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Marco Zero

Summary:

Bakugou olhou para o ninho do ômega com um olhar suave. Seus companheiros pareciam bem confortáveis e seu alfa estava ansioso para se juntar a eles no conforto

As vezes o loiro se perguntava como chegou alí, com uma matilha pequena e tão forte, mas ele não estava reclamando.

Notes:

Hello!

Como eu disse no capítulo de aviso, estou fazendo uma revisão dos capítulos e modificando a forma como foi escrita e adicionando algumas coisinhas a mais.

Para os leitores antigos, espero que tenham voltado a ler desde o início, para companhar as mudanças e para os novos leitores, espero que seja uma experiência agradável.

Vou colocar 'Revisado' nos capítulos que receberam modificações e quando você não ver mais essa palavra em meio ao título, significa que você está acompanhando minha escrita.

Bom, é isso, espero que gostem.

Chapter 1: O primeiro encontro 'Revisado'

Chapter Text

Bakugou voltou para seu apartamento depois do incidente do lodo. Seu corpo tremia. A sensação pegajosa em sua pele e o aperto em seu peito, como se ainda estivesse sendo sufocado pelo vilão, ainda estava dando-o calafrios. 

 

O pior de tudo, era saber que foi o maldito inútil do Deku quem o salvou. Nenhum dos heróis presentes teve a coragem de fazer algo, apenas ficou ali contendo uma multidão de curiosos e decidindo entre si, quem iria "se arriscar" para salvar uma pessoa sendo morta. 

 

Que ironia!

 

Mas isso também abriu seus olhos. 

 

Ser um herói e ter uma individualidade forte, não é exatamente algo para se comemorar. Heróis fraquejam, não só isso, eles se tornam impotentes em determinadas situações. 

 

Bakugou trancou a porta assim que entrou, tirou as roupas sujas e foi em direção ao banheiro mais próximo. Queria tirar a sensação suja de sua pele, o toque da lama em seu corpo e se pudesse, trocaria de pele apenas para fingir nunca ter sido pego por um vilão. 

 

Ele refletiu sobre a experiência de quase morte. Foi como um abrir de olhos para o mundo. Bakugou viu da perspectiva de uma vítima indefesa, viu a incompetência dos heróis, assim como viu uma pessoa sem individualidade ser mais corajoso que heróis classificados.

 

O inferno que ele iria apenas chegar na escola e dizer bom dia para o nerd amanhã, mas o acontecimento de hoje, deu uma guinada na forma de pensar do adolescente. 

 

Depois de vários minutos, Bakugou sentiu que já estava limpo o suficiente e saiu do banheiro. Ele não estava com fome, não quando a sensação de lama ainda estava em sua boca. Escovar os dentes como se tentasse arrancar seus dentes ajudou um pouco. 

 

Ele se sentiu cansado. Toda a confusão pelo qual ele passou hoje, fez com que ele se sentisse flutuando, como se ele não fosse mais ele mesmo. Nem lembra de como foi para o quarto, só sabe que assim que sentiu a macieis dos lençóis, seus olhos se fecharam.

 

Amanhã era um novo dia, talvez fosse melhor quem sabe. 

 

-

 

Não foi melhor. 

 

Assim que ele chegou na escola, parecia que não existia mais um Bakugou. Ele perdeu as contas de quantas vezes alguém olhava para ele e dizia: O garoto do lodo. 

 

Estavam o olhando com pena, preocupação e outros com um sorriso que ele poderia muito bem identificar mesmo de longe, afinal ele mesmo era o dono regular de tal sorriso. Zombaria. 

 

Claro, nenhum deles iria rir na cara dele, mais isso não importava quando podiam rir pelas costas. 

 

Katsuki se sentiu idiota, fraco e ao mesmo tempo irritado. Apenas saber que foi Deku quem o salvou acima de tudo, era como um espinho em seu coração. Se sentiu inútil também, já que ele não conseguiu salvar a si mesmo. Era como se suas afirmações de ser o melhor, o herói número um fossem piada. 

 

Faltava dez meses para o vestibular da Yuuei e Katsuki tinha que melhorar até lá, se tornar mais forte e para isso, ele tinha que mudar seu jeito de ser. 

 

Já lhe foi provado que ser um herói não significa salvar todos, que ser um classificado não salva vidas. Seu orgulho não seria de ajuda nenhuma em seus objetivos, que ele tinha que mudar sua maneira de pensar e agir. 

