Chapter Text
└─⊰❁ Prelúdio, capítulo 1: Amor; a ausência da ansiedade.
Pressionou então o homem baixinho as roupas do marido contra o peito para que aquele cheiro bom do perfume forte reverberasse nos seus pulmões ou se derramasse como um bom copo de leite quente no seu coração, como um grande pedaço de gelo onde ele escreveria o nome de Charles derretendo num dia quente contra o peito. Ele havia saído de um coração feito por mãos fortes, de uma mulher que estendia a mão bem alto e não se calava sequer por uma vez diante do mundo. Sua mãe, Angela "vou te dar um motivo para chorar caso mexa com minha família" Williams Roux, ensinou-o a lidar com a vida de vez em quando insustentável de ser um lutador; enquanto ainda guardasse cada ensinamento, seria grato por todas as vezes que sobreviveu, por cada alimento do qual conseguiu comer, por cada manhã em que acordou bem ou ao menos foi capaz de abrir os olhos, por cada reza que orou pela comida na mesa e à todas cuja orou para as mãos que fizeram a refeição e às mãos que fizeram as mãos que fizeram sua refeição. Ele seria eternamente grato pela sua mãe ensiná-lo do jeito certo a lutar pelo amor.
Já de seu pai, aquele que o amedrontou durante toda a infância e não via há tempos, nunca aprendeu as coisas certas. Ele se lembra de como o homem jogou-o no chão para não se levantar mais, ergueu bruscamente o dedo para apontar em como a alma do próprio filho queimaria no inferno por amar outro homem. Miles recorda-se de olhar uma última vez nos olhos de quem jazeu na sua vida e não conseguir enxergar a figura paterna que o sujeito deveria ser e algumas raras vezes já foi. Mas se ele sobrevivera intermináveis dias à fome e frio por não ter o que comer ou um lar para habitar, então não sentiria falta de algo que nunca foi real, então sobreviveria àquilo e se casaria com quem luta por amor até hoje. Tantas surras deveriam ter sido para algo, sim? Tanto sofrimento não fora em vão, né? Uma porrada da vida era apenas uma porrada da vida, um pequeno detalhe ínfimo cujo ele lidaria com as mãos nas costas novamente, não é? Era melhor não olhar para trás em lugares que machucam, certo? Porque sempre fora assim e coisa alguma iria mudar; o Sol ainda era o Sol, a Lua ainda era a Lua, as pessoas que o amavam ainda eram as pessoas que o amavam, sua mãe ainda era a sua mãe, seu nome ainda era seu nome (e, caramba, era um nome muito bom), e Miles ainda continuaria a lutar cansativas batalhas intermináveis todos os dias até que a derrota ou o estresse levasse-o a morte. Ele não deveria ficar cansado de lutar e se reerguer todos os dias, era a única coisa que sabia fazer. Ele não deveria ser ingrato quanto todas as lições aprendidas na vida árdua em Yukon. Ele não deveria vacilar nas batalhas frequentes. Ele não deveria ser covarde. Ele não deveria se entregar aos sentimentos. Ele não deveria chorar. Mas encontrava-se exausto demais até para se mover. Não, o canadense não deveria mentir até para si mesmo; Miles estava não apenas exausto, mas também estava com medo.
O ruivo veio de um coração tão doce criado para zarpar, velejar nas ondas, continuar nadando mesmo quando a tempestade parecia impossível, de uma casa tenaz, morna, firme, terna e suave, que temia desapontar seu lar. Veio de um navio resistente feito de todos que um dia já lhe disseram amá-lo eternamente e ficaram para provar isto, então ele simplesmente temia não valer a pena. Gostaria de ser indômito, de continuar a lutar todos os dias restantes na vida sem cansar e continuar impossivelmente bem. Gostaria de ser forte, porém ele sentia o contrário; Miles estava aterrorizado em apenas admitir em voz alta que talvez, só talvez, ele fosse frágil. Miles estava assustado em dizer que quebrava como uma febre, como um mau hábito, como um graveto, como uma taça de vinho, como um vitral, como um parabrisas, como ondas no mar. Ele costumava ter tanto potencial e agora não sabia o que havia acontecido consigo.
