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Sua música em minhas veias

Summary:

Wu SuoWei é um ídolo em ascensão — carismático, popular e ambicioso — acostumado a brilhar sob os holofotes.
Um dia, em um evento, um pianista chama sua atenção. Obcecado não apenas pela música, mas pelo homem por trás dela, SuoWei faz de tudo para chamar sua atenção, determinado a tê-lo como parceiro em seu próximo lançamento.

Notes:

Chapter Text

A fama é uma faca de dois gumes. Uma faca afiada capaz de cortar simplesmente ao olhar demais para o fio da navalha. Aqueles que não nasceram para a fama sucumbem nos primeiros instantes e são varridos pela agitação da multidão. 

Mas aqueles que nasceram para ela… Ah, esses são especiais. Esses são os que brilham em cima do palco, que se deleitam com os gritos, os fãs, o calor e a agitação. São poucos, mas são tão brilhantes que é impossível escapar de sua luz.

Wu Suo Wei é esse tipo de pessoa especial.

O idol em ascensão que encantou a indústria e o público com sua aparência fofa e seu jeito leve e divertido. Sua persona descontraída e amigável atraiu o público como a luz em meio a mariposas, juntando pequenas multidões de fãs que cresciam a cada dia. Seu rosto agora começava a ser visível em placas e outdoors, seu nome era mencionado aqui e ali em programas e lives, suas músicas alcançavam cada vez mais e mais ouvintes e os convites para festivais começavam a se acumular em sua agência.

Ele era inegavelmente o tipo de pessoa destinada a ser grande. A ser uma estrela absoluta.

E ele amava isso. Cada pedacinho.

Mas nem mesmo ele era imune a lâmina afiada da fama.

No começo foi legal e divertido, mas aos poucos Wu descobriu que sua vida fora dos palcos também não o pertencia totalmente. Porque cada pequena ação que ele fizesse poderia virar um grande escândalo que se tornaria uma bola de neve. 

Então ele aprendeu a se esconder quando saía – sempre coberto por máscaras, chapéus e casacos pesados. Aprendeu a sumir debaixo dos olhares alheios, a esconder seus rastros, a se tornar um fantasma fora dos palcos.

Era o preço da fama, afinal.

Ele pagaria com gosto.


20:37

O relógio marcava a proximidade do início oficial das apresentações do evento beneficente.

No salão uma pequena multidão de rostos se reunia em sorrisos educados e ensaiados. O cheiro leve de álcool e ameixa se espalhava pelo ar e o tintilar das taças se misturava ao murmúrio das conversas.

O evento não era exatamente de grande porte, mas reunia algumas celebridades notáveis — cantores e atrizes da temporada que conquistaram seu espaço na indústria e agora chamavam atenção do público.

Wu Suo Wei, é claro, agia como uma figura perfeita. Ele exibia um belo sorriso contagiante — a medida exata entre simpatia e confiança — encantando a todos que conversavam com ele. Mesmo poucos minutos de conversa eram o suficiente para fazerem as pessoas comentarem sobre como aquele garoto era educado e interessante e como gostariam de trabalhar com ele futuramente.

Por dentro o rapaz sorria orgulhosamente sempre que um desses murmúrios chegava aos seus ouvidos, dando um longo gole em sua bebida para disfarçar a expressão presunçosa em seu rosto. 

Uma celebridade modelo, com certeza.

Wu olhou o relógio mais uma vez – 20:50. 

Cedo.

SuoWei era uma das atrações da noite. Assim como muitos outros artistas, ele faria uma pequena apresentação de uma única música. Era rápido, mas a verdade é que Wu SuoWei era a apresentação mais aguardada da noite.

De repente as luzes diminuíram. Um pequeno palco se iluminou, chamando a atenção de todos. Ao centro, um homem bonito de feições agradáveis sorriu para os convidados, testando o microfone antes de falar.

“Boa noite! É uma grande honra ter tantas pessoas ilustres reunidas aqui hoje. Como todos sabem, esse evento tem o objetivo de angariar fundos para a escola comunitária de arte e produções visuais. Em nome da Zhenhua Industries, agradecemos profundamente a presença de todos vocês!”

