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Português brasileiro
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Published:
2026-05-03
Words:
4,934
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1/1
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Marcado pelo meu sempai

Summary:

Haruki sempre viveu entre expectativas que não eram suas.
Filho de uma família tradicional, delicado demais para o mundo rígido ao seu redor, ele aprendeu desde cedo a ceder, a silenciar, a existir sem causar ondas. Até que, aos vinte anos, seus pais decidem dar o passo final: um casamento arranjado com um alfa da influente família Takamori.
Sem escolha.
Sem fuga.
Sem voz.
Mas antes que esse destino se concretize, uma única noite muda tudo.
Em meio ao caos de um bar lotado, sob luzes de neon e decisões impulsivas, Haruki cruza o caminho de um alfa desconhecido — mais velho, dominante, com uma presença tão intensa quanto perigosa. O que deveria ser apenas uma fuga momentânea, um erro enterrado no dia seguinte… se transforma em algo impossível de ignorar.
Porque algumas consequências não desaparecem ao amanhecer.
Grávido de um homem cujo nome mal conhece, Haruki se vê preso entre dois futuros igualmente inevitáveis: um casamento arranjado com alguém que representa dever e tradição… e o eco de uma noite que despertou nele algo que nunca havia sentido antes.
Agora, cada escolha tem um preço.
E talvez o maior deles seja descobrir que, pela primeira vez, ele quer escolher por si mesmo.

Notes:

Perdão por quaisquer erros de digitação.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

O café parecia ter sido arrancado diretamente de um daqueles quadros idealizados que vivem circulando pela internet — um pequeno universo onde o tempo andava mais devagar. As paredes eram tomadas por estantes altas, abarrotadas de livros que iam do amarelado ao recém-impresso, criando um mosaico de histórias silenciosas. Luminárias pendiam do teto com uma luz quente e suave, como se o próprio fim de tarde tivesse sido capturado e diluído ali dentro. As mesas redondas, de madeira escura levemente desgastada, estavam espalhadas sem muita simetria, como se convidassem cada cliente a construir sua própria cena. Do lado de fora, o céu começava a se despedir do dia em tons alaranjados, filtrando-se pelas grandes janelas de vidro e desenhando sombras longas sobre o chão.

 

Sentados próximos a uma dessas janelas, dois jovens ocupavam uma mesa coberta por livros, cadernos e copos quase vazios de café.

 

Tatsuki estava recostado na cadeira com uma postura relaxada, uma das pernas esticada e a outra dobrada, como se o corpo dele simplesmente se recusasse a obedecer qualquer formalidade. Alto, de ombros largos e músculos discretamente definidos sob a camiseta, ele tinha aquela presença física que chamava atenção sem esforço, embora seu rosto não fosse exatamente marcante — era o tipo de aparência comum o suficiente para passar despercebida, mas agradável o bastante para ser lembrada depois. Seus cabelos pretos, levemente bagunçados, caíam sobre a testa de forma despreocupada, e havia algo nele que parecia sempre em movimento, mesmo quando estava parado. Um aroma sutil o cercava — algo fresco, com um toque de madeira e cítrico, como folhas esmagadas ao entardecer — uma presença leve, mas curiosamente reconfortante.

 

Ele vestia uma camiseta estampada de um grupo de J-pop, já um pouco desgastada pelo uso, combinada com uma calça cargo preta que parecia prática demais para alguém que claramente não ligava tanto assim para praticidade.

 

Do outro lado da mesa, Haruki contrastava como uma pintura cuidadosamente elaborada.

 

Se Tatsuki era casual, Haruki era… impossível de ignorar.

 

Pequeno e esguio, seu corpo parecia delicado demais para o mundo ao redor, como se qualquer movimento brusco pudesse desalinhar aquela harmonia. Seus cabelos castanho-claros capturavam a luz do entardecer de forma quase indecente, refletindo tons dourados que pareciam ter sido colocados ali de propósito. Os olhos, de um mel profundo, carregavam uma expressão calma — não vazia, mas distante, como se sempre houvesse um pensamento a mais acontecendo por trás do que ele demonstrava. Sua pele era extremamente clara, quase translúcida sob a luz quente do café, o que só intensificava ainda mais sua aparência pouco comum, levemente mestiça, como se ele pertencesse a dois lugares e, ao mesmo tempo, a nenhum.

 

A camisa branca de botões que usava era larga demais para seu corpo, escorregando suavemente pelos ombros e criando dobras preguiçosas ao longo do tecido. O short jeans, um pouco acima do joelho, deixava suas pernas finas à mostra, completando um visual simples, mas que, nele, parecia quase… calculado, mesmo não sendo.

