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dirty little secret

Summary:

Minho não queria ser o homem que Chan amava. Não merecia esse posto.

Notes:

olá! essa é mais uma daquelas histórias que eu escrevo somente para tirar uma ideia da minha cabeça, então não esperem grandes desenvolvimentos. de qualquer forma, espero que gostem dessa mini one shot :)

Work Text:

— Minho? — a voz veio da cama, hesitante.

 

Minho não respondeu.

 

Estava de costas, recolhendo as próprias roupas espalhadas pelo chão. Desequilibrou-se numa tentativa humilhante de vestir a cueca com pressa; precisava sair do campo de visão de Chan, no entanto, quanto mais se movia, mais se atrapalhava. 

 

Não fazia ideia de onde estava sua blusa, mas teve um vislumbre pelo canto do olho da calça jogada perto da cama, já seria suficiente. Caminhou até ela com os olhos fixos no tecido e quase tropeçou quando se abaixou para alcançá-la. Agarrou-a, enfim, se vestindo rapidamente, encarando a parede à sua frente. Era covarde demais para olhar nos olhos de Chan. Sempre que se permitia olhar aquele castanho profundo, tudo ficava real demais — e era aterrorizante.

 

A pior parte sempre era o depois. Durante, tudo era corpo. Pele, suor, desejo. Não havia espaço para sentimentos, para pensar no que aquilo significava. Só instinto. E Minho gostava disso. Gostava da atenção, do toque, de ser desejado.

 

Por muito tempo, foi apenas isso: encontros escondidos, escapadas pela porta dos fundos, e então, instinto. Bastava.

 

Até que deixou de bastar.

 

O problema começou quando Minho percebeu o que Chan sentia. 

 

Era mais fácil quando ele fingia não saber. Estava óbvio, claro e cristalino, mas Minho ainda conseguia ignorar. Mesmo que o cérebro dele gritasse que os toques de Chan estavam ficando longos demais, carinhosos demais; ou que seus olhares começaram a ter um brilho diferente, algo claramente além da atração física. 

 

Enganava a si mesmo dizendo que Chan não estava procurando por ele na multidão da cafeteria, ainda que ficasse claro que seus olhos só pararam de vasculhar o local quando encontraram os dele. Repetia como um mantra que o admirador secreto que deixou aquele bilhete no armário dele há algumas semanas não era Chan, mesmo que a caligrafia se assemelhasse muito a sua. 

 

Minho era capaz de ignorar todos os sinais, se precisasse. Mas quando ouviu os amigos dizerem que “Chan queria mais”, em tom de alerta, foi como levar um soco. Se tornou real. E assustador.

 

Minho não queria ser o homem que Chan amava. Não merecia esse posto.

 

Com um cigarro entre os dedos, foi até a varanda. Acendeu com as mãos trêmulas, tragou fundo. A fumaça queimava os pulmões de forma anestesiante, e por um breve instante, fechou os olhos. Um milissegundo de paz.

 

— Ei... — sussurrou Chan, abraçando-o por trás, os braços envolvendo sua cintura com um carinho que doía. — O que foi? Você está distante.

 

Distante. Era exatamente o que precisavam ser. Antes que ficassem próximos demais.

 

Minho tragou outra vez, segurando o ar como se aquilo pudesse mantê-lo firme. E soltou:

 

— A gente não pode mais fazer isso.

 

Chan congelou atrás dele, ainda abraçado, mas completamente em choque. Engoliu em seco, o cérebro sequer conseguiu formular uma frase em resposta no primeiro instante e os olhos piscaram em descrença.

 

— O quê? Como assim? — perguntou, acompanhado de uma risada sem graça.

 

— Isso. Nós. Esses encontros. Acho que a gente deveria parar — explicou forçando indiferença, como se aquelas palavras não esmagassem seu peito.

 

— Mas... por quê? — fraquejou. — Fiz algo errado? Me diz, por favor. Eu posso mudar, posso fazer melhor. 

 

A voz de Chan quebrou no ar, frágil, desesperada. Quase patética. Quase bonita.

 

Minho quis se atirar da sacada. Sabia que não era bom o suficiente para manter Chan por perto, mas também era egoísta demais para deixá-lo ir. 

 

Nunca poderiam ser algo de verdade. 

 

Chan queria o depois. Queria os abraços suados, as conversas com a cabeça ainda zonza, os banhos juntos, e as promessas no travesseiro. Queria tudo. E Minho... Minho não sabia como dar nada disso.

 

E Christopher sabia disso desde o início. Sempre soube que Minho era emocionalmente indisponível. Só que gostava tanto dele que aceitava o que quer que ele estivesse disposto a oferecer; um pouco era melhor do que nada.

 

Talvez um dia, num futuro menos torto, não tão distante, Minho percebesse que amar Chan não era tão impossível assim. Talvez aprendesse a corresponder.

 

Ou talvez não.

 

É... talvez não.

 

— Eu sei que você não quer só sexo, Christopher. Você não é esse tipo de homem, e nós dois sabemos disso — disse Minho, tragando o cigarro até o filtro.

 

— Eu não me importo.

