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A Noite Que Você Disse Meu Nome

Summary:

( English version on my profile! )

No dia em que deveria despertar uma forma animal grandiosa como o restante de sua família, Hirose se transforma em algo completamente inesperado: um pequeno cachorro.

Humilhado pela reação dos parentes e incapaz de controlar suas transformações, ele acaba se isolando do mundo enquanto tenta lidar com a própria frustração.

Mas tudo muda durante uma noite de chuva.

Preso em sua forma animal e sem conseguir voltar ao normal, Hirose é encontrado por Nakamura, um colega de classe gentil e reservado que decide ajudá-lo sem saber quem ele realmente é.

Agora, enquanto esconde sua identidade sob pelos castanhos e quatro patas, Hirose se vê cada vez mais próximo de alguém que já ocupava seus pensamentos muito antes daquela noite.

Notes:

Espero que goste da minha história!

Work Text:

O céu já havia escurecido há muito tempo, e o frio se tornava cada vez mais intenso à medida que a chuva engrossava.

Dentro de uma caixa de papelão encharcada, um pequeno cachorro de pelos castanhos tremia sem parar.

Seu corpo estava completamente molhado, e a sensação gelada parecia penetrar até os ossos.

 

De alguma forma, Hirose havia acabado naquela situação.

 

Agora preso em sua forma animal, ele não conseguia deixar de pensar em como sua vida tinha mudado.

 

Afinal, sua família era formada por metamorfos.

 

Seus pais, sua irmã e até mesmo seus avós possuíam formas animais majestosas. Criaturas que pareciam ter saído diretamente das páginas de um conto de fadas.

 

Mas Hirose...

 

Hirose havia se transformado em um cachorro.

 

E não um daqueles cães grandes e imponentes.

 

Mas sim um tão pequeno que muitas pessoas o confundiam com um filhote.

 

Aquilo sempre o incomodará.

 

Mesmo sem querer admitir, sentia certa inferioridade em relação à própria altura.

 

Era muito mais baixo do que um garoto da sua idade deveria ser.

 

Costumava dizer a si mesmo que não se importava com os trocadilhos e brincadeiras maldosas das outras pessoas.

 

Mas, bem lá no fundo...

 

Sabia que aquilo era mentira.

 

E quando sua forma animal finalmente se revelou em seu aniversário de quinze anos...

 

esse sentimento apenas piorou.

 

 

Era aniversário de Hirose.

 

Ele esperava estar comemorando a data com a família ou até mesmo com alguns amigos.

 

Mas, em vez disso, encontrava-se em um templo.

 

Vestia roupas estranhas e carregava diversos acessórios espalhados pelo corpo.

Normalmente, não se importaria com aquilo. Talvez até brincasse com os amigos, dizendo que parecia alguém saído do Período Heian.

Mas agora estava cercado por parentes que nunca tinha visto na vida.

Primos distantes, tios-avós, parentes de segundo grau...

 

Cara...

 

Provavelmente toda a sua linhagem sanguínea estava ali.

 

As pulseiras em seus braços cintilaram pela vigésima vez quando ele apertou a mão de mais um familiar desconhecido.

"Obrigado por vir!" Disse, tentando soar o mais cordial possível.

 

Hirose estava tenso com tantas pessoas ao seu redor.

 

Ele não queria falhar no ritual.

 

"Ah! Eu segurei você quando era bebê! Você se lembra?"

'Hã? Quem é você...?' Pensou, suando frio enquanto sua mão continuava sendo balançada por uma velhinha que afirmava ser prima de segundo grau de sua avó.

Ele abriu a boca para responder, mas foi interrompido por uma voz familiar.

 

"Aiki! Está na hora!"

 

Ao se virar, viu sua irmã ao longe, balançando os braços enquanto gritava seu nome — chamando a atenção de todos, como sempre.

 

Diante da cena, soltou uma risada.

 

Mesmo ela sendo difícil de lidar às vezes, ele a amava.

 

E vê-la sorrindo daquele jeito...

 

Fez parte da tensão desaparecer de seus ombros.

 

"Já vou!"

 

 

Hirose estava mais nervoso do que nunca.

 

Parado diante da entrada, conseguia sentir todos os olhares voltados para si.

 

Lentamente, uma música estranha começou a tocar.

 

Ele a reconheceu de imediato.

 

Já a havia decorado depois de ser obrigado pelos pais a aprender a coreografia, o ritmo e todas as etapas do ritual.

Se tivesse que adivinhar, diria que era uma canção do Período Heian, já que as transformações de sua família haviam começado naquela época.

