Chapter Text
Gojo preparava uma pilha generosa de panquecas para o café da manhã quando o celular vibrou impaciente sobre a mesa. Enquanto isso, Megumi aguardava quieto em sua cadeira alta, ainda sonolento e soltando bocejos esporádicos. Já vestia o uniforme escolar, e o cabelo, impossível de domar, espetava-se para todos os lados em seu caos particular. A perna engessada pendia no ar, longe do chão, exatamente como o médico recomendara, agora ostentando uma coleção de rabiscos coloridos feitos pelos colegas de classe. Gojo, claro, também deixara sua marca: desenhara bem na ponta do gesso um gatinho usando óculos escuros, que Megumi encarava toda vez que abaixava a cabeça.
Encaixando o aparelho barulhento entre o ombro e a orelha, Gojo atendeu.
— Satoru, onde você está? — a voz do diretor Yaga trovejou do outro lado da linha.
— Como assim? Estou em casa.
— Em casa?! Você já deveria estar na escola!
— É, eu sei. As tias já estão perdendo a paciência de tanto abrir o portão para mim. Eu sempre perco a hora.
— Estou falando da Escola Técnica de Jujutsu, não da escola do Megumi!
— Ah. — Gojo piscou. — Eu estou um pouco ocupado agora. É muito urgente?
— Urgente?! Satoru, você esqueceu que tem que viajar para Kyoto hoje para exterminar uma maldição de nível especial num templo?
Gojo ergueu o rosto, vasculhando a memória. Ao lançar um olhar de relance para o calendário preso na geladeira, lá estava, circulado com um marcador vermelho agressivo: Kyoto!
— Ih, é verdade! Opa!
Com um movimento ágil, ele virou a panqueca na frigideira bem a tempo de salvá-la de virar carvão, montando um prato farto logo em seguida. Levou a refeição até a mesa e, no caminho de volta para buscar mel e manteiga, deu um peteleco leve na testa do garoto, que pescava de sono sentado.
— Ai! — Megumi resmungou, esfregando o local atingido e despertando de vez.
— Anda logo, que estamos superatrasados!
— Mas é você quem demora! A culpa não é minha…
— Satoru! — Yaga berrou pelo alto-falante do telefone.
— Sim, diretor! Estou a caminho neste exato instante. Deixa comigo!
Gojo desligou e enfiou o celular no bolso, apoiando as mãos na cintura. Observou Megumi comer com a lentidão matinal típica das crianças e, num estalo, uma ideia mirabolante cruzou sua mente.
— Qual é a sua primeira aula hoje?
— Educação Física.
— Sério? Que comédia. E o que você vai fazer lá com essa perna quebrada? Servir de cone na pista de corrida?
— As professoras me deixam sentado no banco, assistindo.
— Que tédio absurdo. Então está resolvido. Hoje você vai ter aula comigo. Vamos fazer algo muito mais divertido.
Megumi mal teve tempo de arregalar os olhos. Num piscar de olhos, seu guardião sumiu da cozinha e reapareceu já vestindo o uniforme escuro da escola de jujutsu. Sem cerimônia, Gojo transferiu o restante do café da manhã para uma lancheira e pegou o garoto no colo, gesso e tudo.
— Você não tem que avisar a escola? — Megumi perguntou.
— Precisa mesmo? Achei que era só não aparecer. Depois eu mando um bilhete. Agora vamos ao que interessa! Hoje você vai aprender sobre maldições na prática!
Apesar de poder simplesmente se teletransportar para Kyoto em segundos, Gojo optou por pegar o trem-bala. A viagem lhe daria o tempo perfeito para explicar a Megumi o que eram as maldições, como surgiam e onde costumavam se esconder.
Acomodados nos assentos confortáveis do vagão, enquanto Megumi terminava suas panquecas e bebericava um chá, a paisagem urbana passava pela janela num borrão contínuo.
— As maldições nascem da energia amaldiçoada que vaza das emoções negativas dos humanos não feiticeiros — Gojo explicava. — Existem diferentes níveis para elas, e essas classificações nos ajudam a medir o quanto são perigosas. Como são invisíveis para pessoas normais, acabam causando estragos absurdos quando ganham força.
— Na minha escola eu vejo algumas, mas elas nunca fizeram nada — Megumi comentou, os olhos curiosos voltados para ele.
— É muito comum que elas apareçam em colégios — Gojo assentiu. — Escolas, hospitais, cemitérios... São locais que acumulam muita energia por causa da intensidade das emoções que os humanos despejam ali ao longo dos anos: raiva, mágoa, tristeza, vergonha, frustração. Quanto mais essa energia se condensa e fica estagnada, mais forte a maldição se torna.
Gojo se ajeitou no banco, cruzando as pernas compridas.
