Chapter Text
Satoru Gojo tinha apenas dezessete anos quando matou Toji Fushiguro, o rival mais formidável que enfrentara até aquele momento. O duelo entre eles fora impressionante, travado em duas etapas e culminando na liberação da técnica amaldiçoada Vazio Roxo, que Gojo aprendera a dominar por causa do próprio Assassino de Feiticeiros. Claro que Toji não lhe ensinara nada intencionalmente, mas foi sob a pressão imposta por ele que o herdeiro dos Seis Olhos pôde compreender, na prática, o uso da reversão de energia amaldiçoada. Somente com essa manipulação ele pôde, enfim, dominar um poder estrondoso que, dali em diante, se tornaria o pesadelo de todos os seus inimigos.
Provavelmente, foi por certa consideração por seu adversário mais desafiador que Gojo decidiu atender ao último pedido do assassino. Não que Toji tivesse sido claro em suas palavras finais; afinal, tudo o que dissera, de forma vaga antes de morrer, era que o filho seria vendido ao clã Zen’in dali a dois anos.
Alguém com menos escrúpulos deixaria a criança à mercê de uma família cruel, mas, ao mesmo tempo, ninguém inteligente entregaria um potencial prodígio aos cuidados de quem só buscava forjar uma arma. Portanto, Gojo decidiu conferir quem era o filho do homem que quase o matara e entender o real peso daquela informação.
Quando avistou a criaturinha de cabelo espetado que mal batia na altura de seus joelhos, Satoru sentiu uma vontade imensa de sorrir. De longe já era possível notar o potencial do moleque e prever o que ele se tornaria após anos de treinamento. Uma pedra bruta, pronta para ser lapidada. Toji estava confiando a ele o herdeiro da técnica mais poderosa do clã? Que interessante. Seria aquela a forma do falecido de finalmente se vingar da família que o excomungara?
Ajeitando os óculos escuros redondos sobre o nariz, Gojo apressou o passo para alcançá-lo — o que não era nenhum desafio, dadas as suas pernas longas — e atraiu a atenção do menino com o som de seus sapatos. O garoto apertou as alças da mochila ao notar a presença do estranho. Não devia ter nem sete anos, a julgar pelo tamanho. Quando se virou para encarar quem o seguia, o fez com curiosidade e sem um pingo de medo, o que era admirável. Afinal, era raro encontrar alguém que não tremesse diante de Satoru.
— O que foi? — ele quis saber, encarando o rosto boquiaberto de Gojo. — Você é estranho.
Caramba, tu é a cara do teu pai!, pensou Satoru, perplexo.
— Nada, não! Você é o Megumi Fushiguro, certo? — recompôs-se rapidamente.
— Quem quer saber?
— Meu nome é Satoru Gojo, sou um feiticeiro jujutsu. Fui enviado pelo seu pai.
— Meu pai? Hm. E o que você quer?
Gojo agachou-se para que ficassem no mesmo nível, permitindo que a conversa fluísse sem que o pequeno precisasse esticar o pescoço. Baixando o tom de voz, começou a explicar:
— Você já deve ter percebido que é um pouco diferente das outras crianças. Vê coisas que ninguém mais vê. Também deve sentir um poder misterioso aí dentro. Isso acontece porque seu pai veio do clã Zen’in, uma família influente no mundo da feitiçaria. Mas é uma gente bem escrota, então ele resolveu sair do clã para ter você. Legal, não é? E aí, quando eu o mat...
— Eu não conheço meu pai e também não ligo para o que ele faz. Mas entendi mais ou menos o que você quis dizer.
Um pouco chocado, Gojo analisou o garoto, que parecia muito mais maduro do que a idade sugeria. Satoru não era um perito em crianças, mas não imaginava que fossem tão eloquentes. Talvez fosse uma particularidade de Megumi.
Adotando uma abordagem mais direta, prosseguiu:
— A questão é que o clã Zen’in adora comprar crianças especiais, e você é especial pra caramba. Estou aqui para saber se você quer ir com eles.
— Eles vão ser como minha família?
Gojo examinou o rostinho de Megumi e identificou o olhar caído de uma criança triste, sobrecarregada de responsabilidades cedo demais. Ele não parecia rir com frequência. Por um segundo, Satoru sentiu uma profunda compaixão. Família. A palavra era forte e cheia de significado. Mesmo que o clã pudesse ser considerado uma, Gojo sabia muito bem que o que Megumi buscava era algo totalmente diferente.
— Não. Eles não serão como uma família — sentenciou, a voz sombria.
— Então não quero ir.
— Certo. Não precisa se preocupar com isso, então. Deixa comigo — afagou a cabeleira escura de Megumi.
Gojo levantou-se e lançou um olhar ao barraco onde o menino vivia sozinho. Percebeu uma senhora rabugenta espiando pela fresta da porta vizinha e deduziu rapidamente que era ela quem ficava de olho no moleque. A contragosto, a julgar pelo tom de voz.
— Você veio buscar o garoto? Finalmente! Quanta irresponsabilidade…
— E aí, vovó? — ele acenou, mantendo a outra mão enfiada no bolso. Em seguida, voltou-se para Megumi. — A única coisa que eu vou precisar de você, Megumi, é que você fique bem forte. Tão forte a ponto de ser capaz de me acompanhar. Acha que consegue?
Megumi não respondeu, mas sua expressão séria foi o suficiente para Gojo saber que ele levaria o desafio a sério. Parecia não restar mais nada para o menino naquele mundo.
Despediu-se e prometeu voltar em breve, pois tinha algumas pendências para resolver primeiro. Pediu que o garoto arrumasse todos os seus pertences, pois partiriam no seu retorno. E, embora não fosse um sentimento comum em seu repertório, Gojo experimentou um aperto no peito, como se abandonar os compromissos e ficar ali mais um pouco não fosse uma ideia tão ruim.
O apelo mudo da criança tocou seu coração enquanto a via se afastar; o vazio naqueles olhos refletia o vácuo que também existia nos seus. Não era preciso saber os detalhes para notar que aquele menino, assim como ele, já conhecia bem o peso das grandes perdas.
◆
Mais tarde, Gojo cumpriu a promessa e retornou ao minúsculo lar de Megumi. O garotinho havia feito a mala, como combinado, e não levava muita coisa consigo — afinal de contas, não era dono de quase nada. Eles partiram logo em seguida, viajando de carro até Tóquio.
Ao pé de uma montanha, abandonaram o veículo. Como prelúdio de uma longa caminhada até o destino final, Satoru pegou a mochila do pequeno, pendurou-a em seu próprio ombro e ergueu o garoto pelo cangote com a outra mão.
Megumi se debateu no ar de olhos arregalados. A gravidade pareceu desaparecer sem a menor explicação enquanto ele via o chão se distanciar debaixo dos seus pés, puxado para cima por uma força invisível. Seu desespero só teve fim quando suas pernas pousaram nos ombros do responsável por aquela travessura inesperada.
— Aproveita a vista aí de cima. Aqui vai ser a sua nova casa — Gojo disse tranquilamente, segurando o menino pelos tornozelos. — Quintalzão grande, né?
— Onde estamos?
— Aqui é o território dos feiticeiros jujutsu. Lá, naquelas casas, fica a Escola Técnica, para onde você vai quando ficar mais velho. Você é jovem demais para ser aluno, então vou te treinar de forma particular. Eu até te deixaria ficar com a vovozinha, mas se me pegarem indo até lá com frequência, você pode se tornar um alvo. Achei melhor te trazer logo pra cá.
— Você tem muitos inimigos?
— Ah, sim, pode crer que eu tenho vários. Mas ninguém se atreve a mexer comigo. O que não quer dizer que não possam mexer com as pessoas ao meu redor.
É por isso que eu preciso que você fique forte, Gojo divagou em pensamento.
— O que vai acontecer com a escola normal? Eu vou parar de ir?
— 'Tá aí uma coisa em que eu não tinha pensado — estalou a língua.
Ele se lembrou da falecida Riko Amanai, que escolheu frequentar a escola mesmo sabendo que o destino que a aguardava não deixava espaço para atividades mundanas. Tengen havia autorizado o capricho da garota e Gojo tinha lamentado a exposição desnecessária ao perigo na época; mas foi depois de ver a adolescente levar uma vida normal que compreendeu a importância daquele gesto. Por mais que parecesse tolo se apegar a coisas tão ordinárias quando o futuro era incerto, era ainda pior tirar de alguém a oportunidade de levar uma vida isenta de decisões cruéis e difíceis.
— Você vai continuar indo à escola, sim — o feiticeiro decidiu. — Só preciso te matricular numa que seja aqui perto.
Megumi acompanhou com os olhos a paisagem cheia de natureza e caminhos de pedra. Procurou por pessoas, mas não havia ninguém por perto. O lugar estava mergulhado num silêncio atípico, interrompido apenas pelo ruído de insetos e passarinhos. Era como se tivessem atravessado um portal para uma dimensão alternativa no Japão. O cenário era propício para brincar à vontade e passar um dia relaxante, mas, sem a presença de uma companhia divertida, aquele lugar se resumia a um jardim botânico sem graça.
— Megumi… sei que você disse não se importar, mas qualquer dia desses, se você quiser saber sobre seu pai, pode me perguntar.
O garotinho continuou quieto, absorvendo a visão ao seu redor. Não estava interessado em prolongar o assunto.
Quando chegaram perto de uma casa enorme de madeira maciça, Gojo parou e desceu a criança.
— É aqui que você vai ficar. Tem bastante espaço. Eu não vou poder ficar o tempo todo com você, mas pedi para os supervisores ficarem de olho quando eu estiver fora.
Eles entraram, e Megumi olhou para tudo sem muito entusiasmo.
— 'Tá com fome? — Gojo perguntou, as mãos na cintura. — Acho que tem sorvete aqui na geladeira.
