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Todos os defeitos de uma mulher perfeita

Summary:

Eduarda é uma menina extremamente inteligente, estuda Direito em uma das universidades mais prestigiadas do país e sempre teve tudo sob controle. Até que seus olhos pousaram em uma caloura na festa de recepção e, de repente, sua vida virou de cabeça para baixo.
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Depois de anos, uma vida juntas, memórias construídas e promessas eternas, Lorena se pega lembrando de quando tudo era mais simples - ou, pelo menos, parecia ser.

Chapter 1: Damnatio ad Bestias

Notes:

Eu tava ouvindo charlie brown jr e me bateu uma vontade absurda de fumar maconha junto de uma epifania bizarra, daí eu escrevi e saiu isso aqui.

Boa leitura.

Chapter Text

Depois de uma semana inteirinha estudando igual uma condenada para a prova de Direito Tributário, se preocupando e desabafando com seu pai por ligação, Eduarda estava finalmente livre, tinha feito a prova mais cedo e descobriu que tinha ido super bem, o que não surpreendeu ninguém além dela mesma.

Paulinho, seu melhor amigo e parceiro de curso, por outro lado, reclamou de seu suposto resultado trágico aos quatro cantos do universo, ele era uma das pessoas mais dramáticas da Terra, isso Eduarda já sabia, mas não esperava entrar no Gol 95 verde do amigo naquela noite e encontrá-lo sem sua barba.

Segundo ele, "um trauma bem feito transforma profundamente um personagem" então estava encarando seu fracasso acadêmico como um "desenvolvimento pessoal" e tudo isso justificava ter feito a barba. Agora ele estava com um cavanhaque torto e um bigodinho péssimo, na opinião da amiga claro.

— Eu jurava que aquela sexta-feira de manhã no cursinho ia ser a última vez — ele era incapaz de ficar quieto — Haha trouxa, eu mal sabia... — a ruiva revirou os olhos, já tinha ouvido aquela frase umas trinta vezes naquela semana.

— Cala a boca Paulinho ninguém aguenta mais te ouvir reclamando, meu ouvido não é pinico — Eduarda estava sentada no banco de couro desgastado do carona tentando passar seu rímel sem borrar, o que era difícil por causa da rua esburacada somada com o amigo barbeiro que não colaboravam.

— Matemática Juquinha... MATEMÁTICA! — ele exclamava no volante — Fala sério... a gente faz Direito... isso não faz sentido.

— Meu Deus, eu tô muito gata — a garota ignorou o amigo completamente, se admirando no retrovisor quando conseguiu passar o rímel perfeitamente.

Paulinho a observava de canto de olho, ele sabia o que estava acontecendo... mas não tinha como provar ainda.

— Eu nem vi mas tenho certeza que a minha Gerluce tá mais.

— Acho tão linda essa lua de mel eterna de vocês dois... — disse piscando os olhos em uma falsa admiração — Desgruda um pouco Paulinho.

O rapaz finge que não ouviu a amiga e liga o rádio velho para silenciá-la.

— Eee inveja — debochou dando tapinhas no volante — Nem parece que tá se emperequetando toda por causa de um rabo de saia.

Eduarda revirou os olhos evitando olhar para o amigo, preferiu observar a linda vista da Avenida Rio Pardo naquela noite seca de agosto.

— Vixe nem negou... — um sorriso involuntário brotou nos lábios da menina se divertindo com o pseudo adulto fazendo graça — Tá carente mesmo? Vem cá Jucs... — ele tenta passar o braço nos ombros da menina que se afastou rindo — Não precisa ficar triste, eu não te beijo mas um abraço eu dou.

— Pode guardar pra sua Luce, a última coisa que eu preciso hoje é de perfume masculino impregnado em mim.

Paulinho riu ainda mais desconfiado.

— Não vai mesmo falar o motivo da produção? Tipo... — ele parou selecionando bem as palavras — Você passou até rímel.

O rapaz analisava o rosto maquiado de Eduarda com a mesma concentração de um cirurgião removendo uma bala de um pobre coitado.

— Paulinho essa semana foi tão sofrida... eu precisava passar uma cor na cara pra levantar o meu astral sabe? — explica e volta a olhar para a paisagem.

— Sei... — ele segura uma risada — Tem certeza que não é outra coisa?

— Tenho ué 

Eduarda dá os ombros tentando disfarçar o leve desconforto com aquele assunto.

Sai do meu pé chulé.

— Juquinha, até mês passado sabe como você iria nessa festa? — ele indagou aumentando o volume do rádio para escutar melhor a piada do Doutor Pimpolho — Quer dizer... até mês passado você nem iria nessa festa! — ele acusa apontando o dedo para ela igual uma criança — E agora tá assim, toda maquiada, olhando para a janela com cara de quem viu um passarinho.

— Eu só acordei com vontade de me divertir — nem ela acreditava nisso — Para de ouvir essa merda Paulinho, por isso tá todo tonto — ela abaixava o volume do som interrompendo a música do Chuchu Beleza.

— Jucs... — ele chama a atenção da amiga — Por que você não admite logo que tá encantada com a possibilidade de dar uns beijos na bixete da república da Maggye?

Paulinho fala com uma naturalidade assustadora e aumenta o volume de novo rindo dos olhos arregalados da amiga que o olhava espantada.

— Não sei do que você tá falando — a garota se afunda do estofado no banco se martirizando por deixar tão na cara sua vontade incontrolável de realmente "dar uns beijos na bixete da república da Maggye".

— Embora você seja uma bocó que não admite... — o carro para, ele dá a seta e olha se vinha um carro antes de virar — Saiba que eu vou estar torcendo por você viu? A menina é gata mesmo, se você conseguir pegar ela... — a encara como se fosse contar um segredo — Vai pro ranking das mais gatas que já passaram na sua mão.

— Vai pro primeiro lugar sinceramente — Eduarda fala baixinho olhando para as próprias mãos.

— Será? A Lívia era demais.

— Acho a bixete da Maggye mais bonita — declarou — Ela não parece de verdade sei lá... parece gente que você vê na televisão ou na capa da Caras — desabafa tirando uma gargalhada do amigo com a última parte — Mas sei lá... — comprime os lábios escolhendo as palavras — Eu nem sei se ela gosta de mulher.

O silêncio se instaura no veículo, Paulinho dá uma conferida na amiga ao seu lado.

— Juquinha, você tá tão bonitinha que se ela não gostar de mulher depois que te olhar vai ter vontade de no mínimo experimentar — disse para a amiga torcendo para estar certo.

Eduarda revirou os olhos com o "bonitinha", era o máximo que ela teria dele.

— Você sabe que eu não gosto de ser rato de laboratório dessas meninas que querem experimentar — ela retrucou mas logo amoleceu — Mas ela é tão linda... não me importaria de ser o ratinho dela.

Paulinho ri mais um pouco da cara de menina e segue o caminho para o bairro Monte Alegre.

Quando chegam no bairro percebem a movimentação noturna do lugar tomado por jovens estudantes atrás de alguma diversão e definitivamente havia longa lista de possibilidades. Logo entraram na rua da república e o coração antes calmo de Eduarda começou a acelerar, ela nem estava pensando tanto assim em ficar com tal caloura como uma possibilidade real, fora do seu pequeno mundo platônico, mas depois de confessar o desejo para o amigo que se tocou: Eles vão fazer eu falar com ela.

E ela definitivamente não estava preparada psicologicamente para isso. Paulinho encostou o carro e provocou a amiga ruiva pela última vez antes de sair, batendo a porta com um cuidado excessivo, e sendo acompanhado pela mesma que está deslumbrante em um regata branca justinha e uma calça jeans clara e larga que só não caía por causa de um cinto brega lotado de brilho e estrelas, nos pés ostentava um All Star que um dia foi branco.

— Nossa... Juquinha Spears — Paulinho brinca ajeitando a gola da camiseta dos Mamonas Assassinas que está combinada com um bermudão jeans que batia no meio das suas canelas e finalizava o look com um par de havaianas do Santos — Parece que vai aparecer na MTV.

— Paulinho, você tá usando uma bermuda ou uma calça? — devolveu a provocação e sem nem dar espaço para ele responder puxando-o para atravessar a rua tomando cuidado com o movimento.

A calçada tá lotada de gente rindo alto, ouvindo música e bebendo por causa da festa, mas também dos bares nas esquinas daquele quarteirão. Eduarda olha para a casa tentando acalmar o seu coração que agora bate desenfreado no peito. O lugar é muito simpático, quer dizer, é nítido que quem habita são um bando de pseudo adultos iguais o Paulinho que só querem curtição.

É um sobrado amarelo enorme com a tinta meio desgastada, as janelas são um verde musgo, a varanda gigante tem duas redes penduradas e o portão de metal estampa um grafite escrito "Sociedade Alternativa", o nome da república fundada nos anos 70 em homenagem ao Raul Seixas.

