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Ser um super-herói e namorar Han Jisung já tinha sido um feito extraordinário na vida de Bang Chan. Imagine então ser um super-herói e casar com o amor da sua vida? Ele praticamente merecia uma medalha. Afinal, não era para qualquer um conciliar o trabalho de salvar o mundo com um relacionamento amoroso. Mas, felizmente, não estamos falando de qualquer um, e sim de Bang Chan, um verdadeiro especialista em fazer dar certo — o cara que conseguiu, na mesma tarde, impedir uma invasão alienígena e ainda chegar a tempo para o jantar com os sogros. Se alguém conseguiria essa proeza, era ele, o Super Bang.
A comemoração para tamanha conquista precisava ser à altura: uma lua de mel cinco estrelas. Era a chance de se dedicar inteiramente à sua paixão, que já tinha aturado incontáveis jantares interrompidos e planos cancelados ao seu lado. Encontrar uma cara-metade no meio do caos era raro, e encontrar uma que o aceitasse por completo era um milagre. Aquela sorte não poderia ser paga com um simples “obrigado por tudo”. Era preciso celebrar com estilo.
Quanto ao resto do mundo… bem, ele podia sobreviver por alguns dias enquanto Bang Chan estivesse dando um pulinho nas águas australianas, se espreguiçando na areia e fazendo amor com seu marido. Ninguém sairia ferido se ele se ausentasse de seus “deveres” por um período tão curto. Além do mais, Changbin estaria de prontidão para cobri-lo, conforme o acordo. A humanidade não ficaria totalmente indefesa. Claro que ele não seria louco de abdicar de suas responsabilidades, por isso tratou de escalar um substituto competente. Porque, dessa vez, ele precisava estar presente. Era sua lua de mel. E ele não podia pisar na bola.
Com todos os preparativos concluídos, os recém-casados partiram para o litoral e se instalaram no resort paradisíaco que haviam reservado há meses. O quarto de luxo era confortável e espaçoso, com uma vista deslumbrante para a praia e espaço de sobra para comemorarem a união das mais variadas formas. O ambiente estava preparado para eles, com pétalas de rosas espalhadas e chocolates afrodisíacos sobre a cama. Mantendo a tradição, Bang Chan fez questão de carregar Jisung pela porta.
Eles estouraram um champanhe para inaugurar a celebração e, ao sentirem as bolhas na garganta, finalmente relaxaram os ombros. Era real. Eles tinham mesmo se casado e as alianças em seus dedos provavam isso.
Os sorrisos trocados logo viraram abraços acalorados, que por sua vez se tornaram roupas no chão e gemidos abafados. Quando terminaram a primeira de muitas sessões, Jisung beijou a ponta do nariz de Chan e murmurou no espaço entre eles:
— Mal posso acreditar que terei você só para mim pelos próximos sete dias.
Chan recolheu a mão do marido e beijou o dedo que ostentava a aliança.
— Pode apostar que sim, meu amor.
◈
A intenção de Chan era nobre ao prometer dedicação exclusiva ao marido. Não foi um juramento em voz alta nem um contrato assinado; foi um pacto silencioso, firmado em seu próprio coração. Por uma semana, ele queria que Jisung não precisasse dividi-lo com o resto do mundo.
Ele sabia muito bem o quanto magoava Jisung cada vez que furava um encontro, partia no meio da noite ou cancelava planos porque precisava acabar com a raça de algum monstro. Havia uma dívida antiga ali, uma que ele pretendia quitar integralmente na lua de mel. Portanto, nada de se distrair com o bem da humanidade. Isso podia esperar.
Chan só se esqueceu de um detalhe crucial: o mal não tira férias. Os criminosos não queriam saber se o Super Bang estava “de folga”. Na verdade, eles provavelmente adorariam a notícia.
Ignorando completamente o cronograma de Chan, lá estavam eles, em plena luz do dia, iniciando um arrastão na praça onde o casal almoçava. Seus sentidos de herói apitaram antes que o primeiro grito soasse, e um instinto elétrico percorreu seu corpo, ordenando que agisse. Mas ele o suprimiu. Com uma calma forçada, manteve-se sentado, entregou o dinheiro ao assaltante impaciente e o observou fugir com seu comparsa, fingindo ser apenas mais um turista enfrentando um mero inconveniente. Tudo para não perturbar sua lua de mel.