 

— A gente nem chegou a terminar a discussão direito dessa vez — Tatsuki resmungou, passando a mão pelos cabelos, bagunçando ainda mais o que já não estava arrumado. — Ele simplesmente saiu. Tipo… levantou e foi embora. Sem drama, sem grito, sem nada. Isso é pior, sabia?

 

Haruki apoiou o queixo na mão, olhando para ele com uma calma quase suspeita.

 

— Você disse isso da última vez também.

 

— Não disse.

 

— Disse sim. — Haruki tomou um gole lento do café já frio. — Só que naquela vez você falou que era pior porque ele chorou.

 

Tatsuki fez uma careta, como se estivesse sendo traído pela própria memória.

 

— Tá, mas dessa vez é diferente.

 

— Sempre é.

 

O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Pelo contrário, era o tipo de pausa que só existe entre pessoas que já se acostumaram com a presença uma da outra. Ao redor deles, o café continuava vivo — o som de páginas sendo viradas, o tilintar de xícaras, conversas baixas que se misturavam como uma trilha sonora improvisada.

 

Tatsuki suspirou, jogando o corpo para trás.

 

— Talvez a gente tenha terminado de vez agora.

 

Haruki ergueu uma sobrancelha, finalmente demonstrando um mínimo de reação.

 

— Você fala isso toda vez que terminam.

 

— Mas dessa vez… — ele hesitou, encarando o teto por um momento, como se buscasse ali algum argumento convincente — …dessa vez parece definitivo.

 

Haruki inclinou levemente a cabeça, observando-o com mais atenção agora, os olhos cor de mel analisando cada microexpressão como se estivesse lendo entrelinhas invisíveis.

 

— Qual era mesmo o nome dele?

 

Tatsuki virou o rosto lentamente, indignado.

 

— Você tá brincando comigo.

 

— Não, tô perguntando sério.

 

— Renji. — ele respondeu, cruzando os braços. — Como você esquece?

 

— Eu não esqueço — Haruki disse, com um leve encolher de ombros. — Eu só não acho que seja relevante, considerando a frequência com que vocês terminam.

 

Tatsuki soltou uma risada curta, meio derrotada.

 

— Você é um péssimo amigo.

 

— E você escolhe péssimos momentos pra terminar relacionamentos — Haruki rebateu, quase no mesmo tom neutro. — A gente tem um trabalho pra apresentar semana que vem.

 

Como se lembrasse de algo desagradável, Tatsuki deixou a cabeça cair para frente, apoiando-a na mesa com um pequeno toc.

 

— Não me lembra disso…

 

Entre eles, espalhados pela mesa, estavam os vestígios do tal trabalho: livros abertos, páginas marcadas, anotações rabiscadas às pressas.

 

— “A construção do anti-herói na literatura contemporânea japonesa” — Haruki murmurou, passando os dedos por uma das páginas. — Você ainda nem escreveu sua parte.

 

— Eu escrevi… mentalmente.

 

— Isso não conta.

 

— Claro que conta. Eu só preciso… transferir pro papel.

 

Haruki deixou escapar um pequeno suspiro, mas havia um traço quase imperceptível de diverção no gesto.

 

— Se a gente tirar uma nota ruim, eu vou culpar o Renji.

 

— Justo — Tatsuki respondeu, ainda com a cara enterrada na mesa. — Ele merece.

 

O sol lá fora afundava cada vez mais no horizonte, e a luz dentro do café se tornava ainda mais dourada, mais densa, como se envolvesse os dois em uma espécie de bolha silenciosa.

 

Estava quase na hora de eles saírem dali. Esses cafés sempre tinham um tempo determinado para os clientes usarem e irem embora. Era prático; assim, quando eles iam para lá, junto de outros estudantes tão cansados quanto eles, para estudar, o local estava quase sempre vazio. O que não era o caso hoje: estava tão cheio, por conta da semana de provas, que eles quase não conseguiram um lugar para sentar.

 

O silêncio confortável que havia se instalado entre eles não durou muito — não porque fosse incômodo, mas porque Tatsuki claramente não tinha vocação para deixar pensamentos quietos por tempo demais. Ainda com o rosto parcialmente apoiado na mesa, ele virou a cabeça de lado, os olhos semicerrados encarando Haruki como se uma ideia recém-nascida estivesse se debatendo dentro da própria mente, pedindo para sair.

 

— A gente devia sair hoje.