Um bando de maconheiro.

Os amigos botam o pé para dentro do quintal do casarão agora tomado por uma maresia vinda de um grupo sentado em cadeiras de praia fumando, bebendo Skol e rindo despreocupadamente. Eduarda passou os olhos por eles procurando a Maggye, mas ela não estava lá.

— Juquinha, a Gerluce acabou de me mandar um torpedo, ela tá com a Vivi na cozinha, bora lá? — questionou guardando o Nokia Tijolão no bolso do bermudão.

— Bora, eu preciso de uma bebida agora 

Os dois seguiram por aquele cenário de guerra.

Nem era tão tarde, mas a festa já parecia estar vivendo o auge. Ao passar pela sala de estar, o sofá confortável roxo escuro estava cheio de gente virando vodka barata de ponta cabeça com os pés apoiados na parede, ao mesmo tempo que outra parte rebolava no meio do lugar ao som de "Na boquinha da garrafa".

Paulinho estava com um sorriso contagiante, cumprimentando metade das pessoas do lugar e acendendo um tabaco que ele tinha bolado no lavabo de casa, escondido para seus pais não descobrirem que ele andava fumando. Já Eduarda caçava a Maggye virando a cabeça igual uma coruja em busca da amiga, isso é o que ela diria se alguém perguntasse, mas na verdade seu alvo era a caloura de olhos verdes que a deixou sem chão desde a primeira vez que a viu naquela calourada horrorosa de Administração.

— Juquinha, olha aquilo — gritou rindo de um moreno desmaiado no canto do corredor que levava à cozinha enquanto o Xavier, um vira-lata mascote da casa, lambia a sua boca — Eu não queria ser a namorada daquele cara — Paulinho se divertia sozinho, seguindo o caminho para a cozinha.

— Será que ele tá vivo? — a ruiva indagou, mas não obteve resposta.

O amigo já estava passando pela batente da cozinha. 

Ela apertou o passo para alcançá-lo.

— Porra Paulinho, vai devagar, olha o tamanho das suas pernas cara.

— MEU AMOR — uma voz feminina levemente alterada agarrou o pescoço de Paulinho o puxando para um beijinho — Você ficou lindo com esse cavanhaque meu bem — a morena de cabelos ondulados sorria passando as mãos em suas bochechas.

Eduarda revirou os olhos, aquele cavanhaque tinha ficado ridículo, realmente o amor cegava.

— Eu fiquei morrendo de saudade a semana toda Luce — ele declara segurando a sua cintura e a tirando do chão por alguns segundos — Não aguentava mais olhar pra cara feia da Juquinha sem ter um colírio pros meus olhos — olha para a amiga parada na porta com os braços cruzados e uma expressão entediada — Você no caso.

— Ah meu lindo — ela solta uma risadinha e na mesma hora Paulinho sussurra alguma coisa no seu ouvido fazendo Gerluce olhar a Eduarda de cima a baixo.

O rapaz se afasta e vai até a Vivi que servia vodka em um copo descartável para cumprimentá-la.

— E você Juquinha? Tá bonita hein — a morena se aproxima exalando um perfume doce misturado com suor, ela está vestindo uma blusinha animal print de oncinha que se combinava com uma saia preta, seus pés livres de calçados mostravam o que a ruiva já sabia: A namorada do amigo estava lá para dançar até cair e fazer a noite valer.

— Tudo bem, Ger? Você também tá gata — ela retribuiu o elogio segurando as mãos da morena fazendo ela dar uma voltinha.

— Obrigada minha linda — ela sorria de orelha a orelha — E vai pro ataque hoje?

Então foi isso que o maldito do Paulinho falou pra ela.

— O seu namorado é um bocudo, sabia?

— Ele só quer que você se divirta Juquinha...

Eduarda amaldiçoou todas as almas que contribuiram para aquele apelido pegar.

— É complicado amiga, eu tenho medo de... sei lá... vai que ela é uma maluca homofóbica que vai me matar só de falar com ela? — Gerluce franziu a sobrancelha. 

Quando ela ia responder, Paulinho a abraçou de lado junto com a Vivi toda produzida em um vestidinho vermelho, cabelos soltos e os pés também descalços, que veio do outro lado.

— Tudo certinho Juquinha? — Vivi perguntou educadamente dando um beijinho na bochecha da ruiva que retribuiu.

— Tudo certo sim Vivi, e com você? Como foi o encontro com aquele bofe? — sussurrou a última parte curiosa.

— Foi bem legal na verdade, ele é super educado, acho que foi a primeira vez na minha vida que o cara não esqueceu a carteira em casa — falou risonha arrancando uma risada confortável da amiga — E você dona Juquinha, tá de olho em alguém?

Seu sorriso murchou na hora.

— Juquinha tá com medo minha irmã — Gerluce respondeu pela ruiva que pegava uma latinha de Skol na geladeira que claramente não aguentava gelar tanta bebida.

— Medo? Mas por quê, minha gente?

— Ela tá com medo da garota ser hétero — Paulinho explicou — Mas eu sinceramente acho que isso daí é desculpinha.

— Quem é ela? — Vivi ficou curiosa para saber quem era a bela moça que tinha desconfigurado a sua amiga que costumava ser confiante ou sem noção nos assuntos do amor.

— Paulinho se você abrir a boca eu te mato — Eduarda falou baixo diretamente no ouvido do melhor amigo que engoliu seco tragando um pouco do seu tabaco agora pela metade.

— Vamos mudar de assunto? Cadê o boy magia Viviane? — o rapaz voltou a atenção para a mulher cacheada.

— Meu amor você acha que a gente é idiota? — Gerluce disse rindo da cara de assustado do namorado — Quem é a menina Juquinha? Fala logo daí a gente pode te ajudar — Viviane acenou com a cabeça concordando com a amiga.

— Ger minha linda..., muito obrigada, vocês duas são ótimas mas não precisam esquentar a cabeça com as minhas besteiras — a ruiva tentou desconversar e bebeu um gole generoso da cerveja que estava meio quente mas dava pro gasto.

As duas amigas se entreolharam conversando por telepatia, capacidade conquistada devido aos longos anos de amizade.

— Deixa minha irmã, tem gente que quer morrer na mão mesmo — Gerluce solta arrancando uma risada de Vivi — Vamos ir dançar Vivi? Deixa a bestona aí chupando o dedo.

A expressão antes fechada de Eduarda agora se trancou completamente.

— Só se for agora — a morena pegou seu copo descartável com vodka saborizada que estava dentro de uma fruteira vazia, enquanto Gerluce deixou um beijo no namorado avisando onde elas estariam antes de saírem, largando os dois amigos sozinhos na cozinha.

Quer dizer, tinham mais umas seis pessoas naquele lugar, mas ninguém se importava com o que eles estavam falando, não era grande coisa também.

— Você sabe que elas não estão erradas, né? — Paulinho cutucou apagando o tabaco na pia.

— Não começa — cortou na mesma hora sem paciência.

— Eu tô te achando engraçada sabia? — ele riu de leve jogando uma bala Halls na boca — Acho que nunca te vi tão pilhada por causa de mulher.

— Eu não tô pilhada.

— Eu que tô — respondeu debochando da cara da amiga — Mas você vai ficar com essa cara de bunda e de quem fez essa super produção à toa ou você vai pra luta?

— Paulinho... — ela o chama com a voz trêmula — Eu tô com medo.

— Eu não acredito que tô ouvindo isso — ele passava as mãos pela cabeça — Medo do que Jucs?

— Dela, caralho — Eduarda falou com os dentes cerrados — Ela é assustadoramente linda, nem sei o que dizer pra ela... a concorrência hoje deve estar bizarra.

Paulinho ficou quieto, ele sabia que ela estava certa, tinha presenciado o furacão que a caloura era, também na calourada de Administração, e realmente ela era linda demais, magnética era palavra certa. 

O problema era o fato dela ser "carne nova" na faculdade, todos ficavam igual hienas cercando a menina que tinha virado sonho de consumo.

O rapaz viu ela beijando umas cinco pessoas diferentes naquela noite, mas ele nunca iria abrir a boca para a amiga baixinha que agora estava em um estado deplorável na sua frente.

— Juquinha você passou em primeiro lugar no vestibular, lembra? — ele falou sério, arrancando uma risada nervosa da amiga.

— E o que que o cu tem a ver com as calças? — exclamou fazendo Paulinho revirar os olhos como se fosse a coisa mais óbvia de todas.

— A concorrência que tem que se preocupar com você, não o contrário.

Eles ficaram sem falar por um segundo, mas não em silêncio completo, era impossível não ouvir os barulhos de garrafas, risadas e principalmente da coletânea de sucessos dos últimos tempos que explodia nas caixas de som.

— Você tá certo — ela afirma olhando nos olhos castanhos do moreno num súbito de autoconfiança — Tenho que falar com a Maggye — anunciou jogando a latinha de Skol vazia no lixo.

