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Eu tomei café da manhã no último restaurante antes do início da estrada para a floresta da cidade. Tentava recobrar energias para continuar meu caminho.
- Com licença, posso me sentar aqui? - o local estava lotado e a única cadeira vaga era da minha mesa. Fiz "sim" com um aceno e o rapaz se juntou a mim. - Me chamo Suguru.
- Satoru. - tomei mais um gole do meu café.
Ele chamou a garçonete para pedir algo e logo puxou conversa comigo, exalando um forte hálito de hortelã. Seu olhar era rápido, passeava muito pelo local e constantemente caía sobre mim. Falando demais, o homem de cabelo longo reclamava de coisas aleatórias e contou um pouco do caminho que percorreu até então. Vindo de uma cidade grande ele buscava aventuras. Expliquei que sou da região e cuidava de dois irmãos órfãos.
- Estou andando sem rumo. - suas panquecas com calda de mirtilo chegaram. Piscou galanteador para a garçonete bonita; ela riu em resposta.
-Eu também.
- Posso te acompanhar...? - ele arqueou o corpo para frente e sorriu um pouco.
- Quer mesmo? - ri irônico, olhando para um lado. Me virei para ele em questão de segundos.
- Um homem precisa de companhia para não enlouquecer. - concordei, mesmo ainda um pouco relutante. Comemos em poucos minutos.
Quando pagamos as contas, puxou meu mapa de um dos bolsos laterais do meu casaco; me virei. Conversamos brevemente sobre eu ter pensado em ir para C através da floresta H, o que era uma ótima ideia segundo Suguru..
- Podemos passar por V. - acrescentou, dobrando o mapa. Colocou de volta. - Já fui lá e conheço bem.
- Tá bom. - eu dei de ombros e logo saímos do estabelecimento.
Saindo do restaurante os próximos dez metros de estrada ainda eram asfaltados, mas logo o caminho se tornou estreito, enlameado e escorregadio. A ventania que anunciava chuva se fazia agressiva, assobiando um som assustador. Andávamos no mesmo ritmo ora falando qualquer coisa, ora somente ouvindo o crocitar dos corvos.
Eu me sentia um pouco diferente, com um aperto no peito jamais visto. As pontas dos meus dedos formigavam e isso ía até os pulsos, mas eu não disse nada.
- Tudo bem? - meu acompanhante percebeu minha tribulação. Paramos. Os fios de cabelo dele balançavam.
- Sim.
- Certeza? Respire fundo.
Respirei, mas foi doloroso. Respirei de novo e o mesmo incômodo.
- Vamos voltar pra cidade... - ele segurou meus pulsos e automaticamente o encarei nos olhos. Com o cenho franzido, ele parecia preocupado de verdade. Mas neguei, pois não queria voltar por algo bobo e insisti para prosseguirmos. Não demorou para chegarmos à floresta.
Quando anoiteceu já havíamos andado muito, uma quantidade ótima para apenas um dia. Na primeira clareira que vimos, montamos as barracas em volta da fogueira e ele saiu para pescar o jantar. A temperatura caía e a fome aumentava deixando meu humor instável.
Mas eu me sentia muito melhor do que antes sem aquelas sensações estranhas da manhã. Permaneci pelo menos meia hora sozinho, o que me deu privacidade para devanear um pouco sobre os acontecimentos recentes. Eu pensava nos garotos... eles devem estar preocupados.
Durante todo o caminho eu pensei neles e como minha amiga Shoko deve estar decepcionada, pois do nada eu sumi e os deixei com ela.
É que eu não aguentava mais a pressão. Precisei fugir.
Recostado a uma das maiores árvores na clareira, fechei os olhos e puxei o ar com força sentindo meu peito se abrir e fechar, um pouco trêmulo. Minha boca começou a ficar seca e eu sentia uma dor estranha em minha garganta, seguido de um aperto na região do coração. Abri os olhos com o som dos galhos e folhas secas quebrando.
- Você gosta de peixe? - meu companheiro retornou. Com o animal em mãos enrolado num pano qualquer que ele levava na mochila, Suguru se aproximou da fogueira e se ajoelhou na frente dela. Seu cabelo solto caía em cascata, cobrindo parcialmente o lado esquerdo de seu rosto. - Ei, pegue alguns galhos. Vamos fazer uma grelha para esse meninão aqui! - ele parecia bem animado com sua conquista.
Nos deitamos próximos a fogueira, cada um de um lado dela. O rapaz admirava a comida enquanto eu olhava para os últimos resquícios de laranja e rosa no céu, pois uma mancha de azul escuro se aproximava e caía a noite, enfim.
- Ei Satoru, por que você está aqui?
- Estou cansado. - respondi simples com as mãos sob o abdômen. Eu sentia que era observado, aqueles olhos rápidos não passavam despercebidos. - E você?