 

Talvez o posto de número um não fosse tão importante. Bakugou quer ser o melhor, o mais forte, tão bom que os vilões sintam medo apenas de ouvir seu nome. Talvez fosse melhor mudar seus objetivos. E se ele se tornasse o número um no futuro, era apenas uma consequência inevitável de suas ações. 

 

Bakugou estava sentado em sua cadeira, prestando atenção na aula ou tentando. Talvez o evento de ontem tenha subido a cabeça do nerd, pois o garoto estava murmurando mais do que de costume. 

 

Bakugou podia ouvi-lo muito bem e mesmo que não estivesse nem aí para o que Deku fazia de sua vida, era impossível não notar a diferença. 

 

Geralmente o beta  murmurava sobre heróis, seus poderes, roupas, lutas e até o que faziam em seu dia a dia, mas agora, Deku estava murmurando sobre treinamento, alimentação e sobre lixo. 

 

Bakugou estreitou seus olhos. 

 

As pessoas pensavam que por causa da sua arrogância e estado temperamental, Bakugou não era um observador. Que ele não prestava atenção ao seu redor, nas pessoas; suas ações, seus maneirismos. Estudando-os o tempo todo, sua guarda sempre alta enquanto se alimentava de informações. 

 

Não tem como se o melhor se não prestar atenção na sua volta. Além do mais, Bakugou é um alfa, seus sentidos são mais sensíveis as mudanças no ambiente, como cheiros e barulhos. Bakugou sendo particularmente mais sensível do que outros alfas. 

 

Então era difícil não notar aquela mudança em Deku, aquele cheiro diferente que parecia quase fantasmagórico vindo do garoto. Era de outro alfa, um toque passageiro talvez e Bakugou sabia que não era do pai do garoto. 

 

Bakugou só sabia da existência do pai de Deku, porque já o viu uma vez e o cheiro ficou guardado em sua memória depois de ver o homem simplesmente visitar a casa do esverdeado, com uma mulher diferente de Inko em seus braços. 

 

Foi bem memorável o dia. 

 

Bakugou cantarolou enquanto tentava ignorar a existência do beta. Não era da sua conta o que Deku fazia em suas horas vagas. 

 

A aula como sempre, foi entediante. Os alunos não estavam prestando realmente atenção na explicação do professor, não que ele discordasse deles. O professor realmente não sabia dar aulas e Bakugou acreditava que o homem só possui esse emprego, porque está dormindo com a diretora. 

 

Quando finalmente o sino soou, Bakugou arrumou as coisas em tempo recorde. Sair daquele lugar era seu objetivo principal. O cheiro de seus colegas estava o perturbando. 

 

Como um alfa, Bakugou não estava realmente a vontade com tantos feromônios em um só lugar. A escola deveria pelo menos ensinar sobre o controle de feromônios. 

 

Infelizmente, existe um desequilíbrio na distribuição de segundos gêneros, e isso afeta diretamente no ensino dos alunos sobre as diferenças e as necessidades. 

 

Grande parte da população é de betas, sobrando uma pequena porcentagem para os alfas e ômegas. Então a sociedade se concentrou mais na grande maioria, não tendo muito interesse nos outros gêneros. 

 

Ironicamente, você veria os dois gêneros excluídos em posições importantes na alta sociedade. Alfas assumindo posições de risco, como heróis e ômegas se tornando estrelas, modelos e outros. Claro, você também tem alfas como cantores e modelos, assim como ômegas como heróis e empresários. 

 

Bakugou realmente não entende como essa pirâmide social funciona. É esquisito ver o governo favorecer mais aos betas, enquanto alfas e ômegas que detem o poder de verdade. 

 

Outra coisa que Bakugou não entende, é o preconceito com ômegas. Até uns cem anos atrás, eles eram vistos como meras donas de casa e éguas reprodutoras. Isso mudou de lá para cá, quando as individualidades surgiram, mas ainda existem aqueles que acreditam que lugar de ômega é de joelhos e mostrando o pescoço de forma submissa. 

 

Foi só um ômega poder causar um terremoto com apenas um pisar de seus pés pequenos, que as pessoas começaram a perceber que as individualidades não favoreciam um certo gênero. Que um alfa poderia soprar bolhas, enquanto um ômega cuspir fogo. 

