Work Text:
Kageyama não sabia dizer como tinha começado, mas ao olhar para si mesmo, poderia afirmar que aquele desejo sempre esteve ali. Nunca havia se manifestado de forma intensa como aquela, mas ainda estava presente a cada vez que se apaixonava ou criava um pouco de interesse por alguém. Contudo, sempre era algo passageiro e seu alvo da vez era o professor ruivo do terceiro período, chamado Hinata Shouyo.
Ele não sabia quando as coisas saíram tanto do seu controle. O primeiro sinal de reciprocidade foi um olhar prolongado e um sorriso de canto de lábios enquanto que o segundo foi um tempo perdido em sua carteira para tirar dúvidas banais com uma proximidade incomum para um professor universitário. Deveria ter se afastado, criado alguma barreira, mas Hinata tinha uma energia contagiante e envolvente que quando percebeu estava totalmente em suas mãos.
Kageyama tentou ignorar, fingir que era tudo coisa da sua cabeça – carência, admiração equivocada, uma fantasia boba alimentada pela gentileza de um professor carismático. Mas quanto mais tentava se convencer, mais fundo afundava naquele desejo que o consumia por dentro. Passou a procurar Hinata nos corredores com os olhos, a segui-lo discretamente com o olhar quando ele explicava algo à turma, e a guardar cada palavra dita com atenção dolorosa.
E Hinata parecia saber.
Sabia exatamente como olhar, como sorrir com a intensidade certa, como se aproximar sem nunca tocar, deixando no ar algo não dito que queimava mais do que qualquer gesto explícito.
Então, veio aquela tarde.
A aula terminou como qualquer outra, com os alunos saindo aos poucos, enquanto o sol se arrastava pelo céu lá fora. Kageyama ficou, fingindo organizar o material, mesmo quando sua mochila já estava pronta há minutos. Precisava de mais um instante. De uma desculpa qualquer. De um pouco mais dele.
A luz fraca do fim da tarde filtrava-se pelas persianas da sala de aula vazia, traçando linhas douradas sobre as carteiras. Kageyama estava sozinho – ou ao menos era o que acreditava – até sentir aquele arrepio subir pela espinha.
— Ainda aqui? — a voz baixa e carregada de intenção soou às suas costas.
Ele se virou devagar, como se já soubesse quem era. Hinata estava parado à porta, a gravata frouxa, a camisa semi-aberta, e aquele olhar que atravessava qualquer barreira de ética ou bom senso.
— Esqueci... um livro — Kageyama murmurou, sem conseguir sustentar o olhar por muito tempo. Sua voz saiu seca, mas seu corpo denunciava outra coisa: as mãos inquietas, o peito subindo e descendo depressa.
Mas Hinata não respondeu de imediato. Seus olhos — maduros, atentos, acostumados a ler mais do que os livros que ensinava — percorreram Kageyama com uma calma quase cruel. Sabia o efeito que causava. Sabia que aquele garoto — não tão garoto assim, mas ainda jovem demais aos seus olhos experientes, mesmo já sendo um adulto — escondia por trás das frases formais e do autocontrole frágil. Então, sem dizer nada, ele fechou a porta atrás de si. O som seco do trinco ecoou alto demais na sala silenciosa.
Kageyama estremeceu.
— Sabe o que acho? — Hinata disse, com um tom mais grave, a voz carregada de algo entre ironia e desejo. — Que você não veio por causa de livro nenhum.
Ele se aproximou devagar, passos seguros, como quem já viveu o suficiente para não precisar correr atrás de nada. Aos quarenta e poucos anos, Hinata tinha o olhar de quem já tinha visto o mundo se acender e apagar várias vezes. E mesmo assim, ali estava ele, diante de alguém quase vinte anos mais novo, com as bochechas coradas e a respiração falha.
— Você devia saber que ficar sozinho comigo aqui... é uma péssima ideia — murmurou, agora a poucos passos de Kageyama.
Kageyama apenas engoliu em seco. Tinha vinte e cinco anos, era adulto, era capaz de tomar decisões por si — mas, diante de Hinata, sentia-se pequeno, vulnerável, desarmado. Como se cada palavra ou gesto dele tivesse o poder de desmontá-lo por dentro.
— E se... eu soubesse desde o começo? — respondeu Kageyama, com a voz baixa, hesitante, mas firme o suficiente para quebrar o silêncio entre eles.
Hinata parou diante dele, perto o bastante para que seus corpos quase se tocassem. Havia uma pausa no ar. Um segundo que durou o tempo exato entre o controle e a rendição.
— Então é pior ainda — Hinata disse, quase rindo, antes de pousar uma das mãos na cintura de Kageyama, puxando-o com uma firmeza que não deixava espaço para dúvidas. — Porque agora você vai me fazer esquecer que eu sou velho o suficiente pra saber que isso aqui… é um problema.
O beijo veio depois disso. Não hesitante, mas urgente, carregado de tudo o que ficou contido nas semanas de tensão, nos olhares trocados, nas palavras não ditas. Hinata era intenso, preciso, como alguém que já sabia exatamente o que queria. E Kageyama... cedeu. Por inteiro.
As mãos de Hinata exploravam com domínio, marcando território. Kageyama sentia a diferença de idade no modo como era tocado — não havia dúvida nos gestos, nem medo. Apenas desejo contido e finalmente liberado.
Era errado. Havia um abismo de tempo entre eles. Mas nada disso parecia importar naquele instante, com a luz morna da tarde se apagando, e os corpos finalmente juntos, como se aquele momento estivesse escrito há muito tempo.
O beijo que começou urgente logo perdeu o rumo. Hinata o empurrou com delicadeza controlada até encostar de novo na lousa, o som abafado das costas de Kageyama batendo contra a superfície reverberando no silêncio denso da sala. A mão do professor subiu pela lateral de sua cintura, por dentro da camisa, dedos quentes traçando o caminho com lentidão, explorando.
— Você não tem ideia do quanto me provocou, não é? — murmurou contra a pele do pescoço de Kageyama, onde pousou os lábios com uma fome contida, alternando entre beijos úmidos e mordidas leves.
Kageyama arquejou, com as mãos finalmente criando coragem para segurar o cós da calça do homem, puxando-o para mais perto. Havia algo animalesco no modo como seus corpos se encaixavam — como se tivessem feito isso mil vezes em sonhos e agora estivessem apenas repetindo os passos de algo inevitável.
Hinata desceu a boca pela garganta do outro, abrindo botões no caminho, expondo a pele aos poucos como se desembrulhasse um segredo. Kageyama tremia, não de medo, mas de antecipação. Ele era mais jovem, sim, mas seu corpo já tinha seus próprios desejos, sua própria urgência — e agora, finalmente, encontrava correspondência.
— Me diz pra parar — sussurrou Hinata, a voz rouca, os olhos cravados nos dele. — Se disser agora, eu paro.
Kageyama o encarou por um segundo que pareceu um mergulho. Respirou fundo, o peito colado ao de Hinata, e balançou a cabeça com firmeza.
— Não para.
Foi tudo o que precisou. Hinata capturou seus lábios de novo, mais feroz dessa vez, e as mãos se perderam uma na cintura, outra deslizando para a curva das costas. Kageyama deixou escapar um gemido abafado, preso entre os dentes do professor. Era quente, era errado, era... viciante.
As camisas se tornaram obstáculos desnecessários. Foram afastadas, puxadas, empurradas para cima. A pele contra pele trouxe uma nova dimensão ao toque — o mais velho era quente, sólido, intenso. E Kageyama, que sempre foi controlado, sentia-se à beira de perder qualquer freio.
Hinata o virou com habilidade, pressionando-o contra a lousa. Seus corpos colados, respirações entrecortadas. Ele deslizou os lábios até a orelha do mais novo, mordeu de leve, e então disse baixo:
— Você tem gosto de juventude perigosa.
E Kageyama... sentiu vontade de se entregar mais ainda.
Então, ele arfava contra a lousa, o coração batendo tão forte que podia jurar que Hinata conseguia sentir. As mãos do professor estavam por toda parte — firmes, experientes, precisas. Uma subia lentamente por baixo da camisa, sentindo cada linha tensa do abdômen jovem; a outra deslizava pelas costas até alcançar a curva da cintura, puxando-o mais ainda, colando seus quadris.
A fricção dos corpos já arrancava suspiros baixos, quase desesperados. O calor entre eles crescia como um incêndio mal contido, e cada toque parecia ampliar as chamas. Hinata deslizou os lábios pela clavícula exposta de Kageyama, marcando o caminho com beijos e mordidas suaves, até chegar ao ombro — onde mordeu com mais firmeza, arrancando um gemido contido.
— Isso — murmurou contra a pele —, quero ouvir sua voz.