— Eu sei, caralho — Paulinho abre um sorrisão e pega mais duas latinhas na geladeira — Vamos atrás dela — Eduarda pega uma das latinhas de sua mão e dá um gole generoso, mas já se arrependendo.

Os dois saem da cozinha pela porta dos fundos que levava à área externa da casa onde algumas pessoas estavam rindo na borda da piscina, outras fumando debaixo de uma mangueira enorme que tinha no canto do quintal, mas quem chamou a atenção deles foi o garoto moreno, ficante premium da Maggye, que gritava "TRUCO" anestesiado batendo em uma mesa plástica e comemorando com a sua dupla.

Paulinho e Eduarda se entreolharam e foram na direção do menino vestido como se fosse o Jay-Z paulista.

— Juninho meu velho — os olhos do menino se iluminaram ao ver o parceiro de bebedeira — Como você tá rapaz?

— Tudo firme Paulinho — ele puxa o amigo para um abraço desajeitado por causa do efeito do álcool que já capturou o garoto, e quando o solta, vê Eduarda e faz a mesma coisa — Estudando muito Juquinha? Tá bonita.

— Obrigada Júnior — responde educadamente subindo a cabeça para ver se a Maggye estava por ali — Hein, você sabe onde a Maggye tá?

— Minha morena deve estar na sala, não? — perguntou pro Paulinho como se ele fosse saber.

— A gente acabou de passar por lá e não vimos ela — a ruiva disse pacientemente ao amigo embriagado.

— Puts... — ele pausou olhando para a casa — Então talvez ela esteja... No quarto dela? — olhou para Eduarda esperando uma reação.

— Isso é uma pergunta ou uma afirmação? — disparou com os braços cruzados.

— É uma sugestão — retrucou rindo de si mesmo — Paulinho senta aí, vamos jogar uma rodada, eu te apresento a minha galera — o menino sentou novamente em sua cadeira inicial e apontou para uma livre na mesa — Juquinha, tenta ir lá no quarto, se a Maggye não tá na sala ela deve estar lá.

— Quer que eu vá contigo? — Paulinho perguntou para a amiga, fitando sua olhada raivosa para o Júnior.

— Não precisa, fica aí.

— Tá legal.

Observou as costas de Paulinho se afastando na direção da mesa de truco.

A missão de encontrar a Maggye tinha iniciado oficialmente.

Eduarda voltou para dentro da casa pela mesma porta que tinha saído, aproveitou para jogar fora a segunda latinha vazia e pegar a terceira, agora ela se sentia mais leve e risonha. Passou pelo corredor como um raio. O Xavier tinha parado de lamber a boca do menino desmaiado e agora estava apenas deitado em cima dele.

Quando chegou na sala, o zumbido que era a música nos fundos da casa tinha virado um batidão que explodia seus ouvidos. Todos vibravam com os hits do Destiny's Child, e isso incluía Gerluce e Vivi, que dançavam como se a própria Beyoncé estivesse entre elas.

Os olhos da ruiva passaram por toda a sala em busca de Maggye e de outra pessoa também... mas nada. Ela suspirou e seguiu seu caminho em direção às escadas.

No segundo andar o clima era outro. Os moradores mais espertos deixavam a porta do quarto trancada, mas um azarado ou outro esquecia desse pequeno detalhe e tinha o quarto invadido. Não era o caso da Maggye. A porta da garota estava fechada no final do corredor, mas dava para ouvir música e ver luz saindo do lado de dentro, indicando que a amiga estava lá.

Eduarda abriu um sorriso ao constatar que sua missão seria bem-sucedida. Caminhou rapidamente mas foi interrompida por uma porta e uma pessoa que saiu bloqueando a sua passagem, mas não era qualquer pessoa.

Eduarda travou na hora. 

Lá estava ela... a morena de olhos verdes que assombrou a ruiva durante duas semanas, tinha virado assunto entre seus amigos e motivo de preocupação com o próprio psicológico. E, diga-se de passagem, ela estava deslumbrante. A morena usava um shorts jeans preto junto de um Superstar da mesma cor. Na parte de cima uma camiseta estampada com a frase "Italians do it better" e uma gravata com listras azuis e vermelhas no pescoço, era a cereja do bolo. Seus cabelos pretos escorriam da sua cabeça como cascatas, seus olhos estavam mais lindos ainda por causa da maquiagem pesada em suas pálpebras.

Eduarda já estava no chão, mas quando seu olhar subiu um pouquinho e viu um piercing na sobrancelha da outra menina, ficou de joelhos — mentalmente, claro.

— Oi — a morena de olhos verdes soltou um sorriso fácil para Eduarda, que suava frio com os olhos levemente arregalados — Tá perdida?

— Eu... — ela estava? — N-não, eu... Só tô atrás da Maggye — puta merda, ela engasgou e ficou vermelha no mesmo instante.

— Ah sim, a Maggye tá lá dentro — ela respondeu rindo levemente e apontando para a porta ao lado — Algum idiota derrubou bebida na saia dela — o seu olhar correu a ruiva de cima a baixo analisando o look completo — Adorei seu cinto — o elogio percorreu o ar até os ouvidos de Eduarda e, em milésimos, um sorriso bobo já estampava o rosto da garota que, se tivesse um rabo, estaria abanando.

— Obrigada linda — ela disse linda? Meu Deus, seu coração disparou e a vontade de se enterrar em um buraco também.

— Que isso — a garota fechou a porta do quarto trancando-a, nem dando tanta atenção pro elogio mais direto de Eduarda — Eu vou descer — ela a encarou — A gente se vê por aí, gatinha — lhe lançou uma piscadela.

E saiu, como se não tivesse deixado a pobre Eduarda em estado de choque, como se não tivesse alterado toda a combinação química do mundo apenas com uma palavra, como se ao fundo de seus passos se afastando não fosse possível ouvir sinos badalando, passarinhos cantando e corações nos olhos castanhos que acompanhavam a cintura da caloura virando no corredor das escadas.

— Fica comigo? — Eduarda murmurou sem nem perceber, mirando o lugar onde a morena estava três segundos atrás.

Ela nem sabia o nome da garota, mas não importava, o futuro se abriu diante dos seus olhos...

Calma, a Maggye.

Juquinha sacudiu a cabeça, deu mais um gole na cerveja que segurava e bateu na porta de Maggye. No mesmo segundo que ouviu um "ENTRA" de dentro do quarto, também ouviu passos e risadas se aproximando. Gerluce e Viviane apareceram no corredor suadas, cobertas de glitter e claramente mais bêbadas do que antes.

— JUQUINHA! — as duas exclamaram juntas e saíram correndo para agarrar a amiga que não conseguia parar de rir.

— ME SOLTA! — elas apertavam a mais baixa como se fizesse anos que não se viam — meu Deus, vocês estão pingando.

— Juquinha — Gerluce chamou a amiga segurando a sua cabeça para encará-la nos olhos — eu amo você minha irmã, amo muito, viu? — ela declarou com os olhos marejados.

Eduarda ria achando graça a amiga estar naquela fase da bebedeira

— Eu quero que você seja muito feliz, que consiga pegar essa tal garota misteriosa... porque você merece muito.

— Que garota misteriosa que a Juquinha quer pegar? — a porta de Maggye se abriu.

— Oi Maggye, tá gata... — Viviane elogiou — Só faltou a parte debaixo — pontuou encarando as pernas desnudas da garota que estava usando um top dourado e uma calcinha rosa-choque.

— Tô em busca de alguma coisa para substituir a saia linda de paetê que um tonto derrubou bebida — já foi se explicando e abrindo espaço para o circo todo entrar no seu quarto — Entrem aí gente, é hoje que a Juquinha beija na boca.

As garotas riram entrando no quarto e arrastando Eduarda junto.

O quarto da Maggye era excêntrico, para não dizer um caos completo, cheio de roupas jogadas em um tapete felpudo e da cama revirada, maquiagens e perfumes espalhados pela cômoda e penteadeira, alguns livros e papéis da faculdade que enfeitavam a escrivaninha improvisada, nas paredes haviam pôsteres gigantes da Christina Aguilera, Backstreet Boys e outros colírios da Capricho que a garota ainda idolatra como se tivesse 15 anos.

Um CD do Skank tocava baixinho no micro system apoiado na cabeceira desgastada da cama que Gerluce se deitou sentindo-se em casa. Vivi sentou no banco da penteadeira e tirou um gloss de uma bolsinha rosa-claro para dar uma retocada. Já Maggye se instalou em frente ao guarda-roupa para voltar à sua missão de achar alguma peça para substituir a bendita saia que agora estava jogada no canto do quarto.

— Que ódio, esse povo parece bicho — Maggye reclamou revirando uma gaveta.

— Relaxa minha irmã — Vivi apaziguou espalhando o gloss em sua boca carnuda e borrando um pouco — O que não falta aí é roupa.

