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A escola é um lugar hostil e perigoso, principalmente quando se está no ensino médio. Diversos concorrentes em potencial brigando sobre quem é melhor ou pior em determinada matéria, corredores repletos de jovens exaustos, sonolentos e agressivos, grupinhos separados em pessoas de determinados grupos, bullying, fofocas, entre diversas outras problemáticas. O fato é que, sendo um estudante de ensino médio, é impossível — ou pelo menos muito difícil — ter paz.
Park Chanyeol sempre foi uma criança sociável. Até a segunda fase do ensino fundamental, costumava ter amigos para dar e vender. Ele era, inclusive, o terror da maioria dos seus professores. Era “Chanyeol, para de conversar” de um lado, “Chanyeol, para de passar bilhetinho” de outro, “Chanyeol, para de mandar mensagem” para todos os lados, sempre insistindo para o rapaz alto de cabelos cacheadinhos parasse de tagarelar pelo menos um pouquinho. Como o Yeol criança mesmo costumava falar: sentia muito, mas não podia evitar de ser tão popular.
O problema foi quando acabou o fundamental e precisou mudar de escola para fazer o ensino médio. Veja só, se já é difícil para uma criança pequena se adaptar a uma nova escola, a um novo núcleo de pessoas, novos professores, e tudo diferente, quem dirá para um adolescente. Adolescentes são cheios de hormônios, confusões mentais, espinhas, cabelos bagunçados, suor, esquisitices… Era sim, bem diferente do que mudar de escola quando ainda se é pequeno. E o Park sentiu muito claramente na pele a diferença naquele primeiro dia do primeiro ano do médio, onde tudo que recebeu de seus colegas de classe foram olhares tortos e foras.
Não foi por falta de tentativa que ficou solitário. Sempre tentava se enfiar no meio de rodinhas, puxar assuntos com pessoas sozinhas, entrar em clubinhos… E nada. Vez ou outra considerava até que o problema era ele mesmo. Será que era seu cabelo que era chamativo demais? Chanyeol sempre cuidava de seus cachinhos acastanhados e deixava eles arrumadinhos na medida do possível, mesmo que eles sempre acabassem ficando bagunçados demais. Será que era porque tinha 1,85m de altura e ainda crescia mais? Não achava que ser alto era um problema tão grande assim. Será que era porque falava demais? O Park também sabia ficar caladinho, por mais que fosse difícil!
Ficava louquinho sempre que começava a pensar sobre o que seus colegas achavam de si. Foi por isso que desistiu de tentar se encaixar no que queriam dele, e continuou sendo quem era. Mesmo que… Sozinho.
Mentira. Ficou sozinho por mais ou menos um mês, até fazer amizade com Byun Baekhyun. O baixinho de cabelo azul era da turma “A” enquanto Chanyeol era da turma “D”. Não mediu esforços para insistir na coordenação para mudar de turma para o “A”, e dessa forma ficar junto do novo amigo. Sentiu-se bem acolhido na nova sala, e conseguiu se encaixar no grupinho do Byun, o qual era composto por tagarelas igual ao Park e que o puxavam para todos os cantos, nunca mais deixando o grandão sozinho. Além disso, foi questão de meses para os dois ganharem o título de melhores amigos, dupla dinâmica, Tico e Teco, entre outros…
Agora, no último ano, Chanyeol já estava acostumado com o caos que era o ensino médio. Já estava acostumado até mesmo com as zoações, seja falando de suas pernas — as pernocas quilométricas do Park eram uma gracinha, e quem discordar tem mau gosto, ok? — seja pelos seus cabelos que tinham “vida própria” — palavras do próprio —, seja até mesmo pelo jeito que ria. Sabia que naquele lugar, qualquer coisa que fizesse poderia virar alvo de zoação, e era por isso que pisava em ovos antes de falar qualquer coisa no meio do grupinho que andava com Baekhyun e consigo. Não somente com eles, na verdade, em qualquer grupo. Até mesmo com o próprio melhor amigo tinha medo de falar demais. O Park sempre repetia em sua cabeça: não é paranóia, é prezar pela sua reputação…
Contudo, quem falou que o segundo garoto mais tagarela da sala conseguia segurar sua língua? No meio de uma rodinha de conversa, num dia como outro qualquer, acabou abrindo o jogo e revelando, sem nem perceber, seu maior segredo: a maldita “boca virgem”.
Nunca ter beijado uma boca não deveria ser um tabu tão grande. Quer dizer, tem pessoas que simplesmente não gostam. Não era o caso de Chanyeol, mas tinha sim. Sempre iria usar esse argumento. Não deveria ser tão absurdo o rapaz altão nunca ter encostado seus lábios nos lábios de outro jovem. Não deveria trazer tanta indignação por parte de seus colegas ele ter dezessete anos e nunca ter trocado um selinho sequer em um amigo ou vizinho.
O problema é que era sim. Na mente de um adolescente irritante, aquilo era sim um tabu, um absurdo, motivo de indignação, adicionado a vários adjetivos de intensidade usados de forma errônea. Lembrava como ninguém do quanto foi zombado naquele dia. Lembrava de ter surgido vários apelidos como “bevezão”, “neném”, “certinho” e pôde escutar um “perdedor” de alguém, e ainda iria descobrir quem foi para lhe dar uns belos de uns cascudos.
Poxa vida, qual era o problema de ser “BV”? Não é como se namorar fosse tudo na vida! Chanyeol era um bom menino, tinha boas notas, era sociável, tinha vários amigos, tocava violão e cantava bonitinho, fazia natação, ajudava a mãe no trabalho e era gentil com os mais velhos! Mas mesmo assim, automaticamente virava um perdedor por nunca ter trocado saliva com um coleguinha? Ah, tenha santa paciência!
Não demorou nem um dia para toda sua sala saber de seu segredinho inocente, e rapidinho virou “a coisa de Chanyeol”. É comum os adolescentes darem coisas para designar cada pessoa. Por exemplo, a coisa de Baekhyun era ser “o tagarela” e por um tempo, a coisa de Chanyeol era ser “o amigo do tagarela”. Provavelmente todos na sala tinham uma coisa. Tinha a menina do suquinho de caixa, o menino dos 10 graus de miopia, a pessoa do boné vermelho, o repetente, ademais uma seleção gigantesca de características muito específicas para resumir pessoas em cada uma delas, colocando cada jovem na sala em caixinhas. Chanyeol odiava aquilo, e passou a odiar mais ainda quando “sua coisa” fora promovida para ser “o BV da sala”.
Não que tivesse vergonha, longe disso! Apenas ficou indignado com o fato de que algo tão bobo poderia virar motivo de zombaria por tanto tempo. E se fosse alguém mais tímido? Como lidaria com aquilo? Sorte de Chanyeol por ser bom de lábia e saber responder sempre que lhe apareciam provocações bobas acerca do paradeiro de sua linda boquinha. Era bevêzinho com orgulho sim! Não tinha vergonha de dizer ao mundo todo que estava esperando o ser humaninho certo para tirar as teias dos seus lábios.
Com esse pensamento, o Park teve a brilhante — para não dizer o contrário — ideia de criar um clube para agrupar todos os demais BV's de sua escola, e assim, tomar voz e mostrar para todos que também eram pessoas que mereciam respeito! Estava convicto de que o respeito para com os Bocas Virgens eram uma problemática válida e importante. Chanyeol já se imaginava discursando na frente da escola toda sobre como tinha alcançado a paz e a felicidade nos corredores com protestos pacíficos contra o bullying com BV's. “Quanta baboseira!” Baekhyun lhe falou quando ouviu sua ideia. Chegou até a acreditar que era brincadeirinha dele, uma mentirinha boba. Seu sorriso murchou quando ele explicou que era de verdade. O rapaz podia ser sonhador ao extremo vez ou outra, e agora, segundo o Byun, estava exagerando.
— Chanyeol, você tá passando vergonha. — Baekhyun disse, com os braços cruzados, uma sobrancelha arqueada e rindo em descrença, enquanto seguia o melhor amigo que colava nos corredores os panfletos da iniciação do tal Clube dos Nunca Beijados, como o Park denominou.