— Sorvete é sobremesa.
— E daí? Toma logo — entregou um picolé de chocolate a ele. — Você é um garotinho bem sério, não acha? Não está impressionado com nada. Precisa dar um jeito nessa sua carranca aí, hein? Ou vai ficar sisudo igual ao Nanami.
Megumi aceitou o doce com desconfiança e ficou encostado na parede, sentindo-se deslocado em meio a um lugar tão pouco familiar. Gojo coçou a mandíbula, meio incerto se tinha tomado a melhor decisão ao trazer o garoto para sua casa. Mas o que iria fazer? Deixá-lo lá com aquela velhota mal-humorada?
— Pode ficar à vontade. Vou buscar nosso jantar.
Mais tarde, depois da refeição, Megumi sentou-se em frente à TV assistindo a um programa qualquer, mas sua atenção minguava à medida que o sono chegava sorrateiro. Gojo observou a cena de seu canto até que a criança finalmente cedeu ao cansaço e tombou a cabeça para o lado.
— Você é só uma criança, afinal — ele murmurou, pensativo.
Carregou Megumi até o quarto de hóspedes e o deitou na cama com delicadeza. Sentou-se ao seu lado e ficou vigiando seu sono durante um longo tempo, sentindo de novo aquele aperto no peito. Era complicado alimentar afeições em um mundo da feitiçaria onde tudo era imprevisível. Mas, ao mesmo tempo, era como se a existência daquela criança reparasse o dano de um corte profundo, feito recentemente pela pessoa em quem mais confiava.
Gojo poderia ter ficado amargo depois de sofrer com tantas decepções, mas seu coração, contraditoriamente, amoleceu. A morte de Riko, o afastamento de Suguru Geto. Essas duas coisas foram como lanças cravadas em seu peito. Mais dolorosas que a lâmina usada por Toji, pai de Megumi. E mesmo assim, Gojo, que sempre detestou a moralidade, sentiu como se um dever profundo tivesse se enraizado em seu corpo, fortalecendo uma vontade antes desconhecida de oferecer ternura.
Maluquice pensar que foi o seu assassino que se transformou no seu salvador ao colocar uma criança em seu caminho. E que foi seu melhor amigo que fez uma escolha que os colocou em lados opostos.
Olhando para a criança adormecida, o usuário dos Seis Olhos torceu para que ela tivesse força o bastante para lidar com esse tipo de dor quando chegasse a hora. Não era tolo de imaginar um futuro livre da maldade. Orar era em vão e ele sabia que não seria capaz de prevenir Megumi de sofrer naquele mundo. Restava fazer a única coisa que estava ao seu alcance: fortalecê-lo até que ele se tornasse um feiticeiro poderoso. Capaz até mesmo de superá-lo.
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Mesmo esclarecendo que não podia garantir sua presença diária, Gojo conseguiu manter uma rotina consistente na vida de Megumi. E não foi por falta de compromisso, pois trabalho era o que não faltava no mundo jujutsu. Acontecia que ele tinha ficado tão habilidoso que terminar as missões tomava apenas minutos de sua atenção. Já não fazia nem muita questão de se exibir para as maldições, pois sua mente vagava aleatoriamente para a figura pequena que mantinha em casa. Não era raro se pegar em dúvida sobre o que Megumi andava fazendo, desejando que a criança fosse um pouco mais extrovertida.
— Você sabe que uma criança precisa de mais do que um teto sobre a cabeça — Nanami dissera, quando ambos estiveram reunidos na cozinha da escola enquanto o loiro preparava um café. — Não pense que, por ser um garoto esperto para a idade, ele não precise de afeto. Eu diria que o caso dele, especialmente, exige afeto.
— Você parece entender de crianças, Nanami. Não quer ser a segunda figura parental dessa família? — disse sugestivamente, balançando as sobrancelhas.
— Quem sabe essa não seja a sua oportunidade de finalmente aprender a ser responsável, Satoru? Eu é que não vou isentá-lo da experiência completa.
Naquele dia, Gojo passou a missão inteira ponderando sobre as palavras de seu kouhai, entendendo muito bem para o que Nanami chamava atenção. Mas era difícil saber do que Megumi precisava ou gostava. O moleque era tão centrado e sério que chegava a dar tédio. Meninos não eram bagunceiros, espoletas e coisas assim? Por que foi logo arranjar um tão desprovido de alegria?
— E aí, monstrengo? — Gojo falou de forma casual para a maldição enquanto a segurava pela cabeça, esmagando-a. — Você não entende de criança, né? 'Tava precisando de umas dicas…
Megumi, por sua vez, ia para a escola de manhã cedo e voltava para a casa de Gojo à tarde. Dedicava um tempo para fazer as tarefas e, no tempo livre, circulava pelo território protegido por Tengen. Quando Satoru surgia, ele era levado para o campo onde os dois treinavam combate corpo a corpo e o uso da Técnica das Dez Sombras, que estava em sua fase mais prematura.
Voltavam para casa sempre no início da noite, quando a criança já não se aguentava mais em pé e precisava de um banho. Gojo jantava com Megumi e usava o momento da refeição para perguntar sobre o dia na escola. A conversa não se estendia em uma troca elaborada de palavras, mas para Satoru era o suficiente. Comparada à frieza do começo, aquela interação tímida era um progresso tremendo.
— Por que preciso aprender a lutar se posso invocar animais das sombras? — Megumi perguntou enquanto via Gojo aprontar a cama dele.
— A Técnica das Dez Sombras permite que você invoque shikigamis para lutar por você, mas isso não quer dizer que você pode ser fraco no combate corpo a corpo. Ou seu adversário vai aproveitar essa brecha para te atacar diretamente — Gojo explicou calmamente. — Então, é bem importante que você domine as duas coisas. Você vai ficar melhor preparado para lidar com qualquer tipo de situação.
— Eu não consigo visualizar direito quando você diz para eu chamar os shikigamis — Megumi reclamou, frustrado depois de ter tentado em vão múltiplas vezes durante o treinamento. — Não tem um jeito melhor de eu fazer isso?
Gojo apoiou o queixo nos dedos e esquadrinhou o quarto em busca de alguma ideia. Sentou-se na cama e bateu a mão no espaço ao seu lado, indicando para que Megumi se aproximasse. Ele admitia que sua abordagem até aquele momento não estava sendo das melhores, mas, em sua defesa, não conhecia nenhum outro usuário da técnica para lhe ensinar o método correto. Tudo o que estava fazendo era meio improvisado, usando apenas conhecimento teórico. Esperava descobrir junto com o garoto como fazê-la funcionar.
— Não consegue visualizar? Vejamos…
O olhar de Gojo recaiu sobre a sombra do cabelo espetado de Megumi projetada na parede. Que engraçado, parece um ouriço-do-mar, pensou. E assim, teve uma ideia.
— Vamos tentar um selo diferente. Aqui.
Gojo posicionou as duas mãos, criando a figura da cabeça de um cão. Megumi seguiu o raciocínio e viu na parede a silhueta do animal. De repente, empolgou-se e imitou o gesto, canalizando sua energia amaldiçoada para a forma.
— Diga o comando, Megumi — instruiu suavemente, sentindo a mudança na vibração do garoto.
— Gyokuken!
Foi instantâneo. De um ponto na sombra de Megumi, dois cães — um preto e um branco — emergiram e se colocaram a postos.
— Ah, aí estão eles! — Gojo comemorou. — Os Cães Divinos.
Megumi ficou maravilhado.
— Eu posso tocá-los?
— Vá em frente. Eles são seus. Você é o mestre deles agora.
O menino hesitou, mas o cão preto não o deixou se constranger, empurrando a própria cabeça contra a mão dele. Megumi, pela primeira vez, abriu um sorriso genuíno. Parecia não acreditar no que estava vendo. Fez carinho nos cães, que eram praticamente da sua altura, e ficou encantado ao perceber o quanto eram dóceis.
— Esses são os cães concedidos ao dominador da Técnica das Dez Sombras. São seus primeiros shikigamis. Os demais você terá que subjugar antes de conseguir invocá-los para lutar ao seu lado. Mas não precisa se preocupar com isso agora.
Gojo se retirou do quarto sutilmente para deixar Megumi interagir com os cães. Ficou no canto da porta, escondido, assistindo à cena com orgulho. Tirou o celular do bolso e fotografou o momento, justificando para si mesmo com o fato de que precisava registrar a evolução de seu pequeno pupilo.
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Na semana seguinte, Gojo foi enviado para rastrear uma maldição de nível um que se escondia numa pedreira onde, segundo boatos locais, vários operários haviam morrido após um soterramento. Ele sobrevoava o campo em busca do alvo quando seu celular tocou no bolso. O número era da escola de Megumi.
— Senhor Gojo? O senhor pode falar?
— Sim, claro — ele respondeu distraidamente, os olhos impressionantemente azuis focados em seu objetivo.
Ele captou um movimento no subsolo e mirou a criatura escondida com dois dedos estendidos.
— Aqui é da escola do Megumi. Estamos ligando para informá-lo que ele caiu de uma árvore e se machucou enquanto brincava…
O disparo do Vermelho saiu antes do planejado, abrindo uma cratera imensa no chão.
— ... e nós o levaremos para o hospital enquanto o senhor…
Num piscar de olhos, Gojo já atravessava o portão da escola. Caminhando depressa pelos corredores repletos de burburinho infantil, investigou o local inteiro em busca da energia amaldiçoada do pequeno Megumi. Encontrou-a na enfermaria, onde outras três mulheres também estavam presentes.
— Megumi? — ele entrou afobado.
— C-Como o senhor chegou aqui tão rápido?! — a mulher que falava ao telefone deu um pulo na cadeira.