Kageyama agarrou a nuca de Hinata, os dedos enterrados nos fios ruivos ligeiramente úmidos de suor. Seu corpo reagia instintivamente, procurando mais contato, mais pressão. A diferença de idade entre eles era sentida nos detalhes: no modo como o mais velho dominava o ritmo, no jeito seguro como explorava cada ponto sensível, enquanto ele próprio oscilava entre a entrega e a surpresa.
As mãos dele foram descendo, abrindo caminho pela calça de Kageyama com destreza calculada. Não havia pressa, apenas uma fome meticulosa, como se cada segundo daquele toque fosse construído para ser lembrado depois, em cada detalhe.
— Você é lindo assim — disse, a voz grave, os olhos baixos, assistindo o outro se desmanchar. — Tão jovem… e já tão perdido por mim.
Kageyama gemeu baixo, o corpo todo tenso, entregue. Ele não sabia mais onde começava ou terminava. Estava sendo despido — de roupa, de controle, de certezas. A cada nova investida de Hinata, sentia-se mais exposto, mais vivo.
O professor o virou de volta, puxando-o pelo pescoço para outro beijo, agora lento, molhado, profundo. Os quadris se moviam em sincronia, criando um atrito denso que arrancava suspiros abafados entre os lábios entreabertos.
A sala — antes um ambiente neutro, rotineiro — agora parecia outra coisa. Quase sagrada. Era ali que o proibido tomava forma. Que o corpo de um homem de quarenta anos se encontrava com a fome de um jovem de vinte e cinco, e ambos se perdiam no meio do caminho.
Hinata encostou a testa na de Kageyama, ofegante.
— Isso não vai parar por aqui — disse, mais pra si do que para o outro.
Kageyama fechou os olhos e sorriu, rouco:
— Eu não quero que pare.
— Você vai voltar ´pra casa como se nada tivesse acontecido? — Hinata perguntou com uma calma quase cruel.
Kageyama levantou os olhos, a expressão perdida entre prazer e confusão.
O professor sorriu. Tocou de leve o queixo dele e disse:
— Ou vai ficar pensando nisso toda vez que me ver dar aula?
O jovem estremeceu com o olhar ainda cravado sobre ele, quando acrescentou:
— Isso foi só o começo.
Hinata ainda mantinha uma das mãos espalmada na cintura de Kageyama, como se recusasse a deixá-lo sair do transe. Os lábios estavam vermelhos, inchados, e os olhos... famintos. Não havia sinal de arrependimento ali. Apenas um desejo ainda pulsando, mesmo após a entrega.
— Bem, você está tremendo — murmurou, com um meio sorriso, os dedos deslizando pelas costas do mais novo, até a base da espinha, onde pressionou com firmeza. — Isso foi demais pra você?
Kageyama sorriu de lado, desafiador, ainda com a respiração falha.
— Eu aguento bem mais do que isso, professor.
Hinata riu, rouco, e mordeu de leve o queixo dele, como se a ousadia pedisse castigo.
— É mesmo? — sussurrou, os olhos brilhando com algo entre divertimento e desejo renovado. — Então por que parece que vai cair se eu te soltar?
Kageyama respondeu empurrando-o levemente contra a lousa agora fria. O contraste do toque gelado com o calor do corpo de Hinata fez ambos soltarem um suspiro quase sincronizado. O rapaz se inclinou, colando o peito nu ao do professor, e sussurrou no ouvido dele:
— Eu sou jovem, recupero-me rápido, senhor.
A provocação incendiou de novo algo nos olhos de Hinata. Ele segurou o queixo do outro entre os dedos, firme, e o obrigou a encará-lo de perto.
— Se continuar falando assim, a gente vai passar a noite inteira aqui — rosnou baixo, com a voz mais grave, densa. — E eu juro que não vou pegar leve da próxima vez.
— Eu não quero leveza — respondeu Kageyama, sem hesitar.
— Que garoto mal, Tobio — Hinata sussurrou. — Ainda estamos em sala de aula, provocar-me é irresponsável da sua parte.
— É mesmo — respondeu, lambendo os lábios. — Mas eu já passei da idade de me importar com regras.
Hinata sorriu. Aquele sorriso de canto, perigoso, que fazia o chão parecer instável sob os pés. A mão dele subiu pelas costas de Kageyama, percorrendo sua espinha com a palma aberta, até a nuca e apertou ali, firme, como quem afirma posse.
— Gosto quando você finge que ainda tem controle.
Então, beijou-o de forma lenta e urgente, puxando-o para perto e dando-lhe mais uma rodada do que queria.
[...]
A volta para casa naquele dia foi com o acontecimento da sala de aula martelando em sua cabeça, mesmo após algumas horas que se despediram, Kageyama ainda sentia o toque. O cheiro de Hinata – a mistura de colônia suave e suor – ainda parecia preso à pele dele, misturado ao gosto de culpa e ao prazer entalado no fundo da garganta.
Quando estava sentado na própria cama, a luz do abajur iluminava só metade do quarto. Tinha tomado banho, esfregando o corpo como se isso pudesse apagar o que fizeram. Mas não apagou. Nunca apagaria. Era impossível esquecer as marcas vermelhas no pescoço, os arranhões finos nas costas, as coxas doloridas e aquele vazio quente que ficava depois que Hinata ia embora.
Então a manhã chegou cedo demais.
Kageyama acordou com a luz atravessando as frestas da cortina fina de seu quarto, cortando seu rosto com faixas douradas que não aqueciam — apenas lembravam que o dia tinha começado e que a noite anterior não havia sido um sonho.
Ele estava deitado de lado, ainda parcialmente vestido, o corpo dolorido nos lugares certos. Lugares que Hinata havia tocado com intensidade, com vontade. Passou a mão pelo rosto, os olhos ainda pesados, como se carregassem mais do que apenas o cansaço. Havia uma mistura confusa ali: satisfação, sim, mas também uma pontada incômoda que não sabia exatamente onde encaixar.
O celular vibrava na mesa de cabeceira, insistente. Três mensagens de um grupo da faculdade, uma de um amigo, e outra — sem identificação — com apenas um “Bom dia.”
Hinata.
Kageyama leu e releu a mensagem. Nenhum emoji. Nenhuma pergunta. Nenhuma pista do que viria depois.
Sentou-se na cama, sentindo o frio da manhã no corpo quente. Passou os dedos pela marca roxa que começava a surgir na base do pescoço, uma lembrança sutil da noite passada. Uma parte dele queria sorrir. A outra… só queria sumir.
No corredor do campus, os passos ecoavam de forma irritante. Ele reconhecia o caminho com os olhos fechados, mas naquele dia tudo parecia mais exposto. Cada rosto que cruzava parecia saber. Cada olhar parecia um espelho do seu desconforto. E então, no meio do hall principal, ele o viu.
Hinata estava encostado à parede ao lado da sala dos professores, falando com outro colega — rindo de algo. Estava arrumado, impecável como sempre, e parecia não carregar nenhum traço da noite anterior no corpo ou no olhar. Era como se nada tivesse acontecido.
Ou como se aquilo… fosse rotina para ele.
Kageyama hesitou. Pensou em passar direto, fingir que não viu, fingir que nada dentro dele ainda tremia com aquele sorriso. Mas Hinata olhou. Os olhos se encontraram por um segundo. Um breve, maldito segundo. E, então, veio o gesto: um quase imperceptível levantar de sobrancelha, seguido de um sorriso de canto.
Privado. Distante. Perigoso.
Kageyama desviou o olhar e seguiu em frente, o coração acelerado demais para aquela hora da manhã.
Havia algo quebrado ali. Ou solto. Ou prestes a desmoronar — ele só não sabia exatamente o quê.
Sabia que aquilo não tinha acabado.
Nem de perto.
Contudo, o dia seguiu, mas Kageyama não.
Sentado ao fundo da sala, encarava o caderno aberto à sua frente como se as páginas em branco pudessem absorver o que sentia. A aula acontecia ao redor dele — vozes, passos, a voz do professor ao microfone — mas tudo soava abafado, distante, como se estivesse debaixo d’água.
Ele não conseguia parar de lembrar.
A maneira como Hinata sussurrava seu nome entre os beijos. O calor das mãos dele apertando sua cintura. O jeito como seu corpo tinha respondido sem hesitar, como se tivesse esperado por aquilo muito antes de perceber.
Mas o que fazia o estômago de Kageyama revirar não era o que tinham feito. Era o que vinha depois.
O silêncio.
A forma quase casual com que Hinata seguira com o dia, como se a noite anterior tivesse sido só... mais uma. Como se ele, Kageyama, fosse só mais um.
“Você sabia no que estava se metendo,” ele repetia mentalmente, tentando se convencer. Tentando apagar aquela pontada baixa no peito — de frustração, talvez. Ou de expectativa.
Ao sair da sala, foi direto ao banheiro. Precisava de um segundo para respirar, para se recompor. Molhou o rosto com a água fria, encarando o próprio reflexo no espelho. Havia algo diferente ali. Um brilho nos olhos que não sabia se era vergonha ou desejo mal resolvido.
