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Preso no quebra-cabeça (Stuck on the Puzzle)

Summary:

Antigamente, quando morava em Kirkwall, Cullen tinha um acordo com um membro da guarda da cidade que satisfazia suas necessidades. Mas o tempo mudou tudo, e ele já havia perdido a esperança de encontrar um acordo semelhante novamente — isto é, até conhecer Iron Bull. O problema é que Bull parecia se importar muito mais com os detalhes práticos desse tipo de acordo do que Cullen jamais se importou.

Notes:

Tradução revisada com o objetivo de oferecer a melhor fluidez e coerência possível em português brasileiro. Este é um trabalho de fã para fã, realizado com respeito e carinho pela obra original. Por favor, não copie, redistribua ou publique esta tradução em outros sites ou plataformas. Todos os direitos da obra pertencem ao autor original — thespectaclesofthor.

Chapter 1: Capítulo 1: Condições

Chapter Text

A ideia vinha amadurecendo em sua mente desde que ele tomara conhecimento de algumas das propensões do Iron Bull.

Antes da Inquisição, antes de Haven, depois de Kinloch e depois de Kirkwall, nos anos em que tentou encontrar algo parecido com estabilidade no mundo caótico ao seu redor; egoisticamente, tanto para sua própria paz de espírito quanto para a de qualquer outra pessoa... depois disso, ele teve uma espécie de acordo com um membro da guarda da cidade – Damhian Searidge – que era um disciplinador oficial para aqueles que haviam cometido ofensas leves a moderadas.

Na verdade, não tinha sido grande coisa. Um chicote de nove caudas era a única coisa de grande valor entre os dois. Cullen passou a acreditar que o homem gostava daquilo, independentemente de ser seu trabalho, e que Cullen precisava daquilo para se manter concentrado.

Um efeito colateral infeliz de Kinloch. A dor podia ser destrutiva ou instrutiva. Podia concentrar ou distrair. Cullen usava todas as ferramentas à sua disposição para garantir que pudesse ser o mais competente possível. Acontece que as marcas de chicote que percorriam seus ombros e parte superior das costas o mantinham firme, mesmo que ele tivesse que ser muito cuidadoso com a pomada de raiz élfica para garantir que não infeccionassem. Não era como se Searidge o tivesse despedaçado. Era que ajudar a reconstruir a Forca e passar os dias andando por aí com roupas pesadas criava um tipo de umidade pegajosa e suada que era terrível para a cicatrização de feridas.

Além disso, Searidge não o bateria se alguma das chicotadas tivesse rompido a pele e infeccionado. Ele continuaria a surra mesmo com as costas machucadas, mas ferimentos como aqueles…

Toma essa maldita poção de raiz élfica — Searidge lhe dissera uma vez, enfiando-a em suas mãos. — Você me faz sentir como um monstro.

— Não é minha intenção — disse Cullen, sentindo-se agitado e inquieto, sabendo que Searidge não o tocaria agora. Não esta noite. — Preciso desse lembrete por mais de doze horas. Não é como se eu pudesse te ver todas as noites. Podemos evitar suspeitas.

Mas depois disso, Searidge passou a encará-lo por tempo demais, com uma expressão preocupada no rosto. Ele inventava desculpas para não estar disponível nas noites em que Cullen precisava vê-lo, mesmo que esses encontros tivessem sido combinados com dias ou até semanas de antecedência. Quando Cassandra Pentaghast chegou a Kirkwall, Cullen estava completamente exausto de querer se livrar daquele lugar e de todas as lembranças que o acompanhavam. Ingenuamente, ele esperava que a abstinência não o atormentasse tanto se assumisse mais responsabilidades, e mais, e mais.

A perspectiva o fez perceber que provavelmente colocara Searidge numa posição delicada. Uma pessoa com certa autoridade pedindo algo assim, que exigia o máximo sigilo, e que comprometeu a transparência do acordo ao não se cuidar adequadamente depois.

Agora, em Skyhold, eles haviam adquirido todo tipo de itens de mercadores, comerciantes e outros. Uma caixa de instrumentos disciplinares chegou em uma das muitas remessas, e Cullen foi um dos primeiros a examiná-los, declarando publicamente que não achava que o Inquisidor gostaria de ver muita coisa em termos de punição corporal. Ele estava certo sobre isso também.