Megumi, que fazia careta de dor, ergueu os olhos e se deparou com o homem de quase dois metros à sua frente. Ficava claro que ele estava se segurando, como se temesse demonstrar vulnerabilidade àquelas desconhecidas. Porém, diante de um rosto tão familiar, o menino foi consumido por uma enxurrada de emoções e desabou em um choro assustado.
— Oh, Gumizinho…
Gojo fez biquinho e estendeu os braços para o garoto, trazendo-o para o colo. Megumi escondeu o rosto em seu peito e soluçou ainda mais, desistindo de vez de reprimir o que sentia.
— Eu vou levá-lo ao hospital — informou às mulheres, que ainda estavam chocadas com a aparição repentina.
Dito isso, ele desapareceu para o lado de fora, teletransportando-se direto para a emergência do hospital. Lá, Megumi resistiu em ser afastado de Gojo, como se pressentisse o pior.
— Vai ficar tudo bem, meu denguinho. Eu vou ficar do seu lado. Eles só vão verificar se você quebrou algum ossinho, 'tá bom?
Foi só depois de entoar várias palavras de conforto que Megumi se acalmou e pôde ser levado para o raio-x. O diagnóstico confirmou uma fratura perto do tornozelo, o que significava que o local seria engessado.
— Satoru! O que pensa que está fazendo? Abandonou a missão pela metade?! — Yaga, seu antigo professor e agora diretor da escola de jujutsu, berrou em sua orelha pelo celular enquanto Gojo esperava o médico imobilizar a perna do garoto.
— Aconteceu uma emergência, diretor. Foi mal aí.
— Você tem ideia do quanto eu vou ouvir dos superiores por causa da sua…
— Aguenta aí, já te retorno.
Gojo enfiou o celular no bolso ao perceber que o ortopedista terminava o curativo e se virava para dar instruções.
— Em algumas semanas ele poderá colocar o pé no chão. Até lá, certifique-se de que ele mantenha a perna elevada.
— Ih, que coisa chata, hein, Megumi? Agora que aprendeu a brincar de verdade, já se esborrachou todo.
Gojo pegou o celular mais uma vez para fotografar o garotinho de cara emburrada e olhos esbugalhados de choro.
— Vem. Vamos nessa. Obrigado, doutor.
Eles saíram do hospital e Gojo encaixou Megumi em seu colo, colocando-o de bruços contra o próprio peito.
— Como você chegou tão depressa? — o menino murmurou.
— Ah, eu estava aqui pertinho. Que sorte, né? 'Tá com fome? Eu 'tô doido pra comer um docinho…
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A recuperação da perna de Megumi foi rápida, considerando os padrões de humanos não feiticeiros. Poderia ter sido ainda mais veloz se Gojo não tivesse enrolado para levá-lo até Shoko, sua amiga especialista em energia amaldiçoada reversa. Acontece que ele havia começado a gostar de cuidar de Megumi, e a perna engessada era a única desculpa aceitável que encontrou para carregar a criança para cima e para baixo.
Megumi era tão arisco que precisou de uma fratura para se tornar um tiquinho menos rabugento. Lógico que Gojo, ansioso para esbanjar afeto, não quis perder a oportunidade de ficar grudento com o pedaço de gente, mantendo o menino a tiracolo em tudo o que ia fazer. Por isso, quando o período de recuperação terminou em uma semana e Megumi voltou a andar sozinho, Gojo se sentiu todo acabrunhado. Megumi tornou a repeli-lo e a agir de forma independente. E agora, com os cães divinos então? Era como se Satoru nem existisse.
— 'Tá fazendo o que, Megumi?
Isso não significava que Gojo ia desistir de importunar o moleque, estendendo suas longas pernas ao redor dele e curvando-se para frente para olhá-lo de ponta-cabeça.
— Lição de casa.
— Lição de casa? No sábado? Que chatice! Vamos sair e dar uma volta. 'Tá o maior sol lá fora.
Megumi deu uma espiada pela janela e, de fato, o dia ensolarado estava bonito de se ver.
— E aí, o que me diz? — Gojo persistiu.
— 'Tá muito quente pra brincar lá fora.
Gojo se endireitou e soltou um suspiro exasperado. Pegou a criança pelo colarinho e a puxou para fora, com os cachorros em seu encalço. Depois, segurou Megumi pela perna e o carregou de cabeça para baixo, como se ele fosse um espeto de carne.
— Me solta! — Megumi protestou, tentando acertar o flanco de Satoru com seus soquinhos.
— Eu não!
Naquele exato momento, Nanami passava pela estrada de pedra e avistou a cena incomum.
— Oi, Nanami! — Gojo acenou alegremente.
— Socorro! — gritou o menino, que já estava com o rosto vermelho.
— Pega ele!
Nanami arregalou os olhos ao ver que Gojo falava sério e praticamente lançou a criança no ar em sua direção. O loiro abriu os braços, desesperado para impedir a queda, mas Megumi flutuou antes de colidir contra seu peito.
— Essa foi por pouco, hein? — Gojo sorriu, traquina, com as mãos enfiadas nos bolsos enquanto se aproximava dos dois.
— Isso não é uma brincadeira saudável — Nanami repreendeu, colocando o menino de pé no chão.
— Eu achei bem divertido. Quer ir de novo, Megumi?
— Não… — o menino murmurou, escondendo-se atrás do adulto mais responsável.
— 'Tá bom. Vamos fazer algo mais de boa. Quer ir com a gente, Nanami?
— Prefiro não me intrometer no lazer em família. Divirtam-se.
Com a despedida do loiro, Gojo observou o colega se afastar, a boca ligeiramente aberta. Família. Aquela palavra de novo. Num lampejo de lembrança, dispensou um olhar significativo a Megumi, que estava um pouco acanhado depois de ter seu escudo humano removido.
— Vem. Vamos nos divertir hoje. Você 'tá branco feito um fantasma. Precisa de um solzinho na cara.
Gojo estendeu a mão para o garoto, que olhou para ela com apreensão antes de segurá-la. Provavelmente procurou pela seriedade na voz de Satoru antes de confiar.
— Olha quem fala...
O resmungo arrancou uma gargalhada sincera de Gojo. Ele continuou a sorrir ao sentir o aperto em seus dedos, um calor se apoderando de seu peito. Família. Que bobagem. Ele e Megumi não eram nada um do outro.
E, ainda assim, essa parecia ser a única palavra capaz de descrevê-los.
◆
Meses depois, Gojo retornou bem tarde de uma missão. Não pôde acompanhar Megumi em seu treinamento vespertino nem buscá-lo na escola, e praticamente deixou o garoto sozinho para fazer as refeições e lidar com os afazeres domésticos. Não era sua intenção abandoná-lo dessa forma, mas, desde que se tornara o feiticeiro mais forte daquela geração, isso trouxera uma carga de responsabilidade absurda. Além de ter que lidar com mestres de maldições perigosos, tinha que enfrentar todo o sistema político e hierárquico que enchia o mundo jujutsu de regras incômodas e costumes arcaicos. Sinceramente, já teria explodido a cabeça de todos os velhos gagás do alto escalão se isso fosse resolver o problema. Acontece que ele sabia que, mesmo eliminando a chefia, outros iguaizinhos seriam colocados no lugar.
— Sabe… treinar o Megumi me deu uma grande ideia — ele dissera a Nanami numa das pausas que faziam para trocar informações. — Quero me tornar professor.
— Você? Professor?
— Por que está tão surpreso? — ele se ofendeu com a incredulidade na voz do amigo.
— Nunca achei que você tivesse veia para a docência. Mas por que quer se tornar professor?
— Se eu puder moldar a futura geração que vai tomar as rédeas do mundo jujutsu, poderei testemunhar a verdadeira revolução acontecer nos padrões da nossa sociedade. Não é demais, Nanami?
— Se você tiver sucesso em reproduzir miniaturas de Satoru Gojo, acho que prefiro sumir do mundo jujutsu.
— Ah! Para, Nanami! Você sabe que vai ser muito mais legal!
À noite, quando finalmente pôs os pés em casa, Gojo se permitiu relaxar um pouco, sendo engolido pelo breu da residência silenciosa. Passou no quarto de Megumi para dar uma olhada e o encontrou dormindo entre os cachorros, rodeado de materiais escolares. Parecia ter adormecido no meio de alguma tarefa de colorir, a julgar pela bagunça.
Gojo tirou a jaqueta e a pendurou nas costas de uma cadeira antes de se aproximar e recolher os lápis de cor de cima do colchão. Ao pegar o caderno, deparou-se com um desenho que o fez se emocionar. Nele, Megumi havia desenhado a si mesmo ao lado de uma figura esguia e alta que só poderia ser o próprio Satoru. Os cachorros também estavam lá, junto com outros animais que Gojo sabia pertencerem à Técnica das Dez Sombras, mas que ainda não haviam sido dominados.
"Desenhe a sua família" era o título da atividade. Gojo precisou sentar para recuperar o fôlego e não abrir o berreiro. Aquilo era fofo demais para aguentar.
— Ah, Megumi…
Arranjando um espaço que não existia naquela cama apertada, Gojo deitou-se ali no meio. Com medo de acordar o moleque sem querer, apenas se enrodilhou perto dele, decidindo que, daquela vez, dispensaria a própria cama para dormir ao lado de Megumi.
◆
Era mesmo cômico se deparar com Satoru Gojo, o feiticeiro mais forte do mundo jujutsu, com seu um e noventa de altura, empoleirado e de óculos escuros, assistindo a uma apresentação infantil. Ele se destacava dos outros pais ao redor devido aos cabelos brancos e à aparência jovem. Parecia mais um irmão mais velho de alguma criança em vez de um pai, mas ninguém arriscava perguntar o que ele fazia ali.
Quando chegou a vez da turma de Megumi, Gojo sacou o celular e filmou toda a apresentação, acenando e desconcentrando o pobre menino, que corou de vergonha ao notá-lo. Ele não esperava ver o feiticeiro; na verdade, havia escondido o recado da escola no fundo da mochila. Não que não quisesse convidá-lo. Só não soubera como fazer isso.