— Chan! — Jisung protestou, a voz baixa e urgente. — Você não devia...?
— Relaxe, amor. É a nossa lua de mel. Não vou deixar que nada nos interrompa.
— Mas eles vão fugir! Você não pode permitir isso!
— A polícia cuida deles — respondeu Chan, com uma calma que não combinava com a situação.
Jisung uniu as sobrancelhas, a preocupação turvando seus olhos.
— Han Jisung — Chan começou, o tom solene, segurando sua mão sobre a mesa. — Olhe para mim. Esta é a nossa lua de mel. Chega de interrupções. Pelo menos por agora, você merece ter toda a minha atenção.
— Mas...
— Sem "mas" — ele apertou suavemente a mão dele. — Eles vão sobreviver. As pessoas boas, quero dizer. Vai ficar tudo bem. Confie em mim.
Jisung permaneceu inquieto pelo resto da refeição. O peso de um egoísmo terrível se instalou em seu peito. Como podia reivindicar para si a atenção de um herói enquanto outros precisavam dele?
— Estou me sentindo culpado — admitiu, assim que saíram da praça de mãos dadas. — Me promete que vai intervir se algo assim acontecer de novo? Não quero que ninguém saia ferido por nossa causa.
— Você não tem motivo para se sentir culpado. Está tudo sob controle, foi um incidente isolado.
— Mesmo assim. Eu não me importaria se você precisasse se ausentar. Você sabe disso, não sabe?
Chan parou e o abraçou, inspirando fundo o cheiro de seus cabelos. Ele não podia prometer nada. Não podia contar sobre o pacto silencioso que fizera, pois tinha certeza de que Jisung ficaria furioso com a ideia de ser o motivo de alguém se machucar. Então, apenas assentiu contra o ombro dele, um gesto vago para tranquilizá-lo. A partir daquele momento, sua missão seria dupla: aproveitar a lua de mel e, ao mesmo tempo, blindar seu marido das desventuras do mundo.
◈
Manter a lua de mel a salvo do mal se mostrou uma missão em tempo integral. Sendo um ímã para problemas, Chan precisava operar em estado de alerta constante, usando seus supersentidos não para detectar mísseis, mas para desviar o casal de ladrões, assassinos e tipos suspeitos. Apenas nos dois primeiros dias, ele já se sentia exausto. Quando aquela praia tinha ficado tão insegura?
Talvez o problema fosse o excesso de exposição. Ficar dentro do resort, curtindo a piscina, parecia uma aposta mais segura. O que poderia dar errado?
Um estrondo, seguido de uma onda de gritos, respondeu à sua pergunta.
— O que aconteceu? — Jisung tentou sair da água, mas as mãos de Chan o seguraram firmemente no lugar, indo na contramão de todos os outros hóspedes que fugiam. — Precisamos ver se alguém se machucou!
— Calma, não deve ter sido nada — disse ele, tentando soar convincente.
— Amor! — protestou Jisung.
— Você não precisa se preocupar — Chan o prendeu entre os braços, que eram fortes o bastante para parar um trem, mas aconchegantes como um refúgio. — Eles vão resolver.
— "Eles" quem?
— A polícia. A defesa civil. E tenho certeza de que o herói local vai dar um jeito — inventou, torcendo para que o marido não notasse a ironia em sua voz.
— Ah, aqui também tem um herói? — perguntou Jisung, genuinamente curioso.
— Claro! Como você acha que as cidades sobrevivem sem mim?
— Bom, sendo assim... — concedeu ele, visivelmente aliviado, e enlaçou os braços no pescoço do marido. — Que bom que você não precisa cuidar de tudo o tempo todo.
Chan o beijou, um gesto carinhoso para selar a mentira, e os guiou para a extremidade oposta da piscina, sussurrando bobagens em seu ouvido para mantê-lo distraído.
Mais tarde, de volta ao quarto, Chan interceptou a mão de Jisung antes que ela alcançasse o controle remoto, impedindo-o de dar de cara com o noticiário sobre o desmoronamento do prédio ao lado. Não houve feridos, mas a polícia investigava um ato criminoso devido à presença de dinamites. Se Jisung ficasse sabendo, certamente insistiria para que ele ajudasse, e isso estava fora de cogitação.