 

A frase veio solta, quase jogada ao acaso, mas carregava aquele tom específico de quem já tinha decidido antes mesmo de propor.

 

Haruki não respondeu de imediato. Seus dedos continuaram deslizando lentamente pela borda de uma página aberta, como se estivesse mais interessado na textura do papel do que na sugestão em si.

 

— Sair pra onde? — perguntou, por fim, sem levantar o olhar.

 

Tatsuki ergueu o rosto, agora um pouco mais animado, como um cão que percebeu a menor brecha de atenção.

 

— Vai ter um encontro de calouros hoje à noite. Um negócio meio… festa improvisada, sabe? Gente do primeiro período, música ruim, bebida duvidosa… o pacote completo.

 

Haruki soltou um leve som pelo nariz, algo entre um suspiro e uma risada desacreditada.

 

— Você acabou de descrever exatamente o tipo de lugar que eu evitaria.

 

— É exatamente por isso que a gente devia ir — Tatsuki rebateu rapidamente, apontando para ele com um meio sorriso torto. — Ambiente caótico, decisões questionáveis… perfeito pra esquecer problemas.

 

Ele fez uma pausa curta, os olhos escurecendo levemente, como se lembrasse do próprio motivo.

 

— Tipo términos ridículos.

 

Haruki finalmente ergueu o olhar, apoiando o queixo na mão novamente, encarando o amigo com uma expressão que misturava cansaço e um tipo silencioso de avaliação.

 

— Você quer ir pra esquecer o Renji.

 

— Sim.

 

— E quer me arrastar junto.

 

— Sim.

 

— E acha que isso vai funcionar.

 

Tatsuki deu de ombros, relaxado demais para alguém sendo interrogado daquele jeito.

 

— Não faço ideia. Mas ficar aqui definitivamente não tá funcionando.

 

Por um instante, Haruki não respondeu. Seus olhos desviaram levemente, não para Tatsuki, mas para além dele — para o vidro da janela, onde o reflexo do próprio rosto se misturava ao céu que já começava a perder o laranja e mergulhar em tons mais frios.

 

Havia algo diferente agora.

 

Uma tensão quase invisível, como uma corda fina sendo puxada por dentro.

 

— Eu não tô com cabeça pra isso — ele disse, finalmente, a voz mais baixa do que antes, menos despreocupada.

 

Tatsuki inclinou a cabeça, observando-o com mais atenção dessa vez. Ele podia não ser o melhor com palavras, mas sabia reconhecer quando algo estava fora do lugar.

 

— Você nunca tá com cabeça pra isso — respondeu, mas sem a leveza de antes. — O que aconteceu?

 

Haruki demorou alguns segundos para responder, como se estivesse decidindo o quanto valia a pena dizer.

 

Seus dedos pararam de se mover.

 

— Eu briguei com meus pais.

 

A frase veio simples, direta… mas pesada o suficiente para alterar o ar entre eles.

 

Tatsuki franziu levemente o cenho, se ajeitando na cadeira.

 

— Feio?

 

Haruki soltou um pequeno riso sem humor algum.

 

— Feio.

 

O silêncio voltou, mas dessa vez ele não era confortável. Era denso, como o ar antes de uma tempestade que ainda não decidiu se vai cair.

 

— Eles querem que eu me case.

 

Tatsuki piscou, uma vez.

 

Duas.

 

Como se estivesse esperando o resto da frase vir acompanhado de alguma explicação que tornasse aquilo menos absurdo.

 

— …com quem?

 

— Alguém da família Takamori.

 

O nome caiu entre eles com um peso específico, mesmo que nenhum dos dois dissesse isso em voz alta. Era o tipo de sobrenome que não circulava apenas em conversas familiares, mas em negócios, contratos, manchetes discretas — uma presença sólida no mercado imobiliário, tradicional ao ponto de parecer imutável.

 

Haruki desviou o olhar novamente, dessa vez mais rápido, como se encarar a reação de Tatsuki fosse, de alguma forma, pior.

 

— É um acordo entre as famílias — continuou, a voz agora mais controlada, quase fria. — Fortalecer laços, expandir patrimônio… essas coisas.

 

Tatsuki se recostou lentamente na cadeira, passando a mão pelo rosto.

 

— Você tem vinte anos.

 

— Eu sei.

 

— Vinte.

 

— Eu sei, Tatsuki.

 

Havia uma tensão crescente na forma como Haruki falava agora, algo que não aparecia antes — não ali, não daquele jeito. Seus ombros estavam levemente rígidos, e mesmo parado, ele parecia… contido.