As palmas encheram o ambiente, todos oferecendo alguns sorrisos gentis enquanto o apresentador se curvava levemente.

“Teremos algumas apresentações incríveis hoje a noite. Para abrir nosso evento, temos um ator talentoso que tem conquistado corações pelo país com sua atuação doce e cativante. Por favor, recebam com carinho: Chi Cheng!”

As luzes se tornaram ainda mais suaves e um homem subiu no palco. A plateia aplaudiu e depois se calou.

E então Wu ouviu.

O som calmo e melódico de um piano. A melodia calma e doce, quase etérea.

Ele franziu as sobrancelhas, olhando em direção ao palco, se esgueirando pela multidão na intenção de ver mais de perto. De ouvir um pouco mais.

A música parecia preencher o ar completamente, a melodia ritmada lavando sua pele como se o banhasse com água quente. Era bonito. Realmente, muito bonito.

Mas nada o preparou para o momento em que seus olhos pousaram sobre o pianista.

No centro do palco um homem com o rosto mais bonito que SuoWei já tinha visto tocava como se apenas ele e o piano existissem naquele espaço. Como se a multidão que os cercava não estivesse ali: hipnotizada, enfeitiçada.

Os cabelos escuros estavam bem arrumados, mas dois pequenos fios caiam sobre seus olhos. A pele branca parecia brilhar sob a luz suave, o corpo perfeitamente envolvido por um terno preto que parecia cruelmente bem ajustado aos músculos.

Mas foi a forma como ele tocava que fez a boca de SuoWei parecer tão seca de repente.

Os dedos longos deslizavam pelas teclas com uma precisão quase cruel, como se a música fosse apenas uma extensão natural do seu corpo. Não havia esforço, não havia hesitação — apenas entrega. Aquele tipo de entrega que só alguém perigosamente apaixonado pela própria arte poderia ter.

E aquilo… aquilo atingiu SuoWei de um jeito estranho.

O som parecia vir de dentro dele. De algum lugar entre as costelas, vibrando diretamente contra o peito, contra a garganta, contra partes que ele nunca achou que pudessem ser influenciadas por música.

Cada nota era como um toque.

Cada mudança de ritmo era como um dedo arrastado pela espinha.

Cada pausa era tão íntima que o fazia prender o fôlego.

Sem perceber, ele parou completamente.

Seu sorriso profissional desapareceu, seu corpo deixou de acompanhar a sutileza social do ambiente. Ele não piscava. Não respirava direito. Não lembrava que tinha um copo na mão, nem que deveria estar conversando com alguém do setor de marketing de alguma marca famosa.

Nada existia.

Nada além daquele homem tocando.

E então, como se destino fosse uma criatura caprichosa, o homem levantou os olhos por um instante.

Não para a plateia. Não para alguém em especial.

Mas para algum ponto — qualquer ponto — na escuridão à frente.

E coincidiu com SuoWei.

Um segundo. Talvez menos.

Mas suficiente.

O olhar não foi carregado de intenção. Foi leve, distraído, quase inocente. Um pianista apenas respirando entre acordes, deixando o mundo existir ao redor antes de mergulhar de volta na melodia.

Mas para SuoWei…

Para SuoWei aquilo foi devastador.

Um choque quente correu pela sua coluna, descendo como um fio de eletricidade direto até o estômago. Seu coração perdeu um compasso — e depois se apressou em recuperar o ritmo, quase doloroso na velocidade.

Ele não sabia quem era aquele homem. Nunca o tinha visto na vida. Mas… era como se tivesse passado anos procurando por aquele instante sem sequer perceber.

“Wu…? Você está bem?”

Ele mal ouviu a voz preocupada de alguém ao seu lado. A única resposta possível saiu num sussurro rouco, como se a própria voz tivesse sido arrancada de dentro dele:

“…quem é ele?”

Não recebeu resposta.

Mas também não importava.

Porque, naquele momento, Wu SuoWei soube — com uma clareza fria e cortante — que não conseguiria simplesmente ir embora após a apresentação terminar.

Ele precisava saber quem era.

Precisava ouvir aquele homem tocar de novo.

Precisava vê-lo de novo.

Precisava… alguma coisa que nem ele conseguia nomear.

Algo que começou a apertar, ali, no fundo do peito, quente e insistente.

