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Uma noite fria e silenciosa, cortada pelo som das botas do delegado. Ele pisou em uma poça e a xingou por isso, ele procurou a chave da caminhonete dentro dos bolsos mas tudo que encontrou foi um folheto velho e rasgado de um bar que costumava ir. Aguiar se perguntou há quanto aquilo estava ali, e ficou ainda mais curioso se o estabelecimento estava aberto.
O homem ouviu uma risada, o que não seria estranho se fosse de dia. Mas não era. Ele encarou o relógio de pulso e percebeu já passar de uma da manhã, quem estaria rindo? Os drogados costumavam ficar longe da delegacia onde trabalhava e Jonas não tinha paciência para afugentar adolescente. Ele respirou fundo e seguiu o som da risada, mas não havia adolescente algum. Era um homem? Ah, com certeza era. Pelo menos vinte e oito anos, rindo sozinho em uma praça… O delegado colocou a mão por cima do coldre e se aproximou sem anunciar presença, apenas para vê-lo segurando alguns quadrinhos que o mais velho reconheceu, ele estava lendo as HQ’s de Batman.
— Meio tarde, não? — O homem de cabelo comprido parou de rir e se virou para trás, ele não se assustou, mas parecia surpreso.
— Você é policial? — A iluminação do lugar quase baldio não ajudava o rapaz com apenas um olho e quase cego. — Não tô fazendo nada de errado!
— Vim checar isso, qual o seu nome? — Os ombros do homem se encolheram com a voz do delegado, talvez receio, medo, algo a esconder.
— Henri, não tenho sobrenome. Tô sem documento também. — Aguiar arqueou as sobrancelhas com a resposta, deixando um riso nasal escapar. Desbocado demais para um trombadinha lendo revistas geek de madrugada.
Aguiar ia seguir seu caminho, de qualquer forma Henri não representava perigo com uma HQ e dois bottoms de Superbat na jaqueta. Mas antes que se virasse em silêncio o moreno falou novamente:
— Eu conheço esse bar! — Apontou para o folheto ainda na mão do maior. — Tá livre agora, policial? — Ele teria piscado se ainda tivesse o olho que sabia flertar.
Contrariando tudo que deveria fazer, ele tirou a mão do cinto e se virou a Henri.
— Estou.
E eles foram até esse bar, afinal, ele estava de folga no dia seguinte e não bebia fazia semanas. Henri bebia muito, mas ele era mais falante sem o álcool. Henri gostava de cerveja, apesar de só beber blood mary. Henri não tinha família, mas agia como o irmão do meio que foi rejeitado. E andando lado a lado perto de um beco às quatro da manhã, Henri não hesitou em puxar o colarinho da camisa social do delegado e o beijar mesmo com ambos cheirando a bebida alcoólica e cansados demais para pensar que se conheciam há poucas horas.
♡
Diferente do que pensava, Henri não foi embora.
— Porra, Henri! — O policial gritou ao abrir a porta e ver o namorado desmaiado no tapete com vômito em volta e uma garrafa do outro lado da sala. Aguiar se cansou daquilo depois da terceira vez, não suportava ter que dar banho nele e ouvir promessas bêbadas de que não aconteceria de novo.
Henri acordou perdido, olhou para o lado e sentiu o cheiro ardido do próprio vômito, ele colocou a única mão sobre a boca e levantou correndo para terminar de colocar tudo pra fora no banheiro. Não olhou para trás, não olhou para Aguiar, não pediu desculpa horas depois quando acordou de verdade.
— Vou chegar mais tarde hoje, não me espere acordado. — O delegado avisou jogando uma nota de cinquenta em cima da mesa, o suficiente para Henri comer alguma coisa. — Bom, não é como se você me esperasse mesmo.
O homem mais novo agarrou o copo de vidro em cima da mesa e jogou contra Jonas, este que nem reagiu, Henri estava bêbado demais naquele momento para conseguir mirar corretamente e Aguiar estava cansado demais para lidar com mais um de seus surtos.
— Vai se foder! Eu vou embora! — Mas ele nunca ia. Bom, já tentou uma vez… Mas voltou depois de três ligações do delegado e algumas lágrimas. Mas continuava ameaçando todos os dias, ir embora, engolir alguma lâmina que Aguiar tivesse esquecido no banheiro do quarto deles, mas ele nunca cumpria de fato.
— Você vai ficar aqui e vai comer alguma coisa enquanto eu não volto, você está me escutando? — Jonas agarrou o rosto dele, obrigando-o a ficar no lugar, ouvindo enquanto sentia o maxilar doendo pelo aperto. — Me responde, caralho!
— Tá! Tá… Só vai embora logo, porra. — Tentou se libertar do aperto, só conseguindo sair quando foi empurrado contra a parede branca. Ele deu o dedo do meio antes de agarrar a nota vendo o namorado sair pela porta, lágrimas caindo pela pele tatuada enquanto o mesmo caía no chão, escorado na parede.
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— Hm… Ahn, porra, Aguiar! — Ele gemeu em baixo do corpo grande que o prensava contra o sofá, ele não se importava com as reclamações constantes dos vizinhos ou o namorado o mandando calar a boca a cada poucos minutos.
Eram nessas horas que Henri esquecia quando brigavam, era depois disso que o mais velho cuidava dele e dizia o amar mesmo depois de jogarem louças um no outro. Depois de Jonas o expulsar do apartamento ou ir embora e deixá-lo sem comer durante alguns dias.
— Henri… Vira. — O tatuado obedeceu sem pestanejar, olhando por cima do ombro e por alguns segundos imaginando ver o delegado perfeitamente, como queria desde que o conheceu. Aguiar segurou o rosto dele com carinho e se abaixou, beijando seus lábios como se fosse um último beijo. — Eu te amo.
Porque Aguiar o amava, o amava como um alcoólatra ama bebida.
— Eu te amo, muito…
E porque Henri o amava, o amava como um cristão adorando sua estatueta.
E porque um precisava do outro como alguém precisa de uma perna quebrada.
