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Ellie Williams Braddock

Summary:

Após a morte brutal de Joel, causada por Abby em retaliação aos eventos do primeiro jogo, Ellie e seus amigos viajam para Seattle. Ellie perde tudo, mas, no final, Felipe é o único que permanece ao seu lado, enquanto a trama explora a perspectiva de ambas antes do confronto final.

Chapter 1: Capítulo 1: O Limiar do Inverno

Chapter Text

A manhã em Jackson parecia hesitar entre a névoa úmida e os primeiros raios de sol que tentavam romper o céu nublado. Na sala de controle, no entanto, a atmosfera era de foco absoluto, embora temperada pela familiaridade de quem já havia dividido trincheiras demais.
Robert Muldoon, o veterano encarregado da segurança e do monitoramento climático, cruzou a porta acompanhado por Maria. Ele trazia uma prancheta de alumínio sob o braço, gasta pelo tempo, enquanto examinava algumas anotações rápidas. Antes de falar, ele desviou do caminho de uma bolinha de papel amassado que Ray Arnold havia arremessado sem olhar, mirando na lixeira de metal. A bolinha bateu na borda e caiu fora.
— Péssima pontaria para quem controla os computadores da cidade, Arnold — ironizou Muldoon, com seu tom seco e arrastado de caçador.
— O processador está lento hoje, Robert. Minha cabeça acompanha o hardware — rebateu Arnold, sem tirar os olhos do monitor de fósforo verde.
Maria deu um meio sorriso discreto, cruzando a sala em direção à sua mesa de trabalho.
— Uma das minhas patrulhas de fronteira localizou uma frente de tempestade avançando rápido a oeste daqui — relatou Muldoon, voltando à seriedade e apontando com a caneta para o mapa topográfico estendido sobre a mesa de centro.
— Mantenha-me informada, Robert — disse Maria, sentando-se e puxando uma pilha de relatórios. — Hoje a cidade está de folga por conta do baile de Ano Novo, mas amanhã voltamos ao protocolo rígido. Sem exceções.
Muldoon assentiu, debruçando-se sobre o grande mapa e traçando uma linha a lápis.
— Vou continuar de olho. Com sorte, ela desvia para o sul como a última. Se não, teremos problemas com o gelo nas torres.
Maria ergueu a cabeça e olhou para Arnold. Os caracteres verdes da tela antiga refletiam nos óculos do técnico.
— Ray, verifique os faróis das torres de guarda. Não quero surpresas de energia durante a noite. E limpe os canais de rádio de frequência curta.
Arnold deu uma tragada rápida no cigarro que mantinha no canto da boca, soltando a fumaça pelo nariz antes de responder:
— Já estou rodando o diagnóstico, chefe. Se o gerador principal aguentar o tranco da iluminação do salão de festas, as torres ficam prontas em dez minutos.
Nos limites de Jackson, o silêncio da cabana rústica era quebrado apenas pelo chiado abafado que vazava dos fones de ouvido de Ellie. Deitada no sofá gasto, ela parecia ter se retirado temporariamente do mundo, com os olhos fechados e o discman apoiado no peito. Ao lado dela, na mesa de centro, repousavam seis CDs espalhados, mas o que rodava no aparelho era o seu favorito absoluto: Appetite for Destruction, do Guns N' Roses, tocando a melancólica e enérgica "Think About You".
Perto da janela, focado na luz pálida da manhã, Felipe terminava de preencher o relatório da patrulha do dia anterior. O ranger da ponta do grafite contra o papel áspero era o único som constante na sala, até que a música parou abruptamente.
Ellie abriu os olhos, frustrada.
— Ah, que porra... — resmungou, retirando os fones e sentando-se no sofá. — Felipe, acho que a bateria acabou. Tem mais pilha aí?
— Tem carregador ali — respondeu ele, indicando com um leve aceno de cabeça a tomada instalada na parede ao lado de sua mesa de trabalho, sem interromper a escrita.
Ellie levantou-se lentamente e caminhou até ele. De forma natural, sua mão subiu pelas costas de Felipe até pousar, firme e quente, sobre o ombro dele.