— Que tal aquele restaurante de frutos do mar que você queria conhecer? — sugeriu, mudando de assunto com a agilidade de quem desvia de um raio.
— Ótima ideia! — concordou Jisung, correndo para se arrumar.
No meio do caminho, porém, Chan avistou a área isolada. Escombros bloqueavam a rua, e o trânsito estava um caos. Defesa civil, repórteres, curiosos... a passagem era impossível. Por sorte, Jisung estava distraído com as vitrines, e o herói aproveitou a brecha para puxá-lo para dentro de uma chocolateria.
— O que está fazendo? — Jisung riu, pego de surpresa.
— Te presenteando com seu doce favorito.
— Mas assim eu não vou ter fome para o jantar — resmungou, embora seus olhos já estivessem vidrados nas embalagens coloridas.
— Você come mais tarde — disse Chan, já pagando por uma caixa elegante. — Me deixe mimá-lo. Não é agora que eu tenho que me esforçar ainda mais para te merecer?
Jisung, sem argumentos, fez uma cara de quem se rendia e o beijou.
Quando saíram da loja com sacolas e picolés de chocolate, o plano do jantar já tinha sido esquecido. A nova ideia era voltar para o resort, pedir serviço de quarto e se banquetear a sós.
(É claro que essa brilhante sugestão partiu do nosso engenhoso herói, mas ele jamais deixaria Jisung desconfiar de suas verdadeiras intenções).
◈
Com a praia e a piscina riscadas da lista de locais seguros, Chan iniciou o dia seguinte com um novo plano: prender Jisung no quarto. O raciocínio era simples: se não dava para competir com o mundo do crime, o jeito era ser mais esperto que ele. Afinal, que lugar seria mais protegido que aquelas quatro paredes? Ali, nenhum bandido ou maluco poderia interrompê-los. Estariam isolados, blindados do caos. O plano não tinha como falhar.
A operação começou logo ao amanhecer. Chan acordou o marido não com um alarme, mas com beijos quentes e uma dedicação que lhe roubou o fôlego. Durante o café, alimentou-o na boca enquanto o mantinha em seu colo. Sem pressa, fizeram amor em uma banheira de espuma perfumada, à luz de velas, até a água esfriar. O objetivo era claro: exaurir Jisung com puro romance.
E funcionou. Antes mesmo do almoço, Jisung já sentia as pernas bambas.
— Você acordou com muita disposição hoje — suspirou ele, quando sentiu o marido o abraçando por trás no momento em que escolhia uma roupa.
— Não vista nada. Você não vai precisar — sussurrou Chan com malícia, beijando seu ombro nu.
— E o nosso mergulho para ver os corais?
— Podemos ver isso outra hora.
— Bang Chan! — Jisung riu, virando-se para encará-lo. — Você estava louco por esse passeio antes de virmos.
— É que encontrei algo bem mais interessante para fazer aqui.
— Não é possível. Você não é assim — disse ele, a desconfiança surgindo em seu olhar.
O herói engoliu em seco, temendo que sua estratégia fosse óbvia demais. Foi o olhar de Jisung que o salvou.
— Espera... você ainda está com medo dos ouriços?
Chan piscou, confuso por uma fração de segundo, antes de se lembrar da conversa que tiveram sobre os perigos da vida selvagem australiana. Ele havia prometido ficar de olho no marido, que, por ser "demasiado humano" e avoado, poderia facilmente se machucar. Era a desculpa perfeita.
— Ah, sim, amor! É isso! — exclamou ele, encenando sua melhor cara de aflição. — E se acontecer alguma coisa com você? Nossa lua de mel seria interrompida!
— Não vai acontecer nada! O lugar é seguro e você vai estar comigo. Sei que você não é o maior fã de água por causa dos seus poderes, mas não vamos enfrentar nenhum monstro marinho. É só um passeio!
Não tenha tanta certeza disso, pensou Chan, afastando rapidamente a imagem mental de algo sinistro emergindo das profundezas para estragar o passeio.
— E nós não podemos ficar trancados nesse quarto o dia inteiro — Jisung argumentou com calma, selando os lábios do marido. — Você planejou tudo com tanto cuidado, merece desfrutar dessas férias também.