Isso significava que ele podia roubar vários itens para o sótão que servia de quarto e segurar o chicote de nove rabos intocado nas mãos, encarando-o quando a abstinência se tornasse mais do que um pensamento incômodo, mas uma sensação de que o próprio céu estava invertendo sua posição. Quando a vertigem era tão forte que ficar em pé exigia todo o seu esforço, tão difícil quanto, às vezes, fora sobreviver ao pior de Kinloch. Seus pulmões se contraíam, sua respiração ficava ofegante, e ele apertava o couro nas palmas das mãos com tanta força que gravava marcas em suas mãos calejadas.

Ainda assim, ele não se aproximou de Iron Bull por algum tempo. Principalmente por causa das palavras “Ben-Hassrath” que ecoavam em sua mente sempre que pensava em entregar aquele lado de si a outra pessoa novamente. Ele certamente não era estúpido o suficiente para fazer isso com alguém que pudesse informar os altos escalões Qunari de que o Comandante do Inquisidor tinha uma queda por apanhar.

#

Ele também não procurou o Iron Bull depois que ele se tornou Tal-Vashoth. No começo, porque parecia algo insensível de se fazer, e ele não tinha certeza se a postura de Bull mudaria. Depois, porque havia um fluxo constante de pessoas entrando em Skyhold, e isso significava tomada de decisões, significava um aumento ainda maior de lyrium dentro das muralhas, significava que até mesmo arriscar uma visita à taverna podia acabar em ouvir algum Templário beberrão especulando sobre como seria a substância vermelha, se a azul já era tão boa assim.

A Inquisidora tinha na cabeça que ele era um homem forte. Ele ficou horrorizado por ela não perceber suas tentativas de se fazer parecer forte, e absurdamente grato por ela ter acreditado na farsa.

Isso o convenceu ainda mais de que a Inquisidora precisava de conselheiras como Leliana e Josephine, porque o Criador sabia que ela não conseguiria desvendar mentiras e enganos sozinha. A Marca lhe conferia muitas qualidades, mas discernimento não era uma delas.

#

Acontece que ele nem precisou se aproximar de Iron Bull.

Era uma noite tardia, e Cullen folheava as páginas à luz de velas, tentando desesperadamente encontrar o nome de um antigo Cavaleiro-Comandante de quem não conseguia se lembrar. Ele queria fazer uma breve menção ao Cavaleiro-Capitão Rylen em alguma correspondência. O incomodava não conseguir se lembrar. Não lhe haviam ensinado isso desde cedo? E não havia se dedicado com tanto afinco, justamente para não esquecer?

Sua respiração estava ofegante e entrecortada, as dores em seu corpo muito mais intensas que o normal. Era uma dor lancinante no estômago que não passava com a comida. Sua visão estava embaçada e ele sentia como se, de alguma forma, estivesse diminuído. Enquanto outras pessoas caminhavam com desenvoltura, presumindo que ainda eram pessoas, ele sabia que era apenas uma casca vazia e vivia sob o efeito da síndrome do impostor, com o medo constante de ser descoberto.

Ele só precisava encontrar o maldito nome, era só isso. Se não conseguisse se lembrar…

Alguém bateu na porta, e Cullen respondeu secamente com um “entre”, perguntando-se se o vigia noturno teria visto alguma coisa.

A presença do Iron Bull era imponente em seu escritório. Cullen permaneceu debruçado sobre o livro por mais alguns segundos, seus dedos já segurando um punhado de páginas, pronto para continuar folheando. Ele se endireitou e se obrigou a manter contato visual.

— Posso ajudar?

Pronto, era assim que as pessoas de verdade soavam, não era? Certamente era assim que os comandantes soavam.

Iron Bull deu de ombros, aproximou-se e exibiu uma expressão tranquila no rosto.

— Aquele novo grupo de Templários que desertou perguntou se podia treinar com os Chargers para aprender novas técnicas de combate. Não é uma má ideia. Achei melhor consultar você primeiro.

— Claro — disse Cullen, esperando que as palavras não soassem ásperas como se sentiram. — Eu não sou o responsável por eles.

Iron Bull ergueu as sobrancelhas ao ouvir a resposta.