— Não quero nem saber. Eu estou lutando pelo meu lugar na sociedade! — exclamou dramaticamente, arrancando uma gargalhada expressiva do amigo.
— Chany, pelo amor… Se você quer tanto assim resolver isso, arranja alguém pra beijar, sei lá. Eu posso até tirar o seu BV de uma vez, sabe que eu não tenho frescura com isso.
— Ew, beijar essa sua boca fedorenta? Nem morto e enterrado! — reclamou, fazendo uma careta só de pensar na possibilidade de beijar o melhor amigo. Eram muito amigos, seria no mínimo esquisito e desconfortável. — E eu já te falei, eu tô esperando a pessoa certa. Não tô fazendo isso pra achar alguém pra beijar. Tô fazendo isso porque quero ser respeitado sendo BV ou não. — o tom dramático se fazia presente novamente nas palavras, enquanto o último panfleto era colocado na parede.
— O teu discurso seria muito emocionante se isso fosse um problema de verdade. — moveu a cabeça de um lado para o outro sinalizando decepção. — É sério, Yeol, se isso te deixa tão inseguro, só beija alguém de uma vez. Vão parar de falar sobre quando você beijar alguém. É só se gabar um pouquinho e tá tudo resolvido. — argumentou.
— Você sabe mais que ninguém a minha posição a respeito disso. Eu quero que meu primeiro beijo seja especial… — fez biquinho, colando mais cartazes para todos os lados. Nem ao menos pensava no quão ridículo aquilo poderia parecer para seus colegas. — Eu quero protestar pelo meu direito de não querer beijar pessoas aleatoriamente!
— Vem cá, por que você não vai atrás do clube de debate pra entrar? — deu a ideia. — Ou então, sei lá, o clube do meio ambiente. Cê pode protestar por uma floresta, contra o sofrimento animal… Você tem o espírito pra a coisa, mas decidiu protestar contra a causa errada, Yeol. Esse clube é furada, tô falando sério.
— Ah, Baekhyun, me deixa quieto! — exclamou, todo emburrado. — O meu clube vai ser um sucesso, você vai ver só. Eu vou lotar aquela sala e nós vamos vencer todos vocês beijadores insuportáveis! — o Byun deu um tapa na própria testa, perguntando-se o porquê de ter escolhido logo Chanyeol para ser seu melhor amigo. Deveria ter cuspido na cruz numa vida passada, francamente.
— Pode crer, docinho. Vai ser um sucesso sim. — deu alguns tapinhas nas costas do garoto, parando de tentar mudar sua mente por ali, antes de seguirem para a sala de aula. Seria um longo dia pela frente, mas Chanyeol estava confiando, sim, que seria um sucesso.
[...]
Não foi.
Chanyeol chegou cedo durante a tarde, prontinho para o início de seu clube, e fazia tempos que não se sentia tão empolgado para algo como estava no momento. Ouviu vários colegas rindo de seus panfletos, mas não iria desanimar! Tinha certeza de que conseguiria fazer vários amigos e poderia levantar pelo menos um pouco sua autoestima desde que o selecionaram para zombar por conta de sua maldita boca virgem. Rapidinho ele arrumou a sala e ficou esperando, sentado no chão em posição de borboleta, mexendo as pernas em ansiedade, quase sem perceber.
Seu primo do oitavo ano foi a primeira pessoa a comparecer e escrever “Kim Jongin” na lista, com uma caligrafia de dar inveja. O Park precisou se esforçar demais para não gritar e comemorar de ter seu primeiro membro do clube, mesmo que fosse alguém da sua família — e que provavelmente só entrou por pena. Seguiu-se uma conversa um tanto constrangedora, clássica de pessoas de idades diferentes, mas não exatamente desconfortável. Apenas uns “vamos esperar mais um pouco” e uns “uhum” aqui e ali. Chanyeol estava morrendo de medo que ninguém mais aparecesse, ainda mais agora que tinha um priminho mais novo para impressionar — passar uma boa impressão para familiares mais novos é coisa séria.
Quinze minutos se passaram do horário marcado, e nada de alguém mais comparecer. Quinze minutos viraram meia hora, que viraram quarenta minutos, que viraram cinquenta e — mesmo que parecesse mais uma eternidade —, viraram uma hora. O Park tinha visto muita gente falar sobre seu clube, havia vários para zombar de sua cara, mas ninguém para entrar e fazer parte? Sinceramente, estava com ódio! Muito, muito ódio!
— Ai, fala sério! Será que eu nunca vou ser levado a sério nessa porcaria de escola? — resmungou sozinho, e Jongin deu uma risada. — É a primeira vez que me esforço pra fazer algo extra por aqui e sou tratado desse jeito!
— É claro que ninguém vai te levar a sério. Esse é o Clube dos Nunca Beijados e você tá no terceiro ano. — o garoto de cabelos pretos riu, arqueando uma sobrancelha e cruzando os braços.
— Mas você está aqui! Então não posso ser tão bobo assim… — coçou a nuca, meio sem graça e um pouco ofendido.
— E eu tenho 13 anos. — riu de forma debochada. Perguntou-se: por que pessoas da idade de Jongin gostavam tanto de agir daquela forma? — Mas pra falar a verdade, eu nem sou BV. Eu tô aqui só porque fiquei curioso sobre as coisas estranhas que você faz no colégio. — ouch, veio como um tapa no meio do rostinho fofo de Chanyeol. Nunca tinha sido tão ofendido assim por uma criança.
— Ah, como você é debochadinho, hein, senhor Kim Jongin. Você não tinha uma Hot Wheels pra brincar, não? Tinha que me atazanar? — revirou os olhos, soltando-se um pouco com seu primo com quem não costumava conversar tanto.
— Se eu não estivesse aqui, você estaria solitário. — deu de ombros. — E eu não brinco mais de Hot Wheels há uns três anos, ok? — soou ofendido também, e discretamente, o Park riu dele. — Pelo menos eu não sou um velho se preocupando com coisa de criança.
— Gostaria que você parasse de me ofender. — tentou soar sério, mas o beicinho em seus lábios automaticamente o fazia parecer fofo, e Jongin não tinha nem sequer a opção de não rir do Park. Precisava confessar pelo menos para si mesmo que era um pouquinho cômico, sim, essa preocupação toda sobre ser ou não BV. Sentiu-se, pela primeira vez, um pouco bobo pela ideia que teve. — Só eu sei o quanto eu sou zoado desde que isso foi descoberto.
— Mas não seria mais fácil só beijar alguém? — o garoto em questão estava verdadeiramente confuso. A situação era tão complicada assim, afinal?
— Essa é a questão! Eu posso não querer beijar ninguém! — usou o mesmo argumento de sempre.
— Hm. — encarou-o em desconfiança. — E você realmente não quer?
— Não é o meu caso, mas poderia ser. — e o mais novo desatou em risadas. Riu, riu, riu tanto que sentiu a própria barriga doer. De verdade, não podia perder seu primo de vista nem tão cedo, porque esse tipo de coisa não via nem sequer em filmes. Precisava de entretenimento, e Park Chanyeol era o circo inteirinho. — O que é tão engraçado?
— Você. — proferiu ofegante, meio lerdo enquanto tentava se acalmar da crise de risos. — Ai, sério… Essa não era pra agora, juro.
Chanyeol queria rir junto, mas seu orgulho o impedia. Lá no fundo sabia que sua situação era um pouquinho cômica. Mas estava focado em seu objetivo! E se o clube não daria certo, procuraria por respeito sozinho. Quando procurou uma resposta bem malcriada para dar ao garoto mais novo, ouviu alguns barulhos de risada somadas a resmungos, e quando foi checar o que era, viu um rapaz ser empurrado para atravessar a porta da sala. Olhou por alguns instantes pensando de onde conhecia o rapaz baixinho, mas nada veio à sua mente além da sensação de estar diante de alguém familiar. Possivelmente, só o reconhecia dos corredores mesmo — sentia que saberia se conhecesse de perto um garoto tão bonito. Prestou bastante atenção nos amigos do garoto, que riam enquanto faziam questão de lhe forçar para dentro da sala.