 

Bakugou acredita nos fortes. Se tem um herói cujo segundo gênero é ômega, então com toda certeza essa pessoa é forte. Quem mais o alfa admirava eram os heróis ômegas. 

 

Principalmente aqueles que exibiam seu status, enfrentando o repúdio da sociedade e a afirmação que ômegas são suaves de mais. Para Bakugou, não havia nada mais satisfatório do que ver um ômega dar uma surra em um vilão. 

 

Bakugou fez seu caminho para casa. Ele iria começar a treinar e estudar para o vestibular. 

 

Um mês se passou

 

 

Ninguém falou sobre, mas Bakugou não é estúpido em não perceber que as pessoas tinham notado também. Não que Deku estivesse sendo sutil, mesmo que tentasse. 

 

Tinha sido apenas um mês e qualquer um poderia ver que Deku tinha tido mudanças. As pessoas apenas olharam uma vez e ignoraram, mas Bakugou não conseguia se concentrar enquanto não fizesse uma leitura do ambiente em que estivesse. 

 

Bakugou voltou seus olhos para o beta esverdeado. Parecia realmente diferente. O gakuran parecia mais apertado, diferente de antes, que o beta parecia flutuar em suas roupas. Deku parecia mais pálido, com olheiras, ombros curvados e o corpo parecia tenso de uma forma que lembrava Bakugou de sí mesmo, quando fazia exercícios. 

 

Olhos carmim ficaram escondidos parcialmente sob as pálpebras do loiro. Bakugou definiu que Deku estava escondendo algo. O cheiro de um alfa mais velho estava por todo o garoto, mesmo que o imbecil tentasse esconder com spray de cheiro.  

 

Bakugou torceu a boca ao notar o nível de estupidez. Deku é um beta, ele nunca precisaria de uma spray de cheiro. O idiota realmente estava se esforçando para parecer menos suspeito? 

 

Talvez o olhar do alfa fosse muito intenso, pois o beta ficou tenso e virou rigidamente para olhar na direção do loiro. Olhos esmeraldas travaram em olhos vermelhos. 

 

Bakugou levantou uma sobrancelha e viu o beta pular na cadeira e desviar rapidamente o olhar. 

 

— Idiota. 

 

Ir para casa, foi como sempre estressante. Bakugou sabia que seu treino estava dando resultado e ele não era um exibicionista, mas as pessoas estavam começando a reparar em seu corpo. Suas roupas estavam mais apertadas e era impossível esconder as linhas musculares que estavam começando a se formar.

 

Os poucos ômegas que viu, sorriram para ele e betas tinham um olhar que Bakugou os categorizaria como assédio e curiosidade. Estavam o olhando de forma avaliadora, julgando-o com olhares sedentos. 

 

Esse tipo de atenção desviou seus pensamentos um pouco, principalmente dos caras que ele chamava de amigos e que estavam nos últimos dias, tentando "reatar" a amizade. 

 

Como se ele fosse! Nem ele sabia o que tinha na cabeça quando decidiu andar com esses caras. 

 

Os idiotas apenas correram por suas vidas quando o vilão do lodo o atacou, nem mesmo gritando por socorro. E se não fosse por suas explosões, era capaz de ele ter morrido silenciosamente naquele beco. 

 

Bakugou ignorou os olhares que estava recebendo e continou caminhando. Seus pensamentos variando entre treino e estudos, quando um cheiro forte de sangue atingiu seu nariz sensível. Foi como um soco atingindo suas entranhas. Bakugou contorceu o rosto e olhou em volta. 

 

Ninguém mais parecia ter sentindo o cheiro. Era mais uma prova de seu incrível olfato e neste momento, ele não estava feliz por isso. 

 

— Que diabos - Bakugou cobriu o rosto com a mão. Não que isso impedisse o cheiro. 

 

Era forte, mas Bakugou sabia que para apenas ele sentir, deveria ser fraco o suficiente para não ser notado por outras pessoas. Infelizmente, era como se alguém tivesse jogado um balde de sangue diretamente em seu rosto. 

 

Bakugou queria ignorar. Não era da sua conta e poderia ser literalmente qualquer coisa, desde alguém que apenas jogou sua carne fora ou algum animal recém morto. Poderia ser também alguém esfaqueado por um vilão ou pior, um vilão ferido que escapou dos heróis. 