— Verdade — Gerluce completou rindo.

Juquinha ainda estava encostada na porta torcendo para as meninas esquecerem da sua existência. Ela sabia que, se abrisse o bico, não ia ter jeito, aquelas três iam aprontar alguma coisa, e só de pensar nisso seu sistema nervoso mandava sinais de alerta para o corpo todo.

— Que tal essa aqui, amiga? — Ger segurava uma mini micro nano pico saia jeans para Maggye, que automaticamente abriu um sorriso.

— Meu Deus do céu, esqueci que eu tinha isso — ela correu até a cama e pegou a saia a analisando — Acho que você me salvou, gata.

— Amiga, você vai ficar linda, super combina com o top — Vivi incentivou guardando o gloss de volta na bolsinha e tentando limpar o excesso que ficou invadindo suas bochechas — Tá aí ainda, Juquinha? — encarou a amiga, que se encolheu na hora, pelo espelho.

Merda, ela foi pega.

— Verdade — Maggye exclamou buscando o rosto da amiga baixinha — Conta tudo.

— Tudo o quê, senhor?

— Quem é a garota misteriosa? — Gerluce insistiu lenta puxando-a para deitar na cama junto dela.

— Não tem garota nenhuma.

— Meu Deus, mas que drama para falar um nome — Maggye reclamou com dificuldade para fechar o zíper.

— Desembucha logo, ruiva! — Vivi disse jogando um urso de pelúcia em Juquinha que ria de nervoso.

Ela devia dizer? Eduarda tinha medo do que aquelas meninas seriam capazes de fazer, então se calou, ficou em completo silêncio encarando o rosto do Nick Carter na parede.

— Eduarda Fragoso — Maggye chamou a menina que ficou rígida na hora, afinal aquelas três não a chamam nem de Duda direito, quem dirá Eduarda Fragoso — Chega de enrolação, fala agora — ordenou lhe lançando um olhar ameaçador — Eu te conheço e sei que você quer.

Ela não estava errada... Droga.

— Eu... — ela começou e as três se aproximaram sem piscar.

— Eu não sei o nome dela — as expressões cheias de expectativas deram lugar às de confusão.

— Como assim você não sabe o nome dela? — Gerluce indagou com as sobrancelhas franzidas. Eduarda olhou para ela, depois para Maggye e por último para a Vivi.

Como assim eu não sei o nome dela?

Ela respirou fundo juntando coragem, abriu a boca e disse:

— Eu não sei o nome dela — gesticulava enquanto o olhar das amigas acompanhavam cada movimento — Mas eu sei onde ela mora — parou de falar observando a cara cada vez mais confusa de cada uma das três.

— ONDE, CARALHO? — Vivi interrompeu o silêncio, fazendo as outras acenarem positivamente com a cabeça incentivando a amiga a falar.

Eduarda pensou pela última vez, vale a pena? Decidiu que não importava, ela já estava no meio da fogueira.

— Aqui na república.

As expressões das três mudaram drasticamente, Vivi olhou pela janela tentando solucionar um quebra-cabeça mental, Gerluce começou a abrir um pequeno sorriso olhando para a Maggye que agora mantinha uma cara neutra.

— Desenvolve... — Maggye pediu e agora a expressão confusa vinha de Eduarda.

— Eu só sei isso.

— Como ela é, caramba? Tipo fisicamente — Vivi disse perdendo a paciência com a lerdeza da amiga.

— Ah... — Eduarda voltou a olhar pro Nick Carter na parede sentindo o rosto levemente corado — Ela é morena... linda — soltou um risinho bobo sem querer.

— Meu Deus, tá apaixonada — Gerluce declarou batendo levemente na coxa da amiga arrancando risadas das outras duas.

— Eu não tô apaixonada! — se defendeu mas ninguém parecia disposta a acreditar nela.

— Continua, Jucs, mais características, anda — Maggye insistiu e Eduarda engoliu seco.

— Ela tem olhos verdes...

— Olhos verdes? — Vivi interrompeu com um sorrisinho de lado olhando para Gerluce que mordeu os lábios tentando disfarçar.

— Sim — Eduarda nem percebia os olhares das amigas, estava aérea lembrando da interação que teve com a menina há pouco tempo atrás — Olhos verdes... os mais lindos que eu já vi na vida — ela saboreava cada palavra que saía da sua boca — E também tem um piercing na sobrancelha.

As três abriram sorrisos enormes se divertindo mutuamente.

— Juquinha — Maggye chamou fazendo-a voltar para a realidade — Foi gamar justo na Lorena?

Lorena

Lo re na

L o r e n a

O nome se dissolvia no pobre cérebro recém formado de Eduarda. Sem nem perceber ela abriu um sorriso bobo, agora aquela Deusa tinha nome e que nome... Era o nome mais lindo que ela já tinha escutado na vida.

— Lorena?

O quarto explodiu em gargalhadas e teorias enquanto Eduarda sentia que sua vida estava prestes a mudar para sempre, ou era só drama mesmo.

— Caloura de Administração.

— Mas é claro que tinha que ser ela — Vivi gargalhava junto de Gerluce e Maggye dobrava as roupas que estavam na cama.

— Como assim "tinha que ser ela"?

— Jucs, você não tem Orkut não? Todo mundo fala dela... Ela tá causando uma comoção na faculdade inteira — explica pacientemente.

— Mas por quê? — as três se olham chocadas.

— Basicamente porque todo o campus se encontra do jeito que você está — Gerluce pausou — Completamente obcecado.

— Metade dessa festa tá atrás da Lorena — Vivi completou — Talvez até mais.

Eduarda arregalou os olhos, aquilo não podia ser verdade.

— Maggye — Gerluce usa um tom mais sério ao chamar a amiga que guardava as roupas na cômoda — Mas ela pega mulher?

Pergunta fazendo o estômago de Juquinha dar um nó com o que vem a seguir.

— Pega — responde simples e as três soltam suspiros de alívio.

— Bem... Quer dizer... Ela tem uma foto da Madonna beijando a Britney no quarto — Vivi sorri chutando levemente as pernas da ruiva numa provocação — E ela também tá em umas comunidades GLS no Orkut.

— E se ela for o S? — Eduarda diz meio apavorada com a ideia daquela maravilha ser hétero.

— Ela não é, Jucs — Gerluce afirma — Ela tem uma foto do VMA de 2003 na parede... relaxa.

— O foda é que a Lorena é que... — Maggye começa, para e pensa e continua — Ela é super desapegada, tipo com a vida sabe?

Um silêncio se instaura no quarto pela primeira vez .

— Eu nunca vi aquela lá repetir figurinha, isso porque faz três semanas que eu conheço — completou — Mas se a Duda for esperta e se blindar de apego... dá pra tirar uma casquinha deliciosa daquele monumento — finalizou com um olhar encorajador para a amiga que estava repensando toda a sua vida naquela altura do campeonato.

— Eu acho que você devia tentar — Gerluce se manifestou deixando seu voto a favor.

— Também acho — Vivi apoiou.

Pronto, agora a sua vida amorosa tinha virado uma democracia.

— Não sei não... — depois de ser bombardeada por tantas informações Eduarda não conseguia não se sentir no mínimo insegura.

— Duda — Ger a chamou carinhosa pegando suas mãos — Você não tinha dito que ela era a menina mais linda do mundo com os olhos mais maravilhosos e pipipi popopó? — a ruiva acenou positivamente, afinal era tudo verdade mesmo — Pois então minha linda... Vai perder a oportunidade de dar um beijo nessa mulher?

— Eu nem sei se ela ia querer me beijar...

— Você já falou com ela? — Vivi perguntou

— Falei — as três olharam espantadas — Falei um pouquinho de nada quando vim pra cá, ela tava saindo do quarto dela e a gente se esbarrou no corredor.

— E o que ela disse? — quem questionou dessa vez foi a Maggye fazendo a ruiva bufar e contar até três para dizer o que instauraria o caos naquele quarto.

— Ela elogiou o meu cinto — gritinhos histéricos e empurrões — E me chamou de... — hesitou com os seis olhos fixos nela — gatinha.

Caos.

Eduarda estava no mesmo tom de um extintor de incêndio.

— Eu vou ficar tão emocionada quando receber o convite de casamento escrito "Eduarda Fragoso e Lorena..." Qual é o sobrenome dela mesmo?

— Ferette — Maggye respondeu limpando as lágrimas no canto dos olhos, ainda risonha.

— "...Ferette" convidam Gerluce Maria das Graças para o seu casamento — Viviane dá um tapinha leve no ombro da amiga.

— Só não se esquece da história de se blindar emocionalmente.

— Isso é coisa da Juquinha, eu posso curtir esse casal à vontade — Gerluce deu os ombros sorrindo.

Lorena Ferette.

Que nome chique, essa menina deve ter muita grana.

— Amiga, mas eu não entendi esse seu surto dela não querer te beijar — Vivi puxou o papo — A garota claramente flertou contigo.