“Você é um adulto”, murmurou para si mesmo. “Foi uma escolha sua.”
Porém, não parecia suficiente.
E então, como se o destino tivesse um senso de humor cruel, seu celular vibrou no bolso. Uma nova mensagem.
Hinata: Preciso falar com você. Sozinho. No fim da aula. Na mesma sala de ontem. Você sabe qual.
O coração de Kageyama falhou um compasso.
— Merda — ele sussurrou.
Sim. Ele sabia exatamente qual. E o corpo dele respondeu antes mesmo da mente dar permissão.
A sala estava vazia, como na noite anterior, mas o clima era outro.
O sol já se punha, tingindo o céu com tons de laranja e azul acinzentado. As sombras eram mais longas, mais sólidas. Kageyama entrou devagar, como se estivesse invadindo um lugar sagrado ou perigoso. Seu coração batia alto demais. As mãos, fechadas em punhos dentro dos bolsos.
Hinata estava de pé, encostado na mesa, de braços cruzados. A expressão não era a mesma da noite passada. Nada de sorrisos de canto. Nada de provocação. Apenas firmeza e algo que parecia pesar.
— Fechou a porta? — perguntou, sem tirar os olhos dele.
Kageyama assentiu em silêncio, o estômago em nós.
Hinata respirou fundo e soltou os braços, os passos lentos até parar à frente dele.
— Eu não vou enrolar — começou, a voz baixa, controlada. — O que aconteceu ontem... foi intenso. E real. Não vou fingir que não quis. Não vou mentir que não pensei nisso antes.
Kageyama mordeu o lábio inferior, tenso. Sentia que aquilo era uma despedida — ou uma bifurcação.
— Mas eu tenho 42 anos, Kageyama. Sou professor. E você... você tem 25. Está começando a vida. Não sei o que você procura nisso tudo, mas eu preciso deixar uma coisa clara — sua voz endureceu um pouco. — Eu não estou aqui pra brincar. Não sou um caso fácil. E não vou fingir que posso agir como se nada tivesse acontecido.
Kageyama quis dizer algo, mas Hinata ergueu a mão, pedindo silêncio.
— Se isso, pra você, foi só uma noite... Se foi só sobre tesão, curiosidade ou qualquer impulso que vai passar amanhã... — Ele respirou fundo — Então é melhor que termine aqui. Agora. Sem mágoas. Sem expectativas. A gente segue em frente. Você vive sua vida, e eu, a minha.
O silêncio caiu pesado.
Hinata o olhava com seriedade, mas não havia frieza. Era cuidado. Era maturidade. Era alguém tentando ser justo antes que as coisas fugissem do controle.
— Mas se não foi — completou, mais baixo agora —, então preciso que você diga. Preciso que você entenda no que está se metendo. Porque eu não vou me esconder. Nem quero você pela metade.
Kageyama sentia o coração disparado, as palavras presas na garganta. Olhou nos olhos dele, como se procurasse alguma brecha, algum sinal de dúvida. Mas tudo que encontrou foi certeza.
E, pela primeira vez em muito tempo, alguém colocava os termos sobre a mesa com tanta clareza. Sem chantagem emocional. Sem promessas vazias. Só... verdade.
Ele engoliu em seco.
— Eu não sei o que estou procurando — confessou, com a voz rouca. — Mas... não foi só uma noite. Não pra mim.
Hinata o observou por um segundo mais longo. E então assentiu devagar, a expressão suavizando um pouco.
— Então vamos com calma. Sem mentiras. Sem esconderijos.
Kageyama respirou fundo, sentindo o nó no peito se desfazer aos poucos.
— Tudo bem — respondeu.
Hinata o olhou mais uma vez, mesmo que não tenha sorrido, havia algo nos olhos dele — um calor discreto, uma promessa silenciosa. Ali, naquele silêncio que se seguiu, o jogo virou relação. E isso era só o começo.
O silêncio ainda preenchia o espaço entre eles, mas havia mudado de textura. Já não era o peso de uma possível despedida, estava mais para uma tensão elétrica prestes a se desfazer em algo mais leve, mais vivo. Kageyama se mexeu no lugar, inquieto. As mãos não sabiam onde ficar, os olhos não conseguiam mais encarar o chão.
Dado aos termos, e a promessa de fazer algo calmo e sem mentiras, seu coração estava martelando contra o peito. Tantas coisas passavam na sua cabeça, indo desde os primeiros olhares e sinais de interesse até aquela noite em que tudo explodiu, então engoliu em seco com o pensamento de que precisava dizer algo mais. Qualquer coisa para demonstrar sua sinceridade.
— É que... — ele começou, dando um passo hesitante à frente — Eu nunca vivi algo assim antes. Não desse jeito. Não com alguém como você.
Hinata arqueou uma sobrancelha.
— Alguém como eu?
— Alguém que sabe o que está fazendo, experiente. — Kageyama riu de nervoso, coçando a nuca. — Que fala com tanta clareza, com tanta... firmeza. Eu só... eu só fui. Joguei-me. E agora tô tentando entender como aterrissa, sabe?
Hinata soltou uma pequena risada pelo nariz, cruzando os braços novamente, mas agora havia um brilho no olhar.
— Você parece mais novo do que é, às vezes.
— E você parece mais possível do que deveria ser — Kageyama retrucou.
Hinata ergueu os olhos para ele, um canto da boca se levantando, mas não disse nada. Apenas observava. O rapaz se aproximou mais um pouco, como quem testa os limites.
— Mas eu quero tentar. Mesmo sem saber direito o que isso significa. Mesmo com medo de fazer tudo errado. — Ele sorriu, os olhos firmes agora. — E... mesmo se você for mais lento, mais racional, mais adulto do que eu consigo ser... eu não quero perder isso.
Hinata ficou em silêncio por um momento, como se estivesse digerindo cada palavra. E então deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.
— Isso não é um jogo pra mim, Tobio.
O nome dito assim, em voz baixa e direta, fez a pele de Kageyama arrepiar.
— Eu sei — respondeu quase num sussurro. — Mas mesmo que não seja um jogo... ainda pode ser divertido, né?
Hinata riu. Dessa vez, abertamente. Uma risada curta, mas sincera.
— É isso que eu preciso tomar cuidado com você. Com essa energia.
— E eu preciso que você não vá embora toda vez que eu me empolgar demais.
Hinata balançou a cabeça, como quem aceita o desafio.
— Vamos com calma, mas vamos.
Kageyama não conseguiu conter o sorriso — largo, juvenil, um pouco idiota até. Porém, real.
— Eu sou bom com começos, sabia? Péssimo com meios, mas excelentes começos.
— Então me prova — Hinata respondeu, com um olhar que agora carregava outra temperatura.
Kageyama não pensou duas vezes. Foi até ele e, dessa vez, o beijo veio sem hesitação. Era menos urgente do que na noite anterior, mais consciente. Como se dissesse "eu quero continuar".
E Hinata respondeu.
Com as mãos firmes nos ombros dele, puxando-o um pouco mais perto, como se dissesse "então vamos ver até onde vai".
O beijo se prolongou, morno e firme, sem pressa. Diferente da pressa da noite anterior, agora era uma confirmação. Kageyama se entregava com aquela intensidade jovem, o corpo inteiro se inclinando como se quisesse se fundir. As mãos ansiosas pousaram nos quadris de Hinata, puxando-o mais para perto, como se só assim o mundo fizesse sentido.
Hinata deixou, mas conduziu. Suas mãos subiram devagar pelo peito do mais novo, pressionando-o levemente até afastá-lo, só o suficiente para olhá-lo nos olhos. A respiração entre os dois era quente, ofegante. O toque dos narizes quase se encontrava de novo.
— Ei — disse baixo. — Calma. A gente tem tempo.
Kageyama mordeu o lábio, as pupilas dilatadas.
— Mas eu te quero agora.
— Eu sei que quer. — Hinata sorriu de canto, a voz carregada de paciência e algo que beirava ternura. — Mas quero te ensinar outra coisa também.
Kageyama piscou, curioso. Ainda tomado pelo desejo, mas atento.
— O quê?
Hinata passou os dedos devagar pelo maxilar dele, pela curva da orelha, como se estivesse mapeando.
— Que esperar também pode ser parte do prazer.
Kageyama engoliu em seco, tentando conter o arrepio que desceu pela coluna.
— Você é cruel.
— Sou cuidadoso — Hinata corrigiu, firme. — Isso que a gente tá fazendo... é mais do que só vontade. E se a gente só correr, a gente se queima antes de saber o gosto real.
Kageyama não sabia o que responder. Aquilo era novo. Ser desejado e, ao mesmo tempo, contido. Ser guiado sem ser diminuído.
Hinata se afastou um passo, ajeitou a gola da camisa do outro com um gesto quase automático, e soltou um suspiro.