 

Ele realmente poderia ignorar, mas não foi ele quem recentemente estava morrendo em um beco? 

 

Além disso, pode não ser também um vilão. Pode ser uma pessoa realmente precisando de ajuda; ferido de uma briga e abandonado e que deus me livre, violado. 

 

— Tsk - Bakugou estalou a língua. 

 

Ele não podia demonstrar medo, não agora que ele colocou em sua cabeça que seria o melhor, que se esforçaria ao máximo por seus sonhos. Ele não quer ser como aqueles heróis, que estavam assistindo uma criança morrer enquanto discutiam sobre quem iria ou não tentar ajudar. 

 

Com irritação, Bakugou entrou no beco. Suas mãos suando e prontas para explodir qualquer pessoa em seu caminho. 

 

— Oi, você está bem? - Bakugou revirou os olhos com a própria pergunta. 

 

Bem? Quem estaria bem quando está sangrando, possivelmente até a morte? 

 

Não houve respostas.  Ele também não esperava uma. Seguindo o cheiro, Bakugou virou uma parede e quase deu um passo para trás. Ficou tonto com o cheiro forte de sangue, quase podendo sentir o gosto em sua boca.

 

Outra coisa que Bakugou fez foi agradecer ao seu olfato extraordinário e ao julgamento de entrar no beco, pois talvez amanhã, ele visse no noticiário sobre o que ele está vendo nesse exato momento. 

 

No chão, caido entre sacos de lixo, está um garoto ainda vestido com o uniforme de alguma escola. A bolsa jogada ao lado, espalhando materiais não era importante, mas sim o garoto. 

 

Qualquer quer um que o visse, diria que está morto. Seus olhos estão fechados, um deles inchado com um grande círculo roxo e sangue escorrendo de seu nariz. Seus lábios estão cortados, sua bochecha direita possui um corte sangrento e a bochecha esquerda tinha um molde perfeito de uma mão.

 

— Puta merda - Bakugou arregalou os olhos ao ver marcas de mãos no pescoço do garoto - que porra é essa?! 

 

O garoto tinha o gakuran meio aberto e rasgado. O sangue no uniforme estava fresco e Bakugou apostaria sua vida que se ele tirasse a roupa do garoto, teria mais marcas em tons azuis e roxo. Seja quem for esse garoto, fizeram um número feio nele. 

 

— Eu tenho que chamar uma ambulância - Bakugou pegou rapidamente seu celular. 

 

O garoto esta em tão péssimo estado e tão espancado, que Bakugou estava começando a suspeitar de abuso sexual. Mas antes que ele pudesse discar totalmente o número da emergência, sua perna foi agarrada com força. 

 

Bakugou sentiu seu coração errar uma batida. Seu corpo ficou tenso e ele olhou para baixo, onde a mão tocava agarrava sua perna. 

 

— Porra! 

 

O garoto teve sorte. Se Bakugou não estivesse alerta para qualquer cheiro e barulho naquele beco, ele sem dúvidas teria explodido o garoto em pedaços. 

 

Olhando para a mão que estava machucada nas juntas dos dedos, o loiro soube imediatamente que o garoto lutou com seu agressor. As unhas estavam lascadas e um delas faltando. 

 

— Você tem sorte - Bakugou resmungou - eu quase explodi você. 

 

O alfa viu o garoto lutar para abrir os olhos, seu aperto forte foi ficando fraco e ele tentou abrir a boca para falar. Os sons são como uma pessoa enganando. 

 

— Não fale - Bakugou se abaixou e retirou lentamente a mão de sua perna - sua garganta está toda fodida. Estou ligando para a emergência. 

 

O garoto ficou agitado e Bakugou ergueu as sobrancelhas. 

 

— Você não quer que eu chame ajuda? - o loiro perguntou e viu o garoto dar um aceno fraco - você tem noção do quão ferrado você está? Parece que você foi cuspido de um triturador. 

 

O garoto soltou algo parecido com uma risada. Foi estrangulado e horrível. Pela situação do garoto, o certo era chamar ajuda, mas Bakugou sabe que deveria ter algum motivo para o garoto não querer ser socorrido. 

 

As vezes a ajuda, não é necessariamente boa. Talvez o garoto seja um fugitivo e esteja se escondendo. Ele só teve o azar de passar por isso. 