Soltando um suspiro, fechou os olhos.

Quando voltou a abri-los, ergueu uma das mãos cobertas pela manga do quimono até a boca e começou a caminhar lentamente ao som da música.

Cada acessório em seu corpo cintilava a cada movimento.

A melodia terminou em um corte brusco no momento em que ele alcançou o altar.

 

O silêncio que tomou conta do ambiente pareceu ensurdecedor.

 

Seu olhar pousou rapidamente sobre o homem sentado em uma almofada vermelha à frente do altar.

'Pelo que eu sei, quem conduz o ritual é sempre o membro mais velho da linhagem. Nesse caso, o irmão mais velho da minha avó.'

Percebendo o olhar do garoto, o homem lhe ofereceu um sorriso gentil.

"Parece que você finalmente chegou. Os espíritos da floresta o guiaram em segurança?"

 

Então havia começado.

 

A encenação do primeiro encontro entre o ancestral da família e o espírito da floresta que lhe concedera o poder de se transformar em um animal.

 

Hirose hesitou.

 

Não tinha certeza se lembraria de todas as falas.

 

Foi então que olhou de relance para o lado.

 

Sua irmã parecia se esforçar ao máximo para não interromper a cerimônia.

Quando seus olhos se encontraram, ela ergueu um grande sorriso e fez um joinha.

 

Silenciosamente, parecia dizer:

"Você consegue, Aiki!"

 

Ao ver aquilo, ele sorriu.

 

Ainda com a manga cobrindo parte do rosto, respondeu:

"Sim, ancião. Seus filhos me trouxeram em segurança."

O sorriso do mais velho se ampliou.

"É bom ouvir isso. Venha."

Ele deu leves tapinhas na almofada vermelha à sua frente.

"Sente-se comigo."

Hirose colocou as mãos dentro da manga do quimono, abaixou levemente a cabeça e fechou os olhos.

"Obrigado."

Sentar daquela forma foi mais difícil do que imaginava, mas ao menos conseguiu fazê-lo sem cair diante da família inteira.

 

A encenação prosseguiu.

 

Eles estavam reproduzindo um acontecimento do passado.

E aquilo fazia parte de todos os rituais.

 

Ao final, ele foi obrigado a beber uma estranha bebida considerada sagrada.

Virou o conteúdo de uma vez, sem querer sentir o gosto.

Mesmo assim, não conseguiu evitar um arrepio diante do amargor.

Colocando o copo à sua frente, fechou os olhos.

 

Ao mesmo tempo, todos os presentes prenderam a respiração.

 

E o que aconteceu depois...

 

foi um completo desastre.

 

Diante de toda a família, sua forma animal finalmente se revelou.

 

A manifestação ligada à sua alma.

 

Mas quando a fumaça da transformação se dissipou...

 

um pequeno cachorro surgiu.

 

 

...

 

 

Pera.

 

O quê?

 

Todos ficaram em silêncio por alguns segundos.

 

Então os murmúrios começaram.

 

E cresceram.

 

E cresceram.

 

Até se tornarem altos o suficiente para impedir Hirose de ouvir os próprios pensamentos.

 

'O que é isso...?'

 

Ele estava completamente perdido.

 

Ele tinha feito algo errado?

 

O ritual falhou?

 

O que estava acontecendo?

 

Não era para ele ter se transformado em uma criatura mística?

 

Então por que era apenas um cachorro?

 

Lentamente, ergueu o olhar para o homem sentado à sua frente.

 

Os mesmos olhos gentis que o haviam tranquilizado durante o ritual agora pareciam frios.

 

Decepcionados.

 

Hirose recuou.

 

'Merda...'

 

 

 

 

Depois daquilo, seus pais e sua irmã tentaram consolá-lo.

 

Mas ele tinha certeza de que havia estragado tudo.

 

Por causa disso, decidiu que não precisava da própria forma animal.

 

Seu valor não deveria ser definido por aquilo.

 

O problema era que seu corpo parecia discordar.

 

Ele não tinha controle algum sobre quando ou onde se transformava.

 

Quando perguntou à irmã o motivo, ela explicou que era normal – brincando que se ele encontrasse uma parceira, ela conseguiria ajudá-lo.

Normalmente, no começo, ninguém sabe controlar o lado animal.

 

Por isso, Hirose passou os últimos dois meses preso dentro de casa.

 

Os seus pais tinham medo de que ele acabasse se transformando no meio da sala de aula.

 

Mas o principal problema era outro.