No milissegundo em que a pele dela pressionou o tecido da camisa dele através do ombro, o corpo de Felipe reagiu de forma puramente autonômica. Não houve timidez ou hesitação romântica; os músculos do trapézio e do pescoço travaram instantaneamente, rígidos como pedra. A respiração dele travou no peito. Ele apertou o lápis com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos, descontando a descarga violenta de adrenalina no pedaço de madeira.
Seus olhos continuaram fixos nas linhas do relatório, as pupilas dilatadas. Internamente, sua mente disparou um comando repetitivo, uma âncora para mantê-lo no presente: É a Ellie. É só a Ellie. Você está em Jackson. Ninguém vai te machucar aqui. Expira.
Ele forçou o ar a sair dos pulmões de forma silenciosa e controlada, sem se mover.
Sem perceber o abismo que acabara de se abrir na mente dele, Ellie inclinou-se um pouco mais para pegar o carregador na prateleira.
— Ei... — ela começou, a voz saindo um pouco mais baixa e rouca do que o habitual, abafada pela proximidade. — Eu estava pensando. Quer ir comigo ao baile hoje?
— Não — a resposta de Felipe veio rápida, seca, quase cortante. Uma barreira defensiva imediata.
Ellie inclinou a cabeça, arqueando uma sobrancelha, acostumada com a defensiva dele.
— Ah, você vai.
— Não vou, Ellie.
— Vai sim.
Felipe finalmente soltou o ar por completo e encostou-se no encosto da cadeira de madeira, usando o movimento físico para afastar o corpo do toque dela. Seus olhos azul-acinzentados encontraram o verde intenso dos dela. Havia uma névoa fria no olhar dele que ela não conseguia decifrar por completo.
— Você odeia esse tipo de evento comunitário. O que te fez mudar de ideia?
Ellie retirou a mão do ombro dele — o que fez a tensão muscular de Felipe ceder de forma quase imperceptível — e apoiou-se na beirada da mesa, cruzando os braços.
— Sei lá... Acho que preciso me acostumar mais com o pessoal. Fazer parte do grupo de verdade. Sair um pouco da patrulha e da floresta.
O silêncio que se seguiu carregava o peso de duas realidades diferentes convivendo no mesmo espaço. Felipe olhou para o relatório, vendo a assinatura pendente. Ele suspirou, o cansaço mental sobrepondo-se ao alerta biológico.
— Tá bem. Eu vou.
Um pequeno sorriso vitorioso surgiu nos lábios de Ellie.
— Eu sabia que você não ia me deixar na mão.
Ela deu meia-volta e retornou ao sofá. Conectou o carregador ao aparelho e levantou-se novamente para buscar uma extensão no canto da parede. Enquanto ela se distraía com os fios, Felipe assinou o rodapé do documento, escrevendo de próprio punho os nomes dos responsáveis pela patrulha: Ellie e Felipe.
Ele recolheu as folhas e caminhou até ela, parando de frente para o sofá onde ela agora mexia na sua pequena coleção de CDs.
— Ellie. Meus CDs.
Ela colocou os fones de novo, sorrindo de lado, desafiadora.
— Ah, qual é? Seus CDs são os melhores de Jackson. Principalmente esse Appetite.
Felipe a encarou, o tom de voz baixo, mas carregando uma seriedade fria que cortava o tom de brincadeira.
— Tenha cuidado com esse. É original. Meu favorito. Não quebre a caixa.
— Eu sei — respondeu ela, recostando-se na almofada, percebendo o limite invisível na voz dele. — Por isso mesmo que é bom. Vai aonde?
— Levar o relatório para a Maria — disse Felipe, segurando a pasta de couro e caminhando até a porta.
O corpo de Ellie ficou visivelmente tenso por um instante. A menção ao prédio da administração sempre trazia o fantasma da vigilância constante e das cobranças.
— Quer que eu vá junto? — ofereceu-se, a voz perdendo a leveza.
Felipe balançou a cabeça levemente, com a mão já na maçaneta.
— Não precisa. Fica aí. Comece a se arrumar.
— Tá... Volta logo.
Felipe saiu, fechando a porta de madeira atrás de si com um baque seco e firme, deixando o ar gélido de Jackson limpar o suor frio de sua nuca.