 

Então tem outra questão. Pela reação negativa do garoto em relação a ajuda, é bem possível que ele conheça seu agressor. E Bakugou conhece duas situações onde agressores conhecidos estão envolvidos. 

 

A primeira é quando você conhece a pessoa e sabe o quão perigosa ela é. A segunda situação é quando você conhece a pessoa, mas não o quão perigosa ela é. 

 

Bakugou não é uma boa pessoa, alguém solidário, mas também não é um cara mau e sem coração. Ele não iria deixar o garoto que aparenta ter sua idade, todo ferrado e em um lugar tão perigoso. 

 

Ele quer ser um herói não é? Esse não é um bom treino? 

 

— Foda-se - Bakugou zombou enquanto guardava o celular. 

 

Retirando seu blazer, jogou por cima do garoto que se encolheu. Ele não iria sair com o garoto todo ensanguentado para o mundo ver, principalmente em seus braços. 

 

— Não vou deixar você aqui, nessas condições - Bakugou verbalizou para que o garoto não se agitasse muito - então estou levando você comigo.

 

A verdade era que o loiro nem sabia onde tocar. O garoto estava tão fodido que tocar qualquer parte do seu corpo, poderia acabar piorando sua situação. 

 

Bakugou serrou os dentes e pegou o menino no estilo noiva. Sentiu que ele ficou tenso em seus braços e soltou um gemido quebrado. Notou que o cara é magro, podendo sentir os ossos através das roupas. 

 

O que era pior já que o garoto nem mesmo tem carne para amaciar qualquer pancada em seu corpo. Qualquer batida iria direto para os seus ossos, o que deveria doer de mais. 

 

O loiro saiu do beco com o garoto em seus braços. Esperava chegar no apartamento com ele ainda vivo. 

 

As pessoas estavam olhando para eles. Não que Bakugou as culpasse por isso, já que qualquer um olharia para um adolescente carregando outro adolescente ferido. O loiro liberou feromônios, fazendo as pessoas desviarem o olhar. 

 

Algo que ainda não foi explicado na biologia, o fato de que apenas alfas e ômegas podem liberar feromônios, enquanto os betas não passam de pessoas comuns, sem cheiro ou glândulas. Mas esse não é o incrível, o impressionante é que betas podem sentir os feromônios alfa e ômega. 

 

Especialistas dizem que mesmo que betas sejam a grande maioria da população, eles ainda estão abaixo da cadeia alimentar. Não possuem características que o coloquem no topo. Não tem garras e presas, nem o instinto selvagem. Então como uma forma de sobreviverem em meio a predadores como alfas e ômegas, desenvolveram um olfato apurado para captar feromônios. 

 

É mais fácil ler o ambiente quando se pode cheirar ele. 

 

Bakugou agradeceu a tudo que é mais sagrado, por ter chegado bem rápido ao prédio. Sua sorte estava no auge, já que ninguém foi intrometido o suficiente e nem tinha qualquer pessoa no elevador. 

 

Ele nem reclamaria se tivesse alguém no corredor no momento, já que para sua sorte, seus vizinhos eram muito mais desinteressados em sua vida, do que ele na deles. Mas ele não negaria ajuda caso alguém oferecesse. 

 

Abrir a porta foi um desafio. Com o garoto em seus braços, ele teve que se contorcer para pegar a chave. Muito depois, com suor, grunhidos e alguns rosnados, ele finalmente consegiu entrar. 

 

Fechando a porta com o pé, o loiro não via a hora de soltar o garoto. Tudo bem que o coitado é magro e leve, mas carrega-lo por tanto tempo, estava pesando em seus ombros e braços. 

 

Bakugou tem quartos extras, mas ele não se sentiria bem em deixar o garoto em outro quarto e quando voltasse para ver, tivesse um cadáver em sua cama. Seria péssimo para ele e se livrar de um corpo não é fácil. 

 

Então ele lutou contra os próprios instintos, trazendo outra pessoa para sua toca, e pior, colocou a pessoa em sua cama. Mas se livrar do peso foi um alívio tremendo, então compensou um pouco. 

 

— Você é magro, mas carregar seu cadáver é difícil - Bakugou quis subir na cama e dormir diretamente - maldita sorte de hoje ser sexta. 

 

O loiro saiu do quarto e foi para a cozinha. Estava com fome, mas muito cansado para fazer algo mais elaborado, por isso optou por algo fácil como sanduíches. Pensou em fazer para o garoto, mas tinha certeza que ele não conseguiria nem mesmo beber água nas condições que estava. 