 

Quanto mais ele rejeitava sua forma animal...

 

mais ela aparecia.

 

 

 

 

Foi por isso que, em um determinado dia, Hirose decidiu fugir de casa apenas para ir à lojinha da esquina.

Sabia que era arriscado.

Seu corpo estava tão instável que parecia uma bomba prestes a explodir.

Mas depois de passar tanto tempo trancado, queria ao menos ver algo além da própria sala de estar.

Para justificar as faltas na escola, seus pais inventaram que ele estava gravemente doente.

Ele ainda conversava com os amigos pelo celular.

Alguns chegaram a pedir para visitá-lo.

Mas Hirose conseguiu convencê-los a desistir, alegando que a doença era contagiosa.

 

 

Quando terminou de fazer as compras e estava voltando para casa, uma chuva forte surgiu do nada.

Em poucos segundos, já estava completamente encharcado.

Ele correu em busca de abrigo.

 

Mas foi justamente naquele momento que seu lado animal resolveu aparecer.

 

Em um piscar de olhos, Hirose se transformou.

 

O pânico tomou conta dele.

 

E se alguém tivesse visto?

 

Movido pelo instinto, correu para um beco e se escondeu no primeiro lugar que encontrou.

 

Uma caixa de papelão.

 

 

Agora ele estava ali.

 

Preso sob uma tempestade.

Esperando o corpo voltar ao normal.

Não sabia quanto tempo havia passado quando um estalo o trouxe de volta à realidade.

A caixa começava a ceder sob a força da chuva.

Se continuasse ali, acabaria completamente exposto.

Reunindo as poucas forças que ainda possuía, saiu.

Imediatamente, a água voltou a cair sobre seu corpo.

Cada gota parecia mais fria que a anterior.

Com dificuldade, avançou até a calçada.

Mas sua visão logo começou a ficar turva.

A água escorria sem parar pelos olhos.

E, naquela forma, ele não tinha mãos para limpá-los.

Nem para afastar os pelos que começavam a cobrir seu campo de visão.

 

Por fim, foi obrigado a parar.

 

Simplesmente não conseguia continuar.

 

Foi então que ouviu uma voz.

 

"Huh?"

 

Hirose se encolheu.

 

'Tinha alguém aqui?! Não me diga que me viu!'

 

Seu corpo inteiro ficou em alerta.

 

Enquanto recuava lentamente, inconscientemente começou a rosnar.

 

Tentando enxergar através da chuva, conseguiu distinguir uma figura parada sob a marquise de uma loja.

Parecia estar apenas esperando o temporal passar.

 

Ele não conseguia ver seu rosto.

 

"Huh? Um cachorro?"

 

A voz atravessou o som da chuva.

 

O corpo de Hirose congelou.

 

Seu rosnado parou.

 

'Essa voz...'

 

Por algum motivo, ela parecia familiar.

 

Movido pela curiosidade, deu alguns passos na direção da figura.

 

Ela parecia estar se mexendo.

 

'Quem é?'

 

Antes que pudesse pensar mais, a pessoa correu em sua direção carregando algo escuro.

 

O movimento repentino o fez recuar.

 

Então um tecido envolveu seu corpo.

 

'?!'

 

Apesar do susto inicial, logo percebeu que era algo quente.

 

Confortável.

 

Sentiu o tecido ser afastado de seu rosto enquanto continuava envolvendo o resto do corpo.

 

Como se tentasse protegê-lo do frio.

 

Em seguida, a pessoa começou a secá-lo cuidadosamente.

 

Suas orelhas se moveram ao ouvir a voz novamente.

 

"Coitado... Você está todo encharcado!"

 

Quando o tecido finalmente saiu de frente de seus olhos, ele reconheceu quem estava diante dele.

 

'Nakamura?'

 

Os cabelos negros do garoto estavam úmidos pela chuva.

A camisa branca também exibia manchas escuras causadas pela água.

Ao olhar para baixo, Hirose percebeu que estava enrolado no casaco do uniforme escolar de Nakamura.

Quando voltou a erguer o olhar, encontrou aqueles olhos escuros.

Olhos que normalmente permaneciam escondidos atrás da franja.

 

Agora estavam fixos nele.

 

Cheios de preocupação.

 

Nakamura franziu levemente os lábios.

 

Então o abraçou contra o próprio peito, tentando aquecê-lo.

 

Hirose ficou imóvel.

 

Claro que Nakamura não fazia ideia de quem ele era.

 

Para ele, era apenas um cachorro abandonado na chuva.