— Quero que você vá pra casa hoje com isso no corpo. Com essa vontade. Com a lembrança. — Olhou nos olhos dele. — E se amanhã você ainda quiser, a gente continua.
Kageyama estava quieto. O peito subia e descia rápido, mas não era mais só por excitação, pois era emoção, era confusão, era um início diferente de qualquer outro que já teve.
— Você sempre age assim? — perguntou, num tom quase brincalhão.
— Não — Hinata respondeu, sem hesitar. — Só quando é com alguém que me interessa de verdade.
Silêncio. Um sorriso lento se formou no rosto de Kageyama, entre surpreso e derretido.
— Então, amanhã — disse, firme.
Hinata assentiu.
— Amanhã.
E então ele virou-se para ir, deixando o espaço com a mesma presença silenciosa e poderosa com que entrou.
Kageyama ficou parado por um momento, o calor ainda pulsando sob a pele, a mente fervendo. Depois, saiu também. Mas dessa vez, o passo era outro. Mais leve. Mais ansioso.
Amanhã parecia longe demais, no entanto, quando chegou, foi espetacular e apenas o primeiro de muitos que Kageyama experimentaria em sua vida, mas quanto mais os dias avançavam, transformando–se em semanas e, com isso, meses, aprendeu aos poucos o peso de um relacionamento saudável. Suas experiências passadas não o ajudaram tanto e precisou reconsiderar muitos comportamentos e pensamentos para que pudesse fazer funcionar. No fundo, Kageyama tinha receio da manipulação e das chantagens, mas Hinata não era assim.
Conversar com ele era sempre claro e certo, e suas palavras nunca tinham segundas intenções, a não ser quando estavam sozinhos e se provocando até chegarem ao ponto de avançarem um no outro. Então, as escapadas na sala de aula diminuíram, dando espaço para uma relação mais privada. Kageyama aprendeu a separar a relação na faculdade e em casa, isso o frustrava algumas vezes por quão gostoso Hinata ficava naquelas camisas sociais, mas, com o tempo, aprendeu que era bem mais que isso.
Contudo, a primeira vez que conversaram sobre isso foi no apartamento do Hinata, onde carregava um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som suave da chaleira elétrica ao fundo. Lembrava como ainda era cedo. O tipo de manhã em que o mundo lá fora parecia não existir, apenas os dois, e a cidade embalada num ritmo lento e íntimo.
Kageyama estava sentado no sofá, vestindo uma camiseta larga demais que claramente não era dele, com os cabelos ainda úmidos da ducha. Observava Hinata preparar o café com a concentração quase cômica de quem leva tudo a sério até o ato de medir a quantidade exata de pó.
— Você é muito metódico, sabia? — começou, encostando o queixo no braço do sofá.
Hinata ergueu uma sobrancelha sem virar o rosto.
— E você ainda não aprendeu a usar crase. Estamos quites.
Kageyama sorriu. A resposta foi direta, como sempre, mas tinha aquele toque de familiaridade que ele estava começando a decifrar como carinho.
Hinata serviu duas xícaras e se sentou ao lado dele, com a postura de sempre: coluna ereta, olhos atentos, como se não soubesse relaxar completamente. Havia algo nele que parecia carregar o mundo, não de forma dramática, mas responsável. Como se ele estivesse sempre prevendo o próximo passo.
— Tobio... — começou, o tom firme. — A gente precisa ser realista quanto a isto aqui.
Kageyama virou-se um pouco, com o coração disparado no peito. Não era a primeira vez que Hinata dizia algo assim, mas naquele momento, com a luz da manhã suavizando as rugas discretas em seus olhos e a voz baixa como se pisasse em terreno sensível, soava diferente.
— Eu gosto de você. Gosto mesmo. — O mais velho respirou fundo. — Mas eu sou seu professor, você ainda tá na graduação, e o que a gente tá fazendo... mMesmo com todo cuidado... pode acabar com tudo. Com a sua reputação. Com a minha carreira.
Kageyama sentiu o peso das palavras. Mas não fugiu.
— Eu sei, mas eu não sou um moleque — disse, firme, encarando-o. — E isso não é só uma aventura pra mim.
Hinata o observou em silêncio por um tempo longo demais. Como se pesasse cada palavra. Como se medisse o quanto aquele garoto, não mais um menino, mas ainda não um homem completamente formado, podia lidar com as consequências.
— Mesmo assim — Hinata disse, mais baixo —, eu preciso ser claro. Não vou abrir mão do meu rigor. Dentro da sala de aula, você é só mais um aluno. Vai tirar nota baixa se merecer, e eu vou te cobrar como cobraria qualquer outro.
— Já percebi — Kageyama murmurou, revirando os olhos. — Aquela prova de História Moderna foi praticamente um massacre.
— Bem-vindo ao terceiro período, amor — o homem respondeu com um meio sorriso.
Havia um tipo de ternura oculta naquele jeito disciplinado. Uma ternura que não era dita, mas estava ali: no modo como Hinata preparava o café, na forma como sabia quando calar, e até no olhar severo com que o corrigia em aula.
Kageyama sabia que aquela relação não era simples, entretanto, era real e ele estava disposto a carregar o peso disso, mesmo sem entender tudo ainda. Contudo, as coisas que estiveram funcionando tão bem nos últimos meses, não poderiam simplesmente permanecer em completa paz.
Tudo aconteceu após um período de aulas, Kageyama ainda guardava os cadernos na mochila quando percebeu alguém se aproximando. Não precisou erguer os olhos para saber quem era, pois o perfume era inconfundível, e a postura relaxada também. Oikawa sempre carregava aquele ar de quem tinha o controle da situação, como se estivesse numa competição invisível que só ele conhecia as regras.
— Ei, Kageyama. Tá com um minuto?
A voz veio tranquila, quase casual. Kageyama assentiu devagar, curioso. Oikawa raramente puxava conversa, e quando o fazia, era sempre com um sorriso que parecia esconder mais do que dizia. Ele se sentou à frente, virado na cadeira para encará-lo. Kageyama sentiu o olhar dele vasculhando algo além da superfície. E já ficou em alerta.
— Eu tava pensando... A gente estuda junto há um tempo, mas quase nunca conversa. Você é bem focado, né?
Era uma daquelas perguntas que não precisavam de resposta. Kageyama apenas fez um gesto breve com a cabeça, tentando entender o que Oikawa queria, exatamente.
— Acho que sim.
— Gosto disso — ele disse, e aquilo soou mais pessoal do que o esperado. Depois de uma pausa curta, continuou: — E, bem... já que você parece ser direto, vou ser também.
O estômago de Kageyama virou um pouco. Ele não gostava de rodeios, mas algo no tom de Oikawa o deixava inquieto. Ainda assim, ficou em silêncio, esperando.
— Você namora alguém?
A pergunta o pegou desprevenido, mas ele respondeu rápido.
— Não.
Oikawa abriu um sorriso satisfeito. Kageyama já sabia onde aquilo ia dar.
— E... você se interessa por caras?
A pergunta ficou suspensa no ar por um momento. Kageyama hesitou, mas não porque tinha vergonha da resposta. Era só que, desde aquela noite, desde os dedos firmes de Hinata em sua cintura e o olhar sério que o despia mais do que qualquer gesto, ele não tinha pensado em mais ninguém.
— Sim.
Ele viu o brilho nos olhos de Oikawa, e por um instante teve vontade de cortar o assunto ali, mas não era justo, não com alguém que estava sendo tão direto.
— Porque eu gosto de você — Oikawa disse, com naturalidade. — Pensei que seria mais fácil perguntar do que ficar criando mil teorias. A gente podia sair qualquer dia desses. Um café, sem compromisso. Só... conversar.
A oferta era gentil. E se fosse em outro momento, em outra vida, talvez ele tivesse aceitado, mas agora, a imagem de Hinata lhe vinha fácil demais. O jeito como ele segurava a caneta ao corrigir uma prova. O tom divertido com que dizia que Kageyama errava crase, mesmo depois de três semestres. A firmeza com que falava sério, o calor com que sabia tocar.
Além de que, trocá-lo nunca passou pela sua cabeça pela relação tão íntima e respeitosa que tinham, sequer tinha espaço para dúvidas e quando as tinha, sabia que não precisava temer ou pisar em ovos para resolver os mal entendidos, então com todas essas questões, ele não estava "livre".
Nem emocionalmente, nem moralmente.
— Eu agradeço, Oikawa — disse, sem desviar os olhos. — Mas... não tô disponível no momento.
Oikawa piscou uma vez, rápido, como se não esperasse exatamente aquela resposta. A decepção durou um segundo, logo substituída por um sorriso discreto.
— Entendi. Sem problemas. Só achei que valia tentar.
Kageyama assentiu. Teve vontade de dizer algo mais, como explicar, talvez. Mas o que diria? "Estou me envolvendo com o nosso professor e isso complica tudo"? Não podia, ainda não, além de que não precisava, mesmo que quisesse pôr alguma moral e respeito pela sua tentativa. Talvez, por isso, tudo que poderia oferecer era sua sinceridade sobre sua disponibilidade.