O caminho da cabana de Ellie até o centro comunitário cortava as ruas principais de Jackson, que já mostravam sinais claros de festividade. Felipe caminhou pelas calçadas de terra batida, observando os moradores pendurando fitas coloridas e testando cordões de luzes pisca-pisca nas fachadas rústicas de madeira. O cheiro de lenha queimada e neve derretida pairava no ar gelado da tarde, misturado ao aroma de ensopado que vinha da cozinha comunitária.
Ao passar perto da oficina do armeiro, uma voz grave e familiar o fez interromper o passo.
— Felipe.
Joel estava de pé sob o alpendre da loja de armas, examinando o ferrolho de um rifle de caça. Felipe observou-o por um segundo antes de subir lentamente os degraus de madeira. Ele entrou na varanda coberta, adotando sua postura defensiva habitual: os braços cruzados, mantendo uma distância física segura.
Joel colocou a arma sobre o balcão rústico e limpou as mãos sujas de graxa em um pano cinzento. Ele olhou para o rapaz com um respeito silencioso, sem forçar uma aproximação física.
— Bom dia — disse Joel.
Felipe apenas assentiu com a cabeça, em silêncio.
— Queria te pedir uma coisa — continuou Joel, apoiando as mãos calejadas no balcão. — Eu e o Tommy vamos fazer uma patrulha amanhã bem cedo. O Tommy insistiu que fosse você. Ele disse que o seu trabalho limpando os rastros na fronteira leste no mês passado foi impecável. Eu concordo com ele. Gostaríamos que você cobrisse a nossa retaguarda.
Felipe desviou o olhar para o chão de tábuas corridas, assimilando o convite. Joel não estava fazendo um favor ou sendo condescendente; era um reconhecimento genuíno de sua competência técnica e instinto de sobrevivência.
— Qual vai ser a rota? — perguntou Felipe.
— Ao norte de Jackson, subindo em direção às antigas cabanas de mineração — respondeu Joel. — Patrulha de rotina, mas o terreno lá em cima é traiçoeiro com a neve fresca. Queremos garantir que os arredores fiquem limpos depois do barulho que a cidade vai fazer hoje à noite.
Felipe manteve a expressão neutra, mas o reconhecimento profissional de Joel acalmou parte de sua rigidez.
— Tudo bem. Eu vou.
Um pequeno e sutil sorriso de alívio surgiu no rosto marcado de Joel.
— Ótimo. Vamos sair cedo, por volta das três da manhã, perto do portão sul.
— Estarei lá.
Felipe fez menção de dar meia-volta, mas Joel o chamou novamente, com a voz caindo para um tom mais baixo, quase hesitante.
— A Ellie... ela está bem? Tem saído para patrulhar sem reclamar muito?
Felipe parou. Ele sabia do abismo silencioso que existia entre Joel e Ellie, mas também reconhecia a preocupação genuína daquele homem. Felipe manteve seu tom direto, mas com uma suavidade sutil:
— Ela está bem, Joel. Vai ao baile hoje.
Joel assentiu em silêncio, processando a informação. Um brilho rápido de melancolia passou por seus olhos.
— Entendi. Obrigado, Felipe. Tenha um bom dia.
Felipe desceu os degraus e seguiu em direção ao prédio da administração, onde ficava a sala de comando.
Ao entrar no posto de controle, o calor do aquecedor o atingiu de imediato. Ele cumprimentou Robert Muldoon com um aceno de cabeça e deixou a pasta com o relatório de patrulha diretamente sobre a mesa de Maria, que ainda estava fora resolvendo a logística do salão.
Felipe caminhou até a mesa de Arnold, que agora digitava com apenas uma das mãos enquanto segurava um maço de cigarros amassado.
— Onde está o Alan? — perguntou Felipe.
— O Grant? — Arnold soltou uma risada nasalada. — Onde mais ele estaria? Está enfiado na estufa comunitária com o termômetro na mão, tentando salvar aquela nova colheita de tomates experimentais antes que a geada de amanhã comece. O homem prefere plantas a pessoas.