A apresentação terminou antes que ele percebesse.

Foram as palmas altas e entusiasmadas que o arrancaram de seu estupor. 

O homem desconhecido levantou-se, sorriu com confiança e se curvou em agradecimento. Quando ele se ergueu, seus olhos pousaram sobre Wu SuoWei por outro instante.

Menos de um segundo.

Mas foi o suficiente para fazer um arrepio percorrer sua espinha.

O homem desceu do palco e o apresentador subiu novamente. Só então Wu percebeu que estava segurando a respiração, um suspiro perdido escapando por sua garganta. 

Quem… Quem é? O nome. O apresentador disse no começo, mas eu não prestei atenção. Quem é?! 

“Oh céus, estou arrepiado. Não achei que um simples piano pudesse ser tão incrível. Muito obrigada, Chi Cheng! A seguir, gostaria de chamar ao palco uma ilustre presença, a cantora que emplacou um sucesso recente sendo trilha sonora do drama…”

Chi Cheng.

Chi Cheng.

Chi Cheng.

O apresentador continuou falando, mas suas palavras se perderam após o nome.

Então era esse o nome do homem misterioso. Chi Cheng.

Wu SuoWei olhou para os lados, a cabeça girando perdida, procurando o estranho pela multidão.

Foi fácil, simples, como se seus olhos fossem atraídos magneticamente. Cercado por um pequeno grupo, Chi Cheng ria enquanto tomava uma bebida. Ao seu redor mulheres e homens falavam alegremente, tentando conseguir um pouco de atenção do homem bonito que tocava tão bem.

Eles riam e se inclinavam, tocavam aqui e ali despretensiosamente.

Wu SuoWei engoliu em seco.

Ele deixou a taça na primeira bandeja que apareceu e abriu caminho pela multidão, andando quase sem rumo pelo salão.

Seus pés o conduziram até o banheiro e ele fechou a porta, passando as mãos pelo rosto enquanto tentava enxugar o suor e conter o nervosismo.

Era estranho.

Ele se sentia quente e agitado, como se algo fervesse em suas veias e aquecesse seu estômago. Como se as poucas doses de álcool que havia bebido apenas socialmente agora nublassem seu juízo e sua sanidade.

Isso era loucura. Ele estava apenas um pouco afetado, certo? Não tinha comido direito antes do evento e agora o vinho em seu estômago chegava rápido demais até sua corrente sanguínea.

Sim, era isso. Era só isso, com certeza.

Wu se encarou no espelho, respirando fundo enquanto tentava se acalmar minimamente.

Ele puxou o celular do bolso, digitando um único nome na barra de pesquisa. Chi Cheng.

Notícias de dramas inundaram sua tela. Anúncios de produções e lançamentos, de eventos de divulgação. Ele procurou por ele no Weibo, achou uma porção de vídeos promocionais e bastidores de gravações. Um vídeo em particular chamou atenção — caseiro, gravado sem grandes produções, apenas um vlog cotidiano. Chi Cheng pegava uma cobra branca e a deixava subir em seu braço. Ela se enrolou e subiu até alcançar seu pescoço e descansar em seu ombro. 

E Chi Cheng sorriu.

Um sorriso pequeno e simples, mas que fez o coração de Wu SuoWei acelerar.

Chi-

Não.

Ele balançou a cabeça, bloqueando o celular e o escondendo o mais fundo possível no bolso, como se daquela forma ele pudesse deixar de ser uma ameaça.

Wu passou as mãos pelo cabelo, ajeitando seu penteado enquanto buscava se recompor. Seu peito subia e descia rapidamente, mas ele se obrigou a normalizar o ritmo de sua respiração e acalmar os olhos agitados.

Engolindo em seco, ele saiu do banheiro, procurando um copo de água.

Gelada.

Ele precisava de água gelada.


Wu SuoWei jogou a toalha molhada em cima da cadeira.

Ele estava cansado, exausto. 

Já passava de uma da manhã quando ele finalmente chegou em casa. O resto do evento passou como um borrão. Em algum momento ele se lembrou de subir ao palco e apresentar sua música, mas pouco lembrava da performance. Ele apenas sabia que tinha sido boa pelos elogios que recebeu e pela multidão de pessoas ao seu redor após terminar.