 

Como se qualquer movimento errado fosse fazer tudo transbordar.

 

— E você…? — Tatsuki começou, mais cuidadoso agora. — O que você disse?

 

Haruki riu de novo, mas dessa vez foi mais curto, quase cortado.

 

— Que não.

 

Uma pausa.

 

— E eles?

 

— Que não importa.

 

O silêncio que veio depois foi mais longo.

 

Mais pesado.

 

Mais real.

 

Tatsuki observou o amigo por alguns segundos, dessa vez sem pressa, sem piada pronta, sem distração. Era raro vê-lo assim — quieto, realmente prestando atenção.

 

Então, com um suspiro leve, ele se inclinou um pouco para frente, apoiando os braços na mesa.

 

— Então você definitivamente precisa sair hoje.

 

Haruki fechou os olhos por um breve instante, como se aquela sugestão fosse ao mesmo tempo irritante e… tentadora.

 

— Tatsuki—

 

— Não, sério — ele interrompeu, mais firme agora. — Você vai ficar em casa pensando nisso? Ou pior, brigando de novo?

 

Haruki não respondeu.

 

Porque sabia a resposta.

 

— Não precisa ser nada demais — Tatsuki continuou, o tom mais suave, mas ainda insistente. — A gente vai, fica um tempo, você finge que tá se divertindo, eu finjo que superei o Renji… e depois a gente vai embora.

 

Haruki abriu os olhos lentamente.

 

O céu lá fora já não era mais laranja.

 

Era azul escuro.

 

Quase noite.

 

Ele soltou um suspiro longo, os ombros finalmente relaxando um pouco, como se estivesse cedendo não exatamente à ideia… mas ao cansaço.

 

— Eu odeio esse tipo de coisa.

 

— Eu sei.

 

— Vai estar cheio de gente.

 

— Provavelmente.

 

— Música alta.

 

— Com certeza.

 

— E você vai me abandonar em algum momento.

 

Tatsuki sorriu, dessa vez de verdade.

 

— Só se você fizer amizade com alguém mais interessante que eu.

 

Haruki o encarou por alguns segundos, sustentando o olhar como se estivesse procurando uma razão convincente para recusar.

Na verdade, ele tinha muitos motivos para recusar o convite. Era sempre assim, todas as vezes em que eles saiam juntos, Tatsuki o abandonava. Mas para ser sincero, ele não estava com muita vontade de recusar a ideia do amigo hoje. As discussões em casa se tornaram ainda mais frequentes, desde que seu pai ordenou que ele se casasse. Ele iria fingir que a insistência do amiga para essas festas e encontros tinha finalmente funcionado.

 

Ele só não tinha mais energia suficiente para continuar resistindo.

 

— …tá — murmurou, quase como se estivesse dizendo aquilo para si mesmo. — Mas a gente não fica muito.

 

O sorriso de Tatsuki se alargou imediatamente, leve, quase vitorioso.

 

— Perfeito.

 

Haruki desviou o olhar, mas dessa vez havia algo diferente ali — não exatamente leveza, mas um pequeno espaço aberto no meio do caos.

 

Como uma janela.

 

Mesmo que ainda estivesse entreaberta.

 

Eles deixaram o café quando o céu já tinha se rendido completamente à noite. A porta se fechou atrás deles com um tilintar suave, e o ar fresco da rua veio de encontro com o calor confortável que haviam deixado para trás. Por um instante, Haruki quase sugeriu voltar — não em palavras, mas naquele leve atraso no passo, naquele segundo a mais parado na calçada —, mas Tatsuki já estava andando à frente, mãos nos bolsos.

 

— A gente precisa passar no shopping — disse ele, sem nem se virar. — Não dá pra ir daquele jeito.

 

Haruki olhou para a própria roupa, franzindo levemente o cenho.

 

— Eu não vejo problema.

 

— Eu vejo.

 

E isso, aparentemente, encerrava o assunto.

 

O shopping, ainda aberto e vibrante, era o oposto completo do café. Luzes brancas, vitrines impecáveis, música ambiente que parecia existir apenas para preencher o silêncio. Era um lugar que respirava consumo — e Tatsuki parecia perfeitamente em casa ali.

 

— Meu pai vai pagar — ele disse, casualmente, enquanto puxava o celular e dava uma olhada rápida em alguma notificação. — Então não começa com drama.

 

Haruki suspirou baixo, cruzando os braços.

 

— Eu não preciso de roupa.

 

— Precisa sim.

 

— Eu tenho roupa suficiente em casa.