— Valeu pela sinceridade.
Oikawa se levantou, ajeitou a alça da mochila e lançou um último olhar por cima do ombro.
— Se mudar de ideia, eu ainda gosto de café. Até mais, Kageyama.
Ele o viu sair com aquela confiança habitual, mas havia algo no jeito como os ombros estavam tensionados que entregava mais do que ele queria mostrar. Kageyama soltou um suspiro lento, apoiando os cotovelos sobre a mesa. Não era fácil esconder o que sentia, mas também não podia correr o risco de expor Hinata. Não agora.
E o pior, era saber que aquele não seria o último obstáculo, mas sim só o começo.
Entre o barulho dos marcadores de quadro branco que riscavam os minutos no fim da aula, Kageyama tentava acompanhar o ritmo da fala de Hinata, mas seu cérebro estava em outra frequência. Nas últimas semanas, entre trabalhos e aulas, Oikawa se tornou uma dor de cabeça constante, seguindo-o de um lado para o outro com um sorriso no rosto.
Parecia ter se tornado seu objetivo pessoal deixá-lo o mais desconfortável possível enquanto Hinata falava sobre movimentos históricos com a firmeza de sempre, os gestos controlados, mas os olhos, de vez em quando, pousavam em Kageyama por tempo demais. Era um jogo perigoso. Disfarçado sob palavras acadêmicas, aquele olhar dizia tudo o que suas mãos fariam mais tarde.
Isso bagunçava sua cabeça, deixando-o com mais do que conseguia lidar.
A mochila ainda nem tinha tocado o chão quando Kageyama ouviu a voz animada nas suas costas.
— Tobiooo~! Tá ocupado agora?
Ele suspirou antes de se virar. Oikawa estava encostado no batente da sala, expressão ensaiadamente casual e um sorriso colado no rosto.
— Tô, sim — respondeu direto, nem tentando disfarçar o desânimo.
— Jura? Sempre ocupado. Que tal tirar uns minutinhos pra tomar um café comigo? Ou... um suco, sei lá. Prometo não falar de nada chato.
— Não posso, Oikawa.
— Tá. Mas tipo... nunca pode? Ou é só hoje?
Kageyama o encarou, em silêncio. Oikawa apenas sorriu mais, como se esperasse um vacilo, uma brecha. Ele não tinha nem disfarçado que não aceitou a recusa da última vez. Continuava aparecendo do nada, puxando assunto, sempre forçando espaço numa rotina que já era pesada demais.
— Eu só não quero, ok? — disse, mais ríspido do que planejava.
Por um segundo, Oikawa pareceu sentir o golpe. A expressão dele oscilou entre confusão e orgulho ferido, o sorriso trêmulo nos lábios, mas rapidamente se recompôs.
— Tá, beleza... Desculpa aí, não quis forçar. É só que você parece tão... sozinho, às vezes. Achei que podia ser legal.
Kageyama apenas balançou a cabeça e voltou a arrumar os livros, sem responder. O colega ainda ficou ali por alguns segundos, parado, como se esperasse que ele mudasse de ideia. Quando percebeu que não teria nada, virou nos calcanhares e foi embora, deixando um rastro de incômodo atrás de si.
Mais tarde, sozinho em seu quarto, a camisa ainda aberta e o cabelo bagunçado após mais um encontro clandestino com Hinata, ele se jogou na cama, os olhos presos no teto. O cheiro do outro ainda em sua pele, os dedos dele ainda marcando de leve sua cintura, o gosto do beijo ainda fresco na memória. Tudo nele dizia que aquele homem de quarenta e dois anos deixava-o em pedaços, da melhor forma.
Porém, então, vinha o som da voz do Oikawa ecoando no fundo da cabeça, aquela insistência mal disfarçada de charme. Ele já não era bom com palavras, muito menos com limites sociais sutis.
Kageyama passou as mãos pelo rosto. Estava se apaixonando por um professor exigente e maduro com quem mantinha um relacionamento secreto e ainda precisava lidar com um colega inconveniente que não sabia recuar. Estava ficando difícil demais manter tudo sob controle.
Nos dias seguintes, as olheiras de Kageyama começaram a se aprofundar. Primeiro vieram as noites mal dormidas, depois a dificuldade de se concentrar nas aulas e, agora, mesmo as pequenas coisas, como lembrar onde havia colocado um caderno ou deixava seu molho de chaves, exigiam esforço demais.
Tudo parecia mais pesado.
Hinata notou primeiro o silêncio. Kageyama não era exatamente falante, mas havia uma diferença entre o silêncio confortável e o retraimento sufocante. Nas últimas vezes em que se viram fora do campus, ele parecia ali só pela metade. O corpo presente, os olhos longe.
Naquela noite, depois de um encontro morno e palavras contadas nos dedos, Hinata cruzou os braços, o olhar sério.
— ´Tá na hora de você me dizer o que tá acontecendo.
Kageyama, sentado à beira da cama, demorou a responder. Os dedos apertavam o tecido da calça com força. A liberdade que havia no relacionamento era o suficiente para que colocasse tudo para fora, mas uma pequena parte sua não queria ser visto como um garotinho imaturo que não consegue lidar com os próprios problemas.
— Eu tô bem.
— Você não tá. — Hinata se aproximou, ajoelhando-se à sua frente, tentando encontrar seus olhos. — Tobio, você mal comeu hoje. Você tá pálido, com febre, e parece que vai desmaiar a qualquer segundo. Isso não é "tô bem".
Kageyama abaixou a cabeça, os ombros tensos como se estivessem sustentando o mundo. Quando falou, sua voz saiu baixa, quase sussurrada:
— É muita coisa. As provas, os trabalhos... e tem um colega, Oikawa, que não para...
Hinata ficou em silêncio por um instante. Depois, com cuidado, pousou uma mão no joelho dele.
— O que ele fez?
— Ele não fez nada. Não de um jeito que eu possa reclamar oficialmente. Mas ele fica por perto, aparece sempre. Sempre tenta forçar conversa, senta do meu lado, faz piadas, comenta da minha aparência. Já disse que não quero nada, mas ele finge que é brincadeira. Como se... não se importasse com o que eu digo.
Hinata se levantou devagar, a expressão agora completamente fechada.
— Isso é assédio, Tobio. Mesmo que ele não encoste um dedo em você.
Kageyama apertou os olhos, frustrado.
— E o que eu vou fazer? Ele vai dizer que é só brincadeira. Que eu sou paranoico. Que estou estressado demais. E talvez eu esteja mesmo.
Hinata ficou em silêncio por alguns segundos, antes de se sentar ao lado dele na cama.
— Você tem razão em estar estressado, mas não tá sozinho. Você não precisa aguentar isso calado.
Kageyama virou o rosto em direção ao professor, finalmente encarando seus olhos. Novamente aquilo que ele temia: o medo de decepcionar. De ser fraco. De não aguentar o tranco.
— Eu não quero que isso atrapalhe o que a gente tem.
Hinata arqueou uma sobrancelha.
— A gente só tem alguma coisa porque você me enfrenta até nas discussões mais idiotas. Você acha que eu me apaixonaria por alguém que desiste fácil?
Um pequeno sorriso ameaçou surgir nos lábios de Kageyama, mas se dissolveu rápido, engolido pela onda de cansaço que o atravessava. Ele tombou de leve, o corpo encostando no ombro de Hinata. O professor não se moveu, apenas deslizou o braço ao redor dele.
— Vamos fazer o seguinte — disse Hinata, depois de um tempo. — Amanhã você não vai pra aula. Vai descansar, comer direito. Se precisar, eu mesmo vou levar uma sopa e uma pilha de filmes antigos. A gente resolve o resto depois.
— Vai me dar falta?
Hinata sorriu.
— Claro que vou. E depois, vou te cobrar uma redação sobre a origem dos conflitos napoleônicos. Mas só depois de você melhorar.
Kageyama fechou os olhos, deixando-se afundar naquele calor e naquela presença firme. A tensão ainda estava ali, pulsando sob a pele, mas, com Hinata, ao menos, ele podia respirar.
Ainda assim, sabia que se algo não mudasse logo, o corpo ia cobrar e talvez com juros altos, mas Kageyama já estava exausto.
A semana parecia uma espiral sem fim de aulas, provas, noites mal dormidas e encontros às escondidas com Hinata que, por mais que fossem o único alívio real que ele tinha, também exigiam dele um esforço de manter tudo em segredo. E agora, Oikawa. Risonho, persistente, envolvente... e cada vez mais sufocante.
Ele achou que tinha se escondido bem. Uma das salas do fundo do campus, desocupada, silenciosa. Sentou-se e deixou o corpo despencar sobre a carteira, o rosto afundado nos braços. Só precisava de um tempo. Um único momento em que não estivesse sendo observado, tocado ou desejado por alguém de quem não queria nada.
