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Era quase meia noite, o horário de ir dormir já tinha passado há algum tempo. Mas Ena estava mais desperta do que nunca esteve antes.
O vento forte do terraço bagunçava seus cabelos curtos e seu vestido do uniforme. De alguma forma ela havia conseguido chegar até ali, era o mais alto que ela conseguiria. Estava satisfeita.
Da borda, ela podia ver todas as luzes de cima. O centro não estava totalmente vazio, mas havia poucas pessoas transitando naquele momento, a maioria provavelmente em bares ou boates, prestes a começar a noite. Ena não tinha interesse em nada disso. Não hoje.
Sua apreciação à vista maravilhosa e neon da cidade abaixo foi interrompida pelo som de passos rápidos e leves subindo a escada atrás de si. Ela não precisa se preocupar com quem era.
— Ena! Uau… que lugar incrível! — a voz de Mizuki era empolgada e surpresa. Ena quase conseguiu ouvir um leve tom de medo nela. — É muito alto. Nossa, estou arrepiada.
— É lindo, não é?
— Muito. Olha aquele telão. — apontou para a grande tela de led que continuava acesa, iluminando boa parte daquela região. Elas sempre a viam, mas ela nunca pareceu tão próxima assim. — Dá a impressão que eu consigo tocar ele.
Mizuki riu. Uma risada que reverberou no ar frio da noite escura. Ena olhou para ela, passando pelos seus cabelos esvoaçantes e os olhos róseos, e demorando um pouco mais no sorriso que exibia. Aquele sorriso lhe trazia um sentimento que não mais era capaz de definir. Mizuki inteira era algum tipo de porto seguro.
Ena estava feliz.
Não por estar ali, e sim por estar com ela. Até acordar cedo de manhã poderia a fazer feliz se Mizuki estivesse ao seu lado.
Conferiu a data no celular: 29 de abril, 23:47.
Apenas alguns minutos. Ela poderia passar uma eternidade ali, conversando algo sobre a escola, ou refletindo sobre a vida. Deus, ela e Mizuki poderiam fazer tantas coisas apenas naquele terraço, poderiam ser tantas coisas enquanto existissem apenas as luzes led dos telões e o silêncio da madrugada.
Ela se sentou no chão, um pouco antes da divisão que a impedia de acidentalmente cair lá de cima. Mizuki a acompanhou, um pouco aliviada. Podia amar a vista, mas não queria lembrar que estava a mais metros do chão do que poderia imaginar.
Algum tempo se passou, elas conseguiram ouvir o som distante de alguma música ao vivo quando o vento soprava muito forte, e até se animaram visivelmente quando viram um avião passando no céu.
Mas então a quietude caiu sobre elas novamente. Ena se sentia ansiosa, mas não sabia o que fazer. Ela não tinha plano algum quando chamou Mizuki para lhe fazer companhia, mas agora estava com medo de que o tédio fosse demais.
Ela estava prestes a sugerir algum assunto quando ouviu a voz baixa:
— Ena… eu tenho algo para você. — parecia tímida e acanhada, diferente da Mizuki habitual. Ela tirou algo da bolsa que carregava nas costas, parecia um caderninho com poucas e grossas folhas. — Eu ia dar quando fosse meia noite, mas… quero que veja logo.
Ela entregou o caderno e Ena viu que na capa rosa claro havia uma foto colada. Uma selfie das duas, onde Ena estava com um olho fechado e um sorriso, e Mizuki logo atrás com o queixo apoiado em seu ombro e fazendo um dois com os dedos. Embaixo da foto tinha um escrito também colado, que dizia: “Para alguém especial.”
Ena se sentiu completamente aquecida, ela normalmente não era boa em demonstrar sentimentos, mas podia imaginar que Mizuki sabia o que guardava dentro dela apenas em olhar para si. Talvez seus batimentos cardíacos fortes pudessem chegar a seus ouvidos pelo vento com facilidade.
A cada página que passava, conseguia ver mais colagens das duas, e por mais que parecesse impossível, a emoção dentro de si aumentava cada vez mais. A cada coração que Mizuki havia colocado em suas fotos juntas, a cada declaração que tinha colocado ao lado delas. Ena não sabia se sentia vontade de rir ou de chorar quando leu a frase que estava colada na última folha do caderno, na caligrafia perfeita de Mizuki.
“Em um mundo em que todas as batatas fritas forem substituídas por cogumelos, eu poderia comer todos eles e sentir o melhor sabor do mundo, desde que você estivesse comigo.”
Ela riu, um sorriso trêmulo, olhos marejados. Sorriu enquanto fechava o caderno, olhando para Mizuki. Ela parecia meio apreensiva, mesmo estando visivelmente claro que Ena tinha mais do que amado o presente.