 

— Você se importa, sim — Minho afirmou, a voz seca. — Você não quer ser só um segredinho sujo meu, mas eu quero manter as coisas exatamente assim. Ou você está mesmo bem com a ideia de me foder toda noite e, no dia seguinte, fingir que a gente mal se conhece na faculdade?

 

Ele sentiu quando Chan estremeceu atrás dele. Acertou em cheio. Sabia que a mentira, a ocultação, o fingimento... tudo isso corroía Chan. E mesmo assim, jogou aquilo para o ar como se não fosse nada.

 

Minho não o merecia. Nem um pedaço dele. 

 

— A gente precisa parar. Eu não quero ser a pessoa que você ama. Eu não vou te amar de volta, Chan. E você precisa se afastar.

 

Atirou a guimba do cigarro. Observou a brasa apagar no asfalto da calçada, lá embaixo, como se fosse simbólico. Talvez fosse.

 

— Por quê?

 

Minho congelou.

 

— Por que o quê?

 

— Por que você não pode corresponder ao que eu sinto por você? — A voz de Chan veio rouca, embargada, um fio quebrado que mal se segurava em pé. Ele estava chorando.

 

— Christopher... — Minho tentou se desvencilhar, mas Chan o manteve no lugar. Talvez ele também estivesse fugindo daquele olhar.

 

— Me diga o que há de errado comigo. Hein? O que te impede de gostar de mim? — A voz dele quebrou de vez. — Porra... eu sei que eu não sou a melhor opção. Mas também não sou a pior, Minho.

 

Silêncio.

 

— Você é a melhor opção — Minho admitiu em um sussurro.

 

Chan parou. Tudo parou.

 

— Você sempre foi a melhor. Com você... nem existe competição. Você é a única opção. E é exatamente por isso que não pode ficar comigo. Porque eu não sou o melhor para você.

 

As palavras saíam sozinhas. Minho nem sabia de onde vinham. Podia jurar que era só discurso ensaiado, algo para afastar Chan com menos sofrimento, mas a dor no peito, o nó na garganta... eram reais demais para serem mentira.

 

— Você merece alguém tão bom quanto você. E eu não sou essa pessoa.

 

— Você é — Chan sussurrou, entre soluços. — Você é a melhor pessoa que eu já conheci.

 

Ele não chorava bonito. Não era lágrima de filme; era feio, machucado. Os soluços rasgavam no peito e as lágrimas escorriam quentes pelas costas nuas de Minho.

 

— Você só está dizendo isso porque está apaixonado. — Minho fechou os olhos. — Quando isso passar, e vai passar, você vai ver a loucura que cometeu ao cogitar um relacionamento comigo.

 

Chan ficou quieto. Por longos segundos, só o som dos carros distantes e da respiração pesada dos dois preencheu o silêncio. Minho ainda sentia os braços dele ao redor da sua cintura, apertando mais forte, como se quisesse impedir o inevitável.

 

— Eu não quero que passe. — A voz dele veio baixa, quase irritada. — Eu não quero parar de gostar de você. Eu só queria que você me deixasse ficar.

 

Minho apertou os olhos. Aquelas palavras machucavam uma parte dele que ele jurava ter matado há muito tempo. 

 

— Chan...

 

— Merda, por que você só não pode me deixar te amar? — Christopher interrompeu, a voz embargada de novo. — Me deixa te amar mesmo que você não me ame de volta. Eu não estou pedindo reciprocidade, Minho, pelo menos não por agora. Mas você não pode dizer que tudo que a gente teve...

 

— “Tudo que a gente teve”? Algumas fodas? — Minho estava mentindo, era uma mentira cruel até para si mesmo. Estava tentando machucar Chan para que ele se afastasse, só não percebia que também estava sendo uma vítima.

 

Chan soltou um riso seco e recuou um passo, como se tivesse levado um tapa. E, de certa forma, tinha. A distância entre os dois ficou de repente mais fria, mais real. Minho não se virou. Não podia.

 

— É engraçado como você foge — Chan continuou, a voz abalada, com um fundo novo. — Você finge que está me protegendo, quando na verdade está apenas com medo. Você não é altruísta, Minho. É um covarde.

 

Minho segurou o ar. Doeu mais do que esperava. Porque era verdade.

 

— Eu preferia mil vezes que você dissesse que não sentia nada. Que eu fui um erro. Mas não. Você sente, e sabe que sente. Você me chama de única opção e ainda assim me manda embora. Isso não é nobre. É cruel.

 

Chan deu mais um passo para trás. Minho sentiu a ausência dele antes mesmo de ouvir os passos. Ouviu um farfalhar, julgou que Chan estava se vestindo e recolhendo suas coisas para ir embora.

 

Poderia gritar para que ele ficasse, pedir desculpas por tudo que dissera até então. E se fizesse isso, sabia que Chan aceitaria. Não era justo com ele.

 

Nenhum dos dois disse mais nada. Minho ouviu a porta do quarto abrir. Depois fechar. E então, o silêncio.

 

Ficou ali, parado, as mãos agarradas no guarda corpo, o peito afundando devagar, como se cada palavra de Chan tivesse aberto uma rachadura nova por dentro.

 

Quis correr atrás. Quis desdizer tudo.

 

Mas não se moveu.

 

Porque Christopher estava certo.

 

Ele era um covarde.

 

E sempre seria.