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Tudo aquilo aconteceu rápido demais para que Vash pudesse reagir. Ou não, isso é uma desculpa esfarrapada. Ele sabia do casamento há alguns meses, na verdade. Meryl avisou diversas vezes ao longo do último trimestre e ele definitivamente teve várias oportunidades de inventar alguma desculpa para se safar, mas ela estava tão feliz (e era tão assustadora quando contrariada) que ele não teve coragem de declinar o convite (leia-se “convocação”) para o casamento do seu pai com a mulher com quem tinha começado a sair dois anos atrás, dando uma nova chance ao amor após a perda da primeira esposa.
Então sim, Vash poderia ter impedido a atual situação de estar meio bêbado sentado num canto da festa, numa tentativa preguiçosa de se camuflar entre as flores abundantes do vaso posicionado ao lado. Ele já tinha passado da conta com a bebida (ainda mais quando tinha prometido a si mesmo que não beberia nada e iria embora cedo) e estava ficando definitivamente mais tempo do que tinha planejado. É que era meio hipnotizante, ele não podia mentir. Havia gente demais para o pátio de tamanho mediano, mas de alguma forma as mesas atoladas de comida e o trânsito incessante da festa cabiam perfeitamente. A comida era certamente uma delícia, melhor do que ele tinha provado em qualquer momento dos últimos anos (exceto quando visitando aquela mesma casa) e a música mergulhava o espaço em algo que parecia outra dimensão. Mas o que fazia com que ele não conseguisse tomar a iniciativa de levantar e ir embora, mesmo agora que já não era mais tão grosseiro fazê-lo, era a atmosfera gerada pelas próprias pessoas.
Vash não conseguia acreditar que aquela multidão era toda de parentes , ou o conceito frouxo de parente que se aplicava àquela família. Conceito esse que abria espaço para uma longa fila de agregados e amigos e parentes desses agregados. Era surpreendente para alguém que tinha crescido com apenas a mãe e um irmão. Ele geralmente não se permitia pensar muito nisso porque essas duas pessoas foram companhia mais do que suficiente, e em seu pequeno mundinho nunca tinha faltado afeto e apoio. Não era ingrato. Mas toda vez que Meryl o convidava para um almoço ou jantar e por um milagre ele aceitava, não podia evitar imaginar como teria sido a sensação de crescer em uma rua que era basicamente uma grande casa. Um grande lar. Sempre havia pelo menos dez pessoas a mais do que havia sido previsto, música alta demais e comida suficiente para que todos sentissem que iam explodir e Vash levasse embora com ele uma marmita generosa.
Não havia um motivo plausível para que Vash recusasse os convites, ao menos na visão de Meryl. Ela sempre insistia até deixar ele completamente maluco. É que ele não conseguia assimilar que pudesse fazer parte daquilo de forma genuína. Era só surreal demais que aquele conceito de família pudesse incluí-lo também. E, ok, havia mais um motivo. Mas esse não tinha surgido até o segundo almoço ao qual ele compareceu, quando foi apresentado ao futuro irmão de Meryl.
Porque, arriscando soar piegas, ele era um pedaço de mau caminho.
Pelo amor de Deus.
Ele era definitivamente uma armadilha para jovens garotos impressionáveis (“Vash, você tem 27 anos”, diria Meryl). Obviamente Meryl tinha lido sem dificuldades tudo que passou pela cabeça do melhor amigo quando apresentou os dois. Na verdade, Vash tinha quase certeza, aquilo foi proposital. O sorriso brincalhão de Meryl oferecido a ele por cima do ombro enquanto puxava o irmão para a cozinha com o pretexto de ajudá-la a denunciava.
Nicholas (Nico) D. Wolfwood era uns dois centímetros mais alto que Vash, sua pele era marrom clara e seus olhos escuros como carvão, emoldurados por dois leques grossos de cílios da mesma cor. Ele tinha costeletas (costeletas, no século XXI) e… uma quantidade considerável de pelos nos braços. Vash gaguejou ao se apresentar, e sua nuca arrepiou quando Nico puxou a mão que ele estendeu para apertar e beijou sua bochecha. Tudo bem, não era nada demais. Todo mundo tinha beijado sua bochecha, mas nenhum dos outros membros da família de Meryl, a nova ou a antiga, tinha aquele mesmo perfume misturado com cheiro de cigarro nem os mesmos olhos deliciosos nem o mesmo sorriso que parecia prestes a se abrir e cravar em seu peito, arrancando metade do seu coração.