Arnold puxou dois cigarros do maço amassado e estendeu um para Felipe. O rapaz aceitou. Acendeu o tabaco e deu uma tragada longa e profunda. A fumaça quente preencheu seus pulmões, anestesiando temporariamente a tensão residual que ainda carregava no peito. Ele soltou a fumaça lentamente, observando-a subir em direção às lâmpadas de teto.
— Vai ao baile hoje, garoto? — perguntou Arnold, também acendendo o seu e encostando-se na cadeira de rodinhas.
Felipe sentiu um leve e incômodo arrepio com a palavra "baile", mas manteve o rosto impassível.
— Vou.
Arnold ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Olha só. Maria liberou a nossa escala mais cedo por causa disso. Eu só vou porque a nossa velha equipe vai estar reunida por lá. Não dá para deixar o Hayes bebendo sozinho.
Muldoon, que continuava focado em traçar as coordenadas climáticas no mapa, ergueu os olhos e deu um sorriso de canto, ajeitando o coldre no quadril.
— Digo o mesmo. Se eu tiver que ouvir o Lumpy reclamar sobre a qualidade da bebida de Jackson por mais de dez minutos sem ter um copo na mão para aguentar, eu atiro no pé dele.
Felipe manteve o cigarro entre os lábios, a expressão fria.
— Isso tudo é uma perda de tempo. Uma merda que atrai barulho desnecessário para os portões.
Arnold e Muldoon riram baixo, acostumados com o pragmatismo defensivo do jovem patrulheiro.
— Você precisa aprender a desligar o modo de caça de vez em quando, Felipe — comentou Muldoon, guardando o lápis no bolso da camisa de sarja.
— Não — corrigiu Arnold, soprando uma nuvem de fumaça azulada. — Nós precisamos. Amanhã o inverno começa de verdade.
Com o cair da noite, Jackson parecia ter sido engolida por uma atmosfera vibrante e quase irreal. Luzes amareladas e quentes brilhavam contra a neve acumulada nas calçadas de madeira, e o som de violinos, risadas e conversas cruzadas ecoava das janelas do grande salão comunitário.
Quando Ellie e Felipe cruzaram a entrada do baile, a transição foi violenta para os sentidos dele. O local estava completamente lotado; o calor humano, o cheiro de suor, álcool e comida cozida, misturados ao eco ensurdecedor da música folclórica, atingiram Felipe como um soco. Ele enfiou as mãos profundamente nos bolsos do casaco de couro, fechando os punhos com tanta força que as unhas machucavam as palmas das mãos. Ao seu lado, Ellie também adotou uma postura rígida, os ombros tensos enquanto seus olhos varriam a multidão.
Eles caminharam até a lateral do balcão de bebidas, buscando a proteção física da estrutura de madeira para evitar o fluxo constante de pessoas que passavam coladas a eles.
Do outro lado do salão, perto de uma das grandes vigas de sustentação, uma roda de rostos conhecidos ria alto. Ray Arnold, Ben Hayes, Robert Muldoon, Alan Grant, Lumpy e o jovem Jimmy compartilhavam uma garrafa de destilado artesanal de Jackson.
Alan Grant avistou Felipe e imediatamente ergueu o copo, abrindo um sorriso largo.
— Ei, Felipe! — gritou Grant, acenando de forma espalhafatosa para que ele se aproximasse.
O grupo inteiro parou a conversa e se virou para Felipe. Jimmy deu um assobio amigável, enquanto Lumpy levantou uma caneca vazia no ar, apontando para ele como se dissesse: "Finalmente saiu da toca!". Ben Hayes deu uma risada calorosa e fez um gesto com a cabeça, um brinde silencioso de puro acolhimento. Por dois segundos, o salão inteiro pareceu dar uma Copa do Mundo de atenção ao rapaz calado do canto, mostrando o quanto ele era querido e respeitado por aquela pequena comunidade de sobreviventes.
Felipe sentiu a garganta secar. Ele fez menção de dar um passo em direção a eles, mas a voz de Ellie o deteve. Ela olhava para o lado oposto do salão, onde a pista de dança começava a se encher de casais.
— Eu não estou com muita vontade de ir lá no meio agora... — admitiu ela, a voz quase sumindo sob o barulho do salão. Havia uma hesitação rara em seu tom.