Gojo é quem havia achado o bilhete naquela manhã, depois de devolver o caderno à mochila. Queria fotografar o desenho antes que o menino acordasse e acabou descobrindo sobre o Dia dos Pais na escola. Cancelou todos os compromissos para comparecer, chamando a atenção de todo mundo com seu ar excêntrico ao entrar na escola de ensino fundamental coberta por decorações em E.V.A.
— Megumi, você foi tão bem! Estava uma gracinha! — Gojo importunou o pequeno, apertando-lhe as bochechas. — O que é isso? É pra mim?
Megumi escondia algo nas costas, mas Gojo puxou o garoto para o colo com facilidade, pegando a folha que ele segurava. Nela, viu o desenho da noite anterior, agora com mais detalhes e ainda mais colorido.
— Que lindo, Megumi. Foi você que fez?
— Sim.
— Você até fez o Vermelho e o Azul… — riu, impressionado ao identificar os dois círculos nas próprias mãos desenhadas, representando a sua técnica amaldiçoada. — Eu fiquei muito descolado aqui, hein? E esses bichinhos aqui? Quem são?
— Esse aqui é o Nue, esse aqui é o Orochi, esse aqui é o Gama. E aqui é o Datto e a família dele.
— Vocês têm muitos animaizinhos de estimação — a professora de Megumi comentou ao se aproximar.
— Ah, sim. Nossa casa é um zoológico — brincou Satoru. — Ainda 'tão faltando alguns aqui.
— Eu vou desenhar em outra folha. Aqui não tem espaço.
— Verdade. Os outros são bem grandões.
— Desculpe perguntar, mas você é o pai do Megumi?
— Sou o guardião dele. Por quê? O Megumi está aprontando muito?
— Não. Jamais. Ele é muito querido. Um garoto muito inteligente e focado. Queria parabenizá-lo pelo ótimo trabalho que vem fazendo na educação dele.
— Que isso, eu nem faço nada. Megumi já nasceu bem chato e certinho. Eu é que dou trabalho pra ele.
Depois de ser paparicado por todas as professoras e funcionárias da escola, Gojo levou Megumi para casa, sentindo-se todo triunfante e embevecido. Mas, ao olhar por cima do ombro, deu de cara com um bico daqueles.
— Que foi, Megumi? 'Tá com essa cara por quê?
— Você é tão metido!
Gojo soltou uma risada, imaginando o quanto a criança havia sofrido ao perceber que tinha um guardião que era um verdadeiro ímã de atenção feminina.
— Ih, 'tá com inveja? Se bem me lembro, tinha umas gatinhas lá te olhando também.
Ao não receber nenhuma reação, Gojo esfregou a mão na cabeça de Megumi, bagunçando os fios espetados.
— Não me ignora não, hein!
— Hmpf!
◆
No dia do aniversário de seis anos de Megumi, Gojo preparou um grande jantar em casa. Um exagero da parte dele, considerando que não esperava muitos convidados. Como a data ficava próxima do Natal, não dava para contar com a presença de todos os feiticeiros, já que a maioria preferia passar o feriado com a família ou ficava ocupada em alguma missão. Também não dava para chamar ninguém da escola de Megumi por causa da barreira de Tengen. Mas ele achava a ideia de economizar espaço uma grande perda de tempo. Afinal, que tipo de pessoa ele seria se não se exibisse um pouco com uma grande demonstração de fartura numa data tão importante?
Quem apareceu para celebrar junto aos dois solitários foram Kento Nanami e Shoko Ieiri, as duas únicas pessoas mais próximas a Gojo que fizeram questão de participar da festa.
— Que bom que vocês vieram! Eu tenho gorrinhos de Papai Noel e chapéus dourados. Qual vocês vão querer? — Gojo os recebeu de forma animada, exibindo os apetrechos como um vendedor ambulante.
— Prefiro não usar nada na cabeça — Nanami disse, enquanto Shoko aceitava o chapéu dourado.
Megumi estava na sala pendurando bolas na árvore de Natal comprada no dia anterior. Como ela era gigante, o menino só conseguia preencher a parte de baixo. Parecia levar a tarefa a sério, mantendo a simetria entre os lados e encaixando bengalas entre as esferas vermelhas.
— Feliz aniversário, Fushiguro — Shoko atraiu a atenção dele.
Shoko e Nanami entregaram os presentes para a criança, que parou o que fazia para abrir as caixas. Encontrou uma bola e um carrinho de controle remoto.
— Bem melhor que o bastão de três partes — Gojo resmungou meio chateado, olhando de soslaio para o seu próprio presente, que havia sido abandonado num canto.
— É um presente visionário — Shoko concordou com uma risada. — Espere mais alguns anos e talvez ele mude de ideia.
Os três se reuniram em torno da mesa para petiscar enquanto observavam Megumi brincar com os cachorros e seus novos brinquedos.
— Crianças são as que mais sofrem nesse mundo jujutsu — Shoko ponderou com a voz baixinha, atentando-se ao fato de que aquela comemoração era desprovida de pessoas da idade de Megumi. — Eu tenho pena da próxima geração. Já sabemos que tipo de infância terão. Isoladas. Incompreendidas.
— É por isso que temos que preservá-las desse caos até que seja estritamente necessário — Nanami acrescentou. — Já pensou em tudo o que atravessamos nos últimos anos? Parece realmente justo submeter essas crianças a esse futuro?
Gojo ficou em silêncio, sem uma opinião formada. Afinal, ele não teve escolha alguma ao herdar os Seis Olhos. Desde o nascimento, ficou fadado a dar ordem ao mundo jujutsu. Não que ele se ressentisse disso. Gostava do poder e de como aquilo o colocava acima dos outros. Sua tristeza, portanto, se estendia a Megumi, que poderia estar levando uma vida normal, longe de todo aquele inferno.
Infelizmente, para o garoto, a escolha também já não era mais possível. O acordo de venda para o clã Zen’in só fora desfeito graças à garantia de que ele trabalharia como feiticeiro no futuro. O clã estava disposto a cortar o investimento financeiro na escola se isso não fosse cumprido.
Incomodado com a perspectiva de ter privado o garoto de um futuro indolor, Gojo decidiu que não era permitido conversar sobre nada sério no aniversário de uma criança. Encheu a festa de brincadeiras nas quais só ele achava graça, mas que acabaram por dissipar o clima pesado. Megumi se juntou a eles na hora de cantar parabéns e cortar o bolo (que sumiu em minutos, graças ao anfitrião louco por açúcar).
Na hora de ir embora, Shoko afagou a cabeça de Megumi e o aconselhou a pedir um videogame para o Papai Noel, pois talvez o bom velhinho estivesse na dúvida sobre o que trazer naquele ano. Ela piscou para Satoru, que fez uma careta meio enfezada.
— Obrigado por nos convidar. Cuidem-se — Nanami acenou.
Quando Gojo retornou para dentro junto com Megumi, a criança olhou para a árvore de Natal incompleta. Não foi preciso dizer duas vezes. Eles juntaram forças e terminaram de decorá-la, acendendo as luzes coloridas ao redor dos galhos.
— Sensei, o que é um videogame?
Gojo se surpreendeu com a pergunta, mas entendeu logo o motivo de Megumi não saber o que era aquilo. Sem dinheiro para comprar um jogo sequer e incapaz de frequentar a casa dos colegas para conhecer as tecnologias daquele tempo, Megumi era praticamente uma criança das cavernas. Uma alfinetada em seu peito o levou de volta à conversa com Shoko e Nanami.
— Bom, quem sabe você descubra este ano! Melhor pedir logo. O Natal já é daqui a três dias.
◆
No ano seguinte, todos foram pegos de surpresa pela notícia de que Kento Nanami estava deixando a Escola Técnica de Jujutsu. Ele explicou que já planejava a saída há um tempo, um desejo alimentado pela sensação de falta de propósito em trabalhar como feiticeiro. O discurso para a diretoria foi compreensível, e ele não foi julgado pela escolha.
Gojo, presenciando o afastamento de mais um amigo, manteve a postura altiva. Provocou o loiro ao espalmar uma mão na parede ao lado da cabeça dele e, baixando os óculos escuros para encará-lo com os olhos azuis, disse numa voz baixa:
— Quando quiser voltar, me liga, 'tá bom? Vou estar te esperando.
Nanami, de braços cruzados, sequer se abalou. Fez uma mesura polida e saiu carregando seus pertences.
— Por que o Nanami foi embora? — Megumi perguntou a Gojo quando este voltou para casa.
Eles se sentaram lado a lado na varanda. Os pés descalços do menino balançavam acima do chão arenoso do jardim, enquanto as pernas compridas do mais velho precisavam se estender, ocupando um espaço bem maior.
— Ah, ele… ele está um pouco cansado, eu acho. Precisa de um tempo.
— O que ele vai fazer?
— Trabalhar em um escritório.
— Ele vai descansar… trabalhando?
— Chatão, né? Esse é o Nanami.
— Ele vai voltar?
— Quem sabe? Talvez não.
— A gente vai poder visitá-lo?
— Hm… não sei. Acho que ele vai ficar bem ocupado. Mas a gente pode tentar.
Megumi olhou para as próprias mãos entrelaçadas no colo.
— Olha, Megumi, eu sei que eu disse que você precisa ficar forte, mas eu andei pensando e... se você não quiser se tornar um feiticeiro jujutsu, é só me dizer. Não vou forçá-lo a se formar na Escola Técnica.
Gojo sabia que acabaria em maus lençóis se Megumi tomasse a decisão de abandonar a feitiçaria, arranjando uma confusão tremenda com o clã que já odiava o seu — mas ele não ligava nem um pouco. Tinha refletido muito seriamente sobre esse assunto depois de ver cada um de seus colegas sucumbir ao mundo da feitiçaria e não queria que Megumi acabasse no mesmo lugar sombrio.