 

Mesmo assim...

 

Ele estava se esforçando tanto para ajudá-lo.

 

Algo aqueceu dentro de seu peito.

 

Hirose já considerava Nakamura um amigo havia muito tempo.

Mas talvez ele fosse tenso demais para perceber isso antes.

 

Afinal, durante a viagem escolar, Nakamura havia reunido coragem para perguntar se eles poderiam ser amigos.

 

Hirose se lembrava daquele dia.

 

Do cheiro do mar.

Do som das ondas.

Da luz dourada do entardecer.

Das flores desabrochando.

 

 

...

 

 

Ele se lembrava de Nakamura.

 

Do aquário.

Do sorriso enquanto explicava algo sobre polvos.

Do chaveiro de caranguejo que lhe deu depois que mencionou gostar deles.

Das lojas que visitaram.

Das risadas que compartilharam.

Da luz do sol refletindo sobre sua pele.

Das mechas escuras de seu cabelo.

Da sua voz.

Dos seus olhos.

 

No final, até tiraram uma foto juntos para comemorar.

 

A lembrança fez Hirose sorrir.

 

Seu rabo balançou levemente.

 

Nakamura ajustou melhor o casaco ao redor dele.

O gesto os deixou tão próximos que Hirose conseguia ouvir claramente as batidas do seu coração.

Ouviu o garoto murmurar alguma coisa, mas o cansaço era grande demais para entender.

 

Seu corpo começou a relaxar.

 

Os batimentos constantes lentamente o embalaram.

 

A tensão acumulada desapareceu aos poucos.

 

Depois de passar tanto tempo tremendo dentro daquela caixa, exposto ao frio e à chuva...

 

O calor do casaco, a voz suave de Nakamura e o ritmo tranquilo de seu coração pareciam o convite perfeito para descansar.

 

Suas pálpebras ficaram pesadas.

 

E pouco antes de adormecer, ouviu Nakamura dizer:

 

"Vou te levar para minha casa."

 

 

Quando Hirose finalmente acordou, percebeu que estava em um lugar desconhecido.

 

Isso foi o suficiente para afastar qualquer resquício de sono.

 

Levantando-se rapidamente, ele olhou ao redor.

 

'...Parece um quarto.'

 

Seu olhar percorreu o ambiente até parar em um enorme tanque encostado na parede.

Dentro dele, um polvo vermelho se movia lentamente.

 

Aquilo imediatamente o fez pensar em Nakamura.

 

Com isso, qualquer medo que ele ainda sentia desapareceu.

 

Um sorriso surgiu em seu rosto.

 

'Se ele estivesse aqui, correria direto para aquele aquário.'

 

Hirose sempre gostava de ver Nakamura animado.

 

Principalmente quando o assunto eram criaturas marinhas.

 

O garoto era capaz de passar vários minutos seguidos falando sobre polvos, despejando curiosidades atrás de curiosidades, até perceber que estava tagarelando demais e se calar na mesma hora.

 

Hirose nunca gostava quando isso acontecia.

 

Por que Nakamura não podia simplesmente ser sincero consigo mesmo?

 

Mas ele não tinha muito direito de falar.

 

Quantas vezes não concordou com algo em seu grupo de amigos apenas para evitar conflitos?

 

Quantas vezes não se colocou em situações desconfortáveis para agradar outras pessoas?

 

E quando percebia Nakamura se fechando durante uma conversa ou ficando isolado dentro de um grupo, Hirose sempre tentava puxá-lo de volta para a conversa.

 

Ele não gostava de vê-lo sozinho.

 

Foi então que uma lembrança o atingiu.

 

Espera.

 

Ele não estava nos braços de Nakamura antes de apagar?

 

A porta do quarto se abriu.

 

Hirose deu um pequeno pulo.

 

Ao olhar naquela direção, encontrou justamente a pessoa em quem estava pensando.

 

Seu rabo balançou sem que percebesse.

 

Nakamura entrou carregando algumas coisas para cachorro.

Assim que seus olhos encontraram os de Hirose, sua expressão se iluminou.

"Ah! Você finalmente acordou."

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto enquanto se aproximava.

Ele colocou tudo no chão e sentou-se sobre o carpete.

"Fico feliz. Que bom que você não está ferido... senão eu teria problemas..." Sua voz diminuiu no final da frase enquanto desviava o olhar.

 

Quando voltou a encará-lo, percebeu que o cachorrinho o observava sem piscar.

 

Nakamura soltou uma leve risada.