— Mas meu plano sempre foi te agradar. E eu sei que você adora ficar de preguiça no quarto.
— É diferente, é nossa lua de mel. Mal tiramos fotos nos pontos turísticos. Como vamos montar um álbum só com fotos de quarto?
— Seria um álbum... íntimo — sugeriu ele, balançando as sobrancelhas.
— Nem pensar! — Jisung riu, as bochechas corando.
— Amor, você já está cansado — Chan insistiu, sua última cartada. — Não é bom mergulhar assim.
— Posso tomar um energético.
Chan soltou um suspiro frustrado. Estava sem argumentos.
— Você não vai me convencer a desistir! — declarou Jisung com um ar vitorioso, voltando-se para as roupas. — Anda logo! E nem adianta fazer essa carinha de cachorro abandonado!
E assim, o herói viu seu elaborado estratagema afundar. Outra tentativa colocaria em risco a confiança de Jisung, e ele não tinha coragem para confessar o verdadeiro motivo de sua apreensão. O jeito era ceder e garantir que, já que iriam, nada estragaria o dia deles.
— Tem certeza de que não quer entrar? — Jisung perguntou mais tarde, apoiado na borda do barco, o corpo já equipado para o mergulho. Ele olhava para Chan, que recuara no último instante.
— Tenho. Pode ir. Vou ficar te vigiando daqui e tirando fotos.
Uma sombra de decepção passou pelo rosto de Jisung, mas ele não insistiu e seguiu as instruções do instrutor. Doeu em Chan desapontá-lo, mas ele não podia voltar atrás.
O problema era a água. No momento em que ativasse seus poderes, sua pele se tornaria densa como ósmio e ele afundaria como uma estátua de chumbo. A memória da última vez ainda o assombrava: o peso esmagador do próprio corpo, a água invadindo seus pulmões e a visão turva de Changbin o içando do fundo do mar. Era uma experiência que ele não desejava repetir. O território aquático, definitivamente, não era sua jurisdição. Com o estresse de proteger Jisung transformando a lua de mel em um desafio de sobrevivência, seus poderes já estavam instáveis. Arriscar era impensável.
Do barco, seco e seguro, a visão sobre-humana de Chan perfurou a superfície do mar, permitindo que ele admirasse a barreira de corais. Um sorriso genuíno surgiu ao ver Jisung gesticulando, encantado com a vida marinha. Apesar de tudo, ele ficara feliz por ter proporcionado aquela memória. E em meio a toda a ansiedade, ele se permitiu sonhar com as próximas vezes que teriam momentos como aquele, só para eles.
Ele estava tão compenetrado nessa nova missão — a de garantir a felicidade de Jisung — que por um instante se esqueceu do mundo. Foi só por um segundo. Um momento de guarda baixa. E então, o som rasgou o ar. Um motor roncando, gritos cortando a brisa do mar. Dois jet skis passaram zunindo pelo barco.
Ameaça. Ele não pensou, apenas reagiu. Em um movimento fluido e violento, Chan se atirou na água. Seu único instinto era se colocar entre seu marido e o perigo. Em segundos, ele alcançou Jisung, envolvendo-o com o corpo, transformando-se em um escudo humano enquanto sua pele começava a enrijecer.
— Chan! Que susto! — exclamou Jisung, arrancando a máscara e tossindo com a água que invadiu sua boca.
Chan não o ouvia. Com os olhos varrendo o horizonte em busca de atiradores ou bombas, ele nem sentiu o peso extra se acumulando em seus membros, puxando-os para o fundo. Mas Jisung sentiu. Sentiu o abraço protetor se transformar em uma âncora, arrastando-o para as profundezas.
— Amor! Olha pra mim! — implorou ele, debatendo-se contra o aperto de aço. — Chan, sou eu! Você está nos afundando!
Foi o pânico na voz de Jisung, a sensação de seu corpo se debatendo não por ajuda, mas para escapar dele, que finalmente quebrou o transe. Um clarão de horror atravessou sua mente. Ele retraiu sua camada de ósmio de uma só vez e, com um impulso poderoso, levou os dois de volta à superfície e para a segurança do barco.
