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Fandom:
Relationship:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-09-19
Updated:
2024-09-19
Words:
1,388
Chapters:
1/?
Kudos:
1
Hits:
66

Um Lugar Chamado Pérola

Summary:

A vida de Klara Böhringer muda quando recebe a visita da funkeira internacionalmente reconhecida Tayane Alves. Agora, Klara terá que lidar com a pressão de estar envolvido com uma celebridade.

Notes:

Tudo está melhor do que parece,
Eu olho e vejo tudo errado,
Faz tempo que está tudo certo.

Chapter 1: Melhor do Que Parece

Chapter Text

Mesmo estando no grande centro comercial na capital de Portugal, uma livraria focada na venda de materiais de estudo tecnológico sofre para se manter aberta. Realmente, chega ser esquisita a opção de abrir um negócio como esse, mas Klara teve sucesso a princípio. A questão é que ela estudou antes de apostar na ideia: notou que as faculdades e universidades locais estavam investindo em cursos ligados à robótica, mecatrônica e informática; depois, procurou saber se houve alta no mercado para empregar esses estudantes e sim! Sua hipótese estava correta novamente e decidiu ir fundo nesse inesperado negócio.

 

A questão é que ela tinha um modo peculiar de procurar oportunidades para conquistar uma graninha, então não era sua primeira vez fazendo uma loucura dessas. Uma vez, Klara estudou como a bolsa de valores funcionava e, como se não bastasse, foi capaz de ajudar investidores a surfar a onda da especulação, ainda na época que morava em Berlim. Outra vez, estudou mixologia a fundo para ser contratada em um dos melhores restaurantes de Lisboa, simplesmente por estar perto do seu parque favorito na cidade. Ela não se cansava de se aperfeiçoar cada vez mais nas áreas mais diversas do conhecimento humano, ainda que se sentisse incompleta. Não que uma livraria de tecnologia fosse ajudar muito, mas pelo menos a ajudaria a estudar programação e, quem sabe, hacking.

 

Quintas-feiras não são agitadas e tende a piorar quanto mais próximo do fim de semana chega — os universitários estão loucos para relembrar o sabor da breja pós-exame. Klara aproveitava o dia ensolarado para ler um guia definitivo sobre JavaScript quando seu encarregado entrou segurando dois copos plásticos.

 

— Não tinha canela

 

— Porra. Eu tava muito afim daquele chá

 

— Se contenta com isso aqui, toma — Vincent empurrou à mão da mulher o copo

 

Klara bebericou a bebida esperando estar quente, mas para sua surpresa, sentiu o gelo encostando seus lábios. O doce das frutas e o amargo do vinho se misturou com o sabor do café e refrescou seu interior. Sua feição havia claramente suavizado, devido ao comentário que ouviu de seu colega a seguir:

 

— Clericot de café, eu disse que a França tinha suas manhas — Seu tom recalcado se misturava ao sotaque esnobe de alguém que vivera sua vida inteira em Bordeaux. Bebia seu expresso enquanto ajeitava seu colete.

 

— Acertou em algo, parabéns

 

— Não há de quê, mein liebelle

 

— Mein liebling.

 

— Ma chérie.

 

O sininho da porta toca avisando que um cliente entrou. Os dois olham para a porta e avistam uma jovem de roupas largas e óculos escuros.

 

— Aquela ali não é aquela cantora famosa? — Vincent sussurra

 

— Quem?

 

— É, aquela brasileira, chamam de funk a música que ela faz.

 

Realmente. MC Raze estava em sua livraria. Ela não ouve muito desse estilo no seu dia a dia, mas ocasionalmente tocava na sua estação de rádio favorita. Um dia ouviu seu remix mais famoso, “Tô de Volta BB”, no mercado, fazendo suas compras mensais, quando escutou ao fundo uma senhora no telefone dizendo:

 

Esta miúda está a arruinar a mente dos nossos filhos!

 

… Klara adicionou a música à sua playlist no mesmo instante.

 

Vale lembrar que Klara não entende muito bem essa rivalidade entre portugueses e brasileiros. Ela imagina que deva ser parecido com o que a Inglaterra e os Estados Unidos têm, ou o que a Inglaterra e a França têm… Mas a Inglaterra parece bem mais insuportável que Portugal; e o Brasil bem mais amoroso que os Estados Unidos. França não é uma boa comparação (especialmente com Vincent ao seu lado). Como se não bastasse, seu português ainda tinha muitas falhas, servia para o gasto em Lisboa, mas passou por maus bocados quando tirou o fim de semana em Braga. Quando soube o que MC Raze dizia em suas letras, desistiu ao ver que “cacete” tinha um significado bem diferente do que estava acostumada.

 

— Posso ajudar?

 

— Ah — A mulher parecia desconfortável com a interrupção do silêncio — Tô procurando livros sobre mecânica.