 

Então estendeu a mão na direção dele.

 

'Hã?'

 

Hirose piscou.

 

Ao notar a mão parada diante de seu focinho, hesitou.

 

'Ele... quer que eu o cheire?'

 

Uma sensação estranha se revirou dentro dele.

 

Sabia que aquilo era normal.

Humanos faziam isso para os cães se acostumarem com seu cheiro.

 

Mas ainda parecia estranho demais.

 

Seu lado animal dizia que aquilo era completamente natural.

Seu lado humano, por outro lado, discordava fortemente.

 

Por alguns segundos, permaneceu imóvel.

 

Nakamura pareceu interpretar aquilo como medo.

 

"Não precisa se preocupar. Eu não vou te machucar."

 

Sua voz soou suave.

 

Gentil.

 

Reconfortante.

 

Depois de mais um instante de hesitação, Hirose finalmente aproximou o focinho.

 

Inspirou.

 

E congelou.

 

'Ele tem cheiro de mar.'

Seu rabo começou a balançar novamente.

Mais forte dessa vez.

'...Eu gosto disso.'

 

Uma risada suave chegou aos seus ouvidos.

 

Logo em seguida, sentiu uma mão acariciar sua cabeça.

 

Antes que pudesse entrar em pânico, Nakamura falou:

 

"Você é tão fofo."

 

Hirose congelou, completamente.

 

Seu cérebro travou.

 

'Não! Não! Calma!'

Ele tentou organizar os próprios pensamentos.

'Nakamura só está dizendo isso porque acha que eu sou um cachorro!'

 

Sim.

 

Era isso.

 

Com certeza era isso.

 

Enquanto lutava para não explodir de vergonha, sequer percebeu Nakamura continuar falando.

"Parece que você já secou completamente. Isso é bom."

A mão se afastou da sua pelagem.

"Você deve estar com fome."

Nakamura se virou e pegou o pacote de ração que havia trazido.

De costas para Hirose — e completamente alheio ao surto silencioso acontecendo atrás dele — colocou um pouco de comida em uma tigela e água em outra.

"Você é bem pequeno. Deve ser um filhote. Melhor não exagerar."

 

Hirose estava quase recuperando a compostura quando sentiu o chão desaparecer sob suas patas.

 

'?!'

 

Nakamura o havia erguido da cama.

 

Segundos depois, ele estava diante das tigelas.

 

"Aqui. Pode comer à vontade."

 

Hirose encarou a ração.

 

Seu lado humano não achava aquilo minimamente apetitoso.

 

Mas seu lado animal...

Seu lado animal estava praticamente babando.

A comida que havia comprado antes da chuva certamente já tinha sido perdida.

E ele estava morrendo de fome.

Com certa relutância, abaixou a cabeça e experimentou um único grão.

 

Seus olhos se arregalaram.

 

'Tão gostoso!'

 

Sem qualquer dignidade restante, começou a devorar a comida.

Seu rabo balançava tão rápido que parecia prestes a sair voando.

Nakamura pareceu preocupado.

"Ei, calma! Ainda tem bastante."

Ele segurou Hirose levemente para impedir que enfiasse a cabeça inteira dentro da tigela.

A cena arrancou outra risada dele.

As tigelas pareciam absurdamente grandes perto daquele cachorrinho.

Quando finalmente terminou de comer, Hirose se virou para Nakamura e latiu animadamente.

O garoto ergueu uma sobrancelha.

"Você quer mais?"

Uma sequência de latidos respondeu imediatamente.

"Certo, certo. Eu vou pegar mais."

Enquanto servia outra porção, Nakamura comentou:

"Para falar a verdade, fiquei com medo de você não gostar dessa ração."

Ele despejou mais comida na tigela.

"Foi a mesma que compramos para o cachorro da minha prima quando ele ficou aqui em casa."

Hirose voltou a comer enquanto Nakamura continuava falando.

"Ele era enorme. E bem assustador, para ser sincero. Durante muito tempo tive medo dele."

Seu tom ficou levemente indignado:

"Mas depois que minha irmã decidiu que alimentar ele era responsabilidade minha, não tive muita escolha."

Hirose já havia terminado de comer e agora apenas o observava.

 

Ele gostava quando Nakamura falava sobre si mesmo.

 

"No começo, eu só colocava a comida e fugia da cozinha. Mas depois de um tempo, percebi que ele simplesmente parou de comer."

Nakamura soltou uma risada, se lembrando da situação.

"Minha prima gastou uma fortuna levando ele ao veterinário. No final, descobrimos que ele só tinha enjoado da ração."