— Vai, Soo, é o único clube que você se encaixa! Entra aí e mostra que você tem orgulho de ser BV. — a voz era familiar o bastante para que Chanyeol reconhecesse que era Kim Jongdae de sua antiga sala.
— Nossa, vocês são os piores! Eu odeio cada um de vocês! Quando eu sair daqui, vocês nunca mais vão ver a minha cara! — o rapaz baixinho aparentava revoltado, e Chanyeol e Jongin apenas observavam a cena, vez ou outra trocando olhares confusos.
— Hyung, você vai nos agradecer quando sair daqui beijado. — outro garoto que não reconheceu falou, e simulou uma pegação só para constranger o colega.
— Sehun, tu é um bostinha. Odeio você. — resmungou, enquanto os dois continuavam empurrando ele para dentro da sala. Depois de ouvir o nome, lembrou de Oh Sehun, mais um colega da antiga turma.
— Então, Chanyeol, faz tempo que não nos vemos, né? — Jongdae proferiu, todo risonho. — Viemos só entregar o Kyungsoo pra ele participar do seu clube. Ele se identifica e tá aqui pra aprender a beijar também. — falou, rindo a cada segundo, sem conseguir levar a sério qualquer uma das palavras que dizia. — Boa sorte, Soo! Depois fala pra a gente como que foi a aula de beijo!
O rapaz foi deixado ali e a porta foi fechada. A expressão dele era um misto de uma “cara de tacho” com uma feição nervosa, o Park percebeu pelos trejeitos do rapaz ao coçar a nuca e deixar as mãos inquietas. Chanyeol olhou-o de cima abaixo, em completo silêncio, esperando que ele falasse alguma coisa. Não fazia ideia do que poderia falar naquele momento, depois da ceninha dos amigos do garoto baixinho. Estava tão sem graça quanto ele.
— Então… — coçou a nuca. — Era brincadeira deles, eu não vou entrar pro clube. Desculpa por… Isso. — sua voz era melodiosa e soava calma, diferentemente de quando estava gritando com os amigos. — Eu já vou indo. — e seguiu até a porta, mas quando abriu, deu de cara com os dois piores capetas de sua vida. — Vocês não vão largar do meu pé nunca não? Que desgraça! — a pose calminha não durou nem dois segundos depois de ver as duas pestes, como o próprio Kyungsoo chamava os amigos quando eles aprontavam.
— Você vai participar do clube, sim! Senão a gente conta pro Chanyeol aquele negócio que você falou dele. — Sehun sorriu ladino.
— Tô indo já. — deu dedo para eles, bateu a porta e voltou para a sala, logo sentou-se no chão, em frente a Chanyeol e Jongin, que estavam lado a lado. O que deveria ser tão assustador que o fez mudar de ideia tão rápido? Tinha certeza que aquele rapaz fazia graça de sua cara igual a todo o resto! Iria tirar umas belas satisfações com ele.
— Então… — Chanyeol coçou a garganta, uma feição séria no rosto. Tentou segurar, mas não conseguia. O Park era um garoto curioso. Não conseguia escutar alguma coisa do tipo e simplesmente não perguntar. — O que você falou de mim?
— Besteira deles. — agiu como se não fosse nada, dando de ombros. Mas para o grandão, era sim. — O que nós fazemos de bom nesse clube? — mudou de assunto.
— Não temos segredos, é a primeira regra. — inventou na hora. — Então agora você me fala o que você falou sobre mim. — soou seco, e seus olhos brilhantes estavam fixos no rapaz à sua frente.
— Ah, vai… É invenção desses idiotas. — soprou uma risada nervosa, e Chanyeol franziu o cenho. — Só pra me encher o saco.
— Uhum. — finalizou, sem realmente acreditar. Perguntaria mais uma vez em breve. — Bom, já nos conhecemos? Lembro de Jongdae e Sehun, já você…
— Nós já estudamos juntos, Chanyeol. — deu uma risadinha simpática, e o mais alto teve que se segurar muito para não achá-lo bonitinho. Que sorriso mais fofo! Seus lábios formavam um perfeito coração quando sorria. No entanto, Chanyeol tinha uma missão. Foco! — Por um mês no primeiro ano, mas não é de lá que eu conheço você. — o Park arqueou uma sobrancelha, pensando sobre isso confusamente. Conheciam-se de outro lugar? — Éramos da mesma sala no quinto ano, mas você tinha muitos amigos e eu era muito tímido. Não conversávamos muito, mas eu lembro de você. Sou Do Kyungsoo, a propósito. Eu era o esquisitinho que ficava sozinho e só usava preto. — apresentou-se por fim, e o outro precisou pensar um bom bocado para lembrar. Sabia que ele era familiar!
— Eu lembro de você! — exclamou, animadamente, quando a memória lhe veio à mente. — Lembro de ter tentado ser seu amigo, mas você não falava muito, então não consegui.
— Eu era bem tímido. Eu te achava legal pra caramba, só não sabia como conversar contigo. — coçou a nuca e riu um tanto quanto constrangido. — Mas trabalhei um pouco minha timidez na terapia e agora eu sou mais solto. Acho que agora dá pra a gente se conhecer melhor, não?
— Com certeza! — Chanyeol sorriu animado. Nunca negava fazer amizades novas, ficou feliz em ouvir tudo o que ele disse. — Eu também te achava legal. Queria muito me aproximar. Eu adorava que você vinha pra escola de patinete! Eu achava super descolado.
— Mesmo? Falavam que era esquisito, mas eu achava mais legal do que andar.
— No fim, o clube é mesmo pra achar alguém pra beijar. Já estão até de papo furado. — Jongin interrompeu, depois de um certo tempo calado. Revirou seus olhos e se levantou. — Vou me mandar. Boa sorte pra vocês, tentem não bater os dentes quando forem se beijar.
— O quê? Não é nada disso! — o mais alto se defendeu, sentindo as orelhas queimarem em pura vergonha ao ter as orbes escuras do Do lhe encarando após o comentário indiscreto do primo. — Volta aqui, espera!
— Eu é que não vou ficar de vela aqui! — o garoto proferiu em voz alta, antes de se retirar do recinto e deixar ali um Chanyeol todo vermelho e todo atrapalhado e um Kyungsoo todo risonho. — Tchau, Hyung! Tchau, futuro peguete do Hyung!
— Então o intuito do clube era servir de Tinder? — deu uma gargalhada, divertindo-se com a visão do mais alto todo envergonhado, tentando se explicar. — Se nós somos os únicos membros agora, vamos ter que dar um jeito nós dois, não é? — brincou, enquanto prestava atenção no Park, que no momento lhe encarava sem reação, os olhos gigantes piscando algumas vezes como se não soubesse o que fazer.
— Eu não criei o clube pra pegar ninguém. — proferiu cabisbaixo. — Era só pra achar mais pessoas como eu e eu não me sentir tão envergonhado com isso. — confessou, falando baixinho. Estava frustrado por ter dado meio errado. — Vou fechar o clube e só ter um primeiro beijo constrangedor e esquisito com alguém que eu nem gosto. Ninguém vai me levar a sério, mesmo.
Kyungsoo não era a melhor pessoa para lidar com os sentimentos alheios, mas sentiu um pouquinho de dó de Chanyeol. Era só isso? Ele só tinha vergonha de querer esperar por alguém que gosta? Sentiu uma coisinha no peito, achou aquilo uma gracinha. O Do era um pouco diferente do Park, considerando que até agora não tinha beijado, mas não por falta de chance, e sim porque costumava fugir quando sentia que se interessava por alguém, mesmo que fosse recíproco. No entanto, secretamente, compartilhava um pouco desse dócil desejo de esperar por alguém que gosta. Olhou o grandão sentado sozinho mexendo no celular, e sentou-se mais perto.