 

— Eles ficam na prateleira de cima aqui atrás, bem ali, tá vendo? Vincent, mostra pra ela.

 

Vincent olhou torto para Klara, que claramente não sabe reagir a um encontro inusitado com uma celebridade. Deixou seu copo na bancada e seguiu até onde os livros de mecânica prática ficam.

 

— Obrigada.

 

Vincent voltou até Klara.

 

— Que cara é essa?

 

— Minha cara, ué — Ele dá outra olhada torta — Desculpa tá, eu gosto das músicas dela, e ela é bonita pra caramba. Não esperava isso acontecer, especialmente aqui. Tá?

 

— Bonita, é?

 

— VAI FALAR QUE NÃO?

 

A MC vira o rosto, levemente assustada pelo aumento no volume da vendedora. Vincent continua com seu clássico olhar torto, dessa vez banhado por pena. Klara só podia esperar que o resto de seu desabafo não tivesse sido ouvido.

 

— Vou subir pro estoque. Consegue se virar?

 

— Pode ir, Vincent.

 

Ela ainda se perguntava porque mantinha ele contratado. O movimento na livraria tem sido tão baixo que sobra tempo o suficiente para que ela faça tudo sozinha. Além disso, o rapaz era difícil de conviver (disso ela tinha certeza porque ela mesma tem um gênio forte). E, como se não bastasse, o salário de Vincent era a dívida que ela menos queria quitar. Mas era tão mais fácil mantê-lo ao redor, especialmente nesse momento desesperadamente caro que ela vivia. Uma onda de crises estava cercando todos os pequenos donos de comércio e nem suas muitas horas de pesquisa e estudo demográfico tinham a salvado. Chega um momento em que ao menos uma pessoa de cada curso em cada faculdade tem o livro que precisa — basta vender cópias mais baratas que os originais para seus colegas; ou melhor ainda: encontrar o arquivo dando bobeira na internet (Klara sabe como é). Ela só desejava que o contrato de aluguel do imóvel terminasse logo.

 

— Vou levar esse aqui.

 

O título lia “ Sistemas Mecânicos de Motocicletas” . Interessante, no mínimo, para alguém que gritava palavras obscenas em palcos por todo o mundo como profissão.

 

— Boa escolha. Bem-conceituado para quem quer começar.

 

— E para quem sabe tudo, na prática, mas quer ver o que falta na base?

 

— Ah, você… conserta motos?

 

— Tuno as minhas. Aprendi faz tempo, com meu pai. Agora quero ver se aprendo algo novo pra ensinar um amigo.

 

— Puxa. Temos um livro sobre tunagem em motos. Pode ser interessante pra você.

 

— Quero ver.

 

Klara sai da bancada e segue até a prateleira devida, olhando por cima de seus ombros para ter certeza de que MC Raze a seguia. Ela sentiu um arrepio ao repetir para si mesma que MC Raze a seguia.

 

— Esse aqui.

 

— Vou levar também. — Raze sorriu. Ela sorriu… e era…

 

Um sininho tocou, alguém passava pela porta. Klara guiou a mulher de volta à bancada e procurou por quem tinha entrado: era um senhor barbudo que ela não se lembra de ter visto antes.

 

— Olá, posso ajudar?

 

— Sim, eu estou procuran… Ei, você, é aquela cantora famosa lá, do Brasil, deixa eu tirar uma foto com você! — disse já puxando o celular para fora do bolso e se jogando até a garota, sua mão procurando a cintura dela.

 

— Ei, sorria! Que nem naquele clipe!

 

A cara séria da funkeira se transformou num sorriso maroto e ela deu uma cotovelada na barriga do senhor.

 

— Eu adoro aquele clipe! Sabia que eu também chutei o dublê? Quer testar isso também?

 

— O senhor precisa sair. Por favor, volte mais tarde.

 

Ele saiu, sem antes dar alguns resmungos que eram distintos e regionais demais para o entendimento de Klara.

 

— Desculpa, espantei seu cliente.

 

— Não, não, imagina, foi… foi legal. E ele pode ir se foder.

 

— Hah, é… Ainda assim… — A mulher tira os óculos escuros pela primeira vez. Seus olhos eram intensos, com uma cor envolvente, parecida com uma amêndoa. Chega a ser difícil manter contato com eles. — Vou pagar no débito

 

— Claro, claro.

 

A máquina de pagamento parecia mais pesada que o normal. Ou o ambiente se tornara mais quente. Ou ainda, suas roupas eram apertadas demais. Um processo tão simples, um que ela faz dezenas de vezes diariamente, e tinha a sensação de que aquela era a primeira vez que configurava o valor. Até esperar que ela colocasse a senha do cartão era torturante, já que não conseguia tirar os olhos do seu rosto, por mais que tentasse (e ela tentou).

 

— Quer sua via?

 

— Não, valeu.

 

Ela saiu.

 

Klara ainda segurava a maquininha.