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Ser incapaz de mentir deve ser um verdadeiro pesadelo, quando a gente para pra ver nos detalhes. Uma coisa é você não querer mentir sobre um assunto importante, outra coisa é prejudicar suas relações pessoais por ser incapaz de conter uma opinião indevida atrás de seus dentes.
Mentir é uma parte natural da vida de Aaron, e sempre foi, como de todo mundo, mas agora, de repente, ele não pode mentir. É a única forma de se curar do transtorno causado por aquela criatura paranormal infeliz; ser tão sincero quanto é humanamente possível e se livrar de todo o peso do passado de forma a conseguir se reconectar consigo mesmo. O maior obstáculo, claro, era que para falar a verdade primeiro uma pessoa precisaria falar. O segundo maior obstáculo estava afiando a espada no canto da sala enquanto cada grupo de agentes debatia suas missões em mesas separadas pelo salão. Veríssimo.
Há alguns dias que Aaron já estava lutando com aquela nova realidade, mas até agora não tinha conseguido sequer ficar no mesmo ambiente que ele por mais de dois minutos. Havia muito que ser dito entre eles, mas o sniper sequer conseguia pensar em como começar aquele assunto. Deveria iniciar a abordagem com os dois pés no peito: “Eric, estou apaixonado por você há vinte anos, mas nunca tive coragem de me declarar antes por vários fatores, mas principalmente por causa da Sophia.”
Não. Arriscado demais.
Talvez chegar pelas beiradas… “Eric, estou tentando dar sinais há anos, mas você parece tão desatento quanto eu sou tímido…” De jeito nenhum, brega demais.
Escrever uma carta anônima serviria? Contaria para o saldo final? Não, certamente a terapeuta diria que encarar aquele fato de frente era a única saída para aquele problema.
Nem se deu conta quando sua caminhada a esmo o levou até a sala de Eric, notando apenas quando tropeçou no carpete, ouvindo um bocejo e tendo sua atenção puxada para o chão, onde o cachorro Lupi dormia tranquilamente. Abaixou-se e fez um carinho leve no pelo do animal, pensando em como devia ser delicioso ser um cachorro e não ter que se preocupar com nada na vida.
— Aaron? Desculpa, se eu soubesse que você estava vindo pra cá, eu vinha mais cedo. Te deixei esperando? Eu tava lá embaixo amolando a espada…
“Eu sei”, Aaron pensou, mas não disse nada, apenas afirmou com a cabeça. Sob a máscara, uma confusão de sentimentos, medos traduzidos na sudorese excessiva que o líder não perceberia, nos dedos trêmulos que ele provavelmente não notaria.
— Tem algo que precise de ajuda? Algo que queira relatar?
Aaron pensou por um instante, ele precisava relatar algo, mas não queria. Precisava de ajuda, mas não queria pedir. Pedir ajuda pra aquele problema significava ter que falar sobre ele, e exatamente ali morava o perigo.
“Posso ir até sua casa hoje?”, Aaron gesticulou, hesitante. O pedido não era incomum, Aaron tinha ido incontáveis vezes até a casa daquele homem desde que se conheceram há mais de 20 anos.
— Claro que pode, Aaron. Não precisa nem pedir, você é parte da nossa família. — o homem de cabelos grisalhos lhe sorriu gentilmente.
Taquicardia. Como podia ser que… Ah. Aaron tinha aquela sensação desde sempre.
Como se caísse de um lugar alto, ou se deitasse sobre a grama vendo o sol passar através das copas das árvores. Como se tivesse todo o horizonte diante de si, o mar calmo, a areia sob os pés. Como se a vida finalmente tivesse um sentido, como se nenhum perigo fosse grande demais. Era como se sentia quando estava com ele. Mas sempre havia algo, algum problema, algum empecilho.