— Não é estranho ser BV na nossa idade. A galera que faz tempestade num copo d'água. — riu levemente, atraindo a atenção alheia. — Fica triste não. Tu acha uma menina legal até o fim do ano.
— Menino. — corrigiu, sem filtro algum. Ficou um pouco constrangido pela falta de resposta e acabou se arrependendo, mas tentou não pensar muito nisso. Kyungsoo ficou um pouco chocado, mas gostou de saber.
— Isso. Você acha algum menino legal até o fim do ano.
— Você também. — pensou um pouco no que tinha dito, e se arrependeu amargamente na mesma hora ao receber um olhar confuso do mais baixo. — Q-quer dizer, você acha uma menina legal… Ou menino, não sei… Ou os dois. — engoliu em seco, arregalando os olhos e percebendo que falava besteira de novo. O Do cruzou os braços, observando até onde aquilo iria. — Q-quer dizer, você não vai ficar com os dois ao mesmo tempo. Ou vai! Eu não tenho nada contra, mas aí vai de você, eu não sei quais são as suas preferências… Eu… Quer dizer… Talvez você queira mas talvez não. Quer dizer, você pode querer um só… Mas não sei o que você… — bufou, respirando fundo. — Nossa, que ódio! — mentalmente xingou a si mesmo em todos os idiomas existentes quando viu Kyungsoo rindo, e suspirou nervosamente. — O que eu quero dizer é que você também pode achar alguém até o fim do ano.
— Eu tinha entendido, Chanyeol. — deu uma risada, achando graça do jeito estabanado do grandão. — Tá tudo bem, tudo bem… — deu alguns tapinhas suaves em suas costas, vendo-o todo corado e com os olhos um pouco arregalados, olhando para o chão nervosamente. Seria estranho ter achado o jeito expressivo do outro fofo? Pegou o celular no bolso, para assim checar a hora e ver o que podiam fazer agora. — Vem cá, quer ir embora daqui e ir tomar um sorvete? Sei lá, ninguém mais veio e logo dá o fim do horário do clube.
— Pode ser.
E lá estavam os dois rapazes caminhando em direção à sorveteria. Um que mantinha um sorrisinho meio besta no rosto e aproveitava o momento, e outro que segurava um biquinho emburrado, todo tristinho porque sua ideia não tinha dado certo. Um suspiro audível tomou o ambiente enquanto caminhavam até a sorveteria próxima à escola. Kyungsoo olhava para Chanyeol pelo canto do olho, achando graça do jeitinho do rapaz alto. O garoto bobinho era realmente fofo na visão do Do.
— Qual seu sabor favorito de sorvete? — indagou Kyungsoo, enquanto podia-se escutar o ressoar de um sininho, que mostrava que adentravam a sorveteria.
— Morango. Eu só gosto do sorvete de morango. — Chanyeol viu um olhar meio julgador partir do baixinho. Oh, mais um monólogo sobre seu gosto estaria por vir.
— Muito clichê e meio infantil. Exatamente como imaginei. — revirou os olhos com o comentário, mas ficou feliz que pararia por aí. — Só gosta desse?
— Gosto daqueles de iogurte também. — lembrou-se na hora, por mais que não fosse exatamente sorvete.
— Oh, bem infantil. — deu ênfase na palavra "bem", de forma a intensificar mais ainda o que falava sobre ele. — Eu gosto de tudo que há de sabor. Cada semana tenho um novo sabor de sorvete favorito diferente.
— E qual é o dessa semana? — indagou.
— Pistache. — deu de ombros e seguiu até onde ficavam os potinhos, então pegou um para si e um para o Park, que negou com a cabeça e pegou uma casquinha. — Adorável.
— Não me chama assim. — Chanyeol riu baixinho, constrangido. Provavelmente era a primeira vez que sorria desde que saiu da escola todo emburrado.
— Mas eu não tô mentindo, tô? — questionou, enquanto se servia com uma porção generosa do sorvete verdinho de pistache. Colocou também uma quantidade abundante de calda de chocolate. Acompanhou com os olhos o maior colocar apenas sorvete de morango na casquinha, além da cobertura do mesmo sabor. Quando chegaram ao caixa para pesar, viu Chanyeol colocar a mão no bolso para pegar a carteira e se apressou, avisando que pagaria para ambos. — Passa no débito, por favor.
— Ei, eu não pedi pra você pagar! Pode parar de ficar sentindo pena de mim! — o Park resmungou. No entanto, nem sequer tentou impedí-lo de pagar. Vai entender.
— Quem te disse que eu tô sentindo pena? — questionou, enquanto digitava a senha do cartão. — Um homem não pode querer ser cavalheiro? Eu sempre pago quando saio em um encontro com alguém.
— Estamos em um encontro? — questionou, as bochechas tomando o mesmo tom do sorvete que segurava e seus olhos se arregalando no mesmo momento. — Disso eu não sabia!
— Não foi o que eu quis dizer! — coçou a nuca, constrangido. — Bom… Hm… Eu só relacionei! Falei que eu geralmente faço isso em encontros. Não necessariamente disse que isso é um encontro.
— Entendi. — soltou um muxoxo baixo e fez um beicinho, que não passou despercebido pelo Do.
— A não ser que você queira que seja um. Você quer, Chan? — arqueou uma sobrancelha.
— N-não foi o que eu falei! — gaguejou, nervoso. — Vamos para a mesa, vem! Meu sorvete vai derreter. — mudou de assunto e seguiu na frente, procurando por uma mesinha e logo se sentou em uma que tinha um sofázinho, encostada na parede.
Kyungsoo deu uma bela risada no momento em que percebeu que o Park ficou todo sem jeito e estranho com aquela interação. Se ele já era fofo normalmente, naquele momento ele estava mais ainda. Já fazia um bom tempo que reparava no maior, desde que percebeu que eles já estudaram juntos no passado. Era comum reparar nele pelos corredores, era comum ouvir falar sobre projetos em que ele estava inscrito — que não eram poucos, Chanyeol era bastante participativo —, e além de tudo era comum ouvir sua risada ecoar pela cantina enquanto ele conversava com seus amigos. O Do podia ser pouco curioso, mas era bastante quando se tratava do rapaz de cabelos cacheados. Foi assim que foi parar no clube. Quando viu os cartazes pelos corredores, segurou um em suas mãos e fez um infame comentário para seus amigos, o que lhe resultou em ser empurrado porta adentro para o clubinho do Park.
— Você é engraçado, Chanyeol. — comentou, depois de um certo tempo calado, apenas tomando seu sorvete e escutando o Park falar sobre o quanto gostava de sorvete de morango.
— Me acha uma piada também? — perguntou sinceramente, os olhos enormes piscando várias vezes enquanto o encarava e esperava por uma resposta.
— Não foi o que eu falei. — franziu o cenho. — E não. Não acho você uma piada.
— Ah, bom. — riu, levemente aliviado pela resposta. Ficou quietinho tomando seu sorvete por alguns instantes, mas ainda queria conversar e puxar assunto com o menorzinho. Por algum motivo ele chamava bastante sua atenção. — Você é BV mesmo? Ou entrou no clube só por curiosidade igual meu primo?
— O pirralho era seu primo? — questionou, quase retoricamente, enquanto dava uma risadinha. Chanyeol assentiu balançando a cabeça. — Quando eu acho que não tem como ficar mais cômico, vai lá e fica.
— Para. — riu envergonhado.
— Sou BV, mesmo. — respondeu. — Mas eu não faço disso um grande problema que nem você. Quando meus amigos fazem piada eu simplesmente mando eles tomarem no cu. — deu de ombros. — Não é nada demais, sabe?
— Tem razão. — olhou um pouco ao redor, pensativo. Acabou somente balançando a cabeça em concordância. — Você entrou no clube pra achar alguém pra beijar?
— Eu não entrei pro clube. Eu fui induzido ao clube. — falou sinceramente, e Chanyeol franziu o cenho, ofendido. — Que foi? Você sabe que é verdade!
— Posso te fazer uma pergunta irritante? — o mais alto mudou de assunto de maneira repentina. Havia algo em sua mente.