 

— Eu sei, mas você não quer se encontrar com seus pais, quer? — Tatsu estava certo, ele realmente não queria olhar para a cara dos pais naquele momento. Na verdade, em momento nenhum. 

 

E, com isso, Tatsuki já o puxava para dentro de uma loja.

 

O processo foi rápido… e completamente unilateral.

 

Tatsuki escolhia com uma confiança irritante, pegando peças como se já soubesse exatamente o efeito que causariam. Para si mesmo, optou por algo que combinava perfeitamente com sua energia: uma camisa preta levemente aberta no colarinho, tecido leve que marcava o corpo sem esforço, combinada com uma calça escura ajustada e acessórios extravagantes, para dizer o mínimo — com presença. Era o tipo de roupa que gritava por atenção, o tipo que Tatsuki gostava.

 

Já para Haruki…

 

— Não.

 

— Sim.

 

— Tatsuki, não.

 

— Haruki, sim.

 

As peças que ele colocava nos braços do amigo eram, no mínimo, questionáveis — ao menos na visão de Haruki. Tecidos mais leves, cortes mais curtos, detalhes que expunham mais pele do que ele estava acostumado a mostrar. Uma camisa branca fina demais, quase translúcida sob a luz certa. Um short saia de couro ainda mais curto do que ele já usava e um par de botas pretas cano alto. Um conjunto que parecia ter sido pensado especificamente para atrair olhares.

 

— Isso não combina comigo — Haruki insistiu, segurando uma das peças como se fosse algo suspeito.

 

— Combina mais do que você acha.

 

— Eu não vou usar isso.

 

— Vai sim.

 

— Não vou.

 

— Haruki, olha para mim — Tatsu segurou o amigo bem mais baixo pelos ombros e olhou profundamente em seus olhos. 

— Você tem que parar de querer parecer uma virgem santinha — Haruki fez uma cara feia, porque era exatamente assim que ele se sentia. 

— Você é o Ômega mais gostoso que eu conheço

 

— Eca cara, que nojo!

— Você sabe que é verdade — ele inclinou-se, a testa quase tocando a de Haruki. — Hoje é um dia especial. Você tem que relaxar. Encher a cara, achar um cara gostoso e transar com ele.

 

Agora sim a cara de Haruki estava contorcida em um expressão envergonhada e feia, pelas palavras nada sutis do amigo e pelo fato de que era aquilo que ele realmente precisava. Encher a cara e esquecer dos problemas.

Haruki fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como se estivesse contando até algum número muito alto internamente.

Ele suspirou e respondeu:

 

— Tudo bem, eu uso.

 

— É assim que se fala. — Eles deram uma risadinha e se apressaram para pagar pelas roupas e sair o mais rápido possível dali, aquelas luzes fortes estavam deixando Haruki com dor de cabeça.

 

                       ⛧°. ⋆༺♱༻⋆. °⛧

 

O bar ficava em uma região que parecia viver em um ritmo próprio, distante do resto da cidade. O distrito de Kabukicho pulsava com vida noturna, cores vibrantes e uma energia que beirava o caótico. Placas de neon piscavam em tons de rosa, vermelho e roxo. As pessoas andavam entre os estabelecimentos e ruas estreitas com muita pressa e uma alegria contagiante. Havia bastante gente bêbada também, e alguns gângsteres, mas nada que Tatsuki já não estivesse acostumado.

Eles caminharam por alguns minutos até acharem o host club em que Tatsuki havia combinado de se encontrar com os outros calouros. O som da música já era audível antes mesmo de entrarem.

Graves profundos que vibravam no peito.

Quando atravessaram a porta, o impacto foi imediato.

Luzes piscando, vozes sobrepostas, risadas altas demais, corpos próximos demais. O ar era quente, carregado com o cheiro de álcool, perfume e algo indefinido que parecia grudar na pele.

 

Tatsuki sorriu.

 

Haruki… não.

 

O espaço estava cheio de jovens como eles — calouros, recém-chegados à liberdade, testando limites como se fosse parte obrigatória do currículo. Havia grupos espalhados por todos os lados: garotas rindo alto demais, garotos tentando parecer mais confiantes do que realmente eram, gente dançando sem se importar com ritmo, outros encostados no bar conversando e pagando bebidas caras para os hostes bonitões.

 

— TATSU!

 

A voz veio antes da pessoa.

 

Um garoto de cabelos tingidos de loiro platinado surgiu no meio da multidão, abrindo um sorriso largo demais para ser contido.