"Tivemos que testar várias marcas até encontrar uma que ele aceitasse."

 

O sorriso em seu rosto se tornou mais suave.

 

"Quem imaginaria que um cachorro tão assustador seria tão exigente?"

 

Ele olhou para a tigela.

 

"Mas acho que foi por causa disso que deixei de ter medo dele."

 

Nakamura pareceu perceber o quanto havia falado.

 

"Ah..."

 

Seu olhar desviou.

 

"Desculpe... Eu costumo tagarelar."

 

Hirose não gostava daquela expressão.

 

Preferia vê-lo animado.

 

Preferia vê-lo falando sem se preocupar.

 

Foi nesse momento que seus olhos encontraram algo escrito na embalagem da ração.

 

"Sabor Bife Refinado".

 

...

 

Ah.

 

Isso fez Hirose soar frio.

 

Agora tudo fazia sentido.

 

'Então é por isso que a ração estava tão boa.'

 

Ele se sentiu um pouco culpado por comer uma ração tão cara.

 

Mas não podia negar.

 

Aquilo estava delicioso.

 

Sua linha de pensamento foi interrompida quando Nakamura se espreguiçou.

A barra da blusa subiu um pouco, revelando parte de sua barriga.

 

Um sentimento estranho consumiu o corpo de Hirose.

 

Ele imediatamente desvia o olhar.

 

'O que foi isso...?'

 

Isso foi estranho.

 

Ele nunca reagiu daquele jeito vendo seus amigos sem camisa na piscina.

Muito menos qualquer outro garoto que ele viu se trocando no vestiário para a aula de educação física.

 

...Então por que com Nakamura era diferente?

 

Quando ele terminou de se espreguiçar, esfregou suavemente um dos olhos.

"Ah, que sono..."

Sua voz estava um pouco diferente por causa do cansaço, mas não de um jeito ruim.

"Espero não pegar um resfriado por causa daquela chuva."

Depois de guardar as coisas de cachorro em um canto do quarto, ele apagou a luz.

Agora, apenas o brilho suave que entrava pela janela iluminava o ambiente.

Ao se aproximar novamente, pegou Hirose com facilidade e o levou para a cama.

A ação ainda o surpreendeu, mas não tanto quanto antes.

Os dois se acomodaram sob os cobertores.

"Desculpa, amigo. Eu não tenho uma cama de cachorro, mas acho que minha cama é mais confortável que o chão."

Hirose concordou mentalmente.

Definitivamente preferia ficar ali com Nakamura do que deitado no chão frio.

Como estava de frente para ele, Hirose percebeu facilmente um sorriso surgindo em seu rosto.

 

Mas aquele era diferente.

 

Mais suave.

 

Mais distante.

 

Mais sincero.

 

Nakamura ergueu a mão e voltou a acariciar sua pelagem castanha.

 

O corpo de Hirose enrijeceu por um instante.

 

Então ele suspirou.

 

"...Você se parece muito com ele."

Aquilo o deixou confuso.

'...Ele quem?'

 

O olhar de Nakamura suavizou.

 

"Sua pelagem é igualzinha ao cabelo dele."

 

Uma pequena risada escapou de seus lábios.

 

"Até o mesmo tom de castanho. E os cachinhos também."

 

Foi nesse momento que Hirose entendeu.

 

O carinho em sua voz.

 

O jeito como seus olhos brilhavam.

 

O sorriso involuntário.

 

'Ah...'

 

Era óbvio.

 

Nakamura gostava daquela pessoa.

 

A mesma sensação estranha voltou a apertar seu peito.

 

Ciúmes?

 

Não.

 

Não podia ser.

 

'Eu não gosto do Nakamura desse jeito.'

 

...Certo?

 

Ele não tinha nada contra garotos gostarem de outros garotos.

 

Mas...

 

 

"Eu gosto de você, Hirose."

 

 

...

 

 

O quê?

 

Seu cérebro simplesmente parou de funcionar.

 

Dessa vez, ele realmente olhou para Nakamura.

 

O luar iluminava parte de seu rosto.

A cabeça repousava sobre o travesseiro.

As bochechas exibiam um leve tom rosado.

Seus olhos estavam ligeiramente arregalados.

E seu corpo inteiro parecia tenso.

 

Como se ele nunca tivesse imaginado dizer aquelas palavras em voz alta.

 

Ao mesmo tempo, havia algo suave em sua expressão.

 

Algo vulnerável.

 

Algo assustado.

