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Sinner

Summary:

Na doçura do amor reside um gosto metálico de traição.
Quando Naruto conquistou a coroa, esqueceu daquela em que pisou para alcançar tal status. Ela, porém, retornou para tomar o que lhe era devido.

Inspirado no filme Malévola | Menção NaruHina | Darkfic

Notes:

Yo amores 🦋

Saindo do abismo sem fim para postar essa história inspirada em Malévola, passando num universo parecido do filme e contém algumas cenas do próprio filme, porém não com o mesma delicadeza que existiu no filme já que a história segue uma linha de vingança completamente diferente.

Chapter 1: O traidor

Chapter Text

Havia um território onde o vento não atravessava — ele apenas sussurrava. Um reino escondido entre galhos fortes e rios escuros que cintilavam sob Luas duplas. Seres mágicos diversos viviam por entre as gramas e folhas, amparando a natureza sem nunca atravessar os grandes muros para o reino humano. 

E entre todas as pequeninas jardineiras, havia uma fada cujo voo era o mais alto.

Hyuuga Hinata.

Cabelos longos que arrastavam no chão, escuros como uma noite estrelada. Olhos em um perolado suave, quase prateado. Suas asas eram vastas, translúcidas como vitral sob o Sol, mas resistentes e afiadas como lâminas. Quando cortavam o céu, deixavam um rastro de luz pálida que desaparecia apenas segundos depois — como se o próprio ar lamentasse sua partida. 

Sua personalidade era tão pura que acreditava que todos os seres vivos poderiam viver em harmonia, tal como eles viviam com a natureza. No entanto, o coração humano é volátil, facilmente corrompido nas horas mais frágeis e nos desejos mais obsessivos. 

E esse foi seu primeiro erro — confiar na palavra “amor” de um homem que nunca saberia realmente o que era amar.

… 

Naruto não nascera destinado ao trono — era o filho fora da linhagem legítima, tolerado mais do que amado. Cresceu à margem do palácio, mas com olhos atentos suficientes para não ignorar o brilho da coroa e sua capacidade de fazê-lo ser realmente visto. Exceto que a capacidade de alcançar esse poder dependia de algo que seu nascimento não foi capaz de oferecer.

Aos quinze anos, em uma das inúmeras noites em que era negligenciado pelos servos, escapou do castelo, cruzando becos escuros e sujos até a conhecida floresta dos deuses. Ele poderia não acreditar neles, porém depois de muitas vezes tentar entrar naquele enorme jardim celestial, acabou por conhecer Hinata, entre todos que poderia encontrar — e ele sabia que tinha chances de criaturas maiores e assustadoras virem expulsá-lo. 

Mas ela… 

Os deuses lhe mostraram que poderia existir um ser tão inocente e puro no meio da sujeira ao ponto de despertar nele algo que não sabia nomear — e não era algo como ternura e era complexo demais para ser amor.

“Você veio de novo,” suspiro, “volte para sua casa, não tem nada aqui para você. Não entende isso?” 

Foi o que ela disse no primeiro instante, surgindo quase da luz da Lua e expulsando-o com uma leveza dócil, mas crua, distante. 

“Insolente! Um príncipe vai aonde quiser e você não tem nada a ver com isso!” ditou convicto que isso faria ela se assustar e reverenciá-lo.

Ela porém riu de sua pose real. “Guarde sua realeza para seu mundo, aqui ela não serve de nada.” 

A resposta poderia ser ofensiva aos ouvidos de um príncipe, talvez até humilhante, mas estando em um lugar onde nem mesmo seu pai tinha coragem de pisar, Naruto se viu apenas engolindo as palavras grosseiras e apelando para algo que faria a jovem fada permiti-lo ficar.

Por um segundo pensou no que poderia ser melhor, mas sua barriga foi mais rápida em agir. O som faminto quebrando o silêncio. 

“E-Eu… Droga…”, praguejou baixo, performando uma expressão infeliz.

E ela o encarou por um instante antes de sorrir menos defensiva, recebendo-o como se fosse realmente uma criança desesperada — não um príncipe, não um bastardo.

“Ah!” Aqueles olhos exóticos se abriram, tornando seu rosto mais juvenil. “Certo. Fique aqui. OK?”

Antes que pudesse dizer algo, aquelas asas brancas imaculadas se revelaram diante de seus olhos e um vento forte soprou em sua direção. A beleza daquele par de asas afastou todos os seus pensamentos. E trouxe outro — mais feio.

Posse.

Inveja.

Mas Naruto soube esconder isso tão bem, que na volta dela, se manteve manso e agradecido que até o azul de suas íris brilhavam cristalinos. Dali em diante eles passaram a se encontrar próximo a uma ponte que dividia os territórios, uma passagem mais segura ensinada por Hinata, escondida próximo das árvores mais antigas e oculta dos olhos humanos. Precisava apenas da benção de uma criatura mágica para ver — uma pequena pena translúcida dada por ela a ele.