Primeiro havia Arnaldo Fritz, com aquele jeito de galã. Aaron achava que eles tinham algo, tinha medo de tentar a sorte e ser rejeitado por causa disso, então não disse nada. E então veio Sophia Bessat, ah, essa ele tinha uma bela confirmação que não era coisa de sua cabeça, e essa confirmação se chamava Mia. E por tanto tempo Veríssimo permaneceu em luto, que Aaron apenas aprendeu a guardar aquele sentimento como algo que nunca sairia de seu peito, uma confissão da qual o mundo nunca ouviria falar.
Mas agora, diante de uma situação de emergência, não havia escolha suave; ou ele contava, ou nunca melhoraria.
“Onde está Mia?”, Aaron gesticulou ao entrar na casa de Veríssimo.
Era noite do lado de fora, ele tinha passado para buscar algo para o jantar antes de ir para a casa do líder que levava as sacolas trazidas para a sala de jantar.
— Está com Jaser, os dois saíram, disseram que vão voltar tarde e podemos jantar sem eles. — Veríssimo respondeu, abrindo curiosamente as sacolas e verificando dentro das embalagens o que o sniper tinha trazido, sorrindo satisfeito ao ver o símbolo de uma churrascaria boa sobre as caixas. — Vão ficar chateados de perder justamente churrasco, mas a vida é feita de escolhas e consequências.
Escolhas e consequências. Tinha escolhido o silêncio por muito tempo e agora as consequências eram demais para aguentar. No fim, tinha mesmo uma escolha naquele assunto?
— Você parece avoado o dia todo hoje. O que aconteceu? — Veríssimo perguntou, sentando-se em uma cadeira e convidando o sniper a sentar-se na cadeira ao lado, de forma que pudessem conversar devidamente.
Medo. As consequências de contar, quais seriam? Veríssimo o odiaria? O rejeitaria? Contaria para os outros? Para Mia?
“Na verdade, sim. Há algo que preciso lhe falar…”, ele gesticulou.
Toda atenção de Veríssimo estava sobre si, o homem claramente estava preocupado consigo, genuinamente preocupado.
— Então diga, Aaron. Não precisamos de segredos entre nós.
“Precisamos sim”, Aaron pensou, mas não disse.
“Minha terapeuta disse que não vou melhorar devidamente as questões da sanidade se não cortar as correntes do passado e do que me aflige. Você sabe, por causa daquele caso…”, ele gesticulou e desviou o olhar.
Veríssimo afirmou com a cabeça.
— Estou ciente. Como está indo o progresso? Conseguiu conversar com todas as pessoas que precisava? Algum dos casos deu problema?
“Não, tudo está indo bem. Já falei com todo mundo, foram compreensivos, a maior parte das coisas foi há mais de dez anos, então já não há mais mágoas pendentes.”, ele gesticulou. Mordendo o canto do lábio inferior sob a máscara que vestia, ele suspirou mais uma vez antes de continuar. “Mas eu ainda precisava falar com você sobre algo.”
— Da minha parte, Aaron, eu não tenho nenhum tipo de mágoa pendente com você, você sabe bem disso. Nós temos sido carne e unha há vinte anos, e em nenhum momento eu poderia ter pedido um parceiro melhor.
“Não é isso, Veríssimo, guarde seus elogios para depois”, Aaron gesticulou. Suas mãos estavam trêmulas, o mais velho percebeu, mas nada disse. “Eu queria ter dito antes. Teria dito se não fosse fraco… Antes de Sophia, antes de Arnaldo,...”
— Aaron…
“Espere.”
As sobrancelhas de Veríssimo se uniram em preocupação, a boca pareceu secar por um momento. O que Aaron guardava há vinte anos? Antes de Arnaldo. O que era assim tão grave que ele não tinha comentado em todos aqueles anos?
“Eu… Eric…”
Nunca tinha pensado que seria tão difícil falar a verdade para apenas uma pessoa. Dizer o que sentia, que seu peito parecia querer entrar em combustão perto dele, que torcia para ter a oportunidade de apenas estar com ele em algum momento, que adorava a voz dele mais do que tudo, que sonhava com a oportunidade de beijá-lo como se fosse a única coisa que realmente queria no mundo.
“Eu me apaixonei por você.”