 

— Você veio! — ele disse, puxando Tatsuki para um abraço rápido. — Achei que você ia furar de novo.

 

— Eu quase — Tatsuki respondeu, rindo. — Esse é o Haruki.

 

O olhar do garoto deslizou imediatamente para ele, avaliando com uma curiosidade nada discreta.

 

— Caramba…

 

Haruki sentiu o peso daquele olhar como se fosse físico.

 

— Ele é sempre assim? — o garoto perguntou, ainda olhando.

 

— Infelizmente — Tatsuki respondeu, com um meio sorriso. Eles provavelmente estavam se referindo a cara feia e enrugada que Haruki estava fazendo.

 

Ele desviou o olhar, já desconfortável.

 

E então—

 

Ele viu.

 

Do outro lado do bar, encostado casualmente perto do balcão, estava Renji.

 

Seu corpo alto e magro, os cabelos pretos e longos na altura da cintura. Ele estava usando roupas muito parecidas com a de Tatsu, uma camiseta preta e larga demais, calças cargo com correntes caindo despojadamente dos lados, e uma grande gargantilha com espinhos no pescoço. Ele estava encostado, conversando animadamente com hoster ômega. Tatsuki não ia gostar nada de ver aquilo. 

 

Os olhos dele encontraram o de Tatsuki, o sorriso que estampava seu rosto pálido se fechou na hora. 

E, por um segundo, o bar inteiro pareceu diminuir de volume.

 

— Ah, não… — Tatsuki murmurou, quase para si mesmo. A raia parecia palpável. 

 

Haruki acompanhou o olhar assassino do amigo, iria ser uma briga feia. Como sempre. 

 

— É ele?

 

— É.

 

Renji não se aproximou de imediato.

 

Mas também não desviou o olhar.

 

E isso já era o suficiente.

 

Minutos depois, como se fosse inevitável, Tatsuki soltou um suspiro profundamente odioso. 

 

— Eu vou… falar com ele.

 

Haruki virou o rosto rapidamente.

 

— Você disse que era pra esquecer. Não vai arrumar briga, vai?

 

— Como ele ousa se encontar com outra pessoa quando não faz nem dois dias que nós terminamos.

 

— Tatsuki—

 

— Eu só vou resolver isso rápido — ele disse, já se afastando um pouco, como se ficar parado fosse pior. — Não sai daqui.

 

E então ele foi.

 

Simples assim.

 

Engolido pela multidão.

 

Haruki ficou.

 

Sozinho.

 

O bar parecia maior agora — ou talvez ele que estivesse menor dentro dele. As luzes de neon piscavam com mais intensidade, refletindo em superfícies, em rostos, em copos meio cheios. A música parecia mais alta, mais invasiva, cada batida pressionando contra sua cabeça de um jeito incômodo.

 

Ele não gostava daquilo.

 

Não gostava da proximidade das pessoas, dos olhares que demoravam mais do que o necessário, da sensação constante de estar sendo… observado.

 

Instintivamente, seus braços se cruzaram levemente, como uma tentativa silenciosa de se proteger.

 

O cheiro no ambiente era confuso, misturado demais — perfumes doces, álcool, e algo mais pesado, mais difícil de ignorar.

 

Haruki fechou os olhos por um breve instante.

 

Respirou.

 

Mas nem isso ajudou muito.

 

Quando abriu novamente, a única coisa clara era que Tatsuki ainda não tinha voltado.

 

E, no meio daquela multidão vibrante, barulhenta e viva demais…

 

Haruki nunca tinha se sentido tão deslocado. Tatsuki seu filho da puta mentiroso. Ele xingou o amigo em pensamento. Não acreditava que ele o abandonará e não havia passado nem 10 minutos que eles haviam chegado. 

 

Haruki permaneceu parado por alguns segundos depois que Tatsuki desapareceu na multidão, como se o próprio corpo ainda esperasse que ele voltasse — que fosse apenas uma brincadeira mal cronometrada, uma daquelas promessas vazias que se desfazem antes mesmo de tocar o chão. Mas o tempo passou, lento e insistente, e nada aconteceu.

 

Claro que não.

 

Com um suspiro contido, ele se moveu em direção ao balcão, desviando com cuidado de corpos que pareciam não perceber sua existência. Cada passo era uma pequena batalha contra o ambiente — luzes agressivas, sons que vibravam direto na cabeça, risadas altas demais. Quando finalmente alcançou um dos bancos altos, sentou-se com um leve ajuste desconfortável, como alguém que não pertencia àquele cenário.

 

— Algo forte — murmurou para o bartender, sem sequer olhar direito para ele.