Sem uma motivação clara e um toque de loucura, era impossível sobreviver àquela carga.
— O que os feiticeiros jujutsu fazem, exatamente?
— Nós exorcizamos maldições e salvamos a vida de não feiticeiros.
Até um tempo atrás, Gojo teria rido dessa resposta. Ele, que no passado fora avesso à ideia de proteger os mais fracos, jamais teria isso na ponta da língua. Não costumava ver muito sentido nesse propósito altruísta, apesar de ter se empenhado à beça em seu próprio desenvolvimento. Nunca foi pelos humanos que ele se dedicara tanto; só queria ser capaz de dominar suas técnicas e tornar-se invencível.
O responsável por incutir a noção de que os mais fortes deveriam preservar a vida dos menos capazes foi Suguru Geto, seu antigo melhor amigo. Geto sempre o incitara a ser menos arrogante e a se esforçar para ser uma boa pessoa. Chegava a ser doloroso concluir que havia aderido ao ideal do amigo justo quando ele não estava mais ali para defendê-lo, tendo adotado uma postura totalmente oposta frente ao mundo.
Que responsabilidade enorme era estar no papel de influenciar os ideais de uma criança que ainda não sabia o próprio rumo. Como guiá-la? O que fazê-la pensar? Como impedir que se desviasse? O que deveria incentivar e quando deveria podá-la? De fato, Megumi havia trazido consigo uma enorme reflexão sobre o impacto de Gojo nos outros.
— Mas eu vou conseguir fazer isso? — o garoto quis saber.
— Se treinar bastante, você vai conseguir fazer isso num piscar de olhos.
Megumi encolheu-se, duvidando daquela fala.
— E se eu não quiser, o que vou fazer?
— O que você quiser. Você pode até ir embora do Japão se estiver a fim.
Arregalando os olhos, Megumi olhou para seu sensei, curioso ao ouvi-lo falar daquele jeito. Ele não se imaginava abandonando o lado de Satoru.
— Mas não se preocupe, você vai poder me visitar quando quiser — Gojo assegurou com um sorriso tranquilo. — Só saiba que, se você escolher ser feiticeiro, eu não vou pegar leve não, hein?
— E você, sensei? Não fica cansado como o Nanami?
— Hm, nah. Eu 'tô de boa. Eu gosto de ser feiticeiro.
— Por quê?
Gojo deu de ombros.
— Ah. Deve ser porque eu sou o mais forte.
◆
Era cedo para Megumi decidir sobre seu futuro aos seis anos, então Gojo deu tempo e espaço ao garoto para que ele tivesse oportunidade de amadurecer a ideia. Enquanto isso, mantiveram a mesma rotina de sempre, treinando e aperfeiçoando a Técnica das Dez Sombras, além, claro, de dividirem outros passatempos.
A única coisa que mudava com o tempo era o temperamento de Megumi que, à medida que se aproximava da adolescência, se tornava cada vez mais insuportável. Gojo queria acreditar que era só uma fase, mas o garoto, em vez de tomar um rumo, afastava-se dele ao adotar uma postura impessoal.
Quando ingressou no ensino médio, Megumi não demonstrou desejo algum de criar vínculos e, de repente, passou a se envolver em confusões com inúmeros valentões.
E a desculpa dele era…
— Detesto quem se mete no espaço dos outros achando que tem o direito de fazer isso! Esses caras me dão nojo.
Gojo olhou de forma crítica para os dez moleques machucados e enfileirados na secretaria do colégio. Arqueou a sobrancelha, impressionado com o feito. Megumi era bom de porrada, não tinha um único arranhão no rosto. Satoru não sabia se ficava orgulhoso por o adolescente não ser um fracote ou decepcionado com o talento desperdiçado.
Usando o uniforme de feiticeiro e as bandagens nos olhos, Gojo parecia ter sido interrompido no meio de alguma obrigação séria. Respirando fundo, ele empurrou a cabeça de Megumi para fora da escola e continuou a guiá-lo pela calçada.
— Já 'tá na hora de a gente ter uma conversinha.
Megumi foi levado até o topo de um edifício distante, bem no meio de Tóquio.
— Sinceramente, Megumi, eu não me importo se você dá uma surra em gente covarde. O que eu não entendo é… como você pode se apegar a algo tão pequeno.
— Vai me criticar porque bati naqueles idiotas?! — Megumi se irritou. — Eu odeio gente maldosa e odeio as pessoas boas que as perdoam! Isso não faz o menor sentido!
— É bastante ódio dentro desse coraçãozinho aí. Mas você não acha, Megumi, que está sendo igualzinho a eles?
— Não. Não existe orgulho dentro de mim!
— Não? — Gojo o desafiou.
Megumi mal sentiu sua posição mudar, mas, subitamente, tudo o que havia debaixo dele eram quarenta andares de queda livre e as minúsculas ruas de Tóquio, onde iria se esborrachar caso Gojo desfizesse o encantamento.
— Não tem orgulho aí dentro por se sentir superior àqueles seres insignificantes?
— Eu não sou ruim como eles.
— Então você está fazendo justiça com as próprias mãos?
— O mundo é injusto! — esbravejou quase sem fôlego, o foco disparando para qualquer coisa que não fosse o abismo abaixo de si e o que ele faria com seu corpo. — Nem todo mundo sofre o que deveria por ser cruel! E nem todas as pessoas sabem como se proteger!
— E o que você vai fazer com essa informação, Megumi? Por que age como se isso fosse da sua conta?
Puxando o adolescente de volta, Gojo o lançou no chão seguro do terraço, observando-o se apoiar nos antebraços enquanto recuperava o fôlego.
— Eu não ligo para as motivações que você tenha, desde que você seja sincero e ambicioso. O que eu não posso aceitar é essa sua rebeldia sem causa. Quer atacar quem é mais fraco só porque tem chance de vencer? Então por que não experimenta lidar com gente do seu tamanho? Vai se contentar com o acerto garantido até quando?
Gojo deu alguns passos e agachou-se ao lado do garoto.
— Você está sendo só mais um covarde, Megs. Melhor pensar direito se é isso mesmo o que você quer.
Deixando Megumi lá de castigo para refletir, Gojo sumiu, voltando para o restaurante onde estava com Nanami antes de ser convocado para lidar com o encrenqueiro. O feiticeiro de nível um, que havia retornado à escola de jujutsu há seis anos, lia o jornal concentrado enquanto esperava a refeição ser servida.
— Problemas com o Megumi?
— Que saudade de quando ele era só um bebezinho, Nanami — ele choramingou imitando uma voz fininha, embalando um bebê imaginário nos braços. — Eles crescem e ficam tão chatos!
— Eu fico admirado por ele não ter se transformado numa versão compacta sua depois de conviver tão de perto com você. Isso prova que ele é bem resistente.
— Infelizmente, o Megumi virou um emo — lamentou exageradamente. — O que eu fiz para merecer isso?
A garçonete surgiu com uma bandeja e serviu os pedidos, despejando chá verde em dois copos de cerâmica.
— A mentalidade do Megumi é um grande problema — Gojo comentou numa voz grave e baixa assim que ficaram sozinhos novamente. — Ele seria capaz de me confrontar, mas não o faz porque, na cabeça dele, já perdeu.
— Quando se cresce com uma referência de poder absoluto tão próxima, é de se imaginar que ele se sinta diminuído.
— Está dizendo que a culpa é minha?
Gojo pareceu surpreso, mas não ofendido. Realmente considerava o peso da própria influência sobre o garoto.
— Não posso afirmar com certeza. Mas, talvez, ter uma visão tão clara do topo o tenha feito ter medo de nunca alcançá-lo.
— Mas eu queria que ele se sentisse motivado! Não o contrário! — resmungou com chateação.
— Você se esquece de que o Megumi não nasceu nas melhores condições. A mãe morreu muito cedo. Depois, o próprio pai o abandonou e o vendeu para um clã que o excomungava. Sentimentos dessa época ficam enraizados e, mesmo que ele tenha sido acolhido por você, não podemos exigir que ele interprete a vida da mesma maneira que você. Não subestime o tamanho de um trauma na cabeça de alguém.
Com o queixo apoiado no punho, Gojo cutucou a comida. Refletindo sobre a fala de Nanami, passou a questionar a si mesmo se realmente tinha feito um bom trabalho até ali. Megumi estava ficando forte e ainda mais inteligente, mas, ao mesmo tempo, regredia em força de vontade. Não esperava que incentivá-lo a dar o seu melhor pudesse originar sensações de insuficiência.
— Não estou dizendo que você fez algo de errado com ele — Nanami adivinhou seu raciocínio. — Só estou dizendo para considerar o ponto de vista do garoto.
Algo que Gojo sempre teve certa dificuldade em fazer.
À noite, enquanto olhava fixamente para um ponto qualquer no jardim, Satoru ouviu Megumi chegar. Ainda de uniforme e com um aspecto abatido, o adolescente juntou-se a ele no banco da varanda, os ombros curvados pelo cansaço.
— Você sabia que o clã Zen'in e o meu não se entendem há gerações? — Satoru iniciou a conversa.
— Por quê?
— Teve uma Era aí, bem antiga, em que os chefes dos clãs resolveram se confrontar. Parece que foi um espetáculo aberto para todo mundo. O negócio foi esquentando até que os dois acabaram se matando. Quer saber o que é mais interessante? O chefe do clã Gojo tinha os Seis Olhos e o Ilimitado. E o chefe do Zen'in usava a mesma técnica que a sua.
— A Técnica das Dez Sombras? — o garoto se virou para Gojo, perplexo.
— Entendeu onde eu quero chegar?