 

Seus olhos suavizam.

 

"Eu gosto muito, muito de você."

 

A voz saiu baixa.

 

Quase tímida.

 

"Desde o primeiro dia de aula eu não consigo parar de olhar para você."

 

Hirose permaneceu em silêncio.

 

"No começo, eu tinha... muita dificuldade de falar com você."

 

Ele ainda parecia hesitante falando aquelas palavras.

 

Nakamura soltou uma risada sem humor.

 

"Você parecia perfeito. E eu sentia que nunca conseguiria chamar sua atenção."

 

Ele hesitou.

 

Por alguns segundos, apenas encarou o nada.

 

"Mas sempre que eu estou no fundo do poço... você aparece.

 

Seu sorriso vacilou.

 

"Eu sinto que você sempre está lá para me ajudar.'

 

Aquelas palavras fizeram algo dentro de Hirose apertar.

 

O sorriso desapareceu por completo.

 

Nakamura desviou o olhar.

 

Como se estivesse fazendo algo errado.

 

Então enterrou metade do rosto no travesseiro e soltou um longo suspiro.

 

Como se tentasse expulsar toda a tensão acumulada do próprio corpo.

 

'...O que eu tô fazendo?"

A voz saiu tão baixa que Hirose quase não conseguiu ouvi-la.

 

"O que tem de errado comigo?"

 

Nada.

 

Absolutamente nada.

 

Mas ele não podia responder.

 

"Eu realmente acabei de me declarar para um cachorro que se parece com o ele?

 

Nakamura virou um pouco o rosto.

 

E, pela primeira vez, Hirose viu arrependimento em sua expressão.

 

Aquilo doeu.

 

Ele queria consolá-lo.

 

Queria fazê-lo sorrir novamente.

 

Queria dizer que tinha ouvido tudo.

 

Que entendia.

 

Que...

 

 

Talvez sentisse o mesmo...

 

 

Sem perceber, sentiu Nakamura voltando a acariciá-lo.

 

Hirose nem havia notado que ele parou.

 

Estava ocupado demais lidando com os próprios sentimentos.

 

No início, ele chegou a pensar que Nakamura tivesse descoberto sua identidade.

 

Mas não.

 

Ele realmente acreditava estar falando com um cachorro.

 

Uma parte dele desejou que fosse diferente.

 

Desejou que Nakamura o tivesse reconhecido.

 

Porque então ele...

 

 

...

 

 

Nakamura abriu a boca.

 

Pareceu querer dizer mais alguma coisa.

 

Mas desistiu.

 

"É melhor eu dormir..."

Sua voz continuava baixa.

 

Estranhamente contida.

 

Triste.

 

Em seguida, puxou Hirose para mais perto do próprio peito.

O coração acelerado do garoto era perfeitamente audível daquela distância.

 

Ele soltou mais um suspiro.

 

"Boa noite."

 

Então fechou os olhos.

 

Por alguns segundos, apenas o silêncio permaneceu entre eles.

 

Hirose continuou imóvel.

 

Sentindo os batimentos cardíacos ecoarem através do peito de Nakamura.

 

Sentindo o calor de seu corpo.

 

Sentindo as palavras da confissão repetirem sem parar dentro da própria cabeça.

 

Por fim, fechou os olhos também.

 

'...Boa noite, Nakamura.'

 

 

Hirose acordou no meio da noite.

 

Não sabia que horas eram.

Sua cabeça estava turva, como se uma névoa espessa cobrisse seus pensamentos.

Ao se mexer um pouco, percebeu algo diferente.

 

Ele havia voltado à forma humana.

 

Ou quase.

 

Antes que pudesse pensar muito sobre isso, notou outra coisa.

 

Nakamura estava mais perto do que nunca.

 

Seus rostos estavam separados por apenas alguns centímetros.

 

Normalmente, Hirose não se importaria.

Seus amigos já haviam comentado mais de uma vez que ele tinha um problema com espaço pessoal.

 

Especificamente quando o assunto era Nakamura.

 

Só de pensar nele, um sorriso apareceu em seu rosto.

 

Mas o sorriso vacilou quando sentiu algo estranho roçar suas costas.

Confuso, enfiou a mão sob as cobertas e puxou aquilo.

No mesmo instante, uma dor insuportável percorreu sua coluna.

 

"Ai!"

Ele se encolheu.

 

A dor fez qualquer resquício de sono desaparecer.

Com mais cuidado, o pegou novamente.

 

E congelou.

 

Era um rabo de cachorro.

 

Seu rabo.