— Gente isso não significa nada, vocês mesmas disseram que ela é galinha e atira pra todo lado.

— A gente nunca disse isso, Juquinha — Maggye as defende — Ela é sim desapegada, mas não significa que ela não pode dar moral pra você, ué.

— Jucs — Gerluce segura o rosto vermelhinho da amiga — Você é linda, sabia? E hoje tá mais linda ainda com essa make, esse cabelo e nesse look que tem o cinto que já foi elogiado pela menina mais cobiçada da festa — respirou fundo encarando os olhos brilhantes em sua frente — E também... você passou em primeiro lugar no vestibular de Direito.

— É VERDADE! — Vivi abraçou os ombros de Eduarda — Eu esqueço que você meio que é uma gênia.

— Não é pra tan...

— O Paulinho não me deixa esquecer — Gerluce interrompeu — Ele se orgulha mais disso do que a própria Juquinha.

— Eu não ia calar a boca sobre isso se fosse você, amiga — Maggye agora estava sentada no chão calçando um salto alto.

Coragem.

— Obrigada mesmo meninas, eu amo vocês mas... — seus olhos ficam levemente marejados de puro nervosismo — Eu não sei se consigo, é muita gente cercando, eu fico nervosa.

— Juquinha do céu, abre seus olhos... Você é melhor que todo mundo que tá nessa casa hoje, inclusive a Lorena — Gerluce argumentou — Você pode pegar quem você quiser, mon amour.

Um sorriso tímido brotou nos lábios da ruiva.

— Agora vamos voltar pra festa, achar a Lorena e fazer acontecer porra — Maggye exclamou quando se levantou puxando Eduarda para fora do quarto, acompanhada das meninas.

— Gente pelo amor de Deus não me façam passar vergonha — Eduarda implora desesperada sentindo o coração na boca.

— Confia na gente, Jucs.

O que a ruiva mais temia estava acontecendo... Ela estava sendo levada à morte.

Por causa dos longos períodos de Direito Romano que ela era obrigada a estudar, Eduarda sabia muita coisa sobre a história daquela civilização antiga, entre elas todo o ritual que era feito antes de um espetáculo no Coliseu, que distraia a população romana da sua falta de participação política, uma em especial passava em sua mente: "damnatio ad bestias", condenado às feras traduzindo.

Eduarda era o criminoso que foi condenado à morte e estava sendo escoltado pelos soldados romanos (suas três amigas) para ser devorado por uma fera, que nessa analogia é a Lorena.

— Gente não vai dar — Juquinha se desvencilhou das amigas e parou no meio da escada, ela sentia vontade de chorar — Eu não quero morrer.

— Quem disse que você vai morrer? — Viviane revirou os olhos achando graça o drama da menina que tremia feito uma vara verde.

— Juquinha você precisa se acalmar porra — Maggye deu um pito — Agora — ela falava entre os dentes.

— Respira amiga pelo amor de Deus — Gerluce a lembrava abanando seu rosto.

A expressão de desespero de Eduarda foi se desfazendo enquanto ela respirava fundo, assistindo a multidão que estava na sala dançando, rindo, cantando, bebendo, se divertindo... A música tinha mudado, agora os primeiros acordes de "Sorte Grande" da Ivete Sangalo começaram a sair da grande caixa de som alugada.

Às vezes ser devorada pela fera não seria tão ruim assim...

— MEU DEUS! PAULINHO — Gerluce deu um salto do meio da escada caindo desequilibrada no chão da sala — PAULINHO MEU AMOR, É A NOSSA MÚSICA — o rapaz surge da cozinha junto de Júnior rindo de alguma coisa e, quando ele se dá conta do que está acontecendo, seu olhar e linguagem corporal mudam completamente.

— Luce meu amor — ele segura a cintura da mulher exibindo o maior sorriso de todos — Você é a mulher mais linda desse lugar — o moreno a gira como o próprio Johnny Castle gira a Baby, arrancando suspiros de Maggye e Viviane.

— Ai minha gente, cá entre nós — Vivi cochicha como se estivesse falando algo proibido — O Paulinho é um sonho, né? Meu Deus, a Gerluce realmente teve a sorte grande.

— Amiga, sabe quantas vezes o Paulinho foi ao cinema ver Diário de uma Paixão com ela ano passado? — Maggye parece indignada — Umas cinco. Era só um desses na minha vida... O Júnior reclama de tudo — desabafa, vendo o ficante se segurando na porta do corredor para não cair ao lado do menino desmaiado e do Xavier.

— Ele pode até ser meio bocó mas é um galã — Vivi afirma ainda assistindo os dois pombinhos dançando no meio da galera.

Era o fim dos tempos.

Eduarda sentia ânsia de vômito escutando as amigas exaltando o tonto do Paulinho, mas não reclamou em voz alta para que as meninas, ou melhor, os soldados a deixassem em paz na sua cela.

— Então Juquinha, acalmou, bora? — Vivi cruza os braços esperando uma resposta da garota.

— Um shot — a ruiva levantou um dedo que tremia para as amigas — Eu preciso de um shot.

— E eu preciso ir ao banheiro — Vivi revirou os olhos para a amiga — Depois eu encontro vocês duas na cozinha — avisou terminando de descer as escadas e indo rumo ao lavabo que devia estar imundo.

— Mas que odisseia hein, puta que pariu — Maggye agarrou sua mão marchando até a cozinha.

No caminho Eduarda aproveitou para percorrer discretamente caçar Lorena com os olhos pelo ambiente mas não a viu, não sabia se ficava triste ou aliviada, era um misto dos dois.

Foi chegar na porta da cozinha que sua busca se cessou com um baque, seus pés criaram raízes nos azulejos travando a passagem e fazendo a garota que a arrastava parar.

— Que merda, Juquinha, você não queria o shot? — Maggye olhou para seu rosto pálido com um semblante abismado, mas isso durante pouco tempo, logo a menina somou 1+1 e olhou na mesma direção que a amiga baixinha — Ah tá, entendi...

Lorena estava encostada no balcão conversando com o pessoal do curso dela, parecia o Sol, o centro do universo enquanto os outros orbitavam à sua volta. Maggye seguiu em frente deixando Juquinha plantada na porta, travada, sem saber o que fazer.

— Aonde você tá indo porra? — a menina perguntou baixinho completamente desesperada.

— Pegar seu shot ué, não é isso que você queria? — soltou risada provocativa abrindo a geladeira e consequentemente chamando a atenção de um par de olhos verdes.

— Maggye? — a voz meio rouca de Lorena chamou a amiga que lançou um olhar inocente para a ruiva que não tinha ousado pôr o pé para dentro ainda.

— Oi Lore — respondeu tirando uma garrafa de tequila da geladeira e a colocando em cima do balcão de frente a Lorena.

— Conseguiu arrumar outra saia? Ficou bonita.

— Gostou? A Juquinha me ajudou a escolher.

A expressão da morena se suavizou, recordando de um certo momento com uma certa ruiva.

— Juquinha? É a menina que estava te procurando lá em cima?

Maggye não podia perder aquela oportunidade de ouro.

— Depende... — ela instigou servindo uma pequena dose em um copo americano inteiro — Como é essa menina que você viu?

Lorena sorriu ao lembrar.

— Ruiva com um cabelo ondulado, baixinha — fez um sinal de pequeno com os dedos — Ela tá super estilosa com um cinto brilhoso mas parece que deu um pane no sistema dela — completou arrancando uma risada de Maggye — E claro... linda demais.

Alguns dos amigos ao redor se encararam como bichos que competem para cruzar, e mais um candidato tinha potencial.

— Ouviu isso, Juquinha? — a garota chamou pela amiga com um sorriso enorme — Juquinha? — olhou para a porta e a menina já não estava mais lá.

Puta que pariu, Maggye só podia ter colado chiclete na cruz.

— Lore, depois a gente se fala — nem viu a reação da novata e saiu pela porta que a Juquinha deveria estar — Eu não acredito que essa cabeça de vento sumiu — resmungava andando em passos firmes em direção ao lavabo que Viviane tinha ido, enquanto isso abriu o seu Motorola Razr cor-de-rosa procurando o número de Paulinho com os polegares trabalhando rápido, levou-o à orelha quando soou o primeiro toque.

Atende logo caralho.

Alô — a voz meio eletrônica de Paulinho soou no aparelho — Maggye? O que foi?

— Paulinho, me encontra na porta do lavabo da sala... AGORA — desligou a chamada, fechando o aparelho ao meio e o colocando de volta pendurado no sutiã, de onde nunca devia ter saído.

Passou espremida pela sala, quando foi que chegou tanta gente?

— MAGGYE — ouviu uma voz conhecida, fazendo-a parar e olhar para quem a chamava — Amiga do céu, isso aqui tá uma loucura — era a Carol, uma das moradoras mais dedicadas da república, ela que gostava de promover as festas e convencia todos que era uma ótima ideia para "arrecadar fundos".