Todavia, então a maçaneta girou.
Kageyama ergueu o rosto devagar, já com o estômago travando.
— Aí está você — disse o colega , entrando com passos leves e fechando a porta atrás de si com um clique suave, quase perverso. — Tava te procurando desde a aula da manhã.
— Eu quero ficar sozinho — Kageyama disse sem rodeios, mas a voz saiu fraca, pastosa do cansaço.
— E eu só quero conversar. A gente nunca conversa de verdade. Você sempre foge — continuou, aproximando-se, como quem ignora qualquer limite de espaço pessoal. — Você é sempre tão… duro. Fechado. Mas acho que é só fachada.
Kageyama recuou um pouco, sentindo o encosto da carteira contra a barriga.
— Vai embora.
— Não. Eu cansei de esperar você parar de fingir — Oikawa murmurou. E então o fez: esticou a mão e passou os dedos pelo colarinho da camisa de Kageyama, deixando os nós dos dedos roçarem de propósito contra a pele do pescoço dele. — Você treme quando eu chego perto. Fica sem ar. Eu vejo.
Kageyama agarrou o pulso dele com força e o afastou.
— Para.
Oikawa riu, mas era um riso nervoso, contido demais.
— Você pode enganar os outros, mas eu te leio fácil. Já pensou em como seria se você só… deixasse acontecer? Ninguém precisa saber. — Ele se inclinou mais, e a voz veio baixa, carregada de malícia. — Eu posso ser muito melhor do que você imagina.
— Eu já disse pra parar! — Kageyama empurrou-o com mais força dessa vez, fazendo Oikawa dar dois passos para trás.
A tensão se cortava no ar como lâmina. Os olhos de Kageyama queimavam.
Oikawa pareceu se conter por um momento… e então ergueu o queixo com desdém.
— Isso tudo é medo, não é? Medo de sentir. Você se finge de durão, mas por dentro tá implorando por alguém que te toque de verdade.
Foi quando Kageyama atravessou a sala em dois passos e agarrou a gola da camisa de Oikawa, empurrando-o contra a parede.
— Se você encostar em mim de novo sem minha permissão, eu juro que vai se arrepender. Eu não sou seu brinquedo. Nem seu prêmio de consolação. Eu nunca vou querer você.
Oikawa abriu a boca, talvez para dizer algo, mas a expressão nos olhos de Kageyama calou qualquer tentativa. Por fim, ele soltou um riso baixo, amargo.
— Alguém já deve estar comendo você direitinho pra você tá tão nervosinho assim.
O silêncio que se seguiu foi como uma faca.
Kageyama soltou a camisa dele com um empurrão final e saiu da sala com os punhos cerrados, respirando como se tivesse corrido uma maratona. Seu corpo tremia inteiro de raiva, de nojo, de exaustão. E mais do que nunca, sabia que aquilo não ia acabar ali, então precisava encerrar de uma vez.
Contudo, mesmo em meio a toda sua ansiedade, as palavras de Hinata ressoavam em sua mente: “Você não precisa aguentar isso calado” e não precisava lidar sozinho.
Algumas horas depois, no apartamento de Hinata, o silêncio entre eles não era incômodo. Estavam sentados lado a lado no sofá, a caneca de chá nas mãos de Kageyama ainda intocada. As mãos dele tremiam levemente, embora tentasse disfarçar. Hinata, ao lado, o observava com calma, postura ereta, olhar firme, mas um músculo pulsava forte em sua mandíbula.
— Você não é obrigado a me contar tudo — Hinata falou, por fim, com a voz baixa e contida. — Mas se quiser... estou aqui. E nada do que você disser vai mudar o que eu sinto.
Kageyama respirou fundo. Os dedos apertaram com mais força a caneca.
— Ele... Oikawa. Ele me seguiu até uma das salas vazias. Tava me procurando. E… passou dos limites. Tentou me tocar. Falou coisas, insinuações. Eu disse que não, várias vezes, mas ele não... escutava.
Hinata fechou os olhos. Por dentro, estava fervendo. Mas por fora, permaneceu calmo.
— Você quer que eu vá até ele? — perguntou com um tom firme demais.
— Não — Kageyama respondeu rápido. — Não quero que isso vire algo entre vocês. Não quero escândalo. Só... não quero mais olhar pra ele todos os dias como se nada tivesse acontecido.
— Então a gente faz isso direito — Hinata disse. — Vamos à reitoria. Você não vai estar sozinho. Eu vou com você. E esse idiota vai enfrentar as consequências que merece. Isso não é só sobre você, Tobio. É sobre proteger outros também. Esse tipo de comportamento precisa acabar.
Kageyama assentiu devagar, com os olhos marejados. Mas havia alívio em seu rosto, mesmo que discreto.
Hinata o puxou gentilmente para mais perto. Kageyama deixou-se cair contra ele, o rosto encostando no ombro do outro homem. Ficaram assim por um tempo, o calor do corpo de Hinata sendo mais eficaz do que qualquer conforto verbal.
— Sabe… — murmurou, com aquele tom levemente provocador que só usava quando já sabia que Kageyama estava melhorando. — Não é porque você é meu aluno que eu vou pegar leve nas provas, tá? Essa semana tem leitura de quinze páginas e uma análise crítica. Quero tudo no prazo.
Kageyama deu um meio riso abafado contra o ombro dele.
— Idiota — resmungou, mas havia um brilho diferente nos olhos.
— Mas… — Hinata o empurrou levemente, só para poder olhar em seu rosto. — No que diz respeito ao que você é pra mim fora da sala de aula… eu não vou deixar que ninguém te toque desse jeito de novo. E também não vou deixar que isso apague o quanto você é meu.
A mão de Hinata escorregou até a cintura de Kageyama, puxando-o para o colo com naturalidade. Kageyama deixou-se levar, os joelhos apoiando-se ao redor das pernas dele, as mãos segurando os ombros firmes.
— Você precisa lembrar quem é que te deseja de verdade — murmurou contra sua pele. — Com respeito. Com fome. Com carinho.
Os beijos vieram então: lentos, seguros, carregados de intenção. Cada toque era uma reivindicação silenciosa, mas gentil — uma forma de resgatar Kageyama do sentimento de vulnerabilidade. Não era sobre posse. Era sobre reafirmar o espaço seguro que eles tinham juntos.
A mão de Hinata deslizou por baixo da camiseta dele, sentindo o calor da pele, os arrepios que surgiam sob seus dedos.
— Vamos com calma hoje — ele sussurrou, entre beijos no pescoço de Kageyama. — Só o suficiente pra você lembrar que o seu corpo é seu. E que, se você me der, eu vou cuidar dele como se fosse uma extensão do que eu amo em você.
Kageyama fechou os olhos, o coração desacelerando finalmente. Estava seguro. Estava com ele. E, pela primeira vez no dia… sentiu-se inteiro outra vez. Então, quando percebeu estava ali, sobre o colo dele, e tudo no seu corpo que implorava por segurança e por esquecimento, também estava implorando por prazer.
Era como se o toque de Hinata pudesse apagar o que ainda doía e substituir tudo por algo mais quente, mais real.
O homem observava-o de perto, os olhos semicerrados, como se estudasse cada reação antes de agir. A mão firme subiu pelas costas do rapaz, por baixo da camiseta, até alcançar a nuca, puxando-o para um beijo mais profundo, mais exigente. O gosto um do outro era conhecido, mas naquela noite, parecia diferente como se tivesse um peso maior, uma necessidade urgente de apagar o mundo.
A respiração de Kageyama já estava descompassada quando Hinata o virou com facilidade no sofá, fazendo com que o corpo dele se estendesse sob o próprio, encaixado, pressionado. Os quadris se tocaram com firmeza e um gemido abafado escapou da garganta de Kageyama.
— Tá tudo bem? — Hinata murmurou contra os lábios dele, mesmo com os corpos já colados demais.
Kageyama assentiu com um suspiro, puxando-o de volta com força.
— Só... continua.
Hinata sorriu de canto, satisfeito com a resposta — e com o modo como o rapaz se curvava sob seus toques, cada vez menos hesitante, cada vez mais entregue.
As roupas foram saindo aos poucos, em meio a beijos quentes e carícias certeiras. Hinata o conduzia com calma, mas sem perder a intensidade. Era a fome de quem queria provar e, ao mesmo tempo, proteger. Os beijos desceram pelo pescoço, pelo peito, cada mordida leve arrancando reações involuntárias de Kageyama, que já não se continha mais. Seus dedos se enrolaram nos fios ruivos enquanto os quadris se arquearam em busca de mais contato.
Quando Hinata finalmente o tocou onde ele mais precisava, Kageyama gemeu com força, as pernas se apertando ao redor da cintura dele, o corpo pedindo por mais. O mais velho observava-o com os olhos baixos, como se quisesse memorizar cada segundo.