As vezes não passava de uma pilha de ouro dos antigos dias de glória num canto acumulando poeira, mas quando voltava a ser alguém que tinha lugar neste mundo, porra, valia ter ouvido cada pessoa dizendo-o sobre ele não conseguir ser o suficiente. Quando não só Charles como todas as pessoas ao seu redor diziam que o amavam do jeitinho dele, ficavam para apoiá-lo e acreditar no potencial, mesmo que seu coração batesse tão alto a ponto de não conseguir deixá-lo falar isso de volta, Miles acreditaria na existência do lado positivo da vida e em como algum dia ficaria tudo bem.
Ainda acreditava que tudo ficaria bem mesmo não querendo se lembrar em cores a briga da madrugada passada onde ambas as partes daquele casamento gritaram irracionalmente mais alto que a outra sem exatamente desejar ouvir o que tinham a dizer. Fora em vários momentos durante os anos dos quais o orgulho havia conclamado mais alto e o canadense de ego inflado tanto quanto o piloto do time vermelho desejou simplesmente calar o próprio marido, mas ele tinha a impressão de arrepender-se mais sobre a discussão passada em relação às muitas outras porque tudo falado ali (ou conclamado) encontrava-se ainda bem vívido na mente. Quando começaram a morar juntos seguidamente a um ataque de lince sofrido pelo engenheiro, Leclerc sugeriu algo impensável sobre como talvez o menor devesse mandar arrumar o cachorro após Ragnar rolar na lama e ele naturalmente mandou-o se ferrar concluindo em como seu - na época - noivo era absolutamente o pior por pensar em submeter aquela criatura angelical ao horror de ser banhada pelas mãos estranhas dos funcionários do pet shop do bairro em Monte Carlo. Quando estavam em silêncio na companhia do outro, o homem concentrado no volante, ele prestes a cair no sono numa canção meio tristinha soando ao fundo, e Charles simplesmente quebrou o clima para lhe soltar algo elitista que vinha pensando há muito tempo: "você não deveria gastar seu talento num lugar tão merda quanto a Haas" ele disse semanas após apoiá-lo "eu te ofereci um lugar na Ferrari e você foi estúpido o suficiente para não aceitar por causa das opiniões dos outros" finalmente expondo os pensamentos, persistiu a sentar no trono de privilégios onde as coisas eram mais fáceis. Quando exigente ele chamou a atenção sobre a forma que o automobilista nunca parava as mãos quietas numa entrevista (hoje em dia acha isso adorável) ou na retórica de Charles quanto a sua mania de terminar todas as letras escritas para as canções do mais velho feitas no piano repetindo a última linha e colocando as palavras "Lua" ou "honestamente" em cada música, então sendo respondido infantilmente no meio da cara com algo tipo "Eu preferiria honestamente ter um céu anil sem a Lua, do que honestamente ter uma canção sem a Lua". Talvez foi em uma daquelas noites sombrias quando o garoto era duas pessoas e nenhuma delas era realmente ele mesmo (apenas caricaturas das suas piores qualidades), onde o jovem predestinado a um futuro glorioso era noivo de alguém que ainda não conseguia retribuir um "eu te amo" ou expressar simples emoções sem pensar que tais coisas o fariam fraco. Ou quando, como ontem, a distância havia os separado por dias e mesmo assim Miles foi obrigado a optar por ir ao trabalho que deitar-se na cama acolhedora ao lado do amante e levantar apenas pela manhã. Em algum ponto de todos aqueles anos o recém Roux-Leclerc entendeu a forma da qual ambos estariam sempre lutando pelo amor, sobre o jeito como arrastaria seu próprio coração para o ringue mesmo que o homem esguio de belíssimos olhos verdes do outro lado do tablado lhe oferecesse todos os dentes branquinhos perfeitos num daqueles sorrisos angelicais para desmanchá-lo igual algodão-doce, mas agora estava duvidando se as pequenas batalhas por amor estivessem transformando-se em brigas por orgulho. Ontem ele estava certo, hoje quando retornou à casa sem indícios do marido e arrepiou-se pelo medo da solidão talvez nem tanto.