Cullen sabia que tudo o que Iron Bull fazia era uma escolha. Se ele ficou surpreso com o tom de Cullen, não precisava demonstrar isso para o próprio Cullen.

— Você está bem? — perguntou Bull. — Já é tarde.

É mesmo? Eu jamais teria imaginado.

Mas Cullen não conseguia parar de pensar no chicote de nove pontas que tinha acabado de subir pela escada. E não conseguia evitar imaginar um daqueles braços grossos empunhando-o. Pelo sopro do Criador, seria perfeito. As sobrancelhas do Iron Bull se ergueram ainda mais, e Cullen corou, baixando o olhar de volta para o livro, pensando que talvez estivesse encarando Bull do mesmo jeito que encarava o chicote.

Pergunte a ele.

— Ouvi rumores sobre você — disse Cullen, olhando para cima novamente. — Sobre as coisas que você gosta de fazer.

A expressão do Iron Bull mudou, tornou-se tranquila novamente, até mesmo lasciva.

— É? — ele disse. — Quer montar no-

— Não — Cullen respondeu.

Bull riu como se já esperasse aquela resposta, e Cullen se perguntou se não tinha acabado de cair numa provocação.

— Quero que você me bata — disse Cullen, pronunciando as palavras antes que pudesse engoli-las e ser envenenado pela saudade.

A expressão de Bull não mudou exatamente. Mas ficou imóvel. Ele estava examinando Cullen mais abertamente agora, e Cullen percebeu que, por baixo das roupas, estava coberto por uma fina camada de suor frio. Isso sem dúvida começara horas atrás. Ele tinha sorte de não estar deitado e tremendo na cama. Mas ele era experiente em se forçar a superar os episódios, e às vezes o simples fato de se obrigar a trabalhar já era suficiente para manter o pior sob controle.

— Claro — disse Bull. — Vista sua armadura, pegue sua espada e nós vamos-

— Não faça isso — disse Cullen, engolindo em seco. — Não seja obtuso de propósito.

— Então você precisa ser mais claro — disse Bull, com a voz num tom grave e suave. 

Era até convidativa. Talvez Cullen estivesse apenas imaginando coisas. Meu Deus, como ele tinha feito isso com Searidge mesmo? Ele nem conseguia lembrar.

— Eu tenho um chicote de nove pontas lá em cima — Cullen disse. — E eu costumava ter um acordo com alguém antes da… Inquisição. Não estou procurando sexo. Só tomaria alguns minutos do seu tempo de vez em quando, talvez uma vez por mês. Você pode me bater nos ombros e nas costas.

— Não sei o que você ouviu falar de mim — disse Bull lentamente, — mas não é nisso que penso quando penso em passar um bom tempo.

Foi o lírio, a falta dele. Isso deixou Cullen estúpido. Fez com que ele dissesse coisas que, no resto do tempo, ele se esforçava muito para não dizer. Seus dedos amassaram as páginas que segurava e, então, ele se obrigou a fechar o livro lentamente e respirar fundo algumas vezes. Ele não sabia o que dizer. Não podia voltar atrás. Não podia alegar que era algum tipo de artimanha.

— Seja lá para que você esteja usando isso — disse Bull, interrompendo os pensamentos de Cullen, — é a única coisa que você tem para te ajudar?

Cullen ergueu o olhar, assustado. Ou pelo menos tentou, pois o movimento repentino fez sua visão turvar, e ele se agarrou à mesa, respirando fundo pelo nariz até que a visão se estabilizasse. Bull parecia preocupado agora, mas talvez fosse apenas imaginação de Cullen.

— Não — disse Cullen. — Não me ajudou em nada desde o início da Inquisição. Não preciso disso.

Mentiras.

— Quer vir até a taverna, conversar sobre isso tomando uma cerveja? Por minha conta.

— Não, obrigado — disse Cullen. — Talvez você pudesse esquecer que isso aconteceu.

— Não era uma oferta do tipo tudo ou nada — Bull disse. — Não é como se essa conversa acabasse só porque você não quer tê-la lá em cima. Podemos ter ela aqui.

— Eu não quero ter uma conversa sobre isso — Cullen respondeu. — Qual é a dificuldade de manejar o chicote vinte, trinta vezes e depois ir embora?