Kyungsoo semicerrou os olhos, tentando prever o que ele perguntaria antes de ele perguntar. Já tinha ideia, mas deixou do mesmo jeito. — Pode.
— O que seus amigos falaram que você disse sobre mim? Por que eu não podia saber? — mordeu o lábio inferior, sentindo-se um pouquinho inseguro enquanto perguntava aquilo. Será que Kyungsoo estava falando mal de si?
— Quer saber mesmo? — questionou, e Chanyeol assentiu várias vezes com a cabeça. — Tem certeza? — assentiu da mesma forma, acenando com a cabeça ainda mais intensamente. — Você vai ficar com vergonha. É melhor não.
— Anda logo. Minha curiosidade é maior que a minha vergonha. — insistiu.
— Falei que você é bonito e que eu entraria no clube fácil, fácil, se fosse pra tirar teu BV.
Chanyeol o encarou sem reação por alguns instantes. Os olhos enormes brilharam e ficaram um tempo sem piscar, apenas encarando o menorzinho à sua frente, que tomava seu sorvete sereno e imperturbável, sem nem ao menos lhe encarar de volta. Caramba, ele realmente trabalhou sua timidez para falar algo assim sem se sentir incomodado nem nada. Ou então, ele era muito bom em esconder!
— É sério? — indagou depois de um certo tempo em silêncio, apenas digerindo a informação. — Você achava isso mesmo?
— Uhum. — deu risada, enfiando uma colher cheia de sorvete de pistache na boca. — Eles estavam fazendo piada do teu clube e eu falei que achava fofo. — deu de ombros, dessa vez olhando para o Park, que ainda mantinha os olhos arregalados. Kyungsoo achou, por um breve segundo, que ele nem ao menos percebia o quão expressivo era.
— E… Você… Hm. — coçou a garganta. — Você ainda acha isso?
— Por que não? — perguntou retoricamente. — Você só mostrou ser cada vez mais bonitinho desde que estamos conversando. — colocou o potinho na mesa e apoiou o cotovelo ao lado, encostando o queixo em sua mão enquanto o observava, despreocupado. — Te deixei nervoso?
— Não, é que… — coçou a garganta de novo, agora incomodado com a atenção de Kyungsoo tão voltada em sua direção. Como ele conseguia ficar tão calmo falando essas coisas? Pensou. — Ah, não sei.
— Me desculpe por ter te deixado constrangido. — riu baixo.
— Não é isso! — defendeu-se. — É que… — hesitou mais uma vez, mas decidiu falar tudo. — Eu tenho interesse também. Mas será que a gente pode se conhecer só mais um pouquinho? — mostrou o indicador e o polegar juntos, demonstrando uma pequena quantidade. Kyungsoo deu uma risadinha besta.
— Com toda certeza, Chan.
Continuaram conversando, agora sem o obstáculo de estarem nervosos sobre o tal beijo que poderia acontecer entre eles. Conversaram sobre diversos assuntos, se conheceram melhor, e até mesmo em um dado momento provaram o sorvete um do outro. Contudo, Kyungsoo pensou em algo que com certeza deixaria Chanyeol risonho e sem jeito, então nem sequer hesitou em falar:
— Caramba, foi mal, Chan, eu não deveria ter tomado o sorvete da sua colher. Agora vamos ter que tirar os nossos nomes do clube, foi um beijo indireto! — ditou com uma falsa preocupação.
— Ah, cala a boca! — deu uma risada alta, jogando a cabeça para trás. Naquele momento, por um breve segundo, passou em sua cabeça que talvez não tenha sido uma ideia tão ruim assim criar aquele clube: agora era próximo de Kyungsoo! E de fato, não se arrependeria nem tão cedo por isso.
[...]
O CNB (sigla oficial do Clube dos Nunca Beijados) acabou não sendo fechado, como era esperado para um clube com apenas dois integrantes. Como Chanyeol já tinha a licença para usar a sala naqueles determinados dias para as reuniões, acabou não abrindo mão dela. Poderia tê-la utilizado para grupos de estudo, para ensaios do que fosse ou até mesmo estudar sozinho. No entanto, decidiu manter o nome CNB e começou a se reunir com os membros — apenas Kyungsoo — todas as quartas-feiras às 14h para… Fazer coisas relacionadas ao clube.
“Mas quais são exatamente as coisas relacionadas ao clube?” Você me pergunta. Vamos pensar um pouco. A ideia do clube era juntar os BV’s e procurar por espaço para evitar o bullying, certo? Então, pensamos: Eles prepararam debates? A resposta é não. Eles procuraram soluções para evitar o bullying, como o Park gostaria? Também não. Eles se beijaram, talvez? Não também. A resposta, na realidade, nem mesmo Chanyeol e Kyungsoo possuíam. Sem ideias, passaram a fazer das reuniões do clube apenas um tempo divertido em dupla. Em certos dias, um dos dois levava um Uno ou um Dominó para jogarem juntos naquela sala vazia, que nem sequer uma mesa tinha — porque eles mesmos não buscaram. Apenas ficavam sentados no chão, conversando por duas horas — horário reservado da sala — ou até mais se o clube de maquiagem não aparecia no horário combinado. Na realidade, algumas vezes os dois até mesmo ficavam para o próximo — uma vez, juntou-se um grupo de meninas ao redor dos dois para testar maquiagem de Drag Queen nos dois rapazes; divertiram-se bastante nesse dia, sinceramente.
No final das contas, o clube se tornou uma desculpa para os dois se encontrarem com uma certa frequência. A atração dos dois um pelo outro não parecia diminuir nunca; na verdade, parecia aumentar a cada encontro. Chegou a um nível em que Chanyeol começou a sentir seu coração acelerar, somente por pensar em encontrar com Kyungsoo novamente, além de que chegava horas antes das 14h por pura ansiedade. Até mesmo perguntava a si mesmo “será que hoje sai um beijinho?” ou coisas do tipo. Sentia-se tímido em pensar nisso, mas não conseguia evitar. Chegou também a um nível em que Kyungsoo começou a mandar foto de si mesmo aos amigos e perguntar “tô bonito?” antes de voltar ao colégio para visitar o CNB — o que, obviamente, causou certa implicância dos amigos, que agora tinham mais um motivo para fazer piadinhas com o Do.
— Mas você tá realmente a fim dele? — Sehun perguntou a Kyungsoo, enquanto caminhavam lado-a-lado até a sala de aula após o intervalo. Jongdae estava do outro lado, prestando atenção na conversa. — Eu pensava que era piada. Ou que, sei lá, você tava confuso.
— Você é cego, Sehun? — Jongdae perguntou, com a voz alta e expressiva de sempre. — Tá bem óbvio que ele tá a fim dele. Desde muito antes do clube. Você já viu o Soo olhando para o Chanyeol? E já viu como ele fala dele?
— Vai que, né. Kyungsoo não fala muito, e nunca dá pra saber se ele tá falando sério ou tá zoando. Quem sabe ele não tá tirando uma com a cara do Park desde aquele dia. — deu de ombros.
— Ele pode ser um chato, mas ele fica manso, mansinho, quando o assunto é esse grandão. — o Kim apontou. — Ele faria algo assim com você. Com o Chanyeol, com certeza não.
— Vocês têm uma visão muito maldosa de mim. — Kyungsoo, até então calado, pronunciou-se. — Eu não faria isso com ninguém. Eu não sou de ferir os sentimentos. Eu prefiro ferir o corpo. — ergueu a mão direita para Sehun, que recuou de imediato. Kyungsoo riu alto e afastou a mão, nunca tinha nem sequer batido em Sehun de verdade! Só ficava na ameaça. Nem entendia porque tinham tanto medo de si. — Idiotas.
— Mas você não respondeu. Tá a fim mesmo do cara? — o Oh respondeu, enquanto se sentava na carteira atrás da de Kyungsoo. O Do não enxergava bem, mas mesmo assim não queria sentar na frente para não chamar atenção demais dos professores. Sentava na carteira do meio da sala, Sehun sentava atrás, quase no fundo, e Jongdae sentava ao seu lado. — Quero ouvir de você.