Felipe ergueu a mão em um gesto discreto para o grupo de Grant, indicando que esperassem um pouco. Ele apoiou o cotovelo no balcão de madeira, posicionando-se de forma a criar uma barreira física entre Ellie e o restante da multidão.
— Não vou te deixar aqui sozinha — disse ele, a voz firme.
Ellie soltou uma risada baixa, o corpo relaxando visivelmente ao perceber a proteção dele. Felipe gesticulou para o barman e pediu dois copos de bebida destilada local.
As horas pareceram passar em um borrão cinzento e barulhento. À medida que o álcool entrava na corrente sanguínea, a rigidez muscular de ambos começou a ceder, mas a mente de Felipe continuava operando em alerta máximo. Cada esbarrão casual de um estranho que passava por trás dele fazia sua espinha se contrair.
De repente, a banda local mudou o ritmo. A música animada deu lugar a um tom lento, suave e arrastado. Ellie colocou seu copo vazio no balcão e, sem aviso, pegou o copo de Felipe, colocando-o de lado.
— Chega de ficar só olhando — disse ela, pegando-o pela mão com firmeza.
No instante em que os dedos dela se entrelaçaram nos dele, o sistema nervoso de Felipe disparou um alerta vermelho.
— Ellie... — ele tentou protestar, mas sua voz saiu fraca, sem fôlego.
Ela o puxou com determinação até o centro da pista de dança, onde os casais se moviam de forma lenta e coordenada. Ellie segurou a outra mão dele. Felipe ficou completamente rígido, o corpo tenso como se estivesse diante de um predador.
— Ellie, eu... você sabe que eu não...
— Ah, cala a boca e dança — brincou ela, aproximando-se e diminuindo o espaço físico entre eles.
À medida que começaram a se mover no ritmo lento, a mente de Felipe iniciou um processo involuntário de fragmentação. A sensação de flutuar fora do próprio corpo não tinha nada de poética; era a dissociação assumindo o controle. O salão ao redor começou a perder o foco. As luzes amarelas transformaram-se em borrões difusos, e a música folclórica soava distante, como se estivesse sendo tocada debaixo d'água.
Ellie olhou para cima, encontrando os olhos dele, e deu um sorriso genuíno.
— Você parece um cadáver dançando. Solta esses ombros.
Felipe tentou responder, mas sua garganta parecia obstruída por um nó de ferro. Ele conseguiu apenas forçar um riso soprado e tenso.
— Para, Ellie.
Ela percebeu que o tremor nas mãos dele havia retornado, mas interpretou aquilo como a timidez habitual dele. Buscando uma aproximação maior, ela soltou as mãos dele e as deslizou lentamente até a cintura de Felipe, segurando-o pela lateral do quadril.
O toque na cintura foi o estopim.
A mente de Felipe se desconectou da realidade por completo. Seus pulmões colapsaram; o ar simplesmente não entrava mais. O peito dele apertou com uma força sufocante, como se uma faixa de aço estivesse sendo apertada ao redor de suas costelas. O calor do salão tornou-se uma estufa insuportável, e o suor frio começou a escorrer por suas têmporas. A sensação de estar sendo contido, tocado e encurralado desencadeou uma reação de pânico pura e primitiva. Ele queria gritar, queria empurrá-la, mas seu corpo estava paralisado pelo terror físico da memória do trauma.
Eles se aproximaram ainda mais pelo movimento natural da dança. Felipe curvou-se levemente, incapaz de manter o peso do próprio corpo ereto, e as testas de ambos se encostaram. A respiração de Ellie, quente e rítmica, batia contra o rosto dele, mas para Felipe, aquele oxigênio estava escasso. Toda a música de fundo e as vozes de Jackson desapareceram em um zumbido agudo e ensurdecedor em seus ouvidos.
Movida por um impulso silencioso, Ellie fechou os olhos e começou a reduzir a mínima distância que separava seus lábios. Iria acontecer. O beijo estava a milímetros.
Para Felipe, aquilo era o ápice do sufocamento. Ele sentia que ia desabar no chão a qualquer segundo se aquele contato continuasse.
— Ei! Achei vocês! — a voz vibrante e estridente de Dina ecoou ao lado deles.