— Amor — Quando os sapatos bateram duro no chão frio de madeira do quarto, Charles retirou o rostinho amassado de sono do amontoado de cobertores quentes. —, aonde vai?
Riu doce sentindo o coração bater tão alto a ponto de ouvir nas suas orelhas enquanto inclinava-se lentamente para bagunçar o cabelo escuro do mais velho. — Vou ver o Carlos e a equipe, precisamos discutir urgentemente sobre um problema que deu no carro na décima terceira volta da corrida de ontem. — Inocentemente pensou ter a ferida daquele assunto fechada quando o casal sentou-se no início do seu contrato com a Ferrari para discutir seriamente sobre, mas o decorrer seguinte afirmou o contrário.
Imediatamente sentou-se irritado. — 'Tá me dizendo tranquilamente que vai sair no meio da madrugada a trabalho ao invés de ficar com o seu marido?! Vai se encontrar com outras pessoas no meio da noite? Vai ver o seu "marido de trabalho"?! — Seu rosto ficando vermelho Sol no instante que mencionara o assunto repetidas vezes argumentado durante todos esses meses e frequentemente acabado em sexo alucinante, sobrancelhas notavelmente franzidas num sentimento irascível, lábios vermelhos curvando-se para baixo. Tudo era um estopim para estourar numa briga. — Eu achei que já tivéssemos conversado sobre isso.
— Charles, eu realmente não quero brigar sobre isso. Você sabe muito bem que este é o meu trabalho, e se eu trabalhasse contigo faria a mesma coisa. — Virou na cama antes acolhedora, porém agora fogo cruzado, oferecendo-lhe uma face azeda. Se ambos trabalhassem juntos, aquele tópico cujo despertava sempre o pior nos dois nunca teria acontecido; a raiva não passava de ciúmes sentido pelo outro devido a uma única escolha por parte de Miles. O canadense deveria nunca ter saído da Haas porque, cacete, certamente trabalho e vida real não se misturam - ainda mais quando você opta por trabalhar para outra pessoa ao que seu marido. Ele supostamente deveria fazer o quê? Quebrar as políticas da Fórmula 1 para trabalhar com Charles? Ser antiético e aumentar o número de pessoas odiando-o porque estava num relacionamento com um piloto enquanto trabalhava como engenheiro mecânico projetista-chefe? Havia batalhado muito para chegar até ali, não desejava mais pessoas o dizendo sobre a maneira que supostamente conseguiu o cargo através do relacionamento deles. Charles simplesmente não conseguia entender isso ou não queria. — Acha que eu posso me dar ao luxo de ficar descansando enquanto minha equipe precisa de mim?
— Então vá, Miles. — Soltou evidentemente magoado. — Porra! Vá e não volte mais 'pra casa até amanhã, porque eu não vou conseguir olhar 'pra sua cara ainda hoje sabendo que apesar de nós dois passarmos dias sem nos ver mesmo estando casados, você prioriza o trabalho acima de mim. Sempre priorizou! — Empurrou a língua contra a bochecha direita levemente corada pelo contato do travesseiro com a pele minutos atrás quando estava dormindo. Subitamente o mais novo desejou ao divino mistério profundo que ele estivesse dormindo ainda. —… quando eu notavelmente faço o contrário sem pensar duas vezes.