— Para mim? — disse Bull, dando de ombros. — Parece bem difícil.

— Foi tudo planejado para funcionar a seu favor — disse Cullen, encarando-o. — Tudo o que você precisa fazer é manter minha confiança; eu cuido de todo o resto da transação.

— Transação — disse Bull em voz baixa. — Certo.

— Puxa vida, não estou tentando te ofender. É só que parece ser um efeito colateral de eu abrir a boca depois das três da manhã. Se você-

— Que tal você parar de falar e eu falo um pouco? — disse Bull. Cullen fechou a boca e não quis abri-la novamente. — Imagino que foi assim que aconteceu da última vez? Você encontrou alguém que te desse umas palmadas e depois fosse embora?

Cullen assentiu com a cabeça sem dizer nada. Bull também assentiu, mas menos em concordância e mais como alguém que observava uma operação particularmente delicada na Mesa de Guerra.

— Você tem alguma palavra de segurança para isso? — perguntou Bull.

Cullen balançou a cabeça. Então não conseguiu se conter e respondeu: 

— Para ser justo com ele, Bull, eu nunca precisei disso.

— Mas ele não pensou em te dar uma?

— Não — disse Cullen. — Ele era... Criminosos e arruaceiros não recebem uma antes de serem crucificados, entende?

— Certo — disse Bull novamente. — Eu não trabalho sem uma. Nem jogo. Sendo um cara gigante como eu, é muito fácil machucar alguém como você.

Cullen percebeu que aquilo não estava ajudando. Bull enfatizando a diferença de altura e tamanho entre eles daquele jeito. Não estava ajudando em nada Cullen a querer menos aquilo. Ele queria poder se sentar, mas sentia que isso seria demonstrar muita fraqueza num momento como aquele. Ele travou os joelhos e ainda não conseguia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo.

— Sendo o bom samaritano que sou, eu poderia fazer isso — disse Bull, como alguém que ainda não tinha certeza se deveria. — Tenho algumas condições.

Cullen fez um gesto indicando que Bull deveria continuar.

— A primeira coisa que você vai fazer é escolher uma palavra de segurança, e-

— Filactério — disse Cullen.

Bull riu.

— Essa não. Algo com uma ou duas sílabas só. Acredite ou não, às vezes a mente se esquece de processar palavras assim. E eu não pedi para você dizer agora. Sabe, você está me interrompendo muito. Não me importo com isso em campo. Mas você pode me tratar com um pouco mais de respeito agora, não pode?

As bochechas de Cullen coraram, até mesmo seu pescoço ardeu. Ele se sentiu humilhado, envergonhado. Assentiu com a cabeça novamente. Será que ele realmente estava interrompendo Bull com tanta frequência? Provavelmente era sua maneira de tentar controlar uma situação que parecia estar muito além de seu alcance. Ele esfregou a nuca e, em seguida, ergueu o olhar rapidamente quando Bull deu um passo à frente.

Mas ele apenas levantou a mão, com uma expressão de preocupação no rosto.

— Ainda estamos conversando sobre isso porque acho que precisamos, não porque estou tentando prolongar a situação antes de dizer não definitivamente. Entendeu?

Cullen pigarreou. Assentiu com a cabeça. Não tinha certeza se acreditava naquilo.

— Então, condições. Sim, uma palavra de segurança. Algo de uma ou duas sílabas. Podemos usar a que eu costumo usar, se preferir. Katoh. A outra condição é que eu decido quanto é suficiente e quanto você aguenta. Não tenho interesse em deixar você todo ensanguentado antes de vestir a armadura. Raiz de Elfo ajuda, claro, mas o que acontece se você vier até mim e, trinta minutos depois, estiver sacolejando num cavalo esperando a poção fazer efeito? Do jeito que as coisas acontecem por aqui, isso é uma possibilidade. Eu não me importaria tanto com qualquer outra pessoa, mas você é o Comandante, então… isso importa.

Cullen assimilou a informação. Fazia sentido, claro. Ele não ia discordar, embora provavelmente evitasse consumir tanta raiz élfica quanto Bull achava que ele deveria. Mas isso era fácil o suficiente quando Bull não estava olhando.