 

Depois de comer, o loiro preparou água morna e uma bacia com pano. 

 

De jeito nenhum que o garoto iria dormir naquele estado miserável em sua cama. Estava sujo, sangrando e mesmo que estivesse com as tripas de fora, Bakugou não deixaria o garoto dormir daquele jeito. 

 

Assim que Bakugou entrou no quarto, ele se sentiu estranho. Como não sabia o subgênero do garoto, seu alfa estava incomodado. O garoto estava usando bloqueador de cheiro e era bom o suficiente para não deixar vazar nada. 

 

Bakugou zombou de sí mesmo. E daí sobre o subgênero do garoto! Ele confiava em si mesmo com seu autocontrole. Se fosse alfa, no máximo ele liberaria mais feromônios, se fosse um beta, era praticamente mesmo que nada e se fosse um ômega? E daí? Ele não era um animal, não iria atacar o garoto, principalmente um ômega ferido. 

 

Com cuidado, o loiro começou a retirar as roupas do garoto. 

 

— Puta merda - Bakugou arregalou os olhos. 

 

Quanto mais pele ia sendo exposta, mais o alfa tinha noção do quão ferrado o garoto estava. Parecia uma pintura feita por uma criança de dois anos. Azul, roxo e vermelho por todos os lados. 

 

— Espero que não tenha nada quebrado. 

 

Isso era tudo o que o loiro poderia pedir. Era duvidoso, já que Bakugou poderia contar de forma literal, as costelas do garoto atrás de sua pele. 

 

Com o pano molhado, começou a limpar o garoto. Ele teve que trocar de água três vezes, já que a água estava tomando tonalidades vermelhas e marrom. Levou quase uma hora inteira para terminar. 

 

Bakugou teve muito cuidado com a limpeza. Passando o pano em lugares que ele definitivamente não deveria passar, os princípios e a educação não iriam limpar a sujeira nas feridas, em baixo das unhas e muito menos evitar uma infecção. 

 

O loiro quase se ajoelhou quando não encontrou qualquer fluido seminal no garoto. Por pior que o garoto parecesse, pelo menos ele não foi violado. 

 

Querendo ou não, havia esse tipo de pervertido que não se importava com o subgênero, tudo o que via era um buraco. 

 

Depois de terminar a limpeza do garoto, Bakugou foi tomar o seu próprio banho. Ele se sentia sujo só de olhar para o garoto na sua cama, como se fosse ele quem estava naquelas condições. Depois de se limpar, ele vasculhou na casa qualquer analgésico que pudesse encontrar. O garoto iria precisar, para as dores. 

 

Foi gentil o suficiente para deixar uma nota ao lado de um copo com água o analgésico. Além de disso, deixou uma tigela com mingal caso o garoto sentisse fome. 

 

Bakugou ainda lutou um pouco com seus pensamentos. Tudo bem dividir o quarto, mas dormir na mesma cama, era mais do que fora da sua zona de conforto. 

 

Serrando os dentes, Bakugou subiu na cama. É seu quarto, sua cama. O inferno iria congelar antes de ele abrir mão de seu próprio conforto por causa dos outros. Além disso, se o garoto acordasse e entrasse em pânico no meio da noite, pelo menos o loiro poderia fazer alguma coisa. 

 

Se convencendo, o loiro pulou na cama e fechou os olhos. Não demorou muito para que ele estivesse dormindo. 

 

 

Bakugou acordou alarmado no meio da noite. Seu sono não era leve, mas até mesmo os mortos acordariam ao serem chutados. 

 

O bastado ao seu lado resolveu se debater. Jogando braços e pernas para todos os lados como se estivesse lutando e um dos seu punhos quase acertou o rosto de Bakugou. 

 

— Mas que diabos - Bakugou grunhiu ao sair do alcance do outro garoto. 

 

Ele parecia está tendo um pesadelo. O cheiro de angústia se espalhando fez com que o pensamento de que o garoto pudesse ser um beta fosse descartado. 

 

O garoto definitivamente estava chorando e fazendo barulhos como um filhote ferido. 

 

Bakugou não é bom em consolar ninguém. Ele não tem essa paciência ou delicadeza. Nem mesmo ele acreditou que teve tal gesto de solidariedade, só fez porque era o certo para alguém que diz que vai ser um herói tão abertamente. 