 

Se ia ficar ali, ao menos precisava de algo que amortecesse o caos.

 

Enquanto esperava, apoiou o cotovelo no balcão e pressionou os dedos contra a têmpora, fechando os olhos por um instante. Alguns hosters apareceram para oferecer companhia, mas ele os dispensou com um sorriso educado e um aceno de mão. 

 

Mentiroso.

 

A palavra surgiu clara em sua mente.

 

Tinha dito que não ia me deixar sozinho.

 

Seus lábios se comprimiram levemente, um traço de irritação atravessando sua expressão normalmente controlada.

 

Idiota.

 

O copo foi colocado à sua frente com um leve som seco contra a madeira. Haruki abriu os olhos e o encarou por um segundo — o líquido escuro refletia fragmentos de neon, como se fosse feito de noite líquida.

 

Ele não hesitou.

 

Levou o copo aos lábios e bebeu.

 

 O líquido desceu como fogo, abrindo caminho pela garganta até o estômago, quente e agressivo, arrancando dele uma pequena contração involuntária. Por um momento, foi quase bom — uma sensação clara, simples, diferente do turbilhão confuso que o cercava.

 

Haruki passou mais alguns minutos sentado ali sozinho, tendo apenas a companhia da bebida e dos pensamentos conflitantes em relação aos pais. Ele já não se lembrava de quantos drinks havia tomado. Só conseguia sentir o corpo esquentar, o calor subindo lentamente para as bochechas, enquanto uma tontura densa começava a envolvê-lo, como uma névoa que se infiltrava por dentro.

 

Quando se levantou, o mundo pareceu inclinar levemente.

 

Ele apoiou a mão no balcão por um segundo, piscando devagar, tentando reorganizar os sentidos embaralhados.

 

— Banheiro… — murmurou, mais para si do que para qualquer outra pessoa.

 

Acabou perguntando a um funcionário, a voz mais baixa e arrastada do que pretendia. Recebeu uma indicação rápida, um gesto vago na direção de um corredor lateral, e seguiu até lá com passos incertos, desviando de pessoas como se atravessasse uma multidão submersa.

 

O corredor era mais escuro, abafado, com a música chegando distorcida, como se estivesse sendo filtrada por paredes grossas. O ar ali era pesado, carregado de umidade e de um cheiro ácido de produtos de limpeza baratos misturado com álcool e algo mais antigo, impregnado.

 

Quando empurrou a porta do banheiro, o contraste foi imediato.

 

A iluminação era fria demais, quase cruel, destacando cada imperfeição do lugar. As paredes estavam manchadas, o papel de parede antigo se descolando em alguns pontos, formando pequenas ondulações que davam ao ambiente um aspecto cansado, negligenciado. O espelho, grande demais para o espaço, estava marcado por respingos e manchas opacas, como se tivesse desistido de refletir com clareza.

 

Haruki caminhou até a pia, apoiando as mãos na borda.

 

Por um segundo, apenas respirou.

 

Quando levantou o olhar, demorou um instante para reconhecer o próprio reflexo.

 

O rosto pequeno e normalmente pálido agora estava completamente corado, quase febril. As bochechas tingidas de vermelho contrastavam com a pele clara, enquanto os olhos, levemente semicerrados, pareciam mais pesados, desfocados. Os cabelos castanhos, levemente cacheados, estavam bagunçados pelas várias vezes em que havia passado a mão neles, alguns fios grudando na testa úmida.

 

Ele franziu levemente o cenho.

 

Não parecia… ele.

 

Abriu a torneira e deixou a água correr por um segundo antes de levar as mãos até ela. A água gelada tocou sua pele como um choque, arrancando um arrepio imediato que percorreu sua espinha.

 

Haruki fechou os olhos ao molhar o rosto.

 

A sensação era brusca, mas bem-vinda.

 

Ficou ali por alguns instantes, repetindo o gesto, tentando dissipar o calor e a vertigem que insistiam em permanecer. Sua respiração ainda estava um pouco irregular, e mesmo com o frio da água, a cabeça continuava leve demais.

 

Ele soltou um suspiro longo, apoiando-se novamente na pia.

 

Esperou.

 

Contou mentalmente… ou tentou.

 

Quando achou que estava minimamente melhor, fechou a torneira e se afastou, ainda sentindo o corpo um pouco instável, mas mais controlável.

 

Já estava na porta quando decidiu sair.

 

Os olhos estavam semicerrados, não exatamente de sono, mas de cansaço… e talvez álcool demais.