- Talvez eu esteja só fugindo das minhas responsabilidades também. - riu anasalado.
Silêncio foi tudo o que tivemos pelos próximos cinco minutos, até que ele se sentou de pernas cruzadas e mãos apoiadas nos joelhos.
- Acho que nosso jantar está pronto. - sorriu e correu para pegar uma tigelinha em sua grande mochila; eu tinha uma também. Peguei a minha e não conversamos mais nada até a manhã seguinte.
Quando terminamos a refeição cada um foi para sua barraca com a fogueira ainda queimando, mas prestes a se apagar. O ouvi murmurar algumas coisas bem estranhas que me deixaram com um pé atrás.
Pelo parte mais fina do tecido da barraca, o vi com os pés para fora murmurando alguma coisa.
"Me deixa em paz, sai daqui. Sai!".
Continuei o olhando por cima do ombro. Pensei em como o dia chegou ao fim e não havia chovido... Decidi dormir.
Aliás, na manhã seguinte acordei muito mal. A luz que transpassava a barraca estava prestes a me deixar cego; apertei os cobertores contra meu corpo como se isso resolvesse algo e tentei dormir, mas era impossível. Dor era tudo o que eu sentia. Aquele aperto em meu peito voltou com mais força, como se algo dentro de mim quisesse sair. Que inferno.
Ao pôr os pés para fora tive que correr para vomitar. Me ajoelhei atrás de uma árvore e pus tudo para fora, dando forte puxadas de ar em intervalos de segundos, pois eu ficava sem fôlego. Passei o dorso da mão esquerda sobre os lábios e usei a direita para me apoiar em algo.
- Você está bem? - com um coque bem preso e o rosto a mostra, meio ofegante por uma caminhada talvez, Suguru saiu sei lá de onde e correu até mim, parecendo verdadeiramente preocupado.
- Eu… Eu não estou. - me desequilibrei e ele me segurou. Aqueles olhos rápidos me analisando como sempre.
- Estamos há menos de cinquenta quilômetros de V, será que você aguenta até lá? - permaneci de olhos fechados e senti seus braços me rodeando, logo me levantando em seu colo. Minha cabeça e braços caídos como se eu fosse um moribundo.
- Se eu tiver que morrer será a qualquer momento.
- Você não vai morrer.
Ele me colocou em sua barraca e me cobriu com os seus e os meus cobertores, me embrulhando como um recém nascido. A situação era ridícula, mas agradável. Consegui dormir. Não faço ideia de quanto tempo se passou, mas tirei um cochilo rápido. Acordei encalorado e logo joguei todos aqueles cobertores. Tirei meu casaco e moletom tendo apenas um pensamento: sair de lá.
Eu não sentia minhas pernas e meu corpo estava pesado. Comecei a rastejar para fora da barraca cravando as unhas com o resto de força existente. Parei e respirei fundo. Tive um flashback no exato momento.
Para continuar apoiei os cotovelos e me impulsionei para cima e segui em frente, mas no exato momento ouvi passos se aproximando e um terror em mim crescia cada vez mais, pois eu sabia quem era mas de algum modo não me sentia seguro.
- Fica calmo, Satoru.
- Estou calmo. - me esforcei para virar de barriga para cima.
- Não parece, tremendo desse jeito. - dobrou um cobertor e o colocou no chão para se sentar, de pernas abertas com um cotovelo em cada joelho.
Olhei em volta. O azul claro do dia escurecia e o vento se alastrava com força, jogando as folhas das árvores para todos os lados e fazendo nossas roupas e cabelo esvoaçarem. Agora choveria de verdade.
- Irei voltar. - nossos olhares se encontraram.
- Não! - se pôs em pé num pulo rápido. Suas mãos se moviam pelos seus braços anunciando que ele não sabia o que fazer; estava com vergonha. Eu estava muito tonto.
- Tem algo de errado comigo desde que cheguei aqui. - suspirei com dificuldade, pois meu peito doía. Tossi duas vezes e senti uma pontada de dor na parte de trás da cabeça. Suguru me olhava de cima a baixo.
- O que foi...? - murmurou.
Suguru coçou o nariz e socou as mãos nos bolsos da calça, mas não permaneceu assim por muito tempo. Começou a andar de um lado para o outro com evidente preocupação. Talvez se eu estivesse melhor, até perguntaria o que houve.
Ele parou e abaixou a cabeça, levando as mãos às orelhas e esboçando uma expressão contorcida.
- Eu não quero fazer isso… - murmurou. Aquilo foi muito estranho. Mais uma vez falando sozinho como se houvesse alguém do seu lado. - D-deixa ele passar, porra. - mordeu os lábios. E assim mais dias de longas caminhadas passaram.
Eu acordava e logo ia andar pelos arredores até Suguru acordar. Nos abastecemos de comida no dia em que nos conhecemos e até então a racionalização funcionou bem.