— Você é tão bonito assim — ele sussurrou. — Especialmente quando tá à vontade comigo.
— Só contigo — Kageyama respondeu, quase num sussurro.
Os movimentos começaram lentos, ritmados, quase torturantes, mas logo ganharam um compasso mais urgente. As mãos se agarravam onde podiam, os gemidos abafados se misturavam com os sussurros roucos de Hinata dizendo o quanto o queria, o quanto o desejava e o quanto ele era dele, ali, daquele jeito, sem vergonha, sem culpa.
O clímax veio rápido, inevitável, e os dois ficaram ali, colados, os corpos quentes e suados, respirando ofegantes. Hinata não se afastou. Puxou Kageyama para perto, os dedos acariciando-lhe os cabelos molhados de suor.
— Eu quero que você se lembre disso — murmurou contra o ouvido dele. — Do quanto você merece ser tocado com respeito. Com desejo verdadeiro. Só seu. Só nosso.
Kageyama assentiu com os olhos fechados, o coração finalmente desacelerando. Ainda doía, mas ali, envolvido por Hinata, envolto em calor e em promessas silenciosas, ele sentia que podia se reconstruir. Sua respiração ainda estava entrecortada quando se mexeu no sofá, o corpo colado ao de Hinata, que o observava com um sorriso satisfeito, os olhos carregados de desejo ainda pulsante. Mas então, algo mudou. Kageyama ergueu os olhos escuros, ainda meio trêmulo, e mordeu o lábio inferior. Havia uma faísca ali de ousadia, de provocação.
— Professor… — sussurrou, de propósito, a voz rouca, carregada de malícia.
Hinata arqueou uma sobrancelha, claramente surpreso, mas o sorriso só cresceu, lento e perigoso. Ele se afastou o suficiente para encarar o rosto de Kageyama, as mãos firmes ainda segurando sua cintura nua.
— É assim que quer me chamar agora? — ele murmurou, a voz baixa, arrastada.
Kageyama engoliu em seco, mas não recuou. O rubor em suas bochechas denunciava seu nervosismo, mas seus quadris rebolaram levemente contra o corpo de Hinata, desafiando-o.
— Sabe, os conteúdos têm sido bastante puxados que talvez eu precise de umas… aulas extras — disse, com um meio sorriso, tentando sustentar o olhar, apesar do calor subindo por todo o corpo.
Hinata soltou uma risada rouca, passando a língua pelos próprios lábios, como se estivesse provando a ideia. Em seguida, virou Kageyama com facilidade e o deitou de bruços sobre o sofá, o corpo curvado, rendido, mas agora por escolha.
— Então vou ter que te educar direito, Tobio — sussurrou contra sua nuca, uma das mãos descendo pelas costas dele, firme. — E eu sou um professor exigente.
Kageyama estremeceu sob o toque, soltando um gemido baixo quando sentiu os dentes de Hinata roçarem sua pele. Ele sabia que ele estava no controle agora, e desejava exatamente isso. Queria ser levado ao limite, queria esquecer tudo, menos o modo como o homem o fazia se sentir vivo, desejado, inteiro.
— Me mostra, então… Como um bom aluno deve se comportar — provocou, a voz já falha, o corpo inteiro sensível.
Hinata respondeu com um puxão leve em seus cabelos, curvando-se até que seus lábios roçassem o ouvido de Kageyama.
— Primeira lição — ele murmurou com intensidade. — Quando me chamar de professor… vai me olhar nos olhos enquanto faz isso.
Ele o virou mais uma vez, os corpos quentes e colados, e os lábios se encontraram em um beijo avassalador. As mãos de Hinata exploravam cada centímetro da pele do outro, segurando, apertando, guiando. E cada toque vinha carregado de autoridade e desejo, como se ele estivesse redesenhando o corpo do rapaz com intenções e promessas.
— E a segunda lição… — Hinata continuou, entre beijos no pescoço, descendo lentamente. — Você vai aprender a pedir. Com palavras. Nada de gemidos soltos e sem contexto. Quero ouvir o que você quer. Quero que diga o que eu sou pra você enquanto estiver te levando ao limite.
Kageyama arfava, os olhos semiabertos e embriagados de prazer.
— Você é meu professor… — sussurrou, a voz embargada. — E eu sou seu aluno…Ensine-me tudo.
Hinata sorriu, selvagem, antes de afundar novamente sobre ele.
A noite se alongou entre pedidos sussurrados, ordens cumpridas com prazer, e corpos que se encaixavam como se feitos para aquilo, para aquela tensão entre autoridade e entrega. Na desordem dos gemidos e dos toques, havia algo mais profundo se formando, como se cada lição ministrada ali fosse também uma forma de cura, de pertencimento, de amor não dito, ainda.
Quando acordou na manhã seguinte, permaneceu deitado de lado com os cabelos bagunçados, os olhos ainda pesados de sono, e uma leve dor nos músculos que só servia como memória viva da noite anterior. Ainda havia calor em sua pele, um tipo de exaustão que vinha com prazer demais, toque demais, sentimento demais. Ao seu lado, Hinata já estava acordado.
Sentado à beira da cama, a camisa ainda aberta, os cabelos úmidos da água que provavelmente passara no rosto, ele parecia calmo, centrado, como se aquela intensidade toda não tivesse o desequilibrado nem um pouco. Mas ao notar o movimento leve de Kageyama atrás de si, virou-se com um meio sorriso, os olhos macios, embora atentos.
— Dormiu bem, aluno? — perguntou com a voz rouca da manhã, um tom de brincadeira que logo foi suavizado pelo toque de sua mão nos cabelos do mais novo.
Kageyama bufou, tentando esconder o rubor.
— Dormi, sim... Apesar da aula puxada.
Hinata soltou uma risada abafada, deslizando os dedos pelos ombros de Kageyama antes de se levantar. Ele caminhou até a pequena cozinha do apartamento com naturalidade, como quem já fazia parte daquele espaço e, de algum modo, fazia. Havia algo entre os dois que ia além da pele.
Kageyama se sentou devagar na cama, observando-o com os olhos semicerrados. O peito apertava um pouco. O que eles tinham era real, mas também frágil. Um fio fino esticado entre o desejo e a complicação.
— Hinata... — ele chamou, hesitante.
O homem virou-se, segurando uma caneca de café recém-feita, e veio até ele. Estendeu a caneca, e esperou. Kageyama pegou com as duas mãos, desviando o olhar.
— Oikawa... ainda está sendo um problema — disse, baixo.
Hinata sentou-se ao seu lado. O sorriso havia sumido.
— Você vai mesmo denunciar?
Kageyama assentiu com a cabeça. O peito apertava com mais força agora.
— Eu... pensei que era algo que ia passar, mas ontem ele passou dos limites. Eu não quero fingir que tá tudo bem.
Hinata ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, pousou a mão na coxa do mais novo.
— Você fez o certo. Isso não é só sobre você. É sobre o ambiente inteiro onde você estuda. E eu tô aqui, como homem... e como seu professor, se quiser que eu esteja. Mas… — Sua voz ficou firme. — Se você estiver levando isso como algo passageiro, se isso for só um alívio pro seu estresse, é melhor me dizer agora.
Kageyama o encarou, o coração batendo alto no peito.
— Eu não... — Ele engoliu seco. — Não é só isso pra mim. Eu só não sei como lidar. É muita coisa. As aulas, as provas... você. Oikawa. Eu tô tentando acompanhar tudo sem enlouquecer.
Hinata assentiu devagar, os olhos fixos nele, sérios.
— Então a gente vai com calma. Mas eu não vou esconder que gosto de você, Tobio. Não mais. Nem vou brincar com isso.
Kageyama sentiu o estômago dar um nó. Um bom nó. Um que aquecia e doía ao mesmo tempo. Ele colocou a caneca de lado, virou-se, e ficou de joelhos na cama, olhando Hinata de cima, os olhos ainda meio sonolentos, mas cheios de algo novo. Um sorriso tímido surgiu nos lábios dele.
— Vai me ensinar a lidar com tudo isso, professor?
Hinata o puxou com um só braço pela cintura, firmando os corpos.
— Aula prática ou teórica?
— Prática — respondeu sem hesitar, antes de se inclinar para beijá-lo de novo, com mais doçura, mais calma, mas ainda com aquela necessidade que não passava.
E ali, entre o cheiro de café, os lençóis desarrumados e o peso da realidade que batia à porta, havia um início. Um acordo silencioso de que, mesmo em meio à pressão, eles estavam tentando. Juntos.
Então, a notícia se espalhou devagar, como um sussurro que atravessava corredores e se infiltrava nas rodas de conversa. Kageyama não queria chamar atenção, mas não havia como evitar. A denúncia formal contra Oikawa por assédio havia sido protocolada, e a reitoria iniciara um processo interno de apuração.