— A Escola Técnica é responsável por catalogar e exorcizar essas coisas, mas, infelizmente, não temos feiticeiros suficientes para lidar com todas ao mesmo tempo. Por isso, às vezes usamos métodos alternativos para espantá-las, como esconder um objeto amaldiçoado bem forte no local. O que, convenhamos, é um risco do caramba.
Gojo apoiou a bochecha no punho e um sorriso enviesado, quase cínico, despontou em seus lábios. Sua mente vagou para o quão mais simples seria se os humanos não fossem tão incompetentes em reter a própria energia amaldiçoada. Economizaria um tempo precioso e pouparia muitas vidas no mundo jujutsu. Mas, com a escassez de recursos e de pessoas capacitadas, a chefia precisava otimizar as obrigações e acabava recorrendo a essas medidas drásticas e horrendas.
— Por que é um risco? — Megumi quis saber.
— Porque esse objeto amaldiçoado guardado lá pode acabar sendo consumido por outra maldição que passe por perto. E dependendo de qual for o objeto, a maldição ganha tanto poder que evolui para o nível especial. É aí que ela se torna capaz de causar um rastro de destruição quase irreversível. Nós estamos indo dar um oi para uma dessas agora, aliás. Você vai ver de camarote como elas se comportam.
Quando chegaram ao templo nos arredores de Kyoto, o ar ao redor da montanha estava denso e opressivo. As árvores centenárias não balançavam uma folha sequer e o silêncio era absoluto, pesado. Era um indicativo claro de que a energia amaldiçoada impregnada no local já havia afugentado qualquer sinal de vida silvestre.
Gojo caminhou calmamente pelo pátio de pedra, carregando Megumi com um braço só. O garotinho agarrava a lancheira contra o peito, os olhos verdes varrendo o ambiente com uma cautela instintiva.
— Você já percebeu, não é? — Gojo murmurou, notando a tensão do menino em seu colo. — Níveis especiais carregam uma aura esmagadora. São missões designadas apenas a feiticeiros de nível um ou superior justamente por causa da magnitude desse poder.
Como se estivesse apenas aguardando essa introdução dramática, as portas principais do pavilhão estilhaçaram. Uma criatura humanoide, de proporções grotescas e membros alongados, saltou das sombras diretamente na direção deles, cortando o ar com um chiado perturbador.
Megumi prendeu a respiração, mas a voz de Satoru soou logo acima de sua cabeça, macia e inabalável.
— Mas não se preocupe, Megumi. Eu sou o mais forte.
Com um movimento fluido e quase preguiçoso, Gojo pivotou o corpo e esquivou-se do ataque brutal. A transição foi tão suave que Megumi sequer balançou em seu colo. A aberração passou direto e colidiu violentamente, abrindo uma cratera no chão de pedra, de onde soltou uma risada gutural e arrepiante ao se reerguer.
— Muito bem, aula prática número um! — Gojo anunciou, o tom de voz tão casual quanto o de um professor diante de um quadro-negro. — Maldições só podem ser expurgadas através do uso de energia amaldiçoada. Então, nada de tentar usar armas comuns ou sair distribuindo socos simples. Se for partir para a briga corpo a corpo, você precisa aplicar a sua energia em cada golpe.
A criatura avançou novamente, cega de fúria. Satoru sorriu. Erguendo a perna longa em um arco perfeito, Gojo bloqueou o avanço e encontrou o flanco da maldição com um impacto ensurdecedor. Para os olhos de um feiticeiro, o golpe não era apenas físico; estava imbuído por uma oscilação densa de energia amaldiçoada, faiscando como uma chama azulada imperceptível para o resto do mundo, mas que teve força o bastante para lançar a aberração vários metros para trás.
— E não podemos esquecer das técnicas de barreira... — Gojo apontou dois dedos para cima, desenhando um selo casual no ar. — Elas servem para manter o caos da luta longe dos humanos comuns, além de facilitarem na hora de encurralar uma maldição ou impedir a entrada de visitas indesejadas.
O céu iluminado acima do templo escureceu de forma instantânea. Uma cúpula de escuridão viscosa escorreu pelos ares como tinta negra, isolando a montanha do mundo exterior. Satoru fez questão de baixar a Cortina logo de cara, antes que esquecesse e Yaga voltasse a berrar no seu ouvido por negligenciar o básico.
— As Expansões de Domínio também entram na categoria de técnicas de barreira. Mas, sinceramente, essa maldição é tão fraquinha que não teria a menor graça gastar isso com ela, Megumi! — ele provocou com um bico desdenhoso.
A aberração urrou. Condensando uma quantidade absurda de energia amaldiçoada pura em seu núcleo, a criatura disparou um feixe destrutivo, veloz como um raio, direto contra o peito dos dois.
Megumi apertou os olhos e encolheu os ombros em puro reflexo, mas o impacto nunca chegou.