 

Foi então que—

 

Impacto.

 

Ele esbarrou contra algo sólido.

 

Muito sólido.

 

Sua testa bateu contra um peito firme, e a dor veio imediata, curta, mas suficiente para fazê-lo recuar meio passo, levando a mão à testa.

 

— Desculpa… — começou, a voz baixa.

 

Mas as palavras morreram no meio do caminho.

 

Porque ele levantou o rosto.

 

E viu.

 

Por um segundo, o mundo pareceu desacelerar ainda mais.

 

— Meu Deus… — o pensamento escapou, silencioso, quase involuntário.

 

O homem à sua frente era alto — alto o suficiente para obrigar Haruki a inclinar o pescoço para trás, mesmo naquele estado. O maxilar era definido, rígido, como se tivesse sido esculpido com precisão excessiva. A ponte do nariz era alta, elegante, e os olhos…

 

Os olhos eram escuros demais.

 

Não apenas pretos, mas densos, como se absorvessem a luz ao redor.

 

Havia algo neles.

 

Algo que prendia.

 

Haruki prendeu a respiração sem perceber.

 

Ele era lindo.

 

Não — mais do que isso.

 

Era o tipo de beleza que não parecia feita para ser observada de perto, porque de perto ela se tornava… perigosa.

 

E então veio o cheiro.

 

Forte.

 

Denso.

 

Envolvente.

 

Notas profundas de vinho, encorpadas e quase inebriantes, misturadas com o toque seco e sofisticado do cedro. O aroma se espalhou pelo espaço pequeno do banheiro com facilidade, preenchendo cada canto como se tivesse vontade própria.

 

Haruki sentiu o corpo reagir antes mesmo de processar.

 

A tontura piorou.

 

Muito.

 

Seu estômago revirou levemente, não de forma ruim, mas intensa. O calor voltou com mais força, subindo pelo pescoço até as orelhas, e seus dedos apertaram levemente o tecido da própria roupa, como se precisasse se ancorar em algo.

 

Alfa.

 

Não apenas um alfa.

 

Um dominante.

 

Do outro lado, o homem também não esperava por aquilo.

 

O impacto havia sido leve para ele, mas a sensação que veio depois não foi.

 

Seus olhos se estreitaram levemente ao encarar o garoto à sua frente.

 

Pequeno.

 

Visivelmente afetado.

 

E…

 

O cheiro.

 

Mesmo diluído pelo álcool e pelo ambiente, era inconfundível.

 

Ômega.

 

Mas não qualquer um.

 

Havia algo ali que puxava, que chamava atenção de um jeito incômodo e irresistível ao mesmo tempo.

 

O alfa inspirou lentamente, quase contra a própria vontade.

 

Erro.

 

Um erro claro.

 

Porque o aroma do outro — suave, quente, levemente doce sob a confusão do álcool — atingiu direto, sem filtro.

 

Seu maxilar tensionou.

 

— Você devia prestar mais atenção por onde anda — ele disse, a voz baixa, controlada… mas mais grave do que o necessário.

 

Haruki piscou, lento demais.

 

— Eu… — tentou responder, mas as palavras não se organizaram.

 

Ele cambaleou levemente.

 

Foi sutil.

 

Mas não o suficiente.

 

O olhar do alfa mudou.

 

Rápido.

 

Preciso.

 

Ele notou tudo: o rubor excessivo, a respiração irregular, o leve desequilíbrio.

 

Bêbado.

 

E sozinho.

 

A expressão dele endureceu por um instante, como se estivesse avaliando alguma coisa internamente.

 

Então, antes que Haruki pudesse perder mais um pouco do equilíbrio, uma mão firme segurou seu braço.

 

Quente.

 

Estável.

 

Sólida demais em contraste com o estado dele.

 

Haruki congelou por um segundo com o toque.

 

O coração bateu mais rápido.

 

— Você está bem? — a pergunta veio seca, direta… mas carregava algo por baixo. Atenção demais para alguém que claramente não tinha intenção de ser gentil.

 

Haruki demorou um segundo a mais do que deveria para responder.

 

— Tô… — murmurou, claramente não convincente.

 

O alfa observou.

 

Silencioso.

 

Os olhos escuros percorreram o rosto dele mais uma vez, como se estivesse tentando decidir algo.

 

E, por algum motivo, não parecia disposto a simplesmente ignorar e ir embora.

 

Notes:

Perdão, por quaisquer erros, eu não sou uma escritora proficional e esse é meu primeiro trabalho, então tenham paciência e espero que gostem.