— Oi Carol, tá maluquice mesmo, dessa vez você se superou — tinha gente até no teto.

— Eu acho que mais pra frente vou expulsar essa galera daqui de dentro, mandar geral pro quintal — ela sugeriu, esperando um feedback da garota que analisava a situação com um tato desnecessário.

— Boa ideia, é só levar o som que a galera nem vai reclamar — constatou, apoiando a líder da bagunça.

— Beleza, valeu diva — e logo a multidão engoliu Carol novamente.

Maggye apertou o passo até o lavabo na última porta do corredor, quando chegou lá o circo inteiro estava esperando.

— Gente — todos os olhares se voltaram para a menina ofegante — A Juquinha fugiu.

— O QUÊ? — os três exclamaram ao mesmo tempo.

— Evaporou, viu a Lorena e desapareceu — Paulinho soltou uma risadinha e Gerluce brigou com ele.

— A gente pressionou ela demais — Viviane refletiu preocupada — A gente sabe como a Juquinha é, ela tava sem emocional hoje.

Paulinho fechou a cara na hora, ele sabia que a Vivi estava certa, merda.

— Que merda, hein, agora eu tô me sentindo mal... — Gerluce desabafou chorosa — Eu queria que ela curtisse a Lorena hoje, porque aquela morena safada claramente queria curtir ela.

O silêncio reinou durante um minuto inteiro e nada mais, porque Paulinho saiu andando firmemente pelo corredor.

— Onde você tá indo? — Maggye perguntou.

— Resgatar a minha melhor amiga — ele seguiu sem nem olhar para trás e saiu do corredor, deixando as três meninas para trás.

— Deixa eles dois — Gerluce falou baixinho — O Paulinho é a única pessoa que entende aquela cabeça dura e vice-versa.

O sonho de Paulinho era ser policial desde que se entendia por gente, seu maior modelo como pessoa, Guilherme Reitz, seu pai, era policial. O garoto cresceu vendo o pai trabalhar na polícia civil, no setor de investigação, então depois da vida inteira observando um investigador todo dia, o jovem era acima da média para juntar pontos e encontrar pessoas perdidas em festas. Ele nem precisou pensar muito, já sabia onde a ruiva tinha se enfiado antes mesmo dela sumir, ele foi sem nem pensar até o quintal da casa.

E lá estava a fugitiva, deitada debaixo da mangueira, devorando uma das mangas maduras.

Ele riu vendo a cena e se aproximou, pisando em ovos, não sabia como a amiga reagiria à sua presença.

— Dona Juquinha — chamou a atenção da menina, que levantou a cabeça mas logo abaixou de novo.

— Não quero mais ouvir o nome daquela menina.

— Tudo bem — ele levantou as mãos em sinal de rendição e se sentou ao lado da figura menor que estava concentrada na manga — Tá doce?

— Pior que sim.

Um silêncio, até que confortável, cercou os dois enquanto eles assistiam a um repentino movimento perto da piscina, pareciam estar instalando um som do lado de fora.

— Você tá arrasando na dança hein Paulinho? — provocou, arrancando uma risada sincera dele.

— Tá com inveja Jucs? Cuidado para não se afogar em tanto recalque — ele ria das bochechas sujas da menina.

— O próprio Johnny Castle.

— Sou eu — Paulinho sorriu — A Gerluce disse que quer dançar "I've had the time of my life" no nosso casamento.

Eduarda riu imaginando a cena e lambeu os próprios dedos a fim de limpá-los, quando terminou de comer. O rapaz sorriu observando a cena, como pode ser tão maluca? Só isso passava na sua cabeça.

— Juquinha... você gosta desse filme?

— Dirty Dancing?

— É.

— Até que sim, mas não tanto quanto a sua amada, eu sou mais do Grease.

Ele lembrou da garota tocando o CD do musical sem parar no rádio de Gol verde semestre passado.

— Sabia que você me lembra um pouco a Baby? — ela olhou em sua direção, não disse nada esperando o amigo completar o seu raciocínio — Ela não se sente pronta para uma coisa que ela claramente tá, fica insegura se remoendo até o Johnny puxar ela pra dançar na frente de todo mundo e criar uma das cenas mais icônicas da história do cinema.

Paulinho parou de falar, mirando a amiga que estava voltando a ficar sentada do seu lado.

— Eu não acredito que ouvi essa sua analogia furada — reclamou revirando os olhos.

Eles ficaram parados sem dizer mais nada até que Eduarda cedeu:

— Eu nunca fiz isso...

— Eu sei...

— O que me deu, cara?

— Não faço ideia — admitiu, olhando o Júnior tentando conectar os cabos da caixa de som, o moreno tirou as chaves do seu carro do bolso e deu na palma da mão de Eduarda.

— Se você quiser... pode pegar meu carro agora e vazar, mas só se você quiser — a ruiva encarou as chaves nas suas mãos.

— Valeu Paulinho — agradeceu, finalmente sentindo o oxigênio no seu cérebro de novo — De coração.

Ela devia ir embora? Desistir fácil assim? Honestamente... A resposta que seu coração bombeava pelo corpo era um não gigantesco, mas sua cabeça, sua parte racional estava implorando para ela atravessar aquele casarão até estar sentada dentro do carro velho e meio fedorento do seu melhor amigo.

— Eu vou ali ajudar o Júnior, me manda um torpedo avisando o que for fazer, beleza? — ele se levantou limpando a poeira do seu bermudão — Amo você Juquinha.

Meu Deus, o "eu te amo" anual estava acontecendo.

— Eu também amo você, bocó — sorriu com carinho e acompanhou com os olhos o garotão indo até a galera que só aumenta no quintal.

Ela olhou para as chaves e refletiu sobre o que fazer durante um tempo.

— Deu por hoje — decreta, levantando pronta para ir embora, no mesmo instante o som ligou explodindo "Festa no Apê" na voz do Latino.

Que trilha sonora linda de fim de filme.

Eduarda passou pela galera acumulada evitando esbarrar com alguém que ela conhecia, não queria bater papo, estava um pouco decepcionada consigo mesma, só pensava em ir para casa. Isso que dá sair só para beijar na boca, não vale a pena, ela se xingava por não querer dançar e nem beber, seu único desejo era deitar no sofá e só levantar de manhã.

Entrou na cozinha depois de uma argumentação com a Carol que agora estava monitorando a porta para não deixar mais ninguém voltar pro lado de dentro, a atmosfera da casa toda tinha mudado, o que restava era o rastro da festa, uma verdadeira bagunça, mas nada fora do previsto, talvez teria saído do controle se não tivessem transferido a festa pro quintal, mas deu tempo de prevenir danos maiores.

Passou pelo corredor que pela primeira vez na noite não contava com o menino desmaiado no canto, ainda ouvia o barulho da festa do lado de fora, mas estava cada vez mais distante. Quando chegou na sala as luzes centrais estavam apagadas, apenas um abajur reluzia uma luz amarela quente e reconfortante, o ambiente estava vazio ou quase...

A pessoa que Eduarda menos queria ver estava ali, sentada no sofá, suas costas curvadas, os olhos verdes de tirar o fôlego focados em um pedacinho de papel mais grosso que era enrolado cuidadosamente pela ponta de seus dedos. A ruiva sentia o peso da chave do carro no bolso de sua calça, era só atravessar a sala correndo que estava livre.

Mas não, ela cansou de fugir.

Lorena percebeu a figura parada perto da entrada da sala e lhe deu uma secada.

O coração de Eduarda voltou para os batimentos padrões, disparados.

— Juquinha...? — Lorena disse o maldito apelido baixinho, meio hesitante, como se estivesse testando, a outra engoliu seco reunindo forças para falar sem gaguejar.

— Pode me chamar de Eduarda — respirou fundo — Esse costumava ser o meu nome, antes do Paulinho inventar esse negócio de Juquinha — a morena deu uma risadinha leve, soltando o papel e sacando uma seda de um estojo apoiado na mesinha de centro.

— Está de saída? — Eduarda calou-se e Lorena piscou devagar analisando a menina em sua frente — Não quer me fazer companhia? — sua cabeça balançou, acenando que sim antes do seu cérebro processar a pergunta — Senta aí — a caloura apontou com o queixo para o espaço ao seu lado.

Quando se deu conta estava sentada ao lado de Lorena, tendo sido convidada pela própria, enquanto a morena transferia maconha de um dichavador para uma seda amarronzada sem a menor pressa.

Eduarda prendeu a respiração e ficou em silêncio alguns segundos olhando suas mãos trabalharem.

— Você faz isso sempre, Lorena? — as palavras escaparam de sua boca numa tentativa de preencher o espaço antes que ele a engolisse.

A menina parou na hora e arqueou as sobrancelhas.

— Como você sabe meu nome? — questionou, e Eduarda travou — Eu não me lembro de ter dito... — provocou passando a língua na goma da seda.