Ao abrir os olhos devagar, o garoto soltou uma exclamação ofegante. O jato de luz letal havia parado no ar, a poucos palmos de seus rostos, dissipando-se contra o nada como se colidisse com uma muralha inquebrável. Satoru mantinha um braço estendido; o espaço ao redor deles havia se tornado infinito, formando uma redoma invisível e absoluta que nenhuma força poderia atravessar.
— E, por fim, temos o uso das técnicas amaldiçoadas inatas — Gojo continuou a explicação no mesmo tom didático, como se um ataque mortal não estivesse fervilhando a um palmo de seu nariz. Seus olhos incrivelmente azuis cintilavam através das lentes escuras. — Cada feiticeiro tem a sua. A sua é a das Dez Sombras. Você pode manipular shikigamis usando sua energia e guiá-los para exorcizar maldições. Já eu…
Gojo ergueu a mão direita, o dedo indicador e o médio estendidos.
— Quando eu junto e amplifico a minha energia amaldiçoada, eu crio o Lapso de Técnica Amaldiçoada. Azul!
O próprio tecido do espaço ao redor da mão de Gojo se contorceu. Uma esfera de um azul cintilante e profundo floresceu na ponta de seus dedos, pulsando com uma força gravitacional aterradora. Megumi arregalou os olhos, fascinado, a luz neon e hipnótica da técnica refletindo em suas pupilas arregaladas.
Em uma fração de segundo, a esmagadora força de atração do feitiço puxou a maldição gigantesca para frente com uma violência estrondosa. A pressão arrancou lajes inteiras do chão de pedra, varrendo os destroços e o monstro para o centro da atração gravitacional, quebrando completamente as defesas da criatura.
— Ele suga e atrai as coisas, tipo um ímã gigante! — Gojo narrou, alegre. — Mas, se a gente pegar essa mesma energia amaldiçoada e multiplicá-la por ela mesma, criamos energia positiva. E quando eu injeto isso na minha técnica, nós temos a Reversão de Feitiço!
Na ponta dos dedos de Satoru, a distorção mudou de polaridade. Uma luz escarlate e incandescente começou a brilhar, intensa e quente como um sol em miniatura atingindo massa crítica. Megumi prendeu a respiração, maravilhado. Aquele brilho vermelho era tão feroz e imponente que apagou por completo as sombras do pátio, tingindo as paredes de madeira e o rosto do menino de rubro.
— Vermelho! — Gojo estalou os dedos.
O impacto da esfera vermelha foi absolutamente ensurdecedor. Uma onda de choque massiva rasgou o ar e varreu o pátio. A força de repulsão foi tão brutal que o monstro foi varrido da existência, desintegrando-se no espaço antes mesmo de ser prensado contra os muros maciços do templo — que viraram pó de pedra e serragem no milésimo de segundo seguinte.
Acima de toda aquela destruição, intocável e perfeitamente seguro nos braços do feiticeiro, Megumi soltou o ar que nem percebera estar prendendo. Seu pequeno coração ainda martelava no peito.
— Tsc — Satoru estalou a língua, dissipando a energia dos dedos com uma careta de decepção. — Não deu nem pra mostrar o Vazio Roxo, mas isso fica pra outro dia. Junto com a Expansão de Domínio. Mas e aí, o que você achou? Muito legal, né?
Megumi continuou encarando as mãos do feiticeiro, depois ergueu a cabeça para olhar o rosto relaxado, coberto pelas lentes escuras. Todo aquele poder absurdo... e Satoru agia como se não fosse absolutamente nada. Como se estivessem num passeio no parque. Aos poucos, os ombros tensos da criança relaxaram por completo.
— Você é muito exibido — Megumi resmungou por fim, virando o rosto emburrado para esconder o fato de que estava profundamente fascinado.
Gojo soltou uma gargalhada alta e apertou Megumi num abraço apertado de lado, esfregando o queixo na cabeleira espetada do menino e ignorando solenemente todos os seus protestos.
Naquele dia, durante a viagem de trem de volta para casa, Megumi passou o caminho inteiro encarando as próprias mãos em silêncio. Como seria ter todo aquele poder e se sentir tão capaz? Durante toda a sua curta vida, Megumi só havia aprendido a esperar o abandono e a se preparar para o pior. Estava acostumado a ficar em alerta constante, encolhido nas próprias sombras. Assistir Gojo, no entanto, era como ser ofuscado por uma supernova.
Aquele homem extravagante, exibido e absurdamente barulhento era, para além das aparências, alguém de poder imensurável. E por que ele tinha escolhido proteger Megumi? Por que se dar esse trabalho?
O garoto não conseguia entender, mas uma sensação inédita e quente se acomodou em seu peito enquanto ouvia o som ritmado do trem. Depois de testemunhar a grandeza de Satoru, teve, pela primeira vez, a certeza absoluta de que não importava o quão assustadores os monstros fossem; enquanto estivesse ao lado dele, nada de ruim o alcançaria.