Aliás, tudo ia bem tirando o fato de que eu continuava me sentindo estranho, dessa vez o formigamento era nas pernas e meu corpo se paralisava do pescoço para baixo durante a noite. Eu me sentia inapto, preso. Não queria chamar o moreno até porque não adiantaria nada.
E por falar nele... Ele continuava falando sozinho e num dia desses eu o vi batendo em si mesmo até sair um pouco de sangue. Ele percebeu que era observado.
Voltando da caminhada, o meu companheiro de trilha não estava lá. Comecei a desmontar a barraca e ele apareceu por entre as árvores, sem casaco, somente com uma camiseta manga curta. Estava bem frio naquele momento.
- A gente tá chegando em C. - sorriu sem mostrar os dentes. - Vamos pro lago! Tem um aqui bem pertinho, ali atrás. - suspirei e acabei aceitando. Eu precisava começar o dia bem, então o segui.
- A água tá gelada.
- Que nada, fresquinho. - rimos e eu tossi. Tossi mais duas vezes e senti uma pontada de dor na parte de trás da cabeça. Suguru me olhava de cima a baixo.
- O que foi...? - murmurou.
Eu não conseguia responder porque minha tosse, muito seca e arranhando, não deixava. Ele se aproximou. Aquela sensação estranha de formigamento começou e eu tentei sair do lago, me apoiando em algumas pedras e tentando me comunicar com o outro homem através de olhares.
Senti as mãos dele em volta do meu pescoço. Ele exalava um cheiro terrível de gasolina e cigarros baratos, seus dedos começaram a me esmagar e meus olhos reviravam sem que eu o fizesse; mais nenhum som que eu tentava proferir fazia sentido.
Meu sangue parecia borbulhar, queimando minha pele de dentro para fora. Tudo o que eu sentia era dor, desconforto e agonia com aquela tosse maldita que não passava. Cabeça quase explodindo, pernas e braços aos poucos ficando sem movimentos.
Meus braços pareciam muito pesados para que eu os levantasse. Na minha cabeça a dor de um machado que me atingia e depois atingia de novo, batendo sempre no mesmo local tornando tudo ainda pior.
Subiu as mãos do meu pescoço e abriu a minha boca. Toda minha garganta ardia e eu chorava desesperado. Os olhos dele ficaram amarelos parecendo gemas de ovos e sua pele começou a descascar, caindo sobre mim. Asqueroso, áspero. Nojento.
Os dentes apodreciam em tempo real e sangue encrostado como o lodo grosso que fica preso em nossas botas quando andamos num pântano,começava a sair de todos os lugares possíveis. Não era líquido, mas sim empelotado e grudava nas minhas roupas e na minha pele.
Aquilo não era o Suguru que eu conheci, era um monstro que eu havia visto somente nos filmes de terror mais grotescos da TV à cabo.
A aura era tão pesada e assustadora que eu logo percebi que era aquilo que estava me fazendo ficar daquele jeito durante todos aqueles dias. Sugando minha energia e fortalecendo o demônio dentro dele de alguma forma.
Só podia ser isso.
Até que eu desisti. Parei de chorar e senti meu corpo esquentar por dentro, meu pensamento embaralhar, meu corpo ser solto, mas ao mesmo tempo ser agarrado por mãos invisíveis de unhas pontiagudas perfurando meus órgãos.
Porém… meus sentimentos se renovaram para o que eram antes. Antes da floresta, antes de Suguru e do monstro. Sem desespero, sem tosse, sem aperto no peito... Eu me sentia iluminado pra caralho. Havia uma luz ali e eu ia em direção a ela.
O rapaz afundou na água e algo me disse para não tentar salvá-lo, eu não queria nem tentar para ser sincero. O corpo estava acabado como se estivesse em decomposição há semanas; a água em volta de nós adquiria um vermelho feio e já tremulava assim como meus dedos e meus dentes.
De costas e com os cotovelos enfiados na grama da borda do rio, forçando meus braços para trás, consegui um impulso para sair e acabei conseguindo. Ainda no chão eu ainda sentia coisas, mas não eram ruins. Levantei como se soubesse o que fazia e segui mata a dentro um pouco cambaleante para buscar minha mochila; ás vezes tropeçava e me segurava nos galhos mais próximos apertando firme.
Pela primeira vez em tantos dias eu tinha algo concreto para fazer. Talvez esse fosse o meu destino.
Muita coisa aconteceu e tem algo dentro de mim, eu sei, tem um ser. Eu sinto ele sussurrar maldições e delegar tarefas agora ao pé dos meus ouvidos enquanto continuo a andar pela mesma trilha que fiz com o agora falecido companheiro vendo e revendo todos os detalhes mais uma vez.
Agora estou voltando todo o caminho, pois agora tenho um único motivo para continuar caminhando.
Ser o Diabo na trilha.
