao inferno, o clima frio dando lugar a quentura de mãos bobas desenharem as curvas dos corpos obsoletos a realidade, perdidos em seus prazerem.
Mas infelizmente o ar era algo que não poderiam ignorar, e quando a necessidade dele se fez presente e cobrou pelo que faltava, as bocas seladas se afastaram para respirar, com um Cellbit ainda mais vermelho do que já estava.
- E-eu fui muito longe? Desculpa se acabei sendo demais – Roier se prontificou em averiguar se estava tudo bem com seu parceiro, lembrando de notar o corpo do brasileiro ter começado a tencionar antes de se separarem.
- Não! – Cellbit proferiu, rindo consigo mesmo por que aquele “não” sair um pouco mais alto do que o necessário – Só... não me sinto confortável se formos a diante... sabe?
- Não irei fazer nada do que você não queira, se quiser podemos continuar abraçados se quiser. Dês de que esteja confortável! – O mexicano assegurou. Pegando as mãos do homem em um gesto carinhoso ao acariciá-las junto de seu pulso, sentindo-o acelerar.
Ao ouvir tais palavras Cellbit se viu ainda mais feliz, confortável em não ter que partilhar sua assexualidade naquele momento, talvez no futuro seria mais fácil comentar com o maior aquele fato, porém por hora...
- Obrigada guapito. – Ele agradeceu, encostando sua testa com a dele para organizar seus pensamentos, e para Roier não ver a cara de choro que quase fez ao sentir o carinho do mexicano para não ultrapassar seus limites – Podemos ficar apenas entre os beijos? Me sinto melhor assim...
- Pode deixar comigo, gatinho... – Foi a última frase de Roier, antes de atacar Cellbit com um beijo carinhoso, daqueles que pode desmontar alguém por inteiro.
Assim eles seguiram, entre pequenos amassos e uma noite que começou com pequenas provocações para os render inúmeros beijos e selos românticos que ocasionaram uma troca de números nos celulares e um Cellbit indo em rumo ao seu dormitório com um moletom quente de homem aranha emprestado por um Roier muito apaixonado para deixar o outro ir embora na geada que as ruas se encontravam.
Foi assim que seus dias se seguiram até chegar a tão aguardada final. Recheados de pequenas mensagens de apoio e muitas trocas de conversas por ambos os atletas, que se apoiavam em ambos os trabalhos e se desejaram boas energias nos treinos da semana.
Cellbit fez Roier prometer estar na final, recebendo como resposta a foto do ingresso do mexicano pelo aplicativo de mensagens. Fato que, inicialmente fez o brasileiro se envaidecer, porém, que no dia lhe gerou uma preocupação a mais.
A pilha de nervos que pareceu se formar sobre o skatista antes de descer para a pista parecia ainda mais pesada do que a semana passada. Eram tantas coisas em jogo dentro de sua cabeça que por pequenos segundos Cellbit pensou que não daria conta ao enxergar alguns objetos duplicados e uma fraqueza o pegar.
Quase deixando que a víbora finalmente fincasse suas presas sobre seu cérebro vulnerável.
Entretanto, ao se dirigir para o ponto de partida, seus olhos analíticos fisgaram as írises amendoadas do outro lado da arquibancada.
Roier estava com a bandeira do Mexico e do Brasil cobrindo o seu corpo, enquanto em seu rosto as cores das bandeiras estavam pintadas com tinta guaxe. Era engraçado de se ver, mas aquilo aqueceu por completo a alma do atleta em cena, que sorriu atordoado com o rapaz.
- VAMONOS CELLBO! TU PUEDES CABRÓN!
O berro do outro atingiu seu sistema em cheio, lhe dando o gás necessário para fazer a história ser criada.
Fechando seus lumes e deixando que sua energia se revigorasse.
Partindo para cima da pista quando abriu seus olhos e sentiu que apenas enxergava uma coisa em sua cara.
A medalha de ouro.
E ela seria pintada de verde e amarelo com as cores de sua bandeira.
Cellbit iniciou então maior loucura de sua carreira. Fazendo um percurso extremamente arriscado e de alto nível de dificuldade, seu corpo voava pela pista em meio as manobras mortais, agitando a plateia e comentaristas para a final acirrada, conquistando todos os pontos que pudesse para chegar no pódio que era seu lugar.
Ele ouvia de longe os gritos que faziam seu coração se agitar, o impulsionando com cada vez mais força para o objetivo final
Uma manobra inédita, assinado com seu nome ao vivo o movimento ousando.
Acarretando a sua conquista satisfatória do ouro com uma diferença mínima entre seus demais adversários.
Todos foram a loucura no final. Gritos e mais gritos de felicidade preenchiam os ouvidos do brasileiro que era jogado aos ares por sua equipe, enquanto sua cabeça girava em adrenalina e êxtase por alcançar o que tanto sonhou se tornar.
Agora ele era tricampeão... isso apenas poucas pessoas poderiam se gabar.
Quando foi posto no chão, mal dera tempo de alguém prever suas intensões antes de conseguirem o segurar, seus pés correram pela pista para navegar em seu skate de encontro a única pessoa que se importava.
A arquibancada se tornando apenas palco para testemunhar aquele ato de paixão intensa.
Sucumbido por seus desejos, o atleta se atirou, aterrissando nos braços fortes de Roier e o puxando para um beijo recheado de desejo. Se entregando de corpo e alma para o boxeador mais renomado do Mexico ao vivo e a cores com direito a berros de torcedores brasileiros ao lado e câmeras de redes nacionais e internacionais registrando o momento que ficaria cravado na mídia por dias inteiros.
Se tornando dos maiores escândalos olímpicos, que os atletas jamais iriam se arrepender.
Afinal Cellbit e Roier sabiam que seu amor era muito mais que uma paixão francesa, ele era uma de suas maiores certezas.