O estresse de um mal que erroneamente ambos estiveram acumulando na garagem de casa há longos meses acionou a merda fora do ruivo quando o sangue lhe subiu às bochechas e gritou mais do que gostaria de ter gritado. — Quer saber, Charles?! 'Tô de saco cheio de você jogando na minha cara que desistiu de uma corrida para me levar 'pra casa porque eu estava cansado e passando muito mal! Fique deitado nesse seu ego inflado do caralho e indiferença, nem ouse tentar entender mais tarde o porquê de eu estar indo trabalhar essas horas! — Levantou de supetão reinando numa raiva incandescente sabendo do tamanho arrependimento cujo lhe visitaria mais tarde. — Nunca mais desista de uma corrida por minha causa mesmo se eu estiver morrendo! Já sei bem o inferno que vai ser depois disso.
— Miles...! — Ouviu-o chamar ao que ele saía batendo estrondosamente a porta.
— Eu muito provavelmente não vou voltar até amanhã depois dessa, então aproveite o tempo longe do "marido ingrato" que sou!
Bom, não estava totalmente errado, mas também não estava totalmente certo. Absteu dos pensamentos orgulhosos repetitivos porque em algum ponto perder tudo pelo ego tornava-se cansativo. Pressionou carinhosamente outra vez a blusa perfumada contra o peito que sentiu-o envolvendo seu corpo num abraço suave daqueles cujo fazia-o desejar gritar aos quatro ventos quão loucamente adorava ele. Lembrou-se de como maravilhosamente bem cheirava o monegasco; Charles tinha cheiro de casa, de sol da manhã, de uma noite quente de verão, de um perfume indecifrável cujo você não sabe de quem era, mas que ficou marcado na sua memória para sempre. Muitas calças e camisetas foram dobradas até os latidos do único companheiro para a vida do qual não havia decepcionado roubar atenção, Ragnar. Só isto fez o sujeito aparentemente sozinho se recordar finalmente antes de toda a casa pegar fogo do ensopado de carne que preparava anteriormente à série de pensamentos explosivos.
Lá embaixo Leclerc estupefou-se ao ser atingido pela visão belamente furiosa do brilho equiparado à constelações luzindo nos olhos chocolate do amado, aqueles olhos lindamente repletos de paixão e calor ao ponto de reverberar grandiosamente igual um vendaval na sua alma. Após incontáveis milhas percorridas para chegar ali, sentiu-se novamente em casa. Qualquer culpa, medo ou raiva que sufocava a garganta de Miles e tornava mais difícil respirar dissolveu-se num passe de mágica como o coelho branco retirado da cartola ou a moça bonita cortada ao meio. Podia sentir aquele amor intenso mesmo não sendo tocado pelo automobilista, era tão poderoso, tão arrebatador, o deixava sem fôlego.
Inspirou fundo sem forças para brigar com aquele rostinho miúdo tão adorável. Sentou-se prontamente na bancada de mármore, tombou a bochecha farta contra o ombro e soltou o ar. Seja-lá o que este sujeito fazia no cômodo se movimentando para lá e cá além de desligar a panela do ensopado, parou no exato instante onde ganhou companhia. Haviam duas certezas nessa vida; a da morte e a de que Charles definitivamente não sabia cozinhar. — O que está fazendo, mon petit? — Sorriu levemente receoso de aproximar-se.
— Eu não sei... só 'tô apreciando. — Mesmo assim o fez e rodeou-o indiretamente com os braços firmes.
— Se eu não estivesse aqui, essa casa pegaria fogo.
Riu contido. — Tanto faz, 'Charl. Tenho certeza que qualquer coisa queimada feita por mim é melhor que sua comida, cozinho melhor que você.
— Qualquer um cozinha melhor que eu — Contou vantagens agindo como se tudo estivesse normal. — , não é muito para se gabar.
— Então vou me corrigir — Rebateu a provocação sem tirar o maldito sorrisinho presunçoso da face do qual o motorista apaixonou-se. —: eu cozinho muito melhor que você.
— Ei… — Miles nunca percebeu que era sensível em qualquer lugar até que sentiu Charles respirar palavras contra sua pele, a sensação enviando pulsações de prazer pelo corpo. — me perdoa?