A interrupção física funcionou como um alarme de incêndio na mente de Felipe, quebrando instantaneamente o estado de transe dissociativo.
Ele se afastou de Ellie de forma abrupta, quase violenta, dando um passo largo para trás enquanto seu peito subia e descia em uma busca desesperada por ar.
Dina aproximou-se sorrindo, completamente alheia à eletricidade estática e ao pânico silencioso que pairavam no ar, e segurou o braço de Ellie com entusiasmo.
— Me empresta ela só um minutinho! — pediu Dina, puxando Ellie em direção ao grupo de dança mais animado antes mesmo que ela pudesse responder.
Ellie, atordoada pela interrupção repentina e pela perda súbita do contato, tentou protestar enquanto era arrastada.
— Dina... espera... Felipe!
Mas Felipe já não ouvia. O instinto de sobrevivência havia assumido o controle absoluto de suas pernas. Com os olhos arregalados e a visão periférica completamente escura, ele deu as costas à pista de dança e começou a caminhar rapidamente na direção oposta, abrindo caminho de forma caótica rumo à saída comunitária.
No trajeto apressado, ele acabou esbarrando com força no ombro de Ben Hayes, que conversava perto da porta de saída com Muldoon. O impacto quase desequilibrou o homem mais velho.
Hayes deu um passo atrás, mas ao olhar para Felipe, seu sorriso amigável desapareceu instantaneamente. Ele reconheceu aquele olhar. Como um veterano de guerra que já havia visto homens entrarem em choque nas trincheiras, Hayes soube imediatamente que Felipe não estava apenas bêbado ou tímido; o garoto estava tendo um colapso.
Hayes deu um passo à frente e segurou firmemente os ombros de Felipe, oferecendo uma resistência física sólida para impedir que o rapaz continuasse a correr às cegas.
— Ei, ei... Felipe. Olha para mim, garoto — disse Hayes, a voz firme, baixa e paternal, cortando o barulho do salão.
Felipe tentou se soltar, a respiração vindo em arquejos curtos e rápidos, os olhos vidrados de pânico.
— Eu preciso... sair... — balbuciou Felipe, o suor frio escorrendo por seu maxilar rígido.
Hayes não o soltou. Em vez disso, manteve a pressão firme e reconfortante em seus ombros, funcionando como uma âncora física no meio da tempestade sensorial.
— Eu sei. Você vai sair — disse Hayes, mantendo o contato visual. — Mas primeiro, respira comigo. Puxa o ar... isso. Agora expira devagar. Mais uma vez. Puxa... expira. Estou aqui com você. Você está seguro.
Felipe forçou-se a seguir o ritmo de Hayes por duas respirações profundas. O aperto em seu peito começou a afrouxar ligeiramente, o suficiente para que a realidade ao redor parasse de girar tão rápido.
Hayes percebeu a sutil mudança física e soltou os braços de Felipe de forma lenta, dando-lhe espaço, mas mantendo a guarda alta para protegê-lo de qualquer outro morador que passasse.
— Vá para casa, Felipe — disse Hayes, com um olhar de puro cuidado e proteção paternal. — A noite já deu o que tinha que dar para você. Vá descansar. Amanhã bem cedo temos aquela patrulha com o Joel e o Tommy. Preciso de você inteiro para cobrir as minhas costas lá fora.
Felipe engoliu em seco, assentindo com a cabeça de forma fraca, incapaz de formular palavras completas de agradecimento.
— Obrigado... Hayes — conseguiu murmurar.
— Não precisa agradecer, garoto. Agora vá. Descanse.
Felipe cruzou a porta de saída de emergência, ganhando a noite escura e gélida de Jackson.
O vento congelante de inverno bateu com força em seu rosto, limpando o suor frio e ajudando-o a encher os pulmões com ar puro. Mas, enquanto caminhava sozinho pela calçada deserta em direção à sua cabana, o calor sufocante e a sensação de invasão em seu peito não diminuíram por completo. Para ele, a noite de celebração e recomeço havia se transformado em um verdadeiro inferno pessoal, cujo eco físico ainda fazia suas mãos tremerem sob o tecido do casaco de couro.