Durante meses Naruto atravessava sozinho, as roupas menos luxuosas, o sorriso luminoso.

E Hinata sempre o esperava, com uma cesta feita de folhas, as asas encolhidas em suas costas.

“Estou de volta, Hina-chan”, disse Naruto, segurando a toalha bordada com raposas.

“Bem-vindo de volta, Naruto-kun.” 

O sorriso genuíno, o abraço dado assim que ele descia a margem. A fada celestial recebia o príncipe como uma sinceridade quase ofuscante, ao ponto de segurar a mão de Naruto e arrastá-lo pelo reino sem medo — e ele jamais a impedia, pois quanto mais conhecia, mais planejava em segredo. Assim como nunca escondia seu profundo ressentimento pela família real, falava dos corredores frios do castelo, das disputas, do pai doente, do medo de ser descartado quando o mesmo partisse.

Tudo para que Hinata o apoiasse através do poder; o casamento perfeito para calar as inúmeras bocas.

No entanto Hinata só escutava, nunca desprezando aqueles que conhecia. 

E quando sorria… era suficiente.

“Você vive nessa paz etérea, sobre o olhar vigilante dos deuses, é por isso que não entende meu ódio… meu medo.”

“Nós também sentimos medo, ódio, rancor. Mas não nos aprofundamos nisso, Naruto-kun.” Ela apontou para a Lua, e um sorriso se desenhou nos lábios carnudos. “Os deuses não interferem nas nossas escolhas, mas o destino sempre tem dois caminhos e o final de um deles nunca é realmente bom quando se escolhe viver no ódio.”

Talvez fosse um aviso. 

Talvez fosse uma profecia. 

Ou só uma grande baboseira divina. 

Naruto não sabia e tampouco acreditava, porque um príncipe vive de seus próprios caprichos e obsessões. Embora odiasse pensar assim, odiava ainda mais imaginar-se invisível no trono, esquecido pelo próprio reino. E durante três anos esperou por algum avanço além dos beijos, até que no auge dos dezenove anos, percebeu que não existia mais tempo — e se Hinata não pudesse lhe dar o que esperava… talvez sua utilidade fosse outra.

… 

Em uma noite tão silenciosa e fria como nenhuma outra, Naruto atravessou a floresta carregando uma garrafa de vinho roubada da adega real. No fundo de suas íris azuladas residia uma determinação perigosa que seus passos quase não deixavam som ao tocar no chão. Aquela que testemunhava tudo, iluminava quieta os caminhos do Uzumaki — a Lua. Tão alta que criava sombras por todos os lugares, mas incapaz de impedir qualquer coisa. 

Quando ele chegou ao velho caminho escondido entre as raízes. O rio que separava os dois mundos corria lento, refletindo as luzes do céu como uma pintura em aquarela. Ali, o ar sempre parecia mais puro, mais leve — como se o próprio tempo desacelerasse. 

Naruto por um instante parou, seu rosto se ergueu para aquele conjunto de nuvens escuras e sussurrou palavras inaudíveis. Se havia culpa, se havia arrependimento, se havia incerteza, ninguém jamais saberia. No outro segundo caminhou pela margem até o ponto onde as pedras se tornavam lisas e o som da água abafava qualquer ruído distante.

— Hina-chan? — O nome escapou em um chamado baixo, cheio de uma ternura gordurosa.

A resposta foi apenas o murmúrio do rio. 

Então o vento mudou, um sopro suave percorreu as folhas, levantando pequenas partículas de pó luminoso que flutuavam no ar como vaga-lumes. No centro daquele brilho delicado, Hinata surgiu — as asas abertas refletiam a luz lunar em tons prateados, e por um breve momento Naruto esqueceu completamente o motivo que o trouxe ali.

Ela pousou com leveza sobre a grama úmida.

— Naruto-kun.

O sorriso dela era sempre o mesmo; simples, sincero. Devagar ela se aproximou, segurando a cesta feita de folhas recheada de frutas, torta e suco, mas Naruto a surpreendeu ao levantar a garrafa que carregava.

— Hoje eu trouxe algo diferente — disse ele, sorrindo aberto. 

Ela inclinou a cabeça, curiosa. — Diferente?

— Roubei da adega real — confessou ele, orgulhoso. — Se vou me tornar rei um dia, acho justo começar a apreciar o que existe lá dentro.

Os olhos perolados piscaram devagar, sentindo que havia algo de diferente no jovem homem. — Você fala disso com muita certeza.

— Porque é a única coisa que eu tenho. — Naruto sentou-se sobre uma pedra próxima ao rio e retirou duas pequenas taças de dentro do manto. — O rei está morrendo, Hina.

Ele falou aquilo como quem comentava sobre o clima.