— Desculpa! Meu Deus, me desculpa — pediu ele, a voz rouca, enquanto ajudava um Jisung ofegante a se sentar.
Só quando voltaram à terra firme, envoltos em toalhas, foi que conseguiram conversar.
— O que aconteceu lá, Chan?
Ele não conseguia encarar Jisung.
— Eu não sei. Eu... entrei em pânico. Me desculpa por estragar tudo.
— Não estragou nada — disse Jisung, sua voz suave. Ele segurou o rosto de Chan, forçando-o a olhá-lo. Suas mãos ainda tremiam um pouco. — Você só me assustou. Você está bem?
Chan inspirou fundo, mas o ar não pareceu aliviar o peso em seu peito. A culpa o corroía. Ele, que jurara proteger Jisung do mundo, tinha se tornado o perigo. A imagem do marido se afogando em seus braços se repetia em sua mente, um veneno amargo. Como pôde ser assombrado pelo seu dever a ponto de quase tirar a vida do homem que amava?
— Estou bem. E você? Eu te machuquei? — perguntou, a voz carregada de tristeza.
— Não. Estou ótimo — respondeu Jisung, firme.
— Eu me sinto péssimo com isso.
— Foi um acidente. Vem, vamos caminhar e esquecer.
Eles andaram pela orla, tiraram fotos bobas de casal, compraram comida de rua e, aos poucos, o som das risadas de Jisung começou a abafar o barulho da culpa na mente de Chan.
A calmaria, no entanto, foi breve. Meia hora depois, a paranoia voltou a se infiltrar. Cada movimento brusco na multidão, cada grito de criança ou barulho de máquina, soava como um alarme em sua cabeça. Seus olhos rastreavam a praia em busca de ameaças que não existiam.
Foi o toque suave de Jisung em seu braço que o ancorou de volta à realidade, silenciando a tempestade de perigos imaginários.
— Por que você está tão tenso? — perguntou ele, a voz gentil.
— Desculpe. Eu não...
— Tem alguma coisa te incomodando? Podemos voltar para o hotel.
— Não, está tudo bem. Sou eu. Estou sendo paranoico.
— Você lida com o perigo o tempo todo. É normal que se sinta assim.
— Mas eu não queria estragar a nossa lua de mel! — a frustração escapou em sua voz. — Era para ser um refúgio, e em vez disso, eu trouxe todo o meu caos comigo.
Ele mal percebeu que, na ânsia de proteger a lua de mel, estava se ausentando dela, perdido em sua própria ansiedade.
— Chan, olhe para mim. — Jisung o puxou pela mão, forçando-o a parar. — Você não está estragando nada. Estar aqui com você, exatamente assim, é o melhor momento da minha vida. Eu só quero que você aproveite também. Vamos deixar o resto do mundo lá fora, só por um tempo, e apenas ficar juntos.
Chan confiou em seu marido, e os dois voltaram para o quarto. Ansioso para dissipar a tensão, Jisung fez Chan tirar a camiseta e o deitou de bruços, iniciando uma massagem relaxante.
— Isso é bom — murmurou Chan, de olhos fechados.
— O quê? A massagem ou o massageador? — brincou Jisung, deixando um beijo em sua nuca.
— Hmm... — Chan se virou num movimento rápido, capturando Jisung em um abraço. — Você, meu amor.
As risadas de Jisung foram abafadas quando o pescoço dele foi atacado por beijos. A sessão teria continuado por todo o seu corpo, se não fossem as batidas na porta.
— Serviço de quarto!
Serviço de quarto? Mas eles não haviam pedido nada…
O instinto de Chan assumiu o controle. Em um segundo, ele estava de pé, cauteloso, a pele de seus braços já se transformando em um metal prateado. Ele viu a maçaneta girar. A porta se abriu minimamente, e o cano de uma arma surgiu na fresta.
No mesmo instante, dois sons explodiram em seus ouvidos: o estilhaçar dos vidros da varanda e o grito aterrorizado de Jisung.
Chan se virou a tempo de ver um pesadelo de metal e vidro. Garras mecânicas estraçalharam a sacada e se fecharam ao redor de Jisung. O grito dele foi cortado pelo som de seu corpo sendo violentamente arrancado do quarto. Chan avançou, mas o invasor da porta já estava dentro, bloqueando seu caminho.