 

Lentamente, levou uma das mãos até a cabeça.

 

Como esperado, encontrou duas orelhas.

 

Hirose soltou um longo suspiro.

 

Já estava cansado daquilo tudo.

 

Retirando as mãos dos novos membros, voltou a olhar para frente.

 

E encontrou o rosto adormecido de Nakamura.

 

A lembrança da conversa anterior voltou imediatamente.

 

A confissão.

 

As palavras ditas no escuro.

 

O jeito como Nakamura havia pronunciado seu nome.

 

Seu rosto esquentou na mesma hora.

 

Enquanto isso, seu rabo começou a balançar sem parar, batendo repetidamente contra o colchão.

 

Quanto mais pensava naquilo, mais a estranha névoa retornava.

Era como se uma parte diferente dele estivesse despertando.

 

Seu lado animal.

 

'Ah não...'

 

A sensação ficou mais forte.

 

As pupilas de Hirose se dilataram levemente enquanto ele observava Nakamura.

 

As mechas negras espalhadas sobre o travesseiro.

 

A pele clara.

 

Os cílios.

 

A expressão tranquila.

 

Tudo parecia prender sua atenção.

 

Seu olhar desceu.

 

Com cuidado, procurou uma das mãos de Nakamura entre os lençóis.

 

Quando a encontrou, segurou-a suavemente.

 

Então a aproximou do próprio rosto.

Fechando os olhos, apoiou a bochecha contra sua mão.

 

A sensação era confortável.

 

Quente.

 

Familiar.

 

Ele sempre tinha achado as mãos de Nakamura bonitas.

 

Seu rabo voltou a balançar.

 

Sem perceber, acabou se aconchegando ainda mais naquele toque.

 

"Meu..." Murmurou baixinho.

 

Não como posse.

 

Mas como alguém que finalmente encontrou algo precioso.

 

Ao abrir os olhos novamente, percebeu o quanto estavam próximos.

 

Uma parte dele ainda tentava manter a distância.

 

Mas a névoa tornava tudo difícil.

 

Lentamente, apoiou a testa contra o ombro de Nakamura.

 

Inspirando.

 

Cheiro de chuva.

 

Cheiro de mar.

 

Cheiro de Nakamura.

 

Aquilo o acalmava.

 

Seu rabo voltou a bater contra o colchão.

 

Por alguns segundos, apenas permaneceu ali.

 

Ouvindo sua respiração.

 

Sentindo seu calor.

 

Tentando gravar aquele momento na memória.

 

Foi então que algo tocou sua cabeça.

 

Uma mão.

 

Hirose congelou.

 

Normalmente teria pulado para trás.

Mas sua mente estava lenta demais para reagir.

 

A mão começou a acariciar seus cabelos.

 

Com cuidado.

 

Devagar.

 

Quase distraidamente.

 

Ele ergueu o olhar.

 

Esperando encontrar aqueles olhos escuros o encarando.

 

Mas Nakamura continuava dormindo.

 

"???"

 

Hirose observou por mais alguns segundos.

 

A mão continuava ali.

 

Agora brincando levemente com uma de suas orelhas.

 

"Hirose..."

 

Os olhos dele se arregalaram.

 

Seu rabo começou a balançar ainda mais rápido.

 

Não.

 

Não podia ser.

 

Nakamura ainda estava dormindo.

 

Mesmo assim, tinha chamado seu nome.

 

Uma pequena risada escapou de Hirose.

 

"Não me diga que você está sonhando comigo..." Disse em um tom de brincadeira.

 

Não houve resposta.

 

Apenas mais um carinho na sua orelha.

 

Aquilo aqueceu algo dentro de seu peito.

 

Sem pensar muito, aproximou-se mais.

 

Abraçando Nakamura e escondendo o rosto contra seu peito.

 

O som constante de seu coração era reconfortante.

 

Seguro.

 

Familiar.

 

A mão continuava acariciando seus cabelos.

 

E Hirose sentiu todo o peso dos últimos meses desaparecer aos poucos.

 

Um sorriso surgiu em seu rosto.

 

"Boa noite, Nakamura."

 

A mão parou por um breve instante.

 

Apenas um instante.

 

Então uma voz sonolenta respondeu:

 

"...Boa noite, Hirose."

 

Hirose congelou.

 

Por alguns segundos, não teve certeza se aquilo realmente tinha acontecido.

 

Mas então ouviu a respiração tranquila de Nakamura novamente.

 

E, embalado pelo som de seu coração, acabou adormecendo mais uma vez.