— Olha… essa frase do final, eu queria fazer algo mais bonito mas… você sabe, a Mafuyu que é boa com esse lance de palavras e…
Ela foi interrompida por um grande abraço que a surpreendeu. Ena havia se jogado por cima de si e lhe apertava tão forte quanto podia, como se não quisesse deixar algo tão precioso como Mizuki escapar agora que a tinha.
— Eu amei, Mizuki. Não poderia ter ganhado nada mais bonito do que isso. Foi o melhor presente de aniversário que já ganhei.
Com os olhos arregalados, Mizuki a apertou de volta, enfiando o rosto na curva de seu ombro. Mizuki encontrou refúgio ali, assim como Ena.
A vibração incessante do celular de Ena quebrou o momento das duas, e ela foi conferir. Quando abriu o celular viu a data:
30 de abril, 00:00.
Seu aniversário. Ela foi bombardeada de vários comentários de seguidores em suas redes sociais e ficou atordoada com isso. Já estava se acostumando a um mundo onde só existia ela e Mizuki, naquele terraço, falando sobre presentes. Ela não queria responder a nenhum comentário e felicitação, ela só queria pensar em Mizuki.
— Ena? — a voz, incrivelmente mais tímida do que da outra vez, se fez ouvir novamente. — Eu quero te dar outro presente…
Mizuki não esperou Ena falar nada, apenas sua expressão de dúvida foi o suficiente. Precisava agir antes de perder a coragem e assim o fez.
Seus lábios encostados eram a única coisa que Ena podia sentir. Foi apenas um selinho, sem malícia, sem segundas intenções, apenas carregado de carinho e afeição. O bastante para que Ena perdesse todos os seus sentidos. Ela não conseguia ver e nem ouvir, apenas sentir a boca macia de Mizuki, como sempre fantasiou, e seu coração batendo no peito como se fosse pular para fora. Uma sensação de plenitude que nunca sentira antes se instalou em si repentinamente.
Quando se afastaram, não precisaram dizer mais nada. Elas se entendiam sem as palavras e suas expressões afáveis demonstravam que estava tudo bem. Estava tudo mais do que bem.
Ficaram ali, em um silêncio confortável pelo tempo que foi preciso. Os dedos entrelaçados, deitadas em um terraço, olhando as estrelas.
Era tudo aquilo que precisavam.
___
Seu celular toca repetitivamente em sua bolsa, e ela se sente tentada a ignorar. Apenas quando a insistência se torna irritante que ela não vê escolha a não ser atender.
— Onde você está? Sua aula já acabou faz horas.
A voz do irmão torna tudo mais irritante, se não estivesse com tanto bom humor, com certeza socaria ele quando chegasse em casa.
— Estou ocupada agora. Dá pra parar de encher o saco?
— Não. Venha para casa, rápido, papai está furioso com você.
— Que droga! Tá bom, estou indo.
Relutantemente, deixaram o prédio abandonado que Ena havia achado para esse encontro. Mizuki se ofereceu para acompanhá-la até em casa e ela aceitou, querendo ficar com ela o maior tempo que pudesse. Talvez a convidasse para dormir em sua casa.
Foi uma caminhada gostosa, silenciosa e risonha. Era muito bom andar com Mizuki de mãos dadas assim, sem ter que esconder o que sentia de ninguém. Ela estava grata por isso. E estava grata por Mizuki ter feito o que fez, não sabia se teria coragem.
Assim que abriu a porta de casa, acendeu a luz e, como se a noite não estivesse cheia de surpresas o suficiente, escutou o barulho do lança confetes e viu, todos os seus amigos e parentes reunidos ali, com chapeuzinhos de aniversário na cabeça.
— Feliz aniversário!
Gritaram em uníssono, até Kanade e Mafuyu estavam ali, parecendo alegres.
Ela olhou pra Mizuki e percebeu que ela não parecia nenhum pouco espantada. E percebeu tudo.
— Você sabia disso?
Mizuki apenas deu um sorrisinho travesso e riu.
Apesar da surpresa e do espanto, Ena realmente sentiu como se esse fosse o melhor dia de sua vida. Ela não sabia o que tinha feito de tão bom para merecer algo como aquilo, ela só sabia que estava tão grata que não seria capaz de expressar.
— Feliz dezesseis anos, maninha! — gritou Akito, simpático como nunca antes, soprando algum brinquedo qualquer em seu rosto.
— Feliz dezesseis anos, Ena. — Mizuki sussurrou em seu ouvido, enquanto ela ia falar com todas as pessoas e receber todas as felicitações.
E, na hora dos parabéns, quando foi soprar as velas de seu bolo de aniversário, ela desejou que todos os outros dias fossem como esse.
Se o resto de seus dias fossem agraciados com esse mesmo sentimento de extrema alegria, e com a companhia de pessoas que ela jamais queria se ver longe algum dia…
Ela pensou, talvez eu possa realmente saber o que é a verdadeira e constante felicidade.