— Eu tô. — falou, sem cerimônias. Nem sequer hesitou em contar a verdade. — Antes eu achava ele só bonitinho. Mas agora que a gente conversa e se encontra com frequência, sei lá… Alguma coisa mudou. Eu só fico querendo passar cada vez mais tempo com ele. — suspirou levemente. — Mas ele pediu tempo, sabe? Acho que ele é daquela sexualidade que só se atrai por quem tem intimidade. Lovatossexual?
— Demissexual, burro. — Jongdae retrucou. — Mas assim, acho que você devia testar. Já tem uns três meses que vocês se encontram toda quarta-feira sem nem ter pra quê. E você se lembra que o coordenador queria acabar com o clube e ele não deixou? O clube só tem vocês dois e mesmo assim ele não quis terminar. Ele gosta de você, certeza. Se não gostar, pelo menos gosta de passar tempo com você, e isso já é mais do que nada.
— Você acha? — Kyungsoo indagou, um pouco inseguro.
— Acho que gosta. Ele fica todo sorridente quando te encontra pelos corredores. E aquele amigo dele faz piadinha com ele do mesmo jeito que a gente faz contigo. — Sehun complementou.
— Não sei. — pigarreou. — Não vou ficar pensando nisso. Não vou tomar atitude primeiro. Não sei fazer isso.
— Aí, é tudo não! Não, não, não, não! Desse jeito você nunca vai saber se ele gosta de você e vai morrer BV. — o mais alto do grupo apontou.
— Eu prefiro me arrepender de não ter tentado do que me arrepender de ter tentado e morrer de vergonha junto.
— Mas você não se lembra do que a sua psicóloga falou sobre arriscar e se abrir pra novas experiências? — o Oh falou. — Foi assim com o clube, não foi? E deu bom.
— Pensando por esse lado… — refletiu. — Mas não sei ainda. E outra, entrar no clube não foi ideia minha!
— Tá, mas beijar é o intuito do clube, não é? Então beija ele de uma vez. Se der errado, pelo menos beijou. — o Kim falou, todo risonho.
— Na verdade… — Kyungsoo levantou o dedo indicador. — Beijar não é exatamente o intuito do clube. Mas eu já cansei de tentar explicar pra vocês. Falei mil vezes, já.
— Viu só? Gosta tanto dele que já tá até defendendo a ideia idiota dele. — Sehun arqueou uma sobrancelha.
— Tá todo apaixonado, hmmmm! — o outro amigo disse em uma voz provocativa.
— Ah, vai se foder. — o Do respondeu com uma risada, revirando os olhos antes de virar para frente para prestar atenção na aula. O professor já tinha chegado, e o mais baixo tinha mais o que fazer além de discutir com seus amigos idiotas.
O tempo parecia não passar corretamente enquanto Kyungsoo esperava ansiosamente para dar o horário. Parecia que estava tudo em câmera lenta, ou talvez apenas estivesse acelerado demais para tudo ao redor. Bom, talvez o motivo disso fosse a quantidade absurda de cafeína que tinha consumido para não dormir em aula, mas não falaremos sobre isso. Pensou bastante no que os amigos falaram, e então, por mais que não se orgulhasse disso, caprichou um pouquinho mais quando escovou os dentes, lavou a boca com enxaguante bucal, e para finalizar enfiou uma balinha de hortelã na boca. Arrumou-se um pouco mais do que geralmente, passou até um pouquinho de gel no cabelo para aparentar mais apresentável. Não mandou fotos para os amigos dessa vez, porque agora estava confiante de que estava bonito — confessava que também era porque não queria ser zoado, mas a sua confiança estava em primeiro lugar, claro!
Quando chegou no colégio, não demorou nada para ir em direção à sala do clube, uma salinha meio abandonada no último andar da escola. Abriu a porta com um sorriso largo no rosto, esperando encontrar Chanyeol e logo começou a pensar em como tomaria atitude com ele naquele dia; já tinha parte do que falaria em sua cabeça. No entanto, todos os seus planos foram acabados e seu sorriso murchou por completo ao dar de cara com um pequeno grupo composto de três pessoas ao invés da sala vazia, ou apenas com o Park esperando por si.
Ficou sem entender nada. Estava no horário errado? Chegou cedo demais e o outro clube ainda não saiu? A coordenação fechou seu clube? Pouco depois que iria dar meia volta e ir embora, Chanyeol chegou, tão confuso quanto ele. Foi aí que os dois entenderam o que acontecia.
— São vocês os líderes do CNB? — uma garota de cabelos curtos e platinados perguntou. — Eu e minhas amigas viemos porque queremos entrar. Somos do segundo ano e a gente se identificou com o objetivo do clube.
— É, tipo… O que é mais patético do que um adolescente BV? Um adolescente BV sozinho. — uma garota de cabelos pretos e longos respondeu, complementando, enquanto ajustava os óculos no rosto. — Daí a gente veio pra cá pra dar uma força.
— Eu vim porque elas disseram que vai ser legal, mas acho que vai ser péssimo. — uma terceira garota, igualmente de cabelos pretos, porém curtos, respondeu com a maior expressão de tédio que podia.
Chanyeol até então mantinha-se calado. Kyungsoo reparou que sua expressão demonstrava um pouco de decepção, e imaginava que a sua demonstrava a mesma coisa. No entanto, os líderes do clube não podiam simplesmente recusar membros novos sem um motivo aparente.
— Bom, então, vamos conhecer os novos membros! — o Park sorriu sem graça, entrando e tirando da bolsa o caderninho de presença que não abria desde a primeira reunião do clube. Coçou a nuca antes de entregar ele aberto nas mãos da primeira menina. Kyungsoo entrou junto, ainda sem dizer uma palavra sequer, e sentou-se no chão, na frente das três e ao lado de Chanyeol.
O Do assinou seu nome no caderninho, logo abaixo do nome do Park, que estava na linha abaixo dos nomes das meninas. Estava na ordem em que as três se apresentaram. Respectivamente: Kim Minseo, Son Jinah e Yoon Soojin. O menor entre os rapazes ficou encarando os nomes na lista por um certo tempo, pensando em todos os planos que foram destruídos com a simples presença das três baixinhas à sua frente. Fala sério, só queria aproveitar aquele tempinho para ficar com Chanyeol! Não queria entrar para um clube de verdade. Muito menos um clube de bocas virgens do ensino médio! Naquele momento, pela primeira vez e apenas por um breve segundo, arrependeu-se de ter entrado. No entanto, logo esse pensamento sumiu quando olhou o rapaz ao seu lado, todo bonitinho, parecendo nervoso com a presença de novas pessoas.
— Sejam muito bem-vindas, meninas. Chanyeol é o presidente e eu sou o vice. — Kyungsoo falou pela primeira vez e estendeu a mão para as três, cumprimentando-as com educação e um certo cavalheirismo. Chanyeol fez a mesma coisa, saindo de uma espécie de transe que estava até então.
— Vocês fizeram votação para escolher o líder e o vice? — Minseo perguntou, dando uma risadinha.
— Fizemos, foi unânime. — o Park respondeu, rindo alto e arrancando risadas de todos presentes.
— Mas então… — Soojin questionou, voltando sua atenção ao Park. — Quais são os projetos do clube?
— Hm… É que… — o mais alto pigarreou antes de ser franco e falar a verdade. — Não temos nenhum. Eu nem ia continuar com o clube. Só não fechamos porque eu decidi manter a licença de usar a sala nesse horário pelo semestre. Na nossa última reunião, nós jogamos dama até dar 16h.
As três garotas se entreolharam confusas, perguntando-se mentalmente em que tipo de furada tinham se metido. Um clube onde nem mesmo os presidentes sabem o que fazer? Francamente. Kyungsoo ficou nervoso encarando as três enquanto elas cochichavam um pouco umas com as outras.