Um sinal divino ascendeu os céus com todas as estrelas possíveis quando destinaram ambos a perceberem seus erros por conta própria. — Sinto muito.
— Você não precisa pedir desculpas, mon coeur. — Juntou os lábios num biquinho cativante.
Dedilhou o rosto masculino do parceiro usando as pequeninas mãos levemente ásperas. Cada toque um desejo ardente diferente, cada resvalo uma sensação prazerosa única. Leclerc era um homem simplista; após uma árdua corrida só desejava se jogar de corpo e alma nos braços do amante para derreter-se dos pés à cabeça nele. — Você também não precisa pedir desculpas, meu bem-querer.
Pressionou lentamente num carinho eterno os lábios róseos finos contra os vermelhos merlot. — É claro que sim. Eu estava errado.
— Eu também estava. — Subiu os olhos da boca levemente curvada em um sorriso afetuoso para os grandíssimos olhos verdes dos quais desejava nunca mais acordar numa manhã sem ver. — Desculpe por escolher outra pessoa.
Negou abaixando a cabeça por alguns breves segundos antes de descansar nos ombros delicados. — São os regulamentos da FIA, meu amor.
— Mas no começo eu não estava exatamente apreensivo por causa disso depois que saí da Haas. — Murmurou brando contra o ouvido dele a ponto de causá-lo arrepios. — Eu tinha medo do que as pessoas iriam falar de mim, de você, de nós. Você estava certo… mas as pessoas falam tanto.
Com a face erguida segurou meigo os palmos pequenos com o seu. A diferença de tamanho entre eles era bastante adorável. — Eu não posso nos ajudar se você permitir que as opiniões de quem não importa te atinjam, mon petit. Deixe suas inseguranças na nossa cama, seus medos no nosso colchão, e eu prometo que vou te guardar de todo o mundo… — Aproximou-se um tiquinho mais para colar os lábios macios. — E eu prometo te fazer enxergar a pessoa incrivelmente capaz que você é. Eu quero te fazer viver tudo o que acha que não merece. — Bochechas com bochechas a ponto dos cílios quase se encostarem. — Se sou feliz contigo, então tentarei de tudo para te fazer feliz comigo.
— Eu já sou, meu bem.
O monegasco prestes a chorar com a tamanha força do amor à Miles pressionou-o contra o peito. — Se você me der só um pouquinho do seu amor... — Sussurrou bem baixinho para só os dois escutarem, mesmo que não fizesse sentido pois estavam sozinhos ali. — Se você me der só um pouquinho do seu amor, mon petit, eu prometo te dar todo o meu coração, minha alma e tudo que me resta. Você é o meu infinito, o meu começo, o meu meio, o meu sentido e minha razão... te amo com tanta força que eu acho que nunca mais vou ser capaz de amar outra coisa que não seja você.
O coração bateu tão alto quanto as ondas poderosas do oceano chocando contra o cascalho metálico de um navio, outra vez era como se Miles fosse incapaz de responder, mas ele fez esforço. — E se eu te der todo o meu amor, querido? Eu te amo não só porque você me faz estar empolgado para acordar amanhã do teu lado, como também porque você foi o único que fez todas as canções de amor do mundo inteiro voltarem a significar algo para mim novamente.
— Se você me der todo o seu amor… — Pareceu divagar alguns instantes antes dos lábios enrolarem-se sensualmente num sorriso genuinamente inocente. — acho que vou explodir de felicidade. Provavelmente meu coração não vai conseguir aguentar.
Levantou uma das sobrancelhas. — Se eu te der todo o meu amor você vai ter um infarto?
— Sim, mas eu gostaria muito de ter um infarto se fosse preciso para receber todo o seu amor. — Riu do quão bobo seu marido poderia ser.
[...]