A ruiva desviou o olhar depressa fugindo de seus olhos.

— Todo mundo sabe seu nome — respondeu rápido se sentindo encurralada — Todo mundo sabe quem você é.

Lorena parecia surpresa, mas não tanto, mordeu os lábios e terminou de enrolar a seda com precisão formando um baseado perfeito e o bateu levemente em seu joelho.

— Ah é? Por quê?

Eduarda olhou o baseado, olhou a parede, olhou qualquer coisa que não fosse a menina e soltou uma pequena bufada encolhendo os ombros.

— Porque aparentemente você é muito linda, gata, misteriosa, interessante e... — o que ela estava dizendo? — E toda a faculdade quer pegar você, inclusive metade dessa festa.

Lorena corou levemente e revirou os olhos como quem já ouviu aquela história um milhão de vezes, mas corar era novidade, levou o baseado até a boca prendendo-o entre os lábios.

— Isso é besteira... — resmungou passando as mãos pelos bolsos em busca de seu isqueiro — Mas obrigada pelos elogios, Duda.

Duda.

Ela nunca gostou tanto do próprio nome.

Quando a morena achou o isqueiro, acendeu uma chama queimando a ponta do baseado, deu uma tragada longa, jogando a cabeça para trás com os olhos fechados, seu pescoço completamente exposto não saiu do radar de Eduarda nem por um segundo.

— Respondendo sua pergunta... — Lorena retomou soltando a fumaça e sacudindo de leve o beck — Só às vezes... quer tentar? — lhe ofereceu.

— Quero — disse sem pensar direito, hipnotizada pela fumaça saindo dos lábios da outra.

— Você já fumou antes, né? — buscou uma confirmação e foi respondida com uma carinha de quem foi pega no pulo.

— Já — respondeu convincente — Mas só quando eu era caloura... Acho que nunca aprendi a tragar de verdade — admitiu, as bochechas já estavam vermelhas antes mesmo de terminar a frase.

Lorena sorriu.

— Você puxa um pouco... prende e solta — levou o baseado aos lábios, puxou um pouquinho e soltou uma pequena lufada de fumaça — Assim... — murmurou lhe entregando o baseado, causando um pequeno choque quando seus dedos se esbarraram — Não esquece de respirar a fumaça — sussurrou aproximando seus corpos, não tirando o olhar dela.

Eduarda deu uma tragada, um pouco mais forte que o planejado, que veio seguida de uma tosse escandalosa.

— Vai com calma — riu baixinho levando as mãos às costas da ruiva, dando leves tapinhas.

Duda nem reparou no toque e na proximidade por um instante.

— Como vocês fumam isso, Deus? — tossia mais um pouco sentindo toda a garganta queimar.

— Você se acostuma — responde pegando o baseado de volta e o batendo no cinzeiro colorido da mesa de centro — Quer tentar de novo? — seus olhos baixos meio avermelhados fitam os castanhos de Eduarda com uma intensidade sobrenatural enquanto dá mais uma tragada.

— Sim — saiu fácil, acompanhado de um sorriso tímido.

Lorena soltou a fumaça e levou o beck até os lábios rosados da menina, que o captura sem tirar os olhos de cada movimento dela.

— Puxa devagarinho — instrui se encolhendo no sofá, abraçando as próprias pernas e encostando a cabeça de lado observando a ruiva testando a nova experiência.

Dessa vez Eduarda vai mais devagar, traga duas vezes sem tossir, mas na terceira sua garganta pede arrego divertindo a morena.

— Chega — ela devolve o baseado para Lorena, corada e rindo de si mesma.

— Você foi bem, gatinha.

Gatinha.

Eduarda cora ainda mais e agradece mentalmente as tossidas que ajudaram a disfarçar.

Lorena fuma mais um pouco em silêncio sentindo um par de olhos nela o tempo todo, mas não diz nada, nem provoca a dona deles dando uma folga.

— Vou apagar, não quer mais uma?

A menina negou com a cabeça sentindo sua boca se abrir em um sorriso involuntário, ela estava mais tonta que o normal.

— Tudo bem — afundou o baseado no cinzeiro deixando a ponta ali.

A morena suspirou se deitando no sofá e jogando suas pernas no colo de Eduarda que travou na hora sem saber onde pôr as mãos, olhou para suas próprias pernas, sem coragem de olhar para o rosto da menina, e viu os joelhos da outra, seu coração disparou completamente descompassado, fingiu um bocejo e jogou os braços no estofado do sofá só se dando conta depois que tinha ficado estranho. Lorena percebeu, mas fingiu que não para não constranger a ruiva.

Silêncio.

Não era um silêncio confortável, pelo menos para a ruiva, Lorena parecia estar super à vontade, ficaram assim durante um tempo, ouvindo a respiração uma da outra... quietas. Eduarda sentia a boca seca e o rosto formigando junto de suas coxas quentes que serviam de apoio para as pernas da morena, ela definitivamente não ia conseguir dormir hoje.

— Duda — a chamou percevendo a inquietude da menina que a mirou na hora com os olhos vermelhinhos — Você curte Charlie Brown Jr? — perguntou arrancando dela uma cara surpresa.

— Todo mundo curte Charlie Brown — a caloura sorriu quase sem querer ao ouvir a resposta.

Bingo.

— Já ouviu o álbum novo deles? — ela mexia em uma mecha do cabelo sem desviar o olhar.

— Ainda não — suspirou — Fui na Americanas semana passada atrás de um CD, mas já tinha esgotado.

O sorriso de Lorena dobrou de tamanho e deixou Juquinha mais confusa do que já estava.

— Engraçado — sussurrou — Eu também fui na Americanas semana passada, e também já tinha esgotado... — pausou, esticando as mãos para baixo de uma das várias almofadas jogadas no sofá, sua camiseta levantou um pouquinho revelando uma parte do seu abdômen, Eduarda tentou não olhar, mas apenas tentou mesmo, sentiu o ar ficar pesado e as bordas do mundo mais escuras — Mas... eu matei o primeiro tempo hoje de manhã, voltei lá e olha o que eu achei.

Não podia ser.

Lorena mostrou um CD novinho, não havia um risco ou rachadura no plástico que embalava o papel recém-impresso vermelho e preto escrito "Charlie Brown Jr" "Imunidade Musical" com uma guitarra no centro.

— MENTIRA! — exclama um pouco mais lenta do que o normal, fazendo a que segurava o CD rir, dando-o para ela ver melhor — Meu Deus, eu não tinha visto um pessoalmente ainda — ela aceitou segurá-lo abrindo-o logo em seguida para folhear o encarte.

Lorena se levantou e foi até uma cômoda no canto da sala devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Eduarda parou de mexer no papel quando sentiu falta nas pernas da morena em suas coxas, a seguindo com o olhar e torcendo para ela não sair.

Mas não, Lorena não planejava sair tão cedo.

A garota voltou pro sofá, mas dessa vez com um aparelho de rádio prateado que tinha entrada para CD e o deixou em cima da mesinha de centro ao lado do cinzeiro.

— Eu ainda não ouvi — ajoelhou-se de frente para Eduarda, que nessa altura nem agia mais de acordo com a realidade já que estava vivendo um sonho, e apoiou as mãos em seus joelhos cobertos pelo jeans — Estava deixando para amanhã, mas... acabou de surgir uma boa razão pra ouvir hoje — desacoplou o pequeno pedaço fino de plástico da caixinha que ficou esquecida no colo da estudante de Direito — Topa?

Juquinha soltou o sorriso mais sincero que já tinha soltado na vida, acenando positivamente com a cabeça.

— Por favor.

No mesmo instante Lorena abriu o compartimento de player do rádio e cuidadosamente inseriu o CD, ou melhor, a experiência sonora ali, sendo observada silenciosamente por Eduarda a todo momento, e deu play.

As guitarras elétricas e baterias soaram pela sala fazendo a ruiva quase saltar de empolgação de estar ouvindo o álbum novo da banda, Paulinho ia morrer de inveja quando soubesse, mais fã que ela só ele.

A morena abaixou o volume transformando o som em um plano de fundo para as duas, logo se deitou no sofá e mais uma vez colocou as pernas de volta no colo de Eduarda que vibrou por dentro ao sentir o calor da menina mais uma vez e desceu as mãos apoiando um braço em sua coxa e o outro na canela.

Tão macio.

Prendeu a respiração esperando a reação da menina.

Lorena se arrepiou e sorriu mostrando seus dentes brancos.

Elas ficaram lá, juntas, sem dizer nada, ouvindo apenas a voz do Chorão cantando faixa após faixa, às vezes trocavam um comentário ou outro sobre um ritmo diferente ou uma frase que chamou a atenção.

Era muito fácil ficar uma com a outra.

Depois que uma música terminou Eduarda largou o encarte que ela estava pendurada lendo letra por letra deitando a cabeça no estofado fofinho do sofá.