 

O cheiro de angústia estava aumentando e Bakugou suspirou. Sempre tem uma primeira vez para tudo e querendo ou não, ele teria que se esforçar para ajudar a pessoa que ele trouxe para dentro de sua casa. 

 

Com o seu melhor esforço, ele liberou feromônios calmantes ou o mais próximo disso. Caramelo e um leve cheiro de fumaça começaram a sair, muito leve. 

 

O loiro viu o garoto ficar um pouco tenso e então se acalmar aos poucos, parando de se debater. Bakugou deitou-se de lado e estendeu os braços para o garoto. 

 

O toque fez o desconhecido se encolher ainda mais, mas ele ficou parado. Lentamente, Bakugou puxou o garoto na sua direção. 

 

— Tudo bem - Bakugou murmurou - vai ficar tudo bem. Você está seguro. 

 

Os feromônios do alfa ficaram ainda mais suaves, ao ponto de parecerem o cheiro natural do ambiente. O cheiro de angústia foi sumindo aos poucos e o garoto foi relaxando. 

 

Bakugou lembrou de algo que ajuda no controle de filhotes agitados e assustados. Isso é algo que apenas ômegas tem a capacidade de fazer. Bakugou não sabe quanto aos alfas, já que ele nunca viu nenhum fazer. Ronronar. 

 

Bakugou tentou. Sua primeira tentativa foi mais do que um fracasso, foi praticamente um desastre. Saiu como um carro cujo motor morreu e alguém insiste em tentar ligar. Até sua garganta doeu um pouco. 

 

Mas o loiro é inteligente, ele aprende com seus erros e ele sabe que o ronronar e uma mistura de vibrações das cordas vocais, fazendo um barulho retumbante que parece sair do peito. 

 

A segunda tentativa foi mais eficaz, saindo bem melhor e aos poucos ele foi pegando o jeito. Logo, ele estava emitindo um barulho grave, mas sem dúvidas, um ronronar. 

 

Parece que ele estava fazendo certo, pois o garoto relaxou completamente em seus braços e até se aconchegou contra ele. 

 

Depois de garantir que o garoto estava realmente dormindo, o loiro voltou a dormir. Seus feromônios nunca parando, assim como seu ronronar. 

 

 

É sábado e Bakugou acordou tão relaxado e confortável, que quase esqueceu que tem alguém com ele na cama. Alguém muito ferido e que ele deveria conferir se ainda está vivo. 

 

O loiro se sentou e ficou confuso ao ouvir um barulho ritmado que parecia vir de um gato gigante, isso até ele perceber que vinha dele. Com um estalar de língua, e parou o ronronar e olhou para o corpo ao seu lado. 

 

Ontem, ele não teve paciência para olhar direto para o garoto. Os machucados eram muito chamativos para ele sequer prestar atenção em qualquer outra coisa. Mas agora, ele podia olhar para o garoto direito. 

 

Chocantemente magro. Não tinha outra coisa para dizer quando ao garoto. Ele apostava em desnutrição. Pálido de forma doentia, chega a ser amarelo, o que indica palidez por doença, além das bochechas fundas. 

 

Descartando a aparência doente, Bakugou olhou para o rosto escondido em baixo de toda à miséria, aquele além dos machucados e da doença. 

 

Bonito. 

 

Não uma beleza extraordinária, mas uma elegante. Seu rosto é redondo, com nariz de botão e bonitinho. Lábios rachados, mas se ele se cuidasse um pouco, revelaria labios cheios e de formato bonito. 

 

— Céus, essas olheiras podem fazer qualquer um pensar que suas órbitas estão expostas - Bakugou suspirou - e que diabos de cabelo é esse? 

 

Os cabelos do garoto são um pouco grandes, com certeza se não estivessem tão arrepiados, iriam bater na altura da mandíbula do garoto. Tem uma cor que seria considerada bonita, num tom roxo, isso se não tivesse tão seco e quebradiço. 

 

Bakugou olhou para o criado mudo. O copo, a pílula, a tigela, tudo estava do mesmo jeito e ele tem certeza que o garoto não se moveu no meio da noite. 

 

Com as sobrancelhas franzidas, o loiro tocou a testa do garoto e seus olhos se arregalaram. 

 

— Porra! - ele retirou a mão rapidamente - inferno. 