Tiros ecoaram. As balas ricochetearam inofensivamente em seu peito agora metálico. O atirador mascarado era apenas uma distração, ele sabia disso.
— Eu não tenho tempo a perder com você — rosnou Chan, e com um único golpe, arremessou o homem para o outro lado do corredor.
Ele correu para a varanda destruída. Abaixo, uma máquina gigantesca de aparência aracnídea se afastava, carregando Jisung em suas garras. Aquela tecnologia, a forma grotesca... só podia ser um homem.
Doutor Kim.
Seu inimigo número um. O cientista louco que nutria uma fascinação doentia por sua pele de ósmio desde os dias em que trabalharam juntos. Kim via seu poder não como um dom, mas como uma tecnologia a ser roubada, copiada e vendida. E agora, depois de inúmeras batalhas e geringonças horríveis, o vilão finalmente tinha encontrado sua fraqueza. Ele não viera atrás de Chan. Ele viera atrás de Jisung para usá-lo como isca.
Com Jisung como refém, a força bruta estava fora de questão. Um soco mal calculado e ele poderia ferir a pessoa que mais amava.
Chan saltou da varanda, aterrissando com um impacto que rachou o pavimento. Ele correu atrás da forma aracnídea, que se movia lentamente pela rua, o chão tremendo a cada passo pesado. Ao perceber a aproximação, a máquina abriu fogo. Raios laser cortaram o ar, forçando-o a ziguezaguear, enquanto mísseis de curto alcance eram desviados por ele em direção ao mar, longe dos prédios.
Metal líquido se formou em sua palma, solidificando-se em esferas densas que ele arremessou com precisão cirúrgica contra as comportas de mísseis da máquina. O som do impacto ecoou pela rua, seguido por explosões abafadas dentro da carcaça do robô. A criatura de metal sacolejou, e Chan aproveitou a brecha para escalá-la.
Ele avistou Jisung, preso e consciente em uma das garras, e se lançou em sua direção. Um soco metálico em suas costas o interrompeu, atirando-o de volta para o asfalto com uma força brutal.
— Chan! — o grito desesperado de Jisung veio de cima.
Ele se levantou, a tempo de ver o responsável: o próprio Doutor Kim, no topo da aranha, segurando uma bazuca.
— Renda-se, Super Bang! Ou seu marido sofre as consequências! — a voz do vilão era imperiosa e distorcida por um megafone.
— Você não vai encostar um dedo nele! — retrucou Chan, avançando novamente.
Então, o impensável aconteceu. Com um movimento sádico, a garra se projetou para trás e arremessou Jisung em um arco mortal na direção do mar.
Não houve escolha. Não houve hesitação. No instante em que Jisung cortou o ar, a armadura de ósmio de Chan se dissolveu. O herói deu lugar ao marido, e tudo o que importava era a velocidade. Seus músculos queimavam enquanto ele corria pela areia. Ele não conseguiria pegá-lo a tempo, mas esperava que a água amortecesse o impacto.
Ele mergulhou, a água salgada ardendo em seus olhos, no exato momento em que o corpo de Jisung atingiu a superfície. Mas o perigo vinha de cima. Um assobio agudo. Mísseis. Instintivamente, um escudo de metal brotou de seu braço, interceptando as explosões que iluminaram o fundo do mar.
A escuridão da água o engoliu, e o peso familiar começou a puxá-lo para o abismo. O pânico arranhou sua garganta, mas um rosto suplantou o medo: Jisung. Não era hora de falhar. Com um esforço de vontade, Chan dispersou cada grama de ósmio de sua pele, tornando-se leve o suficiente para nadar com força até seu marido e puxá-lo para a superfície caótica.
— Espero que esse mergulho noturno não seja parte do pacote — brincou Chan, o alívio inundando seu peito ao ver Jisung tossir e cuspir água.
— Se for, quero reembolso — respondeu ele, a voz rouca e trêmula pelo frio. — Vai. Eu me viro. Você tem que acabar com ele.