— Cuidados posteriores — disse Bull, observando-o atentamente. — Fico por perto depois. Cuido de você.

Cullen não conseguiu evitar revirar os olhos, mesmo que seus olhos doessem nas órbitas. Bull riu baixinho.

— Sim, imaginei que você faria isso.

— Eu não preciso disso — disse Cullen. — Não é essa a questão.

— Você quer que a dor dure, eu entendo. Não estou dizendo que vou te ajudar a curá-la imediatamente depois. Você quer carregar esses hematomas que eu te causei? Você tem esse direito.

Cullen franziu a testa, surpreso com o que Bull estava dizendo. Ele se lembrou de Searidge dizendo que Cullen o fazia se sentir como um monstro às vezes. Se perguntou se estava sonhando com toda aquela conversa. Com o tipo de sonhos que às vezes tinha, não se surpreenderia.

— Eu ficaria de olho em você. Traria água, comida e passaria pomada em qualquer lugar onde a pele estivesse aberta. Garantiria que tudo estivesse bem.

— Eu não preciso disso — disse Cullen novamente.

— Ei, não me importo — disse Bull, sorrindo. — É uma condição que eu tenho. Você não precisa aceitar essa condição, não precisamos fazer isso.

— Há alguma outra condição?

— Não no momento — disse Bull. — Ah, espere, mais uma coisa. Quero usar minhas próprias ferramentas. Elas são bem cuidadas e já estão amaciadas. Esse seu chicote de nove pontas, já está amaciado?

Cullen balançou a cabeça, suspirando baixinho. Aquela condição era fácil de aceitar. Couro rígido era imprevisível na melhor das hipóteses.

— Então — disse Cullen. — Uma palavra de segurança: katoh está bom. Eu paro de te interromper. Cuidados posteriores. Suas próprias ferramentas. Estou esquecendo de algo?

— Muito bem — disse Bull ao resumo de Cullen, e Cullen ignorou o leve calor do elogio. Ele não podia confiar naquele calor, não confiava em elogios. Eles tinham visto o quanto ele estava ansioso por receber elogios em Kinloch. Eles tinham visto. E usaram isso para tentar quebrá-lo. — Você está esquecendo de uma coisa.

— Estou? — disse Cullen, confuso.

— Suas condições.

— Sim… — disse Cullen. — Claro. Confidencialidade. Você não conta para ninguém. Nem para o Inquisidor, nem para seus Chargers, nem para os Qunari. Ninguém.

— Claro — disse Bull com naturalidade. — Posso fazer isso. Mas se eu achar que você vai se machucar gravemente, ou machucar alguém, eu aviso o Inquisidor isso. Não o que fazemos, mas o que aprendi se achar que você está em risco.

Cullen refletiu sobre o acordo que tinha com o Buscador e assentiu, aceitando-o. Era o mínimo que se podia fazer.

— Mais alguma coisa? — perguntou Bull.

— Nada de sexo — repetiu Cullen, respirando fundo. 

Não que a ideia de sexo com Bull fosse terrível. Não era. Era... curiosa, até tentadora. O problema era que Cullen não se permitia mais pensar em sexo e tentação. Fazia muito tempo. Ele não queria confundir o que aquilo deveria ser com intimidade sexual.

— Entendi — disse Bull. — E quanto a gentling?

— Não faço a mínima ideia do que você está falando — disse Cullen, começando a perder a paciência novamente. 

Não era como se estivessem pedindo para ele ser tratado como um bebê.

— Se você se sentir sobrecarregado, muito angustiado, sabe, uma mão na lateral do seu braço, na nuca. Só algo para te ancorar.

— Você não precisa se preocupar com isso. Você está tornando isso uma condição?

— Não — disse Bull, mas Cullen o encarou fixamente por mais um instante, sem ter certeza se isso significava que ele não tentaria. 

Já era ruim o suficiente que Bull quisesse ficar depois e alimentá-lo.

— Ainda acho que você está complicando as coisas mais do que o necessário — disse Cullen, e Bull deu de ombros novamente. 

Curiosamente, o gesto fez Cullen sentir que Bull achava que ele não estava complicando as coisas o suficiente. Uma ideia ridícula.

Não acredito que estou fazendo isso.