— Bom, então nos viemos aqui para mudar isso. — foi a vez da Son falar novamente. — Precisamos de projetos se queremos ganhar pontos extras com esse clube. O que acham de um projeto anti-bullying? Podia nem ser necessariamente com pessoas boca virgem como nós, mas um projeto geral com cartazes sobre a importância de evitar piadas que podem ofender os amigos. Ou sobre assuntos que os amigos preferem manter em segredo.
— Acho que é bom, é meio que o intuito do clube, não é? A não ser que seja um clube pra achar amiguinhos pra beijar, um clubinho de Tinder. — a Kim complementou, dando uma risadinha baixa e sendo acompanhada pelas amigas na risada. Parecia ter um certo fundo de piada para as três o fato de estarem ali, mas os dois não se importavam; já esperavam algo assim, para falar a verdade.
Kyungsoo e Chanyeol trocaram um olhar cúmplice, provavelmente tiveram pensamentos parecidos enquanto ouviam a conversa que se seguiu. Os dois continuaram quietinhos, escutando as ideias das mais novas integrantes do clube, mas não se manifestaram em momento algum. Em um dado momento, em que as três estavam muito absortas nas próprias ideias, o Do voltou-se para o Park e fez um “vamos embora” com os lábios, sem nenhum som sair de sua boca, enquanto apontava para a porta de forma discreta. Chanyeol, que demorou alguns segundos para entender, arregalou os olhos e fez um “ok” com os dedos e com os lábios, não tão discreto quanto o Do, mas que passou despercebido pelas meninas. Logo os dois afastaram-se de fininho e depois deram as mãos, correndo para longe da sala sem nem ao menos olhar para trás.
Correram sem rumo, como se alguém lhes seguisse, mesmo sabendo que ninguém seguia. Correram, correram e correram, enquanto davam risadas altas, mesmo que nenhuma palavra fosse trocada. Pararam apenas quando chegaram no pátio, mais especificamente no parquinho onde os alunos menores brincavam. Os dois se sentaram nos balanços para descansar, e ficaram ali por um certo tempo, apenas recuperando o fôlego enquanto se balançavam, ainda rindo da situação cômica que foi os dois donos do clube fugindo sem nem ao menos explicar o porquê.
— Eu não queria um clube de verdade. — Kyungsoo foi o primeiro a falar, lançando para o mais alto um olhar de canto. — Eu só queria passar tempo com você. Eu gosto mais quando estamos só eu e você. — confessou.
— Sinceramente? — perguntou retoricamente, recebendo em resposta um olhar curioso do Do, que apenas moveu a cabeça para que ele continuasse o que dizia. — Eu também. Desisti do clube, foi uma ideia idiota. — deu de ombros. — Eu gosto mesmo é de passar tempo com você. O clube pra mim virou o clube do Chanyeol e o Kyungsoo ficarem juntinhos.
— Vamos criar o clube ChanSoo! — o mais baixo disse de forma empolgada, deixando uma risadinha baixa escapar.
— Vamos! — Chanyeol concordou, brincalhão. — Sabe, uma coisa que eu tenho vontade de fazer é dar um beijinho logo pra poder acabar com o clube. Mas sem as reuniões, o que seria de mim? — dramatizou.
— Quer beijar só pra poder fechar o clube? — indagou, arqueando uma sobrancelha.
— Não, né. É só um modo de falar. — riu baixinho. — Mas às vezes eu fico pensando… A gente tá praticamente indo a encontros juntos toda quarta-feira, não teve nem umazinha que a gente faltou… Além disso, a gente conversa por mensagem por horas e horas… Sei lá, me deixou pensativo.
— Pensativo sobre o quê? — sabia brevemente do que ele estava falando, mas queria ter certeza.
— Sobre… Que eu… Hm… — pensou um pouquinho antes de falar. Kyungsoo percebeu que ele hesitava. — Queria beijar você. — disse de uma vez, enquanto encarava os próprios pés, fazendo impulso para se balançar mais rápido. Estava vermelho, o Do conseguiu reparar.
— Eu também queria. — riu baixo. — Você já sabe disso, na verdade. — estava um pouco tímido, também. No entanto, decidiu continuar falando. — Não só beijar. Quero ter algo a mais com você. — falou na lata, porém arrependeu-se pela falta de resposta por parte do maior. — Mas só se você quiser, claro. Não precisa se-
— Eu quero. Quero tudo com você. — sorriu meio bobo, parando aos poucos de se balançar. — Me beija, Soo.
Kyungsoo engasgou levemente com a própria saliva após o pedido tão livre de dúvidas ou incertezas. Tossiu algumas vezes, nervoso. Chanyeol pareceu se esquecer por um breve momento que o Do era tão inexperiente quanto ele. Continuou tossindo, o Park deixou alguns tapinhas em suas costas na tentativa de ajudar de alguma forma. Céus, não era daquele jeito que queria iniciar aquele momento! Tudo bem que antes estava bastante confiante a respeito disso, mas colocar em prática era um pouco mais difícil do que o simples pensamento de “vai lá e beija”.
— Eu… — tossiu mais algumas vezes. — Pera aí.
— Soo, não precisa ficar tão nervoso… — o cacheado riu baixinho. — Se não quiser, a gente deixa pra a próxima, ou nem precisa-
— Não. — precipitou-se, já recuperado do engasgo recente. — Eu quero, Chan. — olhou nos olhos do maior.
Chanyeol deu um sorrisinho leve antes de segurar a mão do menorzinho, puxando-lhe para fora dos balanços e então seguindo até debaixo de uma árvore, onde estariam ao menos um pouco escondidos das câmeras presentes no colégio. O Park ia tomar a primeira atitude, mas o Do não permitiu. Lembrou-se do que Sehun lhe disse mais cedo sobre sempre negar tudo e não se arriscar. Pensando nisso, segurou o queixo do maior e lhe fez olhar para baixo, antes de aproximar o rosto do alheio e colar seus lábios aos dele.
Foi um selar casto e inocente, pode-se dizer até mesmo por algumas más línguas que “não valeu” ou que “não conta como primeiro beijo”. Mas para os dois, valeu sim. Para os dois, foi um momento mágico. Tanto Chanyeol quanto Kyungsoo conseguiram ver fogos de artifício por trás dos olhos fechados no momento em que os lábios se tocaram suave e carinhosamente. Tanto Chanyeol quanto Kyungsoo sentiram as mãos tremendo de maneira nervosa quando se tocaram, quando sentiram as mãos tocando os rostos um do outro e logo depois quando as mãos se tocaram entre si. Tanto Chanyeol quanto Kyungsoo trataram aquele momento como, de fato, o primeiro beijo perfeito. Assim que separaram seus lábios brevemente, olharam-se um nos olhos do outro e riram baixo.
— Você… Gostou? — como o perfeito boca virgem que era, o mais alto perguntou, nervoso, ainda com o rosto próximo do menor.
— Sabe que eu não sei. — o Do respondeu baixinho, soprando uma risada ao ver o outro franzir o cenho. — Preciso de mais um pra saber se eu gostei mesmo.
Dito isso, segurou a bochecha macia, e dessa vez se soltando um pouco mais, selou seus lábios aos dele sem nem pestanejar. Chanyeol empurrou-o suavemente até que encostasse as costas no tronco da árvore, apoiando sua mão nela e ao lado da cabeça do menor. Dessa vez o beijo foi mais lento, demorado e os dois até ousaram mover os lábios, o que resultou em uma leve batida de dentes que fez com que se afastassem levemente apenas para dar risada.
— Vamos ter que sair do clube. — Kyungsoo falou baixinho.
— Que se dane o clube. — Chanyeol respondeu junto a uma risada, puxando-o para perto novamente, beijando o Do mais uma vez. E uma coisa era certa: não seria a última. Nenhum dos dois sabia o que estava fazendo, mas aprenderiam juntos (e aprenderiam com bastante prática, é claro).
[...]
Na próxima quarta-feira, os dois rapazes avisaram no grupo do CNB que tinham uma notícia para dar. Enquanto as meninas seguiam perguntando várias vezes sobre o que era, os dois saíram do grupo sem mais nem menos. Não queriam dar explicação antes de chegar o horário certo. Exatamente às 14h, entraram na salinha de mãos dadas e encontraram as três meninas, sentadas — em cadeiras, as quais elas mesmas arranjaram —, aguardando ansiosamente por respostas daqueles dois que lhe deixavam cada vez mais confusas.