Miles sentia o sol da manhã já queimando na glória dos vinte e um anos de sua face e o vento gelado do quintal batendo contra a pele molhada de suor feito água fria. A camisa ensopada da gola até o peitoral robusto, as mangas apertando-o os braços um pouco mais fortes, e mesmo aparentando exaustão no começo do dia os olhos dele brilhavam numa faísca jovial movida a empolgação. Ele tinha paixão pelo que estava fazendo, mesmo que os jovens ao redor tentassem lhe roubar a paciência escassa. — 'Tá vendo, Arthur?! Esse cara é um grandíssimo filho da puta sem coração. — Pegava pela vigésima segunda vez no pé do coitado canadense o menino de traços nigerianos. — O Charles trabalha tanto quanto você nessa época do ano, 'Milo boy. Deixa de desculpa e aceita logo vir com a gente 'pra virar a noite no Jimmy'z! Vou levar cannabis.
O irmão caçula do piloto da Ferrari concordou quieto bem sutilmente, temendo que o marido do ruivo escutasse e se zangasse com a proposta. Comicamente Leclerc tinha ciúmes até do vento, imagine do recém-marido numa balada repleta de estranhos com alguns jovens anos dez sem noção alguma? É claro que isto era um exagero, mas passava a mensagem precisa. — Primeiramente: não me chama de "Milo boy". Eu posso até aguentar "Milo", esse apelido ridículo 'pra encurtar meu nome que já é curto, mas "Milo boy" é sacanagem. Segundo: se você não se lembra, ô idiota, eu sou casado. Terceiro: eu não acho que sentar e conversar por horas com velhos brancos podres de ricos nessa época do ano seja um trabalho. Quarto: porque… por que você achou que maconha me convenceria a ir? Você sabe que eu não boto essas merdas no meu corpo, muito menos no meu neurônio.
— E daí? Eu 'tô te convidando 'pra beber com a gente, não 'pra enfiar a língua na garganta do primeiro cara que aparecer. — Rebateu exageradamente alto para tingir a face do amigo em vermelho automotivo, ignorando completamente os outros argumentos. — Vamos lá, soldado! — Cutucou novamente o braço do baixinho irritado.
Murmurou amaldiçoando Jamal até a sexta reencarnação dele. — Eu espero que Charles não compre mais uma passagem 'pra você vir 'pra Mônaco.
— O que disse, 'Milo boy?
Suavizou a expressão diabólica num sorriso afetuoso. — Nada. Tudo bem, eu vou… mas só dessa vez.
— Aí sim! — Vibrou saltitando de emoção feito uma criança, ação esta que causou risos genuínos no mecânico construindo minuciosamente o pequeno kart do zero para o futuro filho que muito em breve viria. Ele devia aproveitar enquanto ainda não era pai, certo? Demoraria muito tempo para conseguir se divertir feito um adolescente irresponsável após o nascimento da pequena maravilhosa vida gerada a cada dia no ventre de uma mulher incrível ao ponto de bondosamente oferecer-se para presentear o casal com um garotinho.
Ele conseguia vê-lo tocando os dedinhos pequeninos no seu, correndo para todos os cantos, pintando as paredes com rabiscos que futuramente seriam obras de arte, sujando os tapetes novinhos que haviam comprado para customizá-los, rindo como se ouvisse a piada mais engraçada de todas, e enchendo a casa inteira de alegria. Abaixou o olhar para o espaço vago no chassi onde colocaria o assento e imaginou o menininho sentado bem ali pronto para competir igual o pai. Sorriu. — Ei, amor! — Chamou o futuro outro pai da criança. Ele estava empolgado porque filhos eram uma bênção, certo?. Ele empolgava-se porque, Deus, como estava pronto para ter essa vida com Charles!
— Oui, mon petit? — Cobriu-o de beijos no instante que chegou. — Ça a l'air incroyable!
— Sei que está incrível, afinal, fui eu quem fiz. — Gabou-se como de usual prestes a contar uma piada. — Sabe de uma coisa? Esse kart que eu 'tô montando 'pro nosso garotinho tem mais aerodinâmica que o seu carro da temporada de 2020.
Caiu na risada. — Vai se ferrar, Miles!