 

Ele deveria ter notado. Foi um erro de principiante que ele não deveria cometer. Como diabos ele não checa a temperatura de um paciente? 

 

O garoto passou pelo inferno. Qualquer um que tivesse passado por tal extresse, ficaria com febre e na situação do garoto, Bakugou não dividaria que ele poderia deixar de respirar no meio da noite. 

 

O garoto estava tão quente, que lágrimas fisiológicas estavam escorrendo de seus olhos. Ele nem mesmo acordou. 

 

Puxando as cobertas do garoto, Bakugou pulou da cama. Ele tinha que pegar água gelada e compressas frias para ajudar a esfriar o garoto. 

 

O loiro pegou a água e esmagou o analgésico dentro do copo. Não era o certo, mas era mais eficiente e com efeito mais rápido. 

 

Sentou-se na cama e apoiou o garoto, manobrando-o para que ficasse meio sentado e meio deitado na cama. 

 

— Vamos, abra a boca. 

 

-

 

Bakugou podia jurar que talvez seus dias de valentão na escola, estejam sendo recompensados com o Olheiras. Foram meros dois dias, mas Bakugou sentiu que foram anos. 

 

Estava para levar o garoto para o hospital e dar adeus. Ele deveria ter feito isso em primeiro lugar, mas não, ele tinha que ouvir alguém próximo da morte e que não queria ajuda. 

 

Outra coisa, Bakugou começou a ter mais respeito com os funcionários dos hospitais. Eles sim são heróis, por aturar tantas dificuldades ao trabalhar com pacientes que não colaboram. 

 

Ele teve um mal descanso e quase ficou doente também, só que mental. 

 

Olheiras é um doente quieto, mas o suficiente para não ser colaborativo em nada. Tomar os analgésicos foi uma luta tremenda; Banho foi como uma batalha e Bakugou começou a ter medo de si mesmo ao começar a pensar em matar o garoto. 

 

A febre do desconhecido só parou no domingo de noite e Bakugou sentiu que não viveu por dois dias. Foi praticamente cuidando de um doente e lutando para que ele mesmo não fique doente. 

 

Ele fez sopa de legumes. Tinha conseguido alimentar o garoto, mas já estava perdendo a paciência. 

 

Voltando para o quarto, assim que abriu a porta, ele quase fez o clichê dos filmes. Derubar qualquer coisa que tivesse nas mãos enquanto olhava para um lugar específico. 

 

Mas Bakugou não estava vivendo em um filme e muito menos se deixaria levar pelos clichês. 

 

— Você está acordado. Porra! Isso é ótimo - Bakugou quase chorou, de verdade. 

 

O garoto pareceu confuso. Ele não sabia onde estava e tinha uma pessoa que ele não conhecia falando com ele. Então ele se sentiu arrepiado ao ver o outro ocupante do lugar, sorrindo de forma selvagem enquanto o olhava.  

 

— Olheiras! Hora de comer. 

 

Bakugou quase jogou o prato nas mãos do garoto e só não fez isso porque o garoto passou as últimas 48 horas praticamente em estado vegetativo. 

 

O menino ficou tenso ao ver o loiro se aproximar e de forma instintiva, mostrou os dentes. 

 

Bakugou parou para ver a reação. Não porque estava com medo, mas sim por causa da visão de presas levemente alongadas. 

 

O garoto arregalou os olhos e Bakugou também. O motivo? O loiro estava ronronando. Ambos surpresos por motivos totalmente diferentes. 

 

O garoto, porque ele simplesmente nunca viu um alfa ronronar. Bakugou, porque ele estava rornando para a visão de presas. Ele era algum tipo de tarado? 

 

— Você tem que comer - Bakugou falou simplesmente. 

 

Mesmo que o garoto ainda estivesse tenso, ele na direção da cama. Ele estava se esforçando para não cair para trás, mas Bakugou viu uma luta infrutífera e resolveu ajudar. Mesmo que o garoto ainda mostre as presas. 

 

— Seja um bom garoto e coma sua maldita comida, Olheiras.  

 

— Meu nome não é Olheiras - o garoto falou pela primeira vez. 

 

O tom é rouco e tremido. Obviamente que a garganta dele não iria se curar milagrosamente em dois dias, não sem alguém com uma individualidade de cura.

 

— Meu nome é Shinsou Hitoshi.