— Então, é… — o mais baixo começou a falar. Estavam nervosos, tão, mas tão nervosos que decidiram fazer um script em um pedaço de papel sobre o que falariam para as mais novas. — A gente… — pigarreou, pegando o papelzinho em seu bolso e desdobrando-o. Chanyeol ficou envergonhado e tomou o papel da mão do Do, dobrando-o de volta. Em seguida aproximou-se um pouco de Minseo e entregou em suas mãos.
— O que é isso? — ela perguntou, Jinah e Soojin olhando de canto curiosamente.
— É o motivo de a gente estar saindo do clube. Não lê em voz alta. E espera a gente sair pra ler, por favor. — estava extremamente constrangido com aquilo. O menor não estava nada diferente.
Ainda segurando a mão de Kyungsoo, puxou-o para fora da sala. Embora a vergonha dos dois fosse justamente de encarar as três meninas enquanto elas descobriam seus motivos, ficaram parados atrás da porta, escutando de fora enquanto alguma delas lia em voz alta o papelzinho, onde estava escrito exatamente: “Infelizmente, estamos nos retirando do clube e passando a liderança para vocês. Esperamos que façam bom proveito do que nós iniciamos, vocês tem mais potencial para isso do que nós. Provavelmente estão curiosas quanto ao motivo, e aqui está ele: nós não somos mais dignos do CNB porque, agora, nenhum dos dois é mais BV. Esperamos que entendam o nosso posicionamento. Obrigado e até a próxima. Atenciosamente, ex-líderes do CNB.”
Também puderam escutar um breve silêncio antes das três desatarem em altas e exageradas risadas. Ficaram sem jeito, ao mesmo tempo em que as garotas perdiam o fôlego do tanto que riam da cartinha. Depois de certos comentários como “que forma estranha de dizer pra alguém que perdeu o BV”, e “eles são as pessoas mais estranhas que eu já vi na vida”, os rapazes decidiram que era humilhação demais continuar ali atrás da porta escutando tudo aquilo.
— Eu realmente me acho a pessoa mais boba do mundo. — o Park deu uma risada baixinha, caminhando lado-a-lado com o quase-namorado. — Eu nem consigo imaginar o que eu faria se a gente tivesse continuado no clube. Tipo… Sendo bem sincero, eu não faço ideia de que projetos a gente faria. Se as meninas não tivessem entrado e a gente tivesse continuado como estava, nós provavelmente teríamos sido enxotados pelo coordenador mesmo.
— Pior é que é verdade. — Kyungsoo deu uma risadinha baixa. — Mas eu te agradeço muito, muito, muito mesmo por ter dado voz ao capetinha do seu ombro e feito esse clube, por mais bobo que seja.
— Eu também me agradeço, sabia? Apesar de tudo nisso me deixar extremamente envergonhado. — riu e jogou a cabeça para trás, enquanto andavam escadas abaixo para se retirar do colégio. Não possuíam mais nenhum clube para frequentar, então agora andavam sem rumo e sem um exato destino em mente. — O que quer fazer agora, Soo? — indagou, andando pelos corredores do térreo da escola e seguindo o caminho até o portão de saída.
— Eu? — olhou-o com um sorriso de canto presente em seu rosto. Levou seu olhar para os dois lados ao parar em um “ponto cego” no corredor. Ao constatar que não tinha ninguém olhando, e que realmente nenhuma câmera estava disponível, empurrou o mais alto na parede mais próxima e lhe roubou um selinho. — Eu quero beijar você de novo. — beijou-o mais uma vez. — E de novo. — mais uma. — E de novo, de novo e de novo. — entre cada palavra, deixava um selinho nos lábios do grandão, o qual apenas permitia e soltava baixas risadinhas entre cada um deles.
— Agora eu entendo o porquê de não beijar ser um problema tão grande pra o resto do pessoal. — sorriu, todo tímido, segurando a cintura de Kyungsoo e puxando-lhe ainda para mais perto, de forma a colar seu corpo no dele. — Fiquei viciado no teu beijinho. — soprou uma risadinha rente ao rosto do menor, antes de selar os lábios aos dele novamente, dessa vez um pouco mais devagar e duradouro. Bom, teria sido mais ainda se não tivessem escutado um grito de longe da “tia da limpeza”.
— Ei, aqui não é lugar dessas safadezas! — ela foi se aproximando, em passos rápidos e raivosos, pisando fundo. Kyungsoo e Chanyeol se entreolharam de maneira cúmplice, como se, mais uma vez, tivessem pensado igual. E realmente tinham. — Venham aqui, seus pestinhas! Coordenação para os dois, vamos logo!
— Hora de correr. — o Park falou.
— Tem razão. — Kyungsoo respondeu.
Agarrou a mão de Chanyeol e logo os dois estavam correndo rumo ao portão de saída, que atravessaram sem mais nem menos, deixando para trás a senhora que respirava ofegante e praguejava os dois rapazes de longe. A partir do momento em que estavam fora da escola, não podia mais ir atrás deles para impedí-los de algo ou dar bronca. Fora da escola, não é mais assunto da escola. Sinceramente, a “tia” achou melhor assim enquanto dava meia volta e voltava para suas obrigações. Nem ao menos era a primeira vez que encontrava os dois rapazes aos beijos nos corredores.
— Talvez agora… — Kyungsoo iniciou, falando de forma ofegante, caminhando agora na rua, ainda segurando a mão do maior. — Seja hora de criar o Clube dos Beijoqueiros. — brincou, sorrindo de forma atravessada ao encarar o maior. Chanyeol tinha o cenho franzido e um bico emburrado no rosto.
— Para de tirar uma com a minha cara, Kyungsoo! Você gosta de mim ou me odeia, por acaso?
O biquinho e a pergunta fizeram o coração do menor dar uma palpitada estranha. Será que era possível realmente se viciar nos lábios de alguém? Porque era o que achava que estava acontecendo consigo. De forma confiante, respondeu:
— Gosto de você. Tipo, gosto, gosto.
Chanyeol hesitou. Parou no meio do caminho para olhar para o lado e encarar o moreno.
— Gosta, gosta? Do tipo, tá apaixonado por mim?
— Tô. — falou, sem mais nem menos. Chanyeol engasgou levemente. Realmente precisava visitar a psicóloga de Kyungsoo e saber o que era necessário para aprender a falar sobre seus sentimentos de forma tão simplista e direta. — Tô apaixonado por você, Yeol. Acho que isso tá começando a surgir desde o dia que eu peguei aquele panfleto e disse “que fofo” ao invés de “que esquisito”.
— Eu também tô por você. — mordeu o lábio inferior, segurando mais um sorriso bobo que vacilava aparecer. — O que a gente faz agora?
— Acho que agora a gente abre o Clube dos Namorados. — o Do brincou, mesmo sabendo que não era, nem de longe, o momento certo para aquilo. No entanto, Chanyeol gargalhou. Chanyeol sempre ria quando estava com Kyungsoo.
— Para de implicar comigo, Soo! — proferiu de maneira manhosa, então teve o rosto segurado por ele e foi encarado com carinho, leveza. — Vai me lembrar dessa história de clube pra sempre, não vai?
— Com toda certeza. — e deixou um selinho nos lábios do maior. E mais outro. E mais um só para finalizar.
Mas Chanyeol não se importava nem um pouco, sinceramente. Enquanto estivesse ao lado de Kyungsoo, não importava nenhuma zoação que escutaria, seja sobre sua boca-não-mais–tão-virgem-aos-dezessete-anos, seja sobre seu clubinho, sobre seu sabor de sorvete favorito ou o que fosse. Tudo que importava para si, naquele momento, era o baixinho de cabelos pretos e olhos enormes. E, claro, todos os beijinhos que ainda trocaria com ele no futuro. Mas sem nenhum clube a partir de agora, de preferência!