Megumi, emudecido, continuou encarando o sensei sem conseguir acreditar.
— Não há na história um feiticeiro que tenha conseguido subjugar o Mahoraga, o shikigami mais poderoso de todos. Mas quem sabe eu não serei o primeiro a testemunhar tamanha façanha…
— Você não pode estar falando sério! — Megumi o interrompeu, estarrecido. — Você não pode acreditar que eu…
— O topo é um lugar bem solitário — Gojo intensificou a voz, calando o garoto. — E não dá pra saber quanto tempo vou ficar nele. Mas eu não me importaria de dividir o lugar com alguém por um tempo. Eu nunca te subestimei, Megumi, então é triste perceber que você mesmo se põe pra baixo.
Lembranças da época da formação na Escola Técnica invadiram a mente de Gojo, especialmente aquelas conectadas a Suguru Geto. Ele falhara em perceber, na época, a ruína mental de seu melhor amigo. Falhara em entendê-lo e em impedi-lo de se perder na escuridão. Será que esteve ignorando Megumi da mesma forma? Talvez respeitar demais o espaço de seu aluno tivesse interferido em seu discernimento sobre o que era melhor para ele.
— Eu vejo o seu potencial, então só posso esperar o seu melhor, Megumi — Satoru baixou o tom, o olhar preso em um lugar distante no horizonte noturno. — Nunca foi minha intenção te pressionar ou algo do tipo. Acho que é como cuidar de um botão de flor, sabendo desde o início que a flor que sairá dali será linda e exuberante. Eu não posso decidir a hora em que ela vai desabrochar.
Com as pernas e braços cruzados, o herdeiro dos Seis Olhos baixou o queixo.
— Eu só posso ajudar quem está pronto para ser ajudado. Então, até você tomar uma decisão, Megumi, estará apenas andando em círculos e perdendo seu tempo. A única forma de sobreviver a esse mundo injusto é criando seu próprio sistema de valores. Busque por um sentido universal e você morrerá procurando. Viva a sua verdade, Megumi, e você terá vivido a sua vida.
Dando fim ao discurso, Gojo se levantou. Colocou as mãos nos quadris e abriu um sorriso repentino.
— Tu desceu o braço pra valer naqueles moleques, hein, Megumi. Gostei de ver — provocou, bagunçando sem dó o cabelo desordenado do adolescente.
— Dá um tempo!
Megumi deu um tapa para afastar o braço de Gojo, a irritação dominando suas feições. Mas, quando Satoru pisou dentro de casa, percebeu pelo canto da visão um tímido sorriso despontar no meio de toda aquela seriedade do garoto.
◆
Megumi tinha ouvido por alto sobre a comoção que acontecera na entrada do território de Tengen. Suguru Geto, ex-aluno da Escola Técnica, aparecera junto com sua facção para anunciar uma batalha entre feiticeiros, algo que chamou de Cortejo dos Youkais. Tal declaração movimentou tanto a escola de Tóquio quanto a de Kyoto, que se prepararam para enfrentar milhares de maldições.
No fim, a batalha serviu a um propósito diferente do previsto. A intenção de Geto era separar Yuta Okkotsu, aluno do primeiro ano de nível especial, dos demais feiticeiros e derrotá-lo sozinho. Seu objetivo com isso era extrair do garoto a maldição que o acompanhava, reconhecida como poderosa e com um potencial destruidor sem precedentes.
Megumi havia se unido ao pessoal da Escola de Tóquio na linha de frente; portanto, só descobriu esses detalhes quando os aliados de Geto desapareceram misteriosamente e Gojo reportou aos supervisores a situação da destruição no território de Tengen. Parecia surreal que um plano daquele tamanho servisse apenas para distrair e ganhar tempo. Megumi ficou impressionado com a magnitude do poder de Yuta e de como ele era importante para o mundo jujutsu.
— Onde estão o Panda e o Inumaki, Nanami? — perguntou ao feiticeiro quando eles começaram a bater em retirada, depois de a confusão cessar.
— Gojo os enviou de volta à escola para protegerem o Okkotsu.
No começo daquele ano, Megumi fora apresentado aos alunos do primeiro ano: Maki Zen’in, Panda e Toge Inumaki. Gojo estava tão empolgado para se vangloriar da sua primeira turma que Megumi não teve outra alternativa a não ser conhecer a geração que seria treinada por ele. Seu sensei organizara um encontro superdivertido, o único animado no meio de um bando de adolescentes deslocados.
— E esse aqui é o meu Megumi. Ele não é fofo? — ele o envergonhara na frente dos calouros, apertando suas bochechas e causando o riso daqueles que, em breve, se tornariam seus senpais.
Não muito tempo depois, Yuta surgira do nada e se integrara à Escola Técnica, chamando a atenção de todos. A existência dele violava as regras, mas Gojo dera um jeito de suspender a execução do garoto. Satoru não era de dar detalhes sobre o que estava tramando, mas Megumi nunca foi de questioná-lo, confiando no julgamento de alguém capaz de enxergar além do óbvio. Ele admirou seu guardião por ser tão influente a ponto de criar uma nova condição. Isso o fez refletir um pouco sobre o que realmente fazia sentido nas regras do mundo jujutsu, já que Gojo não seria estúpido de manter por perto alguém que ameaçasse a vida de feiticeiros.
— E eles estão bem?
— Aparentemente, sim. Todos ficaram bem. E Suguru Geto foi eliminado. O que explica o recuo dos outros mestres de maldições.
Eles pararam no meio da calçada, o carro que os levaria de volta estacionado a poucos metros. Nanami desenrolava a gravata do punho para colocá-la de volta ao pescoço quando Megumi o espantou com uma pergunta.
— Quem é esse Geto, Nanami?
— Gojo nunca o mencionou a você?
— Ouvi falar dele por meio de alguns supervisores, mas tudo o que sei é que ele é um ex-aluno da Escola de Jujutsu. Ou era.
Nanami encarou a fisionomia ingênua do adolescente e respirou fundo. Não era seu lugar contar sobre a vida dos outros, mas o loiro já estava cansado de saber que Gojo dificilmente compartilhava sobre seu passado e sentimentos. E não estaria contando para qualquer pessoa, mas para quem realmente importava.
— Suguru Geto estudou junto com Gojo. Pode-se dizer que, antes de o Gojo dominar o Ilimitado completamente, Geto era um igual em termos de força e técnica. Eles costumavam ser melhores amigos.
Apesar de ser algo tão banal ter um melhor amigo, Megumi se sentiu abalado pelo termo. Afinal, nunca vira Gojo comentar sobre suas amizades. A visão que tinha dele era de uma pessoa solitária e inalcançável. Perceber a implicação disso fez seu coração pesar no peito.
Na volta para casa, Megumi tentou dimensionar o dilema de ter que enfrentar um amigo e ainda testemunhar sua morte. Como lidar com alguém em quem você confiava — provavelmente seu único amigo — se tornando seu inimigo?
A noite já avançava para a madrugada quando Megumi pôs os pés na entrada. Identificando os sapatos deixados no canto, deduziu que Gojo já tinha chegado. O adolescente não o procurou de imediato, preferindo tomar um banho antes para se livrar das roupas imundas e do sangue acumulado nos machucados.
Quando se vestiu com roupas confortáveis, foi até a cozinha e tomou um tempo preparando um chá de lavanda. Despejou o líquido em dois copos de barro e tomou o rumo dos fundos, onde ficava o aposento de Gojo. Encontrou-o reclinado sobre a cama, sem as bandagens, o cabelo branco caído sobre a testa.
Gojo se movimentou levemente para o lado. Seus olhos azuis estavam opacos, e uma expressão severa morava em seu rosto bonito. Uma expressão raríssima de apatia.
— Megumi? — ele pronunciou suavemente, mas com uma indiferença tão desconhecida que Megumi sentiu algo se partir e fisgar dentro de si.
Os copos caíram no chão quando o adolescente deu um passo à frente, a respiração falha enquanto seus braços buscavam o entorno do corpo de seu sensei. Foi como no dia em que caíra da árvore e quebrara a perna. Ele não tinha chorado na hora, pois a vergonha era maior que a dor; mas, no momento em que vira Gojo passando pela porta da enfermaria, sentira como se não precisasse aguentar mais nada sozinho. E um jorro de lágrimas escorrera, seu desespero infantil finalmente liberto. Tinha ficado com tanto medo.
Megumi soluçou contra o ombro de Gojo, as mãos apertadas com força nas costas dele.
— O que foi, Megumi? — Gojo perguntou de forma cálida quando, vagarosamente, seus braços se moveram para acolher aquele abraço aflito.
— Quero me tornar um feiticeiro jujutsu — Megumi conseguiu dizer em meio ao choro.
Quero ficar forte como você.
Não quero te deixar sozinho.
Gojo alisou as costas de Megumi até senti-lo se acalmar.
— Essa é a sua decisão? Sua verdadeira vontade?
— Sim. É o que eu quero.
O canto da boca de Gojo se ergueu e ele afagou a cabeça de Megumi, tentando domar os fios rebeldes em vão. Em seguida, deu espaço para que os dois coubessem confortavelmente na cama.
— Vai ter que se dedicar em dobro, hein?
— Já sei. Você não vai pegar leve comigo.
— Não mesmo! Vou te colocar em cada uma…
Megumi sorriu. E não precisava ver para saber que Gojo também sorria.
◆
Megumi massageou a têmpora com o polegar ao discar o número de Gojo no telefone.
— Não tem nada aqui — resumiu o problema.
— O quê?
— O abrigo meteorológico 'tá vazio.
— Sério? Que comédia. Será que ele foi dar uma voltinha?
— Eu vou te socar!
— Sem voltar para casa até recuperá-lo, viu?