Ele bebeu, sorriu, foi simpático e garantiu boas relações e notícias para o futuro, mas isso tudo aconteceu no piloto automático, porque no fundo SuoWei estava mais interessado em procurar o pianista. 

Seus olhos varriam a multidão uma e outra vez atrás de Chi Cheng, atrás do homem misterioso que o arrancou uma sensação tão crua simplesmente por tocar uma única música no piano. Ele o encontrou algumas vezes, seus olhares se esbarrando esporadicamente por não mais do que alguns segundos. 

Era rápido, sutil. Mas Wu SuoWei conseguia sentir o tremor percorrendo seu corpo, seu rosto corado – e ele tentava se confortar dizendo ser culpa do álcool – e a leve timidez que o invadia. Cada olhar durou quase nada, mas ele se agarrou a isso e se recusou a soltar

Então quando se espantou Wu SuoWei estava de volta ao seu apartamento. Enfiado debaixo do chuveiro por tanto tempo que a água quente deixou sua pele vermelha e sensível.

Ele se jogou na cama, um braço por cima dos olhos, um suspiro cansado preenchendo o quarto inteiro. Ele precisava dormir. Seu corpo estava exausto e a consciência levemente afetada pela bebida. Tinha trabalho para fazer no outro dia e precisava urgentemente descansar.

Mas sua mente era cruel e o sabotava. A escuridão de seus olhos fechados o levava de volta aos dedos longos e pálidos deslizando pelas teclas do piano, a expressão serena enquanto tocava como se o instrumento fosse uma extensão de seu corpo.

“Argh!”

Wu SuoWei grunhiu frustrado, batendo a cabeça no travesseiro repetidamente. 

Saia. Da. Minha. Cabeça.

Aquele homem maldito invadindo seus pensamentos e roubando seu precioso sono. Droga.

SuoWei não percebeu quando, mas seus dedos alcançaram o celular na cabeceira. Ele digitou antes de pensar.

Chi Cheng.

Se aquele homem iria roubar sua noite de sono, ele merecia ao menos saber quem era, não é? 

Isso parecia uma desculpa apropriada.

Pesquisando um pouco mais a fundo, Wu descobriu que Chi Cheng não tinha tantos trabalhos em seu currículo. Ele atuou em alguns dramas, mas nenhum deles foi especialmente popular. Sua fama crescente se deve principalmente aos seus trabalhos como modelo e aos vlogs que postava vez ou outra.

SuoWei rolou mais um pouco a tela e acabou indo parar em alguns fóruns de fãs. A maioria eram mulheres falando sobre como Chi Cheng era excitante e bonito, sobre como ele era o tipo de namorado ideal e como era talentoso.

Wu ignorou um pouco isso, procurando mais e mais as postagens de Chi Cheng. Ele compartilhava muito de sua vida pessoal e, ao mesmo tempo, não mostrava nada. Uma foto fumando ou alimentando sua cobra — Xiao Cubao, Wu descobriu ser o nome – um vídeo sobre uma viagem ou nos bastidores de uma gravação.

Era tudo simples e, ao mesmo tempo, magnético. Como se ele convidasse seus seguidores a entrarem em sua vida sem nunca realmente permitir isso.

Ele continuou pesquisando mais e mais, até encontrar um vídeo de ensaio.

Era um vídeo curto, apenas 44 segundos. Chi Cheng sentado no piano, uma camisa com as mangas dobradas e o cabelo levemente despenteado.

Era apenas ele tocando um pequeno trecho de uma música por menos de um minuto – alheio, absorto, completamente entregue.

44 segundos. Só isso. Mais nada.

Wu SuoWei aproximou demais o celular do rosto sem sequer perceber.

Ele se aconchegou nos lençois, apoiando o celular no travesseiro ao seu lado.

Pelos próximos 10 minutos ele reassistiu aquele vídeo, seus olhos se perdendo em cada detalhe, por mais ínfimo que pudesse ser. Ele assistiu até que a música cravasse tão forte em seu cérebro que invadiria seus sonhos.

Em algum momento ele teve certeza de que salvou o vídeo em sua galeria.

Em algum momento depois disso, ele caiu no sono.