— Nossa Lorena... — fechou os olhos e inspirou fundo — Eu não esperava terminar essa noite ouvindo o álbum novo do Charlie Brown...

A morena mexeu as pernas chamando a atenção da ruiva para olhar nos seus olhos.

— Atendeu as expectativas? — mordeu o lábio inferior, lendo as expressões da menina com facilidade.

— Superou — confessou em um fio de voz e fez um carinho inconsciente no joelho da morena com o polegar.

— Dudinha... — alcançou a mão dela e a segurou, era tão macia, quente, sentia a palma formigando na sua — Você tá aqui porque também quer ficar comigo, não quer? — murmurou apertando de leve sua mão.

Quando Eduarda não respondeu de imediato, Lorena se endireitou, sentou-se no sofá, suas pernas continuavam no colo da ruiva que afastou o rosto quando percebeu a proximidade que não estava esperando.

As duas se encaravam, não falavam, mas os olhares diziam muito mais.

— Fala comigo... — incentivou baixinho — Você se incluiu no todo mundo, né?

Eduarda deu um sorriso tristonho.

— Isso vai soar m-muito bobo, mas... — sua voz tremia levemente junto com sua mão envolvida pela da Lorena — Eu quero te beijar desde que te vi na calourada de adm... — respirou fundo — Até passei rímel para vir aqui hoje — acrescentou tímida.

Lorena realmente acharia meio bobinho se fosse qualquer outra pessoa daquele lugar lhe falando isso, mas com a Duda não era bobo, era fofo.

— Calourada? — fez uma pequena careta lembrando do seu estado naquela noite — Sério?

— Sério — deu os ombros e sem hesitar apertou a mão da morena.

— Você é linda, Eduarda — Lorena sussurrou e se aproximou mais levando uma mão até o pescoço da ruiva enquanto a outra tocava o seu nariz, bochechas, sobrancelhas com uma ternura que nem ela conhecia — Acho seus olhos tão bonitos... são brilhantes, combinam com você — ela passa uma mecha do cabelo ruivo para atrás da orelha da menina deixando seu rosto exposto para exploração.

A música mudou mais uma vez, o cd que ficou em segundo plano agora se fez presente de novo tocando uma melodia mais calma, diferente do frenesi das outras canções que tocaram.

Os olhos de Duda estavam mais reluzentes ainda, a menina respirava devagar sentindo os dedos delicados de Lorena descobrindo os traços de seu rosto, levou suas mãos à cintura dela puxando-a para mais perto, seus olhos caíram para a sua boca mas subiram rapidamente.

De repente todas as vozes de sua mente se silenciaram.

Percebendo o olhar, Lorena inspira seu cheiro doce, seus dedos agora brincavam com os brincos prateados dela quando mudou sua atenção para os lábios rosados cobertos com uma fina camada de gloss.

E ela não mudou mais, fechou os olhos e capturou os lábios de Eduarda num selinho.

No mesmo instante sentiu um abraço a envolvendo e puxando para mais perto suavemente, quando percebeu Lorena já estava encaixada no colo da ruiva, elas se separaram devagar mantendo as testas coladas.

Risinhos escaparam de suas gargantas como se fossem duas crianças.

Então selaram os lábios de novo. Dessa vez sem nenhuma barreira. O selinho tinha um gosto suave de manga misturada com desejo, era quente e delicioso.

Eduarda foi a primeira que mudou o ritmo, mexeu os lábios devagar desfrutando de cada segundo e abriu uma brecha para aprofundar as sensações, apertou a cintura da morena, quase fundindo seus corpos.

Lorena mergulhou de cabeça em sua boca, acrescentando a língua no ritmo que suas bocas se encontravam, não precisou de uma segunda vez para Duda retribuir na mesma medida. Suspiros se misturavam no meio da bagunça que elas mesmas criaram.

A caloura separou suas bocas descendo os beijos para o pescoço de Eduarda, uma de suas mãos se apoiava no ombro enquanto a outra explorava o rosto e nuca da garota que estava entregue de olhos fechados, apenas aproveitando os lábios na sua pele sensível.

Quando sentiu que ia perder o controle, Duda puxou o rosto de Lorena de volta para se jogar na boca dela mais uma vez, o beijo agora era mais intenso e agitado, os dentes esbarravam às vezes e tiravam risos das duas.

Depois de um tempo o ritmo diminuiu e eventualmente o beijo se transformou em pequenos selinhos, e elas foram se afastando aos poucos.

Quando Eduarda abriu os olhos viu a morena mansa nos seus braços, ainda de olhos fechados esperando mais algum chamego, abriu o sorriso mais verdadeiro que aquela cidade já tinha visto, deixou um selinho demorado nos seus lábios enquanto acariciava sua cintura.

— Não saquei você, gatinha... — Lorena abriu os olhos e passou os polegares nas sobrancelhas de Duda — Você foge de mim... mas beija assim? — provocou fazendo a menina rir mordendo os lábios.

— Só gosto de ter certeza... sou meio medrosa.

Meio? Lorena riu junto dela.

— Valeu a pena.

Ela saiu de seu colo num movimento rápido. Eduarda franziu as sobrancelhas sentindo falta do calor e do peso nas suas coxas. Antes que pudesse protestar viu os braços abertos da morena deitada no mesmo lugar de antes, lhe lançando um convite silencioso para se aconchegar no seu abraço.

Seu coração tropeçou fazendo seu corpo cair no dela, recebido pelos seus braços firmes e macios e seu cheiro de frutas com maconha.

Que combinação.

O rosto de Duda encaixou na curvatura do pescoço de Lorena como se tivesse sido feito para isso, na mesma medida que a morena abraçava o corpo menor como se ele pudesse quebrar.

Ficaram assim durante um tempo, ainda ouvindo o álbum, mas menos focadas nas canções. Qualquer toque virava um arrepio, qualquer beijinho, uma risada, tudo parecia certo, real, eterno...

— Duda... — seu rosto subiu parando de dar selinhos no pescoço da menina — Você tem Orkut? — ela se iluminou com a pergunta.

— Tenho sim — falou com os olhos brilhando.

— E como eu te encontro lá?

— Juquinha... — Lorena abriu a boca surpresa.

— Juquinha? Achei que você odiava esse apelido — fez umas cócegas nas costelas da garota que riu meio sem jeito.

— Eu não odeio... e esse é meu usuário porque ninguém me chama de Eduarda — brincava com a barra da camiseta da morena — Quer dizer... só meus pais me chamam e... — se calou na hora.

Lorena percebendo o que ela diria completou:

— E eu, né? — olhou para a ruiva que se escondeu em seu pescoço mais uma vez — Eduarda — falou devagar, saboreando cada sílaba, sacudindo a menina levemente — Vou te adicionar lá...

A menina engasgou pensando na possibilidade de abrir o computador de manhã e dar de cara com um scrap dela.

O silêncio voltou novamente, os carinhos e beijinhos continuavam junto de umas mãos bobas, até que a música parou. Elas ouviram o álbum todo.

— Lore... — a chamou num sussurro.

— Oi.

— Coloca aquela de novo? — parou encarando aqueles olhos verdes que não vacilavam por um segundo — A que tocou quando a gente... se beijou.

— Gostou? — passava a língua nos lábios, umedecendo-os.

— Sim, queria ouvir mais uma vez — um bico se formou na sua boca, Lorena não tardou em beijá-lo.

— Coloco.

Levantou e foi até o rádio, apertou alguns botões voltando as faixas até que a melodia que Eduarda queria escutar voltou a soar pela sala.

— Qual é o nome dessa música?

Lorena pegou o encarte esquecido do outro lado do sofá para conferir.

— É a sexta do CD, então é... — seu olhar voou pela lista de canções até profundas na sexta — "Ela vai voltar" — dá para Eduarda, que retribuiu — Abre parênteses — anunciou fazendo graça — Todos os defeitos de uma mulher perfeita, fecha parênteses.

Voltou rápido para o abraço da baixinha, se aconchegando nela como se nunca tivesse saído e deitando a cabeça em seu peito. Eduarda deixou um beijinho no topo de sua testa e a música começou a embalá-las para outra dimensão.

Naquele instante, naquela sala bagunçada de uma república universitária em 2005, num bairro qualquer de Ribeirão Preto, meio chapada enquanto a voz do Chorão ecoava pelas paredes, Lorena tinha uma certeza... Ela era a pessoa mais feliz do mundo.

Minha mente nem sempre tão lúcida é fértil e me deu a voz 

Minha mente nem sempre tão lúcida fez ela se afastar mas ela vai voltar

— Mas ela vai voltar — Lorena cantando junto do rádio do carro acordando de um transe, uma lembrança, seus olhos se encheram de lágrimas sem que ela pudesse evitar — Meu Deus que saudade disso — rapidamente aumentou o volume do som cantando baixinho a letra que ela sabia de cor daquele que tinha álbum saído.