No primeiro dia após a denúncia, o clima no campus estava carregado.
Kageyama andava pelos corredores com os ombros tensos e o olhar baixo. Alguns colegas o olhavam com estranhamento, outros com solidariedade silenciosa. Mas ele sentia tudo como espinhos sob a pele. Principalmente quando viu Oikawa no fim do corredor.
— Covarde — Ouviu-o murmurar ao passar por ele.
Kageyama parou por um instante, mas não se virou. Respirou fundo e seguiu em frente. Hinata havia dito que, às vezes, o silêncio era a resposta mais poderosa. E ele confiava nele.
Oikawa, no entanto, não ficou em silêncio.
Durante as semanas seguintes, tentou de tudo: negou a acusação, manipulou colegas próximos, tentou “pintar” Kageyama como alguém sensível demais, como alguém que “confundia gentileza com algo a mais”. Mas a denúncia não se baseava apenas em palavras: havia testemunhas de comportamentos anteriores, mensagens insistentes arquivadas e, mais importante, um histórico que começava a emergir de outras interações questionáveis.
A universidade não podia ignorar.
A reitoria iniciou uma medida preventiva: Oikawa foi afastado de grupos acadêmicos e atividades extracurriculares até o fim da apuração. Ele ainda podia frequentar as aulas, mas seu orgulho fora ferido. Sua revolta, no entanto, não podia ser descarregada em Kageyama, não diretamente.
Enquanto isso, Kageyama sentia a tensão se dissolver aos poucos. Não desaparecia por completo, mas ficava mais suportável, especialmente com Hinata ao seu lado.
Hinata era firme, mas presente. Não expunha o relacionamento, mas também não se escondia quando os dois estavam a sós. Em casa, a seriedade dele dava lugar a um cuidado gentil, beijos longos na testa, palavras baixas no escuro. Às vezes ele até brincava, tentando arrancar sorrisos de Kageyama nos piores dias.
— Você é forte. Mas não precisa ser sozinho.
Essas palavras ficaram com ele. Repetiam-se quando o medo apertava o peito, quando a insegurança batia. Quando alguém olhava torto. Quando a coragem falhava por um segundo. E, depois de algumas semanas, as coisas começaram a se ajustar.
A reitoria confirmou que as atitudes de Oikawa infringiram o código de conduta. Não foi expulso, mas recebeu sanções formais. Perdeu bolsa de extensão, posição em um projeto importante, e seu nome deixou de ser mencionado com tanto prestígio nos corredores. Ele andava calado, abatido, com a máscara rachada.
Kageyama também mudou.
Carregava uma postura mais firme, os olhos mais retos, mesmo com a mesma expressão contida. Não estava mais à mercê. Agora ele sabia que podia dizer "não" e ser ouvido. Que não estava sozinho. Que havia alguém do outro lado da cidade preparando café e deixando bilhetes em sua mochila como se fosse a coisa mais natural do mundo.
E quando o semestre se aproximava do fim, Hinata olhou para ele durante um plantão de dúvidas e, com um meio sorriso escondido no canto dos lábios, murmurou:
— Fico feliz que você tenha aprendido a se posicionar, Tobio. Mas não pense que vou facilitar na prova final.
Kageyama riu, baixo, e respondeu com um sussurro cúmplice:
— Espero que o senhor também esteja preparado. Porque eu não vou mais fugir.
E dessa vez, ele sabia o que queria. Sua mente já não estava mais confusa ou hesitante, sabia que merecia ser ouvido e amado sem medo ao mesmo tempo que compreendia que amor é uma construção de duas pessoas.
Dessa forma, os dias se passaram e o último dia do semestre chegou com uma brisa morna atravessando os corredores da universidade. Os estudantes estavam dispersos, falando sobre férias, planos de viagem, estágios e novos começos. Kageyama caminhava mais leve, embora não sem as marcas do semestre que carregava nos ombros, marcas que agora eram como cicatrizes: sinais de que ele tinha resistido.
A última prova de História estava prestes a começar. A sala estava em silêncio, todos com os olhos voltados para as folhas diante de si. Kageyama, porém, roubou um breve olhar para a mesa da frente, onde Hinata corrigia alguns papéis com a testa levemente franzida. O homem que tanto o desestabilizava, que o provocara, guiara e apoiara, aquele que agora fazia parte da sua história de um jeito irreversível.
Quando a aula terminou e os alunos começaram a sair, Hinata levantou o olhar e seus olhos encontraram os de Kageyama. Não havia palavras ali. Apenas um reconhecimento silencioso, maduro e profundo. Mais tarde, naquele mesmo dia, eles se encontraram fora dos portões do campus. Um local neutro, uma esquina tranquila onde os passos dos dois se aproximavam com naturalidade. Sem mais segredos.
Hinata trouxe um envelope nas mãos: a prova de Kageyama.
— Tirou a maior nota da turma — disse, sério. Mas seus olhos tinham um brilho orgulhoso, quase debochado. — Eu disse que não ia pegar leve.
Kageyama riu, meio envergonhado, e guardou o envelope.
— E agora? — perguntou, um pouco incerto.
Hinata cruzou os braços e encarou o horizonte. O céu dourado, o fim de tarde tingindo tudo com um calor suave.
— Agora você continua sendo aluno até se formar. E eu continuo sendo professor. Isso não muda — comentou, firme. Depois acrescentou, com um sorriso contido: — Mas fora daqui… fora daqui você é alguém por quem eu tenho um carinho que não cabe mais em palavras.
Kageyama sentiu o coração acelerar, mas não como antes, com medo ou ansiedade. Era diferente. Era uma inquietação boa. Um querer ficar.
— Eu não quero que isso acabe ou que comecemos a pensar que foi apenas um momento, quero continuar tentando — disse. — Com você.
Hinata assentiu devagar.
— Então vamos tentar.
Eles não se beijaram ali, não naquele momento. Mas o gesto de Hinata tocar o ombro de Kageyama, com uma firmeza que dizia "estou aqui", valeu mais do que qualquer beijo. E assim eles seguiram, lado a lado, não mais como fuga ou segredo, mas como dois homens em tempos diferentes da vida que, por acaso ou destino, se encontraram no mesmo caminho.
E dessa vez, era um caminho que não precisava mais ser trilhado às escondidas.
Dois anos depois…
O sol da manhã entrava preguiçoso pelas janelas largas do apartamento, aquecendo os livros empilhados, o bule de chá esquecido no balcão, e o par de tênis deixado de qualquer jeito na porta. Era sábado, e o mundo lá fora seguia seu ritmo. Mas dentro daquele lar, o tempo parecia se alongar.
Kageyama estava sentado à mesa, com os óculos escorregando um pouco no nariz enquanto revisava algumas páginas do artigo que estava escrevendo para a pós-graduação. Ao seu lado, uma caneca de café já fria, e uma camiseta velha de um certo professor que insistia em sumir com suas roupas.
— Você vai acabar ficando míope de verdade se continuar franzindo a testa assim — comentou uma voz sonolenta, vinda do corredor.
Hinata surgiu com o cabelo despenteado e um olhar preguiçoso, usando apenas uma calça de moletom. Ele passou atrás de Kageyama e apoiou o queixo no topo de sua cabeça, os braços cruzando em torno dos ombros dele num gesto familiar.
— Você vai acabar me distraindo de verdade se continuar com essa voz — respondeu Kageyama, rindo com a respiração presa, encostando-se de leve ao corpo do outro.
— Essa é a intenção.
Fazia dois anos desde aquele semestre conturbado. Desde a denúncia, a tensão, a recuperação. Oikawa havia sido transferido para outro curso após o processo interno na universidade. Nunca mais se cruzaram.
Hinata, por sua vez, manteve sua posição como professor, com ética impecável e, com o término da graduação de Kageyama, puderam assumir o relacionamento sem necessidade de segredos. Não foi simples no começo, mas, o respeito que inspiravam e a discrição madura que mantiveram ajudaram o tempo a normalizar tudo.
Hoje, a diferença de idade já não era algo que pesava. Era, no máximo, uma piada recorrente nas provocações de fim de dia. Kageyama havia amadurecido, sim, mas sem perder aquela faísca intensa de juventude que fazia Hinata sorrir só de vê-lo entrar em casa.
— Vai querer sair pra comer algo mais tarde? — perguntou Hinata, apertando o ombro dele antes de se afastar para pegar a caneca de café esquecida.
— Só se for com você.
Hinata parou, olhou por cima do ombro e sorriu, aquele sorriso de canto de lábios que Kageyama conhecia bem. O mesmo que o tinha enfeitiçado nos corredores da universidade.
— Sempre é.
E, naquela manhã calma, entre cadernos, provocações e o cheiro de café no ar, eles seguiram vivendo — como dois mundos que se encontraram no tempo certo. Com cicatrizes que contavam histórias, e com amor suficiente para continuar escrevendo outras.
Juntos.