A chamada foi encerrada bruscamente e Megumi respirou forte pela boca. Que missão de merda. Era simplesmente recuperar um artefato amaldiçoado e, agora, o paradeiro dele era desconhecido. Como aquele dedo do diabo havia desaparecido? E por que o colocaram num lugar tão idiota? Francamente.
Encerrando a atividade por ali, Megumi decidiu que voltaria à escola no dia seguinte para procurar pelo objeto. Duvidava que alguém tivesse feito alguma coisa com o dedo, ou aquele lugar já teria ido ao chão. Seria melhor tentar achá-lo à luz do dia, até porque, com uma energia tão poderosa no local, identificar sua exata localização daria um trabalho do cacete.
◆
Gojo, que se via sem notícias de seu amado Megumi desde o dia anterior, decidiu dar uma passadinha em Sendai. Apenas por garantia. Ele não queria privilegiá-lo bancando o pai coruja — e também sabia que o garoto ia odiar se ficasse de butuca na missão —, mas depois de passar tanto tempo sem receber uma única mensagem sobre o progresso da busca, resolveu dar uma espiada.
Não que não confiasse em Megumi. Longe disso. Só era meio estranho. Além disso, o objeto amaldiçoado era o dedo de Ryomen Sukuna, o Rei das Maldições. E se, por acaso, ele tivesse parado em mãos erradas e Megumi estivesse em perigo real? Era melhor checar. Só pra ter certeza.
A princípio, ia somente observar de longe, mas ao notar a destruição no colégio, soube que o negócio estava feio. Ao surgir ao lado de Megumi, notou-o ensanguentado e numa postura familiar.
Ele vai invocar o Mahoraga? Que situação o fez recorrer a isso?
— E aí? O que é que 'tá pegando? — interferiu.
— Huh? — o encantamento de Megumi se dispersou. — Sensei Gojo! O que faz aqui?
— Eu nem 'tava muito a fim de vir, mas 'tava turistando aqui perto e resolvi dar uma passada. Caramba, você 'tá todo esbagaçado — ele soltou uma risada e tirou o celular do bolso, ligando a câmera. — Eu preciso mostrar isso pro segundo ano!
Megumi revirou os olhos e tentou escapar, mas Gojo o fotografou de diversos ângulos sem lhe dar chance de impedir. O garoto já podia prever a chacota que se tornaria para seus senpais, especialmente para Maki, que adorava importuná-lo com sua suposta falta de habilidade em combate corpo a corpo.
— E aí? — Gojo quis saber ao guardar o telefone. — Cadê o dedo? Achou?
— Então…
O surgimento de outra voz na conversa fez Gojo se deparar com a existência de um garoto de cabelo rosa, sem camisa. Satoru estava prestes a fazer troça daquela situação ("Interrompi alguma coisa?") quando escutou as próximas palavras.
— Foi mal. É que eu comi.
Por um momento, Gojo achou que não tinha escutado direito.
— É sério?
— Sério — os dois adolescentes disseram em uníssono.
Gojo segurou o queixo e deu uma boa olhada. Era difícil acreditar. Aproximou-se e inspecionou o maluco, farejando a energia amaldiçoada.
— Que doideira. 'Tá tudo misturado em você. 'Tá sentindo algo estranho?
— Não. 'Tô de boa.
— Consegue trocar com o Sukuna?
— Sukuna?
— É. A maldição que você engoliu.
Ter que esclarecer aquilo era ainda mais absurdo do que falar com alguém que ativamente planejou absorver um artefato amaldiçoado. O que tinha acontecido para que ele realizasse tamanha proeza? E como Megumi lidou com isso? Ainda bem que tinha aparecido.
— Acho que consigo, sim.
Gojo ficou impressionado com a tranquilidade do moleque.
— Então me dá dez segundos. Dez segundos e você troca de volta — disse, começando a se alongar.
Ele tinha que tentar. Precisava medir o potencial do garoto. E um dedo do Sukuna era mamão com açúcar. Seria até divertido. Se o moleque não conseguisse domar a maldição, era só dar um fim nele e pronto: caso encerrado. Por outro lado...
— Fica tranquilo — ele reforçou ao perceber a cara de espanto de Megumi. — Eu sou o mais forte aqui. Megumi, segura isso.
Ele empurrou uma sacola parda no colo do aluno.
— O que é isso?
— Kikufuku. A especialidade de Sendai — explicou animado, já sentindo o gosto na boca só de imaginar. — É mó gostoso! E não é presente não, Megumi. Não faz essa cara. Eu vou comer no trem-bala de volta pra casa…
Uma explosão aconteceu nesse meio-tempo, e Gojo observou o movimento como se estivesse em câmera lenta. "Que fraco".
— O chantilly dentro é uma delícia! — continuou a recitar as maravilhas do doce ao se sentar nas costas do moleque possuído. — Se você quiser, eu divido com você, Megumi…
Sukuna, enraivecido com a descontração de seu oponente, o atacou sem parar, movimentando o ar como se fossem lâminas.
— Como meu aluno 'tá me assistindo, eu vou me exibir um pouquinho — segredou à maldição, esquivando-se dos golpes como se fosse uma simples brincadeira.
Ao abrir uma brecha, Gojo socou o ar usando sua energia amaldiçoada e fez Sukuna voar para longe com a intensidade do seu poder.
— Vocês sempre dão trabalho em todas as Eras, malditos feiticeiros jujutsu! — a voz demoníaca esbravejou, lançando um ataque destruidor na direção de Gojo, que o repeliu sem esforço algum.
— Já está acabando… sete… oito… nove…
E, simples assim, Sukuna deixou o corpo do adolescente, que acordou do que pareceu ter sido apenas um cochilo brevíssimo.
— Deu tudo certo?
— Caraca! Eu 'tô chocado… — Gojo riu. — Consegue mesmo controlar ele!
— Mas ele é irritante. Eu consigo ouvi-lo na minha cabeça.
— É um milagre a coisa parar por aí.
Adiantando-se na frente do moleque, Satoru tocou em sua testa, interferindo na energia dele. O corpo desmaiou, e Gojo precisou segurá-lo para que não caísse de cara no chão.
— O que você fez? — Megumi demonstrou preocupação.
— Nocauteei o garoto. Se quando acordar ele não estiver possuído pelo Sukuna, talvez sirva de receptáculo.
Segurando o corpo desfalecido, Gojo o colocou sobre o ombro como se fosse um saco de batatas. Realmente, algo extraordinário. Alguém capaz de controlar o Rei das Maldições… esse moleque não era pouca coisa. A maioria não teria sobrevivido para contar a história.
A questão, no entanto, não tinha a ver com o talento dele, mas com seu futuro incerto. Satoru sabia o que estava por vir assim que mencionasse o caso para o alto escalão. Já tinha ficado em apuros com a situação de Yuta Okkotsu, imagine só aparecer com mais um cachorro abandonado? Iria testar com força a paciência dos superiores. Mas isso era o de menos. Na verdade, o que realmente chamava a atenção de Gojo era outra coisa.
Virando-se para Megumi, quis saber:
— O que devemos fazer com ele?
A pergunta era um teste, sim, mas vinha de um lugar de curiosidade genuína também. Megumi se apegaria às regras? Seria indiferente? Ou será que…
— Mesmo sendo um receptáculo, o regulamento jujutsu exige que ele seja executado — Megumi falou, o tom comedido. Parecia esconder alguma coisa. — Mas eu não quero deixar que ele morra.
Ah. Aí estava. Gojo sorriu de lábios fechados.
— É pessoal?
— Exatamente. Por favor, ajude-o.
Gojo experimentou um prazer indescritível com aquilo. Ouvir o reservado Megumi pedir por sua ajuda o enchia de felicidade. Isso sem mencionar o fato de que seu aluno estava transgredindo regras sem sentido, encontrando algo valioso e misterioso naquela situação. Finalmente, Megumi havia encontrado sua verdade e a estava seguindo instintivamente.
— Se é um pedido do meu querido Megumi... — comemorou, erguendo o polegar em sinal positivo. — Deixa comigo!
◆
Com a adição de Yuji Itadori à turma do primeiro ano, Gojo fez a festa. Era difícil formar turmas numerosas na Escola de Jujutsu, mesmo sabendo que havia vários feiticeiros espalhados pelo país, então conseguir trazer mais gente era uma imensa alegria. Claro que teve que vencer na base da argumentação para suspender a execução do garoto, e sabia que sofreria constantes represálias por trazer para dentro da Escola Técnica mais um jovem amaldiçoado, mas e daí? Não era como se fosse a primeira nem a última vez que faria aquilo.
Por que ele tinha que ser o único a perceber que a Escola de Jujutsu precisava de pessoas com potenciais extraordinários? Aqueles velhos eram tão sem noção. Descartar o receptáculo do Sukuna sem ao menos dar uma oportunidade para o garoto mostrar seu valor. Os anciões precisavam perceber que a onda de poder que tentavam conter era irrefreável. As maldições daquele tempo não seriam mais combatidas pelo mesmo nível de feiticeiros se continuassem com aquela mentalidade tacanha. Precisavam de aliados fortes, então por que tomar a péssima decisão de executar quem se mostrava disposto a jogar no mesmo time?
Gojo provaria a eles que tinha razão. E estava tão animado com sua façanha de trazer Yuji para a escola que enfiou o moleque no quarto logo ao lado do de Megumi, que havia saído de casa para habitar o dormitório estudantil (algo que Gojo achou tão desnecessário! Adolescentes. Sempre querendo privacidade). Ele tinha certeza de que seu amado aluno adoraria a ideia.
— Com tanto quarto vago, tinha que ser logo ao lado do meu? — Megumi brigou ao vê-los no corredor.
— Assim não é mais animado? — Gojo sorriu alegremente, identificando a cor avermelhada nas bochechas de Megumi.
— Você é tão organizadinho, Fushiguro… — Yuji comentou ao espiar o cômodo do adolescente sério.