Abandoná-lo ali, no mar gelado, era impensável. Mas antes que Chan pudesse argumentar, a máquina aracnídea chegou à beira da praia, e os próximos mísseis foram lançados. Uma parede de água, impulsionada pela explosão, ergueu-se sobre eles. A onda os esmagou, separando-os em um turbilhão de espuma e escuridão.
Lutar sem sua armadura era como lutar nu. Cada onda era um soco, cada segundo uma batalha contra seu próprio peso, e no meio de tudo isso, havia Jisung, terrivelmente humano, precisando de proteção. Ah, aquela lua de mel definitivamente daria o que falar!
Impaciente, Chan fez metal brotar de sua mão, estendendo-o em um bastão sólido. Com um grito de esforço, ele o cravou em uma rocha submersa, criando uma âncora no meio do caos. Puxou Jisung para junto de si, que se agarrou a ele com a força do desespero.
— Consegue se segurar aqui? — perguntou, mas a resposta era óbvia. As ondas quebravam violentamente contra a pedra, e sem seu aperto, Jisung seria varrido.
— Preciso de algo para me agarrar!
Entendendo na hora, Chan tocou a rocha e, em segundos, uma estrutura de metal cresceu a partir dela, formando um casulo protetor ao redor de Jisung, com barras para ele se segurar.
— Fique firme. Eu não demoro — prometeu, os olhos fixos nos do marido, antes de se lançar de volta na água revolta.
Chan nadou até a praia, usando o impulso das ondas para chegar mais rápido. No momento em que seus pés tocaram a areia, seu corpo se solidificou em ósmio puro. Cada passo era um trovão. Ele não zombou da máquina; ele a ignorou como um obstáculo irrelevante. O Doutor Kim, em pânico, disparou mais mísseis, mas as explosões se dissiparam inofensivamente contra seu peito. O primeiro soco de Chan foi um terremoto, arrancando uma das pernas da máquina e fazendo o gigante de metal tombar. O segundo atravessou o chassi frontal como se fosse papelão. A explosão que se seguiu foi o suspiro final da geringonça.
O Doutor Kim tentou fugir dos destroços, mas Chan já estava sobre ele, prendendo-o ao chão com algemas de metal que brotaram de suas mãos.
As autoridades finalmente chegaram. Ignorando os chamados dos policiais, Chan apenas apontou para o vilão imobilizado e exigiu um barco inflável. Deixando seu inimigo para a justiça, ele correu para buscar Jisung, que tremia de frio e medo, encolhido na rocha escura.
— Sinto muito, querido — disse ele, a voz embargada, assim que o acolheu em seus braços em terra firme. — Eu tentei de tudo para que essa lua de mel fosse perfeita, mas você se casou com o pior cara do mundo.
— Está brincando? — Jisung olhou para ele, os olhos brilhando. — Eu seria um idiota se não tivesse me casado com você. Você é a melhor pessoa que eu já conheci. A melhor do mundo inteiro.
— Mas eu sempre vou arrastar esse caos para a sua vida — insistiu Chan, a culpa pesando em suas palavras enquanto o enrolava cuidadosamente em um cobertor, como se ele fosse a coisa mais frágil e preciosa do universo. — Você merece alguém menos... complicado.
— Mas aí não seria você — alegou Jisung, e apesar do cabelo grudado na testa e dos lábios quase roxos de frio, seu olhar era inabalável. — Eu sabia exatamente o que estava aceitando. Eu abracei o caos no momento em que coloquei esta aliança. — Ele ergueu a mão esquerda. — Você acha que eu trocaria isso por uma noite tranquila? Nunca.
Chan riu, um som que era meio soluço, e o apertou em seus braços.
— O que eu fiz para merecer você? — suspirou.
— Você salvou o meu mundo, muitas vezes — respondeu Jisung com simplicidade, e o beijou. — E agora... que história é essa de que você "tentou de tudo" para não sermos interrompidos? Bang Chan, o que você andou aprontando?
O herói sorriu, um sorriso culpado e aliviado. Essa era a parte do caos que ele podia, e iria, manter só para si.
— Nada, amor. Força de expressão. Vamos voltar para o hotel?
E com um movimento, ele puxou o cobertor sobre a cabeça de Jisung, erguendo-o por cima do ombro para carregá-lo de volta, não mais como um noivo em uma lua de mel, mas como um herói levando seu porto seguro para casa.