Hinata permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de se aproximar. As asas se recolheram com suavidade atrás de suas costas enquanto ela se sentava ao lado dele.

— E isso te deixa… feliz? — perguntou, pensativa sobre o que queria a morte para os humanos. 

Naruto abriu a garrafa, o som discreto da rolha rompendo o silêncio da noite.

— Não.

O vinho caiu nas taças como um líquido escuro demais para uma noite tão clara — uma textura viscosa, quase imperceptível.

— Mas significa que finalmente terei uma chance de provar meu valor.

Hinata segurou a taça com cuidado, observando o reflexo da lua tremular no vinho, cada vez mais desconfiada com a atmosfera próxima dele. “Talvez seja as emoções de tristeza emanando dele”, ponderou antes de responder:  

— Você já tem valor, Naruto-kun.

Ele riu baixo, sem humor. — Não no mundo humano. Lá fora ninguém liga para o que você é… apenas para o que você pode oferecer.

Naruto levou a taça aos lábios e bebeu primeiro. O vinho era forte, com um gosto doce que se espalhava pela boca e aquecia a garganta. Ainda assim, como um ego tão alto quanto as nuvens, ele suportou cada milímetro da bebida, abaixando a taça com elegância e suavidade. Enquanto Hinata o observava em silêncio, como sempre fazia quando ele começava a falar sobre o palácio.

— Meu pai está cercado de nobres que fingem lealdade enquanto aguardam a morte dele — continuou Naruto. — Todos eles querem a coroa para si ou para seus filhos.

Ele passou os dedos pela superfície da água, quebrando o reflexo da lua.

— Eu preciso de algo que prove que sou digno. Algo que nenhum deles possa dar.

Hinata ergueu os olhos para o céu, sentindo o coração palpitar com aquelas palavras. “Por que parecem tão estranhas? Tão… erradas?” Seu olhar retornou a ele, sua mão segurando a dele por cima da grama, querendo passar alguma segurança, certeza ou talvez um apoio — para ele ou para si? 

Ainda assim, ela murmurou — Às vezes o destino não precisa de provas.

— O destino não governa reinos. — Naruto virou-se para ela, o olhar azul mais intenso sob a luz gêmea. — Pessoas governam.

— A natureza governa as pessoas, elas só não aceitam isso. — Hinata sorriu, desviando o olhar.

Por um momento nenhum dos dois disse mais nada. O som do rio parecendo mais alto, preenchendo o espaço entre eles. Naruto queria reclamar daquela afirmação ingênua, mas guardou cada palavra enquanto Hinata levou a taça aos lábios e provou o vinho. O sabor era diferente das frutas doces que costumava colher na floresta — deixando uma eletricidade na ponta da língua seguida de um amargo no fundo.

Naruto a observava.

Observava o modo como os cabelos escuros caíam sobre os ombros e se desmanchavam pelo chão, como as asas se moviam suavemente quando a brisa passava por elas espalhando um leve aroma de lavanda, como a pele dela parecia brilhar ao toque da luz natural.

Era bonito demais.

Perfeito demais.

E talvez fosse exatamente por isso que o pensamento em sua mente se tornava cada vez mais inevitável — e decisivo. 

— Hina-chan…

Ela virou o rosto para ele, as bochechas levemente coradas e ele soube…

— Sim?

Naruto não respondeu de imediato, apenas se inclinou um pouco mais perto. “Você vai me perdoar… Eu sei que vai…” 

— Eu te a-

A declaração nunca foi terminada, pois o primeiro toque dos lábios engoliu as palavras retorcidas do príncipe. 

Hinata não se afastou, sorrindo através do beijo breve — como muitos outros que já haviam trocado à beira daquele rio. Ainda que sentisse que havia algo diferente naquele beijo, um pouco mais sensível até desesperado.“Talvez ele só queria desabafar um pouco”, pensou ela, deixando-se levar. As mãos repousando sobre os ombros dele enquanto as asas se abriam levemente atrás de suas costas.

Os dedos de Naruto deslizaram pela cintura dela, puxando-a para mais perto. O segundo beijo foi mais profundo, mais urgente — provando a língua rosada, as mãos deslizando pelo corpo da fada com pressa. Ela continuou a corresponder com a mesma suavidade de sempre, um consentimento doce, além da imoralidade.

O mundo ao redor parecia ter desaparecido entre as respirações ofegantes, restando apenas o calor dos corpos próximos, o gosto doce do vinho e o som distante da água correndo. E no momento em que ela estava deitada na grama, com o vestido bagunçado e o olhar cheio de emoções sinceras, Naruto segurou o rosto de Hinata entre as mãos por um segundo mais longo do que o necessário.

Como se estivesse tentando gravar cada detalhe em sua memória.

E então as roupas foram descartadas, gemidos e suspiros que a noite engoliu com grande temor.