— Sai daí — Megumi bateu a porta na cara de Yuji.
Gojo, sem se abalar com a braveza de Megumi, admirou a cena à sua frente, sentindo-se como se estivesse presenciando o começo de uma comédia romântica.
— Amanhã vamos buscar a terceira caloura! Não é o máximo? 'Tô arrasando este ano.
Ele bateu palmas e sacudiu as mãos, saltitando pelo corredor a caminho da saída do dormitório.
◆
Em toda a sua vida, Megumi chorou poucas vezes. Não que faltassem motivos para isso. Alguém mais sensível no lugar dele provavelmente cairia aos prantos com muita facilidade ao lidar com tudo o que ele vivia. Acontece que se tratava de alguém muito fechado, alguém que dificilmente abria os portões das emoções e abria mão do controle. Portanto, era possível contar nos dedos de uma mão todos os momentos em que ele manifestou tamanha demonstração de vulnerabilidade.
A primeira, quando caiu de uma árvore e quebrou a perna.
A segunda, quando declarou seu desejo de se tornar um feiticeiro jujutsu.
A terceira, quando Yuji Itadori morreu diante de seus olhos.
Nesta última vez, ele não derramou uma lágrima sequer quando o fato aconteceu. Observou o corpo de Yuji, com um buraco no peito, cair à sua frente em puro estado de choque. E mesmo quando já estava longe do local, a caminho do necrotério da Escola Jujutsu, não sentiu os olhos lacrimejarem. Nem mesmo quando Shoko desvelou o corpo, confirmando o estado cadavérico de seu colega de classe, ele expressou tristeza.
Ele finalmente chorou ao ver Gojo.
Como em todas as vezes anteriores, a presença de Satoru foi decisiva para permitir que ele se abandonasse ao desespero que tomava seu corpo.
— Eu sou tão fraco… — soluçou contra o ombro de Gojo, que o abraçou forte assim que se encontraram. — Eu não consegui ajudá-lo.
— Isso não foi sua culpa, Megumi. Nada disso foi sua culpa.
Gojo o segurou e o acalentou pelo que pareceram horas, amaldiçoando internamente o responsável por enviar adolescentes inexperientes para lidar com uma missão de nível especial, colocando-os em perigo mortal.
◆
Gojo achava, honestamente, que Megumi receberia a notícia da ressurreição de Yuji com mais entusiasmo. Ficou surpreso ao receber a ira dele no lugar.
— O que foi que eu fiz? Eu achei que você ia ficar feliz! — ele se esquivou dos golpes de Megumi.
— Por que não me disse antes que ele 'tava vivo?!
— Ah, mas ia perder toda a graça da surpresa! Não fica bravo comigo! Eu sei que você gosta dele…
— Cala a boca!
◆
Apesar de Megumi ter ingressado na Escola Técnica e saído de casa para viver no dormitório, ele e Gojo não perderam o hábito de fazerem uma refeição semanal juntos que, segundo Satoru, era sagrada, familiar e, portanto, compulsória. Normalmente acontecia durante o almoço ou jantar, mas, como o mais velho detestava rotina, gostava de variar de vez em quando. Eram duas horas de tempo de qualidade em que ele decidia aleatoriamente o que fariam.
Daquela vez, como estava menos inquieto, Gojo optou por um café da manhã na varanda. Como o clima estava agradável, afastou as portas de vidro e deixou os sons da natureza chegarem à mesa farta, posta com uma infinidade de gostosuras. Ele havia trocado a venda pelos óculos escuros e vestia uma camisa social branca de algodão, assim como Megumi. Não foi proposital, mas Gojo não perdeu a oportunidade de fazer um coração com as mãos e anunciar "estamos combinando!" numa voz fofa, ao que Megumi reagiu com puro desgosto adolescente.
— Você acha que o Itadori fez um pacto com o Sukuna? — Megumi finalmente externalizou a dúvida que o consumia desde que vira Yuji ressuscitado sem um único arranhão.
— Com certeza — Gojo bebeu seu café. — Sukuna não iria revivê-lo sem estabelecer um preço.
— Itadori disse alguma coisa?
— Ele não se lembra — lamentou-se. — Minha teoria é que o acordo do Sukuna envolva o Yuji não se lembrar. E, agora, é impossível saber com o que ele concordou. Não posso julgá-lo. Yuji é muito novo e não tem inteligência tática. Ele não é malicioso, então pode ter concordado com algo que nem sabe o que significa.
Gojo tinha um mau pressentimento relacionado a isso, pois tudo era possível vindo do Rei das Maldições. Infelizmente, apenas o tempo diria qual condição ele havia imposto ao garoto.
Observando Megumi ficar cabisbaixo, Gojo soube que algo mais o atormentava.
— O que foi, Megumi?
— Quanto tempo acha que o Itadori tem?
— Bom… se considerarmos o progresso lento que temos para reunir os dedos, mais a enrolação que podemos manter, acho que uns dois ou três anos. No máximo cinco, se a gente for bem malandro — sorriu de maneira convencida. — Vai dar um tempinho legal pra você namorar ele.
Megumi encolheu os ombros e corou violentamente.
— E se você quiser terminar com ele, a gente dá um jeito de adiantar a execução — Gojo atravessou a mão no pescoço como uma lâmina e soltou uma gargalhada ao ver a carranca de seu aluno.
— Por que você brinca com coisa séria? É a vida do Itadori.
— Ficou bravo, é? Achei que não se importasse…
Gojo passou geleia em uma torrada e mordiscou um pedaço. Ao notar que Megumi ainda tinha uma sombra pairando sobre a cabeça, interveio mais uma vez.
— Tenha mais fé em mim, Megumi. Quem disse que, depois de achar os vinte dedos, eu vou entregar o último?
Escorregando os óculos para a ponta do nariz, Gojo cruzou seu olhar com o de Megumi, fazendo-o entender de uma vez por todas o seu maravilhoso plano. Quando viu a compreensão se assentar no rosto do garoto, sorriu de forma orgulhosa e, enquanto passava mais doce na torrada, soltou:
— Só não esqueça de usar proteção!
Café espirrou no Mugen, caindo direto no chão.
— Eu vou te socar! Cala a boca!
— Cai dentro, ué. 'Tá se segurando por quê?
◆
Nos momentos em que Gojo se retirava para seu escritório e se sentava à janela, gostava de se ocupar visitando a galeria de seu telefone. Aproveitava a quietude e a ausência de distrações ao redor para dar uma olhada na coleção de fotografias que reunira ao longo dos anos. O centro de todas elas? Megumi Fushiguro.
Ele tinha centenas de cenas registradas. Suas favoritas eram as de Megumi ainda criança. Megumi, aos seis anos, sentado em um banco tomando sorvete. Brincando com os cachorros (que, infelizmente, não apareciam nas fotos, mas estavam lá em sua memória). Dormindo no sofá, na cama, com a cabeça em cima da lição de casa ou apoiada em seu ombro durante alguma viagem de trem. Também havia fotos dele soprando velas em cada aniversário (vê-lo crescer a cada uma delas deixava seu coração todo dolorido). Dele treinando artes marciais. Todo ralado depois de tomar um tombo. Com a perna engessada, emburrado sobre a maca do hospital.
Havia um álbum cheio com as fotos da formatura do ensino fundamental. Das várias apresentações do Dia dos Pais. Do Dia das Mães também, porque Gojo se autointitulava um guardião unissex. Das várias atividades da escola, das quais Megumi participava a contragosto, mas acabava se divertindo depois de se soltar.
Em outra pasta, havia fotos de Megumi nas mais diversas estações do ano. No meio da neve, coberto dos pés à cabeça com roupas quentinhas. Cheio de pétalas de cerejeira presas no cabelo arrepiado. Empastado de protetor solar e usando seus óculos escuros redondos quando foram para a praia. Todo coberto de folhas depois de correr sem parar pelo parque.
Na visita ao zoológico, Megumi ficara eufórico. Quis tirar uma foto com cada animal pelo caminho. Foi provavelmente o único dia em que conseguiu cansar Gojo de verdade.
Quando pequeno, Megumi até cooperava facilmente com as selfies, mas, conforme foi ficando mais velho, passou a se esconder das lentes. Não que isso funcionasse por completo, pois Gojo havia se tornado um especialista em fotografá-lo de surpresa. Na maioria das imagens, Megumi aparecia sério, mas de vez em quando era possível capturar seu tímido sorriso (e era nessas fotos que Satoru mais se demorava).
Já havia tantas memórias naquela galeria que Gojo se perdia na nostalgia. E, quando abandonava o telefone no peito e fechava os olhos, lembrava-se do dia em que conheceu Megumi. Um menininho bravo, cheio de marra, que já pelo cabelo indicava que seria um problema. Mas, ao mesmo tempo, uma bênção de garoto, que entrou em sua vida e resolveu não sair de jeito nenhum.
Eles vão ser como minha família?
— Sensei Gojo? — a voz de um Megumi mais velho o puxou de volta para a realidade.
— Então até ele dorme, não é? — a voz era de Yuji.
— Pô, é claro que ele dorme! 'Tá maluco? — essa era a Nobara.
— Acorda, Gojo! — Megumi insistiu, provavelmente mal-humorado. — Se ia dormir, por que nos chamou?
Gojo ajustou a venda sobre os olhos marejados e levantou-se, abrindo espaço para a dupla barulhenta, Nobara e Yuji, disputar o lugar na poltrona.
— 'Tá rindo por quê, hein?
Gojo se voltou para Megumi, que o observava com cautela e estranhamento.
A única coisa que eu vou precisar de você, Megumi, é que você fique bem forte. Tão forte a ponto de ser capaz de me acompanhar.
Seu menino tinha ficado tão forte desde então.
— Nada não, Megumi — ele afagou a cabeça de seu aluno. — Coisa minha.