Uma pequena parte dele – uma parte muito pequena – sentia quase orgulho por ter conseguido – por ter perguntado, por ter levado a conversa até o fim. Mas o resto dele era um turbilhão de reações. Negação de que ele sequer se beneficiasse com aquilo. Horror por ter tocado no assunto com Bull e tornado a ideia uma possibilidade real. Vergonha por Bull estar vendo esse seu lado, e um medo persistente de que, a essa hora da noite seguinte, ele e os Chargers estariam rindo, bebendo, de um Comandante tão quebrado e desesperado. Em meio a tudo isso, o desejo intenso e faminto que pulsava dentro dele como um segundo coração. Não pelo chicote – embora o desejasse – mas pelo lírio.

Ele não conseguiria dormir naquela noite, por mais que tentasse. Pelo menos, quando se conformava com isso, conseguia trabalhar um pouco em vez de ficar se revirando na cama.

— Onde você quer que isso aconteça? — perguntou Bull em voz baixa, num tom que destoava de sua presença no escritório.

Cullen hesitou. Deveria revelar o quanto havia pensado nisso? O quanto havia mentalmente explorado os locais enquanto vasculhavam Skyhold?

— Há um quarto na torre perto dos estábulos. Usamos para guardar coisas. É... à prova de som. Poucas pessoas vão lá, por ser tão longe de Herald’s Rest.

— É também um lixão — disse Bull, bem-humorado.

Cullen assentiu com a cabeça e sorriu levemente. 

— Isso também. Está melhor agora, mas é óbvio que foi reparado pensando em armazenamento, não em espaços habitáveis. Dito isso, é uma caminhada bem tranquila de volta para o meu quarto depois. Posso liberar a vigilância noturna daquela região específica por algumas horas.

— Sim — disse o Bull, esfregando o queixo e assentindo com a cabeça. — Certo. Você me diz quando for melhor para você, se ainda quiser prosseguir com isso - e a gente resolve alguma coisa. Você concorda que a gente treine com aqueles Templários?

Cullen piscou, surpreso com a mudança de tom na conversa. Como se fosse realmente um assunto banal, e não um segredo terrível e clandestino.

— Sim — disse Cullen. — Claro. Eu já disse isso antes, não sou responsável por eles. Se eles vierem até você e acharem que é uma boa ideia, poderiam aprender alguns tipos diferentes de combate. Treinos e sparring só levam até certo ponto.

— Foi isso que eu disse — respondeu Bull. — Mas com menos palavras.

Cullen deu uma risada suave, o som o surpreendendo. Quando foi a última vez que ele riu assim? Algo que não fosse irônico e permeado de completo cinismo?

Foi então que ele percebeu que – por mais clichê que parecesse – um pequeno peso havia sido tirado de seus ombros. Não completamente, não, e o turbilhão de sentimentos desagradáveis ​​dentro dele ainda girava. Mas... ele tivera uma ideia, e a expressara, e ela não se transformara em um desastre. Ainda não. Bull ainda estava ali.

— Estou... grato — disse Cullen, com a voz embargada.

— Todos nós temos algum problema com o qual estamos lidando — disse Bull com naturalidade.

— Afinal, não sou o único acordado depois das três da manhã — observou Cullen, perguntando-se pela primeira vez naquela noite se Bull estava bem.

— Sim — disse Bull, com um largo sorriso. — Vou deixar você decidir. Sem ressentimentos se você não estiver interessado. A vida é muito curta para ressentimentos entre amigos.

Dito isso, Bull se virou e passou pela porta por onde viera, e Cullen finalmente se deixou cair na cadeira, percebendo que estava tremendo e que, Deus me livre, Bull teria visto.

Eles eram amigos? Isso era... possível? Talvez, considerando o uso flexível que Bull fazia do termo, fosse possível. Eles mal se conheciam. E, no entanto, em uma única noite, Cullen sentiu uma afinidade que lhe faltava nessa área específica da sua vida há muito tempo.

Ele recostou-se na cadeira e respirou fundo, tentando conter as pontadas de dor pelo corpo, e pensou em quanta força lhe fora necessária para não implorar a Bull que o chicoteasse ali mesmo.

Não, para isso funcionar, ele teria que ter cuidado.

E ele precisava que funcionasse.