Ninguém piscava para ele do lado oposto da sala quando ele aparecia nos almoços de família, arrastado por Meryl, nem chegava aos eventos em uma moto gigantesca nem ficava tão bem de óculos escuros.
E talvez seja pela total incapacidade de Vash de funcionar adequadamente com essa pessoa nos arredores que ele tenha escolhido aceitar a menor quantidade possível de convites. O que era agora uma causa perdida, com Nicholas Wolfwood parado frente a ele no casamento da sua mãe adotiva, terno preto e camisa branca de botão aberta o suficiente para que Vash fosse capaz de ver uns poucos centímetros de pele do peito, mão estendida em um convite claro. O sorriso em seu rosto não era muito discreto e seus olhos brilhavam como nunca, refletindo as luzes instaladas no jardim para a ocasião. Vash engoliu em seco.
- Ah, não. Por favor, tá tudo bem. Tô de boa aqui. - ele tropeçou na própria cadeira com a tentativa desesperada de se levantar, de fugir, de sair correndo e não parar até estar em seu apartamento minúsculo do outro lado da cidade. - Eu já estava indo embora. Só vou avisar Meryl e mandar um beijo para sua mãe e…
- Espero que não antes de dançar a próxima música comigo. - se Vash esticasse o pescoço por cima do ombro esquerdo de Nicholas poderia ver o grupo de homens munido de instrumentos no pequeno palco montado para a festa. Um amigo do primo da noiva tinha um grupo mariachi, que prontamente aceitou cuidar da trilha sonora do casamento com a oferta de comer e beber tudo que aguentassem em troca. Quando o pedaço de mau caminho se aproximou da mesa onde Vash estava eles estavam numa breve pausa para se hidratar, mas, como por um feitiço, assim que ele fez o convite a banda terminou de acomodar os instrumentos novamente para retomar a música.
A trombeta soou e uma senhora que passava por ali, claramente tendo bebido muito mais do que era prudente, piscou para Vash e gesticulou “Se eu fosse você, aceitava” com a boca. Seu olhar passou da senhora para Nicholas, que ainda aguardava uma resposta. Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo loiro.
- Claro. Por que não?
Logo havia uma mão firme pousada em suas costas. Era um pouco perto demais para sua sanidade. O calor da palma em sua cintura, o perfume em seu nariz e o álcool em suas veias eram uma péssima combinação. Nico rodopiou Vash e enquanto o mundo fazia um arco completo ele captou um vislumbre de Meryl dançando com uma moça alta na multidão de casais.
Se me acaba el argumento
Y la metodología
Cada vez que se aparece
Frente a mí tu anatomía
Ele não se considerava uma pessoa romântica (Meryl discordaria, apesar do longo histórico de péssimas escolhas de Vash), mas era difícil impedir a mente de sair um pouco de controle sendo conduzido pelo jardim por Nicholas Wolfwood em uma sincronia perfeita, natural. Cada movimento fluido era um passo mais longe do equilíbrio mental delicado que Vash mantinha perto daquele homem.
Porque este amor ya no entiende
De consejos, ni razones
Se alimenta de pretextos
Y le faltan pantalones
Uma música virou duas e logo já vinham dançando há meia hora. O cansaço e o tédio que Vash estava sentindo antes evaporou sem que ele percebesse, e tudo que havia em seu campo de visão eram aqueles olhos escuros que mandavam embora qualquer pensamento coerente que quisesse formar. Algumas danças depois o espaço entre eles era quase inexistente, e sua respiração mais pesada.
Por ti, me he convertido
En una cosa que no hace
Otra cosa más que amarte
Pienso en ti día y noche
Y no sé cómo olvidarte
Quando Vash foi embora da festa, os primeiros raios de sol dando as caras por cima do telhado, ele tinha certeza de que nunca mais falaria com Nico na vida. Era simplesmente o tipo de homem com quem você não poderia esperar mais que uma ou duas noites. Mas ele estava presente no aniversário de Meryl, duas semanas depois, e logo seu número estava salvo no celular de Vash e em menos de uma semana ele estava na garupa da famosa moto, braços presos com força ao redor de uma cintura firme, rindo com a sensação do vento no rosto. Dois anos depois, o casamento era o deles.
